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20. Capítulo XX


Fic: Harry Potter e a Wendelin Phoenix.


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Estava sentada sozinha num banco sob uma enorme árvore, os óculos escuros cobrindo boa parte de seu rosto, os olhos atentos sobre Chloe. A pequena estava distante, concentrada em suas “três bolas de sorvete de flocos com calda de leite condensado e granulado colorido”.


Sabia que a filha gostava de ficar sozinha, mesmo quando pessoas como elas nunca estavam sozinhas realmente. As várias vozes em suas mentes se encarregavam de preencher a falta de companhia. Por isso, muitas vezes surpreendia Chloe entretida com os pensamentos alheios. Era muito comum até para ela mesma, que já sabia como fechar-se totalmente diante daquilo.


Eram muitos os cuidados que ela tinha com a garotinha para que ela soubesse distinguir pensamentos de frases verbalizadas. O risco de responder aos pensamentos dos outros era grande, principalmente no caso de Chloe, sendo ela uma criança comunicativa e curiosa que adorava opinar em tudo. Então, desde que ela entrara para a escola, os exercícios diários de agilidade mental que ambas faziam se tornavam ainda mais rigorosos a cada dia.


Desviou a atenção da filha pela primeira vez desde que ela saíra para passear pelos jardins. Daisy acabara de se aproximar e sentar-se ao seu lado. Levou a mão à cabeça da cadela e acariciou-a.


Lembrou-se de Bichento. O gato não era a melhor companhia – era arredio, gostava de dormir e ficar sozinho –, mas o jeito engraçado e cara achatada dele faziam falta. Daisy era exatamente a companhia que ela gostava: silenciosa, companheira e fiel.


Quando deu por si, já estava sorrindo e brincando com a cadela. Afagou uma região atrás da orelha de Daisy e previu que ela ia se deitar.


- Não, Daisy! – repreendeu num tom firme, mas baixo. Daisy então se limitou a sentar sobre a grama fofa.


O ‘muro’ formado pelas tulipas atrás do banco se mexeu. Estranhou não ter ouvido a aproximação de ninguém. Levantou os olhos e espiou por cima do ombro. O sorriso em seu rosto ressurgiu rápido, natural, ao enxergar aqueles enormes olhos verde vivo lhe fitando. O rostinho era encantador, o queixo empinado, o nariz fino e arrebitado e a cortina de cabelos loiros e muito lisos lhe davam um ar angelical.


A menininha parecia uma fada – e, curiosamente, lhe lembrava Chloe.


Ela sorriu de volta, os olhos repletos de curiosidade.


- Olá! – Hermione cumprimentou.


- Oi – a voz da menina era clara, porém envergonhada. – Como é o nome dele? – Ela apontou Daisy.


- É ela. – A morena corrigiu, tomando cuidado para não soar rude. – O nome dela é Daisy.


- Eu posso tocar? – Os olhos da garotinha estavam desejosos enquanto ela olhava para a cadela.


- É claro – Hermione assentiu.


A menina então afastou a franja dos olhos e saiu de detrás das tulipas, sentando-se ao lado de Daisy sobre os próprios calcanhares. Hermione então soube por que não notara a aproximação da garotinha: ela dizia exatamente o que pensava.


Mas não demorou até que ela conseguisse visualizar um pensamento se formando. Era um cão, um golden retriever, como Daisy.


- Você tem um desses? – indagou.


- Eu tinha. O nome dele era Garth, mas ele morreu anteontem. – E Hermione sentiu uma pontada de tristeza na voz da criança. Os olhos verdes dela fitaram o seu rosto, curiosos. – Posso chegar perto de você?


Hermione não conteve um sorriso.


- É claro que sim – e afastou-se no banco para que ela pudesse se sentar. – Onde estão seus pais?


- Papai está trabalhando e mamãe foi para o céu. Eu não a conheci, mas sei que ela era muito bonita.


