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29. Capítulo XXIX


Fic: Harry Potter e a Wendelin Phoenix.


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Mal a porta havia sido aberta à sua frente e ela precipitou-se para dentro.


- Hermione Jane Granger, eu acho melhor você me dar um bom motivo para me tirar da cama duas horas mais cedo, ou pela manhã sua querida Nina vai ser procurada por homicídio doloso e seu lindo rostinho vai estar estampado na página de óbitos de todos os jornais! – Rhina ameaçou, porém, a zombaria clara em seu tom, como se ela estivesse curtindo uma piada interna.


- Não é hora para piadas, Rhina – a morena replicou, séria.


- Ih – Rhina fez uma careta. – O que foi dessa vez?


- Preciso que você chame Alecia – Hermione foi categórica. – Temos sérias complicações a resolver, e só podemos fazê-lo as três, juntas.


Não foi preciso que Hermione dissesse algo além disso para que Rhina entendesse a seriedade da coisa. Ela pegou o telefone que estava sobre uma bancada sem tirar os olhos da morena e só desviou a atenção quando precisou discar.


- Alecia? – Rhina fez. – Desculpe, mas preciso que você dê um ‘pulinho’ aqui em casa...


Antes que ela pudesse colocar o fone no gancho, a loira já estava batendo à porta.


- Ela é rápida – Rhina murmurou enquanto sentia um arrepio perpassar a espinha. Correu para a


porta a abriu.


- Aconteceu alguma coisa? – Alecia perguntou, os olhos encontrando os de Hermione.


- Digamos que essa está sendo a madrugada mais longa da minha vida – Hermione respondeu. – Foram um dia e uma noite cheios, também, e... Bem, vamos por partes. Acho melhor vocês sentarem.


- Estou bem de pé – a loira assegurou, enquanto Rhina acomodava-se no sofá.


- Tudo bem, então. A escolha é sua – Hermione também permaneceu de pé. – Eu só queria avisar que eu não vou matar Harry Potter e vou fazer de tudo para impedir que uma de vocês chegue até ele.


- O quê? Hermione, você não...


- Rhina, a decisão está tomada. Eu não vou fazer absolutamente nada contra ele.


Alecia continuou encarando Hermione inexpressiva.


- Parece que há uma boa explicação por trás dessa decisão, certo?


- Hermione... – Rhina recomeçou.


- Há, sim – a morena assentiu. – Alecia, Rhina... Por acaso, esta noite eu descobri de quem se trata o mandante do assassinato de Harry Potter e eu jamais faria qualquer coisa em nome dessa pessoa. Vocês estão aqui em Londres há tempo suficiente para saberem de quem se trata Pansy Parkinson, não? E sei que vocês teriam o maior prazer em ter o pescoço dela entre as mãos... – Ela disse. – Pois bem, ela é a mandante. E, me acreditem, ela era quem deveria estar no lugar dele. Mas não é apenas por isso que me nego a fazer o serviço.


- Há mais? – Rhina fez, surpresa.


- Bem, depois eu descobri algo que realmente me fez tomar a decisão de vir até vocês. Pode parecer sentimental o meu discurso, mas eu garanto que ele tem fundamento. Então... Ele é pai de uma criança que é – ou será, não importa –, muito importante para mim e para Chloe, uma criança que já cresceu sem a mãe, e eu nunca a faria sofrer. Além disso... – Hermione suspirou pesadamente antes de continuar. – Você se lembra quando eu disse que ele me conhecia, Rhina? – Ela viu a amiga assentir. – Bem, ele foi alguém muito importante para mim. Nós crescemos juntos, fomos namorados e... E ele é pai de Chloe.


- Ele é... pai...


- É, sim, Rhina. Pai de minha filha. Eu não sabia disso quando aceitei o serviço e só descobri ontem que havia uma profecia que... Ah! Não me façam falar a respeito disso agora. Eu... Eu preciso de um tempo até que eu tenha assimilado essa história e... – ela estava se perdendo entre as palavras.


- Não se preocupe, Hermione – Alecia se pronunciou, interrompendo-a. – Eu entendo. Nós vamos suspender a missão, ok?


Hermione engoliu em seco e assentiu, agradecida. Concentrou-se para que as lágrimas que se formavam em seus olhos fossem dispersas e não derramadas.


- Obrigada, Alecia.


- Não agradeça – a loira aproximou-se da morena. – Mais tarde, quando tudo estiver em ordem, nos procure.


