Ele ainda não chegara ao Ministério. Ainda cedo àquela manhã, ligara e avisara a Cynthia que se atrasaria. Iria à Toca. Há muito não visitava a casa dos Weasley.
Ele já estava saindo de Londres, e ia de carro. Para ele, andar de carro era algo tão natural quanto respirar. E ele gostava de coisas naturais, normais.
Achava impressionante a quantidade de bruxos que estava optando por agir da mesma maneira pela qual ele optara. Raríssimos eram os casos em que ele resolvia aparatar, muito embora a sua varinha estivesse sempre à mão e ele se utilizasse dela sem moderação.
O fato é que circular ou viajar de carro ou de avião já se tornara algo também rotineiro entre os bruxos, não apenas por opção, mas também com o objetivo de misturar-se entre os trouxas.
Ele aumentou o volume do som e encarou o retrovisor. Nenhum carro à vista.
Fez uma curva rapidamente e saiu da estrada, pegando uma via que, aos olhos dos trouxas, estava completamente tomada pelo mato denso e alto. Sorriu com o pensamento. A estrada não era das melhores, sendo completamente de barro, mas era tranquila e sem desvios. Uma via única e em linha reta. Fácil.
Chegou em alguns minutos ao seu destino e estacionou o seu Maserati Gran Turismo no telheiro que Gui e Carlinhos haviam mandado erguer para que os carros da família ficassem abrigados.
Harry viu uma cascata loira surgir rapidamente na janela da casa maior e sumir com a mesma rapidez. Fleur?
A porta da casa se abriu e ele viu uma figura baixinha, ruiva e robusta surgir. Ao seu lado, a cascata loira que vira anteriormente estava ali mais uma vez. Era Sophie.
- Harry, querido! Que surpresa! – A Sra. Weasley abriu seu melhor sorriso e o abraçou fortemente. – Ah, é uma pena que não tenha chegado mais cedo. Arthur e as crianças saíram há pouco mais de vinte minutos. Foram todos aparatando, como deve ter percebido.
- Sim, eu notei que os carros estão aí – Harry assentiu. – Como vai, Soph?
- Bem. Estou esperando mamãe se aprontar. Hoje nós vamos ao St. Mungus.
- Sophie Marcheline Weasley! – uma voz chamou, vinda dos fundos da casa.
- Ah, aí vem ela – a Sra. Weasley anunciou, sorrindo.
Harry soube que era Fleur vindo da casa em que morava com Gui e os filhos nos vastos terrenos d’A Toca. Ali, Carlinhos e Deborah, Rony e Lilá e Gina e Draco também tinham suas próprias casas – o último casal, entretanto, apenas passava os fins de semana n’A Toca, residindo fixamente em Knightsbridge.
- Estou aqui, mãe! – a loirinha respondeu, jogando os cabelos para trás.
Fleur apareceu, os cabelos platinados e escorridos presos a um alto rabo-de-cavalo – e, ainda assim, eles caíam até um palmo acima da cintura. Ela estava radiante em seu vestidinho azul celeste, combinando com seus olhos azuis intensos. A veela sorriu e Harry percebeu a vista ofuscar pelos seus dentes brancos e cintilantes, perfeitos – ele poderia contá-los naquele momento.
- Olá, Harry! – ela cumprimentou, simpática. – Gui estava falando hoje cedo em você. Como vai?
- Bem, obrigado. E você, mamãe?
- Ah, maravilhosamente bem! – Ela acariciou a barriga ainda lisa. – Sinto-me como se fosse a primeira vez. E é tão maravilhosa a experiência de ser mãe...
- Eu que o diga, querida! – a Sra. Weasley brincou. – Fleur não está magnífica, Harry? – Harry sorriu e assentiu, enquanto Fleur sorria timidamente e Sophie alargava seu sorriso e revirava os olhos de conta. – É incrível como elas, as veelas, demoram a desenvolver a barriga, mas ficam ainda mais radiantes quando estão grávidas. É claro que Fleur tem seis semanas apenas de gravidez, mas certamente só vai ter barriga aos cinco meses, como das outras vezes.
- Obrigada, Molly – Fleur sorriu ternamente. – Gui levou Thierry, certo?
- Oh, não, querida. Eles seguiram direto para o Ministério. Estavam atrasados.
- Foi tia Lilá quem levou Reese, Phil e Thierry para a escola hoje.
- E você ficou? – Harry fez.
- Sim, eu vou acompanhar mamãe e papai deve nos encontrar lá. Você sabe... Eles trabalham no mesmo lugar. Mas hoje papai teve que resolver umas coisas no Ministério – Sophie respondeu.
- Ah, é! O ministro o chamou. Aparentemente, assuntos pessoais – foi a Sra. Weasley quem explicou.
