Eram exatamente 13h26 quando chegaram ao Ministério da Magia. Ele tinha pouco mais que meia hora antes do segundo turno na Suprema Corte dos Bruxos.
Separou-se de Scott ainda no elevador.
- Eu vou à sala do Ministro – ele anunciou para o amigo quando pararam no primeiro nível.
- Cuidado – Scott alertou antes que Harry pudesse deixar o elevador.
Harry apenas acenou brevemente e deu as costas enquanto as portas se fechavam com o ranger costumeiro. O corredor estava deserto, embora pudesse ouvir ruídos de pessoas conversando em alguma parte do andar.
E, então, passos. A visão de Pansy Parkinson deixando a sala da Comissão de Registro de Nascidos Trouxas perturbou o moreno.
Escondeu-se atrás de uma das colunas de pedra fria de modo que ela não pudesse vê-lo, mas o inverso pudesse ocorrer.
Ela dobrava um papel e guardava-o num dos bolsos traseiros das calças que usava. Inevitavelmente, imaginou o que era aquele papel. Mas, perto do que viria a seguir, aquilo não passava de um mero detalhe.
Pansy encaminhava-se apressada para o gabinete do ministro. O ministro já devia estar de volta ao Ministério da Magia, visto que ele saíra alguns minutos mais cedo do restaurante.
Harry conferiu o relógio de pulso. Não faltava muito para o reinício da reunião e, provavelmente, o ministro estava se organizando para que pudesse seguir para o Velho Décimo Tribunal.
Enganara-se.
Ouviu Pansy bufar, contrariada, e socar a porta do gabinete do ministro. E novamente passos apressados em direção ao elevador. Harry encolheu-se então detrás da coluna sem poder observá-la. No entanto, podia ouvir o salto de seu sapato bater no chão marmóreo descompassada e impacientemente.
E então, ruidosamente, o elevador chegou ao primeiro nível novamente. As portas se abriram com ranger e passos mais silenciosos se fizeram presentes.
- Eu não esperava encontrar a senhorita antes da reunião, Srta. Parkinson – a voz de Gérard Glenn soou como um silvo. – E eu realmente espero que não tenha o desplante de sugerir mais de suas idéias por hoje.
- Eu não pretendia – a voz de Pansy estava carregada de escárnio. – Mas entendo que o senhor não queira manchar sua imagem de uma só vez.
- Eu não vou me tornar o que quer que me torne. Eu não vou ser como você.
- Sinto muito, ministro. Eu realmente não queria isso, mas não me restou outra opção – ela disse com falso pesar. – Infelizmente há erros que nos levam a caminhos sem volta.
As portas do elevador se abriram de novo e Harry soube que ele estivera ali o tempo todo, fechado, aguardando. Provavelmente o movimento de depois do almoço estava cessando.
- Até daqui a pouco, ministro – Pansy riu abertamente enquanto as portas do elevador se fechavam e ele descia.
O suspiro de Gérard Glenn foi pesado e alto o suficiente para que Harry pudesse ouvir mesmo àquela distância. Ele estava sozinho novamente. Ouviu os passos recomeçarem, suaves e sumirem após a batida surda de uma porta se fechando.
Respirou fundo, segurou o ar e depois o soltou todo de uma vez, longamente. Saiu de detrás da coluna e olhou à volta. Silencioso e deserto, o hall o encarava e lhe trazia pensamentos e conclusões.
Pansy Parkinson não o procurava já há algum tempo e, quando lhe falou aquela manhã, parecia confiante. “Confiante demais”, Harry acrescentou em pensamento. Ela parecia saber exatamente o que fazer e como aquilo lhe renderia a renovação de sua “credibilidade” dentro do Ministério.
Ela falhara, todavia. Bem no fim, quando o jogo já poderia estar ganho, ela falhara. Metera os pés pelas mãos numa proposta duvidosa. E mesmo assim conseguira manter-se confiante.
O ministro aceitara, afinal! Mesmo com a promessa de que iriam ser feitos ajustes à proposta, ela fora aceita.
Ele sabia que, uma vez dada carta branca para uma das propostas de Pansy Parkinson, aquilo lhe renderia um mundo de outras propostas que poderiam causar estragos e uma repercussão estrondosa dentro do Ministério, fossem elas aceitas ou não.
