Estavam caminhando lado a lado em busca de uma rua mais movimentada, de modo que pudessem tomar um táxi e seguir para o real destino em Dover: East Cliff.
- Desculpe, mas eu ainda não entendi o que nós estamos fazendo – Harry disse.
Diria que não sabia nem mesmo onde estava indo, mas isso ele sabia – em parte.
- Essa não é exatamente a pergunta que quer que eu responda, embora não seja exatamente uma pergunta. – Hermione riu e acelerou o passo. – Por que não faz a pergunta que realmente quer fazer? Algo do tipo... “O que vocês estão fazendo e o que eu tenho a ver com isso?” Bem, eu te respondo: nós estamos indo de encontro ao bruxo assassino e pretendemos pegá-lo. Quanto a você, bem... Pansy Parkinson contratou alguém... – uma pausa. Hermione deu um sorriso amarelo e apontou para si mesma, depois voltou a falar: – ... para te matar. E eu ia fazê-lo, até descobrir que você era pai de Zoe. – “E de Chloe”, concluiu em pensamento.
- Whoa! Uma bela maneira de descobrir que eu dormi com o inimigo, não?
Hermione bufou e não conteve um riso.
- Não seja ridículo, Harry! Eu não vou fazer nada contra você. E tenho uma vastidão de motivos para não fazer... o que quer que seja.
Harry então lembrou das palavras ditas por Hermione àquela noite.
- O que você está tentando fazer? – ela perguntou. – Acha que vai conseguir me manipular com simples pensamentos? Eu nem sei quem você é...
De que pensamentos ela estaria falando?
- Hermione? – ele chamou, a voz rouca.
- Eram lembranças... lembranças, hum... nossas.
Surpreso, Harry parou de andar. Esquecera-se completamente dos ‘poderes’ de Hermione.
- Hum – ele pigarreou e buscou as palavras no fundo da garganta. – Você chegou a dizer que não sabia quem eu era, a perguntar o que eu sabia sobre a profecia e sobre...
- E sobre mim. – Ela concluiu. – Eu sei o que eu disse, Harry. – Disse, séria, procurando olhar para qualquer parte, menos para ele. – Eu passei todos esses anos tendo flashes de memória, lembrando quem eu era, o que eu tinha vivido... Mas só fui me lembrar quem você era realmente esta noite, quando um turbilhão de lembranças me tomou antes de nós... você sabe... – ela corou. – Não que eu não soubesse de quem você se tratava. Não! Isso seria impossível, levando em conta o que você representa para a sociedade bruxa... Eu apenas não te associava à minha vida, ao meu passado. – “Embora você sempre estivesse presente”, pensou, acrescentando à sua fala.
Parou de andar de súbito e levou a mão ao rosto dele, tocando-o apenas com os dedos, delicadamente. Seus olhos fitaram os olhos verdes esmeralda dele e ela pôde ver Chloe através deles. E aqueles olhos a fitavam de volta, translúcidos, vívidos, transparentes. Permitiu-se penetrá-los.
- Você nunca me esqueceu, não é? – deu um meio sorriso tímido.
- Nem mesmo quando fiz com que prometessem não falar a seu respeito em minha presença – ele acariciou o rosto dela como se tivesse um frágil pedaço de seda em mãos, ou um cristal que pudesse quebrar à mínima desatenção. – Enganei a mim mesmo o tempo todo.
- E Karen?
- Era um amor diferente. Era carinho, afeto... Encontramos, um no outro, proteção, uma forma de nos apoiar e afastar a carência. Era forte, era intenso. Talvez para ela mais do que... – ele interrompeu-se. – Não vou dizer que ela não significou nada para mim, porque estaria mentindo, sendo um hipócrita. Eu a amei, mas nunca te esqueci realmente – ele respondeu. – Eu nunca deixei de te amar...
E aquelas palavras ecoaram na mente de Hermione repetidas vezes. “Eu nunca deixei de te amar”, ele dissera. Sentiu-se estranha por ouvi-lo dizer claramente que a amava. O motivo? Ela não conseguir dizer o mesmo.
“Está tudo muito recente”, tentou ser otimista, principalmente por tudo o que eles já tinham vivido juntos.
