Acordou cedo, como de costume. O relógio sobre o criado mudo lhe fornecia todas as informações de que precisava. Sexta-feira, 22 de maio de 2009, 6h25, 69ºF (ou 20,5ºC).
Espreguiçou-se, alongando até o último fio de cabelo. Fazia muito tempo desde que dormira tanto e tão bem. Para ela era quase um milagre dormir por dez horas ininterruptas. Fechou os olhos e, sentada na beirada da cama, concentrou-se em sua respiração. Prendeu o ar por alguns instantes e depois o expirou todo de uma só vez, enfim pondo-se de pé.
Deixou que a cama se arrumasse sozinha às suas costas, sem precisar se concentrar muito nisso. Sobre o pequeno sofá que tinha em seu quarto, estava a pequena mala que aprontara na tarde anterior, bem como a roupa que deixara separada para vestir aquela manhã.
Foi para o banheiro e olhou-se no espelho. Nem sinal das olheiras que lhe eram costumeiras nas últimas semanas. Desde que solicitara uma reunião com Harry e Kingsley Shacklebolt e abrira mão de seu emprego no Quartel General de Aurores, muito de sua vida fora facilitado. Era estranho abrir mão de um sonho quando acabara de conseguir realizá-lo, mas ela se sentia muito mais parte do Departamento de Mistérios do que daquele novo departamento. E ela já era parte da Academia Internacional de Aurores, amava seu trabalho e não sentia necessidade de nada mais.
Talvez ainda sentisse falta de suas viagens. Era bom estar finalmente de volta à Inglaterra, mas agora que seus pais não estavam mais ali, não fazia nenhum sentido que ela permanecesse na Grã-Bretanha. A única coisa que a prendia ali era Chloe.
Balançou a cabeça negativamente enquanto sorria, sentindo que estava mentindo para si mesma. Não, havia mais. Era bom estar de volta para os amigos. O que seria dela sem Amy e Liah agora? E como poderia viver longe de Harry e Rony? Como conseguiria ficar um dia que fosse sem ver Zoe? Ela estava feliz ali, embora não sentisse ainda não encontrara o lugar ao qual pertencia. Se um dia pertencera àquele lugar, hoje já não pertencia mais.
Suspirou e deixou seus devaneios de lado. Jogou um pouco de água no rosto e esfregou-o, enxugando-o em seguida. Escovou os dentes e vestiu seu robe de seda. A casa estava silenciosa, o que a deixou desconfiada. Deixou seu quarto e seguiu direto para o de Chloe. Sabia que a pequena já estaria acordada, mas queria ter certeza de que ela não se esquecera de nada. E depois, ela devia estar aprontando alguma.
Encontrou a cama vazia e impecavelmente arrumada, como se não tivesse sido ocupada àquela noite. A sacola de Chloe estava no mesmo lugar em que deixara na tarde anterior, exatamente como deixara.
Desceu rapidamente as escadas, alcançando o hall num instante. Nem sinal de Chloe na sala, mas não foi preciso que ela estivesse tão perto da cozinha para ouvir a voz da filha, que conversava animadamente com Lucy.
- Huomenta, äiti – Chloe cumprimentou-a, um sorriso brincando em seus lábios.
(“Bom dia, mamãe”)
- Hyvää huomenta, tytär – Hermione retribuiu o cumprimento da filha, levemente desconfiada. – Por que está falando em finlandês agora? (“Bom dia, filha”)
- Prefere um bom dia em sueco? – Chloe brincou e Lucy riu. – God morgon, mamma – disse. – Posso falar também em alemão, francês, norueguês, italiano, espanhol, dinamarquês, galês, russo e polaco se quiser.
- Gosto de finlandês. – Hermione riu e se agachou frente à filha, brincando com a ponta do nariz dela. – Enkeli. Minun enkeli. (“Anjo. Meu anjo”)
- Rakastan sinua, äiti – a pequena sussurrou em meio ao abraço da mãe. (“Eu te amo, mamãe”)
- Rakastan sinua myös, rakkaani. (“Eu também te amo, meu amor”)
Chloe se afastou do abraço da mãe e olhou-a nos olhos.
