Ela não vira Herod aquele dia. Acordara tarde. Eram 7h30 quando finalmente abriu os olhos, o que era como se tivesse acordado ao meio dia e meia, de acordo com o fuso horário ao qual estava acostumada. Devia mesmo estar cansada.
Descera, tomara seu café da manhã e agora estava de volta ao quarto, encarando a si própria no espelho. Perguntava-se se estaria pronta para dar seguimento o plano que tinha desde que decidira vir com Herod àquela viagem.
Herod. Ela engoliu em seco. Ela estava suficientemente lúcida na noite anterior para saber que o loiro dormira ali, naquela mesma cama a qual fitava através do reflexo do espelho, com ela. No entanto, quando acordara, ele já não estava ali. Sabia que nada havia acontecido e ele apenas estava fazendo algo que ela mesma pedira, tão apreensiva estava. Não queria ficar sozinha, e era exatamente como estava naquele momento.
Mas ela precisava de um momento sozinha para fazer o que tinha em mente. O que lhe faltava era coragem.
Reunindo todas as forças que lhe restavam, ela pegou sua bolsa e aparatou.
Estava na porta do Buckingham Hotel, em Nova York, onde se hospedara por tantas vezes. Chamou um táxi; ela não se sentia segura o suficiente para aparatar em uma cidade tão movimentada e que pouco conhecia. Além disso, ela não conhecia o lugar que era o seu destino, embora soubesse exatamente onde queria ir e tivesse o endereço.
A corrida de táxi do hotel até a Upper West Side demorou menos de dez minutos. Sem saber se iria ou não demorar, pediu que o motorista esperasse ali e lhe entregou uma nota de vinte dólares.
- Eu não devo demorar – disse antes de adentrar o prédio.
Havia algumas crianças com as babás ali, aparentemente iriam todas juntas ao Central Park. Procurou se informar se a pessoa a quem procurava ainda morava ali.
- Sim, senhora – uma das babás confirmou. – Mas eu não o vejo há mais de uma semana e ele sempre desce logo de manhã cedo para correr no Central Park.
- Sempre esse horário? – perguntou.
- Sim, sempre esse horário – a primeira babá confirmou.
- Talvez esteja viajando – outra opinou. – Eles sempre viajam, não é? Esse é o trabalho deles.
Resignada, esboçou um sorriso e agradeceu, simpática, antes de dar meia volta e rumar para o táxi. Ela não entrou no carro, no entanto. Pagou ao motorista, agradeceu por ter esperado e caminhou sem rumo até que encontrasse um lugar deserto para aparatar.
Demorou-se mais que o necessário em Nova York. Resolveu caminhar pelas ruas, olhar algumas vitrines e, quem sabe, comprar algo para si e para as crianças. Novamente estava num táxi rumo a Quinta Avenida.
Voltou a Boston pouco depois das 14h. Trazia três ou quatro sacolas grandes à mão e duas pequenas. Raramente ela se permitia fazer aquele tipo de extravagância, e com certeza era melhor quando estava com Jennifer ou Francine, mas fora bom ainda assim.
Sem pressa alguma, subiu de elevador e, por coincidência, o mesmo casal de alemães com quem ela e Herod tinham se batido também no elevador na noite anterior era sua companhia. Pareciam simpáticos e até sorriram para ela.
Um bipe soou e informou que eles haviam chegado ao sexto andar. Tiffany despediu-se com um sorriso e um aceno e saiu para o corredor. Distraída, trombou com algo – ou alguém, como logo percebeu.
- Ah, graças a Deus! – a conhecida voz de veludo esbravejou. – Onde diabos você esteve?
- Eu avisei que iria a Nova York – ela disse com um ar despreocupado e começou a caminhar rumo ao seu quarto. – E, se bem me lembro, foi você quem saiu sem sequer se dar ao trabalho de me acordar e avisar.
- Eu disse que iria a uma reunião e a um almoço de negócios – Herod disse, levemente alterado. Mas ela não parou de andar e tampouco disse algo. – Haase?
Tiffany ainda estava de costas quando ergueu a mão e acenou uma única vez. Herod bufou enquanto a observava se afastar.
