Não lhe restaram muitas opções: ou ia para casa e depois ao Ministério, ou o inverso. Optou por seguir direto para o Ministério da Magia.
Ainda conservava as roupas do dia anterior: calças de alfaiataria cinzas, camiseta branca simples e sem mangas, sapatos sociais – fechados, bico arredondado e de salto grosso e alto – pretos; o terninho, como as calças, era cinza e ia dependurado em seu braço.
Já estava em Londres, mas não tinha pressa de chegar ao destino. Estava andando rumo à cabine telefônica que dava acesso ao Ministério e pensando... Aquela noite fora, sem dúvida, a mais louca de sua humilde, pacata e imutável vida, e já se estendia por mais um dia. Até quando aquilo ia durar? Perguntava-se se realmente havia necessidade de voltar a Leeds... Ela estava exausta! O que ela mais queria naquele momento era a sua cama, os lençóis branquinhos de Cissa... macios... quentes. Isso tudo, é claro, depois de um banho – e não precisava ser quente ou demorado; ela queria apenas sentir-se limpa.
Inevitavelmente lembrou-se de Herod.
“Assim que essa loucura acabar, e eu tiver dormido por pelo menos vinte e quatro horas ininterruptas e tomado um banho de, pelo menos, quarenta minutos”, ele dissera. E ela se pegou rindo sozinha. Então lhe ocorreu que o loiro não sabia que ela estava de volta a Londres.
Apressou-se.
Alcançou a cabine telefônica em poucos minutos. Tirou o telefone do gancho e discou rapidamente a seqüência de números – 62442 –, procurando não esquecer nenhum.
Achava besteira utilizar a entrada para visitantes, mas ela queria se sentir normal por alguns minutos. “Como se isso fosse possível”, pensou quando ouviu o ranger ensurdecedor provocado pela descida do que deveria ser um elevador. Levou alguns segundos até que o ranger cessasse e a porta se abrisse para o átrio iluminado do Ministério da Magia.
O movimento ali já era escasso, apenas um ou outro funcionário surgia aqui ou ali com suas pastas e documentos. Vestiu o terninho e puxou a varinha.
- Espero que isso seja reversível – ela murmurou e mordeu o lábio inferior antes de apontar a varinha para as próprias vestes e transfigurá-las em preto, exceto pela camiseta, que assumiu uma tonalidade rosa choque.
Satisfeita, caminhou a passos rápidos em direção ao lado oposto do vasto ambiente, para além da fonte, onde ficava o elevador de acesso aos departamentos.
- Bom dia, Jonathan – ela cumprimentou o segurança, um homem alto e negro, cujos músculos excepcionalmente grandes lhe garantiam uma aparência assustadora.
- Bom dia, Srta. Haase – o homem sorriu, simpático, aliviando um pouco a seriedade e a dureza que transmitia.
Entrou no elevador vazio.
- Ei, espere! – alguém alteou a voz ao longe.
Tiffany prendeu o elevador e virou-se para ver de quem se tratava. Gina vinha correndo para alcançá-la.
- Obrigada – a ruiva agradeceu ainda a alguns metros. – Ah, Tif! É você, querida... Como vai? – cumprimentou enquanto adentrava a enorme caixa de aço e a porta desta se fechava.
- Vou bem, Gin. Apenas um pouco cansada.
- As crianças dando trabalho, presumo?!
- Oh, não! São uns anjos – Tiffany riu. – É o trabalho mesmo. – Resumiu. O elevador parou e alguns memorandos entraram, pairando sobre suas cabeças. – Atrasou-se também?
- Não, não – Gina negou, também sorrindo. – Esta semana nós entramos em treinamento. No meu caso, começa amanhã. Hoje à tarde teremos uma convenção em Yorkshire e, portanto, fomos dispensados do dia de trabalho.
- Uau, que beleza! Três dias longe do trabalho...
