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15. Capítulo XV


Fic: Harry Potter e a Wendelin Phoenix.


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Com um estalido, ele se materializou num lugar muito conhecido e familiar de sua adolescência, mas que ainda hoje costumava visitar. Observou as ruas vazias de Hogsmeade. Numa quinta-feira, certamente não haveria visitas ao povoado.


Pegou a estrada.


- Ora, se não é Harry Potter! – alguém disse.


- Madame Rosmerta! – ele se aproximou para cumprimentá-la.


- Como vai, garoto? – Harry sorriu. Ele e os outros sempre seriam garotos para aqueles que acompanharam o seu amadurecimento. – Não quer entrar e tomar uma cerveja amanteigada com uma velha amiga?


- Oh, mais tarde talvez – ele esquivou-se. – Tenho que ir a Hogwarts, mas prometo que volto aqui antes de partir.


- É claro – Madame Rosmerta assentiu com um sorriso simpático. – Estarei aguardando sua visita, então. Não pense que esquecerei, hã?


Harry pôde visualizar as rugas no rosto da proprietária loira escultural do Três Vassouras, por quem um dia seu amigo Rony teve uma queda. Antes parecia impossível que ela pudesse envelhecer.


Ele acenou rapidamente e se afastou.


- Mande lembranças a Eva por mim – murmurou e voltou a caminhar pela estrada.


Perguntou-se se Fred e Jorge estariam ali aquele dia ou se estariam no Beco Diagonal. Supôs que estivessem no Beco, já que não tinham movimento durante a semana na vila.


Logo estava alcançando os portões da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.


Parecia que estivera ali por toda a sua vida. Era incrível como nada mudava. Sabia que era um péssimo dia para visitas, mas não se importou muito. Ele tinha a manhã de folga e Zoe estava na escola, então não havia muito para fazer e visitar velhos amigos sempre era bom.


Viu Hagrid rodeado de alunos num canteiro próximo à Floresta Proibida, entre as árvores e a sua cabana. O amigo meio-gigante não podia reconhecê-lo àquela distância. Harry sabia que era ele por conta do tamanho inconfundível.


Observou um movimento repentino nas árvores e Grope saiu de dentro delas, pelo menos seis metros além do chão. Os alunos não pareceram se importar com a aparição ou proximidade que o gigante apresentava de si.


“Hagrid fez um bom trabalho”, ele sorriu e as lembranças das tentativas frustradas de adestramento que Hagrid tivera entre os seus quinto e sexto anos.


Grope hoje parecia civilizado, mas não menos assustador do que fora treze anos atrás. Estava vestido – e Harry se perguntou quantos e quantos metros de pano teriam sido costurados para confecção daquelas roupas tamanho “extra-gigante”.


Aproximou-se timidamente. Não queria interromper a aula de Hagrid nem chamar atenção para si mesmo. Foi em vão. Estava a mais de vinte metros de distância ainda quando Hagrid notou sua presença e acenou fervorosamente. De forma quase que automática, vinte cabecinhas se viraram para encarar o recém-chegado.


- Harry! – o meio-gigante o alcançou rapidamente com suas passadas largas. – Como vai, meu rapaz?


- Olá, Hagrid – ele cumprimentou. – Desculpe interromper a sua aula, eu realmente não...


- Ora, não se preocupe, rapaz! Acho que eles também não se importam muito com isso – Hagrid sorriu. – E então, o que faz aqui?


- Visitando velhos amigos.


- Dumbledore ficará realmente satisfeito em revê-lo. Ele e os outros professores. Por que não fica para o almoço?


- Bem, eu não sei se devo... – Harry não sabia o que dizer. O convite fora inesperado. – Zoe. Alguém tem que pegá-la na escola...


- Isso não é problema! Nós dois sabemos que as escolas funcionam em tempo integral. Poderá pegar sua menina depois do almoço – Hagrid sugeriu. – Dê-nos a honra de sua presença, Harry – ele insistiu.


Harry pareceu ponderar um instante. Não havia como fugir.


- Tudo bem – assentiu com um sorriso.


