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30. Capítulo XXX


Fic: Harry Potter e a Wendelin Phoenix.


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Trovejava.


Lá fora a chuva caía torrencialmente. Eles apenas podiam ouvi-la, uma vez que as janelas estavam fechadas desde que os Boyle deixaram a casa – e assim permanecera; a discrição era um aspecto crucial na missão que estavam realizando ali. Mas ainda podiam ouvir o aguaceiro caindo e banhando as árvores e a terra, e o som era reconfortante.


Hermione tinha todas as atenções voltadas para si. O silêncio simplesmente tomara conta do aposento e os olhos atentos da morena estudavam as expressões dos demais.


- Bem, como eu disse, nós ainda não sabemos quem, de fato, matou todos esses nascidos trouxas – ela mostrou a lista e Harry rapidamente tomou-a da mão dela e voltou sua atenção para os nomes. – Temos três opções e três casos a estudar. DPM é algo muito complexo e eu não sei exatamente quais são as medidas tomadas nesses casos, mas certamente ela não poderá ser mandada para Azkaban. Os casos envolvendo pacientes que sofrem de DPM normalmente têm atenção e tratamento diferentes dos demais, então... Vamos esperar que Ashley chegue e analise o caso para, então, sabermos que fim terá essa história. Ela está a caminho com o marido dela, Paul. Ambos trabalham na Direção Central da Polícia Judiciária, na França, lá conhecida como DCPJ, em áreas diferentes: ela é perita criminal e tenente da DCPJ; ele, perito científico. – Explicou. – Paul é médico legista, especializado em psiquiatria forense, enquanto Ashley é formada em direito e biomedicina e estudou criminologia.


“Eu pensei que suas primas fossem graduadas em turismo”, Amy pensou, o cenho franzido.


“As duas são, têm uma agência e tudo o mais, mas deixaram como hobby e preferiram fazer suas carreiras em outras áreas. Hilary cursou medicina e Ashley biomedicina em Oxford. Mas depois que entrou para o ramo da criminalística, Ash se interessou por direito e resolveu cursar também”, explicou Hermione.


- E o que faremos enquanto eles não chegam? – Harry perguntou.


- Temos cerca de duas horas até que eles cheguem – Hermione fez, enquanto checava o relógio de pulso. – Eu vou conversar com ela. – Comunicou. – Com um dos alteres, na verdade – automaticamente corrigiu-se. – Falarei com aquela que estive mais disposta a colaborar, e acredito que será Priscilla Paltrow. Extrairei o máximo de informações possível para poder filtrá-las e passá-las à Ashley, de modo a evitar que seja dito mais do que se deve.


Então se pôs de pé.


- Vocês podem vir se quiserem, mas sugiro que somente aqueles que sabem que podem suportar qualquer tipo de coisa venham; nós não sabemos o que esperar, lembrem-se disso – alertou antes de se encaminhar para a cozinha pela primeira vez àquela noite. Parou e voltou-se para eles mais uma vez. – A propósito, tentem agir normalmente, conversem, mas não fiquem encarando-a.


A bruxa estava de costas para a porta. Ela tinha a cabeça descansada para trás, uma curta cortina de cabelos negros caindo sobre o encosto da cadeira.


Parou à porta ao perceber que havia um diálogo sendo estabelecido ali, e todos pararam atrás de si, confusos. Desconectou-se dos pensamentos deles e voltou toda a sua atenção para outra coisa:


- Eu vou dar um jeito de nos tirar daqui, Priscilla – a voz ressoou, o sotaque italiano claro em cada palavra.


Então a voz mudou:


- Não acho que devamos, Perlla. Eles virão atrás de nós.


- Claro que virão! – a voz italiana voltou. – Mas nós temos a opção de não responder. Deixaremos que a boboca da Pansy assuma o controle – riu.