- Eu irei – Hermione garantiu e encarou Alecia Rhina, esta última ainda perplexa. Ela acenou brevemente para a de cabelos cor de carvão e olhos celestes e esboçou um sorriso discreto antes de desaparecer no ar.


- Ela é uma mulher forte – Alecia murmurou. – E corajosa, para vir até aqui disposta a nos enfrentar.


- Acredite, Alecia, ela já passou por tudo nessa vida. O que ela é hoje, apenas é um espelho do que ela teve que enfrentar para chegar até onde está.


---


Ela sabia exatamente aonde ir agora. Nunca tivera coragem de ir até lá e não sabia por que; talvez tivesse medo de seu passado. Não importava muito agora. Ela sempre soube que iria voltar, sempre soube que aquele era o seu lugar. Ela podia simplesmente esperar mais oito anos e estaria ali, para ver a filha se formar, mas já não podia esperar mais. Ela viera recuperar a sua metade que ficara ali, perdida. E havia pessoas que ela queria ver, pessoas que ela jamais apagara, embora tivesse se apagado da vida delas – ou assim pensava.


Atravessar aqueles portões e caminhar por aqueles imensos jardins a levaram a um momento de intensa nostalgia. A última lembrança que tinha daquele lugar era terrível, mas jamais fora o suficiente para superar as outras tantas lembranças felizes que tinha. Uma parte de si havia nascido naquele lugar. E ela retornara, como uma boa filha que sempre retorna à casa dos pais.


Seus olhos encontraram a cabana próxima à floresta. De sua chaminé saía uma fumaça acinzentada. Observou com mais atenção. Podia ser vista uma luz fraca através das cortinas de tecido fino, e depois uma sombra indo e vindo, levando o que parecia ser uma chaleira. Alguns instantes depois, as luzes se apagaram e a porta se abriu. Houve um farfalhar atrás da cabana e um hipogrifo saiu de detrás dela, vindo ao encontro do dono, que acabava de fechar a porta atrás de si.


Rúbeo Hagrid. Provavelmente, ele estava saindo para caçar algo na Floresta Proibida ou para ir ao castelo. Ela supôs que a primeira opção seria mais provável. O meio-gigante acariciou a cabeça do hipogrifo e caminhou rumo à Floresta.


Sem pensar muito, apressou-se em segui-lo. Talvez conseguisse driblar a vantagem que ele tinha se corresse.


Após finalmente adentrar a floresta, percebeu que o perdera de vista. Não foi difícil encontrar – e seguir – seu rastro, no entanto; por conta dos sentidos apurados, podia saber exatamente a que distância se encontrava dele.


Um grunhido chamou sua atenção e fez com que acelerasse o passo, uma vez que era alarmante a proximidade entre o meio-gigante e o que quer que tenha provocado estrondoso ruído. Não demorou a encontrar a clareira onde Hagrid se reunia, junto ao hipogrifo, a um gigante de cerca de seis metros de altura que Hermione reconheceu ser Grope, o meio-irmão de Hagrid – e, ela supôs, seria quem estava por trás do rugido alto de instantes atrás.


Hagrid conversava com o irmão e tudo parecia sob controle de tal forma que ela permitiu-se ficar às sombras esperando – e observando. Reassumiu a forma humana e recostou-se a uma árvore, não se importando muito por sua roupa ser branca.


Deu um suspiro pesado e fechou os olhos. A noite estava sendo longa e demasiadamente cansativa. O ruído surdo de um cascalho se quebrando a fez reabrir os olhos. Deu de cara com o hipogrifo pouco mais de um metro distante de si.


- Gimle? – a voz de Hagrid ressoou, se aproximando. – O que está havendo?


O animal sequer virou-se para o lugar de onde vinha a voz do dono. Os olhos cor de âmbar fitavam o seu rosto com uma curiosidade demasiada. Ele queria se aproximar, mas a desconfiança ainda falava mais alto. Lembrando-se das aulas de Hagrid em seu terceiro ano, cuidadosamente reverenciou o hipogrifo que atendia pelo nome de Gimle, sem quebrar o contato visual. O hipogrifo respondeu de bom grado e ela se aproximou dele, tocou o alto de sua cabeça e acariciou o bicho.


- Gimle?


Hermione então ergueu os olhos e percebeu que Hagrid parara de caminhar.


