A campainha tocou, para a surpresa geral.
- Devem ser Ashley e Paul. Tiffany e Christow não chegarão por agora... – Hermione comentou. – Vou recebê-los e irei conversar um pouco com eles, tentar explicar a situação.
- Nós realmente precisamos envolvê-los, Hermione? – Harry perguntou, parecendo duvidoso.
- Bem, tratando-se do problema que Parkinson tem, seria necessário envolver um psiquiatra de qualquer maneira. Então, acho que o melhor é envolver um que seja de confiança. Conheço Paul há muitos anos, e Ashley é minha prima... E se não vamos contar sobre o mundo bruxo, por que não contar com a ajuda deles? – a morena disse, com simplicidade. – E depois, se eu quisesse, poderia simplesmente dar um pouco de Veritaserum a ela. Nós temos um pouco aqui, afinal! Não funcionaria. De que adianta lhe dar a Poção da Verdade quando ela não pode nos fornecer nenhuma resposta que precisamos?
Ninguém respondeu; sabiam que Hermione tinha razão – ela sempre tinha.
- Bel, você pode recebê-los e lhes indicar o caminho para o escritório?
- É claro, Mione.
- Obrigada, querida – Hermione sorriu e agradeceu. Esperou que Isabella deixasse o aposento para dirigir-se aos outros dois. – Vocês devem ficar na cozinha e esperar que eu retorne.
- Tudo bem – Amy assentiu, embora Harry estivesse pronto para questionar. – Vamos, Harry.
E Amy puxou-o para fora do escritório, rumando para a cozinha.
Um minuto depois, Isabella retornou ao aposento, acompanhada de Ashley e Paul – e Hermione nunca esteve tão feliz em vê-los.
- Ah, que bom que vocês chegaram!
- A estrada estava um pouco congestionada por conta do feriado, então demoramos mais do que o previsto – Paul pontuou e checou brevemente o seu relógio de pulso. 10h16.
- Bel? – Hermione chamou. – Fique na cozinha com os outros. Amy deixará vocês a par de tudo, mas eu realmente preciso ficar a sós com eles.
- Tudo bem. Qualquer coisa, pode chamar.
- Eu sei, querida. Obrigada – Hermione sorriu e observou a amiga deixar o aposento, fechando a porta atrás de si.
- Só estão vocês três aqui? – Ashley perguntou, referindo-se a Hermione, Isabella e a Pansy, que, ela reparou, encontrava-se adormecida no sofá.
- Na verdade, não. Ainda há um casal lá dentro – a morena respondeu.
- E imagino que ela seja a paciente, certo? – Paul inquiriu, apontando brevemente com um aceno para Pansy.
- É ela – Hermione apontou o sofá. – Tivemos que mantê-la adormecida... Ela estava transtornada!
- Sim, eu imagino – Paul assentiu. – O que vocês conseguiram descobrir até então?
- Bem, ela tem dois alteres: Perlla Panettiere e Priscilla Paltrow. Uma é italiana e tem vinte e cinco anos, a outra é americana, tem dezenove anos – Hermione contou. – Acredito que o alter dominante seja Perlla, a mais velha. Priscilla parece estar sempre sob influência dela...
- Como você concluiu que tratava-se de um caso de DPM? – Ashley perguntou.
- Os nomes – resumiu.
- Qual o nome dela? – Paul indagou.
- Pansy Parkinson.
- De fato. Todas as iniciais, tanto do nome quanto do sobrenome, são as mesmas – o psiquiatra assentiu. – É uma característica bastante forte do distúrbio. Os alteres costumam utilizar as iniciais do paciente para criar sua própria identidade. Temos Pansy Parkinson, Perlla Panettiere e Priscilla Paltrow. P... P... Muito bem observado, Mione.
- É, bem... Eu venho recebendo material sobre esses assassinatos há anos, e na madrugada de ontem eu recebi algo que estava faltando, do ano de 2004. Todas as evidências indicavam o nome dela, mas o endereço que eu havia recebido estava em nome de uma suposta italiana, então tudo pareceu voltar ao zero. E só piorou quando eu recebi uma ligação de uma amiga que dizia estar com a italiana, no entanto, ela tinha o rosto de Parkinson, dizia se chamar Priscilla Paltrow e falava muito sobre a tal Perlla. Então eu entendi tudo – ela explicou. – E, devo dizer, a conversa que tivemos ontem pela manhã me ajudou bastante, Ash.
Ashley sorriu e virou-se para o marido.
- Contei a ela sobre o caso que nós estamos trabalhando, da mulher que matou o irmão – disse.
- Hum, é um caso muito interessante. Ela sofreu abusos do pai quando era criança e desenvolveu doze alteres... E matou o irmão, que estava hospedado em sua casa, ao vê-lo ir ao quarto de sua filha para desejar-lhe boa noite. Certamente que ela interpretou mal a atitude dele... – Paul contou. – Muitas vezes eles, os alteres, agem por impulso.
- Desculpe, mas não acho que ‘interessante’ seja uma palavra bem aplicada neste caso... Assombroso seria a palavra certa – Hermione murmurou.
- Sim, é comum que nós pensemos assim. Em todo caso, já podemos falar com ela?
- É claro – Hermione assentiu e se aproximou de Pansy. – Parkinson? – chamou. – Parkinson?
Pansy abriu os olhos extremamente azuis e fitou Hermione, levemente sobressaltada.
- O que aconteceu? – perguntou, enquanto sentava-se.
