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16. Capítulo XVI


Fic: Harry Potter e a Wendelin Phoenix.


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Deixou o carro num estacionamento e seguiu andando com os garotos rumo ao Green Park.


- ... Podemos andar até o St. James Park – Francine tagarelava ininterruptamente.


Herod já estava andando ao longe com Brianna ao seu lado. A menina dos cabelos platinados tomava sorvete e sorria. “Pelo menos ele não mentiu sobre a irmã”, Tiffany observou silenciosamente. Ela achara que ele inventara uma desculpa qualquer para segui-la.


- Querem alguma coisa? – perguntou às crianças.


- Algodão doce – Francine respondeu de imediato, como se já estivesse esperando a pergunta.


- E você, Josh?


- Sorvete de flocos, duas bolas.


- Exigente, você! – Tiffany sorriu. – Jen?


- Água – a loirinha resumiu. 


Já passavam das três da tarde. O sol não estava forte por conta do clima de final de inverno, mas ela sabia que àquele horário era péssimo para expor as crianças ao sol e agradecia por estarem sob a sombra das árvores. 


Afastou os óculos escuros do rosto e colocou-os na cabeça, como um arco nos cabelos, e seguiu para comprar as guloseimas de Josh e Francine e a água de Jennifer.


Jennifer já se juntara a Brianna e as duas estavam sentadas num banco mais afastado. Francine e Josh, por outro lado, estavam sentados a uma mesa próxima. Tiffany estava esperando o algodão doce da pequena quando Herod se aproximou.


- Olá – ele sibilou em seu ouvido e se afastou.


- Olá – ela cumprimentou simploriamente e sem ânimo algum em sua voz.


- Aqui está, senhorita – um rapaz lhe entregou o enorme algodão doce.


- Obrigada – Tiffany agradeceu e lhe entregou alguns trocados. – Tome, Fran! – chamou a pequena.


Francine veio correndo e tomou-o da mão de Tiffany.


- Obrigada, Tif – agradeceu e correu para se juntar à Brianna, Jennifer e Josh.


- É bonito ver uma família passando a tarde no parque. Não são todos que se dão esse luxo – o rapaz do algodão doce comentou.


Tiffany e Herod se entreolharam. Ela corou e ele simplesmente sorriu, mas nenhum dos dois corrigiu a observação do vendedor.


- É melhor eu acompanhar as crianças para que não se percam – Tiffany se afastou.


Herod foi logo atrás e a morena reparou que o loiro não lhe dirigia a palavra e mantinha certa distância dela.


Ela viu as crianças correndo por entre as árvores, brincando com os esquilos que andavam aqui e ali e com os cães que passeavam com seus donos no parque.


- Sua irmã é linda – ela comentou. – Parece uma boneca.


- Uma Barbie, você quer dizer – ele sorriu. – Ela é neta de uma veela.


- E você não? – a pergunta dela soou surpresa.


- Brianna não é minha irmã – Herod respondeu. Ele estava sério e caminhava ao lado de Tiffany, porém afastado. – Digo, não é minha irmã de sangue, entende? Meus pais a adotaram quando ela ainda era bebê.


- Que idade ela tinha, mais ou menos? – Tiffany se interessou.


- Uns seis ou sete meses. Faz pouco mais de dez anos que a temos conosco – ele contou. – Nós tínhamos acabado de voltar de Ohio quando minha mãe resolveu adotar uma criança. Ela queria uma menina, e como eu sou filho único e ela não queria arriscar uma gravidez aos quarenta, resolveu adotar uma – continuou. – E aí encontramos esse pingo de norueguesa.


- Você a ama como a uma irmã de verdade, não é? – pela primeira vez a morena sentiu que havia algo de bom nele.


- Sim – o loiro limitou-se a responder.


- Dá para ver como seus olhos brilham quando fala dela.


- Ah, é claro! – ele riu. – Não esqueça que ela é uma veela.


Tiffany sorriu.


- Uau, arranquei um sorriso de Tiffany “Durona” Haase – ele brincou. Houve uma longa pausa até que ele falasse novamente: – Seus filhos parecem carregar um pouco de sua personalidade, não é? Principalmente Josh. Francine é mais faladeira.


- Verdade, mas ambos são maravilhosos – os olhos dela brilharam.


- Aposto como seus olhos brilham mais quando você fala deles do que os meus brilham quando falo da Brianna – ele riu.