- Não sei se será tão bom assim. A palavra treinamento não me remete a menos trabalho, esforço e cansaço do que o que temos diariamente. Acho que é tudo dobrado! – a ruiva assinalou. – Bem, tendo isto em vista, acabei por aproveitar a manhã de folga... Estava na casa de Zabini com Luna e Lilá. Não sei se sabe, mas ontem foi aniversário de Charlotte e Reese, então as duas mamães corujas se reuniram, como em todos os anos, para planejar as festas de modo que não ocorram no mesmo dia. Além disso, são sempre os mesmos organizadores, o mesmo buffet e... enfim! É claro que é muito mais coisa de Lilá do que de Luna, mas... – Gina riu e deu de ombros, também arrancando um riso de Tiffany enquanto saíam do elevador. – De qualquer modo, Draco me ligou há meia hora e pediu que eu trouxesse alguns documentos dele que estavam com Zabini, aproveitando-se do fato de eu estar na casa deste último, e cá estou eu, a esposa dedicada.
A ruiva suspirou e revirou os olhos, uma nota de sarcasmo bastante nítida em seu último comentário.
- Você não existe, Gina! – Tiffany murmurou. – Mas então... Draco está trabalhando aqui ainda?
- É, ele acabou estendendo o prazo. Desde ontem ele está trabalhando com Ethan Mackenzie em mais um caso, mas já está quase tudo resolvido, então o último dia é amanhã. Também, eles passaram a noite inteira trabalhando para adiantar o processo – Gina contou, seu tom carregado de reprovação. – Bem, o ministro já mandou redigir até um documento ‘por serviços prestados’. E como diz seu irmãozinho: “É tudo uma questão de você saber fazer seu nome”.
- Não leve isso muito a sério. Ele faz porque ele gosta mesmo. E o caso de Elijah, Verika e Malika é mesmo fascinante. Estivemos trabalhando juntos nesse caso – Tiffany comentou.
- E pensa que eu não sei? Ele ama o que faz! – a ruiva riu. – Mas o caso a que se refere é o dos trigêmeos da África do Sul que foram separados quando bebês e, por conta de um acordo judicial, o pai ficou com o menino e a mãe com as meninas, certo?
- Sim, este mesmo – a morena confirmou e então passou a explicar o caso: – A mãe veio trabalhar na Inglaterra, em Oxford, abdicando do mundo mágico, mas acabou por enviar Malika e Verika a Hogwarts e agora, depois de dezesseis anos, o ex-marido veio para a Irlanda e transferiu Elijah para Hogwarts também. Em resumo: as garotas conheceram Elijah, os três se tornaram amigos, achando muito legal serem do mesmo país... Até que no recesso para o Natal, uma das meninas contou à mãe sobre o ‘novo amigo’. – Tiffany explicou. – Resultado: Myeisha, a mãe, descobriu que o ex-marido também estava morando aqui e que o Elijah de quem as meninas falavam era Elijah Marahaba, seu terceiro filho. Bem, e o resto você já pode imaginar.
- Draco me disse que ambos queriam o direito de ver os filhos. E, desculpe-me a ignorância, mas acho que eles estão com a razão. O problema é que eles erraram desde o começo... Um absurdo separá-los dessa maneira! – Gina comentou.
- Sim, mas acabou tudo bem, ao menos. E quanto a Draco... Eu ainda não entendi por que ele não fica de uma vez no Escritório Internacional de Direito da Magia. Francamente! Aqui ele pode atuar muito mais na parte de resolução dos casos, e depois, a empresa está consolidada, encaminhada... E Zabini sempre foi um excelente administrador.
- Ah, querida, eu canso de dizer isso a ele. Mas pensa que adianta? – Gina bufou.
- Somos duas, então! – Tiffany riu e adentrou o departamento. – Bom dia, Diane. Nenhum recado para mim?
- Bom dia, Srta. Haase – a secretária respondeu. – Não, senhora. Somente o Sr. Malfoy pediu que fosse procurado por você quando chegasse. Ah, Sra. Malfoy, que bom que chegou. Seu marido está te esperando lá dentro com seu irmão.
- Obrigada, Diane. – Gina agradeceu. – Você vem, Tif?
- Sim, só um instante. – Tiffany debruçou-se sobre o balcão. – Diane, vou precisar me ausentar hoje de novo. Quero que cancele todos os meus compromissos e remarque-os para sexta-feira.
