Desligou o telefone, atordoada.
Naquele momento, podia esperar tudo, menos uma ligação relâmpago de Rhina. Não que a outra ligasse para ela apenas para dar notícias como aquela. Pelo contrário; Rhina ligava com uma freqüência exagerada e os assuntos variavam desde “ordens para matar” até as maiores abobrinhas, como o seu caso com o sobrinho da vizinha ou seus cães de estimação.
Mas fazia três semanas que aquele celular não tocava.
Pensou no número de vítimas que já acumulara. Vítimas? Não, ela não podia chamá-los de vítimas. Mas eram cinqüenta e cinco ao total.
Já eliminara todo tipo de gente: de assassinos a donos de cassinos e cafajestes comuns. Mas nem todos foram homens. Já tivera de lidar com mulheres, com aquelas que se envolviam em coisas tão macabras quanto os homens. Nem sempre eram presas fáceis; ao contrário, algumas vezes eram até mais difíceis do que homens.
Estava consciente de que fora uma das poucas – se não a única – a trabalhar com mulheres.
Para ela, no entanto, era mais fácil do que para as outras. Suas habilidades permitiam que ela soubesse exatamente o que fazer na hora que tinha de ser feito. Prever o próximo passo do oponente certamente não era algo que qualquer um poderia fazer. E na grande maioria das vezes nem precisava de armas ou de sua varinha; as mãos eram o suficiente para abater a encomenda.
Voltou a lembrar da ligação e estranhou. Ela não estava pronta, estava? Estava; sempre estava.
- Herms? – uma voz tirou-a de seus pensamentos, trazendo-a de volta a lembrança de que Amy ainda estava na sala.
Jogou o celular numa poltrona qualquer e retornou à sala de visitas, onde Amy ainda a aguardava. Notou que a amiga estava de pé, aparentemente preocupada com a sua demora. Lembrou-se de manter a mente fechada, como fazia com Chloe e agora tinha que repetir o procedimento com Amy.
Disfarçou da melhor maneira que pôde, mas seu silêncio na sala ao lado pareceu denunciar.
- O que houve? – Amy indagou, o cenho franzido.
- Não se atreva – murmurou para Amy ao notar a concentração da outra Mangid.
Ela então sentou novamente no sofá e olhou para as escadas. Silêncio. Amy demorou a sentar-se no lugar onde a deixara instantes atrás e, quando o fez, foi lentamente, como se avaliasse a amiga cuidadosamente.
- Você está inquieta – ela foi categórica em sua observação. – Aconteceu alguma coisa, Herms?
Hermione não pensou muito para dar uma resposta, mas sabia que deveria parecer algo desagradável e, bom, não precisaria fingir – a situação em si já era muito desagradável; ela tinha que se livrar de sua melhor amiga no primeiro encontro que elas tiveram desde a sua chegada, cinco meses atrás.
- Desculpe-me, Amy. De verdade – ela baixou os olhos. – Acabei de receber uma ligação com a notícia da morte de um amigo e, bem, não estou me sentindo bem.
“Ótimo, e agora estou mentindo para ela”, pensou com desgosto.
- Oh, Herms, eu sinto muito. Mas se quiser eu posso ir e, prometo, amanhã estou de volta.
- Eu sinto muito, Amy. Não queria que tivesse que ir embora agora. Você acabou de chegar! Mas eu realmente preciso de um tempo, se é que me entende.
- Entendo, entendo. – Amy assentiu, ainda intrigada com o telefonema misterioso, mas sabia que a amiga tinha algum problema para resolver e, definitivamente, não parecia bem.
“Ela pode ter tantos amigos novos, não é? Na Suécia, na Noruega, na Alemanha, na Finlândia...”, enumerou em pensamento.
Resolveu então respeitar a amiga.
- Então eu volto amanhã, ok? – Amy repetiu a promessa e abraçou Hermione. – Fica bem, e se cuida. – Ela disse ao se afastar, encarando a amiga com um meio sorriso encorajador nos lábios.
Hermione retribuiu o sorriso.
- Obrigada, Amy – caminhou até com ela até a porta. – Traga as crianças para almoçarmos juntos, eu, você, Chloe, Sean e Gwen. E Aaron, é claro!
- Claro, Herms. – Amy assentiu.
