O homem que respondia por Nolan virou-se para encarar a morena e, ela pôde ver, sua expressão era uma mistura de surpresa e de satisfação.
- Tiffany? – Os olhos azuis dele brilharam enquanto ele proferia o nome dela.
Tiffany sentiu seus olhos encherem-se de água, e naquele momento ela decidiu que não deixaria uma lágrima sequer escapar. Não por ele. Ela engoliu em seco e mordeu a bochecha, contendo a mágoa que preencheu seu peito. Fechou os olhos e concentrou-se em manter a voz razoável:
- O que você está fazendo aqui, Nolan? – perguntou e surpreendeu-se por ter conseguido dizer tudo sem que sua voz falhasse.
- Estou no país há algumas semanas e cheguei a Londres ontem, então pensei em fazer uma visita.
- Por quê? – Tiffany perguntou, a voz inflamada pela raiva e pela mágoa que sentia.
Os olhos de Nolan foram do rosto dela para um ponto acima e além de seu ombro. Herod estava logo atrás dela e ela sabia disso, mas não se importava agora.
- Acho que eu não deveria ter vindo – Nolan disse, levemente decepcionado.
- O que esperava, uma recepção calorosa? – a morena desdenhou, agora tomada por uma segurança que ela não sabia de onde tirara.
- Tiffany, eu... – Herod começou, coçando a cabeça, evidentemente desconfortável com a situação. – Eu acho melhor eu ir embora.
- Não, não vá. – Tiffany virou-se para ele. – Você não precisa ir.
- Eu realmente preciso – ele disse em voz baixa, de modo que só ela ouvisse. Ele ergueu o olhar e percebeu que Nolan ainda estava parado, encarando-os com um ar desconfiado. – Temos que pegar as crianças na escola, certo? E eu ainda tenho que deixar as malas em casa e tomar um bom banho. – Ele sorriu. – Nos vemos depois. Fica bem.
Então ele curvou-se para lhe beijar a testa. Sabendo disso, Tiffany ergueu a cabeça, de modo que seus lábios roçassem os do loiro. Ele a fitou alarmado ao se afastar.
- Não se desculpe. Foi proposital – ela sussurrou. – Eu explico depois.
- Tudo bem – Herod assentiu antes de entrar no carro e este disparar rua afora.
Tiffany observou a rua vazia por alguns segundos antes de finalmente virar-se para Nolan.
- Vamos entrar – disse friamente e puxou uma das malas que estavam de pé alguns passos atrás de si.
- Eu levo a outra – Nolan ofereceu-se, já se encaminhando para a outra mala que restara.
Tiffany nada disse, apenas seguiu para casa.
- Quando Cissa disse que você estava viajando, pensei que não fosse chegar hoje – o rapaz disse, enquanto atravessavam os jardins.
- Eu tenho dois filhos que precisam de mim e outras tantas responsabilidades que não são mais de sua conta.
- Filhos? – Nolan fez, surpreso.
- Surpreso? – ela deu um sorriso falso. – Acho que em oito anos bastante coisa pode mudar, não é?
Então abriu a porta e eles entraram.
- Ah, Tif, querida! – Narcisa atravessou o corredor para recebê-la. – Como foi a viagem?
- Maravilhosa, Cissa. – Tiffany abraçou a madrasta calorosamente. – Maravilhosa – acrescentou, sorrindo.
- Eu imagino. – A loira sorriu. – Vejo que já encontrou Nolan.
- Oh, sim – Tiffany assentiu com azedume. – Você poderia pedir para levarem minhas malas lá para cima, Cissa?
- É claro, meu bem – e Narcisa saiu, acenando brevemente para o moreno atrás da enteada.
- Muito bem, você conhece a casa. – Tiffany virou-se para ele. – Vamos ao escritório. É por aqui.
Nolan a acompanhou. Ela abriu a porta e deixou que ele entrasse primeiro, antes de ela própria entrar e fechar a porta.
- E então, o que você veio fazer aqui?
- Vim ver você – ele respondeu, como se fosse óbvia a resposta.
- Ah, veio me ver? – Tiffany repetiu a pergunta com escárnio e riu de um modo cruel. – Ora, vamos, Nolan! Você esperou oito anos para vir aqui com essa cara mais limpa, como se nada tivesse acontecido, e dizer que ‘veio me ver’?