- Mas sexta-feira é o seu dia de folga, Srta. Haase.
- Sim, eu sei, mas esta, especialmente, irei trabalhar para não deixar assuntos, processos e compromissos pendentes. Eu detesto atrasar as coisas!
- Tudo bem, vou remanejar sua agenda – e Diane pegou a agenda e o telefone, ao que Tiffany e Gina se retiraram.
- Ah, Gina, finalmente! – Rony se levantou ao ver a irmã adentrar a sala.
- Eu vou bem, obrigada. – Gina murmurou enquanto caminhava até o marido, dava-lhe um selinho e lhe entregava os papéis. Voltou-se então para o irmão. – E você, como vai?
- Liguei para Lilá e ela me disse que tinha vindo para cá, então... – e os irmãos passaram a conversar mais afastados.
Draco puxou Tiffany para um canto.
- Está acontecendo alguma coisa? Ontem você estava uma pilha de nervos a manhã toda. Então, quando saímos para almoçar, você mal come e, ao receber uma ligação de Deus-sabe-quem, saiu às pressas, pedindo que eu fosse pegar as crianças na escola... Na hora eu não fiz nenhuma objeção; concordei, fiz o que pediu e não cobrei nenhuma explicação – ele começou. – Então hoje fico sabendo que Cissa foi quem levou as crianças à escola porque a senhorita, Tiffany Haase, não dormiu em casa. Além disso...
- Ah, qual é, Draco? Deu para controlar a minha vida agora? – Tiffany fez, em tom de deboche, rindo e dando as costas ao loiro.
Mas Draco continuou como se não tivesse sido interrompido:
- ... Você chega atrasada ao trabalho – e você nunca se atrasa – com esta cara de quem não dormiu nada esta noite. Acho que tenho motivos suficientes para estar preocupado, não acha? – ele arqueou as sobrancelhas. – E, minha irmãzinha, nunca imaginei que eu fosse dizer isso algum dia, mas você está com uma aparência horrível.
Draco for sincero. Tiffany sempre fora uma mulher encantadora e estonteante, sempre impecável; pela primeira vez o loiro a via com olheiras, mesmo que superficiais.
- E então, vai me dizer o que está acontecendo?
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- Onde eu estou? – Pansy perguntou, ainda assustada. – Para onde vocês me trouxeram?
- Você está em Leeds – Hermione respondeu. – E, acredite ou não, veio para cá com as suas próprias perninhas.
- Eu não me lembro de ter saído de casa após as 22h – Pansy retrucou.
- Pois vai ficar realmente surpresa em saber que já fez muitas coisas das quais não lembra – Amy fez para Isabella, irônica, alto o suficiente para que todos pudessem ouvir.
- O que quer dizer com isso? – Pansy fez, mirando Amy.
- Mione, só temos meia hora – Harry disse, adentrando o escritório.
- Eu posso saber o que está acontecendo? – mais uma vez Pansy insistiu.
- Você já irá saber, desde que se comprometa a colaborar – Hermione disse. – Como Harry disse, nós temos apenas meia hora. Então, vou ser bem direta... – deu um sorriso falsamente simpático. – Com que freqüência, exatamente, você acorda e sente como se tivesse passado um longo período sem que você soubesse como fora parar em algum lugar ou o que acontecera nas últimas horas?
- Eu... Com certa freqüência, eu acho – Pansy respondeu, sem entender.
- E há quanto tempo tem essa sensação de ter estado em stand-by?
- Há algum tempo, mas tem se tornado mais freqüente nos últimos anos... E cada vez mais freqüentes, em alguma medida – a morena disse. – Mas por que diabos estou te respondendo estas coisas? – Pansy se colocou de pé. – Eu não devo explicações a nenhum de vocês, muito menos a você, Granger!
- Acredite, Parkinson, querida, essas explicações são as que você deve a você mesma – Isabella interveio. – Agora volte a sentar e apenas responda todas as perguntas, ou arrancaremos as respostas à força. Você quem escolhe.