Tiffany baixou os olhos e esfregou as mãos nervosamente. Depois ela colocou uma mecha do cabelo atrás da orelha enquanto o vento insistia em tirá-la de lá.


- Eles são muito importantes para mim – ela assentiu.


- E o pai deles?


- Morreu – Tiffany respondeu e engoliu em seco antes de continuar: – Ele e a mãe deles.


- Mas você...


- Não – ela interrompeu. – Os pais deles morreram num ataque que aconteceu à casa deles dois anos atrás. A mãe deles era nascida trouxa e... Bem, os aurores concluíram que o pai deles tentou impedir... – ela não conseguiu continuar. – Eles me adotaram como mãe deles.


Quando ela finalmente levantou os olhos, Herod pôde ver que estavam cheios de lágrimas. Ele engoliu em seco e mordeu o lábio inferior.


- Eles te admiram muito – foi tudo o que disse.


Continuaram andando em silêncio. Tiffany tinha os olhos baixos e tentava olhar para todos os lados, menos para o loiro que caminhava ainda a certa distância.


- Fran, querida, não pode! – ela alertou alteando a voz por conta da distância. Francine estava correndo atrás dos esquilos. – Vai assustá-los desse jeito!


- Eu vou pegar um para mim – a pequena cantarolou e voltou a correr.


- Fran! – Josh correu atrás dela.


- Deixa, Josh – Tiffany gritou. – Eu vou pegar essa moleca.


E Herod viu um sorriso se alargar no rosto de Tiffany quando ela disse aquilo. A morena correu atrás da pequena como se tivesse a idade dela. Ao final, as duas caíram na grama, rindo. Tiffany abraçava Francine apertado pelas costas e a tinha sentada em seu colo agora.


- Pensava que ia me vencer, hein? – brincou, mexendo na ponta do nariz da garotinha com o próprio nariz.


- Promete que me dá um desses? – Francine perguntou, os olhos profundos cor de chocolate, pidões, brilhando intensamente.


- Uma chinchila, talvez – Tiffany riu.


- Tudo bem! – a pequena assentiu e a abraçou. Herod agora estava perto o suficiente para escutar a conversa delas. – Eu queria tanto que você fosse minha mãe de verdade.


- Sabe que eu te amo como amaria a uma filha, Fran. Você já faz parte da minha vida e é minha filha, quer você queira ou não – Tiffany respondeu séria, porém com um sorriso trêmulo que segurava as lágrimas atrás de si.


- Eu também te amo, mamãe – Francine abraçou a “mãe” novamente.


Havia algo naquela cena que mexia com Herod. Talvez as lágrimas emocionadas de Tiffany que vieram logo em seguida à declaração da pequena Francine, talvez o silêncio que era tão preenchido de sensações e palavras silenciosas... Ele, assim como as crianças, passara a admirar Tiffany Haase; e assim como Tiffany Haase, passara a ver naquelas crianças o sol que iluminaria a sua vida repleta de escuridão.


- Vamos, Tif? – ele não percebera que Brianna e Jennifer estavam de volta. Elas haviam saído para dar uma volta pelos jardins do parque. – Vamos antes que fique tarde. Eu ainda quero ir ao London Eye.


- Todo passeio termina no London Eye – Herod riu.


- Numa sexta-feira temos mais é que aproveitar, principalmente quando a nossa irmã mais velha está de folga – Jennifer comentou para Herod e Brianna.


- Eu não sou a sua irmã mais velha, Jen – Tiffany rebateu, como se as palavras da irmã a ofendessem profundamente.


- Mas Draco só tem folgas às segundas-feiras, e hoje é sexta! Logo... Hoje a irmã mais velha é você! – Jennifer sorriu vitoriosa.


- Vamos esperar anoitecer – Herod sugeriu. – A noite reserva maravilhas e privilégios que você nunca mais vai esquecer – ele piscou para Jennifer.


- Acredite, Jen, à noite o London Eye é inesquecível. Vai ser a coisa mais bonita que você vai ver na sua vida – foi Brianna quem assegurou.


- Nós também vamos? – Josh cochichou para Tiffany.


- Vamos – Tiffany murmurou. – Para casa! Vocês precisam de um bom banho, isso sim.


- Mas eu quero ir – Francine falou mais alto e pausadamente.


- Vamos, Tif – Jennifer insistiu.


Tiffany pareceu ponderar.


