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38. Capítulo XXXVIII


Fic: Harry Potter e a Wendelin Phoenix.


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Já passavam das 17h quando deixou a casa de Liah. Ela queria evitar duas coisas: encontrar o marido da amiga, Scott, e atrasar-se para o encontro que combinara com Rhina e Alecia. Para sua infelicidade, falhara; embora tenha conseguido evitar Scott, já estava ligeiramente atrasada. Quando ela combinara com Rhina – ela lembrava-se –, dissera: “Amanhã ao final da tarde eu vou à agência”.


Bem, já eram 17h10 quando ela se deu conta do seu atraso. Tecnicamente, ela tinha cinquenta minutos para o ‘final da tarde’ ser ‘início da noite’. Sem mais, tirou uma cordão de ouro de dentro da bolsa e observou seu pingente. “Duas voltas é mais do que necessário”, pensou.


O costumeiro borrão girou à sua volta e... Estava feito.


Ela tinha algum tempo de folga e poderia muito bem pegar Chloe, mas sabia que se aparecesse antes das 18h teria que ficar esperando pela filha. Por outro lado, poderia ir de uma vez ao encontro de Rhina e Alecia.


Ainda parada ao lado de seu carro na rua deserta, ela aparatou.


Sorriu ao perceber que estava na sala de Rhina e que ela não estava ali. “Interessante”, pensou com um sorriso maroto brincando em seus lábios.


- ... e eu realmente espero que ela volte antes das 16h, ou eu ficarei louca!


- Ela deve estar voltando, Rhina. Frida me disse que elas iriam almoçar com a Sra. Sax.


- Tudo bem, sem problemas quanto a isso. O fato é que já são 15h18 e Alecia Mona Sax ainda não voltou! E, Ana, você já viu a quantidade de nomes que tem essa lista? São trinta novas admissões e quase todos os nomes têm três consoantes seguidas, um k ou são terminados em vic! Como ela espera que eu decore tudo isso ou não troque os nomes?


Hermione ouviu a risada de Anastasia e não conteve um riso também. Resolveu que aquela era a hora de planejar um susto para a amiga. Correu para a poltrona que ficava atrás da mesa e sentou-se, girando-a de modo a ficar de costas para a porta.


- Fique tranquila, Rhina. Você dará conta.


- Assim espero. – Uma pausa. – Ana, você poderia pedir que Dinara viesse à minha sala? Tenho que dar continuidade ao meu papel de mentora, afinal!


Mais uma risada de Anastasia.


- É claro.


- Obrigada, querida. – E a porta da sala se abriu, fechando-se em seguida.


- Parece que alguém não está dando conta dos nomes, hã?! – Hermione fez e girou a poltrona a tempo de ver Rhina dar dois passos para trás e colocar a mão no peito.


- Ai! – ela gritou. – Acaso quer me matar, Granger? Ugh...


Hermione riu.


- Desculpe, Nielsen. – Ela se levantou e foi ao encontro da amiga. – Uau, dá para ouvir seus batimentos cardíacos daqui!


- Ha ha – Rhina deu um sorriso amarelo e mostrou a língua, passando direto por Hermione e descansando o envelope na mesa. – Da próxima vez eu juro que mato você.


- E depois chora ser a assassina de sua amiga? Não, Rhina. Nós duas sabemos que você não atiraria em mim – Hermione disse, ainda em tom brincalhão. – A propósito, se houver uma próxima vez e você queira mesmo cumprir o seu juramento, aconselho que não deixe a arma dentro de sua gaveta.


- Wow, hoje você está realmente afiada.


- Obrigada, querida.


- Por nada. Só não pode tomar o meu lugar, ok? Ainda não estou preparada para ser substituída. Eu pretendo continuar sendo a serial killer mais bem humorada da Razzle Dazzle. – Ela riu. – Aceita algo? Ana e eu passamos na padaria antes de virmos e compramos uns biscoitinhos maravilhosos!


- Pode ser. Obrigada. – Hermione a viu pegar algo no armário sob a máquina de café e chocolate e colocar sobre a mesa. – Eu não sei se já disse antes, mas Razzle Dazzle me parece nome de agência de modelos.