- Shhh, seja discreta – Hermione pediu num sussurro. – Tome, beba isto.
Pansy olhou desconfiada para o pequeno frasco e de novo para Hermione.
- Eu não vou beber isso...
- Parkinson, é para o seu próprio bem – Hermione fez, em tom de aviso.
A contragosto, Pansy pegou o frasco e virou-o na boca, fazendo uma careta em seguida.
- Perfeito. Agora eu vou te deixar a sós com minha prima, Ashley, e seu marido, Paul. Eles irão conversar com você, tudo bem?
Pansy olhou de um para o outro e voltou a encarar Hermione, assentindo brevemente. Hermione sabia que o método utilizado para se ter aquele tipo de conversa com o paciente era a hipnose, ou não teria adiantado nada dar à Pansy a poção da verdade.
- Ela é de vocês – Hermione disse ao casal. – Fiquem à vontade – acrescentou antes de fechar a porta às suas costas.
---
Ele sentiu o celular vibrar no bolso da calça e puxou-o discretamente. Um dos diretores da empresa falava incessantemente naquele momento e todos tinham as atenções completamente voltadas para ele; ninguém perceberia, no fim das contas.
Quando ele finalmente conseguiu visualizar o visor e identificar quem estava ligando, o vibrar cessou. “Tiffany”, ele pensou e levantou os olhos. Ele tentara falar com a morena mais cedo, mas não conseguira; a chamada sequer completava. E agora era ela quem estava ligando... Teria acontecido algo?
Ou, talvez, ela estivesse apenas querendo saber notícias das crianças, perguntar se ele já teria ligado para falar com elas...
Ele já ligara para a casa dos Haase e Narcisa lhe dissera que as crianças estavam bem e que já haviam saído para a escola.
Acabou, então, por planejar: pegaria as crianças na escola – Brianna, Jennifer, Josh e Francine – e os levaria para almoçar, depois os deixaria em suas respectivas casas e seguiria para Leeds.
A reunião já durava mais de meia hora, e, para o pouco que eles tinham a decidir, já estava demorando muito. Ele bem sabia que demoraria para se acostumar com aquilo, mas ele escolhera aquilo e iria até o fim.
Os minutos se arrastavam e ele já não aguentava mais. O celular vibrou mais uma vez, brevemente. “Mensagem”, ele supôs, e tinha certeza de que era de Tiffany. Riu ao confirmar suas suspeitas, mas tratou de disfarçar para que não percebessem seu riso; certamente seria constrangedor.
Estou em Londres.
Então tudo já estaria resolvido? Resolveu responder.
Onde você está?
Ainda estou em reunião. Te ligo assim que acabar.
Passaram-se alguns minutos até que a resposta viesse:
Saindo do Ministério. Já liguei para casa e estou indo para lá.
Cissa me disse que você ligou mais cedo e que meu irmão já
havia levado as crianças à escola. Obrigada do mesmo jeito.
Imediatamente clicou no botão “Responder”:
Eu tentei falar com você mais cedo, mas a ligação não completava.
Provavelmente você já estava no Ministério. De qualquer forma,
eu tinha planejado pegar as crianças na escola para almoçar com elas.
Dessa vez a resposta veio mais rápido:
Hum... Uma boa idéia. O problema é que a aula só acaba as 14h, esqueceu?
Mas veremos o que podemos fazer. Me ligue quando puder falar.
Ele então guardou o celular e voltou sua atenção para o diretor do financeiro, que já tomara a palavra para si.
Somente quarenta minutos mais tarde eles foram liberados. Herod cumprimentou a todos e foi de encontro ao pai.
- As vendas subiram um bocado no último mês, hã?! – fez, tentando puxar conversa.
- Sim, estamos prestes a fechar negócio com mais duas empresas.
- Três, papai. Três! – Herod corrigiu. – Eu entrei em contato com aquela empresa de tecidos irlandesa, e eles parecem bastante tentados em fechar negócio.
- Isso é bom, Herod. Muito bom – John Christow disse enquanto cumprimentava o último diretor. Agora ambos andavam lado a lado, o filho e o pai. – Seu avô ficou muito satisfeito em saber que está conosco.
- É, eu contei a ele ontem de manhã.
- Nós iremos jantar com ele esta noite, não esqueça.
- Claro, pai – Herod assentiu. – Eu vou precisar me ausentar esta tarde, se não se importa. É claro que vou manter o celular ligado e vocês poderão falar comigo caso precisem de algo, mas eu ainda tenho alguns assuntos pendentes a resolver.
- Ainda com aquela moça que sua mãe falou? – John ergueu uma sobrancelha.
- Ela está envolvida, mas eu garanto que não é nada do que está pensando. São problemas, hum... profissionais, por assim dizer. Nós estamos trabalhando em algo importante – o loiro garantiu, sob o olhar desconfiado do pai. – É só mais esta tarde, prometo.
- Herod – o pai começou.
- Eu sei, pai... “Eu estou só começando e já estou me ausentando tanto” – ele repetiu, adaptando o que o pai lhe dissera àquela manhã antes da reunião para a primeira pessoa. – Mas eu garanto que estarei pronto às 20h para o jantar com o vovô e que amanhã estarei de volta à rotina normal. Inclusive no que diz respeito em pegar Brianna na escola.
O pai pareceu ponderar por um instante e balançar a cabeça negativamente, mas logo concordou:
- Tudo bem, vá – John disse, e Herod sentiu-se privilegiado por ter o pai como chefe. Embora a cobrança fosse ainda maior, havia suas vantagens, afinal!
