A casa de Draco e Gina nos terrenos d’A Toca era um anexo, exatamente como as casas de Gui e Carlinhos. Rony estava prestes a construir a sua ali também, mesmo quando a superlotação começava a mostrar seus efeitos. Eles agora levavam vidas independentes, mesmo morando tão próximos.
Draco, desde o início, optara por manter a casa do casal em Knightsbridge, próximo à casa da mãe e à da tia. Desse modo, eles passavam a semana lá e iam para A Toca às sextas-feiras à noite e passavam todo o fim de semana com os Weasley, exceto quando, em determinados domingos, iam almoçar na casa dos Haase.
- Esse fim de semana nós não iremos para A Toca, ok? – Gina anunciou.
- Aconteceu alguma coisa que eu ainda não saiba? – Draco estranhou, as sobrancelhas arqueadas.
- Bem, Cissa me ligou hoje mais cedo e nos chamou para almoçar na casa dela e de Thomas.
- Então iremos almoçar com seus pais no domingo. Molly não vai ficar muito feliz se você não for, Gin – Draco alertou.
- Sim, eu sei. Eu já falei com ela. Mas à noite nós iremos de novo à casa de Cissa e Thomas. É Páscoa, afinal! E quem não vai ficar nada satisfeita se você não for, nesse caso, é Jen.
- Você adora decidir as coisas por nós dois, não é? – o loiro avançou, abraçando-a pela cintura e depositando um selinho nos lábios da ruiva. – E eu sempre sou o último a saber.
- Nem sempre – ela brincou.
- Nem sempre? – ele repetiu. – Foi assim a vida toda, Weasley! Até mesmo na hora de receber a notícia de que você estava grávida de Sarah.
- Bem, tecnicamente, você soube na mesma hora em que todos os outros – Gina riu.
- Tecnicamente – ele repetiu, revirando os olhos. – Existe mais alguma coisa que você tenha decidido por nós dois e eu não saiba?
- Eu decidi aproveitar que Sarah já está dormindo para nós fazermos uma festinha particular, o que você acha?
- Então eu tenho poder de decisão, dessa vez? – Draco arqueou uma sobrancelha e riu.
Gina pareceu ponderar.
- É, acho que em nenhuma das outras você teve, não é? Nem mesmo na primeira vez... – ela lembrou e empurrou-o até a beirada da cama de casal, espalmando o peito dele em seguida com o objetivo de desequilibrá-lo.
O loiro caiu deitado na cama, mas logo se apoiou sobre os cotovelos, aguardando.
- O que significa que nem dessa vez eu tenho escolha, certo? – ele concluiu.
- Certíssimo! – Gina sentou no quadril do marido. – Não mesmo.
Ainda não havia amanhecido quando Gina despertou. Levantou-se e caminhou até o banheiro, onde pegou o seu roupão de seda, depois seguindo até a cozinha para tomar um copo com água. Já com o copo em mãos, recostou na bancada de mármore do aposento e fitou o ‘nada’.
Ouviu um movimento vindo das escadas e logo Sarah estava na cozinha. Loira, de olhos azuis intensos, era uma grande mistura dos pais.
“O queixo é de Narcisa”, Julie Bonstrong vivia a repetir.
“O nariz e os olhos são de Gina, sem dúvidas”, Luna Lovegood fez questão de ressaltar.
“A boca e as sobrancelhas – ou falta delas – são de Draco”, Isabella Bonstrong tinha orgulho de constatar.
E os cabelos loiros, Gina sabia, herança dos Malfoy – e de Narcisa, uma Black. Lisos e compridos como os seus, diferentes apenas por não serem ruivos. Dos Weasley, o temperamento esquentado e, simultaneamente, a doçura; dos Malfoy, o sarcasmo e a destreza.
- Olá, meu amor – Gina cumprimentou. – Sem sono?
Sarah coçou os olhos.
- Não. Apenas acordei com sede – ela respondeu ao abrir a geladeira. – Que horas são?
Gina levantou os olhos para o relógio pendurado na parede, um dos braços cruzado sobre o peito e o outro com o cotovelo apoiado sobre ele, o copo de água na mão.
- 4h30m.
- Ainda é cedo. – A loirinha murmurou e bebeu todo o conteúdo de uma vez, enchendo o copo novamente.
- Sim, muito cedo. Melhor voltar para o seu quarto e dormir novamente.
- Não sei se consigo. Fui dormir muito cedo ontem.
- Eu sei. E temia que acordasse cedo por conta disso.
