Quando despertou, ainda não amanhecera. As cortinas esvoaçavam, dançando conforme o vento que entrava pela janela entreaberta. A única luz que iluminava aquele ambiente vinha de fora, além da janela. Olhou o relógio na mesinha de cabeceira. 3h45m. Suspirou e fechou os olhos, procurando forças para levantar.
Sentiu pela segunda vez em sua vida o desagradável gosto da falha. Sim, ela falhara. E admitia.
Apalpou a si própria e descobriu o celular ainda em seu bolso. Por sorte ele não havia sido descoberto por quem quer que tenha a ‘apagado’. Ergueu-se rapidamente, sentando na grande e confortável cama. Notou que seus cabelos estavam soltos, mas não mexeram em nada além disso. Ainda conservava as roupas e a túnica, e até mesmo as botas.
Olhou o ambiente à sua volta. Era branco, exceto pelos móveis em marfim e os detalhes em creme e azul marinho das cortinas, do mural e dos adereços sobre a escrivaninha.
Não sabia como, mas sentia-se à vontade naquele quarto. Não sabia se já estivera ali, mas com certeza lembrava muito o seu próprio. Na verdade, não lembrava de um só quarto seu que não tivesse aquelas cores. Talvez o de Hogwarts, mas só.
Lembrou-se então que não deveria perder tempo ali. Levantou-se de um salto e correu para a porta, desistindo no meio do caminho. Não era seguro, talvez estivessem esperando a hora em que ela sairia para interrogá-la. Tentou aparatar, mas foi em vão. Talvez a casa estivesse protegida por feitiços.
“É claro que está. Lembre-se de quem é a casa em que você está!”, pensou, batendo de leve na própria testa.
Seus olhos pousaram, por fim, na janela. Aproximou-se dela lentamente, afastando as cortinas com a mão. Olhou para baixo e viu que era uma altura considerável. Sem pensar duas vezes, subiu no parapeito e ficou agachada ali. Olhou atentamente para o espaço do lado de fora, esquadrinhando. A única ser vivo à vista era uma coruja sobre o telhado da casa ao lado.
Os olhos âmbar lhe fitavam em silêncio.
E ela só piou ao ver uma grande raposa castanha saltar para o chão e correr para longe dali.
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Chegou em casa já arrancando a túnica negra que ainda cobria seu corpo. Sabia que deveria ter voltado imediatamente para a França, de modo a não deixar ninguém preocupado pela sua ausência, mas ela queria ficar um pouco sozinha, digerir a nova situação em que se encontrava.
Ela já ia passar direto pela sala, mas algo sobre a mesa chamou sua atenção: havia um envelope sobre ela. Não se lembrava de ter deixado nada sobre a mesa. Pegou-o, cuidando para não deixar cair o vira-tempo que estava sobre ele, e tirou todo o conteúdo dele, espalhando-o sobre a mesa.
Havia um caderno fino recheado de anotações, uma série de artigos avulsos de jornais de 2002 e um belo dossiê feito no dia 27 de agosto de 2004 falando a respeito do bruxo assassino. Ela teria lido tudo aquilo de imediato, devoraria cada informação que obtivesse ali e quebraria a cabeça pela milésima vez tentando descobrir de quem se tratava o misterioso bruxo, mas havia algo mais em meio aqueles papéis todos: uma carta. E, ela reconheceu, a caligrafia pertencia à Elizabeth Newbie.
Abriu-a apressada.
Hermione,
É bem possível que esteja estranhando receber esse envelope assim, sem mediação de nenhum representante meu, mas, como deve ter percebido, trata-se de documentos antigos, pertencentes à Karen. Como sabe, antes de você, era a ela que eu mandava esses dados.
Karen passou quase três anos pesquisando a respeito desse bruxo, tentando descobrir sua identidade e, em nosso último encontro, ela estava bem próxima do fim. Lembra-se que foi por conta dela que nós iniciamos uma investigação a respeito do assassino? Pois bem. Enviei a você todos os arquivos que ela tinha há algumas semanas, mas somente esta noite consegui resgatar o restante do material.
Esse foi o último dossiê que enviei a ela. Junto com ele, seguem as últimas anotações dela, também. Você sabe que eu acredito que ela já sabia a identidade do bruxo quando faleceu e espero que você atinja o mesmo objetivo o quanto antes.