- Obrigado, Johnny – ele afagou o ombro do pai e caminhou apressado para o lado oposto ao que o pai seguia.
- Eu quero conhecê-la!– Herod ouviu o pai dizer ao longe, e riu.
Puxou o celular do bolso e discou rapidamente para Tiffany.
- Esteja pronta em dez minutos. Estou passando para te pegar – foi tudo o que ele disse quando ela atendeu, desligando em seguida.
Entrou no elevador e quando finalmente alcançou seu destino, correu para alcançar seu Mercedes ML 500. Deu partida e disparou rumo a Knightsbridge. Chegou ao destino em menos do que os dez minutos programados, mas ele nem precisou buzinar; Tiffany já saía de casa quando ele encostou o carro no meio-fio. Usava um vestido quadriculado em vermelho, preto e branco e uma sapatilha prateada, e vinha vestindo o sobretudo preto enquanto caminhava de encontro ao carro.
- Ficou louco? – ela indagou quando adentrou o carro.
- Não. Eu apenas estou dando continuidade aos meus planos – ele respondeu enquanto arrancava mais uma vez com o carro.
- Hum, é claro. E eu estou começando a desconfiar de sua sanidade – Tiffany murmurou, enquanto puxava o cinto de segurança.
Herod riu.
- Eu também amo você, Haase.
- Eu não disse que te amava, querido – Tiffany fez, com desdém.
- Whoa! Nunca ouviu aquele texto que diz que nós não devemos esperar que o outro faça algo para fazermos? – ele brincou e a morena revirou os olhos. – Onde você perdeu o seu senso de humor, Haase?
- Em algum lugar... bem longe daqui, talvez.
- Tudo bem, vamos parar por aqui – Herod finalizou e Tiffany recostou a cabeça no encosto do banco do carona, fechando os olhos. – Te acordei?
- Se tivesse me acordado, certamente não estaríamos tendo esta conversa agora – ela murmurou, seca, ainda de olhos fechados. Então abriu-os e encarou o loiro. – Mas não, você não me acordou. Eu até gostaria de ter dormido um pouco, mas meu irmão me prendeu no Ministério por mais tempo do que eu esperava.
- Hum...
- Ele está insistindo para que eu conte o que está acontecendo. Provavelmente acha que estou me envolvendo com alguém... – ela bufou. – Como se eu tivesse idade para ele bancar o irmão mais velho e ficar controlando a minha vida! Nem meu pai procura saber o que eu tenho feito...
- Talvez não se preocupe porque sabe que você é responsável e tem uma vida regular... Mas é perfeitamente aceitável que eles procurem saber quando notam algo de diferente, fora do que consideram normal para você – Herod sugeriu. – Se você tem uma vida toda certinha, uma rotina que segue à risca sempre... Quando você foge um milímetro disso, eles sempre vão inquirir a respeito. É só que... bem, eles estavam acostumados com a Tiffany que não dormia fora de casa e não deixava suas obrigações por fazer.
- Uh, falou o especialista! – Tiffany brincou. – Você parece entender bastante disso, não?
- É, eu sou irmão mais velho também, esqueceu? – ele riu, mas assumiu um tom sério novamente e fitou-a. – Mas digamos que... eu estou passando por algo parecido.
- Você se refere ao fato de ter começado a trabalhar na empresa de seu pai?
- E por que não? Foge ao meu perfil de playboy, não? – ele comentou. – Mas, sim... Por esse e outros motivos.
- Hum, entendo – a morena murmurou, sem saber o que dizer.
Silêncio. Herod fez uma curva em alta velocidade e parou o carro bruscamente, encostando à porta da escola onde suas respectivas irmãs e os filhos de Tiffany estudavam.
- Meu pai quer conhecer você – Herod disse, de súbito, encarando a morena.
Tiffany encarou-o, surpresa e deu um riso nervoso.
- Como?
- É, ele quer conhecer você – o loiro riu.
- Uau, estou me sentindo realmente importante!
- Eu vou jantar com minha família hoje. Você poderia vir comigo – ele sugeriu.
- Tudo bem, agora já não restam dúvidas sobre sua insanidade mental. – Tiffany revirou os olhos.
- Que mal há nisso? Eu conheço toda a sua família, não conheço? – Herod fez e Tiffany assentiu, contrariada. – Então por que você não pode vir conhecer a minha?
- Falaremos sobre isso mais tarde, ok? Depois que a nossa vida estiver resolvida... ou que eu dormir por algumas horas e estiver sóbria ou descansada o suficiente para responder por mim. É isso que o meu instinto diz no momento – ela disse antes de saltar do carro.
Herod a acompanhou de imediato e ambos rumaram para os terrenos da escola. Falariam com a diretora para liberar as crianças duas horas mais cedo.
Saíram dez minutos depois, acompanhados dos quatro: Brianna, Jennifer, Josh e Francine.
- Acho melhor eu voltar em casa e pegar meu carro. Não vai dar para todo mundo... – Tiffany começou.
- Dá, sim – Jennifer atestou.
- É, nós nos apertamos um pouquinho e dá para todo mundo chegar vivo – Brianna concordou. – E depois, a Fran pode ir no seu colo. Daqui para o Quo Vadis é um pulo!
- Tudo bem, então – Tiffany concordou. – Venha, Fran.