Era de se esperar que ela estivesse cansada. Sarah passara o dia na casa de Isabella e Olívio com as filhas do casal, Phoebe e Mischa. Depois de seus respectivos expedientes na M&Z Law e no Ministério da Magia, Draco e Gina foram pegar a pequena na casa da prima de Draco.
- Previu certo – Sarah riu e bebeu o restante da água. – E por que não está dormindo?
- Também acordei com sede – Gina mostrou o copo, já vazio.
- Você parecia pensativa quando eu cheguei. E ontem na casa de tia Bel também.
- Impressão sua – a ruiva desconversou.
- Eu te conheço, mamãe. Não é impressão minha. – Sarah insistiu.
- Estou preocupada. Assuntos de trabalho.
E era verdade. Gina passara a última semana inteira preocupada com as notícias dos jornais, principalmente o Profeta Diário. Somente aquela semana, foram encontrados doze nascidos trouxas mortos. E os aurores estiveram tão próximos de encontrar o assassino que ela temia as notícias que viriam a seguir. Rita Skeeter continuava a mesma e, ela tinha certeza, não mudaria nunca.
Cansada de ter a si mesma e aos colegas de trabalho alfinetados durante todos aqueles anos, ela só queria que aquele pesadelo acabasse logo.
E por mais egoísta que pudesse parecer, agradecia todos os dias por ter uma família pura. No entanto, temia por Penélope Clearwater e os filhos que tinha com seu irmão, Percy.
- É verdade que tia Fleur está grávida de novo? – a voz de Sarah tirou Gina de seus pensamentos.
- Sim, é verdade. Ela passou o último ano todo planejando a gravidez.
- E como se planeja uma gravidez? – Sarah indagou e Gina não pôde deixar de rir.
- Não me peça para explicar isso, querida. – Gina reconhecia que não levava jeito para isso e, pelo seu jeito exageradamente espontâneo, acabaria falando demais – e a filha não tinha idade para isso. – Ela apenas queria muito o bebê e se preparou para recebê-lo em boa hora.
- Hum – Sarah assentiu e puxou uma cadeira para se sentar. – Você e o papai nunca pensaram em me dar um irmãozinho?
Gina estacou, pega de surpresa pela pergunta da filha. Sarah nunca pedira um irmão, nunca tocara no assunto antes. Por fim, admitiu que a pequena tinha muito mais de si do que imaginara: curiosa e com o dom de deixar as pessoas sem resposta.
- Sarita, meu anjo, por que não volta para a cama? Nós temos que acordar cedo para ir à casa de Cissa. – Sarah arqueou uma sobrancelha. – Eu prometo que conversaremos sobre isso depois.
A loirinha bufou e se levantou.
- Tudo bem. Até mais tarde – e saiu da cozinha.
Gina suspirou. Talvez Sarah estivesse ouvindo demais as conversas das mulheres dos Weasley. Até mesmo Katie estava averiguando a hipótese de uma gravidez... Entendia o desejo súbito da filha: se Katie realmente tivesse mais um filho, ela seria a única dos netos de Molly Weasley a não ter irmãos.
Perguntou-se por que ela iria querer um irmão quando tinha tantos primos para compartilhar a infância.
Sabia que Draco também desejava há muito outro filho, mesmo que tivesse parado de insistir. Bem, nem tanto. Ainda no final de fevereiro eles tiveram uma conversa a respeito, assim que Deborah anunciou estar grávida de gêmeos. E Gina, que sempre vetara a hipótese, prometera pensar – e Draco jamais cobrara uma resposta, respeitando o tempo dela.
Resignada, deixou o copo sobre a pia e voltou para o seu quarto. Draco ainda dormia profundamente.
Sentou-se ainda de roupão sobre as cobertas, recostando nos travesseiros, pensativa.
Após alguns instantes, já cansada de encarar a parede oposta, ela deixou os olhos vagarem para o marido. Eles pareciam estar tão sintonizados a ponto de atraírem-se mutuamente mesmo sem estarem conscientes disso. Tanto que quase que instantaneamente as mãos grandes e firmes do loiro procuraram pelo corpo dela e aquietaram em sua cintura. Ele então a trouxe para si.
Incapaz de resistir, Gina pôs-se a distribuir beijos delicados entre o rosto e o pescoço de Draco. Ele então despertou e ela pôde ver os olhos acinzentados fitando o seu rosto, um sorriso torto brincando em seus lábios finos. Ela retribuiu com um sorriso malicioso, enquanto enterrava as mãos nos cabelos dele.
- Eu te amo – sussurrou, agora já deitada de lado ao lado dele.