- Esse é o objetivo, meu bem. Pensei que com seis anos de Razzle Dazzle... Aliás, pensei que tivesse percebido desde o nosso primeiro encontro que, para todos os efeitos, somos uma agência de modelos.


- Sem desfiles? Acho que as pessoas esperam que uma agência de modelos promova desfiles, Rhina.


Rhina riu e pegou uma enorme pilha de revistas, jogando-a sobre a mesa. Hermione puxou duas delas e checou as capas.


- Ah! – Recolocou-as na pilha. – É claro. Disso eu sabia.


- Modelos fotográficas. Hoje mesmo nós mandamos três das meninas novas para a I-D Magazine. Seremos capa de novo. E, bem, a grife Ultimo também está contando com cinco de nossas garotas como ‘garotas propaganda’ da marca. E Dinara assinou esta manhã com a Accessorize.


- E vocês nunca pensaram em transformar a agência Razzle Dazzle em uma agência exclusivamente de modelos?


- E quem fará o trabalho sujo que a polícia não faz? – Rhina sentou-se em sua poltrona e colocou um dos biscoitinhos na boca. – Nós gostamos do que fazemos. Uma agência mista, com modelos de verdade e assassinas de verdade... É claro que poucas são as que sabem de nossa ‘dupla identidade’, por assim dizer.


- Hum, entendo – Hermione murmurou.


Naquele momento, bateram à porta.


- Entre, Dinara.


- Com licença.


E uma ruiva de olhos extremamente azuis e cabelos de cachos impecáveis adentrou a sala.


- Dinara, deixe-me apresentar a nossa estrela. – Rhina pôs-se de pé e Hermione a acompanhou. – Esta é Hermione Granger.


- Eu ouvi muito sobre você – Dinara disse, aproximando-se e apertando a mão de Hermione. O sotaque russo da ruiva era leve e garantia uma sutil beleza em sua maneira de falar.


- Coisas boas, espero.


- Melhor impossível! – Dinara sorriu.


- Muito bem, Dinara, gostaria que você avisasse Alecia para vir à minha sala quando ela chegar. Diga a ela que Hermione já está aqui, certo?


- É claro. Hum, Rhina... Anastasia disse que você queria falar comigo.


- Oh, sim. É somente para avisar que você deve chegar cedo amanhã. Nós iremos a um centro de treinamento de tiro.


- Sem problemas.


- Perfeito. Quando Alecia chegar, você pode ir.


- Ok. Até amanhã! – disse. – Prazer em conhecê-la, Hermione.


- O prazer é meu, querida.


E dito isto, ela observou a ruiva deixar a sala.


- Ela parece ser bastante prestativa.


- Oh, ela é! – Rhina riu. – É um amor de pessoa, mas ainda tem a personalidade fraca, se é que me entende. Vinte e dois anos. Ainda tem muito que aprender.


- E você já alcançou os trinta e dois.


- Com onze anos de experiência. Mas eu não era assim quando comecei...


- Ela tem uma excelente mentora, então acho que ficará bem.


Rhina assentiu brevemente e suspirou.


- Você parece impaciente – Hermione comentou.


- Alecia.


- Ah, é claro! Algo a ver com o noivado?


- Provavelmente. Acho que a Sra. Sax veio conhecer o pretendente. Foi a mesma coisa quando Frida resolveu se casar. Ela veio e depois a filha e o noivo foram à Rússia para que ele fosse apresentado ao restante da família – Rhina comentou. – A Sra. Sax provavelmente faz parte de algum tipo de controle de qualidade.


Rhina riu e Hermione a acompanhou.


- Rhina, você não presta!


- Ora, ela deve estar realmente aliviada que Alecia tenha arranjado um homem para se casar. Acho que minha mãe ficaria muito mais próxima do satisfeita do que do aliviada. Aliviada por eu já ter trinta e dois anos e ela acreditar que já passou da hora de casar, mas por ainda não ser tão tarde; satisfeita por eu ainda ter condições de lhe dar um neto – a morena de olhos azuis continuou enquanto ajeitava os óculos de grau na ponte do nariz. – No caso de Alecia, bem... Acho que o alívio é única e exclusivamente pelo fato de ela ter resolvido casar com um homem, afinal, sua opção sexual não é segredo para ninguém. – Rhina suspirou. – Acho que o marido dela é quem vai gostar disso.