- Nós vamos para casa, tomamos um bom banho, trocamos de roupa e saímos para jantar. Depois nos encontramos com Herod e Brianna, tudo bem? – ela sugeriu.


- Obrigada, Tif – Jennifer abriu seu melhor sorriso.


- Eu prometi que meu dia seria de vocês, então, a programação também é de vocês – Tiffany suspirou. “Acho que eu agüento mais uma dose de Herod Christow”. – Agora vamos.


Despediram-se rapidamente e caminharam conversando animadamente. A mulher de vinte e sete anos e as três crianças: uma de dez, uma de oito e uma de seis anos.


“A escadinha”, Herod pensou sorrindo.


- Sabe o que eu notei? – Brianna indagou ao irmão.


- Eu duvido muito que você tenha apenas notado, Anna – ele murmurou.


- Quantas vezes eu vou ter que dizer que as habilidades de veela não passam de geração em geração? – ela alteou a voz enquanto caminhavam para o carro. – Eu sou neta de veela, e não uma! Portanto, as habilidades de adivinhar o futuro e curar não fazem parte do que eu sou.


“Infelizmente”, ela completou em pensamento.


- Tudo bem, você não pode curar, ou teria feito nos joelhos de Francine – ele analisou. – Mas você encanta do mesmo jeito.


- E se eu posso adivinhar o futuro ou profetizar, meu caro irmão, essa habilidade ainda não se mostrou – Brianna argumentou, como se não tivesse ouvido o comentário do irmão. – É incrível como você consegue ser irritante! Deve ser por isso que Tiffany não gosta muito de você.


“Ela só tem dez anos mesmo?”, Herod muitas vezes se assustava com a irmã. Ela agia como adulta a maior parte do tempo.


- Foi isso que você notou? – Herod deu um sorriso amarelo.


- Também – ela assentiu. – Mas eu notei que perto dela você fica diferente. Não os vi brigando, também...


- Isso porque mais cedo eu ouvi o suficiente para saber que não devo irritá-la.


- Vocês se encontraram antes?


- Dois breves encontros. Nenhum dos dois foi bem sucedido.


- E o que você pretende fazer?


- Dizer para nossa mãe que eu vou assumir a empresa – ele anunciou de prontidão.


“Uau, Herod está doente?”, Brianna arregalou os olhos. “O que Tiffany fez nele? Lavagem cerebral?”


- Não era disso que eu estava falando, idiota! – ela revirou os olhos. – Digo... você realmente parece atraído por ela e ela não simpatiza com você, não é?


- Quanto a isso, eu não sei – o loiro soou sincero.


- Nossa, deixei Herod Christow sem palavras! – Brianna zombou. – Eu precisava registrar esse momento. Não acontece todos os dias, certo?


Tinham finalmente alcançado o carro. Herod revirou os olhos enquanto a irmã ria gostosamente antes de abrir a porta e ocupar o banco do carona.


- Você vai mesmo assumir a empresa? – ela ainda parecia cética quanto a sua decisão.


- Assim que você fizer onze anos – ele ergueu a sobrancelha sorrindo.


---


- É impressão minha ou a casa está superlotada? – Harry indagou, assombrado.


Era domingo pela manhã e ele estava n’A Toca com Zoe – bem, não estava com ela agora porque a loirinha já estava correndo pelos gramados com a última geração dos Weasley.


- Ficou pior desde que Gina resolveu se mudar para cá – Rony murmurou. Eles caminhavam pelo quintal enquanto conversavam.


- Cumprindo uma promessa que ela fez em nosso último ano, lembra? – Harry sorriu. – As crianças que devem estar adorando!


- E como estão! – o ruivo riu. – Fred e Jorge prometeram que iam fazer um campeonato de Quadribol com a família Weasley esse fim de semana. Os mais velhos estão adorando, não é? Os mais novos não entendem nada, mas acham o máximo do mesmo jeito.


- As mães da criançada é que não devem estar muito felizes com a idéia...


- Angelina e Katie aprovaram. Gina e Lilá também – Rony comentou. – E mesmo que as outras não gostem, os gêmeos Weasley sempre dão um jeito de corromper os mais certinhos.


- Quantos times de Quadribol, já?


- São sete filhos, doze netos. Katie e Angelina também jogam – Rony contou. – Só aí temos três times.


- E Draco – Harry acrescentou. – Se eu contar como membro da família... 