- Acho que eu não deveria ter vindo – ele repetiu o que dissera minutos atrás, ainda do lado de fora.
- Pena que você percebeu tarde demais.
- Mae, desculpe. Eu...
- Me chame de Tiffany – ela interrompeu-o. – Eu preferiria que me chamasse de Haase, mas Tiffany está bom.
- Eu sempre te chamei de Mae – ele replicou.
- Eu não quero que chame mais. Me chamar de Mae ou de Maeve, como você costumava fazer, não vai fazer o tempo voltar atrás.
Tiffany sabia que uma das maiores marcas de sua nacionalidade irlandesa era o seu nome do meio e orgulhava-se por carregar o nome de uma das maiores deusas e rainhas da mitologia irlandesa. Todos sempre a chamaram de Mae ou de Maeve, mas deixaram o hábito de lado oito anos antes.
Nolan, como ela, era irlandês e tinha um dos nomes mais bonitos que ela conhecera: Nolan Kieran Cast, que literalmente significava Nobre Misterioso. Sua irmã, Caridwen, fora uma grande amiga de sua infância, mesmo sendo três anos mais velha que ela.
- Eu não entendo por que fala tanto no passado – Nolan disse.
- É claro. Quando você se mandou para os Estados Unidos, você não sabia. Para você foi muito fácil – Tiffany retrucou. – Eu tive que superar tudo dia após dia, e ainda hoje convivo com a herança que me deixou. Se hoje sou essa pessoa amarga, Nolan, a culpa é sua.
Nolan engoliu em seco. Não fazia idéia do que ela estava falando.
- Caridwen não te contou, não é? – Tiffany perguntou. – Melhor assim.
- Você pode, por favor, me dizer do que está falando?
- Não. Eu não vou dizer. Você não faz mais parte de minha vida. Eu não quero que você faça. Crescemos juntos, te conheço desde que me entendo por gente, e você destruiu tudo isso, justamente quando mais precisei de você – ela derramou suas mágoas, embora as lágrimas ainda estivessem bem contidas. Ela sabia que ele estava com ela quando sua mãe morreu, que fora ele quem a apoiara; ele e Caridwen, mas sempre haveria aqueles meses turbulentos que vivera oito anos antes. – Por favor, Nolan, vá embora. Esqueça desse encontro e volte para sua vida. É o que eu vou fazer.
- Tiffany...
- Vá, Nolan – ela disse, e as palavras soaram ainda mais firmes, frias e fortes do que anteriormente.
O moreno a encarou por um instante, mas ela já não o fitava mais. Sentia a força que a dominara esvair-se lentamente enquanto o silêncio e os segundos se arrastavam. Ela ouviu a porta fechar-se quando Nolan saiu. Esperou mais alguns segundos até ouvir a porta da frente fechar-se também para poder desabar.
Caiu sentada na poltrona preta de couro de seu pai e esfregou os olhos com força. Suspirou. Estava feito.
Saiu do escritório e encontrou Narcisa no corredor, o cenho franzido de preocupação. A madrasta se aproximou dela e a abraçou, afagando seus cabelos. Tiffany retribuiu o abraço e sentiu os olhos arderem.
- Minha criança... – Narcisa sussurrou em seu ouvido como qualquer mãe faria. – Suba, tome um bom banho e descanse, querida – disse, afastando Tiffany o suficiente para fitar seu rosto. Os olhos dela estavam inchados, vermelhos e cheios de água, mas ela não chorava. – Vá. Deixe que eu busque as crianças hoje na escola.
- Obrigada, Cissa – Tiffany ensaiou um sorriso.
Narcisa correspondeu ao sorriso e acenou brevemente. Antes de subir, Tiffany beijou uma de suas bochechas.
Ao chegar a seu quarto, já não tinha mais forças para segurar as lágrimas. Estava abalada demais com a visita inesperada de Nolan. Como sempre fazia quando criança, ela sentou-se no chão, ao pé da cama e chorou até que não lhe restassem mais lágrimas para chorar.
Fitou-se no espelho por um momento. Ela odiava se sentir fraca, mas naquele momento, sentia que fora até forte demais.
Decidida, limpou as lágrimas que ainda estavam rolando em sua face e enxugou os olhos. Ajoelhou-se no chão e procurou pelo seu celular sobre a cama e dentro da bolsa. Discou tão rápido quanto achava possível.
