Ela acordara cedo àquela manhã, mais cedo que o de costume. Na noite anterior, todos foram dormir tarde após um jantar maravilhoso preparado por Caridwen.
O irmão dela, Nolan, também estava presente. Não era loiro como ela. O rapaz tinha os cabelos de um tom castanho muito escuro e olhos que variavam entre o azul e um tom verde acinzentado. Era alto, tão alto quanto Harry, e, segundo Caridwen, jogava basquete desde os tempos de escola. Hoje, aos vinte e oito anos, ele morava nos Estados Unidos e jogava na NBA, a liga de basquete profissional americana – a maior e mais importante do esporte.
E Duddley Dursley também estava lá, embora tenha passado quase o fim de semana inteiro fora. Ele trabalhava o dia todo de domingo a domingo num negócio próprio que tinha na cidade. Não se casara e não tinha filhos, o que era mais um motivo para passar menos tempo em casa.
Fora praticamente um jantar de despedida, com muita animação, embalado por fondue e vinhos. E, depois de um fim de semana como aquele, não poderia terminar de outra maneira.
Arrumara as malas apressada, deixando uma muda de roupa para si e outra para Chloe separadas e correra para o banheiro para se arrumar. Já pronta, acordara a filha e mandou que ela fizesse o mesmo.
Deixaram York logo após o café da manhã, pouco depois das 8h. Harry e Zoe também saíram no mesmo horário. Segundo o moreno, ele ainda trabalharia à tarde. Hermione sabia que ele também estaria no evento daquela noite, na Escola de Aurores.
Agora ela estava em casa, no seu quarto, sentada à cama e rodeada de papéis. Em sua mão, a caneta estava esquecida, bem como o papel em que escrevia instantes atrás. Sua mente estava longe, seus pensamentos girando em torno de certo moreno de olhos verdes.
Depois daquele fim de semana, já longe dele, ela agora podia pensar com clareza. Estava preocupada e envergonhada de si própria. Perguntava-se se não dera esperanças demais ao amigo permitindo-se a tantas recaídas. Sentia-se constrangida ao lembrar das brincadeiras e dos beijos que compartilharam na Mansão Branca, agindo como dois adolescentes que namoravam às escondidas.
Sorriu quando em sua mente veio a imagem de si própria à beira do fogão, os cabelos presos num nó, vestindo uma calça flanelada escura e uma camiseta estilo nadador branca, os pés descalços no chão frio de mármore, preparando uma enorme panela de brigadeiro num fim de tarde chuvoso, enquanto Chloe e Zoe estavam presas na casa de Giuly.
As meninas passaram a maior parte do tempo com Giuly e Caridwen, o que lhe rendeu mais tempo a sós com Harry. Foram somente duas tardes quase que completamente a sós, a de sexta e da de domingo, mas foram suficientes para reaproximá-los e refazer alguns laços que haviam sido perdidos.
Agora ela realmente acreditava que podia voltar a amar Harry como amara anos atrás e seguia confiante nisso, disposta a não magoá-lo mais. Entretanto, ela era realista e sabia que o desafio maior ainda estava por vir: ela tinha que contar-lhe sobre Chloe.
Engoliu em seco com o pensamento e resolveu deixar seus devaneios de lado. Levantou-se e juntou todos os papéis dentro de uma pasta. Rumou para o banheiro e tomou um rápido banho. Saiu do banheiro enrolada numa toalha, os cabelos compridos e molhados pingando em suas costas.
Encontrou Chloe sentada à sua cama, a cabeça levemente inclinada, as mãos apoiadas na cama, fitando-a.
- O que foi? – Hermione se aproximou dela e beijou-lhe o alto da testa.
- Não faça isso – ela disse, séria.
Hermione riu.
- Eu não ia cortar muito – argumentou. A filha arqueou uma sobrancelha. – Tudo bem, eu prometo que não vou cortar, ok?
Chloe assentiu, os lábios reduzidos a uma linha.
- O que você quer me dizer que não está dizendo?
