Jane se levantou subitamente e encarou a filha, boquiaberta, enquanto as palavras lhe escapavam diante de tal revelação. Como seria possível?
- Zoe Morgan Potter – Hermione murmurou, enquanto se levantava e caminhava para a janela. Permaneceu parada de costas para a mãe e cruzou os braços. – Esse é o nome dela. Zoe Morgan... Potter.
Jane permaneceu calada. O que poderia dizer? Todos aqueles anos ela soubera que Harry Potter era o pai de sua neta, e simplesmente não pudera contar à filha. Sentia-se suja por ter guardado aquele segredo.
- Você não teve culpa, mamãe. E eu acredito que saiba disso tanto quanto eu. Não dá para simplesmente driblar os dizeres de uma profecia – a filha disse, e virou-se para encarar a mãe, que tinha um dos braços cruzados sobre o peito e a outra mão ajeitando os cabelos acaju e levemente ondulados, colocando uma mecha atrás da orelha. – Eu procurei por Dumbledore essa madrugada, mas ele não estava em Hogwarts... – Hermione deixou-se cair na cama, cobrindo os olhos com as mãos. – Eu não sei o que fazer, mãe! Eu e ele, nós... Não sei o que será de nós, sinceramente. Eu adoro a filha dele, e cada vez mais a vejo como se fosse minha própria, mas diante de tudo o que aconteceu, depois de todos esses anos...
- Ele sabe disso? – foi tudo o que Jane conseguiu perguntar. – Quero dizer... ele sabe sobre Chloe?
Hermione parou por um momento e baixou as mãos que ainda cobriam seus olhos, encarando a mãe.
- Sabe, mas pensa que ela é filha de outro – disse. – Ele pensa que ela é filha de Chad – contou, apressando-se em acrescentar: – Claro que ele não sabe o nome do suposto pai de Chloe, mas... – Ela deixou a frase no ar e mordeu o lábio inferior. – Não sei se devo contar, também.
- Isso, querida, chama-se medo. – Jane voltou a sentar-se ao lado da filha. – Você está tão acostumada com a vida que leva, que tem medo de que algo possa desestruturá-la – explicou. – Tal descoberta pode fazer isso, pode modificar tudo o que você conseguiu estabelecer, construir durante todos esses anos. O que você precisa, querida, é de paciência, de tempo. Espere que tudo se assente, espere que se acostume a essa novidade e, então, faça o que tiver que fazer.
A morena assentiu, os olhos baixos, então suspirou.
- Ele disse que me amava – contou, olhando nos olhos da mãe. – Que nunca deixou de me amar.
- E você, o que disse? – Jane perguntou, o cenho franzido em sinal de preocupação.
- Nada – Hermione respondeu, com simplicidade. – Eu não sabia o que dizer. É claro que reencontrá-lo foi um choque e, ao mesmo tempo, algo maravilhoso, mas... Eu não consigo dizer que o amo, não consigo resgatar um amor assim. Está tudo muito recente e... São onze anos, afinal!
- Eu compreendo, querida. Por isso que eu acho que deve esperar um pouco. A convivência daqui para frente vai ser inevitável. Quer ele saiba sobre Chloe ou não – Jane pontuou. – Você vai querer encontrar os seus antigos amigos e estes são amigos comuns entre vocês dois... Acho que nada, nem mesmo a relação que vocês mantiveram anos atrás ou o tempo que ficaram separados, pode interferir caso vocês estejam dispostos em manter a antiga amizade que tinham.
- Tem razão, mamãe. – Hermione sorriu e abraçou a mãe. – Obrigada.
- Por nada, querida. Quando voltar, gostaria que me procurasse. Quero conversar mais um pouco com você. – Jane se afastou, com um sorriso maternal nos lábios. – Agora vá se arrumar antes que as meninas fiquem prontas antes de você.
Jane se levantou e Hermione a acompanhou. Jane voltou a se aproximar da filha e beijou-lhe a testa antes de se retirar, fechando a porta às suas costas.