- Ela não vai entender nada! – a segunda voz, a mais suave, reassumiu. – Não acho que seja justo... Sabe o que eu estava lembrando? Nós já devemos estar atrasadas para o trabalho, as três. Já deve passar das 8h, certamente. Acha que seremos prejudicadas? – nenhuma resposta. – Perlla? Perlla? – “Como você consegue pensar em trabalho quando está amarrada a uma cadeira e há pessoas do outro lado da parede que querem te ver atrás das grades?”, uma voz em seu interior gritava, deixando-a atordoada; e ela detestava aquela voz.


“Você viu o que eu vi? Ou melhor... ouvi?”, Amy lançou um olhar atordoado a Hermione, que assentiu.


“Eu pensei ter avisado – e explicado”, ergueu uma das sobrancelhas e voltou a caminhar.


Ao perceber que havia pessoas se aproximando, a bruxa sentada ergueu a cabeça e olhou por cima do ombro.


- Olá – cumprimentou.


- Olá – Hermione respondeu. – Meu nome é Helena Gauer. E você, como se chama?


“Me trata como se eu fosse uma criança”, bufou em pensamento, mas respondeu de bom grado:


- Engraçado – a bruxa riu. – Você foi a única que veio até aqui, me cumprimentou e se apresentou. – Ela observou os outros se acomodarem ao redor da mesa e Hermione recostar-se no balcão, de frente para ela. – Me chamo Priscilla Paltrow.


- Não se deixe intimidar pela presença deles. Não há com o que se preocupar – Hermione disse quando a bruxa lançou um olhar furtivo aos outros por cima do ombro. “Imagine se eu tivesse que me preocupar, hein?”, o pensamento irônico de Priscilla Paltrow soou, um riso contido por trás dele. – Nós só queremos conversar, e tentar te ajudar, quem sabe.


“Ajudar a me mandarem para a cadeia, só se for”


Hermione sentiu-se incomodada por aquela voz interior que insistia em ironizar tudo o que ela dizia. E teve a impressão de que Priscilla sentia o mesmo com relação àquilo.


“Qual o problema dela?”, Amy indagou.


“DPM”, Hermione respondeu, enquanto balançava a cabeça negativamente e ria por dentro.


- Mas nós só poderemos te ajudar se você concordar em nos ajudar – pontuou para Priscilla.


- E de que maneira eu poderia ajudar?


- Nós vamos te soltar, dar-te um bom café da manhã e conversaremos enquanto isso. Uma conversa informal. Farei algumas perguntas, é claro, e gostaria de conhecer a sua história. – Explicou. – Você não precisa responder a todas as perguntas. Responda somente aquelas que se sentir à vontade para fazê-lo, e tente conversar conosco como estivesse conversando com um amigo. Nós queremos te ajudar, mas só poderemos fazê-lo se você quiser ser ajudada e se ajudar a si mesma. – Condicionou. – Está de acordo? Vai nos ajudar?


Os olhos extremamente azuis dela percorreram os rostos dos ali presentes, sentindo uma expectativa crescente. Eles fixaram-se, no entanto, no rosto de um rapaz loiro, e fitou-o por um instante. “Gostaria de conhecer a sua história”, a tal Helena dissera. Ela voltou o olhar para a morena à sua frente e assentiu brevemente.


- Tudo bem – concordou. – Mas não enquanto ele estiver aqui – apontou Herod.


- Eu? – Herod fez, surpreso.


“Ele não pode saber que sou fraca, não pode sonhar que fraquejei e precisei passar todos esses anos aqui, enterrada, como se nada tivesse acontecido, exatamente como ele fez quando foi embora”, os pensamentos de Priscilla Paltrow eram altos, chorosos, rancorosos e difíceis de compreender. O que diabos ela queria dizer com aquilo? A única coisa que Hermione sabia era que ela o queria fora dali.


- Christow, vá – Hermione pediu.


A contragosto, Herod assentiu e saiu lentamente, na esperança de que eles mudassem de idéia e deixassem ele ficar.