Hermione sentiu o coração apertar. Mas não havia dor ali, ela sabia. Estendeu o braço e tocou os cabelos sedosos da menina e afagou-os. Sob seu toque, a menina ergueu os olhos e sorriu.


- Meu nome é Zoe – disse.


- E o meu é Helena. – Não queria enganar uma criança, mas sabia que não podia se apresentar com seu nome verdadeiro; seria difícil explicar depois por que ela não deveria chamá-la daquela maneira.


Feitas as apresentações, não foi difícil engatar uma conversa animada com a garotinha. Descobriu que ela tinha quatro anos e fazia aniversário dia 28 de agosto, que estava ali com a tia e que ficaria na casa dela até o domingo.


- Mãe? – Chloe se aproximou e Hermione lhe passou tudo o que pôde para orientá-la via pensamento. “Sim, eu sei, mas nós temos que ir. Já vão dar 18h”, a pequena apressou-se em dizer em pensamento.


- Ah, Zoe, esta é minha filha. – Hermione apresentou.


- Como é o seu nome? – Zoe indagou, sorrindo para a garota mais velha.


- Chloe. – respondeu. “Ela é linda, não é, mamãe?”, dirigiu-se à mãe por pensamento.


“Sim, é uma criança radiante”, Hermione assentiu.


- Você parece muito com sua mãe – Zoe murmurou. – É isso que meu pai sempre diz para mim. Eu nunca entendi, mas acho que vocês são parecidas também.


Hermione e Chloe sorriram com o comentário.


- Zoe? – uma voz feminina chamou, preocupada.


E Hermione levantou os olhos para encarar a loira que se aproximava acompanhada de um homem que, a julgar pela aliança, era seu marido. Reconheceu ambos rapidamente e pôs-se de pé para cumprimentá-los.


- Hallie Priestly e Justin Fuller, que prazer vê-los por aqui – sorriu para os dois.


- Merlin, não acredito! – Hallie abriu um sorriso. – Quando tia Elizabeth disse que tinha voltado, eu quase não acreditei! É tão bom revê-la... – a loira abraçou Hermione.


- Para todos os efeitos, sou Helena Gauer – ela murmurou de modo que apenas Hallie e Justin pudessem ouvir.


E Chloe, é claro.


- Claro, fui avisada disso também – Hallie riu.


Hermione piscou para a loira e dirigiu-se ao homem alto de cabelos castanhos.


- Como vai, Justin?


- Muito bem, espero. Essa folga veio a calhar – ele sorriu.


Hermione então notou que Hallie não estava mais ali. Virou-se e viu a loira arrumando o macacão de Zoe.


- Vocês conhecem Helena? – Zoe estranhou. – Ela é tão legal, tia Hall. E ela tem uma cadela igual ao Garth, olha! – a menininha apontou.


- Vejo que já conheceu minha sobrinha, não? – Hallie se pôs de pé novamente, sorrindo.


- Sim, ela é encantadora. E parece tão inteligente quanto Karen – Hermione assentiu e acrescentou a observação, agora que deduzira de quem se tratava a mãe que a garotinha tinha perdido.


- Oh, sim, elas se parecem muito! – Hallie concordou. – Mas a cada dia que passa ela tem mais traços do pai.


“Então suponho que os pais dela sejam realmente bonitos”, Chloe pensou e Hermione assentiu discretamente para ela.


- Você conhece Chloe, não é? – a morena fez.


- Conheço, sim – Hallie tocou a ponta do nariz de Chloe com o dedo. – Sei que ouve isso de todo mundo, mas ela é a sua cara! – comentou. – Como vai, pequena Chloe Ann?


- Acho que estou bem. – Chloe respondeu dando um meio sorriso. “Ela sabe que está grávida?”


Hermione negou discretamente, mexendo os olhos para lá e para cá.


“Acho que vai ser uma surpresa e tanto, então”, Chloe continuou.


