- Você está atrasada – Chloe lembrou mais uma vez. – Eu conto no caminho.
Hermione permaneceu fitando a filha por mais alguns instantes e ligou o carro, avançando continuamente, até que o ponteiro do velocímetro marcou os 100 km/h. Chloe então abriu a mente e deixou os pensamentos fluírem. A mãe arregalou os olhos e reduziu a velocidade, virando-se para encará-la.
- Nem pense nisso, Chloe Ann. Em hipótese alguma permitirei isso – disse, o olhar sério sobre a filha.
- Eu já pensei, mamãe – Chloe fez, veemente. – Eu quero isso.
- E você acha que deixar de freqüentar a escola vai ser bom para você?
- É apenas um ano. E depois, eu tenho mais livros em casa do que tem a biblioteca da minha escola.
- Chloe, eu não posso permitir que você deixe a escola agora. Já não basta você ter se mudado tantas vezes de ambiente? Ano que vem você vai começar uma nova fase de sua vida e não vai mais ter a oportunidade de voltar à escola – Hermione replicou de prontidão.
Chloe suspirou.
- Não é um capricho meu. Eu tenho meus motivos – disse.
- Motivos? – Hermione parou o carro e desligou o motor.
- Eu ouvi a conversa que você e Amy tiveram sexta-feira passada – a pequena revelou sem mais rodeios.
- Herms? – Amy adentrou a cozinha e tomou a bandeja que Hermione aprontava.
- Não precisava se incomodar, Amy... – Hermione sorriu.
- Eu não estou me incomodando. Estou apenas impedindo que você volte para a sala.
- Amy, eu...
- Esqueça a bandeja por um instante. – Amy colocou-a fora do alcance da amiga. – Vamos falar de sua filha.
A morena fixou seus olhos azuis nos de Hermione e abriu a mente. Não foram precisos mais do que alguns segundos para ela entender.
- Ah!
- Você também acha que ela é algo mais do que uma Mangid. – E aquilo não fora uma pergunta, Hermione sabia.
- Às vezes tenho certeza, porém nada, além de demonstrar seus dons precocemente, foge ao que é um Mangid. Ela lê pensamentos e fala através deles, entra na mente de quem quer e faz com que o indivíduo veja o que ela vê, sente o que as outras pessoas sentem... No entanto, ela não mexe com o que não é material.
- Pois é. Curioso, não? O primeiro sinal que um Mangid tem de suas habilidades é justamente o de mexer com o que é material. – Amy ergueu uma sobrancelha. – Chloe não é uma Mangid, Hermione, e eu ainda não sei o que ela é – disse. – Antes de conhecê-la, pareceu-me muito claro que ela só poderia ser uma Mangid, mas agora... Eu terei uns dias de folga essa semana, e irei procurar alguma coisa que nos possa ser útil. Enquanto isso, acho que deveria apresentá-la a Dumbledore.
- Dumbledore?
- Sim. Apresente-a e deixe que ele tire suas próprias conclusões sem que você interfira. Depois, fale com ele, e escute o que ele tem a dizer.
- Mas você tem suas teorias, certo?
- Uma apenas – Amy corrigiu. – Eu acredito que Chloe tenha algum poder especial, psíquico, muito forte. E se eu estiver correta... – Ela encarou a amiga, séria, e suspirou antes de continuar: – Bem, se eu estiver certa, ela é capaz de coisas muito além do que demonstrou até agora.
- Ela disse que eu sou especial, e que seria necessário tempo para explorar os meus poderes – Chloe continuou. – E, mãe, eu estou disposta a fazer o que for para descobrir o que eu sou de verdade.
Hermione engoliu em seco.
- Você sabe ao que você seria submetida, não sabe?
Chloe não respondeu.
- Chloe, você tem apenas dez anos... Ainda há tempo para você passar por todas as mudanças necessárias e descobrir por si só quem você é e quais as suas habilidades. Não há necessidade disso tudo...
- Mamãe, eu sou diferente das outras pessoas da minha idade, você mesma disse isso ontem.