- Sua varinha, onde está? – Hermione agachou-se ao lado da bruxa e esperou a resposta.


“Não diga”, a mesma voz mental anterior se fez presente. Priscilla hesitou, mas um pensamento logo se formou e ficou bem nítido em sua mente enquanto ela decidia se dizia ou não a localização solicitada. Rápida, Hermione partiu as cordas que prendiam as pernas de Priscilla à cadeira e abriu uma de suas botas, tirando de um bolso interno um pedaço roliço de madeira trabalhado.


- Um lugar bastante difícil de alcançar para alguém que tinha os seus objetivos – Hermione ouviu Amy sussurrar para Isabella, seu tom transbordando escárnio.


- Tiffany – Hermione se pôs de pé enquanto dirigia-se à outra. Entregou-lhe a varinha da bruxa e puxou a própria, soltando-a das cordas que ainda prendiam seus pulsos. – Muito bem, agora se sente à mesa conosco. É nossa convidada especial – agora a própria Hermione sentia a ironia pesada em sua fala.


Novamente a hesitação tomou conta de Priscilla, que pela primeira vez, desde que o grupo chegou à cozinha, tinha os pensamentos silenciosos. Ela se levantou e caminhou até a mesa, carregando a cadeira em que estava sentada instantes atrás consigo. Colocou-a no espaço vazio entre uma mulher de cabelos negros desfiados e olhos azuis e outra cadeira vazia, que, supôs, seria ocupada por Hermione.


Sentou-se e esperou, os olhos percorrendo toda a mesa, onde os outros esperavam que ela se acomodasse.


- Olá, Priscilla – Amy cumprimentou. Naquele exato momento, Hermione entregou a Harry uma cesta de torradas e Tiffany, que acabara de colocar a jarra de suco sobre a mesa, caminhou até o refrigerador para pegar o leite e os iogurtes. – Meu nome é Amy, e estes são Isabella e Harry – apontou a ‘mulher de cabelos negros desfiados e olhos azuis’ e o homem que restara no aposento e ela automaticamente reconhecera se tratar de Harry Potter, seu chefe.


- Eu já o conheço – ela murmurou. – Ele é meu chefe.


Harry tentou disfarçar a surpresa quando viu o olhar que Hermione lançara enquanto descansava a frigideira com os ovos e o bacon sobre a mesa. A morena então assumiu o lugar que estava vazio ao lado de Priscilla e sorriu para ela, enquanto pegava um dos quartos de melão que estavam dispostos na tigela recheada de frutas que Tiffany trazia e também ocupava uma cadeira entre Isabella e Harry.


- Então, quer torradas, frutas...?


- Iogurte com granola, por enquanto – Priscilla respondeu e recebeu de Hermione o iogurte. – Obrigada.


Serviu-se rapidamente, derramando um pouco da granola numa tigela, complementando com o iogurte.


- E então, Priscilla... – Hermione começou, sem olhá-la, parecendo muito mais interessada na fatia de melão que cortava. – Quantos anos você tem?


- Dezenove – ela respondeu. – Mas ainda acho minhas feições um tanto infantis demais, mesmo para a pouca idade que tenho.


- Sim, você parece ser mais nova – Harry comentou, observando que, mesmo se tratando do mesmo corpo, Priscilla tinha feições mais juvenis e um ar mais inocente que Pansy Parkinson.


- Onde você nasceu, Priscilla? – Amy adiantou-se.


- Em Nova York, Estados Unidos – ela respondeu de imediato, em seguida levando uma colherada de iogurte à boca. – Vim para a Inglaterra poucos dias depois.


- O que você sabe sobre sua amiga... sobre Perlla? – Hermione indagou.


- Muito mais do que vocês imaginam – ela reprimiu um riso. – E posso contar muito menos do que gostariam que eu contasse.