- Você tem sorte por ela não ouvir você dizer isso.


- Eu já disse isso para ela. E sabe o que ela me disse? – Rhina arqueou as sobrancelhas. – Nada! Ela deu foi uma boa risada.


- Inacreditável! Você é louca, só pode ser... Como você diz isso a Alecia Sax?


- Eu a conheço desde os meus seis anos de idade. Eu estava lá quando ela agarrou uma das líderes de torcida em pleno baile do colegial. Acho que eu poderia até mesmo dizer que ela é uma vadia sem-vergonha e lésbica e ainda assim Alecia daria boas risadas sem se importar. Ela não tem vergonha de ser o que é. E, como ela mesma diz, ser bissexual abre mais oportunidades. Se ela estiver cansada de homens e dos seres problemáticos que eles são, pode arrumar uma mulher, a qual ela compreenderia com mais facilidade e não reclamaria de seus hábitos – citou. – Mas eu vou te confessar uma coisa... Prefiro os homens e seus problemas. Pelo menos eles vêm com músculos e com aquele cheiro que só eles têm!


Hermione riu.


- E o seu vizinho?


- Ah, querida, vou sair com ele hoje à noite! Acredita que a tia dele viajou e deixou-o cuidando de seus três gatos? Pois é, eu costumava fazer isso até ele chegar. Fiquei impressionada de conhecer um homem que realmente goste de bichos. Eu o estive ajudando nos primeiros dias, explicando como fazer as coisas... Então ontem ele resolveu me chamar para jantar no apartamento dele. Ou melhor, da tia dele. E eu pensei: ah, que mal há nisso? Talvez ele queira só agradecer...


- Espera! Você disse apartamento?


- Sim, ora! Eu não te disse que tinha vendido a minha casa?


- Sim, mas também disse que já tinha comprado outra. Em Surrey.


- Oh, é claro. Mas eu tive que fazer algumas reformas, então estou morando no antigo apartamento que meu pai mantém aqui em South Kensington. É dos tempos de solteiro dele, então... Você deve imaginar a loucura que é morar em um apartamento de dois quartos com quinze cães, não?


- Ah, e como imagino! – Hermione riu.


A conversa então foi interrompida por um bipe.


- Alecia na casa – Hermione reconheceu a voz de Anastásia no alto-falante do telefone que estava sobre a mesa de Rhina.


- Já não era sem tempo! – Rhina bufou enquanto se levantava.


Foi uma questão de segundos para que a loira abrisse a porta sem qualquer cerimônia.


- Aconteceu alguma cois... – ela interrompeu-se no meio da pergunta que dirigia a Rhina, notando a presença de Hermione. – Hermione, querida! Dinara não me disse que estaria aqui... Como vai, meu bem?


“Whoa, pelo visto está com excelente humor”, Rhina pensou, evidentemente surpresa, e Hermione teve que rir internamente.


- Muito bem, Alecia, obrigada. E você? – Sorriu para a outra enquanto punha-se de pé para cumprimentá-la.


- Melhor impossível! – Alecia sorriu enquanto trocava cumprimentos com Hermione.


- Nota-se – Rhina disse em meio à uma tosse falsa, à qual Alecia não deu a menor importância.


- Já soube da novidade! Fico muito feliz por você.


- Ah, já soube? – e nesse instante ela cerrou os olhos na direção de Rhina.


- Desculpe, Alecia, querida, mas desta vez não fui eu.


- Ah, não?


- Não, foi Anastasia. Portanto, estou livre de culpa!


- Claro – Alecia não parecia muito certa do que Rhina estava dizendo, mas deixou passar. – De qualquer forma, obrigada, Hermione. E então? Rhina me disse ontem que você viria ao final da tarde. Aconteceu algo que queira nos falar?


- Na verdade, não. Eu apenas queria saber como ficarão as missões que foram suspensas...


- Não se preocupe quanto a isso. Você não precisa mais continuar com a sua missão. Suspenderam a encomenda da morte de Potter.