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O celular de tocou e Josh entrou no quarto apressado, porém silencioso, e subiu na cama para acordar a mãe.
- Tif? – chamou, baixinho.
Tiffany acordou e sentou-se.
- O que houve, Josh? – perguntou.
- O celular. – Ele mostrou, ainda falando aos sussurros. – Já é a segunda vez que está tocando, na primeira vez até caiu da cômoda onde estava sua bolsa de tanto vibrar! Foi a Jen que achou...
- Deixe-o aí em cima, eu já retorno a ligação – Tiffany pediu e pegou-o no colo. – A mamãe te ama, sabia? – Josh sorriu e abraçou-a. – Vamos acordar sua irmã? Já está tarde e se ela dormir muito, não dorme à noite.
- Já são 19h10. Não acho que ela vá dormir muito cedo hoje – Josh comentou e riu.
Tiffany sorriu e pôs a mão livre na barriguinha da filha e fez cócegas.
- Fran, meu amor... Acorde – disse.
Francine sorriu ainda de olhos fechados e encolheu-se, fugindo das cócegas que a mãe fazia, depois se espreguiçou.
- Já está de noite? – ela perguntou, sentando-se rapidamente na cama e olhando através da janela.
- Hum-hum – Tiffany assentiu enquanto colocava Josh no chão. – Vamos descer para lanchar?
Francine desceu da cama e correu porta afora.
- Acho que isso é um sim – Josh riu e seguiu a irmã.
Tiffany riu sozinha e, ainda sentada na cama, pegou o celular que estava sobre a cômoda ao lado da cama. As chamadas que recebera eram de Draco – e ela revirou os olhos ao constatar isso; estava odiando aquela nova atitude de irmão superprotetor – e de Herod.
Riu. Herod levara mesmo a sério o que ela dissera mais cedo? Onde já se viu... jantar com a família dele?! Era só o que faltava!
Imaginando que Draco provavelmente já ligara para casa e Cissa já teria dito que ela estava lá, ligou para Herod.
- Espero que eu não a tenha acordado – ele disse automaticamente ao atender ao telefone.
- Tecnicamente, quem me acordou foi Josh – ela respondeu, o tom divertido evidente em sua voz. – Mas foi bom, senão eu teria sérios problemas de insônia essa noite.
- Eu não acredito nisso – Herod discordou. – Você estava tão cansada, e ainda deve estar, que seria capaz de dormir até amanhã. Talvez acordasse mais cedo, mas dormiria por pelo menos doze horas ininterruptas.
- Acho que estou descansada o suficiente – Tiffany retrucou. – A que me ligou, finalmente?
- Bom saber que está ‘descansada o suficiente’. Agora você já pode ‘responder por você’ e me dizer o que acha de ir jantar... hum... daqui a quarenta e quatro minutos.
- Eu já lhe disse o que penso sobre a sua sanidade mental, não disse? – Tiffany riu, mesmo após perceber que caiu na armadilha do loiro. – Christow, não é uma boa idéia, é sério...
- Isso ainda não é um não – ele insistiu. – Prometo que não ficaremos até muito tarde.
- Eu não vou me sentir à vontade. E nós... Nós brigamos o tempo todo e... – ela tentou argumentar. – Francamente! Sejamos realistas... Eles esperam uma daquelas garotas novinhas, lindas, loiras, esbeltas e estonteantes com as quais você está acostumado. Ah, e, se me permite acrescentar, sem cérebro! E depois...
- Isso ainda não é um não – Herod repetiu, interrompendo-a. – E o tempo está passando.
- Herod Isidore Christow, você não existe!
- Isso é um sim?
Tiffany revirou os olhos antes de responder:
- É bom que saiba que eu só estou indo por seu pai – e acrescentou: – E vamos encarar isso como uma trégua, ok?
- Como quiser. Passo aí às 19h50.
- Tudo bem. – Tiffany deu um sonoro suspiro. – Até daqui a pouco.