- Por que eu não vou para Hogwarts como você? – Chloe perguntou.
- Do que você está falando, Chloe? – Hermione fez, sem entender.
- Eu... – Chloe fez uma careta, como se estivesse com dificuldade de dizer. – Eu vi. Eu não vou para Hogwarts.
- Você viu? – A mãe indagou, os olhos arregalados em uma mistura de terror e surpresa.
A pequena suspirou e mordeu o lábio inferior, os olhos fitando o chão enquanto assentia.
- Minha carta chegará no dia vinte e oito de janeiro do ano que vem e virá num papel fino e com um brasão azul, o mesmo que eu vi num livro... – ela fez uma pausa. – Eu vou para Beauxbatons, mamãe. Eu vou estudar com Sophie.
- Sophie?
- Sophie Marcheline Weasley, ela estava naquela festa que nós fomos, o aniversário de Reese. Ela é filha de uma veela chamada Fleur Delacour – Chloe explicou. – Não é a mesma que participou do Torneio Tribruxo quando você estudava em Hogwarts?
Hermione engoliu em seco.
- É, é sim – assentiu. – Quando você viu isso, Chloe?
- Agora há pouco. O estranho que é que eu vi a carta de Hogwarts também, mas ainda assim eu vou para Beauxbatons.
- Não se preocupe com isso, querida. Se você tiver que ir para Beauxbatons, será porque lá é o melhor lugar para você. E você vai estar com uma pessoa conhecida, ao menos. Você e Sophie não ficaram amigas na festa de Reese? – Chloe assentiu. – Então! Agora esqueça isso. Desça e vá comer sua sobremesa. Eu pedi para Lucy fazer só por sua causa.
- Tudo bem – a pequena murmurou e deixou do quarto sob o olhar preocupado da mãe.
Hermione imediatamente procurou o seu celular e discou.
- Eu tinha certeza que você me ligaria assim que pusesse os pés em Londres, mas você até demorou, sabia? – Amy atendeu, divertida.
- É, mas infelizmente o motivo não é nada bom, como você esperava – Hermione disse, séria.
- Aconteceu alguma coisa? – a voz de Amy agora também estava séria e tinha uma nota de preocupação.
- Chloe – Hermione resumiu a uma palavra, suspirando o nome da filha.
- Por que eu não estou gostando de seu tom? – a amiga murmurou. – O que está acontecendo, Hermione?
- Chloe acabou de ter uma visão – Hermione contou.
- Passado, presente ou futuro?
- Futuro. Vinte e oito de janeiro do ano que vem.
- Poderia ser um presságio...
- Sem chances. Ela conseguiu visualizar as conseqüências do que acontece nesse dia.
- E o que exatamente ela viu?
- Podemos conversar sobre isso mais tarde? – Hermione perguntou. – Eu não quero tratar esse assunto por telefone e agora à tarde eu tenho um compromisso, mas devo estar livre antes das 17h. Falamos-nos antes de eu ir para a Escola de Aurores. O evento começa às 20h, então eu tenho algum tempo para mim antes disso.
- Então nos encontramos às 17h – Amy concluiu. – Eu também tenho um compromisso agora, mas é com o trabalho. De qualquer modo, eu te ligo mais tarde.
- Tudo bem. Até logo.
- Até, querida – e o telefone ficou mudo.
Ainda preocupada, Hermione fechou o celular e jogou-o em cima da cama, apressando-se em vestir-se. Em menos de dez minutos ela estava no hall, pronta, vestindo uma calça de alfaiataria branca, camisa de botões e de seda preta sobre uma camiseta branca que somente aparecia sob o decote e um par de louboutins preto envernizado. Chloe ainda estava na cozinha e conversava com Lucy.
- ... eu acho que ele gosta dela – a voz da pequena soou. – Você vê no jeito que ele olha para ela.
Pôde ouvir Lucy rir.
- Ele é bonito – Lucy comentou.
- Sim, e muito – Chloe concordou.