- E então, por que não tomamos um sorvete, já que estamos todos juntos? – Justin sugeriu.


- Ah, eu adoraria, mas nós temos que ir. Chloe acabou de voltar justamente para me lembrar de que temos um compromisso. Vamos receber Chad, Elloe e Carol hoje para um jantar. – Hermione explicou.


- Entendo. Então fica para a próxima – Hallie foi quem respondeu.


- Bem, sábado vocês poderiam ir até a minha casa e eu prepararia um lanche especial para passarmos a tarde. O que acham? – a morena sugeriu.


- Eu quero ir – Zoe respondeu de imediato.


Hallie sorriu para a sobrinha.


- Eu acho ótimo! Nós iremos, sim – confirmou.


- Espero vocês, então. – Hermione despediu-se de Hallie e Justin rapidamente e voltou-se para Zoe, abaixando-se para ficar da altura dela. – Adorei te conhecer, meu raio de sol – e beijou a ponta do nariz da loirinha, que franziu o rosto num sorriso.


- Eu também – Zoe deu um abraço e um beijo no rosto de Hermione.


Hermione então ergueu-se.


- Vamos, Chloe? – e esperou a filha repor a coleira de Daisy, depois estendeu a mão para a garota. – Tchau, até sábado – piscou para Zoe.


- Tchau, Chloe. Tchau, Daisy – Zoe acenou.


“Eu posso?”, Chloe indagou.


“É claro, querida”, Hermione assentiu.


Chloe então soltou a mão da mãe e entregou-lhe a guia de Daisy, em seguida correu em direção a Zoe. A pequena a abraçou e Chloe lhe ofereceu um sorriso.


- Tchau, Zoe – e depois de dar um beijinho no rosto da menina, se afastou. – Tchau, Hall. Jus.


E eles se separaram, cada grupo seguindo uma direção. Hermione então olhou por sobre o ombro e percebeu que eles já estavam longe.


- Ela não conheceu a mãe dela, Chloe.


- É, eu sei. Ouvi um pedaço da conversa de vocês por acaso.


E Hermione não repreendeu a filha. Sabia que era verdade.


- Mas você conheceu, não é?


- Conheci, sim. Só não sabia que ela tinha uma filha – esclareceu.


- Eu acho que vou gostar muito dela.


Hermione não respondeu. Sentiu uma leve vertigem e pôde ver as duas conversando, sorrindo e se abraçando.


- Sim, vocês serão grandes amigas – assentiu. – Mesmo com a diferença de idade.


Chloe a olhou com o cenho franzido.


- O que foi?


- Eu também vou ter essas visões estranhas? – perguntou.


- Não, querida. Não é algo comum entre nós, Mangids.


- Mas Amy teve, eu vi nos pensamentos dela.


- Ter visões não é comum, mas ter maus presságios é absolutamente normal. – Hermione explicou.


- E se um dia eu tiver uma visão...?


- Não seria uma visão, você estaria profetizando sobre algo ou alguém. Acontece raríssimas vezes, uma vez na vida e mesmo assim é muito.


- Vou perguntar se Amy já teve uma dessas “coisas”.


Hermione apenas riu e voltou a sua atenção para o caminho que seguiam, perguntando-se em que época o Hyde Park era mais bonito: se no outono ou na primavera.


---


- Eles chegaram! – Os olhos de Chloe brilharam e ela se afastou da janela, correndo direto para a porta.


- Não, não, senhorita. Pode ir colocar a Daisy lá dentro, que o bebê de Chad e Elloe está com eles – Hermione avisou.


- E não se esqueça de lavar as mãos, também, se quiser tocar nele – a Sra. Granger completou.


- Tudo bem – a pequena assentiu. – Vamos, Daisy.


Chloe foi rápida. Em poucos instantes ela estava de volta, as mãos ainda úmidas.


A campainha soou e Hermione se aproximou com a filha para atender.