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A manhã daquela sexta-feira 29 de maio fora a mais fria desde que a primavera dera o ar de sua graça. Fazia 54ºF (ou 12ºC) quando acordou. Mas o dia fora esquentando à medida que as horas passavam e agora, cerca de 20h, já à noite, voltara a esfriar um pouco, mas a temperatura era agradável.
Ela chegou ao Centro de Treinamento com um enorme copo para viagem da Starbucks de chocolate quente. Retirou o sobretudo ainda enquanto andava, trocando o copo de uma mão para a outra enquanto retirava os braços das mangas compridas. Cumprimentou os funcionários com acenos breves e atravessou os corredores. Sabia exatamente onde devia ir: ala A, sala 4.
Muitas das salas estavam ocupadas, muitas pessoas estavam em treinamento.
O lugar era um destaque em artes marciais, esgrima e mesmo em preparação física. Ela própria praticava Krav Magá e Boxe ali, dando continuidade aos seus nove anos de prática. Era ali que passava as manhãs em que não estava trabalhando.
Desceu dois lances de escadas que a levariam a um andar subterrâneo. Ali embaixo o ar era refrigerado pelo ar condicionado central, o que tornava mais agradável andar num lugar tão pouco arejado.
Apertou o passo e alcançou a sala. A porta era de vidro, de modo que ela podia ver exatamente quem estava ali dentro e o que estava fazendo.
Viu a sua garotinha sentada no chão, abraçando as pernas. Seus olhos estavam inexpressivos e sem foco. Parecia cansada.
- Hermione? – a voz vinha de trás de si.
- Ah, olá, mestre – ela cumprimentou-o.
- Veio ver Chloe? – Jason McCoy indagou, um sorriso brincando em seus lábios.
- Sim, e não – Hermione respondeu. – Vim vê-la, mas também vim porque gostaria de falar com você.
- Se quiser vir ao refeitório comigo ou à minha sala, poderemos conversar.
- É, tudo bem. Acho que sua sala está bom – ela assentiu, mas, antes que pudesse acompanhá-lo, deteve-se. – Espere. O que está acontecendo com minha filha? – perguntou, preocupada. – Por que ela está daquele jeito?
- Vamos para minha sala e eu lhe explico, Hermione – McCoy insistiu e seu ar era despreocupado, o que, de alguma maneira, trouxe um pouco de alívio para a morena.
Com uma última olhada para a filha, que permanecia exatamente do mesmo jeito e no mesmo lugar de instantes antes, ela seguiu o mestre.
Jason McCoy era dono e diretor do Centro de Treinamento e, portanto, era a autoridade máxima naquele lugar. Hermione sentia-se menos preocupada sabendo que Chloe estava sendo treinada pessoalmente por ele.
Ao chegarem à sala de McCoy, ele não perdeu tempo. Ele fechou a porta atrás de si e, antes mesmo que Hermione pudesse se sentar, ele estava falando:
- Chloe tem evoluído bastante a cada dia – começou. – Ela já move objetos somente com a força do pensamento e já tem domínio e controle sobre as emoções à sua volta – ele especificou. – As demais habilidades ainda estão sendo exploradas. Agora estamos trabalhando com escudos e ainda com a força de sua mente. Ela não apresentou nenhuma reação ainda. Quando ela chegou, lia os pensamentos, mas não os controlava nem transmitia, e isso permanece assim.
- E quanto às visões?
Ela percebeu o trincar do maxilar do homem e não ignorou. Estava prestes a fazer uma observação ou nova pergunta, mas deteve-se e esperou. Ele já estava escolhendo as palavras.
- Têm se tornado mais freqüentes – McCoy respondeu. – Quando você a viu agora a pouco, estava acontecendo. Ela pediu que eu a deixasse sozinha por alguns instantes. É o que ela faz quando sente que elas virão. Sua cabeça começa a doer, bem como seus olhos, e ela imerge numa espécie de escuridão que é só dela.
- Foi assim que ela as descreveu? – Hermione perguntou e notou que as reações de seu corpo às visões se assemelhavam às do corpo de sua filha.
- Sim. E, para quem a observa, é como os olhos dela perdessem o foco, o brilho. Eles, os olhos, ficam cinzentos – o mestre descreveu.
Hermione sabia disso. Amy já lhe dissera isso por diversas vezes quando acontecia com ela.