É importante avisar que também acrescentei alguns documentos secretos do Ministério da Magia, que, por mediação de Harry Potter e Kingsley Shacklebolt, também investiga a identidade do bruxo.
Agradeço pelo vira-tempo. Deixei-o sobre a mesa, como deve ter notado. Entrarei em contato em breve.
Atenciosamente,
Elizabeth Newbie
P.S.: Tiffany Haase já está de sobreaviso quanto a possibilidade de você solicitar ajuda dela para resolver o assunto que diz respeito ao bruxo. Conte com ela, se necessário.
Ela suspirou e dobrou a carta novamente. Puxou uma cadeira e sentou-se ali, examinando todos os papéis cuidadosamente, sem imaginar que aquele ‘pós-escrito’ da carta seria tão útil mais tarde.
Faltava apenas um grosso documento agora, e ela percebeu que era do Ministério da Magia Ela respirou fundo e relaxou, recostando-se na cadeira e deixando a cabeça pesar para trás. Sua mente estava quase entrando em curto-circuito por conta da quantidade de informação que recebera nos últimos dias, mas principalmente na última hora.
Ouviu o cantar dos pássaros do lado de fora. Seus olhos automaticamente pousaram no relógio que estava sobre o aparador da sala. 5h21m. O tempo parecia não passar, mas a claridade que entrava ainda fraca pelas janelas fechadas já mostrava que o dia estava finalmente raiando.
Levantou-se e tirou as botas, depois arrancou o macacão e a meia-calça. Prendeu os cabelos compridos num coque frouxo, conjurou um blusão para si e, juntando todas as peças que usara na noite anterior, seguiu na ponta dos pés para a área de serviço.
Voltou para a sala minutos depois, trazendo consigo uma caneca cheia de chocolate quente. Pegou o último documento e jogou-se no sofá, as pernas para cima e uma almofada sobre o peito. Concentrou-se na leitura dos papéis e exatamente às 6h ela já estava de pé, procurando os celulares.
Embora achasse tudo óbvio demais, já sabia a verdade sobre o bruxo. O que lhe parecia estranho era a sensação de que havia muito mais por trás daquela história. Era como se algo lhe dissesse que aquilo não terminava ali.
Já com o celular em mãos, ligou para Rhina.
- Bom dia, flor do dia – a outra atendeu.
- Não é exatamente um bom dia, Rhina – disse, metódica e peremptória. – Venha para cá imediatamente.
Ela desligou o telefone antes que Rhina pudesse dizer qualquer coisa. Não demorou mais do que um minuto para ela estar ali, os olhos azuis fitando seu rosto de forma curiosa e apreensiva.
Hermione observou o filhotinho de golden retriever que ela trazia no colo.
- Eu pensei que eu tivesse dito que eu ligaria quinta-feira – ela tomou o cãozinho para si.
- Bem, você disse que quando voltasse eu deveria trazê-lo para você, e você voltou, certo? – A outra sorriu. – É o mais fofo de todos.
- Ele é lindo – Hermione assentiu.
- Para quem você vai dar?
- Zoe. É sobrinha de uma amiga – explicou. – Ele vai estar em boas mãos, garanto. – Assegurou e sentou-se no sofá, adquirindo uma expressão séria.
- O que houve? – Rhina indagou, acompanhando-a.
- Tenho péssimas notícias – resumiu.
- É, eu estava mesmo achando que voltou para a Inglaterra cedo demais.
- Eu tinha que voltar para executar o plano, certo? – Hermione arqueou uma sobrancelha. – Eu só não esperava ser pega.
- Como é? – Os olhos azuis de Rhina se arregalaram.
- É, mas não acho que tenham suspeitado de minhas intenções. E depois, eu fugi antes que pudessem me pegar novamente.
- Eu não estou entendendo...
Hermione então suspirou e contou tudo o que acontecera durante aquela noite.
- ... O bom disso tudo é que não tinha como eles saberem, eu não estava armada – concluiu.
- Bem, neste caso, não há necessidade de contatar Alecia. É até melhor que ela não saiba, ou a coisa vai ficar muito ruim para o seu lado.