- Sinto saudades de Helsinki – disse, e Hermione enxergou algo mais naquela declaração da pequena.
- Eu também sinto falta de Chad, Chloe, mas agora ele tem Elloe e Shawn – Hermione replicou. – Mas nós podemos visitá-lo, ou ele pode vir nos visitar sempre, também.
- Eu sei.
- Vou combinar com ele um fim de semana em York – prometeu. – Ou, quem sabe, não vamos a Helsinki? Você não está com saudades de lá?
- Quando? – Chloe perguntou.
- Podemos ir a York quando quiser, mas deixaremos Helsinki para o seu aniversário. Sei que você gosta do inverno.
- Meu aniversário é no final do inverno, mamãe.
- Ainda estará frio – Hermione pontuou enquanto Lucy terminava se servir o café da manhã. – Agora aproveite esse café da manhã maravilhoso que Lucy preparou para você enquanto eu me arrumo, ok?
- Ok – Chloe assentiu.
- E, Lucy, tente fazê-la deixar algo para mim – acrescentou para Lucy.
- É claro, Srta. Granger – Lucy sorriu.
Hermione fez uma careta para a filha e soltou um beijo no ar antes de deixar o aposento. Subiu e foi direto para o banheiro.
Não se demorou no banho e vestiu-se tão logo deixou o banheiro. Shorts brancos, uma blusa folgada num tom azul esverdeado, sapatilhas da mesma cor. Riu ao ver seu reflexo no espelho. Há quanto tempo não vestia shorts para sair? Colocou alguns cordões dourados de tamanhos e espessuras diferentes no pescoço, de modo que contrastassem com sua roupa. Deixou os cabelos longos e ondulados soltos, naturais.
Estava guardando a nécessaire na mala quando bateram à porta.
- Entre, Lucy – Hermione disse.
- Com licença, Srta. Granger – Lucy adentrou o aposento. – Vim saber se vai precisar de ajuda com as malas?
- Oh, querida, se puder levá-las para o carro para mim eu agradeceria. Ainda tenho que comer alguma coisa antes de sairmos, mas não vou demorar muito.
- Tudo bem – Lucy assentiu e deixou o quarto levando a pequena mala da patroa.
- Lucy? – Hermione chamou, antes que ela descesse as escadas.
- Sim? – A secretária estava de volta num segundo.
- As chaves do carro. – Hermione entregou-as e mais uma vez observou Lucy desaparecer.
Olhou em volta. Tudo parecia estar em ordem, e ela acreditava não ter esquecido nada. Suspirou e pegou a bolsa e os óculos escuros sobre a cama antes de rumar para as escadas. Chloe já estava no sofá, debruçada sobre o braço do estofado, a atenção voltada para algo que estava além da janela.
- Betty também vai? – perguntou, sem mover-se um centímetro sequer.
- Eu não sei, Chloe. Mas eu disse a Harry que Lucy iria, então talvez ele dispense Betty por este fim de semana.
- Pensei que tivesse dito que não sabia quando voltaríamos.
- Eu não posso faltar o evento da Escola de Aurores, querida. Terça-feira será a nomeação da nova brigada para o Quartel General de Aurores e eu sou instrutora, afinal.
- Você teria de estar presente mesmo que não fosse instrutora, não é? – Chloe fez, desgostosa.
- Se eu não fosse instrutora, estaria lá como membro da Academia Internacional de Aurores – Hermione replicou.
- Então nós voltamos segunda-feira?
- Não, nós voltamos terça-feira pela manhã. Eu só trabalho à tarde.
Hermione entraria de férias na Escola de Aurores e só retornaria ao trabalho em agosto, sempre nas manhãs das terças e quartas-feiras. Toda tarde, entretanto, ela tinha de estar no Departamento de Mistérios, coordenando pesquisas, investigações e qualquer outro trabalho que tivessem que desenvolver. Isso significava que ela só tinha tempo de ficar com a filha à noite, por três ou quatro horas, no máximo. Agora que Chloe também ficaria de férias, no próximo dia 7, poderia passar mais tempo com a pequena.