- Ela disse o que ela vê?
- Normalmente ela vê você, Amy, a madrinha dela e uma garotinha chamada Zoe – McCoy contou.
- Pessoas com quem ela apresenta laços afetivos mais fortes – Hermione pensou em voz alta e então fitou o mestre. – Ela não fala sobre os avós?
- Ela precisa de esforços para vê-los.
- Então...
- Ela os estava vendo quando você a viu na sala – McCoy completou a frase de Hermione e assentiu brevemente. – Uma vez você disse que seus pais eram trouxas, certo?
- Sim, eles são.
- Está aí a explicação – ele arqueou as sobrancelhas.
Hermione sentiu um nó se formar em sua garganta e o desespero e a preocupação a invadirem com um golpe doloroso naquele instante. Porém, algo no rosto de Jason McCoy fez com que aquela sensação se atenuasse.
- Há algo mais – ela fez, e aquilo não era uma pergunta; era uma constatação.
- Ela não vê o pai dela – McCoy disse.
- Então ela pode estar se esforçando para vê-lo? – Hermione teve que conter a apreensão que a consumia, embora não tenha sido muito bem sucedida e soubesse que sua expressão era horrorizada. – Mas isso pode fazer um mal terrível a ela.
- Eu sei, e é por isso que eu estou preocupado. – O olhar do homem era sério e Hermione entendeu que aquelas tentativas já estavam fazendo mal à pequena. – Há algo que você não me contou? – ele indagou, mas a percepção de algo ficou evidente em suas feições no instante seguinte. – Chloe não conheceu o pai, conheceu?
A morena não respondeu. Baixou os olhos e suspirou, negando com a cabeça. Voltou a encará-lo em seguida, os olhos marejados.
- Não são meus pais quem ela está tentando ver, não é? – perguntou. – Ela pode vê-los, mesmo que com certa dificuldade, simplesmente porque são trouxas e estão longe, mas os esforços que tem feito são para ver o pai e os avós paternos.
- Ela ainda não desenvolveu as habilidades o suficiente para ver pessoas com quem não conviveu, ou com quem ainda não desenvolveu laços afetivos tão profundos – McCoy esclareceu. – Mas um dia ela vai vê-los, Hermione.
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- E como ela está?
- Ela está bem – respondeu e, depois de uma breve pausa, continuou: – Na medida do possível.
- Você me deixa preocupada falando assim – Liah disse, enquanto acariciava a enorme barriga de quase oito meses.
- Eu disse para não começarem sem mim – a voz de Amy veio da cozinha.
Hermione e Liah riram. As três estavam na casa de Liah e já passava das 22h daquela sexta-feira. Hermione viera direto do Centro de Treinamento e chegara não havia mais do que dez minutos. Scott, segundo Liah, estava jantando com Harry e com um pessoal do Ministério da Magia brasileiro que estava na cidade e iria embora no dia seguinte.
- Estamos te esperando – Liah replicou.
- A opção foi sua. Eu me ofereci para pegar a bandeja – Hermione disse em alto e bom som.
Mas Amy já estava atravessando o quarto e colocando a bandeja sobre a cama.
- Se você fosse, nós certamente iríamos atrás de você, e eu não queria que Liah levantasse – Amy disse enquanto se acomodava. – Nem eu, nem Scott.
- Eu fui ao médico semana passada e vocês sabem disso – Liah se colocou. – Ele disse que estava tudo bem, mas continua recomendando repouso.
- Ele quer evitar que você venha a dar a luz prematuramente – Hermione explicou. – Imagine... Se com dez semanas a placenta cobria parte do colo do útero, imagine agora, quando você está com trinta e duas semanas.
- Tudo bem, não fuja do assunto. Nós estamos aqui para falar de meu útero ou de minha afilhada? – Liah fez.
- Eu não estava fugindo do assunto – Hermione disse, com veemência. – Eu preciso falar, antes que meu cérebro dê um nó ou entre em curto-circuito.
- E acabe por queimar alguns dos seus preciosos neurônios – Liah brincou.
Foi inevitável; Hermione e Amy tiveram que rir.
- Fale, Herms, nós somos todas ouvidos – Amy incentivou.