Hermione suspirou.
- Nós conversaremos sobre isso depois – disse, por fim. – Agora vá se divertir. – Sorriu maternalmente e gesticulou com a cabeça em sinal de incentivo.
- Tchau, mamãe. – Resignada, Chloe beijou a bochecha da mãe e saiu do carro, apressada.
Hermione observou-a subir as escadas que davam acesso à portaria do clube e checou o relógio. Ela tinha menos que dois minutos para estar no Mirabelle. Saltou do carro e travou as portas, carregando consigo as chaves e a bolsa. Lançou um rápido olhar por sobre os ombros. Ninguém à vista. Aparatou.
Entrou no restaurante, passando direto por tudo e por todos. Seu destino era o banheiro feminino.
Já estava dentro de um dos boxes individuais quando desfez o feitiço de ilusão. Quando saiu do boxe, olhou-se no espelho. Usava um vestido verde musgo leve, de alças grossas e que ia até os joelhos. Na cintura, um cinto grosso marrom – como as tachinhas que compunham todo o desenho do vestido – ia bem afivelado. Usava um cordão de ouro com seu nome pendente, com a borda toda trabalhada em minúsculos brilhantes. Nas orelhas, brincos pendentes também de ouro. Na mão direita, um único anel; no braço esquerdo, uma pulseira grossa. Ela sentia-se bem em ser ela mesma, sem precisar de disfarces.
Suspirou e deixou o banheiro, os sapatos altos de salto agulha mal fazendo ruído quando em contato com o chão. Seguiu à procura de Madame Newbie. Nem sinal. Foi quando avistou Tiffany adentrando o restaurante. Sem pensar duas vezes, foi ao encontro dela.
- Tiffany?
- Hermione! – Elas trocaram cumprimentos brevemente.
- Tentei falar com você quando recebi a confirmação de Madame Newbie, mas seu celular sempre caía na secretária eletrônica.
- Ah, querida, não se preocupe. Eu provavelmente já estava no Ministério da Magia... Mas vou segredar-te uma coisa: Elizabeth Newbie adora memorandos roxos berrante. – Tiffany riu e Hermione teve que acompanhá-la. Como que por instinto, ambas checaram os relógios de pulso. 12h00.
- Meninas? – uma voz feminina ecoou às suas costas.
- Madame Newbie – as morenas cumprimentaram em uníssono.
- Como vão, queridas? – Elizabeth cumprimentou-as, mas não esperou a resposta; ela parecia procurar por alguém. – Ah, Charles!
- Madame Newbie, sempre pontual – O maître se aproximou e exprimiu um pensamento que Hermione e Tiffany já compartilhavam individual e inconscientemente. – A mesa já está pronta e à espera da senhora, madame.
- Obrigada mais uma vez, Charles. – Ela sorriu e voltou-se para Hermione e Tiffany. – Vamos, meninas?
As duas assentiram silenciosa e brevemente e seguiram o maître, ainda no encalço de Elizabeth. O ambiente iluminado não estava cheio, mas aos poucos as pessoas ocupavam as mesas vazias. Hermione pensou reconhecer um rapaz à um canto, mas deixaria para certificar-se depois; ele havia acabado de sentar-se na companhia de uma loura toda vestida de branco e de duas menininhas – e, decerto, demorariam a deixar o restaurante.
A mesa reservada por Elizabeth era próxima a uma janela enorme que dava para um jardim. O curioso era a quantidade de água que escorria pelo vidro, tão demasiada que encharcaria e mataria as plantas. “Impressionante”, Hermione pensou consigo mesma ao compreender o quão engenhosa era aquela ‘chuva artificial’: tratavam-se de dois vidros dispostos de modo que poucos centímetro os separassem para que a água pudesse correr – entende-se por cair – livremente e retornar ao reservatório, reiniciando o ciclo.
Sentaram-se e fizeram os pedidos.
- Querem beber algo? – o garçom perguntou.
- Água, por ora – Elizabeth Newbie respondeu de imediato.