Seus olhos vagaram para o campo de Quadribol.


- Saudades de ganhar os ares, eh?


Harry sorriu, o pensamento ainda distante.


- Gostaria de ter trazido a minha vassoura – murmurou. – E então, sobre o que é a aula de hoje?


- Acho que você não iria gostar muito de saber – o meio-gigante apontou os caixotes atrás da cabana.


- Ah, não mesmo! – o moreno riu. – Explosivins.


- É a segunda turma com que vou trabalhar os nossos amiguinhos. Devo dizer que a primeira não me deu muitos problemas. Acho que esses garotos de hoje em dia já nascem gostando de brincar com fogo.


- Literalmente – Harry ressaltou. – Bem, acho melhor voltar para lá. Eles parecem impacientes e curiosos – apontou os alunos com a cabeça.


- É, bem... Vemos-nos depois, então – e Hagrid deu uma tapinha – pelo menos no ponto de vista do meio-gigante; Harry perguntou-se se ele ainda não aprendera a lidar com sua força – em seu ombro e se afastou.


Resolveu então que estava na hora de continuar. Ele realmente queria falar com Dumbledore. Sabia que o homem era um sábio, mas que muitas vezes tornava-se frustrante uma conversa com ele – Dumbledore costumava deixar muitas perguntas sem respostas e, muitas vezes, criava novas indagações. Mas havia coisas que ele preferia conversar com o diretor ao invés de simplesmente procurar Amy ou Sirius.


Ele alcançou o castelo já preparado psicologicamente para enfrentar as frustrações. O sinal tocou e ele se sentiu um gigante naquele corredor. Os alunos passavam apressados de um lado para o outro – mas não sem notar sua presença. Muitos apontavam, cochichavam... E as meninas davam risadinhas em meio aos cochichos. Lembrou-se de como aquilo o irritava nos tempos de escola.


Ele encarou a gárgula já se sentindo um idiota. Àquela hora seria impossível falar com Dumbledore ou com qualquer outro professor. Todos estariam em suas salas.


Notou que os corredores já estavam desertos novamente. Resolveu arriscar um passeio pela escola enquanto não podia falar com nenhum deles.


Quando deu as costas para pôr em prática o seu plano B, ouviu seu nome ser chamado.


- Harry Potter! – uma voz esganiçou-se às suas costas.


Ele virou-se.


- Dobby! – Harry exclamou, surpreso e o elfo se aproximou, fazendo uma reverência exagerada.


- Harry Potter veio visitar Dumbledore? – Dobby indagou, os olhos verdes grandes como bolas de tênis curiosos.


- Sim, Dobby – o moreno confirmou.


- Dumbledore está esperando por Harry Potter na sala da professora McGonagall.


Harry estranhou. Não que Dumbledore soubesse que ele estava aqui – ele saberia, era um Mangid, afinal! –, mas que Minerva McGonagall não estivesse em horário de aulas.


- Ah, tudo bem. Eu vou encontrá-los, então – Harry murmurou. – Obrigado, Dobby.


- Dobby iria com Harry Potter, mas Dobby tem que voltar ao trabalho – e ele viu o elfo sumir com um estalido.


Ele então se encaminhou para o terceiro andar, onde a sala da professora de Transfiguração ficava. Sem pressa, logo a alcançou e bateu à porta.


- Entre – foi a voz de Minerva McGonagall que ele ouviu.


Houve uma movimentação dentro da sala. Ele abriu a porta ainda hesitante.


- Como vai, Harry? – a voz de Dumbledore ecoou e ele sentou-se.


McGonagall estava ao lado da porta, pronta para sair e Harry supôs que os passos que ouvira eram dela.


- Está tudo bem – o moreno respondeu. – Eu acho – e sorriu.


A professora sorriu para ele.


- Bom te ver, Potter. Uma pena que eu não possa ficar. Disse aos meus alunos que me atrasaria um pouco, mas acho que já me demorei demais – ela comentou. – Falaremos mais tarde.


E ela saiu, deixando sua mão deslizar sobre o ombro de Harry.