Ora! Qualquer mulher daria tudo para estar em seu lugar, ouvindo aquelas palavras. Muitas se digladiariam para ter pelo menos uma noite com aquele homem, ou mesmo ser desejadas por ele, mesmo que ele não nutrisse qualquer sentimento real por nenhuma delas. E, ela tinha certeza, se outra mulher ouvisse o que estava ouvindo naquele momento, teria um ataque histérico ou, no mínimo, um ataque cardíaco – e provavelmente o agarraria ali mesmo.
E lembrou que ela não havia resistido àquela noite também, ressaltando e, repreendendo-se, quando lembrou que, no momento, estava se entregando a um estranho.
A verdade é que ela via amor nele, e na mesma intensidade que vira onze anos atrás, como se para ele aquele tempo não tivesse passado. Ela pôde ver ambos, ainda adolescentes, num fim de tarde nos vastos jardins ensolarados de Hogwarts, vivendo aquele amor adolescente e secreto, só deles... E tudo lhe pareceu tão recente quanto aquela noite.
Em si, podia sentir que havia algum sentimento sendo nutrido por ele, mas não podia chamar de amor. Atração, talvez; saudade com certeza. Mas ela sabia: ela era dele e ponto. Mais do que isso, ele era dela, e fazia questão de deixar isso bem claro.
Ainda fitando-o, conseguiu captar a aproximação de um táxi por sua visão periférica e ergueu a mão. No instante seguinte, o carro estava parado ali, próximo à calçada escura.
- Vamos – foi tudo o que disse antes de precipitar-se para a porta do carro.
Quando a porta se fechou atrás de Harry e o carro arrancou, o relógio marcava 0h59m.
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Os estalidos repentinos se tornaram ainda mais audíveis no silêncio da noite – ou madrugada, para eles isso era indiferente. Os ruídos num beco escuro que dava para uma rua deserta foram seguidos pelo guincho esganiçado – e assustado – de um gato que disparou para fora do alcance da escuridão, sua sombra sendo entrecortada pela fraca luz que vinha de uma luminária no alto de um poste que iluminava fracamente uma rua inteira.
Alcançaram a rua poucos instantes depois, ainda em total silêncio. Era possível ouvir suas respirações e a ausência de barulho estava se tornando ensurdecedora. Tiffany então procurou preencher a sua atenção com algo menos ‘constrangedor’ que o silêncio. Observou que poucas eram as casas que pareciam estar realmente habitadas, mesmo quando havia um ou dois carros ocupando suas garagens ou o meio-fio da rua em frente a elas.
As poucas que aparentavam estar habitadas tinham apenas a luz da varanda acesa ou sinais bruxuleantes de abajures e similares nos quartos ou na sala. Notou uma luz sendo acesa na cozinha de uma casa antes totalmente apagada e decidiu voltar sua atenção para o foco anterior: sair dali e direcionar-se para o endereço em questão.
Leeds não era uma cidade tão populosa quanto Londres, mas ainda assim estava entre uma das cinco mais povoadas da Inglaterra, sendo também a terceira maior do país. E, Tiffany sabia, não seria fácil encontrar a pé o endereço numa cidade de tais proporções.
- Qual o endereço? – Herod perguntou quando finalmente alcançaram uma rua mais movimentada, um ponto de táxi à vista, onde havia três deles parados por conta do movimento fraco do início de madrugada.
- Kirkstall, Boston Avenue, 8. Leeds – Tiffany respondeu automaticamente.
- Estamos a cinco minutos de lá – o loiro observou enquanto lia uma placa e depois checava o relógio de pulso.
- Como você pode saber? – o tom da morena denunciava a sua impaciência, e era quase ríspido.
- Minha avó morava numa casa na Victoria Park Avenue, onde hoje uma irmã de minha mãe vive em Kirkstall – ele explicou. – É praticamente ‘vizinha’ dos Boyle. E nós estamos em Headingley. Não é muito longe de lá.
Tiffany sentiu o alívio se instalar em seu corpo, espalhando-se por todo ele. Era bom ter Herod ali, por mais que custasse admitir; saber que a cidade era familiar ao loiro era, com toda certeza, uma dificuldade a menos.
- E onde sua avó mora agora? – indagou, mais curiosa do que gostaria.
- Kirkstall, Wyther Park Hill. – Herod respondeu enquanto um meio sorriso se crispava em seus lábios. Tiffany captou uma nota de divertimento em seu tom. – Não é muito longe da Boston Avenue também.
- Ham – a morena assentiu, também acenando em sinal de entendimento e voltou a caminhar mais à frente.