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Quando saiu do banheiro, já pronta, Zoe e Chloe já estavam no quarto. Chloe calçava as botas enquanto Zoe, sentada ao seu lado na beirada da cama, balançava as perninhas no ar. A pequena pegou o pente que estava sobre a cama e passou a pentear os cabelos, desajeitada.
- Zoe! – Chloe repreendeu, sorrindo. – Eu não disse que ia te ajudar?
- Deixe que eu faço isso, Chloe – Hermione disse, sentando-se na cama. – Você não vai fazer nada no cabelo?
- Não, vou só colocar um arco nos cabelos e deixá-los soltos mesmo. A vovó me comprou um arco novo que tem uma fita comprida na ponta, que amarra na nuca e cai pelas costas. Veio com essa blusa – apontou. – Gostou?
- Sim, querida – Hermione sorriu. – Está linda.
- Você devia fazer um penteado, Chloe. Antes de o papai me levar para cortar os cabelos, eu adorava fazer penteados. Mas agora eles estão curtos e eu não posso fazer muita coisa – Zoe comentou. – Acha que ficará bonito se eu fizer um coque e colocar a rede com aquele laço preto? Papai disse que eu fico linda quando estou vestida de bailarina e com esse penteado...
- Você faz ballet? – Chloe perguntou.
- É, eu faço. Aulas de francês, alemão e português também. Papai disse que era uma preparação para os planos que tinha para este verão – Zoe contou.
- Venha, Zoe, eu vou pentear seu cabelo – Hermione sentou-se na cama e a pequena veio ficar de pé entre suas pernas.
- Bem, eu sei falar alguns idiomas – Chloe contou, dando continuidade à conversa. – São onze ao todo, inclusive alemão e francês, mas não português.
- Onze, Chloe? – Hermione fez, como se algo na conta da filha estivesse errado.
- É, onze – a pequena assentiu, mas entendeu o que a mãe queria dizer. – Doze, se contarmos com o inglês.
- Ah, bom. – A mãe concordou dessa vez. – Chloe fez ballet até o ano passado, Zoe. Ela continuou fazendo o kung fu e a ginástica olímpica depois que voltamos a morar em Londres, mas não tive tempo de encontrar uma boa academia de dança para ela. Então todas as tardes, após a escola, a levo ao clube para ela praticar o kung fu e a ginástica e jogar tênis.
- Nossa paixão! – Chloe comentou, sorrindo. – Mamãe não pode ficar porque tem que ir trabalhar, então nós só jogamos juntas aos fins de semana. Ela só trabalha nas terças e quartas pela manhã, nos outros dias ela treina artes marciais, duelos e joga tênis.
- Faço isso sempre que tenho um tempo livre. É bom se sentir bem com seu próprio corpo.
- E quando eu tenho tempo livre, gosto de ouvir música.
- E fazer música – Hermione completou. – Chloe sabe tocar piano, e agora está aprendendo a tocar violino.
- Sozinha! – a pequena acrescentou, com orgulho.
- Uau, quanta coisa! – Zoe fez, encantada. – Você sabe falar outras línguas também, Hel... Hermione?
- Pode me chamar de Mione, Zoe – Hermione sorriu. – E, sim, eu sei falar algumas.
- Vinte e sete – Chloe entregou. – Vinte e nove se contarmos o inglês, a língua que falamos habitualmente, e o latim, que não é mais falado hoje em dia.
- Legal! Depois quero aprender. Tudo! – a loirinha disse.
- Teremos muito tempo para que eu possa te ensinar – Hermione concordou enquanto ajeitava o laço no cabelo de Zoe. – Pronto, terminei.
Zoe virou-se para ela.
- Como estou? – Fez pose, arrancando risos de Chloe e Hermione.
- Está linda! Uma pequena fadinha, só faltam as asinhas, porque pequenina já é... – Hermione sorriu e abraçou-a. – Vocês podem descer na frente. Eu tenho que fazer umas ligações antes de ir...
- Para o papai? – Zoe indagou, os olhinhos verdes faiscando.
- Bem... – Hermione não sabia o que dizer. – Podemos ligar para ele, se quiser.