Amy, Hermione e Harry olharam abismados para Isabella. Não era comum vê-la tomando aquela atitude ríspida. Só houvera um antecedente, e Hermione então se lembrou do episódio ocorrido no sexto ano em Hogwarts – sétimo de Isabella –, em que ela, por pouco, não avançara em Pansy. Por pouco subentende-se por Gina, que fizera um excelente trabalho, por sinal.
- Vai sentar? – Isabella fez, em tom autoritário.
Pansy fitou-a, desconfiada. Ela deu alguns passos para trás até cair sentada no sofá de couro, ainda mirando Isabella.
- Muito bem. Boa garota! – Isabella agora tinha um tom irônico. – Agora você escuta tudo o que Hermione tem a dizer e responde às perguntas, entendeu bem? É muito mais do seu interesse do que do nosso.
- Obrigada, Bel – Hermione reprimiu um sorriso e sentou-se numa cadeira qualquer. – Parkinson, eu apenas quero alguns minutos de sua atenção e acho que seria bastante viável uma trégua. Será que você poderia, por um instante, esquecer as nossas diferenças?
Pansy fez uma careta e assentiu.
- Muito bem, está se saindo melhor do que eu imaginava – Hermione riu. – Amy, Isabella... Podem sentar-se. Harry, você também é bem-vindo. Eu só peço que fiquem em silêncio até que eu tenha explicado o necessário à Parkinson.
Os três assentiram e sentaram-se num sofá mais afastado.
Hermione suspirou e Pansy bufou, revirando os olhos.
- O que eu vou te revelar agora é algo difícil de aceitar, algo que é muito vago e, ao mesmo tempo, complexo. Preste atenção e procure entender tudo o que eu tenho a dizer e, por favor, tente não entrar em pânico, ok? – Hermione começou. – Já ouviu falar em distúrbio de personalidade múltipla ou distúrbio de identidade dissociativa?
Pansy riu nervosamente.
- Nem imagino o que seja – murmurou.
- Muito bem. Este distúrbio ou perturbação, como queira chamar, caracteriza-se por uma pessoa conviver com várias personalidades distintas em seu próprio corpo sem ter consciência disso e, em geral, tem seu início marcado por um trauma na infância, de modo que a vítima cria uma nova identidade por não suportar a dor que seja o trauma em questão – explicou. – Pelo menos um por cento de toda a população mundial sofre de DPM. É importante que se saiba que as pessoas que sofrem deste distúrbio são perfeitamente normais, pelo menos até que um alter se manifeste ou assuma o controle do corpo.
- E aonde você quer chegar com tudo isso? – Pansy indagou com desdém.
- Se você não interrompesse, certamente ela diria. – Amy bufou.
- Eu quero que você entenda algumas coisas. – Hermione respondeu.
- Tudo bem, eu estou entendendo. – Pansy revirou os olhos.
- Duvido muito – Hermione ouviu Amy murmurar.
- Parkinson, estou certa de que você já ouviu falar bastante nos assassinatos incessantes e constantes que vêm acontecendo nos últimos oito anos, nos quais as vítimas são nascidos trouxas.
- Certamente que ouvi – Pansy murmurou. – Não sei se sabe, mas eu trabalho no Ministério da Magia, Granger. E leio os jornais, portanto, seria um tanto inevitável eu saber a respeito.
- Sim, eu sei. Eu também trabalho... E fui eu quem descobriu a identidade do bruxo que vem cometendo tal atrocidade.
- E por que está me dizendo isso? Você deveria se vangloriar para seu amiguinho que está ali sentado – ela apontou Harry com a cabeça. – Esse era o trabalho dele, afinal.
Hermione não conteve um riso.
- Eu não preciso me vangloriar por isso. Ele reconhece o que eu fiz e sabe que não deve se culpar por não ter descoberto antes – disse. – Hoje todos nós sabemos que seria impossível que alguém pudesse chegar ao nome do bruxo, exatamente pelo fato de ele sofrer de distúrbio de personalidade múltipla. O fato é que nem o próprio sabe de quem se trata o assassino, não só porque ignora a existência do distúrbio em si mesmo, como também o verdadeiro assassino é um de seus alteres, e não ele. Agora, como você queria tanto que eu chegasse a algum lugar...
- E vai se arrepender por isso. – Amy riu.