- Vamos, Gimle. Hagrid está preocupado com você – ela sussurrou para o hipogrifo e caminhou, a mão sobre o lombo dele, mantendo-o ao seu lado. Já podia vê-lo ali, adiante, parado, segurando uma espécie de lamparina com firmeza. Parou por um instante e respirou fundo. Só então teve coragem para sair do meio das árvores para a clareira.


- Quem está aí? – O meio-gigante indagou ao notar as árvores se mexerem e alguém sair de detrás delas.


As feições de Hagrid se contorceram em confusão. Aparentemente, ele queria ver de quem se tratava a pessoa que vinha com Gimle, se aproximando lentamente. Não era comum que houvesse outros humanos ali; era contra as regras da escola. No entanto, não parecia ser um aluno. Era uma mulher, estava totalmente vestida de branco e tinha os cabelos compridos e lisos caindo até a cintura.


- Olá, Hagrid – Hermione cumprimentou-o, sem jeito, antes de parar a pouco mais de um metro de Hagrid. Gimle, ao contrário, seguiu para junto do dono.


- Hermione? – o rosto de Hagrid iluminou-se num sorriso. – Hermione, é você?


- Sim, sou eu – ela respondeu, oferecendo-lhe um sorriso.


- Minha menina! Como você cresceu! – Ele abraçou-a e Hermione agradeceu mentalmente por ele ter aprendido a lidar com sua força e tamanho. – Por onde você andou? Nem imagina como ficamos preocupados... Todos nós! E o Harry... Pobre Harry...


Hermione pôde ver um filme passar na cabeça no meio-gigante. Cenas que iam desde o dia da batalha que fora travada nos terrenos de Hogwarts até a reação dos professores e amigos que tinha quando foi dada a notícia de que ela não estava mais entre eles e as visitas e a expressão de clara tristeza no rosto de Harry. A expressão que ele tinha era desoladora nos primeiros dias – e meses. Hermione sentiu como se tivesse recebido uma punhalada no peito ao ver aquelas imagens. Ofegou e concentrou-se em manter a estabilidade emocional.


- E você está tão bonita – Hagrid continuou.


- Obrigada, Hagrid – ela sorriu. – Você continua o mesmo gigante sentimental de sempre – ela brincou. – Senti saudades.


- Ora! Podia ter vindo nos visitar, não? – Ele cobrou. – Mas não vamos conversar aqui. A Floresta não é o melhor lugar para isso. Venha, vamos para a minha cabana. Lá estaremos aquecidos e eu poderei lhe oferecer algo.


Hermione assentiu, mas logo se lembrou dos dotes culinários do amigo – ou falta deles – e sorriu. E foi tão involuntário que ela agradeceu por a esta altura Hagrid já ter dado as costas para ela. Seria, no mínimo, uma grosseria se ele visse e soubesse o motivo do sorriso, uma vez que ele só estava tentando ser gentil.


Demoraram muito mais do que o tempo que ela sabia que levaria se estivesse sob sua forma de raposa, mas para ela o grande desconforto estava em ter de acompanhar o meio-gigante, quando um passo dele era o equivalente a três seus.


Todo o caminho foi feito em meio a uma descontraída conversa sobre como as coisas se passaram em Hogwarts nos últimos anos. Era mais um monólogo; o gigante contava tudo com uma animação inigualável e, durante umas poucas vezes, Hermione fazia perguntas ou comentários curtos, muitas vezes monossílabos.


- Passamos cerca de três semanas estudando os Explosivins no meado de fevereiro. E, me acredite, depois dos hipogrifos, foi o ser mágico que os alunos mais gostaram – o comentário de Hagrid foi seguido por um risinho. Agora eles estavam adentrando a cabana.


- Uau, difícil acreditar – Hermione comentou, entre risos, enquanto esperava o amigo fechar a porta e pendurar o enorme casaco que usava atrás dela. – Ano que vem minha filha vem para Hogwarts, e nem imagino como vou ficar, principalmente sabendo que ela vai estar solta aqui. E quando ela finalmente começar as aulas de Trato das Criaturas Mágicas? Acho que vou surtar de preocupação! Ela é realmente curiosa...


- Ah, você tem uma filha? – Hagrid ergueu as sobrancelhas, surpreso.


- Oh, sim! Chloe – Hermione assentiu. – Digamos que é uma versão de Hermione Granger um pouco menos certinha, mais aventureira e falante, extremamente curiosa – riu.


Hagrid riu também.


