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41. Capítulo XLI


Fic: Harry Potter e a Wendelin Phoenix.


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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 O dia amanhecera ensolarado, porém não muito quente naquela quinta-feira de maio. Era dia 7 de maio, mais precisamente, e mais parecia que estavam em plena manhã de fevereiro.


Passaram-se vinte dias desde a festa de aniversário de Reese sem maiores acontecimentos, excetuando-se, talvez, o aniversário de Charlotte, filha de Luna e Zabini, e a viagem que fizera à Venezuela e à Grécia para realizar o seu ‘trabalho’.


Ela não encontrara Harry e o restante dos amigos muitas vezes, embora estivesse sempre na companhia de Liah e Amy, mesmo que para um almoço ou uma simples visita de rotina. As três eram inseparáveis, exatamente como Aaron previra que seriam.


- Pensei que teria vindo antes – uma voz disse às suas costas.


- Eu estive ocupada. Tive muito o que resolver, minha vida estava um caos.


- Aposto como vai estar ainda mais ocupada daqui para frente.


- Mais ou menos. Eu trabalho os três turnos agora, e em lugares diferentes, então fica difícil conseguir alguma folga.


- Você não precisa disso, Granger – Pansy Parkinson sentou-se no banco à sua frente.


Hermione viera, enfim, visitar Pansy e agora estavam as duas conversando nos jardins da clínica psiquiátrica em que ela estava internada.


- Você sabe que é inteligente, que é capaz, e não precisa provar isso a mais ninguém – Pansy continuou. – No seu lugar eu somente aceitaria trabalhar três turnos se eu fosse chefe de alguma coisa. Não desperdiçaria minha competência recebendo ordens.


- Espero que possa tomar isso como um elogio. – Hermione sorriu, desconcertada.


- Você é funcionária da Academia Internacional de Aurores, certo? – Pansy perguntou e Hermione assentiu. – Então! Você instrui, já é uma superior. Eu só não entendo... Por que trabalhar como auror no Ministério agora que o que ameaçava a sociedade bruxa não está mais à solta?


Hermione não respondeu.               


- O melhor lugar para você seria o Departamento de Mistérios. É lá que pessoas como você devem estar. E talvez você esteja, embora não possa se vangloriar disso – Pansy disse enquanto fitava um ponto mais distante do jardim. Seus olhos voltaram a fitar Hermione. – Eu não realmente não entendo... Ser um Inominável é um status que qualquer bruxo gostaria de alcançar. Um cargo tão almejado e sem nenhum reconhecimento! As pessoas só sabem que você é um deles depois que você já não está mais lá. Você nem mesmo conhece as pessoas com quem trabalha! Que sentido isso faz?


Hermione sentia a verdade nas palavras de Pansy... Palavras que ninguém proferira; verdades que ninguém questionara.


- Hum, desculpe. Eu... acho que acabei falando demais – Pansy riu.


- Não, eu... eu concordo com você. Acho que seu ponto de vista está corretíssimo! – Hermione disse. – Eu estou trabalhando no Quartel General de Aurores há apenas uma semana e meia e... Bem, é bem diferente do que eu esperava. Nada acontece e eu gosto de movimento, de agir – ponderou. – Sabe, acho que meu trabalho na Escola de Aurores tem mais ação do que o meu trabalho no Ministério. – Riu.


- Granger, você é funcionária da Academia Internacional de Aurores, só isso já a torna uma auror mais importante do que se possa imaginar. Você está dentro, e uma vez dentro, o céu é o limite.


Hermione não disse nada. Ficou pensando por um instante no que Pansy dissera.


- O que acha de darmos uma volta? – sugeriu após vários minutos de silêncio.


- Gosto da idéia. – Ela pôs-se de pé e acompanhou Hermione.


- E então, como têm sido os seus dias aqui?


- Agradáveis em sua maioria, mas alguns deles ainda são muito difíceis. Eu ainda não sou Pansy em tempo integral – contou. – Uma delas domina com muita facilidade e abre espaço para a outra.


- Perlla, não é?


Pansy engoliu em seco e baixou os olhos para encarar as próprias mãos.


