- Tudo? – Hermione repetiu após um longo momento de silêncio.
- É, Hermione – Amy assentiu enquanto extravasava seu nervosismo. Sua respiração ficou curta e rápida, as batidas do coração inconstantes. – Tudo!
Hermione pôde sentir a apreensão e angústia, antes contidas, agora irradiarem da amiga e achou melhor esperar que ela (re)assumisse o autocontrole.
- Desculpe, Herms – Amy respirou fundo e fechou os olhos, concentrando-se. – Olha, não acho que essa seja a melhor hora ou o melhor lugar para falar sobre isso.
Ela lançou um rápido olhar às crianças e Hermione entendeu.
- Sim, é claro. – Foi tudo o que a outra disse enquanto projetava o corpo para longe da mesa ao ver o garçom se aproximar com a refeição e as crianças ocuparem as cadeiras vagas ao lado de suas respectivas mães.
O celular de Hermione tocou.
- Desculpe, eu... Eu tenho que atender. – Ela disse.
- Fique à vontade – Amy incentivou e ela se levantou, caminhando rumo ao toilet do estabelecimento.
- Alô?
- Hermione? – a voz lhe pareceu ansiosa. – Tiffany.
- Sim, eu sei. E então, alguma novidade?
- Nada. – Uma pausa. – Estamos buscando os locais mais prováveis, mas nem sinal...
- Estamos? – Hermione repetiu.
- É – Tiffany assentiu, aparentemente sem jeito. – Eu estou contando com a ajuda de um conhecido.
- Não deixe Elizabeth Newbie saber disso – o tom de Hermione era sério, mas havia uma pitada de humor em seu discurso.
- Não se preocupe quanto a isso. Ele sabe somente o básico.
- E quem é ele?
- Herod Christow.
- Whoa! Você é boa, garota! – Hermione disse, satisfeita.
- Posso até ser, mas nós ainda não encontramos...
Hermione então vasculhou os bolsos da calça e tirou de um deles um pedaço ínfimo de papel.
- Kensington, High Street, 30 – repetiu as palavras em voz alta, reconhecendo a caligrafia de Karen Priestly. – Esse endereço decerto nos levará a algo.
- Tem certeza? – Tiffany fez, hesitante. – Não há registro algum que vincule o endereço à pessoa.
- É, eu sei. Também tenho minhas dúvidas, mas não custa tentar.
Hermione ouviu um barulho abafado vindo do outro lado da linha e supôs que Tiffany estava se utilizando de tecnologia trouxa.
- O endereço está em nome de Perlla Panettiere. – Tiffany disse. – Uma italiana?
- É o que parece. – Hermione assentiu. – Ou o mais próximo disso – acrescentou. – Siga para lá, te encontro no mesmo endereço em seis horas.
- Seis horas? – Tiffany arfou.
- Digamos que eu tenho uns assuntos a resolver antes de te encontrar. Tanto pessoais quanto profissionais. Enquanto isso, prossiga com a busca.
- Tudo bem – e a linha ficou muda.
“Perlla Panettiere?”, franziu o cenho. Ela estaria errada em suas suposições?
Voltou para a mesa. Amy falava ao celular e apenas sorriu para ela quando a viu. Acomodou-se e serviu-se enquanto esperava a outra desligar o telefone.
- Eu não sei, Bel – Amy disse. – É, talvez eu esteja de volta antes do anoitecer... Claro, claro. Mande um beijo para as garotas. Tchau, querida. – E ela desligou. – Isabella.
- Isabella Bonstrong? – Hermione indagou. – Bebel?
- Ela mesma – Amy sorriu. – Agora é ‘Bel’ Wood.
- Não sei quem troca mais de nome, se você ou ela.
- Ambas estamos empatadas.
As duas riram.
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Ele chegou em casa e fechou a porta atrás de si. Jogou as chaves do carro de qualquer jeito sobre a mesa e estava pronto para subir as escadas quando viu um filhote de cachorro surgir da cozinha correndo ao seu encontro.
- Volte aqui, Embry! – a voz de Zoe ecoou e logo a menininha apareceu no corredor.