- Herod? Tudo bem se sairmos hoje para jantar ou algo assim?
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Ela estava deitada no sofá. Voltara para casa mais cedo que o de costume, antes mesmo das 18h. Ainda sentia muita dor de cabeça, embora a dor fosse e voltasse a todo o momento. Num instante estava bem, no outro estava se sentindo muito mal – e ela detestava esses altos e baixos.
Ela tomara mais um banho frio aquele dia e vestira uma de suas calças flaneladas e uma camiseta estilo nadador, figurino cada vez mais parte de sua rotina enquanto estava em casa. Agora tinha uma bolsa comprida de água congelada enrolada numa toalha fina sobre suas têmporas e uma toalha encharcada de álcool em sua nuca.
Estava sonolenta, exausta. Não conseguia dormir muito bem desde que Chloe fora para o Centro de Treinamento. Seu sono era interrompido várias vezes durante a noite, muitas delas para beber água ou para ir ao banheiro. Mais comumente, acordava para simplesmente ficar encarando o teto até que o sono voltasse.
Estava deitada por simplesmente não conseguir manter-se sequer sentada. Estava se sentindo fraca. Suava frio e sentia horrendas tonturas cada vez que tentava se levantar. Bem, não era por menos. Ela não comia nada consistente desde o almoço, quando insistira em comer algo antes de ir trabalhar e, mesmo não comendo muito, tivera que lutar para manter a comida em seu organismo. Passara o restante do dia ‘sobrevivendo’ à base de iogurtes, frutas e quantidades pequenas de suco de meia em meia hora.
Ela estava quase adormecendo quando a campainha tocou. Seus olhos abriram e automaticamente rolaram para a janela atrás da mesa de jantar. Que horas seria? Estava escuro, então supôs que já devia ter anoitecido.
Concentrou-se na mente de quem estava do lado de fora por um instante e foi o bastante para reconhecê-lo. Involuntariamente, um sorriso formou-se em seu rosto. Então, ainda com a força do pensamento, destrancou a porta e deixou que ela abrisse um pouco, somente para que ele entendesse que podia entrar.
- Hermione? – a voz dele preencheu o ar à sua volta. Houve um ruído que lhe informou que a porta fora fechada cuidadosamente, e então passos.
- Estou aqui – ela forçou-se a dizer.
- Deus! Você está bem? – Ele se agachou ao lado do sofá, evidentemente preocupado. Daisy já estava ali, abanando o rabo freneticamente e tentando a todo o custo chamar a atenção dele para si. A cadela então lhe deu uma boa lambida no rosto. – Daisy!
Hermione riu.
- Estou bem, sim – ela murmurou. – Só não estou cem por cento.
Ele sorriu, não muito convencido, mas também não iria discutir com ela. Afagou seu rosto, os dedos percorrendo delicada e carinhosamente suas sobrancelhas e o contorno do rosto.
- E então... Estou surpresa que esteja aqui. – Hermione disse, enquanto sentava-se no sofá, tirando a bolsa de água da cabeça e deixando-a sobre uma almofada em seu colo.
- É sempre bom fazer uma visita – ele disse. – E como você me disse que Chloe está em treinamento, imaginei que estivesse meio tristonha e precisando de companhia.
- Acertou em cheio! – Ela sorriu. – Ah, Chad... Fico feliz que tenha vindo!
Ela o abraçou com força e o loiro retribuiu o abraço.
- Onde estão Elloe e Shawn? Como estão Caroline e seus pais? – perguntou quando se afastaram e Chad ocupou o lugar vazio ao lado dela.
- Elloe e Shawn estão em casa. Vim direto do trabalho. Você sabe... eu estive na Escócia nos últimos dois dias. Cheguei hoje no início da tarde e fui direto para o Ministério. O horário de expediente acabou agora a pouco e eu resolvi passar aqui antes de ir para casa. Tinha de ver como você estava – o loiro disse. – Bem, quanto aos outros Hastings... Papai e Carol têm trabalhado muito nos últimos tempos, mas eles e mamãe estão bem. Eu te contei que mamãe está mesmo envolvida com essas coisas de decoração, não contei?