- Parece que Malfoy já estava trabalhando exatamente nos mesmos ‘assuntos pessoais’ há alguns dias com Ethan Mackenzie – Fleur comentou. – Bem, em todo caso, é melhor eu ir. Tenho horário marcado com a Dra. Fenty. Vamos, Soph?
Sophie automaticamente agarrou-se à mão da mãe.
- Até logo, Harry! – Fleur despediu-se e caminhou rumo ao carro com Sophie em sua cola.
Harry observou que mãe e filha mais pareciam irmãs. Sophie era quase uma cópia exata da mãe, “exceto pelos olhos, queixo e nariz” – estes eram de Gui, sem sombras de dúvidas.
A Sra. Weasley também ficou observando a nora e a neta partirem num New Beatle com um sorriso maternal estampando seu rosto. Ela virou-se para Harry e colocou a mão em seu ombro.
- É a primeira consulta dela – segredou e o rapaz a encarou confuso. – É, eu sei. Não é algo com que nos acostumamos tão facilmente...
- Fleur não está certa sobre a gravidez?
- Oh, não! Não, não, não. De jeito nenhum! – a matriarca Weasley riu e abanou as mãos, despreocupadamente. – Não é nada disso. Ela tem certeza, e nós também estamos certos sobre a gravidez. É impossível não confiar numa veela quando ela diz estar certa de algo, principalmente se for a respeito de si mesma ou se for algo que implique em sua vaidade. E, para as veelas, estar grávida é um acontecimento que mexe com o íntimo da vaidade.
Harry tentou acompanhar. O que a Sra. Weasley queria dizer com “é impossível não confiar numa veela quando ela diz estar certa de algo”?
- Ela até mesmo crê que seja uma menina! – comentou enquanto rodeava o balcão de sua cozinha, postando-se frente ao fogão, mexendo numa das panelas.
Tudo bem, agora fora demais.
- Desculpe, Sra. Weasley, mas como pode saber tanto se é tão recente e essa é a primeira consulta a que vai?
- Ah, eu deveria imaginar que não saberia, querido. – Ela sorriu e largou a colher, aproximando-se do balcão em que o moreno estava encostado. – Veelas são profetas por natureza, Harry. Elas pressentem quando algo de grandioso está por vir. E mais ainda quando o que pressentem é algo por que desejam e anseiam intensamente.
A explicação da Sra. Weasley o fez recordar de um episódio dois meses antes...
- E você acha que a família para de crescer por aqui?
- Falando por mim, já parou. Mas eu ouvi Fleur comentar que queria mais um e, segundo Deborah, vêm mais dois por aí.
- Todo mundo correndo atrás antes dos trinta e cinco – Harry riu.
- Fleur queria um filho – ele concluiu consigo mesmo.
- Uma menina – a Sra. Weasley corrigiu.
Harry encarou-o surpreso. Ele dissera mesmo aquilo alto?
Foi tirado de seus devaneios pelo toque de seu celular. Ele deu um sorriso amarelo para a Sra. Weasley que apenas assentiu e voltou para o seu fogão
- Alô?
- Para todos os efeitos, ainda sou Helena Gauer – a voz da mulher foi cortante.
- Até amanhã – ele acrescentou.
- Eu ainda não confirmei nada – ela rebateu e suspirou antes de continuar: – Já estou em Londres, Harry. Estou chegando à sua casa.
- Tudo bem, Betty está em casa – Harry disse. – Estou n’A Toca.
- É, digamos que eu soube minutos atrás. Fiquei realmente surpresa por não estar no Ministério após dois dias sem aparecer para trabalhar.
- Eu não pretendo demorar aqui. É só uma visita periódica.
- Harry, você vai ver todos os Weasley amanhã – Hermione assinalou.
Harry riu. E viu, naquele momento, Rony passando através da janela. Segundos depois, o ruivo atravessou a porta, surpreso por vê-lo ali. Cumprimentou o amigo rapidamente e foi conversar com a mãe, ambos ainda olhando vez ou outra para o moreno.
- Helena, eu preciso desligar – disse.
- Rony está aí, não é?
- Sim – ele limitou-se a assentir. – Eu ligo para você mais tarde.
- Tudo bem. Falamos-nos depois.
- Até logo – ele disse antes de desligar o celular e guardá-lo no bolso do paletó. – Rony!
- E aí, cara? Que surpresa! Por que não avisou que estava aqui? Eu teria aparecido antes – o ruivo voltou a se aproximar. – Mamãe, nós vamos dar uma volta, tudo bem?
- É claro, querido. Harry, se quiser alguma coisa, peça. Sei que Rony esquece os bons modos quando está com outras coisas na cabeça.
- Pode deixar, Sra. Weasley – Harry assentiu, rindo.
E ele e Rony saíram.