Já estavam próximos ao ponto de táxi e Tiffany estava pronta para falar com um dos taxistas quando sentiu seu braço ser pressionado e ‘puxado’, embora Herod não tivesse movido um centímetro de sua mão, agora presa ao braço da mulher. “Exercer força contrária sobre o estado de movimento dela, de modo que ela retorne ao estado de inércia”, ele pensou rapidamente, sabendo que para isso não seria necessário puxá-la, apenas segurá-la, impedir que ela avançasse mais.
- O quê? – ela olhou em volta e depois para o próprio braço.
- 1h12m – Herod anunciou.
- Você não disse que...
- Tiffany, feche os olhos e segure firme em mim – Herod interrompeu-a, categórico.
Tiffany o encarou em silêncio, depois soltou um riso nervoso.
- Você não está falando sério, não é? – fez.
- Pareço estar brincando? – ele arqueou uma sobrancelha, sério.
A morena hesitou, então se soltou do aperto que a mão dele detinha a seu braço, dando um passo na direção dele, aninhando-se em seu peito, em meio ao abraço firme dele.
Um estalido e o escuro.
Numa fração se segundo eles já estavam em outro lugar, uma espécie de terreno baldio. Tiffany olhou em volta, soltando-se de Herod, captando a própria surpresa por ter se sentido estranhamente segura no abraço dele. O loiro afastou-se rapidamente da morena, ainda cumprindo a promessa que fizera a si mesmo de não exceder limites na relação com ela – promessa que incluía uma distância considerável e segura – e o tratamento similar ao que lhe fosse reservado.
Ele caminhou a passos apressados em direção a um pequeno grupo de árvores e Tiffany logo o seguiu. Ao atravessar as árvores, chegaram a um lugar que mais parecia um estacionamento de carros antigos do que um terreno onde moraria alguém. Havia um barraco em forma de quadrado mais para longe e três caminhonetes dispostas de um lado junto a uma lancha e do outro uma van. Percebeu também outras três vans mais afastadas e perguntou-se o que diabos era aquele lugar.
- Não faça barulho, os cães podem acordar – Herod sibilou de forma quase inaudível, agora ele mesmo se precavendo.
- Que lugar é esse? – a mulher indagou.
- Costumava ser uma espécie de albergue para hospedar mochileiros que vinham de outros países, principalmente os da América do Sul – explicou. – Parece que a casa foi comprada por um colecionador de modelos antigos – ele apontou os inúmeros carros espalhados pelo terreno. – Hoje também há algo como uma oficina no terreno. Provavelmente o dono alugou, não sei. – Herod deu de ombros e pegou-a pela cintura, erguendo-a e colocando-a sentada sobre uma mureta. Tiffany abriu a boca para reclamar, mas ele continuou falando. – Eu realmente espero que ele derrube este monte de lixo e construa algo melhor. Ah, e que faça uma boa limpa do terreno baldio ali atrás. Talvez dê uma valorizada na área se ele o aproveitar.
Tiffany olhava apreensivamente para trás, tentando enxergar o chão do outro lado do muro. Herod riu e pulou, ficando de pé do outro lado. Só então a puxou pela cintura novamente e colocou-a de pé.
- Chegamos à Boston Avenue – ele anunciou. – E, segundo meus cálculos, a casa deve ser esta primeira... – caminhou até um portão de ferro e viu o número ‘oito’ gravado próximo à caixa de correspondências. – Aqui.
Na mesma rua havia apenas mais sete casas, todas de uma arquitetura semelhante, todas muito imponentes para simples casas de subúrbio, onde comumente as casas eram idênticas e tinham uma distância padrão umas das outras ou faziam parte de um complexo, um conjunto comprido de ‘apartamentos’ unidos como um enorme pavilhão de armazéns para o que era desembarcado nas docas.
A primeira casa, a que Herod indicara, era bastante rústica, mas com um toque de modernismo incomum que, Tiffany imaginava, provavelmente não se restringia ao lado externo.
Naquele momento, Herod sacou a varinha.
- Não! – ela o interrompeu, baixando a mão dele. – Faremos do modo convencional.
O loiro encarou-a confuso por um instante, mas suspirou e assentiu, enquanto guardava novamente a varinha. Tiffany estendeu a mão para tocar o interfone, sabendo exatamente o que teria que fazer dali para frente. Finalmente apertou o botão do interfone e aguardou.