- Sim – respondeu, por fim. – Dr. Horatio Lefèvre disse que elas vão ceder quando já tivermos avançado nas sessões de hipnose. Mas ele também disse que isso pode levar anos...


- Você não deve se preocupar com isso. O tempo é mesmo necessário, e é o seu maior aliado agora. E depois, Pansy, você tem pessoas que a amam lá fora e que vão sempre estar te dando o apoio necessário para você superar tudo isso.


- Queria poder acreditar nisso.


- Pansy, seu pai não tem vindo vê-la? – Pansy assentiu. – E Herod? – Ela assentiu de novo. – E eu estou aqui também. E virei sempre que puder. Eu prometi que a acompanharia durante todo o seu tratamento, e vou cumprir minha promessa.


Hermione continuou conversando com Pansy por mais uma hora. Ela a compreendia, e principalmente compreendia o que Pansy queria dizer através das palavras “queria poder acreditar nisso”. Pansy já tinha pleno conhecimento que o tratamento podia durar muito mais do que se esperava e tinha medo de ser esquecida ali. Ela sabia que não fora a melhor filha ou amiga nos últimos anos e isso somente aumentava os seus temores. Ela questionava-se sempre se seu pai ou Herod não haviam deixado de amá-la depois de tudo o que ela fizera.


A conversa que tivera com Pansy lhe dera muito o que pensar, principalmente a respeito de suas escolhas. Mas o que mais a deixou balançada foram as palavras da despedida.


- Eu tenho que ir agora – Pansy anunciou ao ver uma enfermeira se aproximar e sorrir para ela.


- Eu sei. Eu também.


- Escute, Granger... Eu soube que você tem uma filha. Bem, Dr. Paul Lefèvre, deixou escapar isso numa das visitas que me fez... – contou. – Eu sei que isso não é da minha conta, mas...  ela certamente precisa muito de você, muito mais do que ela imagina e do que demonstra precisar. Eu só... – Pansy pausou, parecendo escolher as palavras. – Olha, não deixe que o trabalho a impeça de curtir sua filha. E isso não é um conselho de amiga nem nada parecido, mas um conselho de uma filha que não teve uma mãe presente.


Ela não esperou que Hermione respondesse para se afastar. E, quando já estava relativamente longe, voltou-se para encarar Hermione uma última vez. Acabou retornando.


- Obrigada por vir. É sempre bom conversar com alguém que não seja médico ou louco – agradeceu e sorriu. Hermione apenas assentiu e retribuiu sorriso. E, quando Pansy já se afastara, virou-se mais uma vez para acenar e Hermione, ainda pensativa, retribuiu o gesto.


---


- Bom dia, senhor – Harry cumprimentou ao entrar na sala de Gérard Glenn. – Mandou me chamar?


- Bom dia, Harry – o ministro pôs-se de pé para que apertassem as mãos por sobre a mesa. – Sim, pedi que viesse. Sente-se, por favor.


- Eu vim o mais rápido que pude.


- Sim, eu pude perceber. – Glenn sorriu. – Cynthia tem se provado muito competente. Fez uma boa escolha. Ela é uma secretária como não se vê muito hoje em dia. Eficiente.


- É, Cynthia não tem medo de trabalho – Harry comentou, rindo. – E então, Sr. Glenn, há algo em que eu possa ajudar?


- Eu somente queria falar a respeito dos progressos que estamos obtendo com os projetos novos.


- Ah, é claro. Conseguimos algumas áreas muito boas, e outras razoáveis, para instalarmos os vilarejos. Também enviei alguns de meus melhores funcionários para fazer entrevistas com as famílias de nascidos trouxas. Todos, até agora, parecem bastante cientes de que devem manter em segredo a nossa existência.


- E os obliviadores?


- Já estão trabalhando também. Não existem muitos casos em que sua interferência é necessária, mas já resolvemos a grande maioria deles.


- Isso é muito bom. – Glenn deixou escapar um suspiro. – No final de março nós estivemos estudando alguns registros e algo realmente me preocupou.


- E presumo que seja algo muito sério.