- Tenho certeza de que vou gostar dela tanto quanto gosto da mãe.


Hermione corou.


- Ela vai gostar muito de você também, Hagrid – a morena afagou a enorme mão do amigo com um sorriso tímido nos lábios.


- Vou aprontar o chá. – Ele se afastou e caminhou para o que deveria ser uma cozinha. – E então, você ainda não me respondeu por onde andou durante todos esses anos...


- Ah, andei viajando muito por conta do trabalho. Principalmente no começo, quando eu passava duas semanas nos Estados Unidos e uma semana aqui. Meus últimos anos foram bastante corridos e imprevisíveis. O que é normal para o departamento em que eu trabalhava dentro do Ministério – ela começou. – Passei dez anos trabalhando na Confederação Internacional da Magia. Desses dez anos, cinco foram passados nos países escandinavos. Em novembro de 2000, fui transferida para o Ministério da Magia Sueco. Em resumo, morei na Suécia, na Noruega e na Finlândia. Mais tarde, fui transferida para a Alemanha e passei três anos e meio morando em Berlim. – Contou. – Mas não pense que as viagens pararam por conta disso. Eu continuei viajando muito, algumas vezes para os Estados Unidos... Também viajava regularmente com destino a Paris, Berna e Copenhagen.


- Estou realmente surpreso. Quando você ainda estava em Hogwarts, eu imaginava que hoje estaria trabalhando no Quartel General de Aurores.


Hermione sorriu ternamente enquanto recebia uma xícara cheia de chá das mãos de Hagrid.


- Bem, eu também. Mas tive alguns acidentes de percurso – brincou. – Não, eu ainda não cheguei lá. No entanto, sou funcionária da Academia Internacional de Aurores há seis anos. Sou instrutora na Escola de Aurores do Ministério da Magia britânico há pouco mais de cinco meses, e fui instrutora na Noruega, na Finlândia e na Alemanha também.


- Então temos uma auror bastante conceituada, hã?


- Talvez – Hermione murmurou e bebeu um longo gole do chá, sentindo-se aquecer por dentro. Estava realmente bom, para sua surpresa.


 - Está amanhecendo – Hagrid observou.


Hermione ergueu os olhos para a janela e viu o dia dar seus primeiros sinais. Checou a hora no relógio de pulso. 6h10m.


- Hagrid, eu não tenho muito tempo – disse. – Você acha que poderia providenciar para que eu possa falar com Dumbledore?


- Desculpe, Hermione, mas Dumbledore viajou ontem à noite e só deve estar de volta depois do almoço. Talvez seja melhor você voltar mais tarde – ele sugeriu.


- Eu farei isso. – Ela sorriu e estendeu a enorme xícara para pousá-la sobre a mesa. – Obrigada mais uma vez, Hagrid. Foi bom rever você.


- Disponha, Mione. Sabe que pode vir me visitar sempre que quiser – ele acenou brevemente.


- Espero que não se importe se eu resolver tirar proveito disso – Hermione riu. Em seguida, pôs-se de pé – e ela nem se lembrava de ter sentado – e abraçou o amigo meio-gigante. Quando se afastou e finalmente alcançou a porta, virou-se para ele. – Até breve, Hagrid.


- Até, Mione.


---


Estavam todos dormindo. Harry estava recostado a uma poltrona, desajeitado, uma das mãos segurava com firmeza o telefone celular. Tiffany e Herod dividiam um sofá. A morena estava deitada de barriga para cima, a cabeça recostada no peito do loiro, que a abraçava com uma única mão a cintura dela, que tinha ambas as mãos seguras no braço dele. O cotovelo do outro braço dele estava apoiado no braço do sofá e a cabeça apoiada em seu punho fechado. Isabella estava abraçada a uma almofada, a cabeça pendendo para trás, recostada ao enorme sofá em que dormia sentada.


Amy estava parada de pé, observando o amanhecer pela janela. Aparentemente, não seria um dia muito bonito em Leeds. O céu estava nublado e as nuvens espessas e escuras indicavam que logo choveria – e não seria pouco, Amy supôs.


Sentiu a sede queimar em sua garganta seca. Não queria ir à cozinha, mas foi vencida pela obrigação; já estava mesmo na hora de ir até lá checar como ‘andavam as coisas’.


Afastou-se da janela e caminhou decidida e a passos largos e silenciosos rumo à cozinha.