Draco levou as mãos ao rosto dela, segurando-o por entre elas com delicadeza, antes afastando as mechas ruivas que insistiam em cobrir-lhe a face rosada.
- Você é minha vida, ruivinha – disse, e o ‘apelido’ carinhoso e adolescente ecoou na mente dela, impelindo-a.
Antes que pudesse se deter, beijou-o o mais intensamente que pôde. E amaram-se mais uma vez.
Abriu os olhos, ainda sonolenta, e virou-se para olhar através das cortinas que não haviam sido fechadas por completo na noite passada. O dia estava lindo, nem sinal de nuvens no céu azul e límpido.
Um movimento atrás de si fez com que ela se voltasse para Draco novamente.
- Bom dia – ela sorriu e viu o loiro sorrir em resposta.
Ele ergueu-se e deu um rápido beijo na esposa. Gina então deitou sobre seu peito e ele pôs-se a afagar seus cabelos.
Ficaram em silêncio por um longo instante até que ela quebrou-o.
- Eu andei pensando sobre o que me pediu – começou, erguendo a cabeça, procurando encará-lo.
Draco parou de afagar os cabelos dela.
- E imagino que tenha uma resposta, já que tocou no assunto. – Ele disse e suspirou.
- Eu acho que poderemos tentar – ela assentiu, completando em seguida: – Mas vamos esperar que Sarah entre para Hogwarts, assim poderemos ter uma companhia... E depois, eles crescem tão rápido!
Draco riu.
- Faremos como quiser.
- Acha que agüenta esperar três anos?
- Já esperei oito, não foi? – ele sorriu e afagou uma das bochechas de Gina. – Não se preocupe. Até lá, nós vamos praticando.
Gina não conteve um riso.
- Eu te amo, Malfoy – e deu um selinho no marido.
- Eu te amo, Weasley – ele rebateu.
Gina arqueou uma das sobrancelhas.
- Tudo bem – ele riu de novo. – Eu te amo, Malfoy.
- Bem, está tudo muito bom, mas já são nove horas e nós prometemos estar na casa de Cissa às dez, então... – e a própria Gina se colocou de pé, recolhendo o roupão de seda que estava jogado ao pé da cama, depois caminhando para o banheiro.
Draco também levantou e arrumou a cama com um rápido aceno de varinha. Quando Sarah bateu à porta do quarto do casal, Gina acabara de sair do banheiro enrolada numa toalha e Draco, a esta altura vestido apenas com as calças do pijama azul, entrava no closet.
- Bom dia, querida – Draco deu um beijo na testa da filha.
- Eu pensei que vocês tivessem dito que era para acordar cedo – Sarah murmurou.
Ela já estava pronta, com um vestidinho azul claro e sapatos brancos, os cabelos loiros presos numa trança embutida finalizada com um laço também branco.
- Acidente de percurso, filha – Gina replicou, pacientemente, arrancando risos do marido. – Eles acontecem.
- Tudo bem, eu vou fingir que eu entendi. – Sarah suspirou. – Vocês vão demorar muito?
- Só depende de seu pai. – Gina respondeu com um sorriso maroto no rosto. – Eu me visto rápido. – Draco pigarreou alto de dentro do banheiro. – Ok, acho que não demoraremos. Eu prometo que hoje eu vou me aprontar rápido.
Sarah então se sentou na cama e aguardou. Viu a mãe colocar um vestido tomara-que-caia quadriculado nas cores preto, cinza e branco, com uma faixa preta sob os seios que levava a um laço de lado.
- Qual destes eu uso? – ela mostrou dois sapatos: um preto no estilo ‘boneca’ e uma sandália de salto baixo com detalhes em strass.
- A sandália.
- Boa escolha – Gina sorriu.
Caminhou para o enorme espelho que ficava dentro do closet e analisou o modelito. Os brincos de ouro branco pendiam em suas orelhas e um cordão bem fino, também de ouro branco, com um pingente que parecia uma gota de cristal ocupava em seu colo nu. Um relógio num braço, uma pulseira fina no outro... A aliança e um grosso anel completavam a lista de acessórios.
Draco então saiu da porta atrás de si, de roupão e seguiu até a sua parte no aposento, escolhendo a própria roupa.
- Está linda – ele murmurou com um meio sorriso se crispando nos lábios, enquanto pegava uma calça.
- Obrigada – Gina sorriu em resposta. – Não saia agora. Sarah está no quarto.
- Tudo bem. – Draco assentiu e observou a esposa deixar o closet, fechando a porta atrás de si, o que automaticamente ativou o ar condicionado.