- Olá, família – Chad deu um beijo no rosto de Hermione e pegou Chloe no colo para beijar suas bochechas também.


- Eu estava com saudades – Chloe disse ao loiro.


E Hermione sabia que sim. Quando moravam em Oslo, e depois Helsinki, a pequena passava mais tempo com Chad do que com a própria mãe, o que foi crucial para uma proximidade ainda maior entre ambos. Maior porque ele vira Chloe nascer e convivera com ela desde sempre.


Atrás de Chad, veio Caroline e Hermione não pôde deixar de notar como estava bonita. Há muito não a via e até assustou-se com o mulherão em que a garotinha que conhecera se transformara.


- Carol, como você está linda. – Ela abraçou a loira.


- Você é que está maravilhosa, Mione. – Caroline sorriu, modesta.


- E Elloe! – Hermione cumprimentou a outra com mais cuidado, já que ela trazia um bebê no colo. – A maternidade te fez um bem que você nem imagina.


- Gentileza sua, Mione – a morena sorriu.


Mas era verdade. Elloe já era uma mulher bonita muito antes de ser mãe, mas agora até mesmo o corpo dela estava diferente e ela conseguira o impossível: ficar mais bonita ainda.


- Mamãe me contou que você teve um bebê – Chloe já estava no chão e se aproximava de Elloe. – Como é o nome dele?


- Shawn – Elloe respondeu. – Vamos entrar e eu deixo você pegar ele no colo, ok?


Eles estavam na sala, já acomodados, conversando animadamente. Hermione então reparou nas vestes totalmente brancas de Elloe e Caroline.


- Vocês estavam de plantão? – indagou.


- Na verdade, estamos a caminho do plantão – foi a loira quem respondeu.


- Que horas têm que estar lá? – O Sr. Granger olhou o relógio.


- Às 21h – Elloe respondeu. – É a equipe do Dr. Haase saindo e nós, entrando. Sempre foi assim.


- E como Chad vai levar o bebê para casa sozinho? – A Sra. Granger perguntou.


- Nós o levaremos de volta e seguiremos para o St. Mungus. – Elloe já devia ter feito isso algumas vezes, Hermione supôs, pela prontidão com a qual respondeu à pergunta.


- Eu ainda acho que ele é muito novinho para sair assim. – Chloe opinou e todos riram.


- Ele já está com quase dois meses. Claro que não é bom sair à noite com ele, mas estamos dentro de casa, longe do sereno, então não há problema nenhum. – Elloe explicou pacientemente.


- Ele é uma graça, Lole – Hermione esticou o pescoço para observá-lo mais atentamente. – Eu o pegaria agora, mas você sabe que com uma cadela excessivamente carente como a Daisy em casa, é impossível não se permitir fazer carinho ou brincar com ela, então eu vou ter de deixá-los um instante para me lavar, certo? – fez. – Enquanto isso, o Sr. e a Sra. Granger e Chloe farão companhia a vocês. Com licença.


Hermione se retirou.


- Que cor têm os olhos dele? – Chloe perguntou.


- Ainda são azuis, mas nós temos a mais absoluta certeza de que ficarão verdes – Chad respondeu.


- Como os dele e os de Elloe – a Sra. Granger completou.


- Sim. É um traço marcante da família Hastings, os olhos verdes. Eu me lembro que Carol tinha olhos azuis como bolas de gude quando era bebê – Chad contou.


- Só foram ficar verdes quando ela já tinha uns dois para três anos – Elloe continuou. – Era uma boneca, ela!


- E continua uma até hoje – o Sr. Granger acrescentou, sorrindo.


Caroline ruborizou e sorriu.


- Obrigada.


Quando Hermione finalmente voltou à sala, o jantar já estava sendo servido por Lucy. Já sentados à mesa de jantar, eles papeavam descontraídos. Shawn adormecera minutos atrás e Elloe finalmente pôde se juntar a eles.