- Se tornou sério a partir do momento em que constatei que a Srta. Parkinson estava certa em suas colocações – o ministro comentou. – Ela estudou cada detalhe antes de nossa última reunião com a Corte Suprema.


- A que, exatamente, estamos nos referindo, ministro? – Harry franziu o cenho em sinal de confusão.


- Nos últimos dois anos, Harry, tivemos, só na Grã-Bretanha, quatrocentos e sessenta e três nascimentos de bruxos cuja origem é trouxa. Nesses dados, é claro, somente quatorze por cento dos casos são de famílias puramente trouxas, o que significa que os outros oitenta e seis por cento são provenientes de casamentos entre trouxas e bruxos – Glenn revelou. – Pondo esses dados em números mais exatos, temos trezentos e noventa e oito novos bruxos que são mestiços, ou seja, trezentos e noventa e oito pais ou mães de bruxos que não são bruxos. Novamente chegamos a um número alarmante: somente sessenta e cinco famílias que sabem de nossa existência em condições que não podem ser evitadas.


- Eu não entendo aonde pretende chegar, senhor.


- Harry, talvez o controle de casamentos deva mesmo se tornar parte de nossa realidade, porque se esse ritmo for mantido, em poucos anos teremos nosso mundo exposto e isso nos acarretará conseqüências terríveis. Não acho que muitas famílias poderão suportar uma nova ‘caça as bruxas’ como a que convivemos na época da Santa Inquisição.


- Desculpe, Sr. Glenn, mas eu tenho que discordar do senhor – Harry se colocou. – Se nós tomarmos todas as medidas de prevenção já iniciadas, mesmo que haja um crescimento acelerado de casamentos entre bruxos e trouxas como o nós estamos vivenciando, somente o núcleo familiar tomará consciência disso. Não há motivos para tal preocupação. As coisas permanecerão exatamente como estão, a diferença é que teremos mais famílias sabendo de nossa existência. E, se me permite dizer, temos escolas bruxas que mantêm uma relação bastante estreita com essas famílias e que tomam para si o dever de explicar que seus filhos não são aberrações, apenas diferentes – disse.


Gérard Glenn nada disse, ainda ponderando sobre as últimas palavras do chefe do Departamento de Execução das Leis em Magia.


- Vamos encarar os fatos de uma maneira diferente. Estabelecer esse controle seria o mesmo que dizer a um búlgaro que ele não deve se casar com uma americana, ou a um sueco que ele não pode se casar com um inglês. Eu, por exemplo, seria impedido de casar com as únicas mulheres que amei na minha vida se houvesse esse tipo de controle, uma vez que a mãe de minha filha era finlandesa e sempre fui apaixonado por uma francesa – Harry exemplificou. – Entende o que eu quero dizer agora, senhor?


E Harry sabia que ele entendia, uma vez que a mãe de uma das filhas de Glenn era brasileira, cujos pais eram de nacionalidades também diferentes – mãe brasileira e pai alemão. Além dos casos dele próprio e do ministro, outras tantas famílias que viviam na Grã-Bretanha foram formadas de tal maneira, inclusive amigos próximos.


- Enquanto tivermos controle sobre essa situação, ministro, uma intervenção do Ministério da Magia não será necessária.


- Espero que você esteja certo – Glenn disse. – A propósito, Harry, você não me contou que Pansy Parkinson tinha pedido demissão.


- É, faz pouco mais que três semanas. Parece que ela tirou umas férias prolongadas – Harry respondeu o mais superficialmente que pôde. – Acho que não teremos problemas com ela por algum tempo.


- E com o bruxo assassino também, segundo me disseram – o ministro pôs-se de pé e deu a volta na mesa, caminhando pela sala. – Elizabeth Newbie esteve aqui e disse que vocês finalmente tinham pegado o bruxo assassino.


- Elizabeth Newbie? – Harry perguntou, surpreso. Como diabos ela soubera?