Hermione automaticamente parou de falar e virou-se para a amiga.
- Amy! – Isabella repreendeu, ela mesma encolhendo sob o olhar de Hermione.
- Uh, está bem. Já parei. – A morena fez como que lacrasse a boca com um zíper.
Hermione apenas assentiu brevemente e voltou-se para Pansy.
- Muito bem. Como você queria tanto que eu chegasse a algum lugar, fico feliz em poder dizer que já cheguei onde eu queria – Hermione levantou-se e passou a andar de um lado para o outro. – Parkinson, não sei se eu mencionei, mas aquele a quem chamamos por todos esses anos de bruxo assassino, na verdade, é uma mulher.
- Whoa, então os aurores foram dobrados por uma mulher? – Pansy riu. – Potter, eu realmente espero que não esteja se sentindo ainda mais impotente.
- E eu espero que você não saia daqui tão atônita quando souber o que vem a seguir – o moreno rebateu com escárnio.
- Herms, não temos muito tempo – Harry avisou. Amy olhou o próprio relógio e, após um suspiro raso, levantou-se.
- Parkinson...
- Amy, não... – Isabella tentou impedi-la, mas era tarde demais.
- Você sofre de distúrbio de personalidade múltipla – disse. – Você é a assassina, mesmo que não tenha consciência disso.
Silêncio. A reação de Pansy não foi imediata. Inicialmente, seu rosto se contorceu numa expressão confusa, mas logo ela explodiu em risos.
- Muito boa a piada, Black – Pansy disse em meio às gargalhadas.
- Não é nenhuma piada, Parkinson – Hermione disse, as feições duras. – O que Amy está dizendo é a mais pura verdade. Estavam programados três ataques para esta noite, um deles nesta casa.
- E esta casa é do jornalista David Boyle, cuja mulher é nascida trouxa – Harry foi quem continuou. – Você veio matá-la, Parkinson. Ia destruir mais uma família se Hermione e Tiffany Haase não tivessem localizado os três endereços e se todos nós não tivéssemos nos dividido para impedi-la.
Pansy tinha a descrença evidente em seus olhos. Seu rosto contorcido como se estivesse sentindo uma forte dor.
- Vocês... – ela começou, arfando enquanto levantava-se num salto. – Vocês não podem estar falando sério. Estão me chamando de louca, é isso?
- Acalme-se, Parkinson. É melhor para você – Isabella pediu, sem saber exatamente o que dizer.
- Ninguém está te chamando de louca. – Hermione se aproximou e parou a pouco mais de um metro de Pansy. – Você realmente sofre de DPM. Como você mesma disse, com alguma freqüência você sente como se tivesse fora de si. E essa é uma das características mais marcantes da perturbação – a morena continuou, tentando parecer compreensiva e gentil. – Eu sei que não foi você quem propôs todas aquelas idéias à Suprema Corte dos Bruxos. Nós duas sabemos. E eu sei o quanto te irrita que as pessoas comentem, que saiam notícias nos jornais e nas revistas a respeito disso... Não foi você, afinal! No entanto, você é tão contida que simplesmente deixou que os boatos corressem durante todo esse tempo, sem desmentir nada.
- Só iria deixar a imprensa ainda mais em cima... O rebuliço já era suficientemente incômodo – Pansy fez, com desgosto.
- É claro – Hermione assentiu. – No entanto, e infelizmente, tudo o que eles publicaram e tudo o que se comenta é verdade. Você realmente o fez.
Pansy riu e balançou a cabeça negativamente, baixando os olhos.
- Eu não fiz nada – disse com dignidade.
- Mas é o que eles pensam. – Pausa. – Você tem dois alteres, Parkinson, convivendo com você todos os dias. Eles estão me ouvindo agora, sabem que estou te revelando isso e, possivelmente, uma delas está feliz por isso... A outra, nem tanto – comentou.
Pansy assentiu e mais uma vez, resignada, baixou os olhos. Sentou-se, então.
- E como elas se chamam?