- Antes de entrar, me deem suas coisas para eu guardar no porta-malas, senão vai ficar ainda mais apertado.
- Depois nós vamos para onde? – Francine perguntou.
- Para casa, querida. Eu e Herod ainda temos que resolver algumas coisas – Tiffany respondeu.
- E que horas vocês voltam? – Josh foi quem indagou desta vez.
- Cedo, eu espero – Herod disse enquanto fechava o porta-malas. – Agora vamos.
Eles seguiram para o restaurante e tudo correu bem. Herod deixou Brianna primeiro em casa e seguiu para a casa dos Haase. Quando já estavam se despedindo das crianças, Francine, que tagarelara o caminho todo, resolveu perguntar:
- Vocês vão namorar? – a pequena tinha os olhos cor de mel faiscando, a expectativa crescente.
- Fran! – Josh repreendeu.
- Fran... – Tiffany começou.
- Não, Fran. Não está em nossos planos – Herod respondeu.
Francine fez uma careta.
- Então, está bem – ela disse antes de inclinar-se para dar um beijo no rosto de Herod, então abraçou a mãe pelo pescoço. – Ele gosta de você, mamãe. E eu gostaria que ele fosse meu papai, assim como você é minha mamãe – murmurou ao pé do ouvido de Tiffany antes de beijar seu rosto e pular do carro. – Tchau, Tif! Tchau, Herod!
Acenou brevemente ao lado de Jennifer e Josh, antes de correrem para dentro de casa enquanto o carro se afastava.
Tiffany olhou sem jeito para Herod, mas quem falou foi ele:
- É incrível como crianças são todas iguais! – ele balançou a cabeça negativamente, sem fitá-la, tentando quebrar o gelo.
- É, elas não têm vergonha... – Tiffany murmurou, ainda pensando no que Francine tinha dito a ela antes de descer do carro.
As duas horas que se seguiram foram silenciosas, exceto pela música que tocava no som do carro. Já estavam em Yorkshire quando Herod permitiu-se fitar a morena, que tinha os olhos fechados e ‘cantava’ em silêncio a música.
- Eu não sabia que você gostava de Nirvana – ele fez. – Você não tem cara de quem gosta desse tipo de música...
- Que tipo de música? Rock? – ela riu. – Qual é, Christow! Eu cresci ouvindo isso.
Ele observou-a recostar mais uma vez no banco e fechar os olhos.
- Você não deveria ter voltado – Herod observou.
- E por que não? – ela indagou sem abrir os olhos ou mudar de posição.
- Você está cansada.
- Sendo assim, você também não deveria estar aqui – Tiffany murmurou. – Estamos aqui por motivos diferentes: você pela curiosidade e eu pelo dever.
- Nem uma pontinha de curiosidade? – Herod arqueou uma sobrancelha e Tiffany abriu os olhos, entortando o pescoço para encará-lo.
- Talvez um pouco – ela disse e voltou a posição anterior, ounvindo Herod rir. – Falta muito?
- Trinta quilômetros – o loiro respondeu. – Em quinze minutos estarenos na Boston Avenue.
E o tempo fora calculado com precisão. Não levaram mais do que quinze minutos para chegar a Leeds. Ao virar para a rua onde ficava a casa dos Boyle, eles passaram por um Mercedes S600 preto, estacionado à porta da casa. Herod estacionou seu Mercedes ML 500 sob uma árvore próxima ao terreno baldio e ambos saltaram.
- 14h28 – Tiffany observou.
- É, nos atrasamos um pouco – Herod riu.
Eles já estavam alcançando o portão de ferro quando o celular de Herod tocou. Ele puxou-o apressado. Tiffany parou de andar e virou-se para ele, que também parara. O loiro encarou o visor do celular e revirou os olhos, pronunciando um palavrão em voz baixa.
- Negócios – ele bufou e Tiffany riu.
- Atenda, decerto é importante – a morena disse, ainda rindo.
Então ela atravessou o portão e subiu as escadas que davam para a porta da casa. Adentrou-a enquanto Herod permaneceu do lado de fora, andando de um lado para o outro, enquanto respondia à ligação.
Tiffany encostou a porta e atravessou a sala, procurando pelos outros. Ouviu vozes vindo da cozinha, e passos impacientes.
- ... Mione, você ainda vai pirar! – Ouviu Isabella dizer. – Por que não come alguma coisa? Você ainda não almoçou...
- Eu já estou tonta por ela – foi a vez de Amy comentar.
- É, no mínimo, compreensível. Faz quatro horas que eles estão lá dentro... – Harry murmurou.
Então os passos cessaram.
- Tiffany e Christow chegaram – Hermione disse, e Tiffany apareceu à porta da cozinha.
- Perdi alguma coisa? – perguntou.
- Ela está lá dentro com eles – Isabella respondeu.
- Com eles? – Herod juntou-se ao grupo.
- Sim, Ashley e Paul chegaram e estão interrogando Pansy Parkinson – Hermione respondeu e voltou a caminhar de um lado para o outro, enquanto os recém-chegados se acomodavam e compartilhavam da mesma espera.
---
Jane passou pela porta da sala de tevê, onde Michael e Jacob jogavam videogame.
- Mike e Jake, vamos lavar as mãos para lanchar? – fez. – Já mandei Verona servir o petit gateau.
- A vovó já chegou? – Michael pausou o jogo e virou-se para encarar a tia.
- Ela ligou quando estava saindo do plantão e seu avô já foi buscá-la.