- Já tomou café? – Gina perguntou a filha.
- Sim. E Dora está esperando vocês descerem para poder tirar a mesa.
- Pois então desça e prepare uma boa bandeja para nós, com suco e torradas. Enquanto isso, eu aviso Cissa que chegaremos um pouco mais tarde, ok?
- Então Dora pode tirar a mesa, certo?
- Certo.
- Ok, estou descendo – e a loirinha deixou o quarto.
Deixaram a casa quase quarenta minutos depois e Sarah insistira para que fossem de carro, mesmo estando a apenas duas quadras da casa da avó.
Quando Draco estacionou o carro, viu Tiffany saindo de casa, a bolsa sobre um dos ombros e a chave dos carros na mão. Jennifer vinha logo atrás, carregando uma pequena mochila.
- Posso saber para onde as duas senhoritas vão? – o loiro indagou, dando um beijo na testa de Tiffany e pegando Jennifer no colo para beijar uma de suas bochechas.
- Vou levar a Jen no aniversário de Brianna Christow – Tiffany respondeu prontamente. – Como vai, Gin?
- Estou ótima, querida. E você não poderia estar melhor! – Gina sorriu simpaticamente.
- E você, Sarah?
- Estou bem – Sarah deu um meio sorriso.
- Você está pesada, hein? – Draco brincava com Jennifer, recolocando-a no chão e fingindo dor nas costas.
- Você é um bobo, Draco – Jennifer revirou os olhos.
A porta da frente então se abriu e Francine e Josh vieram correndo ao encontro de Tiffany.
- Eu já disse que não vou demorar. Não há necessidade alguma de vocês irem comigo!
- Mas eu quero ir – Francine fez beicinho.
- Se você quiser, eu posso levar Jen, Tif – Draco se ofereceu.
- Não, não se preocupe. Deixe que eu levo – e Tiffany abriu a porta do carro. – Vamos, entrem logo antes que eu desista de deixar vocês irem. Jen, você vai na frente comigo. – Ela então voltou-se para o ‘irmão’. – Podem entrar. Cissa está esperando por vocês. Eu apenas tenho que levar a Jen e repor o estoque de lanche para as crianças, volto logo.
- Tudo bem – Draco, Gina e Sarah então se despediram das crianças e de Tiffany brevemente, depois se encaminhando para a porta da frente, onde foram recebidos por Narcisa.
- Eu não vejo por que quiseram tanto vir – Tiffany dirigiu-se aos filhos.
- Eu gosto de andar de carro – Francine respondeu. – E Josh só veio porque ele não desgruda nem um pouco de mim.
Josh revirou os olhos para a irmã.
- Tudo bem, mas eu ainda vou procurar alguns lanches para vocês e não quero que vocês reclamem da demora, ouviram bem? – Tiffany insistiu.
Os dois concordaram.
A casa dos Haase já estava fora de visão.
- A que horas eu devo te pegar, Jen?
- Acho que às 16h está bom. Mamãe não iria ficar muito satisfeita se eu passasse o dia todo fora com o Draco estando lá em casa.
- Então às 16h esteja pronta – Tiffany avisou.
Não demorou e eles chegaram ao primeiro destino. Tiffany estacionou o carro próximo ao meio-fio e virou-se para trás.
- Esperem um instante, eu vou deixá-la na porta e já volto, ok? – avisou aos filhos antes de sair do carro e acompanhar Jennifer até a entrada da casa.
Tocou a campainha e esperou.
- Está um barulho dos infernos aí dentro – comentou. – Aposto como eles nem ouviram. – E estendeu a mão para tocar a campainha de novo.
A porta se abriu rapidamente.
- ... E eu já disse que você é que tem que receber seus... – a voz do loiro morreu ao encarar Tiffany. – Olá, Jen! – Ele limitou-se a cumprimentar a pequena. – Entre. Brianna está lá dentro e...
- Eu estou aqui, Herod – a loira postou-se ao lado do irmão, os cabelos platinados presos num alto rabo de cavalo. – Ah, que bom que veio, Jen! – Ela abraçou Jennifer.
- Feliz aniversário, Anna – Tiffany cumprimentou a veela, dando-lhe um beijo na bochecha rosada.
- Obrigada, Tif. Por que não entra? – Brianna convidou.
Os olhos cinza de Tiffany foram parar no rosto de Herod, que evitava encará-la desde o primeiro momento e segurava a porta, impaciente.
- Oh, não. Fran e Josh estão no carro me esperando e eu ainda tenho um almoço em família... – ela começou.