- Claro, Harry! Nem precisava falar! – o ruivo revirou os olhos. – Zoe parece estar desenvolvendo o gosto pelos ares também, hã? – ele cutucou Harry.


- É, mas vamos esperar até que ela faça onze anos.


- Só se for para ganhar a primeira vassoura, porque vindo para cá ela vai começar a ensaiar os primeiros vôos desde cedo.


- Eu não vou impedir. Só quero que ela faça o que gosta – o moreno disse. – E você acha que a família pára de crescer por aqui?


- Falando por mim, já parou. Mas eu ouvi Fleur comentar que queria mais um e, segundo Deborah, vêm mais dois por aí.


- Todo mundo correndo atrás antes dos trinta e cinco – Harry riu.


- Depois fica mais difícil a fertilização. E a gravidez é de risco – o ruivo disse num murmúrio. – Não que eu entenda da coisa, mas é o que as mulheres dizem.


- E Gina?


- De início Malfoy queria um menino para completar a família, mas Gina vetou. Ela queria uma menina e só – e foi o que veio –, então o tempo foi passando e ele acabou por aceitar.


- Fred e Jorge... nada, não é?


- O maior orgulho de Fred são os gêmeos dele. Jorge tem vontade. Agora vá convencer Katie?! – Rony riu e brincou: – No fim das contas, ficamos mesmo com quatro times incompletos.


- Já dá pra jogar um bom campeonato com vinte e sete de nós, isto quando os bebês de Deborah nascerem e se Fleur e Gui realmente tiverem mais um – Harry riu. – E a aposentadoria?


- Resolvi adiar por mais cinco anos. Acho que já para levar até lá.


- Vai parar na Copa Mundial de Quadribol?


- E jogando pela Irlanda – Rony assentiu. – Mas está longe.


- Ultimamente eu tenho achado que os anos estão passando cada vez mais rápido, Rony. E “longe”, realmente, é só daqui a vinte anos. Isso sim está longe...


- Harry Potter ataca de filósofo novamente! – o ruivo brincou e os dois riram.


Era bom ter o amigo por perto por tempo integral. “Ou quase”, Harry sempre acrescentava em pensamento.


---


Três dias depois...


Ela caminhou para a porta e a abriu com um sorriso simpático e receptivo no rosto.


- Olá! – uma mulher de pele muito branca, cabelos castanhos na altura dos ombros e olhos de um tom cinza cumprimentou. Vestia uma calça jeans simples e uma camisa de cetim cor de vinho sem mangas. Estava levemente maquiada e usava um batom cor de ameixa clássico que se sobressaltava sobre sua pele bem cuidada.


Poderia dizer que as feições da mulher eram similares às de uma boneca. Era de uma beleza exótica, singular.


- Então você é Tiffany Haase? – sorriu.


- Sim, sou eu – confirmou.


- Entre, por favor – pediu e afastou-se para que a outra adentrasse seu apartamento.


Tiffany adentrou o apartamento hesitante. Quando ela passou por si, sentiu como se entrasse num transe. Estacou e fechou os olhos ao sentir o torpor invadir o seu corpo. Sua respiração parou instantaneamente e ela teve mais um dos constantes – e repentinos – flashes de sua memória.


Viu aquela mesma Tiffany alguns anos mais nova, vestida elegantemente em uma festa. Era uma lembrança distante, mas bastante nítida. A imagem se desfez e ela recobrou seus sentidos.


Suspirou pesadamente.


- Está tudo bem? – Tiffany indagou preocupada.


- Oh, é claro! Foi só uma vertigem – respondeu sorrindo novamente. – Hermione Granger – apresentou-se. – Como já deve saber – acrescentou e riu.


Tiffany sentiu-se mais à vontade com o riso de Hermione. Antes poderia ser apenas um sorriso por educação. O riso era diferente, sempre soava mais espontâneo.


- Eu me lembro de você – Tiffany reconheceu. Tinha uma vastidão de comentários a acrescentar ao seu reconhecimento, mas foi como se todas entalassem em sua garganta. – Não sabia que fazia parte da Wendelin Phoenix.


- Desde o princípio – Hermione murmurou, agora séria. – Por que não se senta? Gostaria de beber algo?


- Não, obrigada. Eu estou com um pouco de pressa.


- Trabalho?


- Sim.


E Tiffany notou que Hermione estava vestida como se estivesse indo malhar ou fazer uma corrida no parque.