- Eu sabia que Chloe iria sofrer enquanto estivesse lá, porque eu conheço o tipo de treinamento por qual está passando e sei que é doloroso e exaustivo e exige muito da pessoa. São dez horas por dia de treinamento intensivo em que uma pessoa estranha, em alguma medida, está tentando invadir a sua mente, tentando atacar você de diversas formas e exigindo que você reaja.
- Lembre-se que estamos falando de Jason McCoy e que o cara é o cara! – Liah murmurou. – Ele é um excelente profissional.
- Sim, eu sei. E sei que ele está cuidando bem de minha filha, mas ainda assim é demais para uma criança – Hermione disse.
- Chloe não é uma criança qualquer, Hermione, e nós sabemos disso. Na verdade, nem mesmo sei se podemos dizer que ela é uma criança – Liah comentou e poderia passar por uma brincadeira, mas seu tom era sério, bem como suas feições.
- Ela tem dez anos, Liah, então ela é uma criança – Amy replicou. – Muito embora pareça ter nossa idade – ela acrescentou num murmúrio preocupado, mais para si do que para as outras.
Hermione aguardou alguns instantes antes de continuar.
- Ela evoluiu muito nesses três dias em que está lá, o que é relativamente pouco para os progressos que McCoy obteve com ela. Ela já move objetos somente com a força do pensamento e já sente e controla sobre as emoções à sua volta. As visões também se tornaram constantes, e ela vê a nós três e a Zoe com bastante freqüência.
- Somos importantes – Liah brincou.
- Mas não é só – Hermione disse. – Ela tem alguma dificuldade para sintonizar-se a meus pais pelo fato de eles estarem um tanto distantes e serem trouxas, mas McCoy assegurou-me que isso é temporário, somente até ela desenvolver a habilidade o suficiente, então as visões deles virão para ela involuntariamente. A distância realmente não importa muito, e eu bem sei disso.
- E as visões dela são presentes? – Amy perguntou.
- Presentes e futuras, aparentemente – Hermione respondeu. – Ela poderia estar nos vendo nesse exato momento.
- Você faz parecer que sabe como impedir que ela nos veja, mas não o está fazendo agora – Liah notou.
- E eu sei – Hermione assentiu. – Mas ela não está nos observando. Não mais.
- Isso significa que você também sente quando ela está observando? – foi a vez de Amy perguntar e Hermione notou que ela estava sobressaltada com a revelação.
- Se não for uma visão futura, sim.
- Estou anotando mentalmente esse fato para me lembrar de arrastar você até Dumbledore muito em breve – a morena de olhos azuis avisou.
Hermione engoliu em seco.
- Parece que ela não chegou à pior parte – Liah disse, e sua voz era um silvo.
Amy nada disse. Parecia ainda estar remoendo a revelação que Hermione fizera sobre si mesma meio minuto antes. Amy não sabia que a amiga tinha tal habilidade e também desconhecia que ela própria tivesse. Era, portanto, uma informação nova e não parecia pertencer ao mundo dos Mangids.
- Chloe está tentando ver o pai e os avós paternos – Hermione disse, por fim, arrancando Amy de seus devaneios.
- Como é?
- Mas ela não obteve sucesso.
- Ainda – Amy completou, evidentemente alarmada. Mexeu-se desconfortavelmente na cama. – Você tem que contar.
- Eu ainda não posso – Hermione disse.
- Hermione, quanto mais tempo você demorar a contar a Harry, pior vai ser a reação dele. Ele vai se sentir enganado por você – Amy disse, muito séria.
- Eu o estou enganando, Ames – Hermione reconheceu.
- É, eu notei que sempre que Chloe está na presença dele os olhos dela estão castanhos como os seus – Liah comentou. – Harry acha que ela é filha de Chad, não é?
- Embora ele não saiba o nome do suposto pai dela – Hermione acrescentou, confirmando o ponto de Liah. – Eu apenas disse que eu havia morado com um cara e engravidado pela segunda vez, mas que havia perdido o bebê.
- Então ele quem deduziu que Chloe era filha desse ‘cara’ – Liah percebeu. – Ou melhor, ele supôs.
- Exatamente – Hermione assentiu.
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Quando o avião pousou no Aeroporto de Heathrow, ela tinha os pensamentos distantes, como se tivessem sido deixados para trás e ficado esquecidos em Boston. E era de lá que estava lembrando durante toda a viagem – quando não estava dormindo, é claro.