- Ah, ótimo! Eles podem ficar, também. Será maravilhoso ter vocês aqui – Brianna interrompeu-a, um sorriso de orelha a orelha em seu rosto. – Vamos, entre. Eu mesma vou chamá-los. E, Jen, fique à vontade. Eu volto num minuto – disse. – Herod, por que não as leva para dentro?
Brianna apressou-se em caminhar pelos jardins.
- Espere! – Tiffany chamou. – Tome as chaves – jogou e Brianna pegou-as ainda no ar. – Não esqueça de fechar o carro, por favor.
A veela fez um gesto de assentimento e correu para o carro.
- Acho melhor ligar para a mamãe e avisar que não vai voltar para o almoço – Jennifer sugeriu num sussurro.
- É, eu sei – Tiffany concordou no mesmo tom.
- Bem, fiquem à vontade – Herod disse e começou a se afastar.
- Não! – Tiffany segurou o braço do loiro. – Christow, eu sei que vai parecer estranho, mas eu quero que fique comigo. – Ela olhou à sua volta, sem jeito. – Sabe, eu não conheço ninguém aqui além de você e Brianna, e as crianças certamente não ficarão comigo, então...
- Está bem, já entendi – ele suspirou. – Vamos para a sala de tevê, lá ficamos longe do barulho.
- É, é melhor – a morena assentiu, hesitante. – Mas acho melhor esperarmos Brianna voltar com Francine e Josh...
- Pronto – a voz de Brianna veio de suas costas. – Aqui estão as chaves. – Ela entregou a Tiffany. – Vamos para a festa, pessoal.
E a loirinha se afastou, levando Jennifer, Francine e Josh com ela. Francine virou-se para acenar para a mãe, que deu um sorriso hesitante e mordeu o lábio antes de retribuir o gesto. Quando os pequenos sumiram de vista, ela voltou seus olhos para Herod, que encarava uma parede vazia, as mãos enfiadas nos bolsos.
Ela sabia o quanto era desconfortável para ambos estarem próximos.
Herod não suportava estar com ela. Sentir-se atraído e ser rejeitado por uma pessoa não era lá uma das experiências mais agradáveis, afinal. E ele estava cheio da frieza dela.
Tiffany não conseguia olhar para ele e deixar a desconfiança de lado, principalmente depois de saber sobre o envolvimento dele com Pansy Parkinson. No entanto, o que a irritava era a insistência, o jeito desapegado e a impertinência dele. Mas depois do último encontro de ambos, no dia anterior, ela sabia que ele cansara de se jogar a seus pés e ser pisado.
Talvez ele estivesse a odiando àquela altura. Suspirou. Não era isso o que ela queria.
Ela baixou os olhos e enfiou a mão na bolsa, pegando o celular e discando o número de casa. Narcisa foi compreensiva e não estendeu muito a conversa. Sabia que a loira a via como uma filha, assim como ela tinha Francine e Josh.
Desde os 14 anos – dois anos após perder sua mãe biológica –, era Narcisa que ela tinha como mãe, então também a amava como se fosse uma segunda mãe, aquela com a qual o destino se encarregou de lhe presentear.
- Até mais tarde, Cissa – desligou o telefone.
Herod ainda a esperava, agora encostado na parede, mas sempre evitando olhar para ela.
- Então...
- É por aqui – ele interrompeu-a e apontou um corredor que levava às escadas.
Tiffany foi à frente e ele logo atrás. Ela sentiu-se, pela primeira vez na vida, como se estivesse diminuindo a cada passo que dava.
Já no andar superior, ele apontou um buraco desenhado na parede, sem porta, e ela encaminhou-se para lá. A sala era grande e agradavelmente aconchegante.
- Quer beber ou comer alguma coisa?
- Talvez água – ela respondeu, a garganta seca.
O loiro então abriu um frigobar e jogou uma garrafa pequena de água para ela.
- Pode sentar, se quiser. Eu não vou te atacar nem os sofás vão te engolir – ele murmurou com indiferença e se aproximou de um buraco quadrado na parede, onde apertou um botão. – Rani, mande uns doces e salgados com refrigerante aqui para a sala de tevê.
Não houve nenhuma resposta. Em questão de segundos, uma plataforma surgiu, subindo, além do buraco trazendo uma bandeja recheada de quitutes.
Herod pegou a bandeja e colocou-a sobre uma mesinha.
- Sirva-se, a casa é sua. – Disse, ainda inexpressivo. – Tevê? Música? – ele sugeriu.
- Música – ela respondeu baixinho.
O loiro então colocou um som baixo tocando e ocupou uma poltrona distante.