Hermione procurou entender de quem a pequena e Lucy falavam, mas preferiu ignorar os comentários. Antes de abrir a porta da cozinha, porém, a conversa foi retomada, mas o assunto anterior se perdera.
- Está deliciosa, Lucy – elogiou.
- Obrigada – Lucy agradeceu.
Quando Hermione finalmente entrou no aposento, Chloe estava concentrada em sua torta de limão e comia com gosto.
- Já vai, mamãe?
- A reunião é às 14h – disse. – Eu devo chegar mais tarde que o previsto. Tenho que resolver uns assuntos com Amy.
- Tudo bem – Chloe murmurou antes de levar mais um pedaço da torta à boca.
- Lucy, querida, o meu vestido rosa...
- Já está separado, Srta. Granger. Deixarei sobre sua cama para quando chegar.
- Obrigada. Agora me deixem ir – disse antes de beijar a bochecha da filha e deixar a cozinha.
Colocou os óculos escuros e jogou as chaves do carro e o celular na bolsa, fechando-a antes de aparatar ali na sala mesmo.
Estava no iluminado e amplo átrio do Ministério da Magia em uma fração de segundo. Atravessou-o rumo ao elevador. O átrio estava movimentado, muitos funcionários estavam retornando do horário de almoço e, para não chegarem atrasados a seus departamentos, alguns optavam pelas escadas. Aqueles que, como ela, tinham departamentos em níveis mais baixos, preferiam ficar e esperar pelo elevador.
Cumprimentou a todos, mas permaneceu calada a maior parte do tempo. O elevador chegou e Hermione entrou, sendo seguida por cerca de seis bruxos. Os demais, a maioria homens, ficaram e esperaram o retorno do elevador.
Enquanto o cubículo de aço ia se esvaziando à medida que os andares ficavam acima, Hermione sentia uma expectativa crescente. Sabia que aquele dia seria de grande surpresa para a maioria dos Inomináveis.
Quando finalmente chegou ao nível nove, estava sozinha. A última bruxa deixara o elevador no nível seis. Atravessou o corredor estreito que levava ao Departamento de Mistérios e parou a uma porta anterior por pelo menos três metros à que ficava no final do corredor. Desfez o feitiço de segurança e destrancou-a.
Olhou por cima do ombro antes de entrar. Ligou a luz imediatamente e jogou a bolsa em sua poltrona. A pasta que trazia à mão foi colocada sobre a mesa. Guardou os óculos escuros e caminhou até o seu armário. Abriu a porta de modo a fitar-se no espelho que ficava ali dentro. Com um breve aceno, trouxe até si o lápis de olho, o rímel e um gloss. Retocou a maquiagem e alisou os cabelos, depois os prendeu num alto rabo-de-cavalo, deixando somente a franjinha emoldurar seu rosto.
Ela pôde ouvir passos apressados do lado de fora da sala. Aparentemente passos femininos, a julgar pelo barulho causado pelo contato do salto contra o chão. Uma mulher decidida, Hermione supôs, de passos muito precisos e firmes. Sorriu. Para estar ali, não poderia ser diferente.
Uma porta se abriu e se fechou com um estalido. Passaram-se cerca de quatro minutos. Hermione já estava acomodada em sua poltrona, os papéis sobre a mesa e uma caneta à mão. Novamente passos. Mais uma mulher.
E isso se repetiu nos vinte minutos que se seguiram. Quatro mulheres e sete homens no total. Hermione enfim checou o relógio. 14h01. Estava na hora.
Levantou-se prontamente, recolocou os papéis na pasta, pegou a túnica de cetim negra e ajeitou as roupas antes de sair da sala, novamente trancando-a e selando-a com o feitiço de segurança. Atravessou o restante do corredor e abriu a porta, fechando-a atrás de si. A sala girou e os archotes azuis bruxuleantes se tornaram borrões. Quando finalmente parou, ela pôde ver onze ‘X’ flamejantes marcados, um em cada porta, exceto uma: a que ela acabara de usar para chegar ali. Aparentemente, todos seguiram à risca as suas instruções.