- E as senhoritas?
- Água para mim também – Tiffany murmurou enquanto ajeitava o guardanapo de pano sobre o colo.
- Por enquanto nada. – Hermione sorriu simpaticamente e o garçom retirou-se.
As três mulheres permaneceram em silêncio. Tiffany sentia-se desconfortável. Não entendia o motivo de estarem reunidas para aquele almoço quando tudo já estava resolvido. Hermione, por outro lado, podia ver o que Elizabeth tinha em mente e já decidira não contar de quem se tratava o assassino.
- Como estamos, meninas? Espero que descansadas... Depois da maratona que tiveram que enfrentar nos últimos dois dias.
Hermione riu.
- Teremos o fim de semana para descansar o que ainda não pôde ser descansado – respondeu.
- Com licença... – O garçom colocou sobre a mesa as bebidas, serviu-as e retirou-se.
- Então... Vocês estiveram juntas, como sugeri, certo? – Hermione sabia que Elizabeth já tinha conhecimento disso e não entendeu por que ela perguntava. A pergunta chegava até a contradizer o comentário que ela fizera anteriormente. “Talvez ela esteja procurando uma maneira de chegar ao assunto sem ser tão direta. Ela não quer nos acanhar”, pensou.
- Sim. Na verdade, Tiffany foi quem deu início à corrida contra o tempo. Eu apenas reuni as informações e alguns fatos em comum entre os ataques, estipulei horários... – Hermione contou. – Madame, eu sei que talvez tenhamos pecado, mas nós reunimos um grupo de amigos.
Elizabeth abriu a boca para falar algo, mas Tiffany se adiantou:
- Não precisa se preocupar. Nós não falamos nada a respeito da WP. Na verdade, eles apenas sabem... ou acham... que Hermione descobriu a identidade do assassino e queria resolver de uma vez por todas esse caso – disse. – O que não deixa de ser uma verdade.
Elizabeth apenas fitou-as por um instante. O silêncio se estenderia por vários minutos; nem Hermione nem Tiffany ousariam quebrá-lo naquele momento.
- Quem são? – Elizabeth perguntou, por fim.
Tiffany hesitou, mas Hermione sorriu, tranqüilizadora, e respondeu:
- Amy Mackenzie, Isabella Wood, Herod Christow e... – ela parou, desta vez hesitando.
- E?
- Harry Potter.
Mais silêncio.
- Se não fossem eles, nós perderíamos o assassino mais uma vez – Tiffany continuou, temendo que o clima ficasse ainda mais tenso. – Nós tínhamos descoberto que os ataques que se sucederiam na madrugada de ontem ocorreriam em três lugares... Três cidades... diferentes.
- Dover, Leeds e Londres... em Fulham, mais precisamente. – Hermione deu seguimento. – Nos dividimos dois a dois. Eu havia apurado todos os ataques... todos ocorreram por volta da 1h da manhã, em média. Pouco passava das 2h quando Tiffany me ligou avisando que ela e Christow estavam com o assassino em Leeds.
Elizabeth aguardou alguns instantes antes de finalmente se pronunciar:
- Espero que não se importem se eu conversar com cada um deles – foi tudo o que disse, entretanto.
Naquele instante, o garçom chegou com os pratos e, pedindo licença – mais uma vez –, colocou-os sobre a mesa.
- Devo trazer o vinho, madame?
- Por favor, Derek – Elizabeth assentiu.
- Sim, madame. – E ele se afastou.
- Almocemos – Elizabeth sorriu.
Hermione ficou surpresa em como a refeição correu tranquilamente. Num instante o garçom estava servindo as taças de vinho e de água, e no outro estava retirando os pratos vazios.
- E o assassino, o que fizeram com ele? – Elizabeth Newbie foi quem recomeçou, dessa vez indo direto ao ponto.
Hermione lançou um olhar significativo à Tiffany, ao que a morena pareceu entender o recado e permaneceu calada.