- Olá – uma voz doce e gentil ressoou, vinda bem do centro do aposento, onde uma figura encapuzada ocupava uma cadeira.


“Ela não estava amordaçada?”, Amy perguntou-se. Ignorou a figura e pegou um copo.


- Eu sei quem é você, mas não lembro como se chama – a voz ressoou novamente e Amy identificou um sotaque diferente nela. – Há mais pessoas aí com você, não é? – uma pausa. – Tudo bem se não quiser responder. Estou acostumada a ser ignorada. Perlla costuma fazer o mesmo com alguma freqüência, embora ela seja a única que realmente conversa comigo. – Contou. – Você pode me dar um pouco de água? Eu estou com sede há algum tempo, mas ninguém vinha aqui para que eu pudesse pedir.


Amy agora tinha o copo cheio de água. Hesitante, ela encarou o copo e depois a bruxa encapuzada. Em seguida, se aproximou e baixou o capuz com a mão livre, revelando o rosto da mulher. Não se surpreendeu com o que via; ela já sabia, afinal. Sem mais, pousou a mão livre no queixo da bruxa em forma de concha e levou o copo à sua boca, exatamente como fazia com seus filhos quando eles ainda eram pequenos, de modo a evitar que se molhassem. Ela bebeu todo o conteúdo do copo de uma só vez.


- Obrigada – disse, quando desviou o rosto para que o copo não mais bloqueasse a sua boca. – Agora, se não se importa, poderia soltar meu cabelo? Perlla gosta deles presos, mas eu acho que fico ainda mais infantil do que já pareço com eles assim.


- Quem é essa tal Perlla? – Amy indagou, incapaz de resistir.


- Uma amiga. Em meus dezenove anos ela sempre esteve presente.


- Hum – fez Amy em resposta, sem encontrar nada melhor para dizer. Então soltou os cabelos da bruxa. – Pronto – murmurou antes de encher outro copo com água e deixar a cozinha.


- Até logo – ouviu a voz ecoar, abafada.


Balançou a cabeça a fim de afastar os pensamentos que começavam a se instalar em sua mente.


Voltou à sala e acomodou-se num pufe que estava disposto próximo a poltrona em que Harry descansava. Tomou um gole de água e relaxou, esperando que Hermione não demorasse a chegar.


---


Levou a chave à fechadura da porta e girou-a, ao que a porta se abriu com um estalido abafado. Após fechar a porta, depositou as chaves e o celular sobre a mesa, tirou o sobretudo e jogou-o sobre o encosto do sofá, depois tirou as botas e, com elas seguras em uma das mãos, subiu as escadas na ponta dos pés.


Encaminhou-se para o quarto e guardou-as na sapataria. Despiu-se e colocou o macacão dentro de um cesto para roupas sujas. Ligou as torneiras da banheira e, enquanto ela enchia, prendeu os cabelos num coque no alto da cabeça.


Entrou na água morna sentindo o corpo relaxar.


Relaxar. Era disso que precisava. Não só pela tensão dos dias que precederam aquela longa noite, mas também para preparar-se para o que quer que venha adiante.


Nem por um segundo conseguiu desligar-se do que estava acontecendo em Leeds, mas sabia que Amy conseguira manter as coisas em ordem e que todos àquela hora estavam descansando. Nem mesmo nos poucos instantes que passara com Hagrid conseguira esquecer ambas as missões que tinha. No fundo, achava que Alecia tinha aceitado tudo muito fácil. Mas com Pansy Parkinson presa, haveria chances de ela conseguir reverter o mandado que fora feito para que uma delas matasse Harry Potter? Ela esperava que sim.


Deixou o banheiro apenas quarenta minutos depois, enrolada numa toalha. Escolheu rapidamente uma roupa e pôs-se a vestir-se. Vestiu uma camisa de seda sem mangas de gola rulê rosa chá, uma calça jeans justa e uma bota cáqui de cano alto – até abaixo do joelho –, por cima da calça. Amarrou o laço que fazia parte da gola da camisa e prendeu os cabelos – ainda lisos – num rabo-de-cavalo no alto da cabeça, deixando a franja cair sobre os olhos.


Estava pronta. Antes de sair do quarto, guardou os óculos dentro da caixinha vermelha e a colocou dentro do armário. Lembrou-se então de pegar um sobretudo mais escuro e optou por um cáqui. Desceu as escadas apressada, pegou as chaves e o celular e saiu, aparatando próxima a um beco escuro.