- Contou, sim. Qualquer dia desses, eu a chamo para redecorar o quarto de Chloe – Hermione brincou. – Ou quem sabe a casa inteira?
Chad sorriu.
- Acho que para você ela faria sem cobrar nada – comentou. – Já sabe quando Chloe volta para casa? – perguntou, mas não obteve uma resposta imediata. Diante da pergunta, o sorriso de Hermione se desfez e seus lábios se franziram, reduzindo-se a uma linha. O loiro não deixou isso passar despercebido. – Sem previsão ainda?
- Sem previsão ainda – Hermione repetiu. – Sinto tanto ela não estar aqui. Ela ia adorar te ver!
- Eu morro de saudades da minha pimentinha – Chad disse, e seu tom era verdadeiramente saudoso. – Ando mesmo sumido, não é?
- É, anda, sim. – Hermione murmurou em meio a um sorriso.
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- Obrigada por estar comigo – Tiffany agradeceu e estendeu a mão para tocar a de Herod. O loiro virou a mão de modo a apertar a mão dela com firmeza.
Eles estavam num restaurante e já tinham jantado.
- Não é nenhum sacrifício, me acredite – ele brincou, arrancando um sorriso de Tiffany. – É o que eu faria por uma irmã – disse, sério. – Ou por uma amiga.
- Deve ter feito muitas vezes por Pansy Parkinson, imagino.
- Muito mais do que você é capaz de imaginar – Herod murmurou, assentindo.
- Agora ganhou mais uma companhia problemática – Tiffany disse com azedume e apontou para si própria.
Herod afagou as costas da mão dela com delicadeza.
- Eu estou realmente preocupado com você.
Tiffany puxou a sua mão gentilmente e colocou-a sobre o colo.
- Não se preocupe comigo. Eu vou ficar bem.
- Tiffany, eu não sei o que esse cara fez com você... – Herod começou a dizer, mas não chegou a concluir a frase.
- Nolan e eu fomos namorados há alguns anos – Tiffany o interrompeu.
- Acho que isso estava subentendido – o loiro disse. – Mas ele deve ter feito algo que fez você sofrer. Eu vi como foi doloroso para você encontrá-lo. Dava para sentir a sua raiva e a sua mágoa de longe.
Tiffany estudou Herod por alguns instantes e concluiu que ele era confiável e, já que estava ali com ela, devia saber por quê.
- Nolan foi um grande amigo para mim. Éramos vizinhos e crescemos juntos. A irmã dele, Caridwen, era três anos mais velha que eu, mas ainda assim foi minha melhor amiga – Tiffany começou. – Quando minha mãe morreu, eu tinha apenas doze anos e foram eles que estavam lá para me confortar, me dar forças... E eles ficaram ao meu lado todo o tempo.
“Por conta do ofício, meu pai não sofreu tanto. Nos primeiros dias, claro, ele estava triste, calado e até trabalhando dobrado, mas pouco a pouco ele superou. Ele tinha que superar. Apoiávamos-nos e sabíamos que a vida tinha de continuar. Eu não chorava na frente dele porque sabia que isso fazia muito mal a ele, então era com Nolan e Caridwen que eu podia conversar, desabafar e chorar horas a fio. Eles eram meu porto seguro quando nem mesmo meu pai podia ser.
“Então os dias passaram, depois os meses e até os anos. Papai conheceu Cissa depois de um ano e nove meses viúvo. Ela estava no hospital e seu estado inspirava cuidados. Não sei exatamente o que aconteceu com ela, mas sei que foi alguma magia negra poderosíssima. Ela parecia não sentir mais vontade de viver. Passava a maior parte do tempo chorando, deitada naquela cama de hospital. Papai cuidava dela, tentava levantar um pouco a sua auto-estima... Eu acompanhava a história dela de longe. Papai vivia falando dela e de seu caso. Ela deixou o hospital dois meses após a sua entrada, mas o tratamento durou seis meses, então ela voltava periodicamente.
“Eu sempre torcera por ela, e vê-la recuperada, como eu gostaria que tivesse acontecido com mamãe, foi maravilhoso. Quando papai me contou que se apaixonara e que ia casar com ela, não me opus. Eu gostava dela e, de algum modo, sabia que o lugar de minha mãe jamais seria tomado e que ela não tinha intenção de fazê-lo.