- Rhina, você não está entendendo mesmo! – Hermione revirou os olhos. – Ele me conhece, Rhina! Eu não posso simplesmente chegar lá, bater um papo com ele e dizer: “bem, eu sinto muito, a conversa estava muito boa, mas agora eu tenho que te matar”!
- Eu sei disso. Mas você tem que matá-lo.
- Eu sei. E eu vou fazê-lo – garantiu. – Eu ainda tenho vinte e sete horas.
- Você já fez serviços muito maiores em muito menos tempo – Rhina comentou. – Matou doze de uma vez, Mione. Relaxe – ela deu um sorrisinho encorajador. – Você só não pode dizer nada a Alecia.
- Eu não vou – Hermione riu. – Mas também não posso tentar nada agora. Eu tenho que resolver alguns assuntos pessoais e profissionais antes de continuar. Além disso, não seria muito bom arriscar quando provavelmente todos estarão alerta sobre mim.
- Você sabe o que fazer – foi tudo o que Rhina disse. – Agora me deixe ir. Hoje é dia de branco, querida.
- É, eu sei. Menos para mim e para Chloe – a castanha sorriu.
- Chloe não voltou com você?
- Não. E nem sabe que eu voltei. O plano era ficarmos em Paris até quinta-feira, esqueceu? Por isso que estou com tanta pressa – explicou. – Eu tenho que ligar para duas pessoas, entregar o cãozinho e voltar para a França – contou. – E, de noite, estou de volta.
- Whoa! Boa sorte! – Ela deu um beijo no rosto de Hermione e desaparatou.
Hermione sorriu e balançou a cabeça negativamente, voltando a pegar o celular.
- Tiffany?
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Tiffany desligou o telefone sem reação. Os olhos estavam arregalados, o rosto pálido. Ela deixou-se cair na poltrona da sala, ainda vestindo o roupão verde de seda.
- O que houve, Tif? – Josh perguntou.
Tiffany encarou-o e piscou pela primeira vez desde que desligara o telefone. Josh estava pronto e Francine já corria rumo à cozinha para tomar o café da manhã.
- Não é nada, meu amor – respondeu, recobrando a razão e puxando-o para colocá-lo em seu colo. – Já arrumou suas coisas?
- Já. Só falta tomar café – ele respondeu.
- Então vá. Eu vou me arrumar, certo?
- Tudo bem – o garoto beijou a bochecha da morena e se levantou, seguindo para a cozinha.
Tiffany então pegou o celular e discou rapidamente.
- Será que eu estou sonhando ainda? – a voz aveludada de Herod tinha um tom divertido.
- Desculpe ligar a essa hora, Christow, mas eu acho que vou precisar de sua ajuda – anunciou, séria.
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- Alô? Betty?
- Sim?
- Betty, aqui é Hallie. Zoe está aí?
- Ela está terminando de tomar o café.
- Ah, ótimo! E o Harry?
- O Sr. Potter não saiu do quarto hoje, Sra. Fuller.
- E quem vai levar Zoe pra escola?
- Ele me deixou encarregada de levá-la à escola hoje, Sra. Fuller.
- Então esqueça! Diga a Zoe que estarei aí em vinte minutos e quero que ela esteja pronta.
- Sim, senhora – Betty assentiu e o telefone ficou mudo.
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Atendeu a porta com um sorriso enorme estampado no rosto.
- Helena! – um vulto loiro jogou-se sobre si.
- Olá, meu bem – retribuiu o abraço da pequena, depois a pegando no colo e pondo-se de pé novamente. – Obrigada por trazê-la, Hall.
- Sem problemas – Hallie sorriu. – Alguma novidade?
- Algumas – Hermione assentiu.
- Cadê Chloe? E Daisy? – Zoe indagou.
- Estão na casa de minha tia, na França – Hermione contou. – Eu vim apenas para resolver alguns assuntos, e um deles é você – piscou para a loirinha e sorriu para Hallie.
- Eu?
- É, você – assentiu. – Eu tenho uma surpresa para você, Zoe.
- É sério? – Zoe perguntou, os olhinhos verdes brilhando intensamente. Depois ela encarou a tia, que assentiu com um sorriso discreto nos lábios.