- Sim, ela esteve aqui há três semanas para me contar a novidade e de novo na última terça-feira acompanhada por Hermione Granger e Tiffany Haase, e citaram seu nome e os de Amy Mackenzie, Isabella Wood e Herod Christow. Bem, estamos negociando com a Echo Magazine a matéria que será feita acerca do caso e vocês serão chamados para uma sessão de fotos e entrevista com Evanna Powter e o pessoal dela.


- Eu, hum... – Harry engoliu em seco, ainda digerindo a informação. – Claro, senhor.


O telefone tocou e o ministro atendeu antes mesmo do segundo toque.


- Sim, Meredith? – disse. – Claro, diga que eu irei recebê-la. Obrigado.


- Acho melhor eu ir – disse Harry quando Glenn recolocou o telefone no gancho.


- Conversamos depois. – Gérard Glenn trocou um breve aperto de mãos com Harry e voltou a sentar-se em seu lugar.


Harry já alcançara a porta e a abrira. Por pouco não recebera um tostão.


- Calma, eu juro que não fui eu – ele brincou ao ver de quem se tratava.


Hermione desviou os olhos rapidamente e mordeu o lábio inferior, contendo o riso e a surpresa. Voltou a fitá-lo e sorriu, os olhos iluminando-se junto ao sorriso.


- Olá, Harry.


- Entre, ele está te esperando – Harry disse e piscou para ela antes de afastar-se para que ela pudesse passar.


- Obrigada – ela agradeceu.


- Por nada. Nos vemos mais tarde.


- É, nos vemos mais tarde – ela concordou e sorriu novamente antes de fechar a porta atrás de si.


- Bom dia, Srta. Granger. A que devo a visita?


- Eu só queria conversar com o senhor. É a respeito do meu departamento.


- E, presumo, não estamos falando do Quartel General de Aurores.


- Não, senhor. Certamente que não. – Hermione sorriu antes de assumir uma postura séria e profissional. – Refiro-me ao Departamento de Mistérios.


Gérard Glenn empalideceu. Nunca tivera que tratar daquele assunto desde que assumira o cargo de Ministro da Magia.


- Algum problema, Srta. Granger?


- Não – ela negou. – Não exatamente, ministro. – Ela deixou escapar um suspiro pesado. – Na verdade, senhor, como chefe do departamento, eu gostaria de fazer algumas reivindicações.


O ministro esperou.


- O senhor sabe que desde que assumi o lugar de Ariane, em novembro passado, não houve novas admissões ou demissões. O último funcionário admitido no Departamento de Mistérios foi Hallie Priestly, quatro anos atrás.


- Srta. Granger, essas informações são sigilosas, a senhorita não deveria fornecê-las nem mesmo a mim.


- Perdoe-me a indelicadeza, senhor, mas eu não preciso que me digam como fazer o meu trabalho. E eu sei as normas a que tenho que seguir – ela disse e o ministro pigarreou enquanto mexia-se desconfortavelmente em sua cadeira. – O caso é que eu acredito que pessoas que trabalham há tanto tempo juntas deveriam saber com quem estão trabalhando. E, se me permite dizer, penso que dessa forma seria muito mais fácil – e agradável – termos bons resultados em nossas pesquisas e investigações. Além disso, não seria necessário haver um horário de trabalho específico e individual. Poderíamos, enfim, trabalhar em equipe, como em todos os outros departamentos.


- Bem, isso é diferente do que os chefes anteriores pensaram, e pode ser arriscado também.


- Eu sei bem dos riscos, ministro, mas eu não vejo por que não arriscar. Não estou propondo que divulguemos os nomes dos Inomináveis, afinal, o nome já diz... somos Inomináveis. Eu apenas estou sugerindo que eles tomem conhecimento uns dos outros e, mesmo que não precise de sua autorização para isso, gostaria que o senhor estivesse ciente do que penso.


- Se você acredita que isso será bom para o departamento, Srta. Granger, digo que confio em você.


- Obrigada, Sr. Glenn. – Hermione pôs-se de pé. – Vou fazer jus a essa confiança que o senhor deposita em mim.


- Não tenho dúvidas disso. – Glenn também se levantou, sorriu e cumprimentou Hermione por sobre a mesa. – Até breve, Srta. Granger.