- Já tomamos todas as providências. A senhora pode fica tranqüila, não teremos mais vítimas de hoje por diante. A propósito, também conseguimos afastar Pansy Parkinson do Ministério. Acredito que ela não nos incomodará tão logo – Hermione contou. – Digamos que... Ela vai ficar sumida por uns tempos.
- Estou impressionada com a sua eficiência, Hermione – Elizabeth elogiou. – E a identidade do bruxo?
- Desculpe, madame, mas nós optamos por preservá-la. Basta que todos saibam que ele está preso e não causará mais nenhum mal à nossa sociedade, e isso é tudo o que diremos – Hermione disse e percebeu que Tiffany mexeu-se desconfortavelmente em sua cadeira. Ela certamente não concordava com o tratamento que Pansy teria. – Não queremos expor o culpado, por mais estranho que isso possa parecer. Felizmente não se trata de um caso como o de Voldemort, ou Tom Riddle, como preferir.
- E o que pretende dizer com isso? – Elizabeth arqueou as sobrancelhas.
- É um caso especial. Não posso dizer nada além disso.
- Eu insisto em saber, Hermione.
Hermione não sabia o que dizer. Decidiu por falar a verdade – ou meia verdade. “Uma meia verdade é uma mentira inteira”, o ditado ecoou em sua mente, mas ela ignorou-o.
- É uma mulher. Vinte e cinco anos. Seu nome é Perlla Panettiere.
- Italiana?
- Sim, nascida em Roma. Mas não adianta procurar por registros – Hermione deixou claro. Suspirou. Aquela era uma verdade inteira. Ela apenas omitiria o fato de a tal italiana ser um alter de Pansy Parkinson. – Ela não está registrada em lugar algum. – Isso também era verdade.
- E como você pode ter tanta certeza que o nome dela é mesmo esse?
- Não esqueça que estávamos com Harry Potter, madame – Hermione sorriu. Ela estava brincando com a sorte. – Demos a ela Veritaserum. Ela não tem família. Não conheceu o pai, matou a mãe e o meio-irmão...
Naquele instante, o homem que Hermione pensara conhecer passou do outro lado do aposento em que estavam e acenou para Tiffany, que retribuiu o aceno. Aparentemente, o moreno se encaminhava para o banheiro. Hermione percebeu o olhar de Elizabeth Newbie no homem também.
- Blaise Zabini – Tiffany respondeu às indagações silenciosas. – É um amigo da família.
- Um rapaz bem apessoado, não? – Elizabeth comentou.
- Com uma pinta de cafajeste – Tiffany comentou e Hermione riu. – Ele só tomou jeito depois que casou, mas não dispensa as olhadelas de sempre aos rabos-de-saia e oferecidas de plantão, o que se entende por, “vadias sem-vergonha”.
Dessa vez até mesmo Elizabeth riu.
- Mas, sim, é bem apessoado – Tiffany concordou. – E, bem, podemos dizer que, no fundo, ele é uma boa pessoa.
- Muito bem, meninas, infelizmente eu tenho que ir. São 13h30 e eu tenho que voltar ao Ministério um pouco mais cedo. Tenho uma reunião com o ministro – Elizabeth disse e sorriu, abrindo a carteira e retirando uma nota de cem libras, a qual deixou sobre a mesa.
- Hum... Madame? – Hermione chamou-a antes que ela pudesse se levantar.
- Sim, Hermione?
- Acha que nós... Bem... Nós devemos divulgar que encontramos o bruxo assassino e já o prendemos?
- Pensei que tivesse dito que não queria expor a italiana. – Elizabeth arqueou uma sobrancelha.
- Bem, de alguma maneira nós temos que tranqüilizar a todos, não é? – Tiffany continuou, entendendo o que Hermione queria dizer. – Talvez uma notícia nos jornais...
- Temos o Profeta Diário, e vocês sabem minha opinião sobre ele.
- Não envolveríamos Rita Skeeter. E, talvez, pudéssemos nos utilizar d’O Pasquim – Hermione sugeriu. – Eu conheço os donos e posso providenciar isso.