E então lhe ocorreu algo que ele não queria nem imaginar que fosse verdade: estaria o Gérard Glenn sob ameaça de Pansy Parkinson? Haveria uma chantagem por trás daquela súbita “aceitação”?
Associou os fatos: se ela não lhe procurara mais, é porque já não precisava mais dele – em outras palavras, conseguira algo muito maior para fundamentar sua chantagem, ou ela não estaria tão confiante. Ela nunca tivera tamanha cara-de-pau para dirigir-se ao ministro daquela maneira; ao contrário, ela sempre o tratara com um respeito fora do comum.
E, agora, quem parecia submisso a ela era ele.
Foi quando se lembrou de sua própria descoberta do dia e percebeu que a coisa havia ido longe demais – e ele ainda tinha esperanças de que fosse apenas uma possibilidade.
Ela tinha um trunfo sob a manga e sabia exatamente suas dimensões, o poder de destruição que ele teria se aquilo se tornasse público.
Sim, ela sabia da suposta amante do ministro.
---
Bateu à porta, o pulso firme e decidido.
- Só um instante – uma voz rouca respondeu.
A porta se abriu segundos depois e a imagem de uma mulher elegante se fez presente, baixa, magra e idosa, mas sem demonstrar fraqueza. Sabia-se que a mulher tinha mais de cem anos, mesmo conservando a aparência de alguém com seus sessenta e poucos anos.
Mesmo com seus cabelos eram completamente brancos que estavam presos num elegante coque no alto da cabeça, os traços de seu rosto eram retos e incrivelmente delicados. O nariz curto e arrebitado lhe dava um ar de superioridade.
- Boa tarde – ela dirigiu-se à senhora.
Griselda Marchbanks acenou brevemente com a cabeça.
- O que deseja? – indagou em seguida.
É claro que ela não a reconheceria. Ela nem a conhecia, para ser mais exata. A única vez que estivera ali, fora durante a madrugada e em forma de uma raposa. E nem assim fora vista.
- Olá, Madame Marchbanks, meu nome é Helena Gauer e eu gostaria de lhe falar um instante, se a senhora não se importa.
O rosto de Griselda tinha uma expressão confusa e Hermione sabia que ela havia estranhado a visita repentina e tinha dúvidas quanto a permitir-se ou não recebê-la em casa.
- Eu venho em nome de Madame Elizabeth Newbie – explicou-se.
- Ah, é claro. – Finalmente ela abriu espaço para que Hermione pudesse entrar. – Venha, entre.
Quando já estavam na sala de visitas da casa e devidamente acomodadas, Griselda Marchbanks lhe entregou um copo com água.
- Obrigada por me receber em sua casa, Madame Marchbanks – Hermione agradeceu, depois tomando um generoso gole de água.
- Você disse que veio em nome de Elizabeth, certo?
Hermione assentiu. Sabia que as duas eram amigas há anos. No fim das contas, ela apenas dissera as palavras mágicas ao mencionar o nome da Dama de Ferro.
- Desculpe-me por aparecer sem aviso, mas nós temos pouco tempo.
- Nós? – a senhora repetiu. – Bem, Srta. Gauer... é Gauer, não é? – Hermione confirmou com um aceno. – Muito bem, eu realmente não me incomodo em recebê-la, principalmente quando foi Elizabeth quem a enviou até mim, mas sem querer soar hostil, mal educada e até apressada, eu gostaria de entender o real motivo da visita. Parece-me algo sério.
- E é. Eu vou ser breve e bastante direta, Madame Marchbanks. – Hermione colocou o copo sobre a mesinha de centro e endireitou-se.
- Prefiro que me chame de Griselda, se não se importa.
Hermione pigarreou e, então, recomeçou:
- E-er... Griselda. Eu venho tratar de um assunto que para muitos hoje já não tem tanta importância quanto anos atrás, mas que ainda pode ser uma ameaça para grande parte da sociedade bruxa. – Ela abriu a bolsa e retirou um envelope lacrado de dentro dela. – Pansy Parkinson – resumiu.
- Ah, é claro! A garota que pretende excluir os nascidos trouxas da sociedade bruxa, mesmo que suas verdadeiras intenções não sejam verbalizadas de tal maneira – Griselda soou irônica. – Não gosto nada dos rumos que estão tomando as propostas de Parkinson dentro do Ministério.