- Venha, Harry, sente-se – o diretor chamou. – E então, a que devo a sua ilustre visita?


- Nada demais. Apenas visita de rotina – Harry respondeu.


- Engraçado, porque eu estava prestes a te chamar para termos uma conversa.


- Aconteceu algo, senhor? – Harry ficou preocupado.


- Bem, ainda não – Dumbledore respondeu.


- Ainda? – o moreno insistiu.


- Soube que vocês terão uma reunião do Conselho de Wizengamot semana que vem, estou certo? – o diretor uniu as pontas dos dedos e olhou-o sério por sobre os oculinhos de meia lua.


- Sim, senhor. Gérard Glenn marcou a reunião semana passada.


- Eu não gosto dessas reuniões – Dumbledore comentou, os olhos pensativos. – Sabe, Harry, antes os membros do Conselho só se reuniam durante os tribunais, que ficaram cada vez mais escassos com a queda de Voldemort e o cumprimento à risca das leis da magia. E isso, acredito, deve-se a você.


Harry sorriu sem jeito. De fato, desde que ele assumira o cargo de chefe do Departamento de Execução das Leis em Magia, o número de infrações reduzira quase noventa por cento do que era anteriormente.


- Então começaram essas reuniões sem por que nem pra quê e hoje nós vemos a que ponto chegou.


- Refere-se às propostas de Pansy Parkinson? – Harry indagou, sem entender.


- Uma ex-aluna de Hogwarts – o velho suspirou e encarou o teto por um breve instante. – Ela trabalha nos Serviços de Wizengamot há dez anos por pura influência do pai – assinalou. – Não tem qualquer precisão de seus serviços lá dentro, ela é um zero à esquerda. Além de fazer convocações e programar reuniões e audiências, de nada serve para o Ministério da Magia. Os membros continuam quase os mesmos desde a sua audiência no Décimo Tribunal, exceto por Cornélius Fudge, conseqüentemente Percy Weasley e Dolores Umbridge, e Amélia Bones, que já não está mais entre nós – ele continuou. – Sei que você sabe disso tanto quanto eu, mas me pergunto como permitiram que ela fosse tão longe.


- Infelizmente eu fiz parte disso, professor – Harry admitiu.


- Eu sei. Imaginei que ela tivesse te ameaçado – Dumbledore assentiu. – Mas você conseguiu evitar até onde pôde. Sabe que Gérard Glenn te tem como um braço direito lá dentro, não? E soube como usar isso ao seu favor mesmo estando sob ameaça.


Harry engoliu em seco e assentiu.


- Veja, Harry, eu não freqüento tais reuniões há quase onze anos. Nesses onze anos, nenhuma audiência importante, somente reuniões supérfluas nas quais Pansy fez propostas e mais propostas absurdas. Acredito que a única que trouxe algum benefício foi a que criou a instituição de auxílio aos casos de aborto. E, eu creio, não foi exatamente essa a intenção dela ao propor um “estudo” a respeito dos abortos.


“E depois, começaram os ataques aos nascidos trouxas. Gente inocente morrendo aqui e ali, sem que ninguém descubra um suspeito. Sei que você está investigando e há quatro anos não tem novas notícias, apesar de os ataques continuarem acontecendo. Imagino que seja frustrante”


- Muito. Eu perdi Karen por causa desse bruxo – Harry respondeu, os olhos baixos.


- Você nunca se perguntou se ela não sabia quem ele era, Harry? – o diretor perguntou, dessa vez encarando-o fixamente por um longo instante.


- Na verdade... – Harry fez uma pausa. – Não.


- Bem, talvez até você saiba, apenas não conseguiu enxergar o óbvio ainda – ele sugeriu. – Enfim! Depois de toda essa história, não vi mais necessidade de voltar ao Conselho enquanto esse bruxo não fosse pego ou enquanto não houvesse motivos que realmente trouxessem a necessidade de me ter por lá. E agora eu vou te apresentar o meu lado crítico, Harry, um que raramente as pessoas conhecem – Dumbledore se pôs de pé. – Não acho que valha a pena freqüentar um ambiente que se tornou tão antiético. Eu estou velho demais para tolerar esse tipo de coisa, Harry. E ainda me faz um mal terrível imaginar que, mais uma vez, é uma ex-aluna minha quem está causando tantos transtornos.