Harry parou no terceiro degrau da escada, estudando a cena e perguntando-se de quem era aquele filhote que atendia pelo nome de Embry – ou melhor, não atendia, mas era chamado assim.
Zoe logo alcançou o pequenino golden retriever e o pegou no colo.
- Olá, papai – ela sorriu, subindo os três degraus para ficar ao lado do pai. – Este é Embry. – Mostrou, contente por ter o cachorrinho em seus braços. – Ele ainda não sabe que esse é o nome dele e ainda está um pouco tímido, mas eu gosto dele.
Harry não resistiu e riu.
- De quem ele é? – indagou esticando o pescoço para ver se havia mais alguém na cozinha.
- Foi seu pai quem chegou aí, Zoe? – uma voz feminina veio da cozinha.
- Sim, tia Hall – Zoe respondeu. – E Embry é meu. Eu ganhei de presente.
- Está se sentindo melhor, Harry?
“Melhor?”, ele perguntou-se. Estava sentindo-se um tremendo desiludido. Não havia uma resposta para dar à loira, então ele optou pelo silêncio e apenas assentiu com um breve gesto.
- Ah, que bom! – Hallie sorriu, parecendo aliviada. – Zoe já almoçou e já tomou banho. Eu e Betty
cuidamos dela – disse com simplicidade. – Bem, agora eu tenho que voltar ao trabalho. Já estou um pouco atrasada – ela fez uma careta e sorriu novamente.
- Obrigada, Hall – Harry agradeceu.
- Não foi nada, Harry. Sempre que precisar, é só chamar.
Harry deu um meio sorriso e assentiu.
- A propósito, essa semana eu vou querer uma tarde com ela – a loira adiantou-se.
- Você quem manda!
- Bom saber disso – ela disse, um tom maroto em sua voz. – Agora eu tenho que ir mesmo. – Hallie foi até o sofá, pegou a bolsa e voltou, agachando-se ao lado de Zoe. – Tchau, princesa – beijou a bochecha da sobrinha e afagou a cabecinha de Embry.
Hallie não se demorou por muito mais tempo. Quando a porta se fechou às costas dela, Harry se agachou ao lado da filha e tomou Embry de suas mãos, brincando com ele.
- Ele gostou de você – Zoe disse quando o cãozinho lambeu o rosto do pai.
- É, parece que sim – Harry riu e se recompôs ainda com Embry no colo. – Você disse que o ganhou de presente?! Foi Hall que te deu?
- Não, não – a loirinha balançou freneticamente com a cabeça. – Foi Helena.
“Helena... Quem diabos é Helena?”, o moreno perguntou-se.
- Você sabe o sobrenome dessa Helena, Zoe? – perguntou à filha.
- O nome todo dela é Helena Jordin Gauer.
“Helena Gauer”, ele assentiu. “De novo ela”.
Estava curioso para conhecer a famosa Helena Gauer de quem Zoe tanto falava. Até Amy a conhecia! E Hallie parecia ser bastante próxima dela, também. Mas quem seria a tal mulher misteriosa?
- Você a conhece? – Zoe perguntou.
- Não, eu não a conheço. – Harry respondeu. – Mas já ouvi falar nela. Amy é amiga dela, aparentemente.
- Sério?
- Sim.
- Uau! – Zoe sorriu e seus olhos cintilaram. – Papai, você já foi à França?
- Já, mas só a trabalho.
- Helena está na França com Chloe e Daisy. Ela tem uma porção de familiares que moram lá.
E Zoe continuou falando por mais meia hora, enquanto os assuntos variavam rapidamente em meio a brincadeiras com Embry e o pai.
- Você vai sair? – ela perguntou a Harry quando ele se pôs de pé e beijou a testa dela.
- Sim. Eu tenho que ir à casa do ministro – ele assentiu. – Promete que vai se comportar?
- Prometo – Zoe sorriu e viu o pai sair novamente, depois voltando a brincar com Embry, que rolava no chão.
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- Esses sapatos são muito feios – Gwen murmurou desgostosa.
- Como se alguém se importasse – Sean riu. – Você não vai sair com eles, Gwen. Só vai jogar.
Chloe também riu, enquanto tirava os sapatos que usava para colocar os que a funcionária do boliche lhes entregara logo que chegaram.