- E aquele carrão lá fora, é seu? – Chad indagou.


- Oh, sim. Saí para buscá-lo pouco antes de vocês chegarem – Hermione respondeu.


- Eu que escolhi a cor. O azul era o mais bonito e mais diferente de todos, mas mamãe queria algo mais discreto, então ficamos com o preto mesmo. – Chloe contou. – É um Volvo XC60. Segundo o moço, o mais novo.


- Chloe! – Hermione repreendeu sem altear a voz ou parecer severa demais.


Chloe podia ouvir a verdadeira repreensão nos pensamentos da mãe, então aquietou.


- Na verdade, ficamos com ele por causa das viagens e da Daisy. – Hermione explicou.


- Não acredito que abriu mão do C30, Mione. – Caroline murmurou.


- Não, para andar na cidade é preferível o C30 – a morena garantiu.


O telefone tocou. Hermione aguçou os ouvidos para ter certeza de que não era o celular. Ela até esquecera de tudo o que já acontecera àquele dia. Não, não era o celular. E ela suspirou o mais discretamente que pôde.


- Eu atendo – Chad esticou-se e até equilibrou-se na cadeira para atender ao telefone que estava na bancada. – Alô? Ah, mas não é possível! Rhina Nielsen! – ele abriu um grande sorriso. – É, pois é. Oh, sim! Sim, ela está. Só um instante... Até logo! – ele passou o telefone para Hermione. – Rhina.


Hermione virou os olhos e sorriu antes de pegar o fone.


- Pronto, Rhina.


- Não me diga que você e o Chad...


- Só um instante, Rhina. Eu vou trocar de telefone. Está um tanto barulhento aqui – e Hermione desligou o telefone. – Vou até o meu quarto atender, se não se importam.


- De maneira alguma. Pode ir tranqüila, Mione – Caroline incentivou.


Então Hermione sorriu para eles e correu para as escadas. Nem estava tão barulhento assim, mas ela não queria falar ao telefone com Rhina na frente de sua família e amigos. Deus sabia o que elas falariam!


- Pode dizer – ela finalmente sentou-se na própria cama e pegou o fone novamente.


- Que vozes eram aquelas? Está dando uma festa?


- Na verdade, um jantar. Somente estão aqui meus pais, eu, Chloe, Chad, a irmã e a mulher dele – fez questão de ressaltar a última. – Ah, e o filho dele está dormindo num berço “portátil” também.


- Espera aí! Está me dizendo que Chad está casado? – a voz de Rhina pareceu surpresa, e era como se estivesse contendo um riso.


- Sim, está. E está aqui com a mulher e o filho dele – Hermione repetiu. – Vieram nos fazer uma visita hoje, afinal, eles nunca param em casa.


- Entendo. Mas então fiz bem em ligar antes de aparecer aí. – A outra comentou. – Eu e Anastásia estávamos pensando em ir até a sua casa, colocar o papo em dia, beber um bom vinho e varar a noite em seus deliciosos e macios sofás.


- Ora, então venham! Seria ótimo...


- Iremos assim que eles saírem daí. – Rhina interrompeu. – Não queremos atrapalhar nada.


- Ah, me poupe, Nielsen! – Hermione revirou os olhos e bufou. – Então quero vocês às 21h aqui.


- Como quiser. Estamos levando o vinho e alguns quitutes, só para passar o tempo mesmo.


- Vocês que sabem. Mas não precisam se incomodar e sabem disso. Aqui eu tenho tudo isso...


- Relaxe, Mi. Agora me deixe te contar...


“Estava demorando”, Hermione riu.


- Conte, Nina – pediu, ainda com um sorriso nos lábios, imaginando qual a história da vez.


- Breeze teve cria hoje de tarde! Seis cachorrinhos – o entusiasmo de Rhina era contagiante. – Tivemos que separá-la dos demais por conta disso. Ela estava ficando uma fera por causa da proximidade dos outros...