- Ou não – Amy disse, enquanto pegava uma torrada e servia um pouco de suco. Ela estava certa, desde que ela e Hermione apelassem para um método que restringia as respostas apenas a elas. Hermione compreendeu de imediato a intenção de Amy e assentiu discretamente. – Você e Perlla conhecem Pansy Parkinson?


- Sim. – “Tudo bem até aí. Vamos ver como ela se sai nas próximas”


- E ela as conhece? – Amy continuou, sem saber o que a impulsionava e olhou para Hermione. Seu olhar indagava, claramente, se as perguntas faziam algum sentido e se chegaria a algum lugar através delas. Hermione encorajou-a com um sorriso discreto.


- Não. – “Mais uma verdade. Ela está se saindo bem, no fim das contas”


- E o que você acha dela?


- Nada, eu acho. Ela parece legal, embora seja uma pessoa difícil. – “Pareceu bastante sincera”


- Por que nunca falou com ela? – Harry soltou, arrependendo-se em seguida. “Mas que pergunta idiota, essa que eu fiz!”, pensou.


- Perlla disse que não devemos. E ela sempre sabe o que é melhor para nós. – “Ela não mente? Que tipo de psicopata diz cem por cento a verdade?”


“Calma, Amy”, Hermione repreendeu. “Calma”


- E acha que ter alguém que sempre lhe diz o que deve ou não fazer é o melhor para você? – Tiffany fez, pirrônica.


- Bem, ela é minha amiga e... é mais velha, também.


- Quantos anos ela tem, você sabe? – Hermione deixou os restos de seu quarto de melão sobre a mesa e pegou um kiwi, começou a descascá-lo e manteve a indiferença fingida, mas olhando para Priscilla vez ou outra.


- Sim. – Ela assentiu. – Vinte e cinco. – E mais uma colherada generosa de seu iogurte.


- Acha que ela conversaria conosco? – Hermione perguntou.


- Eu não sei...


Amy deu um suspiro. “Não”, ela buscou o olhar de Hermione. “E agora?”


“Calma”, Hermione pediu.


- Você não conheceu sua mãe, não foi?


- Na verdade, eu a conheci, mas nunca falei com ela. Quando eu era pequena, devia ter uns cinco ou seis anos, ela foi me visitar nas férias de verão e levou meu meio-irmão para que eu o conhecesse, mas... Quando papai abriu a porta e eu a vi, e a reconheci, Perlla disse que tínhamos que nos esconder – contou. – Papai foi nos procurar, mas Perlla mandou que eu dissesse que era para ele mandá-la embora e lhe dissesse que eu não queria vê-la. E eu o fiz. Depois chorei horas a fio por tê-lo feito, mas Perlla me garantiu que tinha sido melhor assim, então eu esqueci. Mamãe foi embora e nunca mais voltou até... – ela parou e engoliu em seco, desviando os olhos a todo o momento sem fixá-los em lugar algum e tentando simplesmente manter a mente vazia, como Hermione percebeu. – Perlla sempre foi uma boa amiga.


“Por que diabos ela repete tanto isso?”, Amy quase gritou em pensamento.


- É claro – Hermione sorriu. – Você não tem vontade de voltar a Nova York?


- Eu prefiro não falar sobre isso – ela tomou a última colherada de seu ‘iogurte com granola’ e pôs a tigela sobre a mesa.


- E tem vontade de conhecer algum outro lugar? – Amy continuou.


- A América do Sul, talvez – uma pausa. – O Caribe, em especial as Bahamas, Bermudas e Cancun, mas gostaria de conhecer tudo! Todas as ilhas... Dizem que a viagem para lá é um sonho! Eu tinha vontade de conhecer o Canadá, mas fui há dois anos com papai e viajei para a Rússia no último verão. Jamais arriscaria ir no inverno – ela riu.


“Não estamos chegando a lugar algum, Hermione”, Amy alertou e Hermione ignorou-a mais uma vez. Estava na hora de começar a fechar o cerco.


- E Roma? Não gostaria de conhecer Roma? – perguntou, imaginando que seria uma boa oportunidade para descobrir mais alguma coisa.