- Vocês quem sabem. Eu estava indo justamente falar com o ministro a respeito disso.
- Se você quiser, madame, eu posso falar com Potter e nós iremos até o ministro resolver esse assunto.
- Não será necessário, Hermione – Elizabeth disse, calma. – Sugiro que façamos assim: vocês providenciam a entrevista, reúnem-se, os seis, na data que acharem mais oportuna e fornecem as informações que julgarem necessárias à população bruxa. Enquanto isso, eu informo ao ministro e peço sigilo.
- Tudo bem – Hermione assentiu e Tiffany acenou positivamente para a morena em concordância.
- Voltaremos a nos falar – Elizabeth Newbie levantou-se e deixou o restaurante elegantemente sob os olhares das outras mulheres.
- Eu não sei em que ela se confia – Tiffany murmurou em tom de desdém.
Hermione riu.
- Se eu tivesse o cargo dela e fosse uma das personalidades mais influentes do mundo bruxo, certamente teria a mesma confiança que ela tem em si própria. Acho que é nisso que ela se confia: em si mesma, em seu cargo e em sua influência. É claro que não podemos deixar de lado a sua inteligência. Ela é uma mulher extraordinária!
- Ela pode ser tudo isso, mas eu não sou a maior adoradora dela. Para mim, Elizabeth Johanna Newbie é a petulância em pessoa! – Tiffany disse, citando o nome completo (de casada) de Elizabeth com uma pesada dose de escárnio.
- Tudo bem, miss simpatia – Hermione ironizou, ainda rindo. – Agora vamos. Eu tenho um compromisso intransferível e você tem que pegar as crianças, deixá-las em casa e voltar ao trabalho, então...
- As crianças somente saem às 14h, então ainda tenho meia hora até lá.
As duas já tinham se levantado e estavam andando rumo à saída do restaurante.
- Então nos vemos depois, certo? – Hermione disse quando já estavam do lado de fora.
- Provavelmente. A gente se fala. – Tiffany sorriu.
- Até logo, Tif.
- Até, Mione. – E elas se separaram, cada uma seguindo seu rumo.
Hermione saiu caminhando pela rua à procura de um local mais calmo – talvez deserto – em que pudesse aparatar. Não demorou até que achasse um lugar perfeito: uma loja de artigos esotéricos. O forte cheiro de incenso de canela a atingiu assim que ela abriu a porta do estabelecimento. A dona da loja estava atrás do balcão e parecia ler alguma coisa. “Um livro de bruxaria, talvez”, Hermione pensou com escárnio.
A mulher tinha os cabelos compridos, ondulados e desgrenhados, cheios e lanzudos, usava uma maquiagem que em muito lembrava Hermione o mês que ela passara na Índia. Até mesmo o bindi – o ‘terceiro olho’ indiano – a mulher usava num ponto entre os olhos. Suas roupas eram claramente o mais próximo do que Hermione imaginava ser um hippie.
Os dedos compridos – e cheios de enormes e horrorosos anéis – da mulher passaram uma página naquele momento. Suas unhas estavam pintadas de um roxo berrante e eram compridas como as de uma bruxa de contos de fadas. O que era incrível naquilo tudo era a beleza dela. A hippie tinha traços finos e bem delineados, uma pele tão alva que mais parecia porcelana. “Por que uma pessoa se estragaria desse jeito?”, perguntou-se enquanto, enfim, aparatava.
Em uma fração de segundo, ela estava no banheiro do clube onde deixara Chloe mais cedo. Enquanto seguia para o estacionamento, pensou em conferir como a filha estava se saindo na aula de ginástica olímpica. Observou-a através de uma janelinha de vidro que ficava no alto da porta da sala de ginástica.
Chloe estava de costas para a porta, se preparando para fazer sua seqüência de saltos no solo. Como imaginara, a pequena saberia que ela estava ali.
“Oi, mamãe”, a pequena cumprimentou-a via pensamento pouco antes de iniciar sua seqüência.