- Acredite, a senhora não é a única que não está satisfeita com isso – a morena assegurou. – Infelizmente não posso dizer mais nada até que a senhora leia esta carta.
A senhora de cabelos brancos não hesitou em tomar a carta das mãos de Hermione. Conferiu o lacre.
- Elizabeth – murmurou antes de abrir o envelope e, depois, o pergaminho.
Hermione aguardou que ela lesse em silêncio.
- Eu vou ajudar a WP – Griselda anunciou, por fim, dobrando a carta e jogando-a na lareira. – Ela disse que você me explicaria como posso fazê-lo, então... estou aguardando.
Um meio sorriso se formou no canto dos lábios da morena e ela conferiu o relógio de pulso por um instante. “Temos apenas dezesseis minutos”, observou.
- Talvez a senhora não queira se envolver tão a fundo. E não precisa; de maneira alguma! Nós só gostaríamos de deixá-la ciente de nossas intenções, pedir autorização para que possamos continuar usando o seu nome em nossos interesses e, por fim, garantir que a senhora possa responder conscientemente às perguntas que poderão ser feitas sobre determinados assuntos que poderiam nos comprometer – Hermione foi categórica em suas palavras. – Mas, além disso, tudo o que queremos realmente é que a senhora possa contribuir com algumas mechas de seu cabelo.
- Infiltrar-se na Suprema Corte dos Bruxos – ela murmurou. – Eu só preciso saber até onde vocês foram para assumir o meu lugar.
Hermione então entendeu o que ela queria dizer e sorriu, satisfeita.
---
Todos já haviam assumido seus lugares e agora aguardavam o ministro. Quando este finalmente chegou, prepararam-se para iniciar a segunda sessão da reunião.
Antes que Gérard Glenn pudesse abrir a boca, no entanto, a porta da sala circular se abriu e Griselda Marchbanks adentrou o aposento.
- Desculpem-me o atraso – ela murmurou e seguiu para tomar seu lugar próximo à mesa do ministro.
- Todos estão presentes? – o ministro indagou em voz alta. Nenhuma resposta. – Muito bem, então creio que possamos começar.
Dessa vez, no entanto, foi interrompido por um verdadeiro estrondo. A porta estava escancarada e, emoldurado pelo seu portal, estava Alvo Dumbledore, parado, as vestes vinho lhe caindo elegantemente.
Nenhum membro ali presente pareceu disposto a esconder a surpresa – e Harry julgou impossível escondê-la naquela situação. Dumbledore tinha a expressão branda de sempre e parecia não notar os olhares que se voltavam para ele.
- Boa tarde, senhores. Infelizmente tive alguns imprevistos e não pude chegar a tempo. Espero não ter interrompido – ele disse com a voz clara e precisa.
Harry olhou para o banco vazio ao seu lado. O mesmo banco que estivera vazio durante todos aqueles anos; dez, para ser mais preciso.
Os olhares acompanharam o recém-chegado até que ele assumisse o seu lugar e o ministro retomasse a palavra, visivelmente perturbado ainda.
Dumbledore não olhou para o lado em momento algum durante todo o período que passaram ali dentro. Era como se ele nem estivesse ali realmente.
Harry pôde ver que Pansy Parkinson era, de longe, a mais perturbada com a presença de Dumbledore, como se aquilo a intimidasse. E era exatamente o que Harry previra que aconteceria se um dia o diretor da Escola de Magia de Hogwarts voltasse à Suprema Corte dos Bruxos – e sentiu-se satisfeito por isso.
No fim das contas, o moreno mal prestou atenção à reunião. Antes que pudesse se dar conta, esta chegara ao fim e todos os bruxos já estavam se colocando de pé. Muitos vieram cumprimentar Dumbledore antes de dirigir-se à saída.
- Como vai, Harry? – ele cumprimentou-o por fim.
- Surpreso – Harry admitiu. – Não imaginei que o senhor fosse voltar ao Conselho.
- Foi preciso, pelo menos para adiar algumas coisas – Dumbledore comentou, sério. – Agora venho renovar o meu alerta sobre Pansy Parkinson, Harry. Receio que tenha de dobrar a sua atenção com relação a ela.