- Desculpe, senhor, mas eu acho que se o senhor voltasse, talvez nós tivéssemos uma base mais forte para parar Pansy...


Dumbledore ergueu a mão para que ele parasse.


- Pois eu creio, meu rapaz, que você pode assumir o controle dessa situação, apenas não sabe como – sinalizou e seus olhos vagaram para o nada. – É uma questão de tempo – assegurou. – E, eu devo dizer, você deverá ficar de olhos abertos quanto a cada movimento, cada passo que Pansy Parkinson der. Ela pode ter dado uma trégua, mas os planos dela não param aqui. Aquela mente trabalha incansável e incessantemente quando está obstinada a algo. E o próximo passo dela será grande, Harry – o diretor assumiu um tom de alerta. – Agora só nos resta esperar que seja maior do que a própria perna.




---




- Eu realmente tenho que ir – ela insistiu.


As crianças já estavam fora do carro e conversavam com ela pela janela do carona. A menininha mordeu o lábio inferior. De cabelos muito lisos, castanhos claros e olhos negros, Francine era a criança mais apaixonante que ela conhecera. O irmão, Josh, era muito parecido com ela.


- Você vem nos buscar hoje, não vem? – ele perguntou.


- Eu prometi que essa semana viria buscar vocês todos os dias, não prometi? – Tiffany indagou, as mãos ainda no volante. Eles assentiram brevemente. – Então, venho, sim.


Jennifer, sua meia-irmã, estava ao lado dos garotos esperando em silêncio. Ela parecia ansiosa e entediada ao mesmo tempo. Tiffany sabia que ela estava contando os dias para o fim daquele ano letivo para que pudesse ingressar em Beauxbatons.


- Tif – Francine chamou e baixou os olhos.


- Sim, Fran?


- Até mais tarde – a garotinha concluiu ao ouvir o sinal tocar às suas costas.


Tiffany a viu suspirar pesadamente e dar as costas, acompanhada pelo irmão. Tinha certeza de que ela ia dizer alguma coisa. Mais tarde levaria os dois para o parque, queria curtir um pouco seus “filhos”. Ela estava com eles somente há dois anos, mas parecia que os vira nascer.


Lembrava-se nitidamente do dia em que eles bateram à sua porta.




A sirene da viatura policial ecoava por toda a rua. Correu para a janela do quarto e olhou através do vidro. Ela viu os Black saírem de casa e se encontrarem com Julie Bonstrong a uma distância considerável. Não só eles saíam para a rua – agora movimentada –, mas todos os que viviam ali no bairro.


Virou-se e saiu do quarto, apressada.


- O que está acontecendo? – ela indagou ao pai, que já estava amarrando o roupão e precipitando-se para a porta.


- Houve um ataque na casa dos Sexton – ele murmurou.


- Você acha que...? – ela começou.


- Nós não sabemos ainda – Thomas Haase a encarou, sério.


- Cissa? – ela chamou.


Narcisa saiu do quarto de Jennifer, o rosto inexpressivo.


- Julie me ligou assim que soube. Ainda não se sabe se alguém sobreviveu – ela contou.


- Eu tenho que ir – Thomas saiu porta afora, ganhando a rua.


O silêncio se estendeu. Tiffany deixou-se cair no sofá, pensativa.


- E Jennifer? – perguntou de súbito, referindo-se à irmã de dez anos.


- Dormindo.


- Graças a Merlin! – a morena suspirou e prendeu os cabelos castanhos num rabo de cavalo, retomando seus pensamentos. – Janet era nascida trouxa – seus olhos se arregalaram com tal pensamento.


- Se acalme, Tif, nós não temos certeza de nada – Narcisa sentou-se ao seu lado.


- Pois eu estou certa de quem atacou a casa deles.


- Vamos esperar – a madrasta insistiu.