- Eu pensei que ele viria hoje – a loirinha disse. – Com você.
- Ele estava comigo, Zoe, mas não pôde vir. Estávamos todos muito cansados e nem lembramos... Desculpe. – Uma pausa. Ela sorriu sem graça e tirou o celular do bolso, estendendo-o para a pequena. – Tome, ligue para ele.
Enquanto Zoe estava concentrada no aparelho, discando, Hermione piscou para a filha, que automaticamente entendeu o recado e levou a garotinha para fora do aposento, fechando a porta após sair.
Hermione suspirou e pegou o outro celular, discando também.
- Nina falando – Rhina atendeu, já zombeteira.
Hermione riu com a lembrança do apelido da amiga. Chloe, ainda quando pequena, simplesmente não acertava chamá-la de Rhina, e por isso chamava-a de Nina, apelido que acabou pegando e, desde então, ela e Hermione a tratavam, carinhosamente, daquela maneira.
- Como vai, Nina? Ainda está com Alecia? – perguntou.
- Acabei de sair de lá. Depois do acidente com o Potter, decidimos suspender todas as missões até segunda ordem, então saímos todas mais cedo. Estou com Anastasia aqui, e com uma das meninas do time mais novo da agência, Dinara Zusak – Rhina contou.
- Alecia adora as russas. Pelo menos oitenta por cento da agência inteira é formada por russas – Hermione comentou.
- É, elas parecem agradar – Rhina comentou. – Mas são oitenta e três por cento, agora. Dessa vez, só entraram russas e polonesas. Dá para imaginar a confusão de nomes agora, não é?
- Imagino – riu.
- Ah, querida, nem te conto!
- É sobre os amores de sua vida ou sobre seu Apolo? – Hermione brincou, referindo-se aos cães e ao sobrinho da vizinha da amiga.
- Sem graça! – Rhina fez. – Mas não é nada disso, não... – Então outra voz assumiu o fone, e Hermione percebeu se tratar de Anastasia. – Mione, querida, hoje a Sax mais velha saiu acompanhada por um gato!
Hermione ouviu risos mais distantes e depois Rhina repreendendo Anastasia por ter tomado o celular de suas mãos.
- Me conte isso direito, Rhina Nielsen! – pediu.
- Pois é, querida... Alecia está noiva. Noiva! De aliança e tudo, imagine?!
- Não! Não dá para imaginar. Dessa vez estou realmente surpresa, mais do que fiquei quando soube do noivado de Frida – Hermione riu. – Mas voltando ao assunto das missões... Amanhã no final da tarde eu vou à agência, ok?
- Como quiser. Estaremos te esperando – Rhina garantiu.
- Ótimo. Até amanhã, então.
- Até, meu bem. Dê um beijo em Chloe Ann Potter.
- Há-há, engraçadinha – Hermione revirou os olhos e ouviu Rhina rir gostosamente do outro lado da linha, mas assentiu: – Pode deixar, eu darei. E mande um para Ana.
- É claro. Tchauzinho! – houve um ruído do que Hermione imaginou ser um beijo e a linha ficou muda.
Ela balançou a cabeça negativamente, rindo. Mais uma vez discou.
- Já com saudades? – Amy atendeu.
- Por que todo mundo resolveu me caçoar hoje?
- Uh-uh, desculpe – Amy fez. – Algum problema? No que deu a história da Parkinson?
- O que você já sabe... Ela está internada numa clínica trouxa, sob tratamento do irmão mais velho de Paul. Mas está tudo bem, não se preocupe.
- Com ela ou com você?
Hermione revirou os olhos. Amy conseguia tirar qualquer um do sério!
- Comigo – disse, e repetiu: – Está tudo bem.
- Ah, bom. Zoe acabou de ligar pro Harry...
- Ele está aí com você?
- Na verdade, não. Eu saltei do carro não faz mais do que dois minutos, e eles ainda estavam conversando.
- Hum – Hermione fez, sem encontrar um comentário apropriado para fazer. – Então, Amy... Acha que é problema faltar o terceiro dia de trabalho consecutivo?