Parada no centro da sala, vestiu sua túnica e cobriu a cabeça com o capuz. Inspirou fundo e soltou o ar. Engoliu em seco e trincou o maxilar, concentrada e decidida.
- Muito bem, a hora chegou – ela começou. – Sei que podem me ouvir exatamente de onde estão. Agora, saiam para Sala Circular.
Houve um segundo onde nada aconteceu e então onze portas se abriram simultaneamente e onze vultos adentraram a sala.
- Baixem os capuzes à medida que eu citar seus nomes – ordenou e todos assentiram prontamente.
Ela citou-os um a um.
Amy Mackenzie. Seamus Croaker. Hallie Priestly. Isabella Bonstrong. Matthew Archie. Stephen Connor. Isaac Harvey. Cassie Smith. Jason McCoy. Owen Ross. Aidan Bailey.
Então, com um gesto brusco, ela fez com que os archotes intensificassem.
- E eu, Hermione Granger – ela disse enquanto baixava o próprio capuz. – Nós somos os Inomináveis.
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O motorista parou o carro na entrada do embarque internacional e o loiro saltou. Ele abriu a porta traseira para a morena enquanto o motorista retirava as malas do porta-malas do carro.
- Eu tenho certeza que vou me arrepender disso – ela murmurou.
- Apenas tente se divertir – o loiro disse.
- Christow, não falo de você... Falo de meus filhos – Tiffany retrucou. – Eu vou passar uma semana longe deles. Uma semana!
- Eles ficarão bem com a Sra. Haase, tenho certeza disso.
- Eu também – Tiffany murmurou.
- Então por que a preocupação?
A morena bufou.
- Você não entenderia.
- Eu espero um dia entender – Herod disse. – Vamos?
Tiffany suspirou.
- Vamos – assentiu, sabendo que uma hora mais tarde estaria dentro de um avião atravessando o Atlântico rumo a Boston.
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- Mestre McCoy – chamou. Ela seguira Jason McCoy desde o momento em que ele deixara a Sala Circular.
- Sim? – o homem alto e negro na casa dos quarenta anos respondeu, virando-se para encarar quem o houvesse chamado. – Ah, Amy! Há algo em que eu possa ajudar?
- Na verdade, sim – a morena de olhos azuis assentiu. – Talvez Dumbledore já tenha conversado com o senhor, mestre, a respeito da filha de Hermione...
- Sim, é claro. Chloe Ann, não? Eu estive no continente nas últimas semanas, então não pudemos marcar ainda um encontro.
- É, eu sei – Amy parecia ansiosa. – O senhor tem algum compromisso agora?
- Somente a nomeação da nova brigada do Quartel General de Aurores às 20h. Por quê?
- Ah, claro. O senhor é membro da Academia Internacional de Aurores, eu tinha me esquecido – a morena riu nervosamente. – Bem, eu gostaria que o senhor me disponibilizasse alguns minutos de seu tempo. Se importaria de vir comigo até o café da esquina?
- Claro que não, Amy. Vamos?
Amy suspirou aliviada.
- É, vamos.
E dito isso, ela caminhou emparelhada com o tão respeitado Mestre Jason G. McCoy rumo à cafeteria em que combinara de encontrar com Hermione depois que resolvesse um assunto. Assunto resolvido, agora ela podia respirar sossegada e ir ao encontro da amiga.
- Como vai seu pai? – McCoy perguntou.
- Ele está bem. Provavelmente está atolado até as orelhas no trabalho – Amy riu. – É sempre assim enquanto mamãe está em Hogwarts. Por sorte em duas semanas ela estará de volta e ele vai relaxar um pouco.
- Mande lembranças minhas aos dois.
- Claro – a morena assentiu enquanto entravam no café.
Ela logo localizou Hermione e apressou-se em juntar-se a ela.
- Olá de novo – Hermione os cumprimentou.