- Não me surpreende, visto que tem oito cachorros em casa! – riu. – Bem, tinha; agora são quatorze!


- Na verdade, são dezesseis. Ainda tenho dois da última cria de Nixe. Mas é por pouco tempo. Já tenho quatro dos mais novinhos prometidos a alguém.


- A quatro pessoas, você quer dizer.


- Sim, você entendeu. Ann está pensando em levar um – contou. – Você tem certeza de que não vai querer nenhum?


- Da próxima, talvez. Daisy já vale por dez!


- Tudo bem, então. Na próxima cria da Nixe eu guardo outra fêmea pra você. Por enquanto, vou guardar os dois que sobrarem até alguém se interessar. Também já vou ficar com os dois de Nixe, são dois machos! Mas se eu me apegar aos outros, sou capaz de ficar com todos.


Tanto Nixe quanto Breeze eram fêmeas de golden retriever. Daisy, inclusive, era filhote de Nixe. Ela tinha ainda dois machos de golden retriever, um casal da raça schnauzer e um casal de dois meses de rottweiler, ambos lindos e dóceis.


- Eu não tenho dúvidas quanto a isso.


- Eu não vou discutir com você. Meu amor, o sobrinho da vizinha...


- Rhina, se você me contar agora, não teremos o que falar quando estiver aqui – Hermione riu e cortou a amiga. – E depois, eu tenho que descer. Os outros estão me esperando e eu aqui, falando de cães e sobrinhos da vizinha.


Rhina suspirou. 


- Ok, às 21h, então. Beijos, querida! – e a linha ficou muda.


Hermione encarou o fone e riu antes de colocá-lo na base novamente.


“Rhina, se você não existisse, teriam que te inventar”, pensou enquanto descia as escadas.


---


O celular tocou novamente e ele ignorou. Aumentou o volume do iPod e continuou a sua corrida matinal às margens do Tamisa. A insistente vibração do aparelho telefônico já não o incomodava mais àquela altura.


Olhou rapidamente o relógio de pulso. 9h27m. Havia pouco mais de uma hora que estava correndo e só naquele período o celular tocara algumas – muitas – vezes; ele parara de contar na 17ª chamada.


Não era preciso checar para saber – ter certeza, melhor dizendo – de quem se tratava; desde as 7h Pansy Parkinson tentava falar com ele. Na verdade, desde a noite passada. Pra quê?


O que ela queria agora? Ele não ligara para ela no dia anterior? Não fizera o que ela pediu? E, ele estava convicto, em tempo recorde.


E ele só teve paz durante o período em que o celular passara desligado.


O celular parou de tocar.


- Finalmente! – ele bufou, parando de correr e iniciando um alongamento.


Estava alongando os braços quando alguém se esbarrou nele.


- Desculpe! – a voz feminina soou rouca e levemente ofegante, mas sua dona não parou de correr, apenas olhou rapidamente para trás, os cabelos castanhos cobrindo o rosto por conta do vento.


No mesmo instante, ele sentiu uma espessa gota de água atingir sua testa e escorrer pelo nariz, misturando-se a seu suor. Instintivamente, olhou para o céu, enquanto outras gotas caíam sobre seus cabelos loiros e ombros largos e desnudos.


- Você está mesmo me seguindo, não é? – a voz feminina soou novamente eu seu ouvido num silvo que misturava o rude ao sarcástico.


Ele baixou os olhos para encarar a dona da voz – que ele não reconhecera antes – e viu-se diante de Tiffany Haase.


“O tempo fechou, literalmente”, pensou assombrado.


- Desculpe desapontar-te, mas acho que dessa vez foi pura coincidência – ele murmurou em resposta, a voz indiferente. – A menos que você esteja me seguindo, é claro. – Ele concluiu e o celular voltou a tocar.