Hermione sentiu um arrepio perpassar sua espinha ao ouvir a frieza com que Alecia tratava aquele trabalho. Perguntara-se por que nunca a incomodara ouvi-la falando daquela maneira, mas julgou ser pelo simples fato de Harry ser um conhecido seu e tão próximo – principalmente ao ponto de ser o pai de sua filha.


- E as outras?


- O prazo será reaberto a partir de amanhã. Mas agora nós temos urgência para finalizar cada uma das encomendas. Segunda-feira é o máximo que poderemos esperar.


- O que é justo, visto que perderam dois dias por minha causa.


- De maneira alguma! – Rhina interpôs. – Ele é o pai de sua filha. Você estava apenas protegendo os seus.


- Rhina, era um trabalho como outro qualquer. Eu não podia ter questionado ou me colocado contra vocês. Infelizmente foi necessário. Se eu não tivesse me lembrado... – interrompeu o pensamento; não queria nem imaginar como se sentiria quando se lembrasse de tudo e fosse tarde demais. – Enfim, era somente isso que eu queria saber. Obrigada, meninas.


- Sabe que não há por que agradecer – Rhina disse e Alecia assentiu.


- Bem, acho melhor eu ir agora.


- Espere, Hermione – Alecia pediu. – Eu estava pensando se você não poderia assumir uma das encomendas... Uma de nossas garotas estará fazendo fotos para uma revista francesa durante todo o fim de semana e todas as outras estão ocupadas com campanhas ou mesmo com outras encomendas, então...


Hermione hesitou por um instante.


- Eu tenho até segunda-feira?


- Sim, até segunda-feira. – Alecia sorriu.


- Então eu farei na segunda-feira. Estarei ocupada amanhã e tirarei o fim de semana de folga da vida. Tive uma semana extremamente cansativa.


- É claro, eu compreendo. Sem problemas – Alecia assentiu. – Rhina, você faz as ordens?


- Com prazer – e a morena saiu da sala, puxando Hermione com ela. Atrás delas, Alecia atravessava a porta que conjugava o escritório de Rhina ao dela.


- É trabalho dos grandes, não é? – Hermione perguntou, ao perceber que Rhina mantinha o maxilar tenso enquanto caminhavam pelo amplo corredor.


- Uma quadrilha – Rhina confirmou quando chegaram aos arquivos. – São homens que trabalham com o tráfico intercontinental de mulheres para prostituição. Recebemos a informação de que eles estão vindo da Venezuela para a Grécia e terão uma conexão em Londres.


- E como vocês esperam que eu consiga chegar a eles sem que as mulheres percebam?


- Você embarcará para a Venezuela na madrugada de segunda-feira e se misturará a elas no albergue em que elas são confinadas dias antes da viagem. O endereço estará dentro do envelope, assim como as fotos dos homens.


- Quantos são?


- Três.


- Tudo bem.


- Você não entendeu... São três os que estarão trazendo as mulheres. Você terá que fazer o serviço, pegar as passagens e passaportes e vir com elas até Londres. Então você as deixará aqui e seguirá sozinha para a Grécia. Lá você encontrará o restante da quadrilha e eliminá-los-á também.


- E quantos estarão me esperando lá?


- Dois.


Hermione precisou de um momento para assimilar tudo o que tinha ouvido. Era, sem dúvida, a mais complicada de suas missões, e sabia que certamente não chegaria à Grécia na própria segunda-feira. O prazo sequer se estendia ao período necessário para executar toda a missão.


- E o prazo?


Rhina riu.


- Nós, eu e Alecia, sabemos que não há como eliminar esses homens até a segunda-feira. O vôo que partirá da Venezuela sai apenas na segunda-feira à noite, o que significa que você estará de volta a Londres somente no final da manhã da terça-feira, e deverá chegar à Grécia na madrugada de quarta, uma vez que o vôo parte à noite. Foi uma opção deles, que queriam passar as moças para trás e forjar um tour por Londres antes de chegar ao destino final.


- E aonde elas pensam que vão?


- Pergunta errada, Granger. Elas sabem que vão à Grécia, o que elas não sabem é que não é em um hotel que vão trabalhar.


Agora Hermione estava chocada demais para entender o sorriso malicioso que Rhina tinha nos lábios. Talvez estivesse rindo de seu lapso de ingenuidade.


Foi quando Rhina entregou-lhe o envelope.