Numa fração de segundo, estava no terreno baldio do final da Boston Avenue, em Leeds. Pulou o muro e apressou-se em alcançar a casa; com o dia amanhecendo, não podia dar-se o luxo de ser pega por algum vizinho pulando muros, certo?


Trovejou e ela olhou para o céu. Não tardaria a cair o aguaceiro que estava sendo prometido. Atravessou os portões, cuidando de fechá-los bem, e subiu as escadas, apressada. No instante seguinte, já estava na sala quente e aconchegante da casa dos Boyle.


A julgar pelo silêncio, todos ainda dormiam. Foi cuidadosa em seu caminhar, uma vez que o salto da bota poderia fazer barulho quando em contato com o chão revestido de madeira. Seus olhos percorreram todo o aposento.


Naquele exato momento, Amy retornava à sala com uma caneca fumegante em mãos.


- Bem-vinda de volta – sorriu.


- Tudo correu bem, presumo – Hermione fez, em voz baixa, enquanto tirava o sobretudo.


- É o que parece. – Amy assentiu. – Hum, Herms... será que nós, hum... poderíamos conversar um instante?


A morena franziu o cenho e tentou entender a amiga, mas ela já tratara de bloquear a mente.


- Tudo bem – assentiu.


Amy então passou à frente de Hermione, que a seguiu rumo à sala de estar.


- Aconteceu alguma coisa? – Hermione indagou, preocupada.


- Ela falou comigo – Amy respondeu e a outra entendeu de imediato. Em seguida, pôde sentir Amy desobstruindo a mente e conseguiu ver o que se passara enquanto estivera fora. – Hermione, eu sei que pode parecer estranho, mas eu não consigo acreditar que ela seja culpada de alguma coisa. Qual a possibilidade de...


- Amy, não é hora para criarmos teorias. Eu ainda não pude vê-la e não vou fazê-lo por enquanto. Terei de fazer, é verdade, para evitar que Ashley tenha que falar diretamente com ela e acabe ouvindo coisas que não devem ser ditas a um trouxa, mas... Vou esperar que todos já estejam cientes do que está ocorrendo de fato.


- Então há mais coisa do que se imagina.


- Sim, muito mais. E eu temo que essas complicações possam ser injustas com quem não merece.


Silêncio.


- Herms, há algo que não entendo.


- O quê?


- Bem, o fato de que a poucos metros de distância de nós está Pansy Parkinson, presa a uma cadeira sem poder se mexer, e, no entanto, não há nenhum sinal de rebeldia no estranhíssimo comportamento dela. Além disso, ela diz se chamar Priscilla Paltrow quando todos nós sabemos quem ela é na verdade. – Amy enumerou. – Mas nem de longe isso é o pior.


- Até agora você só enrolou, Amy...


- Ela fala muito da tal Perlla Panettiere, Herms. Diz conhecê-la e contou-me que são amigas, no entanto, não disse nada além disso. – Contou. – Não acho que possa ficar mais estranho do que isso.


- Ham – Hermione riu. – Vai ficar muito pior, acredite.


Mais uma vez o silêncio envolveu as duas. Amy bebeu um longo gole do cappuccino que tinha na caneca.


- O que você achou que eu queria falar? – indagou ao ler os pensamentos de Hermione e ver que ela ainda sorria.


- Achei que talvez fosse falar a respeito de Harry.


- Mais tarde, talvez – Amy descartou. – E eu pensei que Tiffany odiasse o Christow.


- Também ficou intrigada com a cena na sala? – Hermione riu. – Bem-vinda ao clube! – brincou. – Quem dormiu primeiro?


- Ela – contou. – Ele estava bastante entretido com um livro qualquer quando percebeu que ela caíra no sono e dormia desajeitada. Então ele ajeitou-a e deitou-a numa almofada. Não demorou e ele caiu no sono exatamente daquele jeito que você viu. Vai acordar com o punho doendo, tenho certeza. Enfim! Ela parece estar num sono inquieto. Mexeu-se um bocado, e foi tanto que acabou recostada no peito dele – ela riu e balançou a cabeça negativamente. – Por que ela não gosta dele?


- Ela desconfiava dele, e ficou pior quando ela descobriu que ele se envolvera com Pansy Parkinson. Mas a essa altura ela já tinha que conviver com ele por conta dos filhos dela, que gostam dele, e da irmã, que é amiga da irmã dele – a morena explicou. – Mas parece que as coisas estão mudando.