- Eu trouxe mestre McCoy. Acho que ele gostará de ouvir o que tem a dizer – Amy disse enquanto ocupava uma das cadeiras vazias.
- Obrigada por vir, mestre – Hermione agradeceu.
- Por nada, querida. Eu estou em dívida com você. Passei um mês fora a trabalho, por isso não entrei em contato antes. Na verdade, estou voltando amanhã mesmo. Voltei hoje única e exclusivamente por conta da reunião do departamento e da nomeação da nova brigada de aurores.
- Claro, eu compreendo. – A morena assentiu, franzindo os lábios, preocupada.
- Agora conte-me o que aconteceu e me diga em que posso ajudar você e sua filha – Jason McCoy disse, sério e atencioso.
Hermione pôs-se a contar o acontecido do início daquela tarde, bem como a citar todas as habilidades incomuns que a filha apresentava. Amy a ajudava vez ou outra, mas a maior parte do tempo prestava atenção. Ao final do relato, Hermione tornou a ficar apreensiva diante das feições preocupadas que o mestre apresentava.
- E então, mestre? – Ela engoliu em seco. – O que acha que devemos fazer?
- Na verdade, mestre, ela quer saber quando devemos iniciar o treinamento de Chloe – Amy interferiu.
- Devemos começar imediatamente, Hermione – McCoy sentenciou. – Vou agora mesmo entrar em contato com a Escola de Aurores onde eu estava substituindo um instrutor e pedir que eles consigam outro substituto. Eu vou ficar e treinar sua filha.
Amy procurou o olhar da amiga e apertou sua mão com firmeza. Naquele momento, Hermione não sabia se ficava aliviada ou mais preocupada com a resposta do homem à sua frente.
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- Vovó Morgan disse que ela e o vovô Nash vinham me visitar esse fim de semana – Zoe contou. – Ela ligou hoje de tarde.
A loirinha estava debruçada sobre a cama do pai, com várias canetinhas coloridas à mão, desenhando. Agora ela fitava o reflexo do pai no espelho, enquanto ele terminava de abotoar a camisa social branca que vestia.
- Hallie me contou – Harry disse.
- Eu nunca mais vi a vó Jane também – Zoe comentou. – Quando você vai me levar para vê-la?
- Ela estará em Londres nas próximas semanas, então você pode ir visitá-la com Hermione e Chloe. – O moreno finalmente deu as costas para o espelho. – Agora dê um abraço no seu pai que está muito carente da filha dele!
Ele deitou na cama e a filha pulou em cima dele, abraçando-o. Harry riu.
- Amanhã nós vamos almoçar n’A Toca – ele avisou. – Ontem foi aniversário de Phillip e nós estávamos em York.
- Tudo bem.
- Muito bem, Zoe Morgan Potter, agora eu tenho que terminar de me vestir ou vou acabar me atrasando.
Zoe imediatamente saiu de cima do pai e ajoelhou-se na cama.
- Hermione também vai para esse lugar que você está indo?
- Ela é instrutora da Escola de Aurores, Zoe – Harry assentiu, vestindo o terno que estava sobre a poltrona do quarto. – Por que quer saber?
- Nada. – Zoe deu de ombros. – Eu não conheci a minha mamãe, mas eu queria que fosse como ela.
Harry sentou-se ao lado da filha.
- Sua mãe era uma mulher linda, Zoe – ele disse. – Linda e inteligente. Ela era uma mulher fantástica, dona de uma personalidade maravilhosa. E, tenho certeza, onde quer que ela esteja, ela está olhando por você, muito orgulhosa da pessoinha que você está se tornando a cada dia. No dia em que você nasceu, ela me pediu que eu lhe dissesse que ela te amava muito e todos os dias eu faço questão de repetir isso para você, para que você nunca esqueça dela.
- Eu também amo a minha mamãe – Zoe disse. – Mas eu também amo a Mione.
- E a Mione também ama muito você.
- Por que você não casa com ela, papai? – Zoe perguntou.