- Bem, então eu vou pegar o material. Só um instante – e Hermione se retirou para o corredor.


Tiffany aguardou em silêncio. Ouviu quando a anfitriã bateu à uma porta.


- Chloe, adianta! Você vai se atrasar para a aula – ela abriu a porta e um cão enorme saiu de dentro do quarto que Tiffany presumiu ser da filha de Hermione.


- Hoje eu volto só às 17h, então é a vovó que vai me pegar. Não se preocupe comigo – Chloe veio na frente da mãe pelo corredor. – Bom dia – ela sorriu e cumprimentou Tiffany.


- Bom dia – ela respondeu e reparou na semelhança que a menina tinha com a mãe.


Hermione balançou a cabeça negativamente com um sorriso brincando nos lábios. Chloe mais parecia uma adulta de trinta anos do que uma criança de dez.


- Vá tomar café, rápido! – empurrou a garotinha para a cozinha e se aproximou de Tiffany. – Aqui está. Infelizmente não contamos com mais ninguém dentro do Conselho de Wizengamot, então eu tive que burlar algumas regrinhas do Ministério – deu um meio sorriso. – Leve os outros frascos com você e não esqueça de tomar um a cada hora. Para todos os efeitos, você será Griselda Marchbanks.


- Eu pensei que ela tinha renunciado o cargo treze anos atrás – Tiffany murmurou.


- Ela voltou – Hermione ergueu uma sobrancelha, sugestiva. – Eu já providenciei tudo. Você irá assumir daqui por diante a identidade dela dentro da Suprema Corte dos Bruxos ou Wizengamot, como preferir. Certamente irão perguntar sobre o seu repentino retorno, então você dá umas desculpas quaisquer, ok? Eu cuido dos outros detalhes.


Tiffany então imaginou quais seriam os detalhes a que a mulher à sua frente se referia. Analisou-a pelos olhos castanhos e inteligentes, e soube que podia confiar em Hermione.


- Tudo bem – assentiu por fim. – É melhor eu ir, você também parece estar atrasada, não é? – deu um sorriso tímido.


Tiffany se pôs se pé e caminhou para a saída. Hermione, que vinha logo atrás, abriu a porta e a primeira passou pelo portal para o lado de fora, depois se virando para encará-la.


- Não se preocupe, vai dar tudo certo – Hermione garantiu.


- Assim eu espero – Tiffany suspirou.


Tiffany já estava descendo as escadas quando Hermione foi impelida por algo a chamá-la novamente.


- Hum, Tiffany?


- Sim?


Ela viu pressa nos olhos da mulher, então resolveu deixar para depois.


- Se não se importar, venha durante o almoço.


- Claro – por sorte as crianças só eram liberadas às 15h e hoje quem os pegaria era Narcisa, então ela estaria livre. – Estarei aqui ao meio dia.


E a porta do elevador se fechou.


- Ela parece ter sorte – Chloe murmurou voltando à sala.


- Você não tem jeito mesmo, não é, mocinha? – Hermione brincou.


- Bem, você viu que ela não iria enfrentar muitas perguntas – a garotinha comentou. – Deixe para falar com Griselda Marchbanks depois do almoço, antes de ir para o Ministério. Você só precisa estar lá a partir das 14h. – ela continuou e olhou o relógio de pulso. – Você já está atrasada e ainda tem que me levar à escola.


- Daria tempo de ir agora de manhã, mas está cedo e é preferível à tarde. Agora eu tenho que levar Daisy ao veterinário, te deixar na escola e ir para a Academia de Aurores – Hermione completou. – Um detalhe é que você tem que estar na sala de aula em dez minutos.


- Sua mochila está no meu quarto – Chloe indicou.


Mais alguns minutos e as duas já estavam do lado de fora do apartamento acompanhadas por Daisy.


- Agora estamos as duas atrasadas – Hermione suspirou enquanto tirava o vira-tempo do bolso de seu casaco.


- Acho que uma hora basta – foi o que ela ouviu a filha murmurar antes assentir e de dar uma volta completa na pequena ampulheta.


---


Ele foi um dos últimos a chegar ao Velho Décimo Tribunal. Já começara a imaginar o que sairia dali antes mesmo de se encaminhar para lá. O lugar estava cheio, todos começavam a assumir seus lugares e conversar com os mais próximos.


- Bom dia, Potter – Pansy Parkinson cumprimentou-o.