No dia anterior, fora ao Ministério pela manhã, de modo a deixar todas as orientações para os próximos três dias, uma vez que se ausentaria. Na terça-feira da semana seguinte, por outro lado, tinha um compromisso inadiável com seu trabalho.
- Vamos? – chamou, após um longo momento de silêncio que nem mesmo Chloe ousara interromper.
- Vou buscar as coisas de Daisy – a pequena disse antes de correr rumo à cozinha.
Aquele fim de semana prolongado em York era tudo com o que estava sonhando; ela precisava mesmo de um descanso, precisava passar uns dias longe da cidade e das suas preocupações.
Já não temia mais a proximidade a Harry. Perdera a conta dos almoços e jantares que compartilharam na casa dele ou na sua, sempre em companhia de suas filhas. A convivência era necessária e prazerosa. Necessária porque ela amava Zoe e porque queria manter Chloe em contato com o pai, mesmo que ela ainda não tivesse conhecimento de que ele o era; prazerosa porque, antes de tudo, Harry era seu amigo de longa data e juntos eles se divertiam muito.
Também tiveram muitos momentos no último mês na presença de Rony e Gina, relembrando os velhos tempos. E cada vez mais Hermione percebia como era difícil lembrar de Hogwarts e ignorar a história de amor que construíra e vivera com o moreno de olhos verdes; ele estava em tudo, todas as suas lembranças. Mais difícil ainda era resistir às suas investidas.
Ele a amava, e já deixara isso bem claro, assim como deixara claro que não desistiria dela. Mas ele jogava limpo, sem pressioná-la. Também não havia necessidade de ficar lembrando a ela o quanto a amava; ela já sabia disso. O que mais a irritava era saber que todas as atitudes dele, a não insistência, somente a faziam vacilar. Ele era o homem perfeito a todo momento.
Não que tenham dormido juntos novamente, mas beijos eventuais aconteciam; eles eram inevitáveis, e ela mais uma vez se provara incapaz de resistir. Foram dois desde o aniversário de Reese, o que era um número pequeno quando comparado aos vários momentos de tentação a que ele a induzia, seduzindo-a sem muito esforço. Mas se havia uma atração tão forte, por que ela não o amava? Por que não correspondia à altura o sentimento que ele nutria tão forte e abertamente por ela?
Suspirou e fechou os olhos, contendo o riso ao sentir o rabo de Daisy roçar em suas pernas. Chloe estava de volta e Lucy estava parada à porta, esperando.
- Eu odeio quando você fica quieta desse jeito – Chloe murmurou e Hermione entendeu que ela se referia ao fato de a mãe estar pensativa e seus pensamentos serem tão silenciosos.
- Você devia apreciar – Hermione disse. – Sabe, são poucos os momentos em que estará acompanhada e que não terá que bloquear os pensamentos dos outros.
Chloe fez uma careta em sinal de desgosto.
- Vê? Você mesma já está cansada de ter um turbilhão de pensamentos invadindo e atravessando os seus próprios – Hermione riu. – Agora vamos. Eu quero chegar a York antes do almoço.
E, dizendo isso, ela pôs a mão sobre o ombro da filha e a guiou para fora, com Daisy e Lucy em seu encalço.
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- Diabos! – praguejou ao saltar do carro. – Maldita reunião!
Checou o relógio de pulso pela enésima vez enquanto caminhava apressada, atravessando o pátio de cimento da escola. 14h31. E as crianças eram liberadas às 14h! Ela nunca se atrasava, e hoje acabara por atrasar-se por mais de meia hora.
Sua angústia foi acentuada pelo fato de o pátio estar praticamente vazio e ela não enxergar as crianças em lugar algum. Já estava dentro do prédio e rumava para a sala do diretor ou do coordenador, agora não importava; ela só queria saber onde eles, seus filhos, estavam.
Quando estava quase alcançando o fim do corredor, a porta da sala da diretora Williams se abriu e ela fechou os olhos, aliviada, agradecendo silenciosamente por ele estar ali.