“Um ano e meio mais tarde, Cissa descobriu-se grávida. Enquanto isso, com Caridwen longe – ela havia terminado a escola e fora morar em Dublin –, eu e Nolan nos aproximamos cada vez mais. Ele era minha companhia até mesmo na escola.
“Quando começamos a namorar, eu tinha dezesseis anos recém-completos. Foi durante o ano letivo, eu estava na metade do meu quinto ano, então papai só soube depois de quase cinco meses. Então, quando eu voltei para casa durante as férias, soube que viríamos morar em Londres. Não nos preocupamos muito porque ainda nos veríamos na escola e eu sempre poderia visitar Limerick, afinal, fora lá que eu nascera e lá morava o restante da minha família.”
- Quanto tempo vocês ficaram juntos? – Herod, que não interrompera uma vez sequer, perguntou.
- Teoricamente, ficamos juntos por três anos – Tiffany respondeu. – E foram anos maravilhosos. Nós tínhamos um relacionamento muito bom, diferenciado pelo fato de que éramos amigos antes de começarmos a namorar. Brigávamos pouco e meu pai até dizia que nós éramos mais como amigos do que como namorados. – Ela deu um sorriso triste com a lembrança.
- Nolan é mais velho que você?
- Sim, por exatos seis meses. Eu nasci dia 8 de janeiro de 1982 e ele nasceu dia 8 de julho de 1981.
- Então ele saiu da escola um ano antes de você.
- É, ficamos separados por dez meses, mas ele sempre me mandava cartas.
- E depois que você voltou para cá, como faziam para se verem?
- Ele também veio morar em Londres – ela explicou. – Eu tinha dezenove anos quando ele terminou comigo. Ele me disse que recebera a oportunidade de realizar um sonho que sempre tivera e que iria atrás desse sonho. Também disse que não gostaria que eu estivesse presa a ele quando ele não estaria aqui para ficar comigo. Então me contou que estava viajando no dia seguinte para os Estados Unidos. Iria fazer um teste para um time de basquete.
Uma pausa. Ela respirou fundo e bebeu um pouco de água antes de continuar.
- Nolan sempre foi alto e adorava basquete. Ele jogava sozinho no quintal da casa dele e raramente errava uma cesta – contou. – No primeiro momento, sem pensar muito, eu disse que iria com ele, mas ele insistiu que eu não deveria abrir mão de meus sonhos para seguir os dele, e então foi embora, somente desejando que eu fosse feliz.
Tiffany evitava o olhar de Herod a todo momento. Ela parecia concentrar-se em algum ponto da mesa, como se estivesse em transe, enquanto a história parecia sair livre e espontaneamente do fundo de sua alma e de suas lembranças. Herod, como bom ouvinte que sempre fora, ouvia atentamente.
- Eu fiquei em choque, incapaz de acreditar. No dia seguinte, quando cheguei do trabalho, encontrei uma carta e uma rosa vermelha sobre a cabeceira da minha cama. Foi quando percebi que ele já não estava mais ao meu lado, como sempre fora desde que me entendia por gente. Chorei horas a fio aquela noite. Meu namorado e melhor amigo havia me deixado – uma nova pausa. – Pode parecer egoísmo de minha parte, mas eu realmente sentia como se um pedaço de mim tivesse ido com ele.
Herod sentiu-se mal, mas não só por ela. Havia acontecido algo parecido comele no passado, só que ele fazia o papel de Nolan em sua história. Imaginou que Pansy talvez tenha se sentido como Tiffany acabara de descrever e, mesmo que não tivesse culpa ou poder de escolha quando ocorrera com ele, sentiu-se culpado.
- Eu estava quase superando a partida de Nolan quando descobri, algumas semanas mais tarde, que eu estava grávida.
- Grávida? – Herod fez, num misto de surpresa e susto. – Mas você...
- Eu perdi os bebês, Herod – Tiffany disse.
- Bebês... Eram... – O loiro tinha os olhos arregalados e hesitou em completar a frase, mas o fez mesmo assim. – Eram gêmeos?
- Bivitelinos – a morena respondeu, assentindo. – Eu sofri um aborto espontâneo na décima primeira semana de gestação – contou. – Quando soube que estava grávida, eu decidi ter o bebê e meu pai me apoiou. Bem, não achei que ele fosse ser contra em momento nenhum, na verdade.