- Até – Hermione disse antes de sumir porta afora.


---


- Eu fui com mamãe para York em fevereiro – Chloe contou. – Foi a última vez que fomos.


- Faz tempo que papai não me leva também – Zoe comentou. – Desde que vovó Katine foi morar no céu com a minha mamãe. Ela era minha trisavó, sabia?


- Quantos anos ela tinha?


- Noventa e nove! – Zoe contou, orgulhosa.


- É, vovô Armand, que é meu bisavô, tem só oitenta e um. E vovó Marion, minha bisavó, tem setenta e seis – Chloe murmurou. – Sabe, ela sempre me diz que é muito nova para ter uma bisneta de onze anos. – Riu. – Mas todas as mulheres da minha família casaram muito cedo e, em conseqüência disso, tiveram filhos muito cedo também. Só vovó Jane é uma exceção.


- É?


- É. Lembra da história que ela contou? Até mamãe, tia Hil e tia Ash nascerem, a família Vernet originou somente duas mulheres: tia Aimée e vovó Jane. E antigamente os homens desposavam mulheres muito mais novas do que eles, assim elas lhe dariam mais filhos. Não foi o caso de nossa família, que é bem pequena, com gerações curtas... em sua maioria, somente um herdeiro por casal – Chloe explicou. – Vamos começar por vovó Marie, minha quinta-avó. Ela se casou quando tinha somente quatorze anos, e vovô Vincent tinha vinte e um. Depois veio vovó Rose, que se casou com dezesseis em 1898. Então temos vovó Sylvie, vovó Marion e vovó Jane, que se casaram com quinze, dezenove e vinte, respectivamente.


- E a Mione, que não casou ainda.


- É, ela não casou – Chloe murmurou, desgostosa.


- Mas ela era nova quando você nasceu – Zoe pontuou.


- Sim, tinha dezenove anos – concordou. – Dezenove anos, quatro meses e dezoito dias. Eu mesma fiz as contas!


- Uau! – a loirinha exclamou, admirada, e Chloe riu.


- Garotas? – uma voz grave se fez presente, interrompendo-as.


Zoe estava debruçada na beira da cama observando Chloe que, sentada no chão, resolvia uma de suas Crosswords. Passaram boa parte da tarde no quarto de Zoe, e os pratos e copos do lanche que Betty servira duas horas antes ainda estavam ali, sobre a cômoda.


As atenções delas voltaram-se imediatamente para o novo visitante.


- Papai! – Zoe sorriu enquanto sentava-se na cama.


- Olá, Harry – Chloe cumprimentou, também sorrindo.


O moreno sorriu para as duas e adentrou o quarto. Passou por Chloe e afagou-lhe a bochecha antes de sentar-se na cama da filha e tomá-la no colo para, então, depositar um beijo demorado em sua bochecha.


- Quer dizer que vocês passaram a tarde aqui e esqueceram Embry lá embaixo? Ele estava na beirada da escada choramingando, mocinha. – Harry brincou com a ponta nariz arrebitado da filha usando o dedo indicador.


- Você disse que eu não posso trazer ele para o quarto – Zoe se explicou. – Por que chegou cedo hoje?


- Cedo? São 18h. Já escureceu e tudo! Você queria que eu trabalhasse até que horas, projeto de gente? – O moreno deitou a filha na cama e pôs-se a fazer cócegas em sua barriguinha.


Chloe admirou a cena, sorrindo, enquanto Zoe gargalhava. Quando ele finalmente parou, beijou-lhe novamente a face várias vezes e voltou-se para Chloe.


- E você, Chloe? O que estava fazendo aí?


- Palavras cruzadas.


- Ah, você gosta de palavras cruzadas? – Harry pareceu surpreso.


- Sim – Chloe respondeu.


- Ela tem um monte de revistinhas. Você precisa ver o quarto dela, papai! – Zoe disse, admirada.


- Um dia ela vai me mostrar, não é, Chloe? – Harry piscou para ela.


- Claro! Quando você quiser – Chloe sorriu.