- Oh, sim. Muito! – Priscilla sorriu, mas logo o sorriso esmoreceu e se desfez. – Mas Perlla não quer voltar lá, então...


- Eu pensei que ela fosse italiana – Tiffany murmurou em tom casual antes de enfiar o restante da torrada que comia na boca.


Hermione percebeu que a morena ia pegar um guardanapo e concentrou-se num deles, depois a induziu a pegá-lo ao invés de outro.


Tiffany puxou o guardanapo e abriu-o, pronta para usá-lo, quando viu palavras escritas em preto em sua superfície: E ELA É ITALIANA. FOI NA ITÁLIA QUE O TRAUMA ACONTECEU. Procurou o olhar de Hermione, confusa. “Há mais do que eu pensava para ser esclarecido”, pensou.


Já lera sobre diversos casos de DPM e já ouvira o pai falar muito sobre eles, mas nunca entendera como uma pessoa podia assumir mais de uma personalidade.


A verdade é que sempre fora cética e racional demais para acreditar ou entender tal tipo de coisa. Para ela, aquilo que chamavam de distúrbio de personalidade múltipla só podia ser fingimento ou loucura. E ainda custava a acreditar, mesmo com tudo aquilo que estava presenciando.


- Não acho que ela guarde muitas boas lembranças de lá – Priscilla explicou, categórica. – E eu procuro respeitar isso.


- E quanto ao Christow? Você o conhece, certo? – Isabella se pronunciou e Tiffany mexeu-se desconfortavelmente em sua cadeira. Hermione olhou de uma para a outra e depois para Priscilla.


Priscilla hesitou.


- Deve haver alguma razão especial para você ter pedido que ele saísse... – Isabella continuou.


“Na ferida”, Hermione mordeu o lábio inferior, preocupada.


- Tiffany? – chamou. – Por que não vai levar algo para Christow e saber se ele precisa de alguma coisa?


- Hã? – ela estacou, olhando, confusa, para Hermione.


- Ele precisa de você agora – Hermione insistiu. Tiffany se levantou, desconfiada, ainda olhando enviesado para a outra. – Leve essas torradas e um pouco de suco – acrescentou.


E Tiffany foi.


- E então, Priscilla? – Isabella insistiu.


- Ela não irá responder, Bel – Hermione disse. – Esse é o tipo de pergunta que nós deveríamos fazer à Parkinson.


- Será que eu poderia ir ao banheiro? – Priscilla indagou, de súbito.


“Ah, finalmente alguma atitude esperada! Estava demorando...”, Amy pensou.


- É claro – Hermione assentiu de bom grado e todos olharam surpresos para ela. – Eu vou te mostrar onde fica – levantou-se. – Ah, e, Harry, enquanto isso, será que você poderia ir até a pequena horta nos fundos da casa e pegar alguns limões? Será bom termos alguns para fazer um chá mais tarde. – Ela lançou um olhar significativo ao moreno e ele pareceu entender.


- Agora mesmo – ele assentiu e saiu pela porta dos fundos.


- Venha, Priscilla – Hermione chamou. “Teremos que esperar Paul chegar para dar continuidade ao interrogatório. Ela não pode nos ajudar em muita coisa antes de falarmos com Pansy Parkinson”, avisou a Amy. “Explique aos outros”, continuou antes de sair, seguindo Priscilla.


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- Hermione pediu que eu lhe trouxesse isso – Tiffany depositou a bandeja sobre a mesa de centro e acomodou-se numa poltrona. – Acho um pouco desnecessário, uma vez que você tomou café não hámuito tempo.


Herod riu.


- Verdade. Mas nessas horas o melhor é manter-se ocupado de alguma forma. – Ele pegou uma torrada.


- Não acho que a intenção dela tenha sido outra senão a de alguém fazer-te companhia – a morena murmurou.


- Obrigado – Herod agradeceu.