- Eu resolvi vir de última hora. Inclusive tenho que chegar logo ao Ministério. Já faltei dois dias de trabalho.
- Aconteceu alguma coisa?
- Apenas não estava me sentindo bem – respondeu. – Cansado. Você sabe...
- É claro – Rony riu. – A propósito, temos que marcar nossa partida de Quadribol. Sei que você anda treinando quando arranja um tempinho livre.
- Não pretendo profissionalizar, Rony – Harry se antecipou. – Mas podemos marcar para quando desejar.
- Então será para breve.
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- Chegamos, raio de sol!
Hermione saltou do carro e adiantou-se para abrir a porta traseira, pegando Zoe no colo. A loirinha estava sonolenta. Chloe também saltara e, encantada com a casa, viera postar-se ao seu lado.
- Ele mora sozinho com Zoe nesta casa? – ela perguntou.
- E com Betty, a governanta.
- Uau! – Chloe fez, por fim.
Hermione abriu o porta-malas e pegou a mochila.
- Fecha para mim, filha? – pediu à Chloe. Estava com as duas mãos ocupadas agora.
Enquanto a filha fechava o porta-malas, ela subia as escadas para alcançar a porta. Chloe foi rápida e a alcançou num minuto. Tocou a campainha. Zoe já estava em sono solto novamente.
- Pois n...? – a voz morreu quase que instantaneamente.
Betty abrira a porta e seu sorriso simpático sumira em uma fração de segundo. Seus olhos se arregalaram e ela deu um passo para trás.
- Her-herm... – Ela engoliu em seco e voltou a tentar. – Hermione, querida, é você?
- Sim, Betty, sou eu – Hermione respondeu, sorrindo.
“Ah, meu Deus, como ela está bonita! E não mudou quase nada...”, ela ouviu Betty pensar.
“Vocês se conhecem, mamãe?”, Chloe foi quem perguntou desta vez, tirando a atenção que Hermione desviara anteriormente para os pensamentos de Betty.
“Sim, anjo. Faz muitos anos que conheço Betty”, respondeu ainda em pensamento.
- Eu falei com Harry e ele me disse que estaria aqui – Hermione explicou a Betty. – Eu vim trazer Zoe. Ela estava comigo na casa de meus tios.
- Oh, claro. Entrem, entrem – Betty abriu espaço para que Hermione e as duas garotinhas entrassem. – O Sr. Potter disse que ela estava na França, certo?
- Exatamente.
- E quem é essa garotinha linda? Sua irmã?
Chloe riu e negou com um aceno.
- Sou filha dela – explicou.
Betty mostrou-se surpresa com o fato. “Ah, meu Deus, uma filha!”
- Sim, Betty, Chloe é minha filha – Hermione contou. – Agora... Será que eu poderia levar Zoe lá para cima? Acho melhor colocá-la na cama.
- É claro. Quer que eu vá...?
- Não, obrigada, Betty. Pode deixar que me viro – a morena sorriu, simpática. – Chloe, anjo, comporte-se. Eu já volto.
- Ok.
E Hermione subiu as escadas, deixando a filha sozinha com Betty na sala.
- Aceita alguma coisa? Tenho um suco de laranja fresquinho lá dentro! E ontem à tarde eu fiz um bolo de cenoura com calda de chocolate também... É o preferido de Zoe.
- Tudo bem – Chloe respondeu, dando de ombros. – Essa é uma casa muito grande. Como podem morar somente três pessoas aqui e não se sentirem sozinhas? Eu sou apenas uma visitante e já me sinto pequena demais para todo esse espaço. E sozinha demais também.
Betty riu enquanto elas caminhavam rumo à cozinha.
- Com o tempo as pessoas se acostumam com a solidão. E se não fossem Zoe e Embry, certamente essa casa não teria a menor graça!
- Embry? – a garotinha repetiu.
- Sim, é o golden retriever de Zoe – Betty respondeu. – Ah, aí está ele! – fez, apressando-se para a cozinha, de onde vinham latidos agudos. – Este é Embry, Chloe.
- Ele é lindo! Mamãe me contou que havia dado um cachorrinho para Zoe – Chloe disse, aproximando-se de um cercado. – Whoa, vocês o tratam como a um bebê! Até um cercadinho ele tem...
- Bem, tecnicamente – e como Zoe gosta de dizer –, ele é um bebê. Cães são crianças que nunca crescem, Chloe.
- É, eu sei. Eu tenho uma fêmea golden retriever também – Chloe pegou Embry no colo e acariciou sua cabecinha. – Ela se chama Daisy e já tem sete anos, mas dá bastante trabalho. Para tudo eles precisam de nós, não é?
- É, sim, querida. Mas o que você vai querer? É só dizer e eu providencio.