- Você que pensa. Eles não trocam uma palavra, ele não olha para ela e ela olha para ele atravessado. Pode ser que a relação deles esteja evoluindo, mas para o padrão que nós temos – e você sabe que me refiro a Draco e Gina –, eles estão bastante devagar.


Hermione assentiu.


- Ou não – acrescentou em seguida. – Eles se conhecem só há dois meses.


Amy então balançou a cabeça e deu de ombros, mais uma vez levando a caneca à boca.


---


Ela despertou, mas não abriu os olhos. Respirou fundo e levou uma das mãos aos próprios cabelos, afagando-os. Deus sabia como ela precisava daquele descanso. Fora vencida pelo cansaço, que, ela podia sentir, ainda estava presente em cada célula de seu corpo. Sentiu uma mão sobre a sua cintura; ela agora ganhara vida, afagou-a rapidamente e sumiu de vista.


- Talvez seja melhor levantar – uma voz aveludada sussurrou em seu ouvido.


Abriu então os olhos, alarmada. O ambiente estava fracamente iluminado por um abajur que estava no outro extremo da sala. Ela ergueu-se, apoiou-se num de seus cotovelos e encarou-o. Ele mantinha os olhos longe dos dela e parecia concentrado na mão esquerda, a qual movimentava repetidamente a fim de afastar a dor do punho e fazer com que o sangue circulasse melhor na região.


- Você ultrapassou seus limites, não foi? – ela deu um sorriso tímido. Herod a fitou rapidamente e puxou o livro que estava lendo antes de cair no sono, voltando sua atenção inteiramente – ou quase – para ele. – Obrigada.


- É o que eu faria por uma irmã – ele disse, ainda sem fitá-la. – Ou uma amiga.


- Ainda assim, obrigada – Tiffany repetiu. – Você abriu mão de seu conforto para proporcionar o meu e, hum, não é algo muito comum... você sabe... as pessoas pensarem no outro antes de pensar em si próprias.


- Sim, há uma pesquisa acerca disso. Segundo ela, a palavra mais dita em seus discursos é a palavra ‘eu’...


- ... Agora seu pulso está doendo e sua mão, dormente – a morena continuou, ignorando a fala dele. Ela ajeitou-se no sofá, sentando-se. – Você poderia, por favor, prestar atenção em mim?


Resignado, ele encarou-a.


- Pronto.


- Eu estou só agradecendo. Você poderia simplesmente dizer algo do tipo: “disponha, não foi nada”, e ao invés disso fica falando, falando e falando... Tagarelando sobre um monte de baboseiras que eu não estou interessada em saber – ela riu. – Eu gostaria de entender esse efeito, se posso chamar assim, que causo em você.


- Estamos empatados, então. Porque eu adoraria entender como funciona a sua mente – ele fez, sincero. Tiffany riu abertamente dessa vez, mas logo se controlou para não acordar os outros. – Estou falando sério. Ler seus pensamentos, mesmo que por um minuto, seria bastante conveniente... E interessante.


- O que quer dizer com isso? – ela indagou, séria.


- Quero dizer que as minhas reações, ou o que você chama de ‘efeito que causa sobre mim’, são conseqüência de suas ações, de sua imprevisibilidade – Herod respondeu e Tiffany ergueu uma sobrancelha. – Escute, essa não é a melhor hora para discutirmos isso.


- Isso significa que posso cobrar mais tarde?


Herod suspirou e fechou os olhos.


- Tudo bem – assentiu. – Assim que essa loucura acabar, e eu tiver dormido por pelo menos vinte e quatro horas ininterruptas e tomado um banho de, pelo menos, quarenta minutos.


- Espero que já saiba como explicar a seu pai os dois dias que vai faltar o trabalho por conta dessa promessa.


- E eu já sei.


- Hum? – Tiffany fez, surpresa, as sobrancelhas arqueadas.


- Você vai comigo – o loiro sentenciou.


Mais uma vez Tiffany teve de se controlar para não explodir em risos.


- Vai sonhando – disse, antes de cair deitada no colo dele mais uma vez.


---


- Herod e Tiffany acordaram – Amy murmurou.


- Vamos esperar pelos outros.


- Não acho que terá tempo suficiente, antes de sua prima chegar, para fazer o que pretende se esperarmos eles acordarem. Já são quase 8h, Herms.


Hermione pareceu ponderar.