Silêncio.


Após alguns instantes – e um generoso gole de suco –, Herod voltou a falar:


- Infelizmente eu tenho que ir. Tenho uma importante reunião de negócios às 10h e não posso faltar. E, bem, ainda tenho que passar em casa, tomar um banho e me trocar. Estou me sentindo sujo – ele fez uma careta. – Eu sairei de lá ao meio-dia, mas virei de carro, então provavelmente chegarei após as 14h.


- Tudo bem, qualquer coisa nós ligaremos para você – Tiffany assentiu, pronta para virar-se e voltar à cozinha, então se lembrou de algo: – Será que é pedir muito que você vá ver como estão as crianças antes de voltar?


- Claro que não. Eu irei – Herod sorriu.


- Obrigada – ela deu um meio sorriso tímido e enfiou as mãos nos bolsos da calça.


Naquele exato momento, Hermione passou com Priscilla pelo corredor rumo ao banheiro.


- É melhor eu voltar lá para dentro – Tiffany disse. – E também acho melhor você adiantar-se. Quanto mais cedo chegar, mais cedo voltará.


- Tem razão – ele concordou. – Vou deixar meu celular ligado e te ligo quando estiver com as crianças. Não esqueça, pode me ligar a qualquer hora, ok?


- Tudo bem.


Ela esperou que Herod saísse e caminhou até a janela, abrindo uma fresta. Observou-o caminhar de volta para o terreno baldio em que aparataram àquela madrugada e desaparecer após pular a mureta.


Suspirou e retornou à cozinha.


- O que houve?


- Ela não ajudou muito – Isabella suspirou. – Nós esperávamos mais, mas parece que algo impede de ela falar exatamente o que queremos saber.


- Eu e Hermione tentamos por meio de legimência, mas não pareceu surtir muito efeito. Ela parecia evitar os pensamentos, como se a resposta para cada pergunta a incomodasse. E, para uma psicopata, ela fala bastante a verdade – Amy comentou. – Onde está Christow?


- Acabou de sair. Pediu que eu avisasse a todos que estaria de volta até as 14h – Tiffany respondeu.


- Seria uma boa idéia pedir que ele trouxesse algo para almoçarmos, não? – Isabella fez.


- É uma opção, ou teremos que repor o estoque da dispensa dos Boyle – Amy riu. – Não, Bells, acho melhor nós providenciarmos tudo por aqui mesmo.


- Eu vou voltar a Londres também, e espero que não se importem. Acham que conseguem dar conta, vocês e Potter? – Tiffany fez, de súbito.


- É claro, Tif – Isabella assentiu. – Vá, veja seus filhos, resolva o que tem que resolver...


- O que inclui justificar a falta no trabalho – Amy acrescentou, rindo.


- E volte – Isabella concluiu. – Nós cuidaremos do que for necessário aqui.


- Tudo bem – Tiffany assentiu. – Obrigada, garotas.


- Por nada, querida – a ‘prima’ sorriu.


- Onde raios se enfiou Harry James Potter? – Amy fez de súbito.


- Aqui – o próprio respondeu enquanto adentrava a cozinha, deixava os limões sobre a mesa e atravessava a sala rumo ao lavabo. Tiffany riu enquanto acenava para as duas e deixava a casa.


- ... Hum, então você divide uma casa em Kensington com Perlla?


- Sim. É bem grande – Priscilla confirmou.


Hermione e ela surgiram no corredor, passando por Harry. “Não venham até aqui. Estou conseguindo algo e acho que ela se intimida por todos vocês”, Hermione avisou Amy, que assentiu e cochichou algo para os outros.


- Conheceu os Christow?


- Sim. Sempre admirei Haydée Christow, a mãe de Herod – ela baixou a voz ao citar o nome dele.