- Ora, ora... Vejam quem chegou! – a voz aveludada soou e não trazia um traço do escárnio que ela esperava enquanto colocava Francine no chão.
- O que aconteceu, Tif? – foi Jennifer quem perguntou. – Pensamos que havia nos esquecido, então Herod chegou e tentou te ligar, mas só a secretária eletrônica atendia...
- Reunião de departamento, Jen. – Tiffany suspirou. – Foi isso que aconteceu. E só acabou há vinte minutos, mas o trânsito está uma loucura no centro, então tive que encontrar outro caminho para conseguir chegar. Você sabe que eu nunca os esqueceria.
- Herod ia nos levar em casa – Josh contou.
- Ah, ia? – Tiffany deixou seus olhos vagarem do rosto do filho para o rosto do homem loiro que acompanhava a conversa.
- Eu acabei de conseguir autorização com a Srta. Williams – Herod disse. – É claro que tivemos que falar com a Sra. Haase...
- Obrigada pela preocupação, Christow – Tiffany agradeceu enquanto pegava Francine no colo. – Acho que eu assumo a partir daqui – ela disse, sorrindo para ele. Beijou o rosto de Francine e puxou Josh para perto, afagando sua bochecha com a mão livre. Herod sorriu e assentiu brevemente. – Como vai, Anna?
- Estou bem – a pequena veela murmurou. – Agora falta pouco para Hogwarts.
Eles já estavam atravessando o corredor comprido rumo a saída.
- Ah, é claro! Jen também não fala em outra coisa! – Tiffany disse, olhando de esguelha para a irmã.
Jennifer, por sua vez, fez uma careta para ela. Tiffany riu.
- Você não estudou em Hogwarts, estudou, Tif? – Josh perguntou.
- Não, meu bem, eu estudei no Instituto Sídhe de Magia e Bruxaria – ela respondeu, paciente.
- E onde fica isso? – foi Brianna quem perguntou.
- Ninguém sabe dizer. Acredita-se que fique em algum ponto no norte da Irlanda, próximo a Carndonagh. Não é tão grande quanto Hogwarts e somente aceita bruxos irlandeses, sendo diretamente ligada ao Ministério da Magia irlandês.
Tiffany abriu a porta traseira do carro para que Josh e Francine entrassem. Jennifer abriu a porta do carona, mas permaneceu de pé, segurando-a.
- Você trabalha agora à tarde? – ela perguntou a Herod.
- Não. Estou terminando de organizar uma viagem e o chefe me liberou – ele respondeu, rindo. Tiffany sabia que o chefe era, na verdade, o pai de Herod, John Christow. – Você trabalha?
- Não. Hoje só tivemos a reunião de departamento mesmo.
- Hum – o loiro pareceu assentir para si mesmo, enquanto fitava o chão. Enfiou as mãos nos bolsos e se aproximou da morena.
Atrás de seus respectivos irmãos, Brianna e Jennifer, reviravam os olhos, levemente irritadas por estarem sendo ignoradas de pé sob o sol quente. Francine e Josh observavam a cena de dentro do carro e riam da cara das duas garotas.
- O que acha de um sorvete? – Herod convidou, falando baixo o suficiente para que somente Tiffany escutasse. – É por minha conta e eu não aceito ‘não’ como resposta.
- Tudo bem – Tiffany concordou.
- Wow, foi fácil dessa vez – ele brincou.
- Você disse que não aceitava ‘não’ como resposta, portanto, eu não posso dizer ‘não, obrigada, Christow’ – a morena retrucou.
- E se eu não o tivesse dito...
- Certamente era o que você teria – ela disse, mas seu tom era de zombaria. – Um ‘não’.
Herod sorriu.
- Eu vou para casa, as crianças têm que almoçar e tomar banho, e então eu te ligo.
- Você não entendeu – Herod deu um passo à frente, aproximando-se dela. – Estou falando de eu e você, nós.
- Ah – Tiffany ergueu as sobrancelhas, surpresa. – Claro – assentiu uma vez. – Você bebeu?