- Elas não vêm? – Gwen perguntou, referindo-se a Amy e Hermione.
- Elas estão conversando – Chloe respondeu e seu olhar encontrou o da mãe. – Já estão vindo – completou. – Uma pena que vocês vão embora daqui a pouco. Mais tarde nós vamos comer fondue, eu e mamãe – ela puxou assunto e caminhou com os gêmeos para a pista.
Hermione esperou que Chloe estivesse concentrada em algo para continuar a conversa com Amy.
- Eu nem sei por onde começar, Herms. É difícil buscar uma história como essa num passado tão distante. – Amy murmurou. – É uma profecia muito antiga, já faz trinta anos desde o seu registro. Ninguém sabe quem foi o responsável por ela, ninguém sabe que fim ela levou.
- Você quer dizer que ela foi tirada do Hall das Profecias? – Hermione fez. – É isso?
Amy hesitou, mas assentiu.
- Foi tirada de lá pouco mais de um ano após ser feita. Seu registro foi apagado e ninguém soube da existência dessa profecia até você achá-la.
- Eu? – Hermione parecia realmente surpresa.
- Sim, Herms. Você a achou durante uma breve estadia que nós tivemos na casa de um amigo. A mãe dele era uma Inominável quando viva e membro da Ordem da Fênix, da qual você também era membro, assim como eu e Isabella e uma grande parte de nossos amigos. Foi ela quem retirou a profecia do Departamento de Mistérios e apagou o registro dela.
- Eu... Não entendo...
- Não entende por que ela faria isso, certo? – Amy completou. – Ela o fez porque a profecia envolvia ao filho dela, esse mesmo amigo cuja casa nós estávamos hospedadas. E você a achou, dezessete anos depois, escondida numa caixa de madeira junto aos dizeres da profecia. Você leu e levou consigo esses dizeres.
- E o que a profecia dizia?
Amy deu um meio sorriso e estendeu as mãos para Hermione, de modo que ela pudesse captar os dizeres da profecia sem que ela precisasse citá-los.
Após um instante em silêncio, Hermione levantou os olhos para Amy, assustada. Era tudo muito surreal...
- Você entende o porquê de seus dons? – Hermione fez a menção de falar, mas Amy ergueu a mão, interrompendo-a. – Não, você é uma Mangid simplesmente porque deveria ser uma. Mas o seu dom de prever coisas, de ver coisas... Isso foi predestinado a você. – Explicou. – Se você não o tivesse, não haveria como você entender essa profecia, não haveria como você relembrar o seu passado – continuou. – Se hoje você sabe grande parte do que você foi, do que você é e de tudo o que você passou isso se deve simplesmente ao fato de essa profecia existir. Tudo está ligado, Hermione. Nada do que aconteceu a você foi por acaso.
Hermione então fechou os olhos e entregou-se a uma escuridão sua, somente sua. Amy, respeitando a amiga, calou-se. E a lembrança veio, de súbito.
- O destino de cada um de vocês tomará um rumo. Os dois se separarão e você o deixará quando os perigos que o perseguem terminarem. Você é a única que pode garantir a sua sobrevivência. E depois que se separarem, quando se reencontrarem, desta vez será para sempre...
- Sim, esta é a última parte. E, devo dizer, está muito próxima de acontecer.
- Pode ser que eu não tenha entendido direito, mas... Estamos falando do pai de Chloe, certo? – Amy engoliu em seco e assentiu. – Amy, você sabe quem é...
- Sim, eu sei. Assim como seus pais, como Liah e, acredito eu, como Karen Priestly sabia antes de morrer. Infelizmente nenhum de nós pode falar a respeito disso. Nós ficamos impedidos por conta da
profecia.
- O que quer dizer...
- Que você vai ter que descobrir sozinha? – Amy deu um sorriso amarelo, aparentemente desgostosa. – Sim.
- Mas você disse que isso já está para acontecer...