- Não se preocupe, ele não está mais aqui – Hermione assegurou. Agora elas já estavam na sala. – Vê? Só estamos eu e você aqui. Os outros estão na cozinha e Christow foi para Londres. E só retornará a Leeds após o almoço. – Explicou. – Me conte, Priscilla... Por que se preocupa tanto com ele? Você não gosta dele?


- Eu gosto. E é por isso que não o quero por perto – Priscilla respondeu.


- Eu não entendo...


- Eu sei. E eu gostaria de poder te explicar, mas não posso. Não é algo meu, entende?


- Tudo bem, eu não vou insistir – Hermione deu um meio sorriso, então. – Acha que poderemos conversar mais tarde?


- Claro – Priscilla sorriu. – Se importaria se eu fosse dormir agora? Passei a noite em claro e estou exausta!


- Há um sofá de couro maior e mais confortável no escritório, se preferir.


- Tanto faz – ela deu de ombros.


- Venha – Hermione seguiu na frente, sendo acompanhada de perto pela outra bruxa.


Priscilla estava cooperando no que era possível, mas ainda não era o suficiente. Hermione sabia que as respostas de que precisava só seriam obtidas quando Pansy reassumisse o controle, e tivesse consciência da existência de Perlla e Priscilla, admitisse seus traumas e estivesse disposta a compartilhá-los e a ser ajudada. ‘Ajudá-la’, entretanto, implicava que ela conhecesse os alteres e, infelizmente, isso só era possível por meio da hipnose e com o conhecimento, consentimento e vontade dela.


A solução estava a caminho: Paul Lefèvre. O grande problema é que conseguir ultrapassar todas aquelas etapas, normalmente levava anos, e ela precisava de suas respostas para já.


Havia uma solução mais prática e mais rápida, mas ela precisaria ser muito boa se realmente quisesse conseguir alguma coisa.


- Pensei que tivesse dito que era um sofá – Priscilla comentou.


- O quê? – Hermione despertou de seus devaneios.


- O sofá... – Priscilla riu. – Mais parece um divã.


 


Ela segurava a mão do pai com firmeza enquanto seus olhos fitavam atentamente os números que iam passando no alto do elevador. Sete... Oito... Nove...


Doze.


- Chegamos – o pai disse enquanto a porta se abria.


Ele saiu e puxou-a consigo.


- Eu pensei que tinha dito que íamos à casa de um amigo... – ela começou.


- Não, eu disse que íamos visitar um amigo – ele automaticamente corrigiu-a enquanto empurrava uma porta de vidro.


- Mas isso é uma clínica, pai! – Ela observou. – Seu amigo é médico?


- Ele é terapeuta, e não é meu amigo, Pan – ele agachou-se frente à filha e deu seu melhor sorriso. – Ele será seu amigo.


Ela riu nervosamente.


- O que, exatamente, nós estamos fazendo aqui? – perguntou.


- Eu ando preocupado com você, querida. Não quero que você sofra com a partida dos Christow.


- Eu estou bem, papai – murmurou pausadamente. – E eu quero ir embora.


O pai simplesmente a ignorou e levantou-se, recompondo-se e dirigindo-se ao balcão. A sala de espera estava vazia, como ela pôde notar, exceto por um homem que estava sentado a um canto, concentrado na leitura de um jornal trouxa.


A secretária pegara o telefone, mas ela já não prestava atenção à conversa do pai e da secretária.


- Perlla? – chamou num sussurro. – Perlla, o que eu faço?


- Andare! Vá e converse com o doutorzinho, responda às perguntas que ele lhe fizer e diga que está tudo bem com você. Quando sair, diga ao papai que não gostou dele e que não quer voltar, e que se ele te obrigar, você fugirá de casa – Perlla lhe instruiu.


- Faça você, por favor... É melhor atriz do que eu, sempre foi!


- Sì, certo! Vorrei, ma non posso. Il mio inglese non è cosi buono – ela respondeu em italiano. – Eu faria, mas não posso. Meu inglês não é assim tão bom e meu sotaque nos denunciaria, mesmo que o folletto stupido da Pansy saiba falar italiano fluente, seria estranho. Estamos na Inglaterra, afinal! Portanto, faça o que lhe disse e tudo sairá nos conformes.