- Eu te pego às 16h – foi tudo o que o loiro disse antes de se afastar e levar Brianna consigo até o carro. E antes mesmo que Tiffany, boquiaberta e estática, pudesse fechar a boca ou a porta traseira de seu Lexus IS-F, o Mercedes ML 500 preto sumiu na esquina.
- Tiffany Maeve Haase, acho que nós já podemos ir, não é?
- Sim, Jennifer Branwen Haase, e nós já estamos indo! – Tiffany respondeu, os olhos cerrados, num tom falso de irritação.
A morena deu a volta no carro e abriu a porta, sorrindo, enquanto Jennifer fechava a cara e entrava no carro, batendo a porta com força.
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- Um mês de férias! – Gina suspirou, os olhos fechados e um sorriso enorme no rosto.
- Você podia tirar até dois meses de férias. Shacklebolt disse a você que não seria problema.
- E desfalcar o Quartel General de Aurores? – Gina lançou um olhar sério ao marido. – Não, Draco. Não mesmo.
- Você se esquece que eles terão uma nova brigada em alguns dias? Talvez você possa até vir trabalhar comigo e deixar o Ministério.
- E eu vou trabalhar em quê no escritório, Malfoy? Vou ser a esposa do chefe? – Ela deu uma risada sem humor.
- Tudo bem, não está mais aqui quem falou – o loiro disse antes de beijar uma das bochechas da ruiva. – Sua mãe não vai gostar de saber que você não ficará as férias inteiras n’A Toca – ele acrescentou, rindo, ao fechar a mala.
- Não acho que ela vá se importar quando eu disse para onde nós vamos. Talvez ela até queira ir junto – Gina comentou. – E eu faço questão de ir a Constança. Carlinhos morreria se soubesse que fomos à Romênia e não fomos visitá-lo.
Gina e Draco estavam planejando aquelas férias há muito. Todo ano eles passavam o mês quase inteiro na casa que mantinham n’A Toca. Esse ano, porém, decidiram viajar; eles passariam dez dias em Bucareste, capital da Romênia.
- Tudo bem, ficaremos uma semana em Bucareste e depois seguiremos para Constança. Não importa muito para mim, na verdade.
- Obrigada – Gina se aproximou do marido e enlaçou seu pescoço com os braços. – Quando teremos uma viagem a dois? – perguntou, cheia de malícia.
- Ano que vem viajaremos só nós dois – o loiro prometeu. – E você escolhe o lugar.
- Hum, algo como uma segunda lua-de-mel? – a ruiva arqueou uma sobrancelha.
- São dez anos de casados, ruivinha, não dez dias – Draco disse. – E então? Brasil, Grécia, França ou Itália?
- São opções tentadoras e é realmente difícil escolher, mas nós já passamos uma lua-de-mel em Veneza e já fomos a Paris tantas vezes... Nunca fui à Grécia e você sabe que eu sou louca para conhecer Creta! Mas também só fui ao Brasil a trabalho, conheci meia dúzia de ruas em Teresópolis, talvez as principais rodovias do Rio de Janeiro, o aeroporto e o Ministério da Magia brasileiro – ela murmurou e Draco riu.
- Então iremos a Creta – ele finalizou. – Em agosto próximo.
- Pensei que estivesse planejando que iríamos viajar em nosso aniversário de casamento.
- Podemos fazer uma viagem mais curta e comemorar os nossos treze anos de namoro antes disso – o loiro disse, sugestivo.
- Sabia que eu te amo, meu marido? – Gina riu e depositou um selinho em seus lábios.
- Ruiva interesseira – Draco brincou antes de beijá-la.
Gina, porém, não deixou que o beijo durasse muito.
- Melhor nos apressarmos. Ainda temos que pegar Sarah na casa de Cissa.
- Eu tenho uma proposta melhor...
- E qual seria?
- Podemos ficar aqui por mais duas ou três horas. Sarah terá companhia na casa de minha mãe por tempo suficiente para sequer lembrar de nós, então... Aproveitemos que estamos a sós. – O loiro lhe beijou o pescoço. – E nós podemos pegar nossa loirinha mais tarde. Até a meia noite, ainda é hoje. – O loiro piscou para a esposa. – Prometo que não vai se arrepender.