Hermione ficou ali por mais alguns instantes, observando-a, lembrando dos tempos em que ela própria se envolvera com a ginástica. “Faz muito tempo”, pensou. Vinte anos, mais precisamente, que deixara de lado tudo aquilo quando fora morar em Portugal com seus pais. Retornaram à Inglaterra um ano depois, mas ela nunca voltara a praticar ginástica olímpica ou rítmica, como gostava tanto.
Por fim, despediu-se da filha e retomou o caminho para o estacionamento.
Já em seu Volvo C30, ligou para Amy.
- Olá, Herms!
- Já estou livre, Amy – Hermione disse.
- Ah, ótimo! Eu avisei a Liah que estava indo à casa dela hoje após o almoço, mas não contei que você iria junto. Achei melhor fazer uma surpresa.
- Tudo bem. Onde nos encontramos?
- Onde você está agora?
- No clube...
Então ela ouviu batidas na janela do carona do carro e ergueu os olhos para ver de quem se tratava. Desligou o celular, surpresa, enquanto destravava as portas do carro.
- Olá! – Amy já estava dentro do carro, colocando o cinto de segurança.
- Como você sabia que eu estava neste clube?
- Meu bem, eu conversei o suficiente com Chloe para saber onde ela jogava tênis, treinava kong fu e fazia ginástica. Sua filha e eu somos boas amigas, querida.
Hermione riu.
- E então, para onde vamos?
- Knightsbridge.
- Knightsbridge – Hermione assentiu.
- Você ficaria impressionada com a quantidade de pessoas conhecidas que moram em Knightsbridge.
- Sirius e Alissa ainda moram lá?
- Ora, se não! Aqueles dois não saem mais dali. Nem por decreto!
- E quem mais mora lá?
- Thomas Haase e família – o que inclui Tiffany Haase –, todos os Mackenzie – em casas diferentes, é claro –, Isabella e Olívio, Gina e Draco, Julie Bonstrong e meus pais.
- Metade do bairro, apenas – Hermione brincou.
- É um dos melhores bairros de toda a Londres. Acho que o fato de estarmos todos em família também ajuda um bocado na concentração. As casas mais afastadas são a minha, a de meus pais e as de Julie Bonstrong. Claro que hoje ela não é mais dona das três. Ela vendeu uma delas para Gina e Draco e a outra ela deixou para Isabella e Olívio. Presente de casamento – Amy contou. – Quando chegarmos lá eu as aponto para você.
- É bom, assim eu posso começar a me situar – a morena ainda brincava.
Houve um instante de silêncio, até que ela voltou a quebrá-lo:
- Onde moram Zabini e Luna?
- Em Fulham. Mas por que a pergunta?
- Somente curiosidade. Hoje Tiffany falou nele, então eu me lembrei enquanto você citava todos os moradores de Knightsbridge.
- Hum... Bem, digamos que eles, Luna e Zabini, não se misturam muito – Amy comentou. – Luna, principalmente. Ela e Lilá são melhores amigas, e são raras as vezes em que eu a vejo com Gina. Zabini não é muito diferente, mas ele participa mais das reuniões entre amigos, ele é mais aberto às pessoas, entende? Eu gostaria de entender essa atitude deles, mas...
- Por onde agora?
- Esquerda – Amy direcionou e Hermione fez a curva. – Ali! Está vendo aquela primeira casa? É a casa dos Haase. É onde Tiffany mora.
- Você quis dizer mansão dos Haase, não? – a morena comentou, espantada.
- É, Thomas Haase tem muito dinheiro.
- E Narcisa não? – Hermione arqueou uma sobrancelha.