- Pan? – o pai chamou. – Vamos, querida. O Dr. Everhart já está te esperando.


- Buona fortuna! – Perlla sussurrou antes que Priscilla alcançasse o pai.


O tal Dr. Everhart já estava esperando à porta do consultório e sorria amigavelmente. Parecia ser um homem simpático, ao menos.


- Como vai, Srta. P? – ele sorriu. – Seu pai me disse que gosta de ser tratada assim, certo?


Priscilla encarou-o e titubeou, então apenas assentiu com um gesto breve e sistemático.


- Venha, hoje eu apenas quero conversar um pouco com você e com seu pai – o doutor manteve um tom cordial enquanto fechava a porta atrás deles. – Sente-se naquela poltrona ali e eu já vou conversar contigo – apontou o divã vermelho disposto próximo ao que ela julgava ser uma poltrona de verdade. – Pai, você se importa se conversarmos à sós um instante?


Ela ficou parada encarando o divã por um momento, hesitante em sair do lugar. Olhou então para o pai, que se afastava aos cochichos com o Dr. Everhart e sentou-se à beirada do divã, imaginando que, ao deitar naquele ‘negócio’, estaria assinando o próprio atestado de loucura.


 


- Eu não gosto de divãs – ela murmurou enquanto lembrava-se dos transtornos por que havia passado pelo fato de Pansy não se lembrar de coisas que o pai garantia que eles haviam feito juntos; e realmente haviam, ela pontuou em pensamento.


Hermione deu um sorriso simpático.


- É só um sofá de couro, nada além disso.


Priscilla fez uma careta. Hermione esperou que ela caminhasse até o sofá e se sentasse. Ela o fez e, já sentada, tirou a túnica negra que ainda vestia, dobrando-a e descansando-a numa cadeira. Hermione aproximou-se, então, e sentou ao lado dela.


- Priscilla, acha que poderia me fazer um favor? – perguntou.


- É claro. A depender do que for... sem problemas. – Priscilla assentiu.


- Olha... Eu sei que você não gosta de se sentir vulnerável e sei que o que eu vou te pedir pode estar acima dos seus mecanismos de defesa, por assim dizer, mas é algo que se tornou necessário e eu preciso de sua colaboração tanto quanto antes.


- E isso implica, em...


- Eu preciso que, quando dormir, você deixe o corpo e permita que eu acorde e converse com Pansy Parkinson.


O sangue fugiu do rosto de Priscilla. Ela abriu a boca para responder, seus olhos também arregalados em sinal de surpresa, mas nada disse.


- Priscilla? – Hermione insistiu.


- Tudo bem, eu... Já está mesmo na hora de ela reassumir – ela parecia insegura.


- Obrigada – Hermione afagou o ombro dela e se levantou. – Amy, Isabella, Harry? – chamou. – Durma, Priscilla. Nada vai acontecer a você, tem a minha palavra.


Priscilla deitou-se e encolheu-se em posição fetal, ainda encarando Hermione por alguns segundos antes de fechar os olhos e relaxar. Não demorou até que Hermione sentisse a presença dos outros à porta, bem a tempo de ver a expressão no rosto da bruxa se transfigurar completamente.


Aguardou alguns segundos e então se agachou ao lado do sofá, os olhos fixos no rosto da bruxa.


- Parkinson? – chamou. – Parkinson, acorde!


Pansy abriu os olhos, alarmada, e se levantou se súbito.


- G-Gran-Granger? – fez, enquanto se afastava ao máximo que podia da outra morena.


Atrás de Hermione, Amy e Isabella adentraram o escritório e logo alcançaram a amiga, que agora voltava a ficar de pé e se recompunha.


- Bom dia, Parkinson – Hermione cumprimentou, sorrindo.

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