Tiffany abriu a garrafinha e bebeu um gole de água, observando-o. Ele encarava o teto, mas logo fechou os olhos e parecia apreciar a música, ignorando completamente a sua presença.
Mais uma vez sentiu que estava diminuindo e começou a especular se demoraria muito a sumir. Agora já cogitava ir embora, inventando alguma desculpa que implicasse em sua presença imediata bem longe dali.
Uma parte de si queria ficar, mas outra – bem maior – queria sair correndo daqui, fugir e não encontrar aquele homem nunca mais em sua vida. A frieza e as poucas palavras dele estavam deixando-a realmente desconcertada.
- Parece bem fácil para você me ignorar, não é? – ela disparou de súbito.
- Já foi mais difícil – ele respondeu, sem mexer um músculo.
“Nem mesmo abriu os olhos”, Tiffany pensou, irritada. Sim, ele estava conseguindo irritá-la profundamente.
- Bem, quando eu te pedi para me fazer companhia, acredite, eu não esperava ser ignorada. Talvez fosse melhor ficar sozinha lá embaixo no meio de tanta gente desconhecida ou, simplesmente, sozinha numa sala toda branca sem ninguém à vista. Seria tão irritante quanto estar aqui com alguém que nem olha na minha cara! – Despejou, sua voz se transformando quase num trovão.
Nenhuma resposta.
- Será que você podia pelo menos fazer o favor de responder? É o que a boa educação manda.
- Sim, eu sei. E eu tenho respondido. Eu estava apenas esperando para ver se você não ia continuar – Herod respondeu, dessa vez ajeitando-se na poltrona para encará-la. – Também estou sendo bastante educado. No entanto, educado sem ultrapassar os limites da relação de meros desconhecidos que não estão nem um pouco dispostos a se conhecer.
Com a resposta, Tiffany bufou. Aquilo doeu, mesmo que ela não quisesse admitir.
- É, temos algumas coisas para esclarecer, pelo visto – murmurou.
- Não acho que tenhamos nada a esclarecer. Você deixou bem claro que não queria que eu a importunasse ou que eu estivesse por perto.
- Sim, eu deixei – Tiffany se pôs de pé. – Mas foi simplesmente por não te conhecer e você chegar cheio de intimidades para cima de mim. Isso me fez pensar que era um garotão mimado, oportunista e que cada dia está com uma mulher diferente, uma mais interesseira do que a outra. Sabe, daqueles que não quer nada com a vida.
Herod engoliu em seco e, percebendo que Tiffany ainda não terminara de passar suas impressões – e que estava longe disso –, permaneceu calado.
- Não vou dizer que não percebi o seu interesse em mim, porque eu seria uma tola se não notasse. E seria muita hipocrisia de sua parte caso resolvesse negar – ela comentou. – Christow, não quero que você pense que eu não o acho interessante, porque você é um cara interessante. É bonito, inteligente e descende de uma família excelente – enumerou. – Mas a verdade é que, para mim, a primeira impressão é a que fica, e é bem difícil eu mudar minha opinião quando acredito em alguma coisa. E, desculpe a sinceridade, mas eu não tolero caras ‘cheios de si’. – Foi conclusiva, mas continuou: – Mas você é isso... Por um lado, um cara arrogante, prepotente, pretensioso... Por outro, um meninão louco pela irmã mais nova, a quem reservava um tratamento tão singular, cheio de carinho... Um irmão a quem essa garotinha idolatra. Você conseguiu me deixar em dúvida ao seu respeito pela primeira vez.
A morena suspirou e colocou a garrafa de água sobre a mesinha, voltando a sentar no sofá. Agora ambos estavam de frente um para o outro, mesmo à distância.
Herod tinha os cotovelos apoiados nos joelhos, as mãos unidas e entrelaçadas apoiavam o queixo. Tiffany levou uma das mãos à testa e pressionou os dedos – todos eles, a mão em forma de pinça por
toda a extensão da fronte, movimentando-os repetida e vagarosamente para lá e para cá. O loiro subentendeu com isso que ela estava ponderando.
Um novo suspiro e ela uniu as mãos, entrelaçando os dedos e deixando as mãos, ainda unidas, penderem por entre as pernas postas de modo desajeitado – ela sempre detestou ficar sentada quando estava de salto alto.