Tiffany fechou os olhos e recostou no sofá, sentindo os braços de Narcisa envoltos em seu corpo, uma mão afagando seus cabelos.


Os minutos se arrastaram e ela não conseguia relaxar, mesmo com a presença da madrasta ali, tentando acalmá-la. O silêncio a incomodava, seu pai não voltava... Os pensamentos mais obscuros tomaram conta de sua mente enquanto seus olhos permaneciam fechados, reclusos na escuridão.


A porta se abriu e ela abriu seus olhos.


- E então? – pôs-se de pé e correu para o pai.


- Mortos. Janet e Elliot – ele anunciou.


- E as crianças? – ela insistiu.


- As crianças sumiram – Thomas respondeu com pesar. Sabia que a filha se apegara às crianças, que a adoravam. – Eles vão começar uma busca pelas redondezas. Os aurores estão a caminho para investigar a morte do casal – contou. – Vamos dormir, não há nada que nós possamos fazer.


Batidas fizeram com que eles dispersassem. Narcisa adiantou-se para a porta e a abriu. Estava vazio do lado de fora.


- Não há ninguém aqui – ela observou. – É melhor irmos dormir – fez coro ao marido.


- Tudo bem – Tiffany suspirou.


Thomas se aproximou da filha e depositou um beijo em sua testa.


- Eles vão encontrá-los – sussurrou antes de se afastar, abraçado à Narcisa.


Ela ouviu novas batidas, mas estas foram abafadas pelo ruído da porta do quarto de seu pai fechando. Não demorou tanto para que as batidas se repetissem. E, ela notou, não vinham da porta da frente. Curiosa, ela seguiu até a cozinha da casa e abriu a porta dos fundos.


Agachadas na soleira e abraçadas, duas crianças, um menino e uma menina, levantaram os olhos para ela.


- Josh! Francine! – ela agachou-se ao lado deles e os abraçou.


Sentiu as lágrimas do menino molharem seu roupão e afastou-se para encará-los. Josh chorava silenciosamente e Francine parecia estar em choque. Ela entendia a menina, claro. Ela mesma vira a mãe morrer, mas na época era mais velha que os dois juntos.


- Venham, entrem – ela abriu passagem para que eles entrassem e correu para o quarto do pai depois de acomodá-los no quarto de visitas.


- O que houve, Tif?


- Eles estão aqui – anunciou.




E desde então eles passaram a morar com ela na casa de seu pai. Ela já se achava velha para continuar morando na casa do pai e acreditava que acolher as duas crianças faria com que ela pudesse finalmente se libertar e seguir em frente, morar sozinha – ou nem tanto, já que os levaria consigo.


Seu pai, no entanto, a convenceu a permanecer, alegando que seria melhor para que as crianças crescessem em família. Ela tentou contra-argumentar, disse que eles teriam a ela sempre, mas resolveu esperar por mais dois anos. Bem, os dois anos tinham passado e ela poderia sair de casa a qualquer momento. E os levaria.


Ela os amava. E mataria e morreria por aquelas crianças. Agora ela os considerava como filhos seus, como se tivessem nascido de seu ventre e sabia que a recíproca era verdadeira. Claro que jamais substituiria a mãe verdadeira deles, mas se eles a consideravam como uma mãe, ela o seria para eles.


Ela seguiu para uma livraria trouxa. Havia alguns livros que algumas amigas lhe indicaram e ela ficou curiosa; nunca lera histórias trouxas antes. Talvez fosse interessante.


Estacionou o carro e seguiu o restante do caminho a pé. Gostava de caminhar.


- Ora, se não é a Srta. Haase! – uma voz aveludada se fez presente às suas costas.


Ela olhou por cima do ombro e, ao reconhecer a figura, ignorou-o.


Com a testa levemente franzida, o que lhe rendia uma pequena ruga entre as sobrancelhas, ela parou de súbito defronte a uma loja de artigos femininos.


- Você está me seguindo? – ela indagou, virando-se para encará-lo.


- Não exatamente – ele respondeu, mas parecia ponderar. – Seguindo meus instintos, talvez.