- Vejo que está de bom humor – Harry notou.


- Excelente, Potter, excelente humor – ela ressaltou. – Não posso dizer o mesmo de você, ao que parece.


- Essa é só mais uma reunião onde tudo se repete, como sempre. Nada muda, nada sai daqui... Em resumo, é algo sem necessidade alguma!


- Ah, pois não se preocupe quanto a isso. Depois de quase cinco anos com essa joça parada, acho que mudanças virão por aí.


- Parece bastante convicta disso.


- Você sabe que um dia eu vou conseguir o que eu quero – ela sussurrou no ouvido dele. – Mas veja pelo lado bom: pelo menos assim você vai encontrar a Granger – Pansy riu e se afastou.


Harry sentiu como se tivesse levado um soco no estômago. Sua garganta secou e ele sentiu o sangue fugir de seu rosto.


Ele nunca pensara em tal hipótese. Em sua luta para esquecer Hermione, ele sequer lembrara que ela era nascida trouxa e que toda aquela idéia louca iria afetar a ela também. Pela primeira vez teve certeza de que Hermione estava fora do país e, se já não tinha esperanças de reencontrá-la, agora já abandonara completamente a idéia. Ela não voltaria enquanto Pansy estivesse lutando para estabelecer um novo regime sociopolítico no mundo bruxo.


Pensar nisso lhe deu forças para ir contra os princípios de Pansy Parkinson. Agora ele já não tinha nada a temer e iria lutar até o fim para evitar que qualquer idéia dela fosse adotada.


Seguiu para o seu banco e tomou-o, em silêncio total. Quando Gérard Glenn assumiu o seu lugar, a sala silenciou instantaneamente. A reunião começou sem muitas novidades. Foi dada carta branca aos aurores para embarcar numa caçada de peso ao bruxo misterioso, desde que um esquema de rodízio fosse montado antes.


- Sr. Glenn, eu gostaria de falar um instante, se o senhor não se importa – Pansy colocou-se de pé.


Os olhos de Harry e de todos os outros presentes fitaram o ministro. Ele demonstrou incômodo perante a situação, mas assentiu com a cabeça.


- Bem, vocês já devem estar pensando: “lá vem ela de novo com aquela velha história”, não é? – ela riu. – Sinto desapontar vocês. Pelo menos por enquanto – assegurou. – O que eu tenho a dizer é, de alguma forma, ligado ao assunto, mas é coisa boa. Após oito anos, nossa instituição de apoio aos casos de aborto está sendo um sucesso! Muitos estão saindo e ingressando na sociedade de uma maneira muito mais proveitosa que anteriormente.


- Isso é muito bom, Srta. Parkinson – o ministro pareceu relaxar.


- Sim, é esplendoroso! Mas ainda podemos aperfeiçoar algumas coisas e...


Ela continuou falando por vários minutos, dando sugestões que logo foram acatadas pelos membros do Conselho.


- Agora quero falar de um assunto mais delicado – Pansy recomeçou. – Estamos com sérios problemas com relação aos trouxas.


- Culpe aquele que está matando nascidos trouxas por aí – uma voz trovejou.


- Acha que seria o caso de alertar novamente o primeiro ministro trouxa, Sr. Glenn? – uma mulher indagou.


- É mais complicado do que isso. Não há muito que o primeiro ministro possa fazer – Gérard Glenn pareceu sério. – Creio que os ataques não irão parar. O bruxo que está por trás disso parece ser muito inteligente e saber como agir, afinal, ele está há oito anos por aí... Mas a preocupação da Srta. Parkinson não se deve apenas a isso, certo? – ele ergueu uma sobrancelha.


- Nós precisamos assumir o controle sobre os nascidos trouxas e isso vem sendo cada vez mais uma realidade. Vocês podem dizer que é um absurdo o que eu venho tentando dizer, mas nós temos que encarar os fatos. São cada vez mais trouxas que sabem da nossa existência e isso virá a nos prejudicar muito em breve – ela retomou seu discurso já conhecido por todos eles. – Não vou sugerir algo radical, acho que eu traumatizei os senhores com meus argumentos e minhas teorias... Mas eu acho que não há necessidade alguma de os familiares, além dos pais, saberem sobre a verdadeira identidade de um nascido trouxa: ser bruxo!


- E o que você sugere? – alguém perguntou.