- Muito bem, agora que já combinamos a minha visita à coleção de revistinhas Crosswords de Chloe e eu já beijei muito a minha filha, eu vou para o meu quarto tomar um bom banho. Depois nós descemos para jantar, ok?


- Você podia jogar aquele jogo das palavras com a gente, papai – Zoe sugeriu. – Antes do jantar.


- Depois do jantar – Harry disse, em tom de súplica.


Zoe revirou os olhos e Chloe riu silenciosamente mais uma vez.


- Tudo bem, depois do jantar – concordou.


Harry sorriu para a filha e afagou a sua cabeleira loira, beijando o alto de sua testa em seguida.


- Até daqui a pouco. – Ele se levantou e acenou para as duas antes de sumir pelo corredor escuro.


- Seu pai nunca se casou, Zoe? – Chloe perguntou, curiosa, ao ouvir a porta do quarto de Harry se fechar.


- Não, não – Zoe negou, balançando a cabeça freneticamente enquanto respondia. – Tia Hall contou que ele ia se casar com minha mamãe depois que eu nascesse, mas minha mamãe foi para o céu logo depois que eu nasci, então ele não casou com ela.


Chloe pensou naquilo por um instante. Harry era um homem bonito, rico e educadíssimo, e provavelmente teria dezenas de mulheres fazendo fila à sua espera. Será que ele nunca se interessara por nenhuma mulher depois que a mãe de Zoe morrera?


Ela vira fotos de Karen Priestly, várias delas. E talvez nem precisasse, uma vez que conhecia Hallie, sua irmã gêmea. Era uma loira belíssima e, segundo sua mãe, inteligentíssima. Talvez nenhuma outra tivesse sido interessante o suficiente para ele e, por isso, ele não se apaixonara novamente. Mas ele nunca teria cogitado a idéia de dar uma mãe a Zoe?


A menininha não parecia demonstrar sentir falta de uma, por mais incrível que isso parecesse. Ela tinha Amy e Hallie para suprir qualquer necessidade relacionada a isso, bem como Molly Weasley, Alissa Black e Morgan Priestly, sua avó e mãe de Karen e Hallie. Mas o fato de ela não demonstrar não significava que ela não gostaria de ter uma.


Ela própria, Chloe, gostaria de ter um pai, embora Chad e seu avô sempre estivessem tentando amenizar a falta que a figura paterna fazia em sua vida. Chad agora tinha sua própria família e, mesmo que ligasse todos os dias à tarde para saber dela e de Hermione desde que as deixara em Helsinki exatamente quatro anos antes, já não era a mesma coisa. E seu avô... bem, ele era apenas avô, e ela era sua única neta, então ele podia amá-la e mimá-la a vontade.


Suspirou. Um dia, quem sabe, ela não conheceria seu pai? Amy lhe dissera que o conhecia, e prometera apresentá-lo a ela. Então um pensamento lhe ocorreu: ela estivera em duas festas e fora apresentada a tantos amigos antigos de sua mãe... Será que ela já não conhecera seu pai? Sim, porque ele podia muito bem ser um deles. Mas e se nem mesmo seu pai soubesse de sua existência? Era uma idéia válida, uma vez que sua mãe não lembrava quem era seu pai.


Resignada, deixou seus devaneios de lado e tornou a concentrar-se nas palavras cruzadas que já estavam resolvidas pela metade.


- Você vai ficar aqui hoje? – Zoe perguntou.


- Provavelmente não. Já dei muito trabalho ao seu pai fazendo-o me pegar na escola.


- Não acho que ele tenha se importado – a loirinha comentou. – Ele tinha mesmo que me pegar na escola.


Chloe riu.


- Ele saiu do caminho dele para me pegar. Lembre-se que não estudamos na mesma escola. E depois, tenho certeza de que mamãe vai querer que eu volte para casa hoje. Ela certamente vai prometer que eu virei no fim de semana – disse. – É isso que ela sempre faz.


- Falando de mim, Chloe? – Hermione perguntou, interrompendo a filha.


- Ela pode voltar no fim de semana? – Zoe adiantou a conversa.