- Cuide desses papéis como se fosse a sua própria vida.


- E quando eu fiz diferente? – Hermione ergueu a sobrancelha, finalmente assumindo a postura fria que sempre a dominava quando um daqueles envelopes eram postos em suas mãos.


O sorriso malicioso voltou ao rosto de Rhina e ela acenou brevemente.


- Vamos.


Quando Hermione percebeu que elas estavam voltando à sala de Rhina, parou de andar.


- Rhina, eu preciso ir.


- Sim, eu sei. E eu vou com você. Preciso fazer umas compras. Vou ao Blackheath. Você sabe...


- Não há melhor lugar no mundo para um happy hour no charmoso Blakheath – citaram juntas e riram depois.


- Tudo bem, estarei esperando.


Hermione falou rapidamente com as meninas que já conhecia e foi apresentada às novas. Rhina não demorou mais do que dois minutos para voltar.


- Vão sair juntas? – Anastasia perguntou.


- Na verdade...


- Vamos ao Blackheath.


- Por que não vem conosco, Ana? – Hermione perguntou, resignada.


Mas, pensando bem, que mal havia de ser? Ela tinha que fazer hora para pegar Chloe no clube, certo? E ela comprava suas roupas em Blackheath desde sempre. Ela tinha uma preferência inexplicável pelas roupas Whistles, que, mesmo caras, eram muito bem desenhadas e elaboradas com um cuidado impressionante, além de serem de muito bom gosto. Pois estava resolvido! Iria fazer de uma vez as compras que planejara para a tarde do dia seguinte e depois seguiria para pegar Chloe no clube. Elas iriam para casa, se aprontariam e sairiam para jantar.


- Infelizmente não vai dar. Estou preparando uns envelopes de última hora e tenho que deixá-los no arquivo antes que Frida vá embora.


- Ana, meu bem, já são 16h. Você não vai fazer muita coisa além do que já tem pronto. E eu mando aqui dentro também, tanto quanto Alecia, e tenho as chaves dos arquivos. E, não sei se lembra, nós estamos paradas até amanhã, o que significa que você pode terminar com esses envelopes pela manhã. Agora levante esse seu lindo bumbum dessa cadeira, pegue suas coisas e vamos embora de uma vez.


Hermione viu Ana hesitar, mas sabia que Rhina já a havia convencido e a arrastaria para Blackheath assim como fizera com ela. Ela conhecia Rhina o suficiente para saber que com ela ninguém pode discutir.


- Vão na frente. Encontro vocês lá embaixo.


---


Ele parou o carro defronte à casa e saltou, checando brevemente o relógio de pulso. Eram 18h. Deixara o Ministério mais tarde do que o costume. Ele e Harry estiveram durante toda a tarde resolvendo alguns assuntos com os representantes do Departamento de Execução das Leis em Magia do Ministério de Portugal.


Alcançou a porta já sentindo o alívio tomar conta de si por finalmente estar em casa. Cada vez que deixava a mulher sozinha era uma tortura.


Antes mesmo que pudesse perceber, já estava adentrando o quarto. A cama estava vazia, o que acendeu nele uma preocupação dolorosa.


- Liah?


- No banheiro. – A resposta veio de imediato.


Scott notou, então, uma foto sobre o criado mudo. Adiantou-se para pegar e analisou-a com cuidado. Por algum motivo, acreditava conhecer a garotinha que estava na fotografia, mas não se recordava no momento de onde a conhecia.


Entrou no banheiro com a foto em mãos, ainda olhando-a com cuidado.


Liah estava saindo do banho.


- Pode me dar a toalha, por favor?


- Liah, por que não chamou Nancy? Ela teria te ajudado.


- Scott, eu ainda prezo pela minha privacidade. Eu gosto de aproveitar momentos em minha própria intimidade e quero curtir a minha gravidez ao máximo que me for possível. Já basta ter que ficar o dia todo em cima de uma cama e não poder pegar nem mesmo a água que eu bebo. Acho que Nancy também merece uma folga. Ela não está aqui para ser babá de gente grande em tempo integral.


- Sabe que eu só quero que você e Mel fiquem bem, não é?


- Sim, eu sei. E ela está bem.