- Tem razão.


Ela então se levantou, sendo seguida por Amy, e retornou à sala de visitas. Imediatamente Tiffany se levantou e ela e Herod voltaram seus olhares para as recém-chegadas.


- Bom dia – fizeram Amy e Hermione.


- Bom dia – automaticamente o ‘casal’ respondeu.


- Eu realmente espero que tenham conseguido descansar um pouco – Hermione disse. – Sei que a noite tem sido cansativa para vocês. Tem sido para todos nós.


- Sem problemas – Herod gesticulou.


- É, não se preocupe – Tiffany acrescentou.


- Vou acreditar em vocês, então – Hermione sorriu e voltou-se para Amy. – Acorde Isabella e deixe Harry comigo.


- Claro – Amy assentiu ao se afastar.


Hermione então apagou o abajur e, em seguida, caminhou até a poltrona onde Harry dormia e agachou-se à sua frente, estendendo a mão para segurar a dele.


- Harry? – chamou. – Harry, acorde!


O moreno abriu os olhos, mas fechou-os novamente e piscou repetidas vezes a fim de espantar o sono. Os olhos intensamente verdes dele estavam vermelhos.


- Já amanheceu? – ele tentou enxergar através das janelas, mas estas estavam fechadas e totalmente cobertas pelas cortinas. Hermione então assentiu. – Que horas são? – indagou e ele próprio checou o relógio. 7h58m.


- Venha. Levante, lave o rosto e vamos nos juntar aos outros – ela se pôs de pé e estendeu a mão para ele.


Ele aceitou a mão dela e se levantou, dirigindo-se rumo ao lavabo.


Hermione estendeu a mão para a mesinha de centro e fez com que tudo saísse dali e fosse parar sobre o aparador. Então conjurou um verdadeiro banquete de café-da-manhã para todos.


- Uau, estamos bem servidos – Tiffany sorriu.


- Sirvam-se. Vamos precisar nos manter bem alimentados até isso acabar – Hermione disse.


Todos se puseram a comer em silêncio. Hermione apenas observava, mais afastada e de pé, os braços cruzados sobre o peito. Harry não demorou a voltar. Ele se aproximou dela e pôs a mão em sua cintura, beijando sua testa em seguida. Ela sentiu a barba por fazer dele em sua pele e fechou os olhos, abraçando-se a si mesma e esfregando as mãos nos braços.


- Não vai comer? – ele perguntou.


- Não tenho fome – ela respondeu e ele arqueou uma sobrancelha. – Não me olhe assim. Eu já sou bastante crescidinha – a morena riu. – Mais tarde, talvez. Agora é melhor que você se alimente.


- Tudo bem – Harry assentiu e, depois de dar mais um beijo no alto da cabeça dela, se afastou.


A morena esperou que todos tivessem se fartado para fazer com que tudo sumisse e os antigos objetos retornassem à mesinha. Então se sentou à beirada de um sofá, sozinha e de frente para os outros, entrelaçou os próprios dedos e suspirou.


- Bem, é claro que nem todos aqui presentes sabem de quem se trata o bruxo assassino. E, bem, eu acredito que a missão de revelar-lhes cabe a mim. – Hermione começou. – O bruxo, que na verdade é uma bruxa, que se encontra lá na cozinha, preso, é Pansy Parkinson.


- Parkinson? – a voz de Harry trovejou.


Hermione pôde perceber Tiffany, Herod e Amy prenderem a respiração.


- Sim, é ela, Harry – a morena assentiu. – No entanto... Bem, ela é apenas uma das suspeitas.


- Como assim? Você está querendo dizer que há outras pessoas envolvidas nesses assassinatos? – Harry estava lívido.


- Sim. E não.


- Você só pode estar brincando comigo, Hermione – Harry riu sem humor algum.


- Quais os outros nomes, Mione? – Isabella foi quem perguntou.


- Além de Pansy Parkinson, temos Perlla Panettiere e Priscilla Paltrow.


- E o que você acha? – Amy indagou.


- Esse é o problema. Eu não acho nada, Amy – Hermione murmurou em resposta. – Elas são a mesma pessoa.


- O quê? – Tiffany, Herod e Amy fizeram em uníssono.


- Pansy Parkinson sofre de DPM – a morena sentenciou.


- “DP” o quê? – Herod franziu o cenho.


- DPM – Hermione repetiu. – Distúrbio de Personalidade Múltipla.

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