- É claro, Zoe – Hermione assentiu, sorrindo. Atravessou o quarto e pegou a loirinha no colo. – Vou combinar tudo com seu pai, certo?


- Ok.


Hermione beijou a bochecha da garotinha e colocou-a de pé na cama novamente, ajoelhando-se para ficar ao lado da filha e beijou o alto de sua cabeça.


- Vamos? – chamou.


- Não – uma voz às suas costas respondeu. – Vocês ficam para o jantar – sentenciou e Hermione abriu a boca para contestar. – E não adianta recusar; eu já mandei Betty colocar mais um prato à mesa para você, Hermione.


Hermione soltou um suspiro pesado e ensaiou um sorriso.


- Tudo bem – concordou, por fim.


- Ótimo. Vamos descer, então? – o moreno perguntou, sorrindo, presunçoso.


- Claro – Hermione assentiu e se levantou, sendo acompanhada por Chloe.


Eles deixaram que as meninas fossem à frente. Harry esperou que Hermione passasse à sua frente para então segui-las.


Já sentados à mesa, minutos mais tarde, conversavam animadamente.


- Papai, Chloe pode passar o fim de semana aqui com a gente? – Zoe pediu.


- É claro que pode, querida – Harry respondeu enquanto descansava os talheres no prato. Pegou o guardanapo de pano e levou-o aos lábios, limpando qualquer resquício de comida, molho ou bebida que pudesse ter restado ali. – A mãe dela é quem precisa deixar.


- Eu prometi a elas que iríamos combinar tudo e que Chloe viria – Hermione retrucou.


Chloe e Zoe entreolharam-se e trocaram um sorriso satisfeito.


- Podíamos fazer algo diferente qualquer fim de semana desses – o moreno sugeriu.


- E o que você propõe? Um piquenique? – Hermione brincou.


- Não, nós já fizemos isso – foi Chloe quem respondeu. – No fim de semana passado.


- Tem razão, Chloe – Harry concordou com a garota. – E... Não, não falo de um piquenique. – Ele pareceu ponderar por um instante. – Proponho que passemos um fim de semana em York...


Os olhos de Zoe iluminaram-se com a proposta do pai.


- Hum – Hermione pareceu avaliar a idéia.


- Em minha casa – Harry concluiu.


- Sem problemas, não é, mamãe? – Chloe se colocou.


- O que você me diz, Hermione? – Os olhos verdes do moreno faiscaram.


Hermione não respondeu de imediato, mas, sentindo a expectativa que Chloe e Zoe tinham acerca de sua resposta, tratou de colocar um sorriso no rosto.


- É claro, Harry. Por que não? – concordou. – Parece perfeito!


---


- ... e eu estive realmente preocupada – a belíssima mulher de cabelos castanhos e olhos também castanhos disse, os lábios se franzindo numa linha. – Mamãe parece menos animada que o normal.


- Mas você não acabou de dizer que conversou com ela, Liz?


- Eu tentei conversar com ela, papai. – Ela suspirou. – Eu pensei que vocês tivessem brigado ou algo assim, mas vocês estão tão bem!


Gérard Glenn engoliu em seco. Sim, ele e Lillith estavam bem, melhores até do que ele imaginara que ficariam depois que ela soubesse sobre Rebecca e Carson. E, de algum modo, a reação da esposa o fizera sentir-se ainda mais culpado.


Lillith pedira para conhecer Rebecca e Carson e sugeriu que ele saísse com as filhas e apresentasse Charlize à meia-irmã.


 


- É claro que eu não estou satisfeita por saber disso somente agora, Gérard, mas não quero que um deslize do passado venha a interferir em nosso casamento – Lillith disse enquanto se levantava do sofá e o rodeava. – Nossa relação sempre foi tão boa, tão franca... Eu somente gostaria que tivesse me dito antes.


- Eu sei, eu fui covarde, tive medo de que isso pudesse estremecer nosso casamento.