Scott se aproximou da mulher e beijou-a ternamente, afastando-se em seguida para acariciar a barriga da esposa.


- Você está linda.


- E redonda! – Liah riu.


Scott sorriu.


- Ainda assim, linda. – Ele voltou a beijá-la.


- Oh, pelo amor de Deus! Não me provoque. Você não sabe o estrago que os hormônios de uma mulher grávida podem causar – ela disse, os lábios ainda colados aos do marido.


O comentário fez Scott rir antes de depositar um selinho nos lábios dela e se afastar, segurando seu rosto entre as mãos.


- Eu te amo.


- Eu também amo você.


- Vou deixá-la vestir-se, ok?


- Ah, é claro. E quando eu me abaixar para vestir a calcinha ou os shorts do baby doll, Mel nasce.


- Dramática – Scott sibilou para ela, entre risos, e deixou a foto sobre a bancada do banheiro enquanto pegava as roupas para ajudar Liah a se vestir. – A propósito, quem é na foto?


- É, eu reparei que você tinha visto – Liah comentou e soltou um sonoro suspiro enquanto apoiava-se na parede e passava as pernas nos buracos das peças que o marido vestia nela.


- E quem é? – ele insistiu.


- Minha afilhada – ela respondeu. Agora Scott a ajudava a vestir o sutiã e, em seguida, a camisa do baby doll. – Eu morava com ela e com a mãe dela na Suécia. O nome dela é Chloe. Eu não a vejo desde que ela tinha apenas três aninhos. Desde então, passei a receber fotos de todos os anos dela.


- E como eu nunca vi nenhuma dessas fotos?


- Ficam todas guardadas dentro de uma caixa, com todas as cartas que a mãe dela me mandou durante todos esses anos.


- E ela lhe escreveu de novo?


- Na verdade não – Liah respondeu, um sorriso brincando em seus lábios. – Ela esteve aqui hoje com Amy.


- Ah, é?


- É. – O sorriso de Liah se desfez e ela respirou fundo após responder e levou a mão ao ventre baixo.


- Está doendo?


- Não. Foi apenas uma pontada.


- É melhor você deitar.


- Sim, é melhor – ela assentiu e acompanhou-o de volta para o quarto.


---


Ela tinha acabado de estacionar à porta de casa.


- Anjo, me ajuda com essas sacolas? – pediu quando Chloe fechou a porta do carro.


Abriu o porta-malas e pegou duas das sacolas e entregou-as à filha.


- Presentes?


- Lá dentro eu mostro – Hermione disse, sorrindo.


As duas então subiram a escadaria de mármore e ela abriu a porta, enquanto Chloe esperava pacientemente.


Durante todo o tempo que passara fazendo compras com Rhina e Anastasia perguntou-se como as pessoas estariam vestidas e, embora acreditasse que não era necessário muito luxo num aniversário de criança, sabia que numa festa promovida por Lilá, uma estilista e especialista em moda, certamente todos – ou pelo menos todas as mulheres – tentariam impressionar. Não que ela ligasse para isso, mas sempre andara bem vestida e, nos últimos anos, isso se tornara a sua marca.


- O que você fez enquanto eu estava no clube? – perguntou.


- Almocei com Tiffany e com a nossa chefe, em alguma medida – contou. – Depois passei no clube para pegar o carro que havia deixado lá e fui ao encontro de Amy. Nós fomos à casa de Liah.


- Por que não me disse? Eu teria ido com vocês! Eu também queria ver Liah.


- Você a verá amanhã à noite, tudo bem? – Hermione abandonou as sacolas no sofá e Chloe fez o mesmo.


- Tudo bem – Chloe suspirou, resignada.


Hermione então abriu a mente e deixou que a filha visse como Liah estava.


- Ela está linda – a pequena disse. – Seis meses?


- Sim – Hermione confirmou.


Houve um curto momento de silêncio.


- Sabe, mamãe, você não poderia ter escolhido ninguém melhor do que Liah para ser minha madrinha. Talvez Amy, mas aí eu não teria Liah...


Hermione sorriu.


- Liah e Amy são duas pessoas muito especiais, muito importantes para sua mãe. Cada uma à sua maneira, é claro.


- Elas são especiais para mim também. Eu as amo. Muito.