- Ele é médico – Herod concluiu.
- Exato – ela murmurou. – Sabe, a melhor coisa, sem dúvida, foi ter o apoio de meu pai. Infelizmente, Nolan estava longe demais e nós havíamos perdido o contato. Vez ou outra eu recebia cartas dele, mas nunca endereçadas. Ele as mandava para Caridwen e ela repassava para mim as que ele indicava como minhas. Caridwen sabia o tempo todo de minha gravidez, mas eu pedira que ela não contasse nada ao irmão dela. Foi difícil demais manter segredo, mas eu realmente acreditava que seria melhor assim.
- Então ele não sabe.
- Não, ele não sabe de nada disso. E eu não pretendo que ele saiba. Claro que eu contaria, se eu tivesse tido os bebês, mas agora... Não faz sentido.
- Hum, eu entendo – Herod disse, pensativo. – E, hum, er, você sabe a causa da perda dos bebês?
- Nolan Kieran Cast – Tiffany disse, seca.
- Como? – Herod perguntou, assustado.
- Depois que ele foi embora, eu praticamente definhei – Tiffany disse. – Eu mal me alimentava, então eu fiquei anêmica, com deficiência de vitaminas C, B6 e B12 e de ácido fólico, e com as taxas hormonais completamente desreguladas – acrescentou.
- Mas você podia ter revertido isso quando descobriu que estava grávida.
- Esse é o problema. Eu descobri um pouco tarde. Já estava com oito semanas – Tiffany explicou, os olhos brilhando por conta das lágrimas ali acumuladas. – Além disso, tudo o que eu comia, eu colocava para fora. Eu não estava absorvendo nada – ela disse.
- Ainda dói lembrar disso, não é?
- Como eu disse, sofri muito – ela murmurou.
No momento de silêncio que se seguiu, algo ocorreu a Herod, e ele imediatamente voltou a questionar.
- Hum, Tiffany, você disse que Nolan foi morar nos Estados Unidos, certo?
- Sim, ele atualmente joga pelo New York Knickerbockers. Ou Knicks, como é mais conhecido.
- Nova York, você disse? – Herod arqueou uma sobrancelha.
- Sim, Nova York.
- Você foi a Nova York atrás dele, não foi? – o loiro perguntou, embora já soubesse a resposta.
Tiffany empalideceu. Antes de responder, ela engoliu em seco.
- Sim – foi tudo o que disse.
Herod se endireitou na cadeira e se projetou para a frente, os cotovelos apoiados na beirada da mesa e os dedos entrelaçados, o cenho franzido em evidente preocupação.
- Você não pensou em como seria reencontrá-lo? Em momento algum passou pela sua cabeça que a discussão que vocês tiveram podia ter terminado muito pior se tivesse acontecido lá? – ele fez.
- Eu nem consigo imaginar o quão dilacerada estaria. Mas eu talvez desistisse quando o encontrasse...
- Tiffany, você sabe que se ele a visse, certamente viria atrás de você. Não haveria como escapar.
- Não, eu não sei! Eu poderia muito bem vê-lo de longe, dar as costas e ir embora. Eu não pensei muito quando decidi ir atrás dele – disse, mas logo voltou atrás: – Bem, mais ou menos. Eu estava decidida a contar tudo a ele, fazê-lo sentir-se culpado por algo, mas eu não o encontrei, então eu simplesmente esqueci, como havia feito uma vez.
Herod voltou a recostar-se na cadeira, enquanto fechava a mão em punho e levava até a boca, assoprando-a. Então baixou a mão e ficou a encarar Tiffany por alguns instantes, em silêncio. A morena parecia relativamente desconfortável e apreensiva, esperando que ele dissesse alguma coisa.
- Foi por isso que você estava tão mal na primeira noite que passamos em Boston, certo?
Tiffany assentiu em silêncio, os olhos baixos. Ela encarava as próprias mãos.
- Tiffany, olha para mim – ele pediu, e ela obedeceu prontamente. – Eu só quero que você me prometa que vai deixar essa história lá atrás... No seu passado de oito anos atrás.
- Herod...
- Apenas prometa – ele pediu. – Prometa que não vai pensar mais nisso.
Ela baixou os olhos novamente, mas quando ergueu o rosto, parecia decidida.
- Eu prometo.