- Sim, está. Acho que gastei a minha única ‘profecia’ como Mangid com você – ela riu. – Mas eu só quero que você saiba, por enquanto, que seu dom tem um motivo para existir. Se fosse comigo ou com qualquer outra pessoa, certamente estaríamos desnorteados, mesmo onze anos após cumprimento da segunda parte da profecia. Acredite-me, se você ainda não encontrou o pai de Chloe, é sinal de que a profecia está preparando este reencontro.
Amy continuou fitando Hermione por um longo instante sem perceber nenhum sinal de reação. Nos pensamentos da amiga, só podia ver uma nuvem espessa e cinza. Os olhos dela perderam o foco e ela parecia vidrada num vazio, num infinito particular que era só dela.
- Herms? – chamou.
- Sim? – Hermione virou levemente o rosto para fitá-la.
- O que há com você? Faz apenas alguns dias desde que nos reencontramos e eu tenho sentido você tão distante... Seus pensamentos estão vazios, obscuros.
- Ah, Amy! É tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo...
- Sabe que pode confiar em mim – Amy assegurou.
Hermione estudou a amiga por alguns segundos e então sorriu.
- Sim, eu sei. – “Quem sabe ela não poderia ajudar?”
O celular tocou novamente, pegando Hermione de surpresa.
- Atende, pode ser importante.
Hermione sorriu e pegou o celular.
- Sim, Tiffany?
- Encontramos três endereços e uma lista de nomes.
- Que tipo de nomes?
- São todos de nascidos trouxas. O curioso é que o seu foi pulado...
- Ninguém sabe que eu estou de volta, pelo menos não como Hermione Granger.
- Elizabeth Newbie pensa em tudo – Tiffany suspirou. – Bem, a casa está vazia. Não há sinal de que seja visitada com freqüência. Não há muito que possamos fazer.
- É, você está certa. Mas há o que possamos fazer, mesmo que seja menos do que gostaríamos. Então, nossa opção é buscar os endereços ainda esta noite. Só não podemos arriscar que saibam que nós estamos buscando o bruxo. Muito menos que o próprio saiba.
- O que implicaria em nos separarmos, certo?
- Sim, não vejo outra maneira de obtermos sucesso se não dessa forma. Eu vou buscar ajuda. Não quero que você vá sozinha também, então mantenha Christow com você. Acha que consegue agüentar?
- Levando em conta que eu estou com ele há pouco mais de duas horas, acho que sim.
- Tente não se irritar muito.
- Ok, está tudo sob controle!
- Assim espero. – Hermione disse. – Agora, espere o meu sinal.
- Como quiser. Estarei aguardando – mais uma vez a linha ficou muda.
- Ela tem o dom de desligar o telefone quando eu menos espero – Hermione suspirou e Amy riu. – Amy, eu acho que preciso de sua ajuda.
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Ele estava ali há mais de duas horas conversando com o ministro e com a ida e vinda dos assuntos, Gérard Glenn acabou por comentar a respeito de Carson e Harry lhe contou que já havia visto o ministro com ela dois meses atrás.
- Você ao menos teve a decência de saber a respeito dela e não tentar usar isso contra mim.
- Desculpe, senhor, mas acho que não entendo...
- Parkinson tem me chantageado, Harry. E Carson se tornou o pivô dessa história sem culpa alguma.
“Então é verdade?”, Harry pensou. “Ela é mesmo amante do ministro?”
- Carson é minha filha, Harry – Glenn explicou, para a surpresa de Harry. – Ela nunca usou o meu nome por não querer me prejudicar dentro do Ministério ou mesmo aqui em casa. Cresceu sendo chamada por Carson Schneider e hoje, aos vinte e seis anos, é casada com Edward Davis e tem uma filha linda de dois anos, Brooke.
Harry conhecia Edward Davis – todos o conheciam. O homem era um dos principais atacantes da seleção irlandesa de Quadribol e jogara com Rony na última Copa.
- Ela é mais velha que Charlize, então – Harry concluiu.