- Eu as amo muito também. E as admiro muito. – Hermione segurou as mãos da filha entre as suas e afagou as costas delas. – Amy sempre foi alguém em quem me inspirei e vejo Liah da mesma forma. Toda a sua alegria, sua paixão pela vida... E a cada dia ela tem se mostrado uma mulher muito forte, muito mais do que ela era capaz de se imaginar.


O telefone tocou e, automaticamente, Hermione estendeu a mão para atendê-lo ao primeiro toque.


- Alô?


- Herms, querida.


- Ah, oi, mãe.


- Meu bem, eu sei que agora é um pouco tarde para pedir isso, mas não haveria uma maneira de você vir me encontrar agora?


- Você quer dizer... Ir à França? Agora?


- Sim. Eu receio que tenhamos que conversar e... Bem, é importante.


Hermione não tinha mais condições de voltar no tempo. Já fora um problema ‘resgatar’ seu carro às 17h10 na casa de Liah, porque ela estava em plenas compras com Rhina e Anastasia. Fora preciso que ela fosse ao provador, aparatasse e aguardasse o momento em que a outra Hermione sumiria para que, então, pudesse pegar o carro e seguir com ele até Blackheath, onde tornara a desaparatar no provador da Whistles. No momento, estava fora de questão voltar no tempo e pegar a estrada rumo a Paris. Por outro lado, não poderia chegar até lá sem carro.


- Mãe, há um meio, mas eu não poderei encontrar você na casa de Marcia e Carl.


- Então eu a encontro naquele bistrô de sempre.


- Claro. No La Régalade.


- Em quanto tempo?


- Eu acabei de chegar em casa com Chloe – disse, ponderando. Seus olhos pousaram instintivamente no relógio que estava ao lado do telefone. 18h51. – Acho que às 19h30 está bom para mim.


- Tudo bem. Estarei te esperando.


- Eu amo você, mãe.


- Também amo você, querida.


Hermione recolocou o telefone no gancho, pensativa.


- Por que não posso ir com você? – Chloe disparou.


- Eu não sei se é algo que sua avó gostaria que soubesse, filha. Sabe que eu te levaria sem problemas, mas sua avó quer conversar comigo, e em assunto de adulto, criança não se mete – Hermione explicou. – Prometo que não demoro.


A pequena suspirou.


- Vou levar a roupa suja lá para dentro – disse e se levantou.


Hermione observou-a se retirar e ela própria se levantou, recolheu as sacolas e subiu as escadas.


Foi direto para o quarto de Chloe. Abriu duas das sacolas e deixou os dois vestidos, a bermuda jeans e a camiseta que comprara para ela dobrados sobre a cama. Só então foi para o próprio quarto. Deixou as sacolas sobre sua cama e rumou para o banheiro.


Após um rápido banho, saiu para vestir-se. Encontrou Chloe sentada na cama.


- Obrigada pelos vestidos e tudo o mais.


- Gostou de tudo?


- Sim. São lindos.


Hermione sorriu e foi de encontro ao seu armário. Pegou uma calça jeans e uma camisa social branca. Analisou-as por um momento e jogou-as sobre a cama. Abriu o sapateiro e pegou uma sandália dourada de salto altíssimo.


- Coloque aquela camisa preta por cima da branca que você pegou. – Chloe apontou. – Vai ficar bonita e mais...


- Casual – Hermione completou, entendendo o ponto de vista da filha.


- É, casual – a garotinha assentiu e a mãe não conteve o riso. – O quê?


- Às vezes você parece ter a minha idade.


- A vovó também diz isso às vezes.


- Talvez não tenha sido tão bom assim você ter crescido em meio a tantos adultos. A minha bebê desapareceu. Agora eu tenho uma mulher de meia idade no corpo da garotinha de dez anos que eu chamo de filha.


Chloe riu e observou a mãe vestir-se defronte ao espelho. Ela já estava terminando de abotoar a camisa social quando a filha lhe estendeu a camisa preta. Pegou-a e vestiu-a por cima, ajeitando a gola e dobrando cuidadosamente as mangas compridas até a altura dos cotovelos.


- Não disse que ia ficar bonita?


Hermione sentou-se ao lado da filha e beijou o topo de sua cabeça.