- Amanhã, então! – Hermione viu a outra sorrir uma última vez e descer as escadas de mármore rapidamente, acenando antes de entrar num Aston Martin V8 Vantage grafite.
Viu também ela atender o celular, já dentro do carro, e desligar rapidamente para que pudesse dar partida e disparar rua afora.
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Podia não ter passado tanto tempo quanto planejara com Hermione, mas já estava satisfeita apenas em tê-la de volta e saber onde encontrá-la. Acenou para ela e abriu a porta de seu Aston Martin V8 Vantage – ela era apaixonada pelo seu carro, mas odiava o nome excessivamente grande dele.
Quando fechou a porta do carro e jogou a bolsa para o banco do carona, o celular começou a tocar. Ela pegou-o e conferiu o visor para ver quem ligava. Seus olhos se arregalaram e ela agradeceu mentalmente por o aparelho só ter tocado agora.
- Diga, Harry – atendeu.
- Posso saber onde você está, Amy Taylor Mackenzie? – a voz do moreno soou brincalhona.
- Em Notting Hill. Eu estava na casa de Helena Gauer – ela disse, sabendo que ele não desconfiaria de nada nem faria muitas perguntas a respeito.
- Hum, claro. – Ele murmurou. – O que você acha de almoçar comigo hoje?
- Acho ótimo. Mas antes eu vou passar na casa de Liah, ok? Ligo para você depois. Agora eu estou dirigindo.
- Ah, tudo bem. Ao meio-dia no Quo Vadis – e a linha ficou muda.
Ela suspirou e jogou o telefone de qualquer jeito dentro da bolsa. Deu partida e deixou-se engolir pelas ruas.
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- Helena Gauer – ele repetiu o nome, como se o avaliasse.
Já ouvira falar nela. Ao que diziam, era uma mulher exuberante e misteriosa. Era nascida na França, mas viera morar ainda pequena na Inglaterra – e ele sorriu sozinho ao lembrar que Hermione compartilhava de tal coincidência com a tal mulher – e já morara em boa parte da Europa.
- O que disse? – Scott indagou, o cenho franzido.
- Nada, não. – Harry despertou de seus devaneios. – Amy está a caminho de sua casa. Vai visitar Liah.
- De novo, você quer dizer. Ela esteve lá ontem também – o outro comentou. – Mas eu tenho que ir também. Vou entregar esses papéis ao ministro e depois vou para casa. Prometi almoçar com ela hoje.
- Eu sei, você já me disse.
- Você podia levar Zoe para almoçar com vocês – Scott sugeriu.
- Nam – Harry negou. – Hallie disse que esse fim de semana Zoe era só dela.
- Eu estou começando a me perguntar se já não está na hora de ela e o tal Fuller encomendarem a própria prole.
Harry riu com o comentário do amigo.
- Eu estou falando sério!
- Eu não tenho ciúmes da Zoe com a Hall, sabe disso. E depois, ela está casada há dois anos, apenas.
- E daí?
- Justin e Hallie adoram a Zoe. Deixem que eles curtam e se acostumem com a idéia antes de partir para os finalmente. Filho não é brincadeira, Olivier. E você vai saber disso muito em breve.
- Três meses – ele concordou e olhou o relógio. – Acho melhor eu ir. Vemo-nos mais tarde.
E ele deixou a sala sob o olhar do amigo.
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- Bom dia, Nancy! – Amy cumprimentou a secretária dos Olivier quanto esta abriu a porta.
- Bom dia, Sra. Mackenzie.
- Liah pode receber visitas agora?
- Sim, senhora. Ela está no quarto – informou Nancy. – Fique à vontade.
- Obrigada.
Amy seguiu até o quarto do casal, onde Liah estava recostada num monte de travesseiros, o controle da tevê na mão enquanto passava os canais sem parar.
- Eu não consigo ver você desse jeito – ela riu para a cunhada.
- E eu não agüento mais ficar nessa cama – Liah murmurou, exasperada, finalmente desligando a televisão. – E então, como foi?
- Rápido, mas proveitoso. Vou almoçar com ela amanhã – Amy contou.
- Hum, que bom. – Liah mostrou-se pouco animada e Amy sabia que era porque ela queria poder ir visitar Hermione também. – Mas por que você ficou tão pouco?