- Bem, a casa de meus sogros é aquela ali – Amy apontou uma casa branca com um varandão à frente. Estava completamente fechada. – Eles estão passando uma temporada em Indiana, como de costume. Brittany foi quem ficou encarregada de vender o apartamento que eles tinham em Herne Hill e comprar e decorar a nova casa. Bem, está aí o resultado. Eles nem mesmo viram a casa ainda. Só chegarão à Londres mês que vem. – Amy sorriu. – Acho que eles já estão acostumados à cruel ponte aérea – comentou, mais para si mesma do que para Hermione. – Ah, aquela mais à frente é a casa de Ethan e Brittany. A branca com janelas de blindex... – ela mostrou a segunda casa depois da que pertencia aos sogros dela. – E aquela... – dessa vez Amy apontou o lado oposto da rua, várias casas à frente, uma casa de um só patamar, grande e com uma parede trabalhada com mármore. – Aquela é a de Liah e Scott Olivier.
Hermione parou o carro à frente dos gramados bem cuidados da casa de Liah e desligou o motor.
- Eu espero que a sua surpresa não faça com que ela pule da cama e perca o bebê – disse antes de as duas saltarem e caminharem apressadas até a porta.
Enquanto se aproximavam, Hermione pôde visualizar uma Ferrari California através do blindex que selava a garagem da casa.
- Rosa... Pink? – ela fez, as sobrancelhas erguidas.
- Você a conhece... Liah é um pouco... extravagante! – Amy riu, seu tom meio assombrado. – Ela exigiu uma Ferrari California de Scott. Ele comprou preta e ela foi bastante enfática ao dizer: “eu disse que eu queria rosa, Olivier!”
Hermione riu.
- Ela não tem jeito!
- Não mesmo! – Amy concordou enquanto tocava a campainha.
- Sra. Mackenzie! – a secretária atendeu à porta, sorrindo simpaticamente.
- Olá, Nancy.
- Olá – Hermione cumprimentou-a com um breve aceno e um sorriso simpático.
- A Sra. Olivier está no quarto – informou Nancy.
- Tudo bem, não precisa nos anunciar – Amy adiantou-se e Hermione a seguiu.
- Fiquem à vontade.
No caminho para o quarto, Hermione percebeu o quão arrumada e espaçosa era a casa. Passaram por um escritório, por um quarto de tevê, um quarto todo arrumado em tons de lilás e rosa que ela julgou ser o quarto do bebê e dois quartos cujas portas estavam fechadas. O último quarto, enfim, estava de porta aberta e deveria ser aquele no qual a sua amiga estaria.
Liah estava deitada na cama, um livro em mãos, parecendo muito concentrada na leitura. A televisão estiva ligada num volume razoavelmente baixo, porém alto o suficiente para ser perfeitamente audível. Amy bateu na madeira da porta duas vezes e Liah automaticamente baixou o livro.
- Olá! – Amy disse, sorrindo.
- Amy! – Liah ajeitou-se nos travesseiros e fechou o livro, marcando a página.
Amy se aproximou e abraçou a cunhada.
- Veja só quem está aqui...
E Hermione finalmente entrou no campo de visão da morena, caminhando em direção à cama.
- Mione! – Liah abriu seu melhor sorriso e seus olhos se encheram de lágrimas.
- Ah, querida! – Hermione sentou-se à beirada da cama e curvou-se para abraçar a amiga, seus olhos também se enchendo de lágrimas. – Como vocês estão?
- Ótimas, na medida do possível.
- Você está linda! – Hermione disse, enquanto acariciava a barriga de Liah.
- Não, você é quem está linda! E esses cabelos... Uau, nunca estiveram tão compridos, hã?! Eu já disse como o verde cai bem em você?
Hermione e Amy se entreolharam.
- Liah! – murmuraram em uníssono, revirando os olhos.
- Ah, que saudades! – Liah apertou as mãos de Hermione e uma lágrima escorreu de seus olhos. – Desculpe por isso. – Ela apontou o rosto. – Eu ando um tanto sensível demais nos últimos tempos.
- E temperamental – Amy acrescentou.
- E você continua sendo a mesma implicante de sempre! – Liah rebateu para a cunhada, depois acrescentando para Hermione: – Ela sempre arruma um motivo para me pirraçar quando vem aqui. Mas isso não vem ao caso agora! Quero que me conte tudo... Quando chegou, como está a minha afilhada, o que você tem feito, como foram todos esses anos... Tudo!