- Sim, você disse.


Então ela pegou os sapatos e pôs-se a calçá-los. Quando terminou, ajeitou as barras das calças e levantou-se, caminhando novamente para a frente do espelho.


- Vai com os cabelos lisos?


- É como eles têm passado a maior parte do tempo nos últimos meses, não? – Puxou o cabelo todo para trás e o prendeu num rabo-de-cavalo na altura da nuca, enrolando uma mecha de cabelo em torno do elástico.


- Eu gosto deles lisos porque ficam iguais aos meus, embora mais claros e mais compridos – Chloe deu uma risadinha. – Mas acho que ficam muito bonitos ondulados como os da vovó.


- Amanhã durante todo o dia eu o usarei ao natural, ok? Só não prometo quanto à noite – Hermione disse, encarando a filha pelo reflexo do espelho, um sorriso brincando em seus lábios enquanto ela ajeitava a franja. Virou-se para a pequena. – Agora acho melhor eu ir. Desça, solte Daisy e traga-a para cima. Fique aqui até eu voltar, tudo bem? Depois nós iremos jantar.


- Tudo bem – Chloe assentiu e se afastou um passo da mãe, que desapareceu quase que imediato.


---


Jane chegara cinco minutos mais cedo do que o combinado. Saíra de casa dizendo que iria encontrar Hermione no aeroporto, pois ela estava de passagem na cidade a caminho de Berna. Detestava mentir, mas fora preciso; não havia nenhuma desculpa plausível para ela sair àquela hora, nenhum lugar aonde fosse necessário ir.


Pegara um táxi e ali estava ela, esperando pela filha.


Viu-a adentrar o restaurante e falar algo com o maître, que acenou positivamente e fez sinal para ela segui-lo. Enfim, ela estava indo em direção à mesa onde Jane estava.


- Je crois que c’est la dame que vous êtes à la recherche, mademoiselle – o maître disse, dirigindo-se a Hermione. (“Acredito que esta é a senhora que você está procurando, senhorita”)


- Oui, elle est. Merci – Hermione agradeceu, sorrindo, e sentou-se. – Salut, maman – cumprimentou a mãe, brincando. (“Sim, é ela. Obrigada” | “Olá, mamãe”)


- Salut, chérie. – Jane ofereceu-lhe um sorriso maternal. – Comment va ma petite-fille?


(“Olá, querida” | “Como está minha neta?”)


Hermione sorriu antes de responder, agora em inglês:


- Chloe está bem. Passou a tarde toda no clube. Deixei-a em casa se arrumando. Vamos sair para jantar.


- De novo. – Jane sorriu. – Ela ficará mal acostumada desse jeito, Herms.


- Acho bastante difícil. – Hermione riu. – Eu só estou mesmo aproveitando esses dias de folga com ela. A propósito, eu viajo na madrugada de segunda-feira, então vou deixá-la aqui na casa de Carl e Marcia com vocês. – Uma pausa. – Se não for problema, é claro.


- De maneira alguma, querida. Sabe que pode deixá-la conosco sempre que necessário – Jane tranqüilizou-a. Antes de continuar, porém, ela engoliu em seco, o que Hermione não deixou de notar, antes de assumir um ar mais sério que o de costume. – Por falar nisso, Herms, Hilary deixou escapar essa noite que você e Chloe foram jantar com Zoe e o pai dela – contou.


- Sim, é verdade.


Jane ergueu as sobrancelhas.


- Eu pensei que você ainda não estivesse pronta para deixá-lo saber a verdade, querida – disse.


- Mãe, ele não sabe de nada.


- Mas ele viu Chloe. – Jane havia se inclinado para frente e falava quase num sussurro. – E os olhos... Se ele associasse isso à idade dela...


- Ele não notaria os olhos de Chloe, mamãe. Ele jamais a reconheceria como sua filha.


- Como não, Hermione? Todos notam os olhos de Chloe!


- Os olhos dela... Estavam castanhos. Como os meus – Hermione revelou, incapaz de prolongar as dúvidas de sua mãe. – “Dois poços do mais puro mel” – concluiu, repetindo as palavras que ouvira seu pai, cujos olhos eram azuis, dizer durante toda a sua vida.

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