- Bem, ela recebeu uma ligação urgente. Parece que um conhecido dela faleceu e... Você deve imaginar como ela ficou estranha, não é? Então eu resolvi deixá-la sozinha para que fizesse o que julgasse melhor. E assim que eu entrei no carro o telefone tocou. Adivinha quem era?!
- Não faço a menor idéia! Chutaria Chad Hastings, mas ele já está casado com a Elloe e não ligaria para você, então... – A barriga de seis meses estava mexendo desconfortavelmente e ela se apoiou na cama para procurar uma posição mais confortável.
- Harry, Liah! Dá pra acreditar?
Liah encarou Amy sem entender.
- E daí? – ela arregalou os olhos e deu de ombros.
Amy estacou. Esquecera que Liah não sabia sobre Harry e Hermione. A morena de olhos azuis sentou-se à beirada da cama de casal e mordeu o lábio inferior, hesitante.
- Há algo que você quer me dizer? – Liah arqueou uma sobrancelha.
- Na verdade... sim. – Amy admitiu e fez uma pausa. – O Harry, Liah... ele é... – ela respirou fundo e fechou os olhos, concentrando-se na revelação que estava prestes a fazer. – Harry é o pai de Chloe e ex-namorado de Hermione.
Primeiro a surpresa, depois a confusão e, por fim, o choque perpassaram o rosto da outra como um raio. E quando ela falou, Amy temeu que o bebê nascesse ali mesmo.
- O quê? – Liah trovejou.
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Ela saiu do elevador exclusivo apressada.
- Bom dia, Hermione – uma mulher de cabelos castanhos ondulados, olhos extremamente verdes e lábios carnudos cumprimentou enquanto se aproximava.
Anastásia Kroc acabara se tornando uma companheira incomparável para Hermione.
- Bom dia, Ana – Hermione pegou uma prancheta que Anastásia lhe oferecia e analisou os papéis rapidamente, depois baixando-os. – Alecia?
- Ela e Rhina estão te aguardando na sala. – Anastásia informou. – Quando você ligou, eu as avisei que estava a caminho.
- Ótimo – a morena assentiu. – Olá, meninas! – passou cumprimentando a todas, enquanto elas mexiam freneticamente nos computadores.
- Olá, Mione! – Algumas responderam descompassadamente.
- Você vai comigo – ela disse para Anastásia e as duas chegaram ao fim do comprido espaço confuso, mas era como elas sempre diziam: “nossa bagunça é uma bagunça organizada”.
Elas irromperam pela porta onde Alecia e Rhina deveriam estar. Imediatamente Rhina se pôs de pé; Alecia, que já estava de pé – e, Hermione supôs, andando pela sala –, estacou. Ambas direcionaram seus olhares para a porta.
Hermione se permitiu passear pelos pensamentos das colegas, mas tudo o que via era um verdadeiro vendaval de mudanças constantes e pensamentos sem fundamento. Seus olhos então esquadrinharam as expressões delas.
Rhina irradiava ansiedade e temor, o que pareceu estranho a Hermione. Ela nunca vira a morena agir ou reagir daquela maneira, nem mesmo quando a morte a ameaçava. Alecia, por outro lado, parecia determinada, mas com uma apreensão contida, encubada.
- Obrigada por vir, Hermione – Rhina começou. – Eu não podia falar muito por telefone e Alecia...
- Eu exigi a sua presença – Alecia concluiu.
- Não se preocupem. Eu teria que vir aqui de qualquer maneira – Hermione amenizou. – Ana, é melhor que espere lá fora.
- Mas você...
- Ana, é melhor – Hermione insistiu.
- Tudo bem. – Anastásia deixou a sala silenciosamente, tanto que nem se ouviu a porta fechando.
- Deve ter achado estranho, não? Eu ligar com uma missão, assim, de repente após três semanas sem notícias...
- Nós devemos sempre estar preparadas para o trabalho, e o nosso é imprevisto, certo? – Hermione ainda tentava acalmar, e entender, o nervosismo de Rhina. – Relaxe, Rhina. Não se preocupe comigo.
Rhina então lançou um olhar urgente para Alecia.
- Essa missão não é como as outras, Mione. Dessa vez tudo vai ter que ser muito bem feito, e sem chances para falhas.
- Limpo, rápido e prático. – Foi Alecia quem continuou. – Você sabe que nós jamais marcamos esse tipo de missão para os fins de semana, mas o mandante pediu urgência e, mais do que isso, o melhor profissional.