- Eu não acho que ela vá agir agora. Não depois do que houve essa manhã... Ela está tentando recobrar confiança dentro do Ministério, mas acabou se precipitando com uma proposta duvidosa. – Eles conversavam aos sussurros enquanto a sala circular se esvaziava. Harry pôde notar Pansy seguindo o ministro e viu que Dumbledore também percebera.
- Ela não vai fazer nada, Harry, pelo menos até o final do próximo mês, mas receio que as propostas não vão demorar a aparecer. E, se as coisas acontecerem como presumo que irão, receio que você terá de intervir.
---
O mês de março estava indo embora tão despercebidamente quanto chegara. Harry Potter agora estava no gabinete do ministro da Magia resolvendo os últimos detalhes do controle que deveria se iniciar no início de julho.
- ... Ainda temos três meses para concluir o preparo dos bruxos que serão designados para tal tarefa – Gérard Glenn falara incessantemente pelo menos durante os últimos cinco minutos.
- Sr. Glenn, eu sugeriria que essas famílias fossem devidamente transferidas para vilarejos bruxos, onde não houvesse contato algum com trouxas, assim também seriam evitados acidentes e inconveniências, além de evitar também que fossem necessárias as constantes viagens que nossos obliviadores têm que fazer para reverter as conseqüências de demonstrações involuntárias de magia – Harry comentou. – O senhor deve saber como as crianças dessa idade são inconstantes e incapazes de controlar sentimentos, principalmente a irritação. Eu mesmo causei alguns danos similares quando vivia com meus tios trouxas.
Glenn pareceu avaliar a idéia.
- Claro – assentiu por fim. – É claro, Sr. Potter! Mas essa é uma idéia fantástica, magnífica!
- Mas, senhor, eu não terminei... – Harry tentou conter a excitação exagerada do ministro.
- Nós podemos colocar isso em prática imediatamente! Designaríamos uma equipe de bruxos especializada, que já tivesse alguma experiência em lidar com trouxas para que fizesse o serviço.
- Senhor, eu disse que sugeriria isso, mas há um porém – Harry agora assumira um ar mais sério.
O rosto do ministro também assumiu a seriedade que lhe era comum.
- Eu não entendo.
- Há complicações.
- Não existem problemas sem solução, Sr. Potter – Glenn retrucou. – Diga-me quais são as complicações e nós daremos um jeito.
- Nossos vilarejos não são grandes o suficiente para abrigar a quantidade de pessoas que seria necessário enviar para esses lugares. E depois, não são todas as famílias que vão se dispor a abandonar tudo para viver em vilarejos completamente bruxos e isolados. A vida fica muito mais difícil quando se vai para um lugar mais longe, essas pessoas terão que arrumar novos empregos e até se desfazer de negócios que já estavam bem instalados e progredindo. – O moreno argumentou. – E depois, esse tipo de processo exige tempo, não pode ser feito de uma hora para a outra. Trata-se de uma medida em longo prazo. É claro que nós podemos começar... E tenho certeza de que é algo promissor, que renderá bons frutos, principalmente em tempos onde enfrentamos a ameaça de que nosso mundo seja exposto aos trouxas.
Harry fez uma pausa e o ministro esperou que ele continuasse.
- Senhor, meus pais viveram em Godric’s Hollow, minha mãe era nascida trouxa, mas não deixava de ser uma bruxa. Não havia nada a perder se mudando para lá – ele continuou. “Na verdade, a mudança tardou a sua morte, garantiu mais tempo de vida a ela”, pensou com desgosto. – O processo com trouxas será muito mais complicado! Não tanto com os casais onde um é bruxo e outro é trouxa, mas e quanto aos casais trouxas com filhos bruxos? – então se lembrou: – É verdade que eu conheci uma família que se mudou para Godric’s Hollow, Deus sabe com quais referências, já que somente a filha do casal era bruxa, mas para eles pareceu interessante montar o negócio deles na região, já que não teriam concorrência.
- Compreendo as dificuldades, Sr. Potter, mas trata-se de um projeto que poderá ajudar no processo em que estamos nos empenhando. Claro que não é uma medida imediata; isso seria impossível! Mas nós podemos colocá-la em prática e levar as famílias aos poucos, deixá-las devidamente instaladas e depois continuar o processo – Glenn mantinha a voz calma, a expressão séria e os dedos entrelaçados sobre a mesa.