- Alô? – uma voz atendeu após um longo instante.
- Bom dia, Sr. Boyle. Desculpe o horário da visita, mas tenho um assunto urgente a tratar com o senhor e sua esposa – Tiffany se pronunciou.
- Quem é? – a voz pareceu desconfiada.
- Me chamo Tiffany Haase, sou funcionária do Ministério da Magia, trabalho no Escritório Internacional de Direito da Magia – informou. – Sr. Boyle, sei que as circunstâncias não permitem que o senhor receba alguém que não conhece, mas eu estou aqui pela própria segurança sua e de sua família.
Silêncio.
- Está bem. Aguarde um instante, eu estou saindo – e um ruído fez com que a ‘ligação’ se desse por encerrada.
No instante seguinte, um homem magro, alto e esbelto, o cabelo, antes negro, agora levemente salpicado por fios brancos surgiu na porta, depois descendo apressado os poucos degraus que elevavam a casa a um nível mais alto.
O nariz reto do homem e a barba impecavelmente feita traduziam a figura séria que ele era. Estava usando um roupão de algodão grosso por sobre o pijama comprido, os pés cobertos por uma sandália confortável e pela própria barra da calça do pijama que ele usava.
Tiffany sentiu-se culpada por tirá-lo da cama àquela hora, mas fora necessário. “Motivos de força maior”, acrescentou em pensamento.
- Bom dia – ele se aproximou, inseguro. Um par de óculos emoldurava seus olhos castanhos claros, a cor perceptível mesmo no escuro.
- Bom dia mais uma vez, Sr. Boyle. Este é Herod Christow, um amigo – ela apresentou. – O senhor poderia nos receber? Se for incômodo, eu posso adiantar o assunto aqui fora mesmo e...
- Não, eu conheço você. Vocês dois – ele interrompeu-a. – Venham, entrem. – E o homem abriu o portão de ferro, deixando que o ‘casal’ entrasse.
Eles acompanharam o Sr. Boyle – que Tiffany sabia se chamar David Boyle – até a sala da aconchegante casa, e Tiffany percebeu que não errara em suas suposições. Por mais rústico que fosse o ambiente, havia traços marcantes e elementos que tornavam o lugar moderno, diferente.
- Aceitam algo?
- Não, obrigado – Tiffany adiantou-se em responder.
- Viemos tratar de um assunto bastante delicado, Sr. Boyle – Herod continuou. – Seria bom que se sentasse e... escutasse com atenção, sem nos interromper.
- Aconteceu algo...?
- Vai acontecer se vocês continuarem aqui – Tiffany foi bem direta. – Vocês estão na lista das próximas vítimas do bruxo assassino. Esta noite estão programados três ataques. São os Fincher em Fulham, os Jenkins em Dover e os Boyle, no caso vocês, em Leeds – uma pausa. – Nós viemos evacuar a casa para evitar a perda de mais alguém. Há mais quatro de nós, dois em cada uma das outras localidades, para que também não seja possível o bruxo agir.
- E para onde nós iremos, então? – David Boyle indagou.
- Sua família é toda bruxa, certo? – Tiffany perguntou.
- Sim. Minha esposa é nascida trouxa, mas somos todos bruxos – o homem confirmou.
- Então vão para o Beco Diagonal, em Londres. Hospedem-se no Caldeirão Furado e aguardem nosso sinal lá. Muito provavelmente os Jenkins e os Fincher deverão chegar a qualquer momento, antes ou depois de vocês, mas fiquem lá. – Repetiu. – O senhor deve saber como pegar o Nôitebus, não? – Herod fez.
- Claro.
- Ótimo! Vocês têm quinze minutos para deixarem a casa. Levem apenas o necessário para uma noite e, talvez, um dia – Tiffany continuou.
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- Nós garantiremos que esse bruxo não vá mais ameaçar ninguém, Sra. Fincher. Esta noite nós o pegaremos e a senhora e sua família estarão a salvo novamente – Amy assegurou.
- Sim, Sra. Fincher. A senhora pode ir tranqüila. – Isabella sorriu, encorajadora.
- Ela sabe disso – foi o Sr. Fincher quem respondeu, abraçado à mulher. – Vá, querida, acorde as crianças.
E Maureen Fincher retirou-se, pedindo licença.
- Ela só está com medo – Benjamin Fincher murmurou.