O vôo deles partira de Nova York exatamente às 21h do dia anterior, primeiro de junho, segunda-feira. Foram exatamente nove horas de vôo, somadas às cinco horas da mudança de fuso, o que significava que em Londres já passava das 11h.
Ela estava feliz por finalmente estar se dando bem com Herod. Era bom saber que eles podiam ser amigos. Havia momentos em que inevitavelmente se tratavam com certa rudez e doses pesadas de sarcasmo, mas ela sabia que aquilo jamais deixaria a relação dos dois; era parte dela.
De algum modo, Herod a ajudara a esquecer o que fora buscar nos Estados Unidos e ela já não se arrependia por ter ido até lá. A viagem fora, de alguma maneira, uma forma de enfim livrar-se de um passado que ainda a assombrava. Era como se o loiro tivesse lhe aplicado uma injeção de paz e de animação, e ela sentia-se livre como se uma tonelada tivesse sido retirada de suas costas.
Eles visitaram muitos lugares, tiraram muitas fotos e deram boas risadas.
No fim das contas, divertiram-se bastante. Herod era uma companhia que valia a pena quando ela estava de bom humor. Fizera muitas compras, que iam desde roupas, perfumes, sapatos e acessórios a CDs e livros, tudo na companhia do loiro. Por acaso, ajudara a renovar o guarda-roupa dele – e ficara impressionada por ele ter um bom gosto incrível para vestir-se.
Perdera a conta de quantas vezes ligara para casa só para ouvir a voz de Josh e Francine. Agora que estava a caminho de casa, não sabia se estava aliviada ou saudosa. Era bom estar de volta, e ela estava morrendo de saudades dos filhos, mas ela também já sentia saudades dos dias que passara em Boston.
Agora eles estavam ali, dentro do avião, enquanto este deslizava sobre as gigantescas pistas rumo ao terminal desembarque de passageiros destinado àquele vôo. Percebeu o olhar de Herod sobre si.
- O quê?
- Você está sorrindo sozinha – ele disse, dando um sorriso.
- Eu estava pensando na viagem – Tiffany explicou. – Em tudo que nós fizemos.
- Até ontem éramos eu e você, hoje já somos nós. Acho que posso fazer o pedido de casamento semana que vem – Herod brincou e Tiffany fez uma careta esnobe.
- Talvez depois que voltarmos de Dubai – ela retrucou, marota.
- Você está ficando realmente interesseira.
- Como se isso te preocupasse.
Ele riu e ela voltou a olhar através da janela.
- Gostou da viagem? – Herod perguntou durante o desembarque.
- Foi muito boa, obrigada. – Ela sorriu. – Mas é sempre bom voltar para casa.
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Chegou em casa com a mochila nas costas e a mente ainda no lugar de onde acabara de sair. Trajava suas roupas de ginástica: calças de ginástica, top fitness e tênis de corrida.
Daisy veio correndo recebê-la, ao que ela deu um sorriso e afagou a cabeça da cadela.
- Estou em casa, Lucy – avisou enquanto subia as escadas.
A casa estava silenciosa. Tal fato nunca a incomodara, mas nos últimos dias era difícil não sentir-se incomodada. O silêncio significava que a casa estava vazia. Mais do que isso, significava que sua filha não estava ali para preenchê-lo com a sua alegria costumeira. E doía lembrar onde ela estava e o porquê de estar lá.
Ela acabara de encontrar a filha. Tinha saído de seu próprio treinamento e resolvera vê-la antes de voltar para casa. Chloe estava relativamente bem àquela manhã. Já conseguira desenvolver a habilidade de controlar e transmitir pensamentos, embora ainda não tivesse total domínio sobre ela. Hermione sentiu um arrepio perpassar sua espinha. Mais uma habilidade que ela também possuía.
Suspirou e balançou a cabeça negativamente a fim de afastar os pensamentos. Estava cansada e com muita dor de cabeça. A vontade que tinha era de deitar e dormir. Não estava com fome e achava que se comesse alguma coisa, certamente colocaria tudo para fora. E era assim sempre que estava preocupada, ansiosa, estressada ou nervosa. Naquele dia, para sua infelicidade, ela era uma mistura de tudo aquilo.