- Neste caso, sugiro que nós comecemos pelas famílias em que já há ocorrência de antecedentes bruxos – obviamente o pai ou a mãe.
- Sem dúvidas. Será mais conveniente que eles sejam os primeiros. Serão mais fáceis de convencer de tal medida, visto que já convivem com a realidade que nós estamos tentando mudar: a exposição do mundo bruxo.
- Além disso, seria possível refrear as propostas de Pansy Parkinson, pelo menos por um tempo – Harry acrescentou.
Naquele exato momento, houve batidas à porta.
- Diabos, eu avisei que estava em reunião! – o ministro bufou. – Entre.
- E por falar no diabo, aparece o capeta – Harry trincou os dentes ao ver Pansy Parkinson adentrar o aposento.
- Bom dia, senhores – ela cumprimentou com uma cordialidade exagerada. Ela lançou um olhar penetrante ao moreno de olhos verdes, que sustentou o olhar, o maxilar endurecido. – As propostas estão neste envelope, ministro.
Ela entregou o envelope pardo a Gérard Glenn e Harry nota que ambos trocam um olhar. Desgostoso, o ministro suspira e pega o envelope da mão dela, finalmente desviando-se do olhar da morena.
Pansy encarou Harry novamente e ele teve a impressão de vislumbrar um meio sorriso malicioso em seus lábios, um sorriso discreto e triunfante. Os olhos azuis da morena se intensificaram e faiscaram antes que ela erguesse uma sobrancelha e desse um sorriso simpático para ambos.
- Bem, com a sua licença, eu preciso voltar para a minha sala – ela anunciou e seguiu para a porta.
Harry ouviu fechá-la atrás de si.
- Senhor, acho que nós poderemos continuar essa reunião num outro momento, se não se importa – ele disse, debruçando-se discretamente sobre a mesa.
- É melhor, Sr. Potter. Eu não estou me sentindo muito bem – o ministro assentiu.
Harry se pôs de pé e abotoou os botões do terno que usava, depois colocando o sobretudo que jazia sobre o encosto da cadeira.
- Até mais ver, Sr. Glenn. – Disse com um aceno discreto, virando-se para sair da sala, carregando consigo uma pasta com os documentos que o ministro lhe passara aquela manhã.
Uma vez do lado de fora do gabinete do ministro, apressou-se em alcançar Pansy Parkinson. Ela já havia descido, aparentemente. Estava impaciente e não queria esperar pelo elevador. Rumou então para as escadarias, apressado.
Esperava que ela tivesse realmente se dirigido para a sua sala no segundo nível.
Harry havia pedido a transferência da sala de Pansy há exato um mês para que pudesse tê-la sob suas vistas. A antiga sala ao lado do Velho Décimo Tribunal voltara a sua antiga função de arquivo e sala de pequenas reuniões pré ou pós-audiências.
Além disso, a ala da Administração dos Serviços de Wizengamot ficava no segundo nível, o nível do Departamento de Execução das Leis em Magia, do qual era chefe.
Durante o percurso, foi interrompido por Cynthia que lhe falou algo sobre uns documentos que haviam chegado e ela colocara sobre a sua mesa, mas não lhe deu atenção.
- Leve isso para a minha sala – ele entregou a pasta do ministro para que a secretária a levasse. – Se alguém me procurar, diga que estou ocupado resolvendo alguns assuntos e anote os recados. Eu retornarei as ligações assim que estiver no meu escritório – instruiu.
Quando finalmente alcançou a ala da Administração dos Serviços de Wizengamot, ignorou a secretária e caminhou direto para a sala de Pansy Parkinson.
Encontrou-a ainda no corredor, já chegando ao seu destino. Adiantou o passo e puxou-a pelo braço, virando-a para si.
- Whoa, tem pegada – ela zombou e livrou-se das mãos de Harry. – Gosto de homens assim. São decididos, passam firmeza. – Pansy passou os dedos cuidadosamente pelo colarinho da camisa do moreno.
- Não seja tola – ele trincou os dentes. – Com o que você está ameaçando o ministro? – sibilou.
O sorriso de Pansy sumiu.
- Acho melhor entrarmos. As pessoas estão começando a olhar – ela olhou à volta.