- Não acho que isso seja problema para quem tem a semana de folga – Amy riu. – O que você quer fazer?
- Não sei. Há tanta coisa que eu gostaria de fazer... Mas estava pensando em visitar Liah. Ainda estou em dívida com ela – sugeriu.
- Então amanhã, quando chegar, me ligue.
- Claro – Hermione assentiu. – No final da tarde eu tenho um compromisso, mas nada que vá interferir em nossos planos. Quero ir a Hogwarts também...
- Falar com Dumbledore.
- Exatamente. Mas vou deixar para ir sexta-feira pela manhã, ou à tarde – disse.
Naquele momento, Chloe e Zoe retornaram ao quarto. Sua filha fez sinal de silêncio para a loirinha e fechou a porta silenciosamente.
- Amy, eu tenho que desligar. As meninas acabaram de entrar aqui no quarto e eu combinei de sair com elas. Eu ligo amanhã.
- Tudo bem, Herms. Dê um beijo nelas.
- E você nas crianças. Até amanhã.
- Até, Herms – e a linha ficou muda.
- E então? Falou com seu pai? – Hermione perguntou a Zoe, enquanto Chloe lhe estendia o celular.
- Arrã – Zoe confirmou, acenando positivamente. – Ele disse que vem me ver.
- Em outras palavras, ele está vindo se encontrar conosco – Chloe disse. – No Chez Catherine.
Hermione não esperava por aquilo, mas o que haveria demais num simples jantar?
- Que horas ele disse que nos encontraria lá? – perguntou.
- Às 20h – Chloe respondeu.
- Tudo bem, então vamos logo. Não podemos nos atrasar, certo? – ela tentou sorrir de modo convincente, e parecia ter atingido seu objetivo.
Ela se levantou e foi para a frente do espelho, encarando-se.
Ajeitou as roupas brevemente e puxou um batom de dentro de uma caixa que estava na mala aberta no chão. Então deu por falta de algo.
- Onde está Daisy, Chloe?
- Está com Hil e Jess lá embaixo – a menina respondeu, como que automaticamente.
- Ah, bom – Hermione assentiu e passou o batom.
Mais uma vez analisou as vestes que usava. Calças de couro marrons escuras muito justas e botas de salto agulha e cano ¾ da mesma cor, também de couro, que facilmente pareciam ser uma só peça de roupa, uma blusa de linho bege e justa que descia até o quadril, de gola alta e mangas curtas, sobreposta por uma coleção de pérolas de vários tamanhos. Os cabelos estavam soltos e pendiam, lisos, até a cintura enquanto a franjinha caía sobre os olhos.
- Está linda – Zoe e Chloe disseram numa só voz, como que entendessem a preocupação de Hermione.
Hermione virou-se para elas, dando as costas ao espelho. Sorriu e pegou o sobretudo marrom que estava sobre a cama, segurando-o sobre o ombro.
- Vamos – disse e encaminharam-se para a porta, as duas meninas à sua frente.
Desceram as escadas e atravessaram a sala, rumando para o hall de entrada.
- Uau, como minha prima está bonita... – Hilary disse e pôs-se de pé, com Jessica adormecida em seu colo. Aproximou-se com Daisy em sua cola e baixou a voz para um sussurro maldoso: – Vai se encontrar com alguém? Quem é o sortudo da vez?
Hermione viu suposições maliciosas formarem-se na mente da prima e riu.
- Você não tem jeito mesmo, Hil! Fala como se eu tivesse o costume de sair com rapazes todas as noites – disse. – Vou apenas jantar com as meninas, como prometi mais cedo.
- E atrair olhares de todos os homens por onde passar – Hilary continuou. – Ora, vamos, Hermione! Vestiu-se para quem? Para eles, para elas ou para matar?
- Elas de inveja e eles do coração – as duas concluíram em uníssono, rindo em seguida.
- Acho que hoje eu me vesti para mim, Hil. Agora me deixe ir, antes que nos atrasemos – Hermione acrescentou.