- Eu sei que não – Gina sorriu, marota, e avançou novamente para ele, e beijando-o com voracidade.
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Estavam na varanda da Mansão Branca e observavam as filhas brincando nos jardins com Giuly. Daisy e Embry também estavam lá, e corriam e latiam atrás deles. Sorriam, involuntária e discretamente.
- Giuly não se casou? – ela perguntou, quebrando o silêncio que já durava muitos minutos.
- Ele mora com uma mulher há oito anos, mas nunca se casaram.
- Filhos?
- Não, nenhum. Ou, como ele prefere dizer, ainda não – Harry contou, sorrindo. – Eu já lhe disse algumas vezes que ele vai acabar ficando velho e seus filhos o chamarão de vovô ao invés de papai.
Ele riu e Hermione o acompanhou.
- Ele está com quantos anos?
- Trinta e seis. Mas Cari tem trinta e diz que ainda há tempo – ele disse. – E falando nela...
Hermione viu uma mulher realmente loira atravessar os jardins de encontro a Giuly. Era alta e esguia, seus cabelos eram lisos com pequenos cachos não muito definidos nas pontas e desciam até um palmo abaixo do ombro em camadas. Ela usava uma calça jeans preta e uma camiseta de alças bem finas, aparentemente de um azul escuro – porém, Hermione descobriria mais tarde que tratava-se de uma camisa com listras bem finas azuis e pretas. Calçava um par de tênis também pretos e casuais.
A loira trocou um rápido beijo com o ‘marido’.
- Cari! – Zoe correu para os braços dela, que já estava agachada no chão. Cari abraçou a pequena e beijou-lhe a bochecha. No instante seguinte, seus olhos correram para a varanda no segundo andar e ela acenou para Harry, que retribuiu o gesto.
Naquele momento, Hermione pôde ver que ela falava com Giuly. Conseguiu distinguir bem as palavras.
- Quem é?
- Hermione. É uma Vernet.
- Não foi assim que você a citou da última vez – Cari pontuou. – Eles estão juntos de novo?
- Aparentemente não. Suba, vá cumprimentá-los.
- Tudo bem – ela assentiu e pôs-se de pé. Trocou um beijo com Giuly novamente antes de vir em direção à casa e sumir na varanda do térreo.
- O que foi? – Harry perguntou, preocupado.
- Giuly já falou a ela sobre mim – Hermione contou, virando-se para ele. – E ela quis saber se estamos juntos. Agora ela está subindo para nos cumprimentar.
- Você vai gostar dela – o moreno assegurou e puxou-a para si, beijando o alto de sua cabeça.
Cari não demorou a chegar. Ela atravessou o hall com uma elegância singular e ao passar o portal da varanda, sorriu.
- Olá – cumprimentou, os olhos verdes curiosos sorrindo como seus lábios.
- Como vai, Cari? – Harry lhe sorriu.
- Bem, obrigada. E você? Por que não avisou que viria? Eu teria vindo mais cedo.
- E prejudicar seu trabalho? Não, Cari. Giuly me disse que você estava numa sessão de fotos, então... – Harry disse. – A propósito, esta é Hermione Granger.
- Caridwen Cast. Muito prazer.
- Caridwen... – Hermione murmurou. – Deusa da Lua, a Deusa Mãe do panteão galês – enunciou. – Tem um belo nome. Posso perguntar qual o seu nome do meio?
- Erin. Caridwen Erin Cast.
- Presumo que seja irlandesa.
- Toda a família de minha mãe e da minha avó paterna. Sou uma MacCuillin. Eu e meu irmão nascemos em Limerick – Cari contou. – Mas você também não é inglesa. Quero dizer, Giuly a citou como uma Vernet.
- Ah, não, eu sou francesa – Hermione explicou e percebeu Harry rindo. – O que foi?
O moreno, entretanto, não prestava atenção à conversa das duas, mas aos jardins. Hermione e Cari se aproximaram do parapeito da varanda e olharam para baixo, onde Giuly se levantava.
- Que aconteceu? – Cari perguntou.
- Daisy derrubou Giuly – Harry explicou.