Harry esperou que ela abrisse a porta da sala e entrasse para, então, segui-la. Pansy fechou a porta; ele não queria perder mais tempo.
- E então, qual a chantagem que você está usando contra Gérard Glenn? – ele insistiu.
- Eu não sei do que você está falando – ela desconversou sem mostrar qualquer sinal de nervosismo ou ansiedade. – A propósito, não pude agradecer pela mudança de ambiente. Obrigada, essa sala é realmente muito mais aquecida do que a outra, além de ser menos úmida, o que vai melhorar sensivelmente os meus problemas com a rinite...
- Não fuja do assunto. – Harry parecia enfurecido com a dissimulação dela.
- Eu já disse: não sei do que está falando – Pansy repetiu, seu rosto impassível. – Agora, se veio aqui para me cobrar explicação sobre suas divagações e suspeitas ao meu respeito, lamento. Só posso dizer que perdeu o seu tempo.
- Eu sei que você está chantageando o ministro, Parkinson, e você sabe exatamente o que está fazendo – ele socou a mesa. – Vai dizer que não está apostando na suposta amante de Gérard Glenn para fundamentar a sua chantagem?
Ela não vacilou nem por um momento, Harry notou.
- Eu não vou perder meu tempo ouvindo isso – ela tomou o seu lugar e assentou-se na cadeira. – Pode não parecer, mas eu tenho um trabalho aqui e, por acaso, você é meu chefe e sabe que se eu não tivesse, já teria me demitido.
Harry riu, irônico.
- Claro. Você simplesmente pára de me procurar e chantagear, então aparece duas semanas depois com uma autoconfiança que não é puramente sua, propõe idéias que restituiriam sua imagem de boa-moça e elas são aceitas. Sabendo disso, você então enfia os pés pelas mãos, e eu acredito, para testar se já poderia avançar além do que já fora e lança um controle sobre os casamentos dos bruxos, uma idéia para impedir que bruxos se casassem com trouxas. – Ele citou como se fossem as coisas mais normais do mundo. – E, incrivelmente, consegue arrancar uma aprovação do ministro, que sempre fora contra as suas idéias.
- É como diz o ditado, querido: água mole, pedra dura; tanto bate até que fura – ela riu. – Digamos que eu aprendi a jogar e venci pela insistência.
- É claro. – Harry assentiu. – E isso soaria como algo normal se eu não soubesse que a sua preocupação não é com a exposição do mundo bruxo, e sim o número crescente de mestiços na sociedade bruxa. Isso mata os mais rigorosos e exigentes, aqueles que eu prefiro chamar de preconceituosos – ele cuspia as palavras com uma facilidade que nem ele mesmo reconhecia. – Mas depois de saber de um segredo do ministro, um segredo que poderia lhe render uma boa ameaça à integridade e dignidade do homem mais importante no mundo bruxo, não é difícil associar os seus atos a ele ou concluir que o que você está fazendo é chantagem. – E então ele sentou-se, despreocupado. – E chantagem, querida Pansy, é crime.
Pansy o encarava sem mover um músculo ou piscar. A expressão dela era vazia, como se nada daquilo estivesse afetando-a. Depois de alguns instantes, ela checou o relógio de pulso e deu um breve suspiro.
- Já acabou? Eu tenho um compromisso pessoal dentro de dez minutos – ela anunciou.
Harry encarou-a, estupefato. A dissimulação daquela mulher ia além dos limites. Ele colocou-se de pé ainda falando:
- Eu realmente espero que pense no que eu falei. E agora não falo mais como seu chefe ou como chefe do Departamento de Execução das Leis em Magia, mas como auror – ele virou-se para ela. – Os dementadores certamente adorariam uma nova hóspede em Azkaban.
Pansy então se colocou de pé.
- Ok, eu acho que já ouvi o suficiente por hoje – ela ergueu as sobrancelhas, indiferente.
Logo ela já havia alcançado a porta e a abrira.
- Queira se retirar, por favor – ela pediu.
- Eu não pretendia ficar muito tempo. Já disse tudo o que eu queria dizer – ele passou por ela e saiu, sumindo rapidamente no corredor.
Pansy então bateu a porta e trincou os dentes. Então ele sabia?
Ela relembrou todas as palavras dele e balançou a cabeça de leve, imperceptivelmente até para ela mesma. Sim, ele sabia. E agora ela não era a única ali dentro que guardava aquele segredo.