- Então nossos encontros casuais se repetiram por algumas vezes e, eu acredito, os interpretei de forma errada, levando em conta essa primeira impressão que eu guardo de você – uma pausa. – E te tratei exatamente como você me trata agora. Vejo como é terrível reservar um tratamento a uma pessoa sem antes nos colocarmos no lugar dela. Eu poderia ter sido ao menos cortês... – Ela deu um sorriso sem graça. – Meus filhos, principalmente Francine, gostam de você e talvez eu devesse levar isso em conta. Na inocência deles, talvez a opinião que têm sobre você esteja mais certa do que a minha. E eu nunca tive tanto medo – acrescentou. – Medo de estar certa; medo de estar errada...
- Quanto a isso, eu garanto que não sou o tipo que devora criancinhas no almoço – ele murmurou, sério.
“Sério demais para o tipo de comentário que fez”, Tiffany constatou.
- Olha, a única coisa que eu posso dizer é que você tem um instinto, uma intuição bastante certeira. Se algum dia você sonhar que ganhou na loteria, jogue. É bem capaz de você acordar milionária – Herod estava tão inexpressivo quanto antes.
- Você não é o primeiro que me diz isso – a morena retrucou com desdém.
Herod deu uma risadinha e voltou a ficar sério novamente.
- Ok, vamos por partes – ele suspirou. – Você esteve certa o tempo todo sobre mim. Um cara de trinta anos que pensa ter dezoito, que não faz nada da vida, não assume responsabilidades, não quer compromisso com nada nem com ninguém... Interessei-me por você, é verdade. Aliás, como todos os caras que te conhecem. Não sei se você se dá conta de como é uma mulher interessante e como faz os homens babarem por você onde passa. Mas acho que isso não vem ao caso agora. Nós estávamos falando sobre mim e as impressões que tem ao meu respeito, certo?
Tiffany teria corado se o seu sangue não tivesse fugido completamente de seu rosto. Ele falava tão rápido que parecia não querer ser interrompido, e a sutileza com que colocava as palavras... Aquilo a desconcertou – mais uma vez.
- Agradeço aos elogios que reservou para mim, mas não acho que eu sou tão inteligente assim e tenho certeza que o fato de vir de uma família influente e boa não faz de mim menos desprezível – a dureza como ele falou de si mesmo assustou a morena, mas ele não parou: – Digo que não sou tão inteligente pelo simples fato de ter feito o que eu fiz da minha vida. É claro que não me arrependo de nada, afinal, está feito, não é? E acho que perdi esse direito de me arrepender. – Herod deu um sorriso torto. – Mas quanto ao tratamento que recebi de sua parte, acho que foi bom, mesmo que tenha sido frustrante. Eu nunca havia passado por nada parecido. Nunca fui ignorado ou rejeitado, e você fez os dois.
Ele levantou e recolocou as mãos nos bolsos.
- Resultado? Eu acordei para a vida. Tardiamente, mas acordei. Estive pensando sobre tudo isso ontem e resolvi que estava na hora de ser alguém, fazer jus ao meu nome e ao que meus pais esperavam de mim. Desde aquele dia no parque eu já havia prometido a Anna – mas mais a mim mesmo do que a ela – que eu iria assumir a empresa de meu pai. Sabe, conhecer seus filhos me fez acreditar que eu ainda poderia ser digno de confiança, mesmo quando eu não a merecia. Eu também gosto deles, mas só tenho oportunidade de encontrá-los quando vou pegar Brianna na escola.
- Você sabe onde eles moram, pode muito bem ir vê-los quando tiver vontade.
- Não sei se a mãe deles gostaria muito da idéia – Herod murmurou.
- Ela só quer vê-los feliz e não deseja o mal de ninguém, nem mesmo o seu.
- Isso é bom. – Ele assentiu com um breve gesto. – Agora, continuando: não quero que você pense que me mudou. Desculpe a sinceridade, mas eu estou fazendo tudo isso por mim, e não por você. É como eu disse... Eu tenho trinta anos, não sou mais nenhum adolescente. Já passou da hora de eu assumir minhas responsabilidades. Para mim, o pior sentimento que se pode ter é a inveja e, mesmo que seja uma inveja boa, eu invejo você.
Tiffany não conteve um riso.
- Eu?
- É. Você tem uma família, tem um emprego estável, tem duas crianças maravilhosas que pode chamar de suas, porque são seus filhos... E eu sou um ninguém.
- Isso não é inveja – Tiffany disse veemente. – Isso é consciência, aliada a uma pitada de desejo de construir a sua própria vida – complementou. – Eu só espero que não seja com alguém como Pansy Parkinson.
Herod fora pego de surpresa. Seu rosto empalideceu, como se todo o sangue tivesse fugido de seu rosto e corrido para as mãos, que agora suavam.