“Eu também estaria se tivesse um maníaco querendo tirar a minha vida e a de minha família”, Isabella pensou, inevitavelmente. Suas família – e isso incluía suas filhas, seu marido e sua mãe – era o bem mais precioso que tinha.
- Vocês estarão seguros no Caldeirão Furado, Sr. Fincher – Amy repetiu. “Eu só temo pelos filhos deles”, pensou, sabendo que o homem era neto de trouxas e sua mulher era trouxa, o que tornava as coisas seguras para eles, mas péssimas para os filhos do casal.
Naquele instante, a Sra. Fincher voltou à sala com os filhos. Dois adolescentes, sendo a menina pouco mais de um ano mais velha que o rapaz; vinte (recém-completos) e dezoito anos, respectivamente.
- Olá – a menina cumprimentou, ainda bocejando.
- Olá, garotos – Amy ensaiou um sorriso torto.
- Vamos? – a Sra. Fincher fez.
- Vão de carro, é mais seguro para vocês, que estão mais perto.
- O que está acontecendo? – o filho do casal indagou.
- Seus pais lhe explicarão no caminho – Amy disse, lançando olhares significativos aos pais dos garotos.
- Vai ficar tudo bem, não se preocupem – Isabella acompanhou-os até a porta.
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Eles deixaram a casa. David Boyle e a esposa saíram carregando dois dos seus filhos, ainda adormecidos, cada um levando um. Um menino e uma menina. O outro filho do casal os acompanhou levando sua mochila nas costas. Os meninos eram mais velhos e gêmeos, tinham seis anos; a menina tinha dois.
- Obrigada, eu... nem sei como agradecer a preocupação de vocês – uma mulher morena de olhos escuros e intensos sorriu calorosamente.
Paige Boyle era uma mulher muito bonita, mesmo em plena madrugada e de pijamas.
- Tenho certeza que fariam o mesmo se pudessem. Agora vão e tratem de ficar seguros, é só o que peço em troca – Tiffany sorriu enquanto a Sra. Boyle voltava para o interior do ônibus roxo berrante intitulado Nôitebus Andante.
Acenou e esperou que o ônibus desaparecesse antes de voltar para a casa do casal, agora vazia. Herod estava lá, as mãos enfiadas nos bolsos da calça, parado defronte a um aparador, olhando, curioso, os porta-retratos dispostos sobre a superfície de vidro.
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Os Jenkins eram o típico casal recém-casado. Viviam numa senhora casa; dois quartos, sala com lareira, uma cozinha maravilhosa – e grande. Como se não bastasse, a casa tinha vista para o mar. Aparentemente, os planos de ter filhos não eram para logo, embora as muitas fotos que Emily Jenkins tinha com a sobrinha de, no máximo, quatro anos tivessem forte presença em seu mural de fotos. O instinto maternal e gosto por crianças estavam bastante explícitos.
Mas Hermione pudera observar que a vontade de ter uma vida estável estava em primeiro lugar na lista de prioridades do casal, para que então pudessem ter filhos e lhes dar as melhores condições possíveis de vida.
Sorriu ao lembrar que também tinha o mesmo desejo quando adolescente. No entanto, nem pudera começar a pôr seus planos em prática, visto que se descobrira grávida oito dias após a sua formatura em Hogwarts.
Todos os antigos planos foram esquecidos desde então. Ela não se casara, sua filha crescera sem saber quem era o pai – e nem ela mesma sabia quem era! Agora, por ironia do destino, estava diante do homem que tanto procurara – e esperara – durante aqueles onze anos. E pensar que só o encontrara aquela noite para... Ela engoliu em seco e afastou tal pensamento.
Havia muita coisa para ser resolvida.
Sentou-se no sofá, de frente para o moreno, e, em silêncio, preparou-se para aguardar.
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As regras eram expressas, e valiam para todos. Um feitiço anti-aparatação deveria ser instalado ao redor da casa e as luzes deveriam estar completamente apagadas a partir do momento em que a residência fosse evacuada.
Eles estavam no escuro total, suas sombras entrecortadas pela luz da lua cheia que entrava pelas janelas largas da casa. Mal podiam enxergar um ao outro, que dirá as feições do rosto. Discutiram por alguns instantes – só para variar. Eles nunca haviam passado tanto tempo juntos, afinal! Não era surpresa que agora estivessem em silêncio e, embora dividissem o mesmo sofá, não se olhavam.