- Eu gostaria de ter visto essa cena. – Cari riu. – A propósito, a garotinha mais velha é sua filha?
- É, sim – Hermione confirmou. – Chloe.
- Ela é linda.
- Sim, ela é – a mãe concordou, quase que instintivamente, observando a filha brincar com Embry lá embaixo.
- Bem, eu vou para casa. Acabei de chegar do trabalho e estou louca por um banho!
- Volte para jantar conosco, Cari – Harry convidou.
- É claro – Cari assentiu. – Vejo vocês mais tarde!
E a loira tornou a entrar em casa e atravessar o corredor, sumindo nas escadas. Harry então se afastou de Hermione e sentou-se no sofá escuro da varanda.
- Cansado? – Hermione perguntou, sentando-se ao lado dele.
- Um pouco. Essa semana tive de finalizar uns projetos do ministro, visitar algumas locações, enfim... Foi um pouco estressante. Se Scott não tivesse tomado a frente depois, acho que eu estaria um lixo.
- Eu não posso dizer o mesmo – Hermione brincou.
- Eu sei. Mas esses são os ônus de ser chefe de um departamento tão grande.
Hermione teve que concordar. O departamento de Harry era um dos maiores do Ministério da Magia, assim como o Departamento de Cooperação Internacional da Magia, chefiado por ninguém menos que Elizabeth Newbie. Era muita gente para mandar e desmandar, muita coisa para ser resolvida e muita responsabilidade em jogo.
- Então descanse – ela murmurou e levou, hesitante, a mão aos cabelos dele, afagando-os. Ele fechou os olhos e respirou fundo, sentindo.
Hermione afastou-se um pouco e ajeitou-se no sofá, permitindo que ele pudesse deitar em seu colo. Ele voltou a fechar os olhos e riu silenciosamente.
- Parece que temos dezessete anos novamente.
- Não – Hermione negou, enquanto afagava os cabelos dele. – Não com os gritos de nossas filhas lá embaixo.
- Feche os olhos e esqueça esse fato por um minuto. O som dos pássaros, do vento balançando as árvores e os gritos das crianças farão parecer – ele disse, olhando-a diretamente nos olhos. – Vamos, feche!
- Tudo bem! – Ela sorriu e obedeceu.
Harry ficou a observá-la por um instante. O vento mexia levemente com seus cabelos compridos e eles dançavam em torno de seu rosto angelical. Seu rosto, suas feições, tudo estava exatamente no mesmo lugar de seus dezessete anos. Ela estava mais velha, mais madura, é verdade, mas isso não afetara a fisionomia da adolescente que ela fora onze anos antes; o tempo a preservara.
Ela abriu os olhos novamente e baixou-os para fitá-lo. Estava sorrindo.
- Então?
- Foram bons anos, os da nossa adolescência – ela murmurou.
- Sim, foram – ele concordou. – Não sente falta desses anos?
- Não. Eu acredito que eu os vivi e os aproveitei da melhor maneira que pude. Agora acho que eles devem ficar somente na lembrança. Tenho plena consciência de que eles não voltarão mais, então eu simplesmente sigo em frente e os busco quando me sinto nostálgica – Hermione respondeu, sincera.
- É, talvez você tenha razão – Harry disse, aparentemente resignado.
- Você quer saber se eu não sinto falta de você – e aquilo não fora uma pergunta. – Sim, Harry, eu sinto. E muito mais pelo fato de eu não ter podido me lembrar de você antes.
- No entanto, isso não é suficiente para você voltar para mim.
- Harry... – Hermione parou de afagar os cabelos dele.
- Shhh... – O moreno levou os dedos até os lábios dela, calando-os, e sentou-se, deixando o rosto à altura dela. – Não diga nada.
- Não, Harry, eu preciso dizer. – Hermione engoliu em seco. – Isso seria suficiente para eu voltar para você se todos esses anos não tivessem passado, se tanta coisa não tivesse acontecido. – Ela desviou os olhos dos dele por um momento e puxou mais ar do que seus pulmões podiam suportar. Expirou logo em seguida e voltou a olhar para ele, os olhos marejando. – Mas tanta coisa mudou, Harry. – Agora ela fechou os olhos, concentrando-se em espantar as lágrimas. – Tudo o que eu te pedi... Tudo o que eu te peço é um pouco de tempo. Você tem sido compreensivo, paciente comigo, e eu entendo que você esteja cansado de esperar por mim...