- E a mamãe e o papai? – Jacob perguntou.
- Eles só chegarão para o jantar, querido. Agora vão logo se lavar, hã?!
Os garotos então levantaram-se e saíram correndo rumo ao lavabo. Jane sorriu e balançou a cabeça negativamente. Ambos conversavam entre si em francês na ausência da avó, que exigia o diálogo em inglês quando todos estivessem em casa e francês quando fosse da porta da rua para fora.
Jane subiu as escadas e rumou para o quarto que Hermione estava ocupando com Chloe – e agora com Zoe. Abriu a porta e sorriu ao ver as meninas deitadas assistindo a um filme que passava na tevê.
- Chloe e Zoe, queridas – chamou.
- Sim, vovó? – Chloe respondeu, sentando-se na cama, ao que Zoe fez o mesmo.
- Vamos descer para o lanche. Carl já saiu para pegar Marcia no hospital e seu avô já deve estar chegando também.
- A Helena já chegou? – Zoe perguntou.
- Não, querida – Jane respondeu.
A princípio, estranhou o fato de a pequena conhecer sua Herms como Helena, mas resolvera esperar um momento oportuno onde pudesse conversar com a filha e entender o que estava acontecendo.
Sentou-se à beirada da cama, perto de Chloe.
- Ela deve estar voltando à noite – continuou enquanto ajeitava uma mecha do cabelo da neta, afastando-a do rosto. Olhou para Zoe e sorriu.
- É que ela disse que o papai viria me ver hoje, e eu achei que eles viriam juntos – a loirinha explicou-se.
- É bem provável que venham. – Jane sorriu.
- Mamãe ligou de novo? – Chloe quis saber.
- Não, ela disse que ligaria mais tarde – a avó respondeu, paciente.
- Vocês têm uma família bastante grande, não é? – Zoe indagou, de súbito, mudando os rumos da conversa.
- Oh, nem tanto! E, aparentemente, a família Vernet acaba por aqui. O único que poderia prolongar a família por pelo menos mais uma geração era Carl e só vieram filhas, e mulheres não passam o nome adiante.
- Verdade – Chloe notou. – Veja os nomes de Mike e Jake... Michael Blanc e Jacob Lefèvre. Eles não têm o Vernet – comentou. – Nem a mamãe, nem eu.
- Exatamente. – Jane assentiu. – Da mesma forma que Zoe, provavelmente, não tem o sobrenome da mãe dela.
- É. Meu sobrenome não é Priestly – a pequena comentou. – Mas como é a história da família de vocês?
- Ah, não sei ao certo como a minha família surgiu. Sei que o pai do meu trisavô se chamava Jean-Jacques Vernot e que, por conta de um incêndio no cartório de Paris há muitos e muitos anos, muitos dos documentos e registros de A a G e de S a Z foram perdidos. Resultado: ao registrarem-no novamente, acabaram por mudar o seu nome para Vernet – contou. – Nossa família sempre foi conhecida em Paris por gerações curtas, marcadas pela presença de homens. A primeira mulher a fazer parte da família em gerações foi minha tia e mãe de Carl, Aimée Vernet. Antes dela, não havia mulheres que não fossem as desposadas por nossos rapazes. Ela, entretanto, casou-se com um primo... Com o neto do irmão de meu bisavô, e então manteve seu sobrenome.
- Uau! – Zoe murmurou.
- Vovó, eu pensei que não se pudesse casar com primos...
- Não eram primos próximos, querida. E, além do mais, todos visavam em não perder o sobrenome da família, que é de tradição aqui na França. Nossos avós planeavam que eu e Carl nos casássemos, uma vez que nossa geração abrangia apenas eu e ele. Mas, bem... Não foi o que aconteceu, e nós tivemos somente filhas.
- E essas filhas já têm filhos e filhas, no entanto, somente as filhas de Carl tiveram filhos. No caso, Mike e Jake. – Chloe concluiu.
- Se a família de vocês é francesa, por que os nomes de vocês não são franceses? – Zoe perguntou.
- Imaginei que fosse perguntar isso – Jane riu. – Na época em que eu nasci, a influência hollywoodiana já era bastante intensa em todas as partes do mundo. E havia uma atriz chamada Jane Wyman que era bastante famosa por ter feito filmes como The Lost Weekend, de 1945, Johnny Belinda, de 1948, Stage Fright, de 1950 e Magnificent Obsession, de 1954. Mamãe era uma grande fã dela, e como eu nasci em 1955... – ela deu de ombros. – Já no caso de Carl, o pai dele achava genial o Uncle Scrooge¹, e quem o havia criado fora um ilustrador dos estúdios Disney, Carl Barks.
- E o nome de minha mãe? – Chloe fez.
- Bem, Hermione é o nome da filha de Helena de Tróia e, segundo a mitologia grega, era tão bela e sábia nas artes de amar quanto a mãe. O nome dela é uma grande contradição: enquanto muitos acreditam que Hermione significa ‘aquela que oculta’, outros alegam com veemência que o nome quer dizer eloqüência – Jane contou, parecendo deliciar-se com tudo aquilo. – O nome foi dado à sua mãe, Chloe, porque minha bisavó sempre quis ter uma filha para lhe dar este nome, mas acabou por ter um filho e queria que meus pais tivessem me dado este nome. E como eu era muito ligada a ela, prometi que daria este nome à minha filha, se eu tivesse uma.
- O nome de Helena não é Helena? – Zoe perguntou.