Pegou o primeiro aparelho e mirou-o atentamente. Sem pensar duas vezes, jogou-o no rio. Suspirou.


- Uau, bela maneira de se livrar de gente inconveniente. Parece que sabe exatamente como fazê-lo, não é? – Tiffany disse em tom de deboche. – Me ensina?


Ele respirou fundo, mas não respondeu. Baixou os olhos por um instante e então mirou o rosto dela, uma sobrancelha erguida e o desgosto claro em sua expressão.


- Até mais ver, Haase. – Foi tudo o que disse antes de dar as costas para ela e correr na direção oposta.


Herod estava cansado das constantes batalhas de ego que travava com ela e de todos os passa-fora que recebia ao final. Compreendera que ela não o suportava e aquilo era tudo.


Pensou então em si, na maneira que levara a vida nos últimos dez anos, o desapontamento que causara em seus pais... Aonde aquilo o levaria, afinal? O que estava fazendo com a sua vida?


Parou de correr e passou a caminhar, o olhar distante, reflexivo. Resolveu que estava na hora de mudar. Ele cumpriria a promessa que fizera a Brianna no parque e assumiria a sua responsabilidade na empresa de seu pai.


Não sabia como chegara àquela conclusão, mas aos trinta anos as coisas lhe pareceram sérias o suficiente pela primeira vez. Ele podia estar casado, construindo uma família e uma vida que poderia chamar de digna e feliz, e sua. Mas como ele poderia, quando a sua fama de playboy e “filhinho de papai” se espalhava por aí?


Ele perdera a conta de quantas mulheres interessantes conhecera ou lhe foram apresentadas em sua vida, quantas ele tivera e não engatara um relacionamento pelo simples fato de ser como era... Um cara que levava a vida “com a barriga”, sem se importar com o que fazia ou com as conseqüências que o feito traria. Um cara sem compromisso, sem por que nem pra quê.


E suas concepções só mudaram quando ele conheceu Tiffany Haase.


Ela era bonita de uma maneira exótica. Mais parecia uma encantadora de homens, uma leoa predadora que prendia a sua presa sem esforço algum, quase que inconscientemente. E além de ser atraente, ainda era um poço de surpresas, onde todos mergulhavam sem pensar. Era imprevisível, misteriosa... cheia de segredos a revelar.


Herod mais uma vez se perguntou se ela sabia como era atraente aos olhos dos rapazes, mesmo os mais inocentes, os que estavam na flor da idade.


Mas isso não era tudo. 


Ele a admirava não por ser uma mulher curvilínea e de traços tão sutis que chegavam a ser inesquecíveis e incomparáveis, mas por ser uma mulher madura, independente e mãe – mesmo que não fosse biológica. Uma mulher tão interessante, tão bonita e sozinha, mas feliz. 


Ela tinha uma família, filhos maravilhosos, encantadores... Vivia harmoniosamente com o pai, a madrasta e a meia-irmã, sem contar o filho da madrasta, a mulher e a filha. Era uma família diferente, mas ainda assim uma família.


Uma família que ele poderia estar construindo e nunca se interessara – na verdade, nunca parara para pensar a respeito.


Ele só queria curtir.


E caíra nas mãos de Pansy Parkinson, uma morena de olhos azuis, atraente e instigante ao extremo, sedutora como nenhuma outra.


Mas ele também estava cansado de ser o capacho de Pansy. “Pena que isso aconteceu um pouco tarde”, uma voz disse em seu inconsciente.


Pansy o levara aos extremos do que pensava ser capaz de fazer; ela passara dos limites, enlouquecera por conta de sua obsessão idiota e estava se afundando – e levando ele junto.


Chegou em casa não muito tempo depois. Estava acostumado a fazer aquele percurso todos os dias correndo. Chelsea-Tamisa-Chelsea. Abriu a porta de casa e logo a voz de sua mãe se fez presente:


- Herod?