- Hum-hum. Seriíssimo! Espera aqui que eu já volto – e Hermione saiu, sumindo pela cozinha. Quando voltou, tinha um filhotinho de cachorro nos braços.
- Que lindo! – Zoe correu para ela, estendendo os bracinhos para pegar o cãozinho.
- Sim, é lindo – Hermione murmurou enquanto entregava o bichinho para a pequena. – E é seu.
- Jura? – os seus olhos faiscaram mais uma vez.
- Tem a minha palavra.
- Obrigada, Hermi... – Hallie começou e Hermione arregalou os olhos em alerta para ela. – Helena. – A loira corrigiu-se rapidamente e repetiu: – Obrigada, Helena.
- Não há de quê.
- Eu adorei, Helena! – Zoe pulou no pescoço de Hermione mais uma vez. – Obrigada. Esse foi o melhor presente que eu já ganhei. – Disse e afagou a cabecinha do cão. – Vai se chamar... Embry.
Hermione e Hallie observavam a menininha brincando com o novo amigo. A loira feliz pela felicidade da sobrinha; a morena radiante em proporcionar um bem tão grande à menininha.
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- Onde você foi? – Chloe perguntou ao ver a mãe se materializar no quarto.
Daisy se levantou de um salto com o estalido provocado pelo ‘aparatar’ da dona.
- Eu tive de ir à Inglaterra resolver alguns assuntos, anjo. – Explicou, depositando um beijo na testa da filha. – Adivinha quem eu acabei de encontrar?
- Nem imagino – Chloe murmurou.
- Zoe.
- Você falou com ela sobre quinta-feira?
- Falei com Hallie e ela disse que vai falar com o pai de Zoe, ok?
- Tudo bem.
- Então, o que faremos hoje?
- Eu quero ir ao boliche hoje de tarde.
- O que mais?
- Vamos sair para comer fondue?
- Ir ao boliche, comer fondue e... – Hermione assentiu. – Tomar sorvete?
- É. E quando voltarmos, o bom e velho chocolate quente da vovó.
- Um bom modo de finalizar o dia – a mãe sorriu. – Agora, querida, eu vou ter que sair hoje à noite assim que eu deixar você em casa e só devo voltar amanhã por volta do meio-dia, ok? E, caso haja algum imprevisto, só virei na quinta para te buscar.
- Aonde você vai? Por que eu não posso ir junto? E por que vai demorar tanto tempo nesse lugar? – Chloe disparou.
- Filha, não faça perguntas difíceis. Que mania você tem! – Hermione repreendeu sem altear a voz nem mesmo um oitavo. – Agora vá escovar os dentes para nós descermos, porque eu sei que a senhorita nem saiu do quarto ainda!
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Scott chegou ao restaurante apressado e localizou Harry rapidamente.
- O que aconteceu? – perguntou enquanto ocupava a cadeira diante do moreno. – Por que não apareceu para trabalhar hoje?
- Tirei o dia de folga – Harry respondeu sem ânimo.
- Que cara é essa? – Scott insistiu.
- Cara de quem perde tudo mais uma vez.
- Eu não estou te entendendo.
- Pois você não vai entender nada depois que eu te contar o que aconteceu essa noite.
E Harry desatou a contar tudo, desde a inesperada visita de Elizabeth Newbie e a tal Caroline Hastings até a ‘invasora’ e sua fuga repentina. Parou aí, sem coragem para continuar.
- Você viu quem era?
- De início, não. Sabia que era uma mulher, mas usava um capuz, não dava para ver seu rosto. Eu tive a impressão de que foi a própria Elizabeth quem cobriu o rosto dela com o capuz, mas elas tiveram que deitá-la no chão e quanto isso aconteceu, o capuz caiu e.... – uma pausa. – Pode parecer inacreditável, mas era Hermione.
- O quê? – Scott parecia perplexo.
- Era ela, eu a reconheceria em qualquer lugar – Harry assegurou.
Scott não conteve um riso. Era absurdo! Já estava se perguntando se o amigo fizera bem em levantar da cama, porque certamente estava tendo alucinações.