- Ah, muito bom! – Tiffany revirou os olhos cinza escuros e voltou a andar, dando as costas ao loiro.


- Qual o seu problema? – ele perguntou, acelerando o passo para alcançá-la, mas evitando andar ao seu lado e, portanto, ficando mais atrás.


- Acho que eu quem deveria lhe fazer esta pergunta, não? – ela soou irônica. – Você não tem nada para fazer, não?


“Como se eu precisasse de uma resposta. Está claro que é um desocupado”, ela revirou os olhos.


- Bem, eu tenho um almoço de negócios hoje – ele riu.


- Nossa, estou realmente impressionada – ela apressou o passo. “Arrumei um gigolô para ficar me atazanando”, pensou desgostosa.


Herod correu e colocou-se à frente dela, fazendo com que ela parasse de andar e o encarasse furiosa.


- Você é casada? – ele perguntou.


- E por que isso te interessaria? – ela contornou-o e voltou a andar.


- Você tem dois filhos – ele explicou.


- Fico feliz que tenha percebido – Tiffany revirou os olhos mais uma vez, se perguntando se não desgastaria as suas córneas e os músculos dos olhos com aquele movimento repetitivo. “Idiota desocupado, não tem o que fazer e fica me seguindo”, ela pensou, cerrando os punhos, louca de vontade de acertar um soco na cara dele.


- Olha, eu juro que não estava te seguindo, mas, por acaso, minha irmã estuda na mesma escola onde seus filhos e sua irmã estudam, ok? Eu te vi e resolvi te seguir a partir daquele momento – Herod explicou-se e quase se desequilibrou enquanto andava de costas.


- Qual é o seu problema? – Tiffany parou fazendo, finalmente, a pergunta que quisera fazer desde o início. – Não, porque eu já estou considerando distúrbios mentais...


Herod riu.


- Essa é a segunda vez que nos encontramos e você já me trata desse jeito?


- Bem, na primeira não foi muito diferente, a menos que não tenha notado – ela ergueu uma sobrancelha. – O que você quer? Dinheiro? Sexo?


- Olha, vou ser bem sincero com você... Em outro momento eu consideraria a última opção, mas por enquanto apenas conversar – o loiro respondeu e acrescentou em seguida. – Se você permitir, é claro.


- Eu estou ocupada – Tiffany respondeu e voltou a caminhar.


- Você não é casada – ele anunciou.


- Uau, mas isso é fantástico! – ela fingiu euforia e bateu palmas. – Idiota – acrescentou com desgosto. Ela quase revirou os olhos, mas lembrou-se que aquilo estava se tornando muito repetitivo.


- E você não gosta de mim – concluiu.


- Bom, agora eu devo admitir que sua inteligência superou minhas expectativas! – Tiffany soltou com escárnio. – Qualquer dia desses eu arrumo alguém para te importunar com perguntas chatas e inconvenientes, te seguir e fazer de tudo para te irritar, e aí você me diz como é a sensação de não suportar uma pessoa.


- Whoa, essa doeu! – ele parou de andar.


Ela parou também.


- Tolerância e paciência têm limites, baby – ela então deu as costas para ele e seguiu seu caminho, esperando que ele voltasse a segui-la, mas isso não aconteceu.


Por um momento, sentiu-se decepcionada. Por mais que ele testasse seus limites, ela gostava da sensação de esnobar e se sentir superior. No fim das contas, ele só a irritava profundamente.


Herod ficou ali, parado, observando-a se afastar. E ela não olhou para trás uma só vez. Nunca provara da rejeição – nem mesmo da indiferença – de maneira tão dura.


“Difícil de dobrar, você, hein?”, ele pensou e engoliu em seco.


Resolveu então começar a jogar o jogo dela.


Seguiu para o Ministério direto dali. Depois iria almoçar com Pansy e resolver outras questões, mas não deixaria de pegar sua irmã na escola e perder a oportunidade de dar a primeira jogada.