- Fez reserva? – Hilary arqueou uma sobrancelha. Não era do feitio da prima fazer reserva em restaurantes.
- Não, Hilary Aimée Vernet!
- Blanc – a loira corrigiu. – Hilary Aimée Blanc!
Hermione revirou os olhos.
- Por que você é tão irritante?
- Meu bem, eu vi Zoe combinar com o pai de vir encontrar-se com vocês no Chez Catherine...
- E eu acabei de saber disso também, querida. Ele não estava nos planos, eu garanto.
- Uh, tudo bem! Não está mais aqui quem falou. – E Hermione soube que, se tivesse as mãos livres, a prima as teria erguido em sinal de rendição. Mas ela continuou, rindo: – Você poderia trazê-lo aqui mais tarde... Prima minha só sai com rapazes que forem previamente aprovados.
- Uma pena que esta não seja uma lei necessariamente seguida à risca, não é? – Hermione riu gostosamente e viu Hilary lhe mostrar a língua. – Bobona! – disse antes de dar um beijo na bochecha da prima e mexer com cuidado na mãozinha de Jessica. – Agora nos deixe ir. Chloe! Zoe!
As duas levantaram do sofá e correram para a porta.
- Tchau, Hil – despediram-se e saíram à frente rumo ao Volvo XC60 de Hermione.
Antes de fechar a porta, Hermione deixou no ar um beijo para a prima e piscou, ao que Hilary sorriu.
- Divirtam-se – ouviu-a dizer antes de finalmente bater a porta.
Desceu as escadas apressada e abriu o carro. Chloe e Zoe assumiram seus lugares num átimo e bateram as respectivas portas quase que simultaneamente a Hermione.
- Ponham os cintos – Hermione mandou e deu partida.
Chegaram ao restaurante em poucos minutos. Hermione checou o relógio assim que adentraram o lugar bem iluminado. 19h54.
- Boa noite! – o maître veio cumprimentá-las, em francês. – São apenas três?
- Quatro – Hermione corrigiu, também em francês. – Estamos esperando alguém.
- É claro. Venham comigo – ele indicou o caminho até uma mesa num canto menos movimentado, e Hermione agradeceu por isso. – Fiquem à vontade, e eu já mandarei alguém para atender vocês. Gostaria que eu dissesse à pessoa que vocês já a estão esperando?
- Oh, sim, obrigada. É um rapaz, o nome dele é Harry Potter.
- Sim, é claro. E devo dizer que a senhora...
- Senhorita – Hermione corrigiu mais uma vez. – Granger. Diga-lhe que a Srta. Granger já está esperando por ele.
- Perfeitamente – o maître assentiu. – Com licença.
Chloe riu.
- Que engraçado! Ele acha que eu sou sua irmã e que Zoe é sua filha – comentou.
- Seria legal ser sua filha – Zoe disse. – Acho que seria legal ter uma mãe.
Chloe então mostrou parte da conversa que as duas garotinhas tiveram com Jane àquela tarde, e Hermione teve que piscar repetidas vezes os olhos para afastar as lágrimas que provavelmente os invadiriam.
- Zoe – ela começou, sem saber ao certo o que dizer ou como dar início às explicações que devia à loirinha. – Chloe e mamãe me disseram que você acabou por saber meu nome verdadeiro, certo?
- Sim – Zoe assentiu. – Eu sei que seu nome é Hermione. A vó Jane nos contou o significado. É um nome muito bonito e diferente.
- Sim, é bastante diferente – Hermione concordou e deu um meio sorriso. – E Chloe lhe disse que eu precisei assumir Helena como nome público, não foi isso?
- Arrã – mais uma vez Zoe confirmou. – Foi inteligente a escolha do nome... Helena de Tróia é mãe de Hermione.
Chloe e Hermione acabaram por trocar um olhar e sorrir.
- Na verdade, Zoe, eu não escolhi o nome que eu assumiria. Foi uma amiga quem providenciou tudo e escolheu um nome que mantivesse as minhas iniciais. Por isso Hermione Jane Granger e Helena Jordin Gauer.