- Perlla Panettiere e Priscilla Paltrow. Uma é italiana e tem vinte e cinco anos, o que me faz imaginar que tenha surgido durante a temporada que passou com seus pais em Roma – Hermione contou. – A outra é americana, tem dezenove anos e, provavelmente, nasceu quando você foi passar um verão em Nova York com seu pai e a família de Herod Christow.
- Como sabe tanto sobre mim?
- Estive conversando com Christow esta madrugada e ele acabou por me fornecer tais informações. Conversei com Priscilla também, mas não consegui falar com Perlla.
- Então elas realmente existem? – Dessa vez o olhar de Pansy era suplicante e esperançoso ao mesmo tempo. – E-eu... eu realmente cometi todos aqueles... aqueles... assassinatos?
Hermione deu um suspiro antes de assentir.
- Sim, elas existem – fez, já prevendo a reação que viria em seguida. – E... sim, tecnicamente, foi você.
- Não! – foi um berro. Pansy tinha os olhos cheios de terror. – Não pode ser verdade...
- Parkinson, é verdade. E você precisa encarar os fatos... Como eu disse, nada disso é culpa sua. Os alteres surgiram involuntariamente, por conta de traumas que você sofreu em sua infância e... Bem, eu preciso saber que traumas foram esses se você quiser ser ajudada.
O desespero foi total. Pansy tinha o rosto entre as mãos, os cabelos desalinhados e uma aparência desoladora. O terror em seus olhos era ainda maior agora, e ela suava frio.
- Não, não... Não pode ser verdade. É tudo, tudo mentira... Estão inventando isso para me deixar louca, é isso! Eles querem que me deixar louca... – ela falava consigo mesma – Não! Não! – ela gritou mais uma vez, descontrolada. – Eu quero morrer! – agora ela chorava e encolhia-se, deitada no sofá de couro em que Priscilla dormira instantes atrás.
Hermione mordeu o lábio inferior. “Não temos mais muito tempo”, pensou. Sem mais, sentou-se ao lado de Pansy e afagou-lhe os cabelos com delicadeza, ao que a outra soluçava. Abriu-se. A consternação porque Pansy passava era dolorosa, mas suportável. Absorveu tudo aos poucos, e a viu acalmar-se pouco a pouco.
Poucos segundos depois, ela estava adormecida, as feições suaves, mesmo com o rosto lavado em lágrimas.
Ela então se levantou e caminhou para fora da sala, sendo acompanhada de perto pelos outros.
- É melhor mantermos ela adormecida, pelo menos até que Ashley e Paul cheguem – sugeriu Isabella, já na cozinha.
- Isabella está certa – Hermione concordou. – Não podemos arriscar que Pansy acorde agora ou que Perlla assuma o controle e acabe por rebelar-se.
- Ela não parece muito feliz com as informações que Priscilla nos forneceu, mesmo que tenham sido poucas. Além disso, está furiosa por você ter contado tudo a Pansy... – Amy comentou.
- As informações são verdadeiras, ao menos? – Harry perguntou.
- Sim, tudo – Amy confirmou. – Eu estava já me perguntando qual de nós iria a Hogwarts conseguir um pouco de Veritaserum com Minerva McGonagall, mas pelo visto não será necessário. Agora que Parkinson sabe de tudo, talvez seja mais fácil chegar ao miolo dessa história...
- Por via das dúvidas, é melhor que tenhamos um pouco. Ela pode resistir – Hermione disse. “Não podemos saber se ela omitiu algo, mesmo que seja difícil quando há duas de nós aqui”, acrescentou em pensamento para a amiga. – Bem, nós não precisamos ir tão longe para conseguir um pouco da poção da verdade – ela voltou-se para Harry. – Você pode entrar e sair do Quartel General de Aurores a qualquer hora, não só pelo fato de ser auror... Afinal, quem precisa ir a Hogwarts quando se tem o Chefe do Departamento de Execução das Leis em Magia? – Ela sorriu para ele e piscou os olhos. No instante seguinte, ele tinha as roupas que usava dobradas sobre um pufe e vestia-se socialmente: terno, gravata e sapatos italianos lustrados, novinhos em folha. – Você tem vinte minutos – acrescentou.
- Como fez isso? – ele indagou, assombrado.
Ela não respondeu, apenas balançou de leve a cabeça e sorriu.