---




Ela caminhou a passos duros até o gabinete do ministro. Ainda faltava uma semana para a reunião, mas quanto antes agisse, melhor. Tinha que ser rápida e discreta. Rápida porque Herod viria almoçar com ela, e discreta porque ninguém poderia sonhar que ela estivera na sala do ministro da Magia.


Vez ou outra lançava olhares furtivos para os lados e apressava o passo. Alcançou o gabinete do ministro rapidamente. Bateu a porta rezando para que ele estivesse ali.


- Entre – a voz ordenou quase que instantaneamente.


Ela abriu a porta e esgueirou-se para dentro, fechando-a atrás de si.


- Olá, Sr. Glenn! Bom dia – cumprimentou simpática.


- Srta. Parkinson? – Gérard Glenn estranhou.


- É, acho que sou eu – Pansy sorriu com um ar de quem não quer nada.


- A que devo a visita?


- Bem, sei que o senhor é um homem muito ocupado, então não vou tomar muito de seu precioso tempo – ela ainda mantinha a suavidade em seu tom. – Sem mais delongas, eu gostaria de falar a respeito da próxima reunião do Conselho.


- Srta. Parkinson, nós dois sabemos – e a senhorita tanto quanto eu – que os assuntos do Conselho devem ser deixados para tratar estritamente durante as reuniões.


- É claro, mas o que eu venho dizer não pode ser tratado durante uma reunião, senhor ministro – ela endureceu o tom. – Eu quero poder contar com o seu apoio.


- Meu apoio? – Glenn queria ter certeza de suas suspeitas, e fez-se de desentendido.


- É. Eu quero que as minhas idéias sejam aceitas e acredito que vossa senhoria é quem tem maior poder aqui, certo? Portanto, preciso que você as apóie.


- Mas isso é um absurdo! Não posso apoiar suas idéias, Srta. Parkinson. Seria ir contra o povo, seria antiético e o fim de minha carreira dentro do Ministério – ele argumentou.


- O senhor está sugerindo que minhas idéias são absurdas? – o ar da morena era sombrio, seus olhos azuis cintilavam a cada movimento, cada palavra.


- Eu não estou sugerindo nada! – Glenn se pôs de pé, aparentemente irritadiço. – Se quer manchar sua imagem, que a manche sozinha! Eu tenho uma reputação a preservar.


- É claro, Sr. Glenn – Pansy assentiu, retomando o seu ar simpático. – Mas o senhor é do tipo que tem a família em primeiro lugar, não é? E se sua reputação é manchada perante a sua família, em alguma medida, esta é despedaçada.


- Eu realmente não sei aonde quer chegar – ele pareceu sincero. – Pensei que estivéssemos falando sobre a reunião do Conselho e não sobre mim ou minha família.


- Bem, nós estamos falando da reunião, ministro – Pansy sorriu. – Até que ponto você iria para conservar sua família, Gérard Glenn?


- Eu mataria e morreria pela minha mulher e minha filha – a voz do ministro trovejou.


- Ah, mas não seria necessário tanto – dessa vez Pansy riu abertamente. – Eu apenas quero que você fique do meu lado nas próximas reuniões do Conselho, independentemente da opinião dos outros ou do que eu vou sugerir. Em troca, por sua “fidelidade”, eu não conto à sua esposa sobre seu filho bastardo.


- Ora, mas que provas você teria? Seria sua palavra contra a minha.


- Suas correspondências são o suficiente? Porque mesmo que não o sejam, uma mulher desconfiada é o demônio disfarçado de mulher, e não uma simples mulher. – a morena insistiu. – Mas você pode experimentar ficar contra mim e conviver com a discórdia. Mas saiba: uma vez plantada a desconfiança, é difícil reverter a germinação.


Gérard Glenn fechou a cara e correu para suas gavetas. Só precisou abrir a primeira delas para que o pânico tomasse conta de si.


Pansy apenas sorriu com a constatação dele.


- Você tem uma semana, Sr. Glenn. Até a reunião do Conselho – ela despediu-se simpaticamente e deixou a sala, satisfeita.