- Ah, é claro! Que irônico, não? A mulher a quem você diz amar e que diz corresponder aos seus sentimentos some sem deixar vestígios e aparece onze anos depois em sua casa. O mais curioso, Harry, é que ela sumiu antes mesmo que você pudesse falar com ela novamente – ele ironizou.
- Você não acredita, não é?
- Você tem trabalhado demais.
Harry suspirou; ninguém iria acreditar.
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Estava se sentindo sobrecarregada como há muito não se sentia. Aaron saíra cedo aquele dia para deixar as crianças na escola e agora ela estava indo buscá-los. O enorme fichário que estava estudando estava atrás de seu banco. Para todo lugar que ia, o levava junto consigo. Qualquer tempo livre era dedicado àqueles papéis.
Pegou o celular, pronta para ligar para seu pai e procurar saber notícias dele e de sua mãe. Estava desligado e ela censurou a si mesma por ter esquecido. Poderia ter acontecido alguma coisa e ela seria a última a saber. Assim que o celular inicializou, um bip chamou sua atenção.
1 mensagem recebida
Suspirou. Tinha certeza que haveria alguma mensagem para ela. Era de Hermione.
Tentei falar com você mais cedo e não consegui.
Espero que encontre um tempinho em sua tarde para uma velha amiga.
Preciso falar urgentemente com você.
Ela não pensou duas vezes antes de discar para a amiga.
- Hermione?
- Não, é Chloe que está falando – a voz infantil veio do outro lado.
- Ah, Chloe! Como vai, meu bem?
- Está tudo bem. Mamãe está tomando banho e disse que se você ligasse, era para pedir para você vir nos visitar.
- Bem, agora eu estou indo pegar Gwen e Sean na escola, mas não vejo problema algum em irmos almoçar com vocês.
Chloe riu do outro lado da linha.
- Bem, depende do que você chama de problema – ela disse. – Acha que vir almoçar na França é problema?
- Whoa! – Amy exclamou. – Tentador.
- Então você vem? – a voz de Chloe soou entusiasmada.
- Se sua mãe não se incomodar em esperar por duas ou três horas, sim.
- Ah, que ótimo! Vou pedir para ela te ligar assim que sair do banho para te dizer onde nos encontrar.
- Tudo bem, querida. Estarei aguardando. Beijinhos – e a linha ficou muda.
Ir a França definitivamente não estava em seus planos, mas não deixava de ser um convite e tanto. Tinha certeza que Gwen e Sean adorariam a aventura.
Hermione não demorou a ligar. Na hora, Amy estava a caminho do carro com as crianças, uma segura em cada mão sua. Colocou os dois no banco traseiro e apertou o cinto de ambos.
- Sabem para onde estamos indo?
- Vamos almoçar com o papai hoje? – os olhos de Gwen brilhavam de modo que pareciam refletir o azul do céu num dia ensolarado.
- Não, querida. Ele já deve ter almoçado a essa hora. – Amy respondeu.
- Então aonde vamos? – Sean procurou saber.
- Vamos almoçar no Chez Catherine com tia Hermione e Chloe.
- Parece legal – Sean comentou. – Onde fica esse restaurante?
- Na França – Amy respondeu com simplicidade.
- Na França? – os olhos de Gwen brilharam ainda mais e Amy perguntou-se como era possível.
- Whoa, nossa tarde vai ser bem legal! – Sean sorriu, os olhos de diamante negro sorrindo também.
- Então, pé na estrada! – Amy encaminhou-se para frente e tomou seu lugar, dando partida.
Em pouco mais de duas horas repletas de muita música alta, dos coros feitos por ela e os garotos e boas risadas, eles chegaram ao destino. Deixaram o carro ainda sorrindo e encaminharam-se para o restaurante, onde Chloe e Hermione conversavam animadas a uma mesa no canto.
Amy percebeu que os cabelos de Hermione estavam naturais, levemente ondulados até pouco acima da cintura. Não usava também os óculos que estivera usando nos últimos encontros de ambas e tinha um traço de preocupação em sua expressão. Talvez nem ela mesma tivesse se dado conta de que quando estava preocupada surgia uma leve ruga entre suas sobrancelhas.
- Olha quem chegou – Hermione apontou quando Amy se aproximou com as crianças.
- Um tempinho para uma velha amiga é sagrado – Amy brincou, enquanto cumprimentava Hermione. – Ganhou muitos chocolates, Chloe?