Ela precisava relaxar, mas simplesmente não conseguia. Tomou um banho rápido e frio, depois deixou que a água, agora quente, caísse sem parar em sua nuca enquanto mantinha os olhos fechados e concentrava-se em sua respiração.
Alguns minutos mais tarde, deixou o banheiro, vestiu-se já para trabalhar e desceu rumo à cozinha.
- Estou de saída, Lucy. Ainda tenho que resolver alguns assuntos antes de ir para o trabalho – Hermione disse.
- Não vai almoçar? – Lucy perguntou.
-Não, hoje não. Só de pensar em comida eu já fico com náuseas. Eu como qualquer besteira mais tarde – a morena disse enquanto caminhava até a geladeira. – Tem suco?
- Sim, de maracujá.
- Ah, ótimo! – Hermione murmurou diante de tal ironia. – Estou uma pilha de nervos e se eu ficar parada, certamente vou entrar em colapso nervoso.
- Está sentindo falta de Chloe, não é? – Lucy fez e não era exatamente uma pergunta.
Hermione obrigou-se a parar de andar e suspirou, sentando-se numa cadeira ainda com o copo intocado e cheio de suco em sua mão. Tomou um gole e assentiu.
- A casa fica tão vazia sem ela – murmurou, um sorriso triste em seus lábios.
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Já estavam no carro rumando para Knightsbridge. Tiffany dissera que podia pegar um táxi, mas Herod insistira em levá-la para casa, dizendo que não seria incômodo e que havia lugar no carro.
O mesmo motorista que os levara uma semana antes ao aeroporto era o que fora pegá-los.
- ... as crianças estarão de férias na próxima semana. Em julho eu estarei em férias também.
- Eu estive de férias por trinta anos – Herod brincou. – Ou, pelo menos, desde que eu me formei na escola.
- Pelo visto alguém não terá direito a férias por um bom tempo.
- Eu supero. Mas em julho do ano que vem eu pretendo tirar umas boas folgas também.
- É claro – Tiffany riu. – Mas eu acho que você terá algumas muitas folgas daqui até lá.
- O que quer dizer?
- Você vive viajando, e suas viagens duram cerca de uma semana, certo? – ela fez. – Agora pense um pouco e veja se não concorda comigo: durante essas viagens, você tem dois ou três compromissos de negócios, normalmente almoços, jantares e uma conferência que pode durar apenas uma manhã ou uma tarde. Isso significa que o restante do tempo você está livre para fazer o que quiser.
- Não existem muitas maneiras de divertir-se sozinho – ele pontuou.
- Não acho que você tenha dificuldades em arrumar companhia, Herod – Tiffany disse.
- E terei menos dificuldades ainda quando nos casarmos. Vou poder levar você a todas as minhas viagens – mais uma vez ele brincou e Tiffany riu.
- Você não perde uma chance, não é?
- Nenhuma. – E ele abriu seu melhor sorriso.
- Chegamos, Srta. Haase – o motorista anunciou.
Tiffany já ia agradecer a Herod e ao motorista quando notou alguém atravessando os jardins da Mansão Haase em direção à rua. Havia um carro estacionado do outro lado da rua, um Nissan Murano preto com vidros muito escuros. Ela não reconheceu o carro nem o homem que agora passara na frente do carro. Ele claramente estava saindo de sua casa.
Analisou-o por um momento. Era alto, devia ter quase dois metros de altura, os cabelos escuros, quase pretos, e a pele muito branca. Andava de cabeça baixa, fitando o chão, de modo que ela não conseguia ver seu rosto. Ele usava uma jaqueta preta sobre a camiseta branca e tinha as mãos nos bolsos das calças jeans.
Então ela sentiu a apreensão que não sentia desde que fora a Nova York a atingir em cheio. Ela conhecia aquele caminhar... Ela conhecia aquele homem. O choque foi repentino e momentâneo, de modo que sua mente voltou a trabalhar mais acelerada um segundo depois.
Então tudo aconteceu muito rápido, em menos de cinco segundos. Tiffany saltou do carro e deu a volta em torno dele, arfando. Tirou os óculos escuros, o choque ainda evidente em seu rosto.
- Nolan?