- Sim, mãe – ele fechou a porta atrás de si.


- O que houve com seu celular? – ela se aproximou dele.


- Você quer uma resposta honesta, não é? – Herod estava sério.


- Ou o mais próximo disso. – Haydée Christow deu um sorriso.


Sua mãe tinha quarenta e sete anos, sendo apenas dezessete anos mais velha que ele. Ela era tinha os cabelos cor de caramelo, ondulados, o que fazia o azul de seus olhos parecer ainda mais intenso. 


- Eu me livrei dele. Joguei no rio Tamisa, mas eu vou comprar outro, não se preocupe.


- Não é com isso que estou preocupada. Brianna ligou para casa dizendo que precisava falar com você. Eu não entendi nada, mas também não tentei saber o que era – Haydée parecia levemente preocupada. – Acha que é o caso de buscá-la mais cedo na casa da coleguinha?


- Não, certamente está com saudade – Herod descartou em tom brincalhão, depois ficando sério. – Mãe, acho que eu preciso falar com você.


- Diga, meu filho – agora ela estava realmente preocupada.


- Eu esperaria Johnny para dizer quando estivéssemos todos aqui, mas...


Johnny, ou John Christow, era seu pai. Ele tinha o costume de chamar seus pais pelo nome quando não estava na presença deles, desde menino. Eles nunca pareceram se importar; eles não viam.


- Seu pai acabou de sair de casa.


- É, eu sei. Por isso mesmo que não vou esperar. Eu só quero que você ligue para ele e peça para ele providenciar a reunião com o conselho dos acionistas da empresa e arrumar uma sala para mim. Tudo para terça-feira.


O rosto de Haydée se iluminou.


- Está falando sério, querido? – ela sorriu.


- Nunca falei tão sério em toda a minha vida, mãe.


- Há uma moça envolvida nisso? – Haydée arqueou as sobrancelhas, sugestiva.


- Bem, eu gostaria de dizer que sim, mas dessa vez estou fazendo isso por mim.


- Ah, meu filho, eu estou tão contente! – ela o abraçou.


O telefone tocou. E Herod esfregou os olhos, desesperado. Ele já não agüentava mais o soar do toque de qualquer telefone que fosse. Quem atendeu, no entanto, foi sua mãe.


- Alô? – uma breve pausa. – Ah, querida, que bom que ligou de novo! Herod acabou de chegar aqui... Oh, sim, ele me disse. Mas como você sabia? – os olhos castanhos claros de Haydée se arregalaram por um instante, mas logo ela se recompôs. – Ah, é claro. Quer falar com ele, então?... Vou chamar. Beijo, querida! – ela despediu-se e estendeu o fone para o filho. – Ela quer falar contigo.


Herod pegou o fone.


- Diga, Anna – ele disse.


- Você e sua boca maldita! Agora eu consigo prever coisas – Brianna fez, desgostosa.


- O que você viu? – Herod notou que a mãe encarava-o curiosa.


- Bem, além de ver você contando para a mamãe que ia assumir a empresa? – ela indagou. – Vi você jogando o celular no Tamisa, vi você encontrando a irmã da Jen e os filhos dela, e vi a festa surpresa que vocês estão preparando para o meu aniversário – ela enumerou. – E não diga nada agora na frente da mamãe. Ela vai ficar desapontada. E a culpa é sua!


Herod pigarreou e olhou rapidamente para Haydée.


- Anna, eu vou pegar você às 15h. Você não vai ficar até às 17h, ok?


- Ok, tudo bem – ela desdenhou e Herod pôde visualizar a pequena Brianna dando de ombros do outro lado da linha. – Às 15h, então? E eu quero sorvete. Nem adianta argumentar, amanhã é meu aniversário!


E a linha ficou muda. Ele encarou o fone, exasperado.


- Sua filha é uma interesseira de marca maior! – murmurou para a mãe, que sorriu.

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