Jane não sabia bem o que responder, mas simplesmente não podia ignorar a pergunta da pequena. Ela parecia estar muito ligada a Hermione, de alguma maneira.
- Ah, querida, acho que ela mesma poderá lhe explicar isso. – Foi tudo o que disse.
- Bem, Zoe... É que mamãe teve que mudar o nome para voltar para a Inglaterra sem ser reconhecida. O nome dela é Hermione Jane Granger, mas desde que nós saímos da Alemanha que ela adotou, ao menos em público, o nome Helena Jordin Gauer – Chloe tentou explicar. – Não sei bem as razões, mas tenho certeza que ela te contará tudo quando voltar.
- Hum – Zoe pareceu ponderar. – Tudo bem, então. – Ela se endireitou na cama e passou a mão desajeitadamente na franjinha, tirando-a dos olhos. – Conta mais, vó Jane! Por que vocês foram morar na Inglaterra?
- Ah, é uma longa história! – Jane riu. – Pois bem! Quando meu trisavô, Vincent Vernet, casou-se com minha trisavó, Marie Legrand, seus pais lhe deram de presente de casamento uma viagem ao interior da Inglaterra, mais precisamente à York, na época apenas um lugarejo. Isso foi ainda no início da segunda metade do século XIX, em 1873. Entregaram-lhes as chaves da casa onde eles ficariam após a cerimônia e disseram-lhes que saíssem antes mesmo do fim da pequena recepção que planejaram e ficassem em York pelo tempo que quisessem. – Uma breve pausa. – Eles o fizeram, e voltaram duas semanas depois, minha trisavó feliz da vida e contando aos quatro ventos que simplesmente se apaixonara pela cidade! Descobriu-se grávida de seu primeiro filho quatro semanas depois e meu trisavô, contente com a notícia, voltou à York em segredo. Quando seu primeiro filho e meu bisavô, Maurice Vernet, nasceu, ele esperou que completasse dois meses e, um dia, chegou em casa mandando que a mulher arrumasse uma mala e as coisas do bebê porque eles iriam viajar.
- Eles foram para York, não é? – Chloe interrompeu, os olhos brilhando de curiosidade.
- Sim, querida. Eles foram para York. E quando chegaram lá, ele contou à esposa que a casa era dela e entregou-lhe as chaves. Disse que ela o fizera o homem mais feliz do mundo e que ela merecia o mundo por isso. Desde então, a casa está em nossa família, e todos sempre iam passar as férias de verão lá... No entanto, após a Segunda Guerra Mundial, meus avós, Alphonse Vernet e Sylvie Prescott, foram para a Inglaterra e se fixaram lá. Papai, a esta altura, estava comprometido com mamãe.
- Quais os nomes de seus pais? – Zoe perguntou.
- Armand Vernet e Marion Mathieu – Chloe fez questão de responder. – Claro que o sobrenome dela passou a ser Vernet após o casamento, mas vovó sempre gosta de contar essas histórias com os nomes que as pessoas têm como identidade, como ela mesma diz. – A garotinha riu e olhou para a avó. – Mas eles, a vovó Marion e o vovô Armand, estavam aqui no domingo, assim como toda a nossa família. Vou falar com a mamãe para levar um dia você para conhecer todo mundo!
Jane riu.
- Não acho que será necessário, querida. Eles vêm aqui amanhã, e então você poderá conhecê-los, Zoe.
- Eu sempre quis ter família grande, e o papai também. Mas mamãe morreu antes mesmo de eu conhecer ela... E além dela, não conheci o papai e a mamãe do meu papai. Eles também morreram quando papai era pequeno. Eu só conheço mesmo a família da minha mamãe.
- Oh, Zoe, querida... – Jane puxou-a para seu colo, abraçando-a. – Tenha certeza de que todos gostam muito de você, inclusive minha Herms, Chloe e a vó Jane.
- Eu queria que você fosse minha vovó de verdade – Zoe disse, se afastando do abraço para encarar Jane. – Acho que também gostaria que Helena... ou Hermione... fosse minha mamãe. Acha que ela pode ser minha mamãe?
Jane sorriu com o comentário.
- Por que não pergunta isso a ela quando ela chegar? – sugeriu. – Mas tenho certeza de que qualquer um adoraria ter você como filha, Zoe. E eu adoraria ser sua avó de verdade, pequenina.
- Sério? – os olhinhos de Zoe faiscaram. – Eu posso ir almoçar em sua casa todos os dias depois da escola? Ou aos domingos, para os almoços em família?
Jane riu mais uma vez.
- É claro que pode.
- Oba! – Zoe comemorou, batendo palmas.
Chloe riu e afagou a mãozinha de Zoe.
- Seria muito bom tê-la como irmã, Zoe. Eu te amo muito, sabia?
Zoe sorriu para Chloe antes de saltar do colo de Jane e abraçar a morena.
- Eu também, Chloe.
Em seguida, ela desvencilhou-se do abraço e voltou a encarar Jane.
- Conta mais?
- O que mais você gostaria de saber?
- Hum... – a loirinha levou algum tempo pensando, o dedinho apoiado no queixo e o cenho franzido. – Por que toda a sua família foi embora da Inglaterra?