- Sim – o ministro assentiu. – Charlize tem apenas vinte e dois anos. – Disse. – Carson é fruto de uma noite de bebedeira. Foi na minha despedida de solteiro, quando reencontrei uma antiga namorada, Rebecca Schneider, e... Bem, o resto você deve imaginar – ele fez uma pausa. – Eu assumi o filho mesmo após o casamento com Lillith e sempre mantive uma relação fantástica tanto com Carson quanto com Rebecca. – Contou. – Rebecca é brasileira, filha de mãe também brasileira e pai alemão. Ela é uma bruxa e tanto, além de ser uma verdadeira beldade. Veio para a Inglaterra para cursar a universidade trouxa de engenharia química. Estava cursando Oxford quando nos conhecemos.
- E o senhor nunca contou à sua esposa, certo?
- Não. Lillith não me perdoaria.
- O senhor deve contar a ela. Não pode esconder esse segredo para o resto da vida, senhor. Aposto como sempre sonhou em ter toda a sua família unida, como gostaria de poder apresentar Carson a Charlize e dizer que elas são irmãs... E tenho certeza que Charlize adoraria ter uma irmã!
- É mais complicado do que imagina, Harry.
- Complicado é o senhor se submeter às chantagens de Pansy Parkinson por conta de um erro que cometeu no passado e que, se me permite dizer, já poderia ter sido amenizado há muito. – Harry argumentou, sério. – Olha, Sr. Glenn, se tudo aconteceu exatamente como me contou, a sua parcela de culpa teria sido reduzida. Foi um deslize, aconteceu sem intenção alguma durante a sua despedida de solteiro. Pode ser que sua esposa fique chateada quando souber, mas ela vai entender cedo ou tarde. – Disse. – Agora, infelizmente eu tenho que ir. Se precisar, sabe onde me encontrar.
- Obrigado, Harry – Gérard Glenn se pôs de pé e apertou a mão de Harry por sobre a mesa e acompanhou-o em seguida até a porta da casa.
- Até amanhã, senhor.
- Até, meu rapaz – e Glenn fechou a porta assim que o moreno se afastou pelos jardins.
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Amy chegara à Londres pouco antes do anoitecer e já havia deixado as crianças em casa. Aaron não fez muitas perguntas, embora tivesse estranhado a pressa da esposa.
- Estou indo para a casa de Isabella – foi tudo o que disse ao marido antes de dar um rápido beijo em seus lábios e correr para a rua novamente.
Ela esperava que Chloe não tivesse ficado chateada com a mãe por não irem comer o fondue pelo qual a garotinha estava tão desejosa. Provavelmente Hermione teria que pagar em dobro a dívida que tinha com a filha. Sorriu enquanto caminhava apressada pela rua.
Alcançou a porta da casa num instante e tocou a campainha.
- Veio voando? – Isabella olhou rapidamente para o relógio de pulso.
- Quase – Amy riu. – Temos que conversar.
- É, você se fez entender no telefone. Entre – a primeira se afastou para que a amiga adentrasse a casa. – O que houve?
- Olívio está em casa?
- Ele deve estar chegando.
- E as meninas?
- Lá em cima – Isabella respondeu, sentando-se no braço do sofá, acompanhando Amy, que sentava na poltrona defronte a ela. – Eu não estou acompanhando ou é impressão minha?
- Acho que nós teremos que despertar nosso lado ‘membro da Ordem da Fênix’ essa noite, minha amiga. E, para isso, devemos deixar as crianças em casa com os nossos queridos e amados maridos.
- Tudo bem, mas o que está acontecendo?
- Hermione voltou, Bel – Amy anunciou.
- Como é?
- É, isso mesmo que você entendeu. Ela está de volta há cinco meses e meio – contou. – Agora vamos para a parte mais importante. Hermione passou todos esses anos estudando e pesquisando sobre a identidade do bruxo assassino e descobriu de quem se trata esta madrugada. Desde então, está contando com a ajuda de uma vizinha nossa, ‘prima’ sua e amiga dela, Tiffany Haase.
- Uau, é bem a cara de Hermione fazer esse tipo de coisa. E quanto a Tif, bem, há o lado pessoal nessa história. – Isabella disse. – E onde nós entramos nisso tudo?
- Tiffany descobriu na casa de uma italiana chamada Perlla Panettiere três prováveis endereços onde o bruxo deverá estar essa madrugada.
- Não precisa usar tanto eufemismo. Três prováveis endereços aos quais o buxo deverá atacar essa madrugada – Isabella corrigiu.