- São suas – ela disse, referindo-se às roupas. – E eles também – apontou os sapatos. – Agora vá. Já perdeu meio minuto.
Harry não se moveu imediatamente, mas também não demorou a correr porta afora. Tivera certeza de ouvir a voz de Hermione ecoar em sua mente:
“Não esqueça: deve manter isto em segredo”
---
- Harry? – Scott fez, surpreso, ao ver Harry adentrar o departamento. Levantou-se e correu para acompanhar o amigo. – Pensei que não viria hoje de novo. Você nunca se atrasa!
- Eu disse a você que era ela, não disse? – o moreno de olhos verdes disse, ainda andando apressado.
- Ah, não! De novo com essa história? Você está pirando, cara, e é sério – Scott falou em tom sério.
- Talvez. Mas parece ser uma loucura aceitável... e muito boa, por sinal.
- Só falta você me dizer que estava com ela antes de vir para cá... – brincou.
- E eu estava. Passei a noite com ela.
Scott parou de andar, confuso. Ele gesticulava e balbuciava sem pronunciar nenhuma palavra de fato.
- Hum, ok. Digamos que eu acredite em você... – ele começou, após um pigarro. – Vai me dizer que você... hum... você... – mais um pigarro. – Dormiu com ela?
- Depende do que você quer dizer com dormir, porque eu não sei o que é dormir a dois dias.
- Whoa, morena selvagem! – Scott mais uma vez zombou.
- Olivier, eu estou falando sério – Harry arqueou uma sobrancelha. – Acho que já ouviu falar de Helena Gauer, não?
- É claro! A famosa Helena Gauer... Instrutora da Academia Internacional de Aurores. A mulher é impossível, pelo que dizem.
- Pois é – Harry riu. – É ela – acrescentou enquanto voltava a andar, deixando Scott para trás.
- Como é? – Scott indagou antes de correr para alcançá-lo mais uma vez.
- Impossível, linda, inteligente e mais uma porção de adjetivos que queira acrescentar à lista. Serão poucos perto do que ela é realmente – uma pausa.
- Espere um momento... Será que estamos falando da mesma pessoa?
Harry riu e abriu a porta de seu escritório.
- Pode apostar que sim – disse.
Scott atravessou o portal e fechou a porta atrás de si, vendo o amigo abrir o armário das chaves dos cofres.
- Cynthia disse que tinha entregado a você uns convites, certo? – o moreno continuou.
- Sim, entregou. Estão aqui – Scott respondeu, tirando os convites do bolso interno do paletó.
- Hum, é... Rony e Luna disseram que mandariam – Harry comentou, enquanto conferia ambos os envelopes, que continham os convites para os aniversários de Reese, filha de Rony e Lilá, e de Charlotte, filha de Zabini e Luna. – Você vai para o de Reese?
- Talvez. Tudo depende de como Liah vai estar. Vou levá-la ao obstetra esta semana... E veremos as possibilidades.
- Mas ela está bem?
- Sim, tem se comportado – Scott foi inevitavelmente metafórico.
- Bem, então acho que sair um pouco só trará benefícios. Ver gente é sempre bom...
- Eu sei, mas gente por gente, Amy tem feito um bom trabalho. Ela não sai lá de casa, bem como os todos os Mackenzie. Garanto que Liah não está sentindo falta de ver gente! Além disso, meus pais estão vindo da Bulgária em meados do mês que vem. – Scott assinalou. – Mas não fuja do assunto, Potter. Você pode driblar os balaços, mas não um bom batedor.
- Você verá com seus próprios olhos, Olivier. E isso é tudo por enquanto – Harry disse antes de jogar os convites sobre a mesa e deixar a sala a passos largos e apressados.
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Ela tinha os braços cruzados sobre o peito enquanto observava através da janela.
- Parece que vai chover o dia inteiro – murmurou e afastou-se da janela, voltando para o centro do pequeno escritório, onde Isabella e Amy estavam.
Isabella estava sentada a uma pequena poltrona, enquanto Amy recostava-se na estante de livros.
- Ele deve estar voltando, Herms. – Amy aproximou-se da amiga.