- Pensou que eu não soubesse? – a morena se pôs de pé e andou até ele, os olhos fixos no rosto do loiro. – Pois eu espero que saiba que isso só confirmou tudo o que eu pensava a seu respeito, mesmo depois daquela tarde no parque, onde eu pensei que talvez pudesse ser alguém melhor do que eu imaginava.
- Decepcionada? – foi tudo o que ele conseguiu formular.
- Não posso dizer que estou decepcionada com alguém em quem depositei nenhuma expectativa. – Ela foi categórica em sua afirmação. – Mas meu conceito a seu respeito hoje é um grande emaranhado confuso. Posso até dizer que é inexistente. Você se tornou uma verdadeira interrogação desde a última vez em que nos encontramos. – Tiffany agora estava muito perto dele.
- Você sempre foi uma interrogação para mim. Um milhão de contradições. E estamos em mais uma de suas contradições, aqui e agora. – Herod deu as costas a ela e se afastou.
- Por que foge tanto?
- Fujo de quê? – ele olhou para ela por cima do ombro, o seu olhar cético.
- De mim.
- Estou mantendo distância. Pensei que era isso que você queria – o tom excessivamente calmo dele estava começando a deixá-la nervosa. – Além disso, eu não costumo dar trela para quem não gosta de mim. Disseram-me uma vez que indiferença mata, e eu passei a acreditar.
“Então você está me matando”, Tiffany pensou com desgosto.
- Quanto a suas acusações, aproveito a oportunidade para deixar bem claro que eu não tenho mais nenhum envolvimento com Pansy. – E o loiro soou sincero. Tiffany então percebeu que ele sempre fora sincero em suas colocações. – Pansy e eu somos amigos de infância, assim como meu pai é para o pai dela. Crescemos juntos, pelo menos até eu ir para Ohio.
- Espera aí: você disse que não tem mais nenhum envolvimento com a Parkinson. Em qualquer idioma bem falado e claro, isso significa que você já esteve envolvido com ela.
- Sim, estive. Não disse que a sua acusação não era válida, Haase – ele retrucou.
Silêncio. Tiffany bebeu um generoso gole de água e voltou a encará-lo.
- Você deve estar bastante feliz em perceber que esteve certa esse tempo todo, não é? Eu sou exatamente quem você esperava que eu fosse...
- Sim, eu estava certa – ela respondeu. – Até ontem – acrescentou. – É como eu disse... você se tornou uma interrogação para mim. Eu não te conheço, Herod Christow. Essa é a mais pura verdade, nua e crua.
Herod nada disse. Tiffany então caminhou em direção a ele mais uma vez, mas parou a pouco mais de um metro e meio de distância.
- Eu espero que ainda esteja em tempo de voltar atrás – então ela estendeu a mão para ele. – Tiffany Haase.
O loiro encarou a mão dela, depois fitou os seus olhos cinza. Hesitou um instante e só então apertou a mão que ela lhe estendeu.
- Herod Christow.
Tiffany então lhe ofereceu um sorriso tímido, ao que ele apenas acenou com a cabeça. Depois de alguns segundos, percebeu que sua mão ainda estava na dele e puxou-a, sem jeito.
Olhou o relógio de pulso e conferiu a hora.
- Oh, Deus! 12h35m – ela murmurou e encarou-o. – Acho melhor descer. Tenho que ver se as crianças estão comendo direito. Quando eles estão brincando, parece que eles esquecem do tempo e... Você sabe como são as crianças! – Riu nervosamente, indo até o sofá, recolhendo a bolsa e saindo da sala apressada.
Herod esperou antes de segui-la. Quando chegou à porta, sua mãe lhe parou.
- É essa a moça? – ela indagou.
Ele suspirou e desviou o olhar de Haydée Christow, depois assentiu em silêncio.
- Mas eu não estou fazendo isso por ela – ele acrescentou.
- Pode não ser por ela, mas ela foi de quem tirou inspiração e coragem. – Haydée replicou maternalmente. – Eu sei que não está apaixonado, mas eu posso jurar que vejo algo de diferente quando você olha para ela. Admiração, talvez.
Herod permaneceu em silêncio.
- Vá em frente, filho. Lute por ela – incentivou.
Ele balançou a cabeça negativamente e olhou a mãe nos olhos.
- Há muito para consertar em minha vida – disse. – E depois, muito a acertar com ela...
Haydée então deu um meio sorriso e beijou o rosto do filho, afagando seus ombros.
- Vem, vamos descer – ela estendeu a mão para ele.
Herod sorriu e pegou a mão da mãe, acompanhando-a de volta à festa da irmã.