O sorriso de Harry vacilou e ele sentiu o sangue fugir de seu rosto e correr para as extremidades de seu corpo, fazendo suas mãos e testa suarem.
- Não é tão simples assim, princesa – foi tudo o que ele disse, antes de beijar o alto da cabeça da loirinha.
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- Rosa – Chloe murmurou, franzindo o cenho. – Você quase nunca veste rosa.
- Pensei que tivesse gostado do vestido – Hermione comentou e se aproximou da filha, dando-lhe as costas para que ela fechasse o zíper do vestido.
- Eu gostei, ele é lindo e ficou muito bonito em você.
- Então é isso que importa – a morena disse, sorrindo ao virar-se para a filha.
Estava usando um vestido de uma tonalidade rosa bem forte, bem justo ao corpo, todo de tafetá. Era de um ombro só e deixava boa parte das costas nuas. O detalhe do vestido era justamente o ombro, onde a peça sofria um giro de 180º de modo a franzir o tecido. Nos pés um par de sapatos dourados de tiras. Os cabelos compridos, por sua vez, estavam presos num coque bem apertado na altura da nuca.
- É melhor você ir. Está ligeiramente atrasada – Chloe disse. – 20h20.
- Ligeiramente? – Hermione repetiu e sorriu. – Até logo, minun enkeli. – Ela beijou o rosto da filha.
- Até, äiti – Chloe murmurou antes que a mãe desaparecesse diante de si.
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Tiffany pegou o telefone pela enésima vez aquela noite.
- Não acho que eles estejam acordados a essa hora – Herod disse antes de bebericar um pouco de vinho. – Lá são cinco horas a mais do que aqui, não se esqueça disso.
- É, tem razão – ela murmurou, colocando o celular novamente sobre a mesa. Se em Boston já passavam das 21h, em Londres provavelmente já passava da 1h.
- O melhor horário para ligar é pela manhã – o loiro opinou. – No seu caso, talvez seja melhor ligar à tarde, assim você consegue falar com as crianças.
O ‘casal’ estava jantando no restaurante do hotel. O vôo deles chegara a Boston duas horas antes e, embora cansados, resolveram jantar antes de finalmente recolherem-se em seus quartos.
- Você ainda pretende ir a Nova York amanhã? – Herod perguntou e Tiffany sentiu empalidecer. Havia razões por trás de sua visita aos Estados Unidos, e não se limitava somente a acompanhar o loiro.
- Se não for amanhã, irei outro dia. Temos seis dias até irmos embora, não é? – ela disse.
Herod sentia a curiosidade crescente tomar conta de si. O que diabos ela tinha para fazer em Nova York? Por que resolvera vir de última hora com ele? Ele observou-a esvaziar a segunda taça de vinho daquela noite, mas dessa vez ela bebera tudo num só gole.
- Talvez você deva ir com calma, Haase – ele alertou.
- Eu só quero comer e ir para o meu quarto, dormir – Tiffany disse enquanto pousava a taça sobre a mesa.
O jantar não demorou a ser servido. Eles comeram embalados por uma conversa amena e casual que o loiro conduzia. Tiffany não parecia desconfortável, embora, por vezes, mantivesse-se em um silêncio que parecia repleto de devaneios. Ela não sabia, mas sua expressão se modificava a cada minuto de silêncio. Seu rosto ficava inexpressivo e, em alguns momentos, até chegavam a transparecer sua apreensão. E, de alguma maneira, Herod sabia que ao mantê-la distante deles, de seus devaneios, estava lhe fazendo um bem.
- Vamos subir? – ele chamou, após algumas taças de vinho e algum esforço para que Tiffany se alimentasse bem.
A morena não havia comido nem metade do que havia em seu prato quando dissera estar sem apetite. Herod insistira e ela cedera, mas ainda assim não comera tudo. Ele estava preocupado com ela agora e sentia que havia algo que ela não estava lhe contando, mas não perguntou; não era de sua conta. Entretanto, ele estava temeroso de deixá-la sozinha. Ela realmente não parecia bem.