- Eu não gosto muito de chocolate, mas mamãe trouxe um da Suíça para mim – Chloe sorriu. – Estava delicioso! Uma pena que não tenha sobrado, eu lhe daria um pedaço.
- Ah, mas nós ganhamos também – Gwen contou. – Tia Hermione mandou um para mim, um para Sean e um para mamãe.
- Ela sempre lembra de todo mundo – Amy sorriu.
- De quase todo mundo – Hermione corrigiu.
O sorriso de Amy então sumiu e Hermione soube que ela entendera.
- Liah ainda está cobrando uma visita sua – disse, mudando de assunto.
- É, eu sei que estou em dívida com ela. Mas como elas estão? – referiu-se a Liah e o bebê.
Àquela altura, Chloe, Gwen e Sean já estavam na mesa ao lado brincando com os guardanapos e conversando.
- Estão ótimas, graças a Deus. Scott, o marido dela, é quem vive preocupado com elas. Parece que ele vai trabalhar e esquece os pensamentos em casa – Amy comentou. – Mas ela está bem e a nenê também, e acho que isso é que importa agora.
- Eu não consigo imaginar Liah numa cama além do tempo que ela passa dormindo. – Hermione murmurou. – Sabe, eu já morei com ela e sei que ela não pára um minuto.
- Nunca morei com ela, mas nos longos nove anos de convivência que eu tenho com a figura, chega a ser deprimente vê-la na cama. Ela é elétrica, parece que vive ligada nos 220.
- Ah, querida, você precisava ver o que ela fez com a minha Chloe! Quando ela era pequena, eu ia pôr Chloe para dormir e sempre que estava quase conseguindo, Liah chegava e começava tudo de novo! Chloe corria o apartamento inteiro com Liah atrás dela. As duas ficavam até altas horas nessa brincadeira, parecia que havia duas crianças no apartamento ao invés de uma.
- E você acha que ela fazia o quê com Gwen e Sean? Tinha horas que eu me perguntava se eles lembravam que eu existia quando ela estava lá em casa. – Amy riu. – Eles a adoram...
- Ela vai ser uma mãe e tanto! – Hermione disse.
- Foi difícil convencê-la disso quando ela perdeu o primeiro bebê. Eu acho que eu nunca tive que usar tanto da persuasão. Acho que a convivência com você deve ter despertado nela uma espécie de escudo natural. Ela esteve irredutível por um bom tempo.
- Ler mentes se tornou involuntário para mim. Eu muitas vezes me pego desarmada, mas estou aprendendo a controlar. Já Chloe...
- Ela tem dado trabalho?
- Um pouco, mas tenho conseguido contornar. Ela só fica vulnerável quando está sozinha, aí não tem muito que eu possa fazer – explicou. – Mas me fale mais sobre Liah. Ela teve o mesmo problema da outra vez?
- Sim. E isso é o que deixa Scott alerta o tempo todo. Na primeira vez ela não seguiu as recomendações médicas a risca e acabou perdendo o bebê. Dessa vez, Scott ficou em cima o tempo todo. Quando ele não estava em casa, ligava para ela de meia em meia hora para saber como ela estava... Agora abrandou um pouco, mas mesmo longe está preocupado.
- E com razão. É uma situação muito chata, não é? Mas Liah vai superar.
- Não acho que ela vá ter outros filhos depois disso.
- Pois eu já estou começando a achar que Aaron será o único dos Mackenzie a ter dois.
- E isso porque vieram de uma vez! – Amy riu. – Mas você está certa. Ethan e Brittany vivem uma eterna lua-de-mel. Para a sorte deles, Sienna é o amor em forma de criança.
- Eu ainda não a conheci.
- Bem, é loira, exatamente como todos os Priestly. Parece um anjo...
- Eu acho que as únicas Priestly que têm os olhos escuros são Karen e Hallie.
- Elizabeth Newbie também. E, segundo dizem, Steven Priestly, o pai dela e de Nash Priestly, que é pai de Karen e Hallie. – Amy explicou. – Por isso eu acho que as gêmeas puxaram ao avô e à tia.
- E mesmo assim Brittany e Keira nasceram de olhos azuis – Hermione assinalou.