Socou a mesa, e manteve o punho fechado. Forte demais, mais forte do que previra. Mas permaneceu impassível. Nem mesmo a dor a incomodou.
Bateram a porta, mas ela nem precisou responder. A pessoa já entrara.
- O que foi isso? – Herod Christow indagou. – O pessoal lá no hall já estava se perguntando se alguém estava destruindo uma sala aqui dentro.
- Harry Potter – ela limitou-se a dizer.
- Whoa, parece que o cara tem mesmo o dom de te tirar do sério – Herod murmurou com um ar sombrio.
- Em todos os sentidos – ela assentiu. – Mas ele sabe demais, Herod. – Pansy apertou os lábios por entre os dedos, pensativa.
- Se for sobre o que imagino, você realmente tem que estar preocupada. O cara é chefe do Departamento de Execução das Leis em Magia e um exímio auror – o loiro parecia mais preocupado do que ela, no entanto.
- Tem de haver alguma forma de tirá-lo do meu caminho – ela ainda tinha a visão turva, como se olhasse para o nada, como se olhasse para seus próprios pensamentos. – Potter se tornou uma ameaça para os meus planos.
- E como você pretende fazê-lo calar?
Pansy finalmente despertou e encarou Herod, um sorriso malicioso no rosto. Ergueu uma sobrancelha, sugestiva, e Herod pareceu entender.
- E você será o meu testa de ferro.
O loiro sentiu um arrepio perpassar sua espinha e o assombro tomou conta de sua expressão, fazendo Pansy rir.
---
A expectativa de Amy era crescente. Desde o retorno de Hermione, cinco meses atrás, ela ainda não pudera reencontrar a amiga. Sentiu-se desapontada pelo adiamento daquele encontro.
Ela sabia que Hermione assumira uma nova identidade e agora se chamava Helena Gauer – pelo menos publicamente.
Estava em Notting Hill e ela sentia-se ansiosa como não se sentia desde o nascimento de seus filhos. Parou defronte a uma casa e admirou por um instante. Em seu peito, o coração acelerou. Subiu a escadaria de mármore que levava até a porta e tocou a campainha.
Logo a porta foi aberta. Impressionou-se com a mulher que a atendera. Era Hermione, ela tinha certeza. Mas seus cabelos estavam extremamente lisos e um par de óculos bastante estiloso emoldurava seus olhos, dando-lhe um ar intelectual – mais do que ela se lembrava, se é que isso ainda era possível – e elegante. Como ela mudara!
- Não mudei tanto assim, acredite – ela brincou. – Como vai, Amy?
Amy perdera as palavras. Simplesmente não conseguia dizer nada. Seus olhos azuis arderam e ela teve que fechá-los, e respirar fundo, antes de abri-los de novo. Era inacreditável vê-la depois de tanto tempo.
- Venha – Hermione estendeu a mão para a amiga, que a segurou firmemente.
O calor que emanava a mão de Hermione lhe confortou. Agora ela tinha certeza de que não era um sonho, mas a mais pura realidade. Uma lágrima silenciosa escapou de seus olhos e ela abraçou Hermione, a porta ainda aberta às suas costas.
- É melhor entrarmos. – Hermione riu. – Estão pensando que você é louca.
Amy sabia. Podia ouvir os pensamentos mais estranhos vindos de fora.
- Entre. Acho que temos muito que conversar. E, depois... Há alguém que precisa conhecer – e finalmente Amy adentrou a casa e Hermione fechou a porta, depois parando e analisando a amiga com um sorriso engraçado no rosto. – Você não era calada assim.
Amy riu nervosamente e mordeu o lábio inferior.
- Você não imagina por quanto tempo eu esperei para poder te dar esse abraço, Herms.
Hermione fechou os olhos. Ouvir Amy chamando-a daquela maneira era como ouvir sinos tocarem nos seus ouvidos.
- É bom estar de volta – ela sorriu por fim.
- Nossa, como você pensa alto! – Chloe se aproximou com a testa franzida, como se aquilo a incomodasse. – É Magid também, não é?
Amy estava impressionada. Arregalou os olhos com a visão da menina e engoliu em seco. Estava diante de uma verdadeira cópia de Hermione, exceto pelos cabelos lisos e de um castanho mais escuro e pelos olhos, estes de um verde intenso.