- HJG – Chloe concordou.
- E por que você teve que mudar seu nome? – Zoe finalmente fez a pergunta que havia aguçado sua curiosidade desde aquela tarde.
- Para retornar à Grã-Bretanha. Eu passei quase dez anos morando em vários países e não podia voltar porque eu sou nascida trouxa e as coisas aqui estavam um tanto quanto complicadas para pessoas que, como eu, têm pais trouxas. Além disso, ainda havia um assassino que estava perseguindo os nascidos trouxas, então não havia maneira de eu voltar. Eu, Hallie e sua mãe nos conhecemos por conta disso... E eu e sua mãe trabalhamos juntas na investigação desse bruxo – Hermione contou e fez uma breve pausa, buscando saber se Zoe havia compreendido tudo o que lhe dissera. Então continuou: – Infelizmente, ela não pôde continuar entre nós e eu assumi tudo sozinha. Então, no final do ano passado, consegui a oportunidade de voltar para Londres e Elizabeth Newbie, tia de sua mãe e de Hallie, ajudou a providenciar algumas coisas para mim, só exigindo que eu conseguisse uma nova identidade.
Hermione se calou e esperou. Zoe parecia ponderar sobre o que ouvira, as sobrancelhas ralas e claras franzidas.
- Hum, entendi – ela disse, por fim.
- Olhe, Zoe, sei que não se pode conquistar a confiança de alguém, principalmente uma criança, dessa maneira, mas foi preciso que eu mantivesse as aparências. Eu tinha certeza de que, em sua pureza e inocência, falaria a meu respeito com seu pai e ninguém, absolutamente, podia saber que eu estava aqui, entende? – explicou. – Não fiz por mal, apenas para proteger a mim e a minha família.
- Não tem problema – Zoe assegurou, se levantando e vindo parar no colo de Hermione. – Eu já amava a Helena, e amo a Hermione do mesmo jeito.
- Oh, meu raio de sol! – Hermione beijou-lhe a testa e a abraçou sob o olhar e o sorriso de Chloe. – Fico tão feliz em ouvir isso... – disse enquanto afastava a franjinha loira dos olhos da pequena para olhá-la em seus olhos faiscantes e verdes intensos. – Eu também te amo, e amo como amaria a uma filha, especialmente como tal.
Zoe sorriu. Hermione ainda estava prestando atenção a ela quando o sorriso da loirinha se alargou e seus olhos iluminaram-se e ela pulou de seu colo, correndo entre as mesas de encontro a algo.
A alguém, como Hermione notou no instante seguinte.
Zoe já estava no colo do pai e o abraçava pelo pescoço, enquanto este beijava suas bochechas rosadas e se encaminhava para a mesa em que Hermione e Chloe estavam sentadas.
Seus olhos automaticamente correram o rosto de Chloe e fixaram-se em seus olhos, verdes como os de Zoe... como os de Harry. E, sem pensar duas vezes, concentrou-se apenas neles.
No instante seguinte, viu-se encarando a si mesma, como se nunca tivesse deixado seus onze anos para trás. Sua atenção só foi desviada quando uma voz masculina se fez presente e Chloe saltou da cadeira que estava à sua frente para a cadeira ao seu lado.
- Hermione – ele cumprimentou, brevemente.
- Harry – Hermione engoliu em seco e forçou um sorriso.
- E você deve ser Chloe – Harry sorriu para a garotinha sentada ao lado de Hermione, seus olhos fixos nos olhos dela.
Sentiu o passado voltar à tona enquanto encarava a menininha. Era como se o tempo nunca tivesse passado, como se tivesse retornado aos seus onze anos de idade, como se ainda estivesse naquele primeiro de setembro, dentro do Expresso de Hogwarts, quando uma garotinha metida a sabe-tudo abriu a porta do compartimento que dividia com Ronald Weasley... E ele a estava vendo ali, diante de si mais uma vez.
E aqueles olhos... Ah, aqueles olhos pareciam dar um novo sentido a tudo.