Hermione franziu o cenho e apontou para si, cética.
- Você nunca falhou, Hermione – Rhina argumentou.
Aquela era uma verdade da qual Hermione tinha orgulho. Jamais falhara em seu trabalho. Sempre o executara com precisão e rapidez, muitas horas antes de o prazo extinguir.
- E qual o prazo? – ela indagou.
- O mais rápido possível – Alecia respondeu. – Mas acho que dessa vez nós burlaremos algumas regras. Trata-se de uma pessoa pública e você sabe em que implicaria se aparecesse morta em pleno fim de semana, principalmente na semana da Páscoa. Não, eu acho que ainda devemos deixar para executar durante a semana.
- Você tem 96 horas para se preparar e 48 horas para executar, a contar a partir do momento em que colocar o pé fora dessa sala. – Rhina instruiu.
- De quem se trata?
- Anastásia lhe entregará o envelope com o nome, foto e os locais onde pode encontrá-lo. O restante das instruções estão na prancheta que você entregou a Ana antes de ela sair da sala – a loira explicou.
- Manteremos contato com você durante todo o período até o início da missão e depois aguardaremos o seu contato. – Rhina continuou.
- Sem problemas. – Hermione assentiu.
- Pode ir. O restante do material você pode obter com as meninas. – Alecia liberou.
Rhina então se aproximou.
- Confiamos em você.
Hermione assentiu com um piscar de olhos e deixou a sala.
Determinada, seguiu em busca de Anastásia. Quando a encontrou, ela veio acompanhada de uma ruiva que ela reconheceu ser Frida Sax, a irmã caçula de Alecia.
- Aqui está o documento. Coloquei o restante das informações, as que estavam na prancheta, junto com a identificação da vítima. – Anastásia lhe entregou um envelope pardo.
- O restante do material você pode pegar na dispensa. Seu nome já foi identificado no malote. – Frida lhe entregou o cartão magnético de identificação.
Hermione acenou rapidamente e seguiu as instruções que recebera. Não se demorou ali dentro. O tempo corria sem pena.
O relógio marcava exatamente 11h quando deixou o prédio. Alguma coisa lhe dizia que aquela seria sua última missão, mas que seria a mais comprida e desgastante de todas.
Já segura em seu carro, abriu o envelope e tirou a foto da vítima. Sufocou sua surpresa. Não precisava ler o nome para identificá-lo.
Pareceria normal em qualquer situação; ela tinha uma vida em suas mãos, e a tiraria em breve. Mas a gravidade do problema estava ali, resumia-se àqueles simples dados que tinha sobre seu colo. E ela entendeu, finalmente, o motivo do nervosismo e da ansiedade das colegas.
Passou todas as palavras de Rhina e Alecia em sua mente e um detalhe chamou sua atenção:
“Você tem 96 horas para se preparar e 48 horas para executar, a contar a partir do momento em que colocar o pé fora dessa sala”, Rhina dissera.
Todas as regras haviam mudado, ela notou.
Ela nunca tivera tempo para se preparar antes. E 96 horas nunca lhe pareceram tão pouco.
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- Eu vou pedir que ela venha te visitar. – Amy prometeu após acalmar Liah e lhe explicar como se dera a profecia e qual a relação que Harry e Hermione mantinham antes do fim de Voldemort.
- E eu presumo que Scott não deve estar em casa quando ela vier, certo?
- Sim, mesmo não tenha a conhecido pessoalmente, creio que ele já tenha visto fotos ou algo do gênero. Harry falou a respeito de Hermione a ele.
- Mas Scott nem nenhum de vocês falam dela! Scott nunca... – Liah tentou argumentar.
- Eu sei, eu sei. – Amy interrompeu a cunhada. – Harry nos fez prometer, todos os amigos dele, que jamais falaríamos a respeito dela... E todos temos seguido rigorosamente o que prometemos, mesmo em sua ausência, respeitando o pedido dele. Eu abro algumas exceções quando estou com você – explicou. – Mas as vezes ele mesmo tem as recaídas dele, mas elas só vieram acontecer após a morte de Karen.
- Você acha que ele não a esqueceu realmente, não é?