- E você pretendia me contar algum dia? – A mulher virou-se para encará-lo. – Eu não sei o que o fez pensar que depois de todos esses anos a minha reação seria diferente. Faz mais de vinte e seis anos, Gérard – ela murmurou. – O tempo pode curar muitas feridas, mas é incapaz de evitar que uma se abra. Não me dói saber que você dormiu com outra mulher em sua despedida de solteiro, quando você estava bêbado e não respondia por si... O que dói é saber que essa noite teve conseqüências.


Glenn a encarou, confuso.


- As dores passam, as feridas ficam. As feridas cicatrizam, mas ficam as marcas. As marcas às vezes abrem, as feridas voltam, as dores incomodam – Lillith recitou. – Eu não pude lhe dar outro filho, Gérard, ou o irmão que Charlize tanto me pediu... E, no entanto, essa brasileira, Rebecca, lhe deu uma filha. Ela deu a Charlize a irmã que ela sempre sonhou.


- Lillith, você sempre me fez o homem mais feliz do mundo – Glenn disse. – E você me deu Charlize. O que mais eu poderia pedir?


Lillith suspirou.


- Eu te amo, Ger, e isso não muda nada, nada do que eu sinto por você – ela disse. – Eu quero conhecer Rebecca e Carson e quero que você apresente Charlize à irmã dela. Quero que nossa filha saiba que tem uma irmã e quero que Rebecca e Carson saibam que eu não me oponho a elas. Agora elas são parte de nossa família também.


 


Agora o almoço em que Rebecca e Carson iriam à sua casa estava marcado para o domingo. E com elas, iriam Edward Davis e Brooke, marido e filha de Carson. Glenn sabia que Rebecca era casada e tinha mais um casal de filhos, Pieter e Kristin. Ele e Lillith os convidaram para irem ao almoço, mas ele não sabia dizer se iriam.


Glenn conhecia o marido de Rebecca. Conrad Warren era um banqueiro alemão que morava há mais de trinta anos na Inglaterra. Por ironia, Warren era seu primo em terceiro ou quarto grau, sendo filho de um primo de seu avô. Não era segredo para ninguém que o próprio Gérard Glenn era alemão, bem como sua mãe, embora ele tivesse vindo para a Inglaterra, terra natal de seu pai, com cinco anos de idade recém-completos.


- Papai? – a voz de Charlize o tirou de seus devaneios.


- Sim?


- Vê como você e mamãe estão distantes? Vê por que eu tenho que me preocupar? – Charlize suspirou. – Está acontecendo algo que eu não saiba?


- Eu estava mesmo pensando em sua mãe, querida. Desculpe-me. O que disse?


- Eu não disse nada, papai.


- Ah.


- Como é o nome deste lugar? – ela perguntou, tentando puxar assunto.


- Bistrotheque.


- É um lugar muito fino – Charlize comentou. – E eu que pensei que já conhecia todos os lugares finos da grande Londres!


- Conhece quase todos, e somente os melhores.


- É claro. – Ela sorriu. – Quem nós estamos esperando, papai? Eu estou curiosa.


- Acho que pode matar sua curiosidade, Liz. A pessoa a quem estamos esperando chegou – anunciou.


Gérard Glenn sorriu ao ver a mulher loira de olhos de olhos azuis acinzentados se aproximar, vestindo-se divinamente em seu macacão preto e comprido de um ombro só – para deixar a fada à mostra, Glenn acreditava.


Ela trazia em suas mãos uma carteira em tons de dourado e ouro velho, combinando com seus sapatos altíssimos. Usava poucas jóias, somente um cordão fino de ouro e uma pulseira também fina, bem como um ou dois anéis e a aliança. Nas orelhas, os pequenos brincos de brilhante quase sumiam.


- Boa noite – ela cumprimentou ao se aproximar, sorrindo. – Guten Abend, Vater. (“Boa noite, pai”)


- Boa noite – Charlize retribuiu o cumprimento, embora não estivesse muito satisfeita por não entender o tratamento que a loira reservara para seu pai.


- Guten Abend, mein Schatz – Glenn cumprimentou-a em alemão, sorrindo para ela. (“Boa noite, minha querida”)


- Charlize, querida, esta é Carson – Glenn apresentou. Charlize já estava de pé, pronta para cumprimentá-la. – Ela é sua irmã.

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