- Que seja! Eu prometi a Herms que nós a ajudaríamos também.
- E onde devemos encontrá-la?
Isabella sequer contestou, conforme Amy esperava, mesmo que ainda temesse que a amiga não quisesse entrar naquela busca. Ela suspirou aliviada e segurou as mãos de Isabella com força.
- Ela vai nos ligar em breve.
---
- Betty? – chamou assim que entrou em casa.
Embry veio correndo de dentro da cozinha e começou a brincar com a barra da calça que o moreno usava enquanto abanava o rabinho freneticamente.
- Sim, Sr. Potter? – Betty se apresentou à sala.
- Onde está Zoe?
- Dormindo, senhor. Faz pouco mais de meia hora que a levei para cima.
- Pelo visto alguém vai passar a madrugada inteira acordada – Harry comentou, rindo. – Estou indo para o meu quarto, Betty. Qualquer coisa, é só chamar.
- Sim, senhor – Betty assentiu e se retirou.
---
- Diabos! – ela fechou os olhos e pressionou a testa com as mãos, apreensiva.
Esquecera-se completamente que seu prazo estava prestes a acabar. Ainda enrolada na toalha, procurou o relógio de pulso sobre a bancada do banheiro e o encontrou rapidamente. 19h12m. Restavam a ela apenas dezesseis horas e ela estava dividida entre a busca pelo bruxo e sua missão.
Voltou ao quarto e percebeu que Chloe ainda não voltara. Por conta da promessa que fizera à filha, pediu que sua mãe providenciasse junto a Marcia o fondue que a filha tanto queria. De certa forma, foi uma maneira de distraí-la para que não ficasse chateada por terem cancelado os planos que fizeram mais cedo.
Vestiu novamente um macacão. Desta vez, um branco rente ao corpo, torneando-o. Era comprido tanto nas pernas quanto nos braços. Ignorou o uso da túnica, optando por um sobretudo grosso e também branco. Também dispensou a bota rasteira e colocou uma de salto alto e bem fino. Os cabelos foram rapidamente alisados por um feitiço e os óculos que se tornaram parte de sua identidade voltaram emoldurar seus olhos.
Já pronta, desceu as escadas e passou pela sala para despedir-se da família.
- Já vai, querida? – Jane indagou.
- Infelizmente, e estou atrasada – Hermione respondeu, verificando o relógio. 19h28m.
- O que houve, Mione? Eu ainda não consegui entender... – começou Hilary.
- Alguns imprevistos do trabalho. Então estamos numa correria, porque tenho que concluir umas coisas até amanhã antes das 11h e outras o mais breve possível, também – ela tentou explicar. – Em resumo: coisas que não podem esperar.
- E você vai sem levar nada? – Stan Granger indagou.
- Não é necessário, papai. Estou voltando para Londres. E, se tudo der certo, voltarei amanhã mesmo a Paris.
- Então vá com Deus, querida – Stan beijou a testa da filha, sorrindo em seguida.
Hermione então se despediu por alto de todos os outros, deu um beijo no rosto da mãe e foi até Chloe. Deu um terno beijo na testa da pequena e se afastou.
“Eu prometo que eu vou tirar um dia só para você quando isso tudo acabar, anjo”, pensou enquanto deixava seus olhos penetrarem os olhos verdes da filha.
“Vai dar tudo certo, mamãe”, Chloe encorajou e abraçou-a.
Hermione engoliu em seco, surpresa. Chloe fizera parecer que sabia exatamente para onde a mãe estava indo. Talvez não soubesse a respeito de seu ‘trabalho’, mas certamente sabia sobre o bruxo.
- Tchau, meu amor – ela se levantou e correu para a porta.
Não pensou duas vezes antes de aparatar. Num instante estava à porta da casa de Marcia e Carl; no outro, estava próxima a um beco escuro de Londres, mais precisamente em Chelsea.
E ali, mais adiante, novamente estava a casa que visitara menos de vinte quatro horas atrás.
Não estava vazia. Aparentemente havia alguém no andar térreo e havia um abajur aceso no segundo pavimento, exatamente o mesmo quarto que estivera com a mesma aparência bruxuleante na noite anterior. O restante da casa estava imerso em escuridão.