- Não se preocupe comigo, Betty. Um copo de suco e um pedaço de bolo estão de bom tamanho – a garotinha disse, colocando Embry de volta no cercado. – Onde posso lavar minhas mãos?
“Mas fala como se fosse gente grande! Que graça de menina!”
- O lavabo fica no início do corredor, querida, antes das escadas.
- Obrigada, Betty – e Chloe deixou a cozinha enquanto Betty ‘providenciava’ seu lanche.
Caminhou encantada pela casa, impressionada pelo fato de ela ser tão bela por dentro quanto por fora. No corredor, havia um comprido aparador com vários portarretratos. Em sua maioria, as fotos eram de Zoe, desde as mais antigas às mais recentes. Havia uma foto da loirinha com Amy que estava linda. Zoe não devia ter mais do que dois anos quando ela fora tirada. Estava emburrada – e, aparentemente, com sono, a julgar pela mão coçando um dos olhos – no colo de Amy.
- Chloe?
Chloe virou-se rapidamente para encarar a mãe.
- Peguei você de surpresa? Estava realmente distraída, hã?! – Hermione brincou enquanto descia os últimos degraus da escada.
- Eu estava indo lavar as mãos e parei para ver as fotos.
- São lindas, não é? – A mãe se aproximou e agachou-se ao lado da filha, abraçando-a pela cintura. Chloe balançou a cabeça positivamente. – Vá lavar as mãos. Eu te espero na cozinha.
- Ok.
Hermione deu um beijo na bochecha da filha e levantou, seguindo para a cozinha.
- Também quer um pedaço de bolo, Hermione?
- Oh, seria ótimo. Obrigada, Betty.
- Por nada, querida. – Betty colocou uma fatia de bolo num prato e entregou-o à morena. – Quantos anos tem a sua garotinha?
- Dez.
- Ah, então você era novinha quando ela nasceu.
- Sim, eu tinha dezenove anos.
- Ela se parece muito com você.
- Em tudo – Hermione concordou.
- Mas os olhos...
- São do pai – a morena completou, confirmando e antecipando o pensamento de Betty.
- Mamãe, eu estava pensando se você não poderia me levar ao clube mais cedo hoje, já que eu não vou mais à escola. – Chloe adentrou o aposento. – Eu faltei todas as aulas de kung fu e de ginástica olímpica essa semana. E eu só joguei tênis no domingo e na segunda porque foram os dias que você pôde jogar comigo.
Betty riu e Hermione acompanhou-a, satisfeita por Chloe ter chegado e interrompido a conversa delas; ela não gostou do rumo que a prosa estava tomando.
- Eu levo quando estiver saindo para o almoço com Madame Newbie, certo?
- Tudo bem. – A garotinha sorriu, satisfeita.
- Chloe, o suco e o bolo já estão te esperando – Betty avisou, apontando o lugar à mesa ao lado de Hermione.
- Obrigada – Chloe agradeceu e sentou-se à mesa.
Deixaram a casa dos Potter meia hora depois e já estavam em casa. Lucy se encarregara de desfazer as malas e guardar as coisas. Chloe já havia tomado banho e estava sentada à mesa, lendo um dos livros de Runas de sua mãe com Daisy deitada aos seus pés.
Hermione desceu as escadas enquanto checava o relógio de pulso. 11h37.
- Vamos, Chloe?
- Você está atrasada – Chloe observou. – Ainda vai passar no Ministério?
- Não mais. Vou te deixar no clube e seguir para o Mirabelle – Hermione respondeu. – Já almoçou?
- Sim, e já escovei os dentes. A minha bolsa está no sofá e eu já peguei o dinheiro.
- Ótimo. – Hermione pegou a própria bolsa e as chaves do Volvo C30 e colocou os óculos escuros sobre os cabelos – ela os alisou novamente após o banho – como um arco. – Lucy?
- Sim, Srta. Granger? – Lucy apareceu na porta da cozinha.
- Eu e Chloe não vamos voltar para o jantar. Se quiser, tem o restante do dia de folga. Só peço que, se possível, dê uma volta com Daisy ao final da tarde. Ela passou a manhã inteira dentro de um carro.
- Tudo bem.
- Até amanhã.
- Até. – Lucy sorriu. – Tchau, Chloe.
Chloe acenou para a mulher e apressou-se para alcançar a porta atrás de Hermione. Mãe e filha seguiram em silêncio até o carro. Chloe esperou a mãe se acomodar e ligar o carro, mas não foi o que ela fez.
- O que você quer me dizer?
- Como você sabe? Eu não estou pensando...
- Exatamente. Quando você esvazia a mente assim é porque está pensando em como me dizer algo que não quer que eu saiba de outra maneira. – Hermione arqueou uma sobrancelha. – E então? Eu estou esperando.