- Ora, porque todos somos franceses! Menos Ashley, Hilary e Chloe. Até Mike, Jake e Jess, que vieram depois, são franceses. – Jane respondeu, pacientemente. – O fato é que após a morte de minha bisavó aos oitenta e nove anos em 1971, quando eu ainda tinha dezesseis anos, todos voltaram para a França e passaram quase dez anos sem voltar à Inglaterra. Bem, todos, exceto eu, que retornei em 1973 estudar em Oxford – onde conheci meu marido, Stan –, e minha avó, Sylvie. Ela era tão louca por York quanto minha trisavó, Marie, e voltou para lá quando vô Alphonse morreu precocemente, aos sessenta e sete anos, de tuberculose, em 1978, menos de dois anos após o meu casamento.
- Quantos anos você tinha quando se casou, vovó? – Chloe perguntou.
- Vinte anos. Me casei em julho de 1976, antes de iniciar o penúltimo ano da curso de odontologia na Oxford. Engravidei apenas dois anos e meio depois do casamento, e sete meses após a morte do vô Alphonse. Após concluir a universidade, convenci Stan a vir para Paris, uma vez que meu pai também era dentista e já tinha um consultório montado. Seria perfeito para nós trabalharmos nos primeiros anos como profissionais. – Uma pausa. – Enquanto isso, vó Sylvie caiu em profunda depressão durante o luto que viveu em seu isolamento em York. Ela morreu em abril de 1980, quase dois anos após a morte do vô Alphonse.
- Nossa, que história triste! – Zoe fez uma careta.
- Sim, muito triste. E foi após a morte de vó Sylvie que Carl e Marcia seguiram para York, onde moraram por vinte anos com suas filhas, Ashley e Hilary. Antes disso, eles estavam morando em Oxford, onde as meninas nasceram. Foram os únicos que não seguiram com o luto da família pela morte de minha bisavó, Rose Neveu. Quando eles voltaram para a França, as meninas ficaram só para concluir a universidade, e então voltaram também.
- Só restamos eu, a mamãe e vocês, vovó? – Chloe fez.
- Sim, somente eu, seu avô, sua mãe e você, querida.
- Mas você também planeja voltar, não é?
- Sim, antes do verão – Jane assentiu. – Você sabe que eu sequer passei metade destes anos todos lá, querida. Eu voltei a atender na clínica de seu avô desde que ele se aposentou, ou seja, há quatro anos. Antes eu ficava aqui duas vezes na semana, hoje eu já passo a semana inteira em Paris e apenas os fins de semana em Londres. E depois, Chloe, já está na hora de voltar para casa, querida.
- Mesmo se eu e a mamãe ficarmos?
- Sim, mesmo se vocês ficarem. Sua mãe tem meios bastante rápidos de ir e voltar, e nós duas sabemos disso.
- Ela tem usado bastante o carro nos últimos anos, e nós temos que manter as aparências para o restante da família, certo?
- São pouco mais de duas horas de viagem, querida. Não seria problema.
- Eu vou poder vir te visitar, não vou? – Zoe finalmente se colocou.
- É claro, sempre que quiser – Jane sorriu. – Agora chega de papo! Já conversamos o suficiente por hoje, não acham? E vocês ainda têm que lanchar, mocinhas! Ou o petit gateau de vocês vai ficar ruim. Já pensou se o sorvete derrete e o bolo fica frio? Vamos, adiantem...
Jane pegou uma por uma e carregou-as, colocando-as no chão e batendo em seus bumbuns, de modo a fazê-las andar mais rápido. Elas sorriram e chamaram Daisy.
- Sabia que a minha trisavó também tinha uma casa em York? Só que ela morreu em fevereiro e deixou-a para o papai – foi a vez de Zoe contar, já de mãos dadas com Jane.
- Uh, sinto muito por sua trisavó, Zoe, mas... hum... legal vocês terem essa casa em York. Da próxima vez que nós formos, podemos combinar com seu pai para irmos todos juntos – Chloe sugeriu, antes de a avó fechar a porta do quarto e lhe estender a mão.
- Tia Hall disse que ia me contar a história da nossa família, mas ainda não contou. O marido dela, Just, disse que eu era uma fada.
Chloe e Jane se entreolharam e sorriram.
- Depois vou querer saber a história de sua família – Chloe disse.
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15h51.
- Será que ela está colaborando? – Isabella fez, referindo-se a Pansy.
- Espera-se que sim. Paul é um excelente profissional, mas sem colaboração, fica impossível – Hermione respondeu.
- Você deixou algo para eles fazerem com que ela volte a dormir? – Harry perguntou.
- Na verdade, não foi necessário. Paul trouxe sedativos e calmantes no carro e voltou para pegar antes de ir vê-la – a morena disse.
- Se toda essa demora for proporcional ao que eles estão obtendo, nós estamos indo bem – Amy comentou.
- O que você fez com o Veritaserum? – Harry indagou a Hermione.
- Dei à Parkinson antes de deixá-la com Paul e Ashley. Também deixei um gravador lá dentro, só por garantia.
- Vocês estão conseguindo ouvir alguma coisa? – Isabella perguntou a Amy e Hermione.
As duas se entreolharam, decidindo se deveriam responder.
Naquele momento, a porta do escritório se abriu e Ashley saiu, fechando-a novamente atrás de si. Hermione se levantou e caminhou apressada para fora da cozinha.
- Mione? – Ashley chamou.
- Sim, Ash? – Hermione se aproximou da prima. – E então, vocês conseguiram algo?
Ashley bufou e sorriu, enquanto balançava a cabeça negativamente.