- Falando em Keira, soube que está de casamento marcado e grávida de gêmeos.
- Acho que ter gêmeos está nos genes dos Priestly, não?
- Nos Corrigan também. Muito me admira que Karen não tenha tido gêmeos.
- Ah, a filha dela é uma princesa! – Hermione comentou. – Parece uma fada, não é? Loirinha dos olhos verdes como duas esmeraldas.
Os olhos de Amy se arregalaram e ela engoliu em seco, tratando de esvaziar os pensamentos.
- O que foi? – Hermione perguntou.
- Ah, nada. Eu apenas senti uma leve tontura, nada demais.
- O nome disso é fome – ergueu uma das mãos e chamou o garçom. Fez o pedido rapidamente e o rapaz se afastou, os olhos de Amy acompanhando-o.
- Um rapaz bonito, não acha? – ela indagou, de súbito.
Hermione riu.
- E eu que pensei que mesmo depois de casada e com dois filhos você ia tomar jeito...
- Eu não deixei de ser mulher, deixei? E depois, olhar não tira pedaço – Amy disse, marota. – Crianças, a comida já está vindo, ok?
Os três assentiram, mas só Chloe se aproximou.
- A nossa cenourinha acabou – disse. – Eu posso comer a de vocês?
- Sim, senhorita. – Hermione leu os pensamentos da filha, sabendo que aquele não era o único interesse dela ali. – O que eu disse sobre escutar a conversa dos outros?
- Eu juro que foi sem querer, mamãe – Chloe defendeu-se. – É que eu pensei que vocês estavam falando de Zoe e...
- Eu falei dela, mas foi por alto. E daí?
- E aí que você me disse que encontrou com ela hoje, não foi? Então eu acredito que tenha encontrado com a tia dela também... – Hermione assentiu. – Eu só queria saber se ela já sabe...
- Ainda não – Hermione disse. – E você é muito curiosa para o meu gosto, Chloe Ann – beijou a bochecha da filha, brincando com no nariz dela em seguida.
- Do que Hallie deveria saber? – Amy perguntou.
- Ela está grávida – Chloe contou. – Mas não sabe ainda.
- É, pelo visto a prole da nossa geração não pára de crescer – Amy brincou.
Ela ainda perguntava-se em pensamento como Hermione conhecera Zoe e Hallie. Mas ela lembrou-se da frase que repetia inúmeras vezes: tudo no mundo bruxo se cruza. A questão é que Hermione conhecer a filha de Harry era muita coincidência. E o afeto que ela demonstrava pela garotinha era incomum. Pelo fascínio que ela exalava em seu tom quando se referia a Zoe, sabia que, se pudesse, Hermione a tomaria para si e criaria como se fosse sua própria filha.
Percebeu então que ela parecia conhecer toda a família Priestly e nem notara os rumos que a conversa delas tomara.
“Mas de onde ela conhece Hallie e Karen?”, pensou.
- Eu as conheci oito anos atrás. Liah me apresentou a Elizabeth Newbie por conta de uns interesses em comum e então fui apresentada a Karen e Hallie. Criei mais intimidade com Hallie, mas eu e Karen nos conhecíamos, freqüentávamos algumas reuniões entre amigos em comum e nos correspondíamos também. – Hermione respondeu ao pensamento da amiga.
- Whoa, depois dessa eu posso reafirmar: tudo no mundo bruxo se cruza.- Sim, e como! – assentiu. – Mas, Amy, eu estou querendo te perguntar a respeito de uma coisa e ainda não soube como chegar ao assunto...
- Pode mandar – Amy incentivou.
- Eu queria saber a respeito de uma... de uma profecia que me envolve... – ela começou, sem jeito. – O que... o que você sabe a respeito disso?
Amy estudou a expressão de Hermione por um instante. Ela parecia decidida a saber – extrair de Amy, se necessário – tudo sobre a profecia, e Amy não a condenava.
- E então, Amy... O que sabe a respeito da tal profecia? – Hermione repetiu a pergunta.
Amy baixou os olhos para fitar as próprias mãos, que estavam sobre seu colo. Suspirou pesadamente e voltou a encarar a amiga.
- Tudo – respondeu, por fim.