- Eu tenho certeza que ele não a esqueceu – inevitavelmente, Amy ouviu os pensamentos de Liah e continuou antes que ela a interrompesse. – Não que ele não amasse Karen. Muitas vezes eu me permiti prestar atenção em ambos, na relação deles... Karen o amava com seu íntimo e por completo; Harry a amava, mas seu amor não era de todo devotado a ela. Ele a amou, mas nunca com a intensidade com a qual amou e ama Hermione.
- Mas de que tipo de recaídas você fala? – Liah pareceu não compreender.
- Ele próprio puxa o assunto “Hermione” e isso nos deixa... hesitantes, sem saber o que de fato fazer... – Amy tentou explicar. – É como se ele quisesse que quebrássemos a promessa que fizemos a ele. Eu, por exemplo, não falo nela nem mesmo quando ele começa.
- Eu entendo. Mas deve ser horrível para ele pedir que mantenham essa promessa quando ele próprio não quer mantê-la. Eu consigo imaginar a frustração pela qual ele passa quando tenta falar a respeito e vocês o encaram como se ele não soubesse o que está dizendo... Por incrível que pareça, Amy, eu já passei por isso. – Liah contou e mudou bruscamente de assunto: – Mas você tinha dito que a profecia está próxima de se cumprir... A volta de Hermione está diretamente relacionada a isso, não é? Por isso tem tanta certeza...
- Bem, levando em conta que eles quase se encontraram em York, eu posso dizer que isso vai acontecer a qualq... – Amy parou de falar subitamente.
Seus olhos perderam o foco e ela submergiu na escuridão de um mundo em que somente ela podia penetrar. As imagens dançavam ao seu redor e ela pouco conseguia identificar. Quando finalmente conseguiu prender-se a uma só, notou uma mulher encapuzada caminhando num corredor comprido, subindo escadas até alcançar o andar superior de uma casa grande...
Depois um gabinete vazio. Mais tarde, num quarto branco com detalhes em creme e azul marinho, os armários em marfim...
Aquela casa... ela reconheceria em qualquer lugar, mas principalmente aquele quarto, que passara todos aqueles anos fechado...
Na cama, a imagem da mulher sem o capuz, adormecida, as madeixas ondeadas cor de caramelo descansadas sobre um travesseiro branco...
Tudo girou e ela estava de volta. Percebeu que estava sem fôlego e seus pulmões imploravam por um pouco de ar que fosse. Voltou a respirar com certa dificuldade, mas logo alcançando a normalidade.
- Amy, droga! Você está bem? – Liah já estava quase sentada na cama quando os olhos azuis focalizaram o seu rosto. – Eu já ia cometer uma loucura aqui! – Ela recostou novamente. – O que houve?
- Chegou a hora – foi tudo o que Amy disse, quando na verdade apenas chegara a uma conclusão sem nenhuma intenção de dizer em voz alta. – Liah, eu sinto muito, mas eu tenho que ir. – Ela suspirou pesadamente. – Scott está chegando, eu tenho que encontrar o Harry em dez minutos no Quo Vadis, então...
- Tudo bem, seu dia está um pouco apertado hoje, eu entendo. – Liah assentiu. – Posso marcar uma visita para semana que vem ou a agenda já está cheia?
Amy riu.
- Você é uma boba, mesmo! Eu volto no domingo ao final da tarde, tudo bem?
- Eu acho que posso agüentar dois dias.
- Fica bem, então – Amy deu um beijo na testa da cunhada e acariciou a barriga dela antes de deixar o quarto.
Não sabia se era uma boa idéia encontrar Harry naquele momento, mas não podia simplesmente deixar de ir ou desmarcar. Então seguiu direto para o restaurante em que o moreno marcara.
Entregou o carro ao manobrista e adentrou o ambiente bem iluminado e impecável do restaurante. Não era um lugar grande, mas a comida era considerada uma das melhores de toda Londres.
Foi recebida pelo maître.
- Boa tarde, a senhora tem reserva?
- Na verdade, acredito que o Sr. Potter esteja à minha espera.
- Ah, claro. Queira vir comigo – o maître a levou até a mesa onde Harry já esperava. – Fique a vontade.
E ele se retirou.
- Pontual – Harry sorriu.
- Como sempre. – Amy ocupou a cadeira defronte a Harry.
O garçom então se aproximou e colocou uma pequena garrafa de água sobre a mesa, servindo uma taça em seguida.