- Nunca vi um caso tão claro de distúrbio de personalidade múltipla – disse. – Paul está realmente preocupado, embora encantado. Há muito ele estuda a psicologia dos pacientes com DPM, e este caso lhe pareceu realmente interessante.
- Conseguiram falar com a italiana? – Amy saiu às pressas da cozinha e se juntou a elas.
- Sim, conseguimos. Paul ainda está conversando com Pansy e com Perlla – Ashley contou. – Olha, eu não faço idéia do que vocês deram a ela, mas nunca vi um paciente ceder tão facilmente... e ela parecia tão calma para quem acabou de saber o que está acontecendo... – a loira comentou, parecendo descrente. – Por outro lado, ela tinha os olhos perdidos, desfocados... como se estivesse imersa num verdadeiro transe.
- E os traumas? – Hermione perguntou, ignorando os comentários da prima. – Vocês conseguiram descobrir?
- Bem, o primeiro aconteceu quando ela tinha quatro anos. Seus pais foram morar em Roma por conta de um curso que a mãe dela estava fazendo e, bem... Num belo dia, ela descobriu que não havia curso algum; a mãe fora para Roma por conta de um homem... um amante que mantinha à distância. Ela pegou os dois juntos, no quarto da casa em que estavam morando no período de quatro meses que passaram lá. Ela havia saído para brincar na casa dos vizinhos e o pai estava fazendo compras... Ela não entrou em detalhes, mas ficou bastante nítido que o casal estava em meio a uma relação sexual. Ela até disse algo engraçado – Ashley fez uma pausa e riu. – Disse que o rapaz era um trouxa. Bem, eu não sei vocês, mas nesse tipo de situação, o ‘trouxa’ seria o pai dela, não?
Amy e Hermione se entreolharam, rindo internamente. “Acho que por isso nós os chamamos de trouxas. Eles são tão... trouxas!”, Amy pensou e Hermione a repreendeu com um olhar; sua família era quase que inteiramente trouxa – quase porque Chloe era uma nítida exceção –, afinal! “Ok, desculpe”, Amy desculpou-se, levemente ruborizada.
- E o segundo? – Isabella indagou, adentrando o aposento. – Desculpe, não pude deixar de prestar atenção.
- É, o segundo veio quando ela tinha dez anos... Aconteceu em Nova York, durante uma viagem que fizeram durante as férias para lá. O trauma ocorreu, basicamente, por conta da separação entre ela e o melhor amigo, cujo nome é Herod Isidore Christow, que foi morar com os pais e estudar em Ohio. Ela não conseguiu aceitar e chorou por dias, mas voltou para a Inglaterra decidida a parecer forte e fingir que nada havia acontecido. Priscilla contou que seu pai tentou levá-la ao terapeuta, mas ela recusou-se a voltar lá. Perlla então contou que a induzira a dizer que fugiria de casa caso o pai insistisse em levá-la mais uma vez – Ashley parecia surpresa e descrente. – Não consigo compreender a influência que Perlla exerce sobre Priscilla.
- É, acho que todos nós queremos entender... – Isabella disse, inevitavelmente lembrando-se de Tiffany. – Mas então os traumas ocorreram por conta da traição que ela presenciou e do abandono que sentiu pela partida de Christow?
- Ah, vocês o conhecem? – Ashley fez, surpresa.
- Sou eu – Herod respondeu, saindo da cozinha, curioso. Tiffany veio com ele.
- Hum, prazer em conhecê-lo – a loira cumprimentou-o, estendendo a mão, ao que Herod apertou-a brevemente. – E você é...
- Tiffany Haase, prazer – Tiffany também cumprimentou-a.
- Prazer.
- E... Ash, o que vocês pretendem fazer? – Hermione voltou a falar.
- Não pretendo tomar qualquer atitude judicial, mas teremos que interná-la. Conseguimos uma clínica em Paris, e será bom para ela e para mantermos vocês a par de tudo o que estiver acontecendo durante o tratamento – Ashley explicou.
- Como assim não vão tomar ‘qualquer atitude judicial’? – Harry agora apareceu na sala. – E por que ela tem que ser tratada em Paris e não em Londres?
Ashley encarou-o assustada, parecendo realmente surpresa por vê-lo ali. Ela encarou Hermione, sobressaltada e embasbacada.
- Meu Deus! É ele? – ela fez para a prima.
Hermione assentiu discretamente e desviou o olhar.
- Sim, sou eu... Harry Potter, o mesmo que você conheceu anos atrás – Harry respondeu, parecendo mais contido. – Mas responda, Ashley... Por que em Paris? E precisamos tomar alguma atitude... Ela matou gente, sabia?
- A levaremos para Paris porque, bem... Paul trabalha lá e... o lugar tem profissionais especializados em casos de DPM. Além disso, Hermione pediu para que eu providenciasse tudo, da melhor maneira possível e de modo que vocês pudessem acompanhar o caso, então... Não pode me culpar se Paris é o melhor lugar para atender a todas as exigências – Ashley respondeu, com a paciência que a profissão exigia. – Você disse que ela matou gente? Pois bem! Eu sei, Harry. Ela nos contou... Mas não podemos prendê-la!
- E por que, diabos, vocês não podem prendê-la? Ela cometeu crimes, tem que pagar por isso! Precisa de mais algum motivo para prendê-la? – ele insistiu, exasperado.
- É aí que está, Harry. Ela não pode pagar pelos crimes que não cometeu – Ashley respondeu.
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Uncle Scrooge¹: o famoso Tio Patinhas.