- Hermione...
- ... você tem sido o homem perfeito! Cavalheiro, romântico, amigo... E eu me sinto horrível por estar fazendo isso com você, mas eu não poss...
Ela não pode continuar, sendo interrompida pelos lábios do moreno sobre os seus. De início, ela não reagiu, surpresa pela atitude dele. Após o choque inicial, entretanto, cedeu e ela própria avançou. O beijo era urgente, feroz e intenso o suficiente.
Porém, antes que pudessem descontrolar-se, Hermione ouviu pés arrastarem-se no tapete da entrada no andar debaixo e ficou alerta. Ao ouvir passos nas escadas ela afastou Harry gentilmente.
- Chloe estará aqui em menos de trinta segundos, então... Acho melhor nós... – Contou até dez.
- Mamãe? – a voz de Chloe soou, ainda no corredor. Hermione engoliu em seco, mordeu o lábio inferior e fechou os olhos, recompondo-se.
- Sim, querida? – respondeu, os olhos ainda fechados.
Hermione contou até dez mais uma vez e então a cabeça de Chloe apareceu à porta.
- Giuly nos chamou para ir passear com ele nas ruínas da cidade, então eu vim saber se vocês não querem ir também.
Os olhos de Hermione correram para o rosto de Harry, que o tinha baixo, os olhos cobertos por uma de suas mãos. Ele os esfregou antes de desviá-los para Chloe. Hermione controlou-se para não rir e chamar a atenção da filha.
- Chloe, hoje não. Mamãe está cansada e o sol ainda está forte. Se você quiser ir, sem problemas. Mas leve o seu protetor solar e um boné, tudo bem?
Chloe suspirou, resignada.
- Tudo bem, mamãe – disse e veio dar um beijo na mãe antes de sumir novamente pelo corredor.
Hermione esperou que ela estivesse longe o suficiente para tornar a falar.
- Você disfarça muito mal, Harry! – disse.
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- Aqui está. Uma bola de chocolate e uma bola de crocante. – Ele entregou o cascalho com sorvete para a morena.
- Obrigada – ela agradeceu e tomou logo uma colherada.
- Essa cor cai muito bem em você. Contrasta com sua pele – ele comentou, apontando para a blusa vinho que ela vestia.
- Eu gosto dela. Da cor e da blusa – Tiffany disse. – Eu... hum... obrigada de novo.
- Não me agradeça por simplesmente dizer a verdade – Herod replicou.
Houve um momento de silêncio um tanto incômodo.
- Desculpe por estar sendo tão irredutível. Eu acho que não tenho lhe dado o tratamento que merece. Você sempre me trata tão bem e está sempre tentando ser gentil e eu... – Ela balançou a cabeça negativamente. – Bem, eu fico feliz que não tenha desistido de mim – Tiffany disse. – Que não tenha desistido de tentar se aproximar de mim, quero dizer. Sabe, você até é um cara legal.
Herod riu.
- Hum... Obrigado?
- É, acho que isso foi um elogio. – Tiffany riu também. – Então... Você disse que ia viajar... – ela começou e ele assentiu. – Hum... Para onde?
- Vou a Boston a negócios semana que vem.
- Whoa, de volta ao país natal! Vai visitar Ohio e Chicago também?
- Talvez. Mas não acho que vá sobrar muito tempo para isso. Mas no Natal eu irei, muito provavelmente.
- Quando você for a Dubai, me avisa – Tiffany riu.
- Em agosto – ele disse, de pronto.
- Perdão?
- Vou a Dubai em agosto – Herod repetiu. – Fechei ontem um contrato com uma empresa dos Emirados Árabes com sede em Dubai.
- Isso é um convite? – Tiffany fez, sorrindo, porém descrente e desconfiada.
- Só se você quiser.