Confirmou com um aceno, ainda abismada.
- Você não é a primeira que diz que eu sou o clone da minha mãe – Chloe murmurou. – São os genes, sabe? Dizem que eu herdei muito mais coisa dela do que eu imagino. Claro que eu sei exatamente o que eu herdei dela. Dá pra ler na mente das pessoas... Eu pareço tão inteligente assim? – ela parecia duvidar disso.
Hermione riu e Amy finalmente conseguiu encontrar palavras.
- Whoa! Você deve ser Chloe Ann, certo? – Chloe confirmou. – Você não parece inteligente; você é inteligente! – Amy corrigiu-a. – Sua mente trabalha numa velocidade incrível, de uma maneira que até você se assustaria se pudesse ouvi-la. É realmente impressionante. Mas não é nada perto de suas habilidades.
- Ser uma Mangid? – Chloe indagou.
- Exatamente, querida. Foi ela quem identificou que você era uma – Hermione assentiu. – Na época você tinha apenas cinco anos.
- Você acha que eu sou uma aberração, não é? – a garotinha perguntou a Amy.
- Não, de maneira alguma! Eu estou admirada! Nunca imaginei conhecer alguém que pudesse ter herdado essa habilidade – Amy explicou. – Na verdade, você é a única no mundo.
- É, eu andei estudando sobre isso.
- Mas o que mais impressiona é o fato de que suas habilidades se apresentaram muito precocemente. Normalmente só ocorre após os dezessete anos e você tinha apenas cinco quando começou a manifestar indícios de ser uma de nós.
- Já viu que vai ter alguém com quem conversar um bocado, não é, Chloe? – Hermione brincou. – Amy, eu realmente não gostaria de estar no seu lugar.
- Eu ouvi isso – Chloe olhou feio para a mãe. – Bem, está claro que vocês querem ficar sozinhas, então eu vou subir. Desço assim que vocês terminarem.
- Nada de escutar, ouviu bem, mocinha?
- Eu já sabia disso. – E Chloe começou a subir as escadas, sumindo no andar de cima.
- Ela é uma figura! – Amy riu.
- Você nem imagina – Hermione a acompanhou.
Caminharam para a sala.
- E então, como têm sido seus últimos cinco meses? – Amy perguntou antes de acomodar-se no sofá.
- Trabalhosos – Hermione esfregou a testa e tirou os óculos. – Trabalho às terças e quartas na Academia de Aurores e toda tarde tenho outro emprego para administrar... E ainda tem Chloe!
Ela omitira o terceiro emprego e o lugar onde trabalhava no segundo. Pela segurança de Amy e pela sua própria.
- O que acredito que não é um problema. A menininha parece ter dez anos a mais! – a outra comentou. – Os óculos e os cabelos lisos... parte do disfarce de Helena Gauer?
- Sim. Foi difícil me acostumar no início, mas agora já é como se fossem naturais do meu corpo.
- Difícil imaginar uma Mangid com problemas de vista – Amy riu. – Mas e os cabelos compridos? Não me lembro de tê-los visto tão grandes.
Hermione olhou por cima do ombro. Os cabelos castanhos claros pendiam até a sua cintura num corte em “V”. Não podia explicar o motivo da mudança, mas sabia que para Amy não haveria nada demais em ela estar com os cabelos compridos.
- É péssimo no verão, mas nada que um elástico ou presilha não resolvam – contou.
- Está muito bonito. Caiu bem em você.
- Obrigada. Mas me conte as novidades! Quando vai tra... – o celular de Hermione tocou. Ela interrompeu-se imediatamente. Era um de seus celulares. E justamente o que ela temia que tocasse na presença de Amy.
Fechou a mente no mesmo instante, alarmada.
- Desculpe, mas eu preciso atender. Assuntos de trabalho – ela correu para atender o celular na sala ao lado. – Hermione Granger. – Atendeu.
Não foram precisos mais do que alguns instantes de silêncio para que toda a mensagem fosse transmitida.
Ela tinha que ir imediatamente para a sede da ‘empresa’ se preparar para uma nova missão. E quando saísse de lá, o prazo era claro: tinha 72 horas para matar a sua 56ª vítima.