Sem pensar duas vezes, transformou-se em uma raposa e correu de encontro à casa com uma sensação se déjà vu assolando a sua mente. Seria estranha aquela sensação se ela não soubesse que havia realmente ocorrido exatamente daquela forma há tão poucas horas.
Num piscar de olhos, ela já estava no segundo pavimento. Descobriu ele ali, concentrado em algo, o olhar distante pelo horizonte. Ele apoiava as mãos sobre o parapeito da enorme janela, os braços flexionados, deixando os músculos definidos sob a camisa de manga comprida ainda mais à mostra. A janela ia de fora a fora na parede e proporcionava uma visão incrível do Tamisa.
Cuidadosamente, ela caminhou, ainda em forma de raposa, para o corredor, onde assumiu a forma humana novamente. Sem mais, enfiou a mão no sobretudo e puxou uma arma.
Era a primeira vez que usava uma, mas não queria correr o risco de falhar novamente. Ela apertou a arma com força antes de se aproximar do portal sem porta que dava para a sala na qual o moreno estava. Ela então baixou os olhos e concentrou-se, em seguida precipitando-se para o aposento, a arma já empunhada.
Como que num movimento de reflexo, ele virou-se para a porta no mesmo instante.
Ele a olhou admirado, mas surpreso com a súbita aparição.
- Hermione? – ele sussurrou, procurando os olhos dela e fitando-os com intensidade.
Ela sentiu sua alma ser invadida, revirada e lida numa fração de segundo. Tentou manter o contato visual, mas tudo o que viu foi uma claridade intensa passar pelos seus olhos, transformando-se rapidamente em uma imagem nítida, viva. E ela reconheceu ser uma lembrança.
- Porque eu o amo!
Ela então correu para as escadas, mas antes que pudesse atingir seu objetivo, ele a puxou com força pelo braço e a beijou, imprensando-a contra a parede.
Vacilou por um instante e viu aqueles olhos verdes novamente, eles que penetravam seus olhos, eles que vasculhavam seu interior sem pedir licença. Mais uma vez a claridade...
Os dois estavam muito próximos, os narizes quase se tocando; os olhos vidrados uns nos outros.
Ele estava sério. Aqueles olhos verdes a envolviam, aquele olhar... Enigmático, nebuloso, sempre precedia suas mais inesperadas reações. Ela particularmente não o entendia, não aquele olhar. Ele poderia estar pensando qualquer coisa, e também poderia fazer qualquer coisa com ela e ela não saberia.
Sentiu sufocar, o ar fugir de seus pulmões como um cordeiro foge do leão. Era como se estivesse afogando num mar de lembranças e o ar estivesse distante, como se nunca mais fosse ser capaz de alcançá-lo.
Já não sabia se estava acordada ou dormindo, se era real ou apenas um sonho, mas ela corria e se debatia a procura de ar... Era essa a imagem que ela tinha em sua mente, uma imagem de fuga.
E a partir de então, todas as imagens que se seguiram estavam turvas, como se estivessem sendo observadas através de uma cortina de água ou de névoa, ela não saberia dizer. Apenas não estavam nítidas, mas borradas, fora de foco...
Abriu os olhos e encarou o moreno.
E a imagem sumiu, sendo substituída lentamente por outra. Novamente se viu correndo...
Ela o viu desaparecer gradativamente, se afastando de si sem que nenhum deles se movesse, de fato.
Viu todas as suas memórias passarem em sua mente como um flash repentino, um filme comprido... Toda a sua vida estava ali, diante de seus olhos. E ela perguntou-se se estaria viva, ou quando daria seu último suspiro. Chegou a ter certeza de que a morte estava ali, eminente, batendo à sua porta, levando-a para uma escuridão sem fim.
Suas lembranças vieram e se esvaíram, e não havia nada que ela pudesse fazer para impedir... Por fim, chegou à conclusão de que não era ele quem desaparecia, mas ela.
- Cumpri com a minha missão, agora resta a você escolher seu destino. O futuro é incerto, mas estarei esperando por você.