- Sugiro que busquemos por aqueles que sabem demais e apliquemos feitiços obliviadores sobre eles, pelo menos a começar – Pansy respondeu. – Depois, será necessário que alguém ou algum departamento fique encarregado do registro dos nascidos trouxas e exerça um controle sobre suas famílias, instrua sobre o sigilo e garantam que este seja mantido – explicou sua idéia. – Agora vou sugerir algo mais difícil, mas que seria muito bom para ajudar nessa caminhada contra os males da disseminação de informações sobre nossa existência no mundo trouxa. Sei que alguns irão julgar a minha idéia e ir contra ela, mas tudo bem – ela riu. – Estou acostumada.


- E essa idéia é...? – o ministro instigou e agora estava realmente ansioso, o desconforto aparente em sua espera.


- Evitar envolvimentos entre bruxos e trouxas – ela respondeu prontamente. – Claro que isso não se aplicaria em relações familiares, trabalhos e negócios. Família é a base de tudo, afinal, e é impossível não se envolver profissionalmente quando se fala de negócios – assinalou. – Mas seria de grande ajuda que não houvesse relacionamentos mais íntimos, emocionais... casamentos entre pessoas dos dois mundos – concluiu. – Ok, eu sei que pode parecer uma visão preconceituosa, mas procurem entender... Um bruxo que se envolve com uma mulher trouxa e se casa com ela, certamente terá filhos, não? E como ele explicaria para ela o fato de a criança ter habilidades não comuns às pessoas normais? Não dá para manter nossa identidade em segredo nesse tipo de relação. É preciso confiança em ambas as partes... E só nesse ponto, mais um trouxa saberia da nossa existência. Compreendem o que quero dizer?


Houve murmúrios ao redor do aposento. Ela viu que alguns assentiam, mas a maioria ainda acreditava que era pura idiotice aquilo tudo.


- Senhor ministro? – ela dirigiu-se, finalmente, à Gérard Glenn pedindo opinião.


Harry estranhou o nervosismo do ministro, que agora tinha cinqüenta pares de olhos sobre si.


- Eu... – ele pigarreou. – Muito bem, o Quartel de Obliviadores será imediatamente acionado sobre esta questão e nós resolveremos o grosso do problema. Quanto ao registro dos nascidos trouxas, nós já temos encarregados quanto a isso: a Comissão de Registro de Nascidos Trouxas. Poderemos elaborar em nossa próxima reunião um pequeno estatuto sobre o sigilo que deverá ser mantido pela família, onde somente os responsáveis diretos pelo nascido trouxa deverão saber sobre sua condição. O controle deverá ser assumido pelo Departamento de Execução das Leis em Magia – o olhar do ministro caiu sobre Harry. – Srta. Parkinson, receio que tenhamos que nos reunir para aparar algumas arestas da última proposta e, talvez, depois convocar os jornais e revistas bruxos para que falemos a respeito.


- Claro, Sr. Glenn – Pansy assentiu.


Harry ouvia tudo perplexo. Como assim o ministro estava dando apoio a Pansy Parkinson? Ele também apoiaria, mas só até certo ponto. A idéia de evitar casamento com trouxas era absurda! Desde quando se prevê ou se escolhe por quem se apaixonar?


Glenn olhou o relógio de pulso e levantou o olhar para os presentes.


- Muito bem, teremos um recesso para o almoço. Estaremos de volta às 14h – ele anunciou e se levantou enquanto todos se dispersavam.


- Conseguiu o que queria, não é? – Harry sibilou para uma Pansy sorridente.


- Na verdade, não. Eu tinha que recobrar algum crédito, certo? – ela sussurrou em resposta. – Mas não se preocupe; estou apenas começando – a morena riu e sumiu de vista.


- Sr. Glenn? – Harry chamou. – Sr. Glenn? – conseguiu alcançá-lo.


- Sim, Sr. Potter? – o ministro parecia estar com pressa para sair dali.


- Desculpe incomodá-lo, mas... – Harry baixou os olhos e procurou as palavras para dizer. – Eu achava que o senhor era contra as idéias da Srta. Parkinson e...


- Eu não vi nada demais no que ela propôs – Glenn cortou-o.


- Vai dizer que apóia a idéia de evitar casamentos com trouxas? – Harry foi mais direto e menos formal em sua pergunta.


Glenn crispou os lábios e depois soltou um longo suspiro.


- Venha até a minha sala, Potter. Conversaremos melhor lá – ele disse, por fim.

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