Ela baixou o guardanapo de pano que estava em suas mãos e colocou-o sobre a mesa. Ela suspirou – e Herod notou que ela fizera isso algumas muitas vezes durante aquelas quatorze horas em que estavam juntos.
- Vamos – ela disse, por fim, levantando-se.
Herod sinalizou para o garçom que estava deixando o dinheiro sobre a mesa e acompanhou a morena.
- Você vai trabalhar todos os dias? – Tiffany perguntou enquanto esperavam o elevador.
- Tenho uma reunião amanhã pela manhã e um almoço de negócios – ele respondeu. – Sexta à tarde eu vou a uma conferência. E domingo tenho um jantar para ir também, mas você pode me acompanhar se quiser.
- Hum – ela fez, mas nada disse.
O elevador enfim chegou e um casal alemão saiu dele, bem como um homem alto e moreno e duas mulheres visivelmente latinas. Num instante estavam no sexto andar. Herod acompanhou Tiffany até o quarto dela e deixou-a a porta.
- Boa noite – disse. – Fica bem, ok?
Tiffany esboçou um sorriso e assentiu brevemente, antes de quase despencar no chão. Herod a segurou.
- Chaves? – ele perguntou ao vê-la abrir os olhos, visivelmente tonta.
- Na bolsa – ela respondeu e sua voz era um sussurro rouco.
Herod abriu a bolsa dela com uma mão, a outra segurando firmemente a cintura de Tiffany. Passou o cartão no leitor eletrônico da porta e abriu-a. Em seguida, guardou-o em seu bolso traseiro da calça e tomou a morena no colo, como que fosse uma boneca de pano. Ao entrar no quarto, fechou a porta com o calcanhar e, para certificar-se de que ela estaria fechada, recostou-se nela até ouvir o ruído surdo da trava.
Levou Tiffany até a cama rapidamente e colocou-a por cima das cobertas. Tirou seus sapatos e puxou cuidadosamente o edredom e as cobertas, deslizando-os sob ela até que a cama estivesse desforrada. Cobriu-a até a cintura e a viu suspirar mais uma vez antes de abrir os olhos com uma careta.
- Você vai ficar bem?
- Não.
A resposta dela pegou Herod de surpresa. Ele franziu a testa e esperou que ela explicasse.
- Você já sentiu como se fosse incapaz de escolher aquilo que é o melhor para você?
Herod assentiu por um momento e sentou-se na cama.
- Às vezes precisamos escolher o caminho errado para perceber que o melhor para você foi deixado de lado – ele disse. – Você pode voltar e refazer suas escolhas. Nem sempre é tarde demais.
- A vida pode ser um pouco difícil – ela murmurou mais para si mesma do que para o loiro. – Eu só gostaria...
- O quê?
Ela não o fitava quando voltou a falar.
- Gostaria que algumas... coisas... pudessem ter sido... – e ela interrompeu-se e olhou-o nos olhos. – Diferentes.
- É, eu também.
Naquele momento, ela fechou os olhos e pareceu ter adormecido. Foi a deixa para que Herod se levantasse e saísse, mas antes que pudesse dar dois passos para se afastar, a mão dela agarrou seu pulso.
Mais uma vez surpreso, ele voltou-se para fitá-la.
- Por favor, não... – a voz dela, que já era um sussurro, morreu e ela não o fitava por muito tempo, sempre desviando os olhos. Ele esperou. – Não me deixe sozinha. Fique.
Herod hesitou, perguntando-se se ela estaria sã. Por fim, tirou os próprios sapatos sem tirar os olhos dos dela e sentou-se na cama, recostado nos travesseiros. Tiffany debruçou-se sobre seu tronco e agarrou sua camisa, fechando os olhos. Ele engoliu em seco e deixou que sua mão pousasse em suas costas. Mais uma vez ela suspirou e então sua respiração tornou-se leve e regular. Ela estava dormindo.