Despertou do transe e sentiu a garganta arder, seus pulmões implorando por ar. Respirou fundo e afastou-se do moreno que estava diante de si. O que ele estava fazendo com ela, afinal? Ela lançou-lhe um olhar penetrante, ao que ele retribuiu confuso.
Ele fez a menção de se aproximar dela.
- Fique longe de mim – ela disse, a voz dura.
- Hermione – ele chamou novamente. – Hermione, eu...
Em uma questão de milésimos ela estava diante dele novamente. Potter estendeu a mão para tocá-la, ao que ela baixou-a com um movimento rápido e ergueu a arma, apontando-a diretamente para um ponto em sua garganta.
- O que você está tentando fazer? – ela perguntou. – Acha que vai conseguir me manipular com simples pensamentos? Eu nem sei quem você é...
A decepção era clara no rosto dele.
- Apenas facilite as coisas – ela continuou.
Como que invadido por uma onda de coragem, ele deu um passo adiante.
- Você não faria... – a voz dele tinha um ar cético, porém fraquejava. – ‘Que o destino volte a juntá-los quando a profecia estiver cumprida, juntá-los para todo o sempre...’ – ele relembrou a profecia. – E eu me pergunto... O que significam, de fato, as últimas palavras da profecia... Quando você está aqui com o simples objetivo de tirar a minha vida? – ele fez, em voz alta.
Hermione baixou a arma e levou uma das mãos ao ombro do homem, apertando-o com força.
- O que você sabe sobre a profecia? – ela rosnou. – O que você sabe sobre mim? Você não passa de um covarde, um homem que se submete a uma mulherzinha sem escrúpulos e deixa que ela jogue com você, manipule... Você ajudou, mesmo que indiretamente, a destruírem a minha vida, você ajudou a arruinarem todas as possibilidades de minha filha crescer perto da família dela, no país onde ela nasceu. De que adianta todo o poder que você tem dentro daquele Ministério se você não é capaz de impedir Parkinson de fazer o que ela bem quer ali dentro? Não é você o chefe dela? – ela despejou, o rosto a centímetros do dele agora.
O moreno apenas sorriu e colocou delicadamente uma mecha de cabelos da garota atrás de sua orelha, beijando-lhe a face em seguida. Um pequeno sorriso tímido se crispou nos lábios dela.
Quando a imagem desapareceu de sua mente, ela sentiu as mãos quentes dele em sua nuca e em seu queixo.
Não soube de onde veio aquela onda de desejo que a invadiu, mas não tentou resistir um segundo sequer. A única coisa que iluminava a saleta era a lua cheia, que adentrava o aposento através da enorme janela que ia de fora a fora da parede. E à meia luz, ele era tão atraente que parecia impossível resistir à tentação.
Quando deu por si, já estava beijando-o de uma maneira tão intensa que não imaginara ser possível. Sentiu seu corpo bater contra a parede e arfou, desvencilhando-se daquele beijo violento e sentindo os lábios ansiosos e rápidos dele percorrerem toda a região de seu pescoço.
Ele tornou a beijá-la, ainda de forma ardente. Estava perdida nos lábios dele, presa entre a parede e o seu corpo quente. O beijo ficava mais caloroso a cada instante e ela não se importava. Quando se afastaram, porém, ele segurou o rosto dela entre as mãos e fitou cada parte de seu rosto, guardando aqueles traços, conferindo-os, garantindo que tudo estivesse exatamente no mesmo lugar em que se lembrava.
E então, beijou-a novamente, dessa vez calma e lentamente. Apaixonadamente, ela diria. O jeito como ele a olhava, era como se só visse ela diante de si, como se ela fosse o seu objeto de desejo.
Sequer percebeu que já não estavam mais na saleta.
Ele a segurava firmemente pela cintura. A sensação era maravilhosa, um calafrio percorria seu corpo como uma corrente elétrica a cada beijo.
Quando a porta do quarto finalmente se fechou atrás de si, ela entregou os pontos e desistiu de aceitar o ditado que dizia que ‘a mente domina a matéria’. Naquele momento, fundamental era apenas obedecer ao que seus corpos pediam; e eles pediam, desejavam, ansiavam um ao outro.