A respiração curta e rápida de Tiffany ainda evidenciava a sua irritação por conta da última discussão, mas estava voltando à constância pouco a pouco.
- Já passam das 2h – Herod murmurou.
- Nós temos que esperar o sinal, Christow – Tiffany rebateu de prontidão sem mover um músculo sequer. – Mesmo que ela não tenha vindo para cá, os outros deverão avisar quando ela aparecer.
Herod soltou o ar, despreocupado, e olhou para a outra extremidade do sofá, onde Tiffany estava
abraçada às pernas. Ele estava sentado no braço do estofado, os olhos fixos num ponto qualquer do chão.
- Escute, Tiffany... – ele começou. – Desculpa por àquela hora, eu só... estava curioso.
Tiffany riu.
- Curioso? – fez, virando-se para encará-lo, mesmo sabendo que era uma tentativa vã no escuro.
- É, você pareceu desconfortável quando eu disse que as fotografias dos filhos dos Boyle me lembravam Francine e Josh.
- Herod, eu não...
- Não precisa falar se não quiser – ele interrompeu-a.
Tiffany lembrou-se então de como as crianças gostavam dele, de como ele gostava das crianças... De como ela própria sentia que eles estavam seguros com Herod – e ela própria incluía-se no ‘eles’. Mesmo com as constantes brigas, discussões e tudo o mais, infantilidades à parte, Herod viera se mostrando um bom amigo nos últimos dias.
Suspirou. Não havia por que não falar.
- Essa história toda tem mexido muito comigo. Nós estamos salvando famílias que correm riscos frente à ameaça que se tornou Perlla Panettiere nos últimos tempos e eu deixei de pensar nas crianças para não sofrer à distância. – Ela murmurou, os olhos baixos. – Eu nunca desejei tanto ser mãe biológica deles, nunca desejei tanto que fossem sangue do meu sangue, como para mim eles são desde o dia em que entraram na minha casa e me escolheram para ser a mãe deles. Eu jamais quis tomar o lugar da mãe deles, mas eu não suportaria perdê-los. Nem mesmo a idéia eu suporto... – a voz dela morreu e ela ergueu o rosto pela primeira vez. – Toda vez que sou obrigada a deixá-los, fico com o coração apertado, quase saindo pela boca. Tenho medo de voltar e não tê-los me esperando.
Herod esperou que ela continuasse.
- Eles não têm ligação direta com o mundo trouxa, mas nunca se sabe o dia de amanhã. Pansy Parkinson não economiza idéias nem propostas dentro do Ministério e Perlla Panettiere não poupa ninguém... Me pergunto até que ponto a loucura de ambas iria para... – ela parou de falar. – Você gosta deles, não é?
- Eles se tornaram, assim como você, uma fonte de inspiração para eu procurar um sentido para viver. Pensei que já tivesse dito isso a você – ele ensaiou um sorriso. – Gostei deles de graça, desde o primeiro contato. E saber que eles eram filhos de uma nascida trouxa me fez voltar contra Pansy e nem sei o que eu faria caso ela conseguisse aprovar suas idéias. Eu provavelmente entraria naquele Ministério e teria que ser preso ou dado como louco para que alguém pudesse me parar.
- Foi preciso que isso atingisse ‘aos seus’ para você acordar...
- Não vou deixar que isso se repita, em qualquer que seja a situação. – Herod assegurou. – Tem a minha palavra.
Tiffany ouviu um estalido vindo da porta e sobressaltou-se. Ergueu uma mão e olhou para a porta.
- Shhh! – sibilou, pondo-se de pé no sofá e, esgueirando por toda a sua extensão até passar por trás de Herod, saltou de sua ponta para o chão com um ruído abafado causado pelos sapatos no tapete.
Herod imediatamente entendeu e se levantou. Seguiu a morena até o hall de entrada, posicionando-se no local previamente combinado. Ele podia ver o vulto de Tiffany defronte à porta, esperando.
Com outro estalido surdo, quase imperceptível, a porta se abriu e um indivíduo encapuzado surgiu. A claridade vinda de fora impedia que eles pudessem ter qualquer visão exata de seu rosto – e conseqüentemente saber de quem se tratava – mesmo quando o capuz não o encobria por completo.
Rápido, Herod levou a mão ao interruptor e as luzes se acenderam, pegando o bruxo de surpresa.
- Fim de linha para você, Perlla Panettiere – Tiffany fez, um sorriso triunfante brincando em seus lábios.