- Já se atrasou dois minutos. E eu vi um homem com ele. – Hermione parecia alarmada.
- Um homem? – Amy foi quem perguntou.
Isabella automaticamente pôs-se de pé.
- Ele não diria nada a ninguém, mesmo que lhe cobrassem satisfações. Como você mesma disse, ele é o chefe do Departamento de Execução das Leis em Magia. Poderia ser o ministro e ele daria uma boa desculpa...
- Não, não era o ministro – ela adiantou-se. – Eu não sei quem era. É um homem sério demais para a pouca idade que aparenta, rosto anguloso e traços retos, duros... Cabelos ralos e bem curtos, olhos negros, profundos como um poço escuro.
- Scott, com certeza – Amy matou. – É o marido de Liah, Herms.
- Hum, acredito então que seja de confiança...
- Sim, ele é – Amy e Isabella confirmaram, em uníssono.
- Um partidão! – Amy acrescentou, arrancando risos até mesmo de Hermione.
- Conte-me, Mione... Como foram os últimos anos? Por onde andou? – Isabella aproveitou-se do momento de descontração.
- Foram anos maravilhosos. Viajei muito, conheci uma porção de lugares... Tive uma filha linda...
- Uma filha? – Isabella pareceu surpresa. – Uau, sério? Como é o nome dela?
- Chloe – Hermione respondeu, sorrindo. – Chloe Ann.
- É uma graça, Bells. Linda, inteligente e esperta, muito esperta. Resumindo: é uma versão mais nova da mãe.
- E quando eu vou conhecê-la? Estou curiosa para conhecer a versão mirim de Hermione Granger, já que não a conheci tão novinha assim.
- Marcaremos algo quando as coisas estiverem se acalmado, prometo – Hermione disse.
- Vou cobrar – Isabella sorriu.
Hermione estacou um momento e prestou atenção a algo lá fora.
- Ele chegou – disse antes de sair do escritório para o hall de entrada. Harry fechava a porta da frente naquele exato momento. – E então?
Harry não respondeu. Abriu seu melhor sorriso e tirou do bolso um minúsculo frasco de vidro, cujo conteúdo parecia ter sido cuidadosamente medido; provavelmente não haveria mais que duas gotas do soro da verdade ali. “Mais que suficiente”, Hermione pensou.
- Hum, muito bom – ela sorriu satisfeita, tomando o vidrinho da mão dele. – Acho melhor se secar, ou vai acabar com o chão recém-encerado dos Boyle e eu tenho certeza que Paige Boyle não ficaria muito satisfeita com isso. – Brincou, antes de virar-se, ainda analisando o frasco enquanto caminhava de volta para o escritório, onde Amy e Isabella os observavam da porta.
Harry observou Hermione se afastar e sacou a varinha, apontando-a para si próprio.
Estava seco num piscar de olhos.
Guardou a varinha novamente e acompanhou, então, a morena.
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- A rua é aquela ali, à direita – Ashley apontou e Paul automaticamente seguiu a instrução da esposa, girando o volante com precisão e agilidade. Fora piloto de automobilismo por muitos anos – como hobby, é claro.
- As casas em muito lembram as de Orléans – ele comentou, reduzindo a velocidade e permitindo-se analisar as casas pelas quais passava.
- É a última à direita. – Ashley instruiu mais uma vez e Paul estacionou de primeira. – Hilary procurou em Orléans algo que lhe remetesse a York. Sabe como aquele lugar é importante para nós...
- Passaremos mais fins de semana lá, eu prometo – Paul tirou uma das mãos do volante a afagou a mão da esposa que estava descansada sobre as suas pernas. – E a folga prolongada, porque não se pode chamar aquilo de férias, assim que conseguirmos alguma.
Ashley riu e tirou o cinto enquanto o marido estacionava o carro.
- Você não existe, Paul! – ela deu um selinho no marido e saltou do carro, rumando para o portão de ferro.
Paul bateu a porta do carro e trancou-o, aproximando-se da esposa em seguida.
- Kirkstall, Boston Avenue, 8. Leeds – ele murmurou.
- É – Ashley assentiu. – É aqui.