- Obrigado – Harry agradeceu. – Vai querer alguma coisa, Amy?
- Só água, por enquanto. – Ela dirigiu-se ao garçom, que assentiu e se retirou.
- E então, Zoe vai mesmo passar o fim de semana com Hallie e Justin?
- É o que parece. – O moreno assentiu. - Com a morte de Garth é preferível que ela fique fora para não sofrer com a falta dele. Mas domingo é Páscoa e ela volta para casa ainda de manhã.
- E você pretende arrumar outro para colocar no lugar?
- Bem, eu mesmo sinto falta dele. Mas é complicado pensar que teremos que começar tudo de novo, nos apegarmos e depois passar pela perda mais uma vez.
- Ele estava velho, Harry. Com dez anos o cão já é idoso. Você sabia que um dia ia acontecer.
- Sei disso.
- E Zoe já sabe?
- Sabe. Ela ficou arrasada, mas aí eu conversei com Hallie e ela foi pegar Zoe. Pelo menos assim ela não vai ficar lembrando-se de Garth.
- Eu compreendo. E também acho que é melhor assim.
O garçom se aproximou e entregou-lhes os cardápios.
- Acho melhor fazermos o pedido de uma vez, antes que nos empolguemos, nos coloquemos a conversar fiado e atrasemos para o trabalho – Amy riu.
- Concordo com a observação, Sra. Mackenzie.
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- Você não foi trabalhar hoje? – Chloe estranhou ver a mãe em casa.
Ela fechou a porta às suas costas e Daisy veio correndo ao encontro de Hermione. A mulher acariciou a fêmea de golden retriever com um largo sorriso no rosto, brincando com a cadela. Lucy passou direto para a cozinha após um breve cumprimento à patroa.
- Da mesma forma que a senhorita não foi para a escola, Chloe Ann – Hermione brincou. – Não acha que mamãe merece uma folga, também?
- Não acha que eu mereço um passeio no Hyde Park com direito a um mega sorvete de flocos?
- Neste caso, acho que nós duas merecemos esse passeio, não?
- Concordo em gênero, número e grau – Chloe sentou-se no sofá ao lado da mãe a abraçou.
- Então iremos ao final da tarde, ok? Deixe Daisy pronta para ir conosco.
- Bem, eu e Lucy acabamos de voltar com ela do veterinário. Ela está limpa e cheirosa.
- Então a senhorita já sabe que vai ter que cuidar dela direitinho para ela não se lambuzar, não é? – Hermione assumiu seu papel de mãe. – Agora suba e vá tomar um banho para nós sairmos.
- Eu pensei que você tivesse dito final da tarde! – Chloe fez uma careta.
- Já são 14h, Chloe. E eu tenho que resolver umas coisas antes de irmos ao Hyde Park. Além disso, temos que estar de volta cedo. Chad vem nos visitar. Quer que ele chegue e não estejamos aqui?
- Sério?
- Sério. Ele virá com Elloe e Carol.
- Tudo bem, vou subir. – A garotinha virou-se e correu para a escada. Antes que a alcançasse, voltou-se para a mãe e voltou caminhando normalmente para o sofá, uma das sobrancelhas arqueada. – Você já almoçou?
- Ainda há pouco. Quando cheguei vocês tinham saído.
- É, eu pensei que você tinha ido trabalhar quando saiu mais cedo.
- Hoje quase ninguém trabalha, mocinha. – A mãe brincou com o nariz da filha. – Domingo é Páscoa, esqueceu? Então durante a semana toda, o trabalho fica mais fraco, e eu tratei de resolver todos os problemas dessa semana e da outra ainda ontem.
- Eu vou ganhar um bom chocolate, não é? – Chloe deu seu melhor sorriso.
- Como se você já não soubesse que eu trouxe o seu chocolate da Suíça.
- Era surpresa?
- Era. E a senhorita fique sabendo que é muito feio ficar olhando o que os outros pensam.
- Você também faz isso – a pequena argumentou.
- Pois eu tenho certeza de que você já ouviu o bom ditado que diz... – Hermione começou.
- Faça o que eu mando, não faça o que eu faço – as duas completaram em uníssono, Chloe revirando os olhos e Hermione sorrindo com a reação da pequena.
- Ainda bem que você sabe. Agora já para cima! – E ela correu atrás de Chloe escada acima, ambas aos risos.