---




Chegou mais cedo à escola e ficou aguardando dentro do carro, uma música pesada tocando e os vidros fechados. Recostou a cabeça no encosto do banco e fechou os olhos por detrás dos óculos escuros.


Mesmo tendo planos com Pansy para aquele dia, limitara-se a apenas almoçar com ela. O bom humor da Princesa de Gelo era tão agradável que até as conversas se tornaram mais amenas. Ele nunca se imaginara relembrando os tempos da infância justamente com ela. Renderam boas risadas, aquelas lembranças.


A verdade é que a vida em Ohio era completamente diferente sem Pansy. A garota era sua melhor amiga de infância. Os pais de ambos sempre foram grandes amigos e, como eles, se conheciam desde meninos.


A lembrança que ele tinha dela era como uma garota meiga, que sempre estava disposta a fazer qualquer coisa para se divertir, mesmo que para isso fosse necessário um banho de chuva ou de lama. Ele tinha saudades daqueles tempos, da Pansy que ele conhecera quando criança. Sentia que ela se perdera e não voltaria mais.


Ele, por outro lado, cresceu ouvindo que tomaria posse da empresa do pai assim que ele se aposentasse. No entanto, estava prestes a completar trinta anos e nunca trabalhara no negócio. Por um momento, pensou no assunto. Ele seria a maior decepção da família se não assumisse seu cargo na empresa do pai.


Cansara de ouvir a mãe dizer que ele precisava tomar um rumo na vida. Toda manhã era a mesma coisa. Nos dois últimos anos, no entanto, a mãe jamais tocara novamente no assunto – e Herod supôs que ela cansara de tentar em vão.


Ele abriu os olhos e aumentou o volume do som. Notou, então, que o movimento na rua aumentava e que muitos pais já saíam da escola acompanhados de seus filhos. Resolveu que estava na hora de ele entrar também.


Encontrou Brianna com facilidade. Uma cabecinha coberta de cabelos tão loiros que chegavam a ser quase brancos se aproximou dele.


- Pensei que mamãe vinha me buscar hoje – ela murmurou.


Brianna fora adotada pelos seus pais ainda bebê. Era norueguesa e trazia consigo os traços nórdicos: a pele muito branca, os cabelos quase brancos e levemente ondulados e os olhos extremamente azuis. Tinha dez anos e mais parecia uma princesinha de contos de fadas.


- Ela ainda não chegou – Herod respondeu pacientemente. – O vôo não veio direto de Ohio para cá; primeiro ela esteve em Nova York.


- Tudo bem – Brianna assentiu. – Vamos?


- Vamos – o loiro concordou e estendeu a mão para ela.


Estava chegando ao portão da escola quando uma menininha tropeçou à sua frente e ralou os joelhos no chão de concreto.


Ele se abaixou para ajudá-la e ela se esquivou, pondo-se de pé. A menina parecia mais preocupada em recolher os seus livros e ajeitar as vestes do que com o próprio machucado. Tirou o cabelo do rosto e colocou atrás das orelhas, depois afastando a franja dos olhos com um arco colorido.


- Não se preocupe, eu estou bem – ela murmurou rapidamente para Herod.


- Você está machucada – Herod apontou os joelhos dela.


- Oh, não! – ela franziu o cenho, desgostosa por estar com os joelhos lavados em sangue.


- Você está bem? – um garoto muito parecido com ela se aproximou.


- Ela só se machucou um pouco – Brianna murmurou. – Talvez seja melhor levá-la à enfermaria para limpar o ferimento.


- É, é melhor – o garoto assentiu e se afastou com a garotinha.


- Eles são irmãos – Brianna comentou para Herod.


- Eu sei. Eu os conheço de vista – “E a mãe deles também”, o loiro pensou.


- Está bem. Agora vamos.


- Não, eu quero ver como ela está.


- Você está estranho – Brianna comentou e revirou os olhos. – Eu estou te esperando lá dentro.


- Nos bancos – Herod orientou.


A loirinha apenas virou os olhos e assentiu antes de se afastar. Herod olhou em volta procurando algum sinal de que Tiffany Haase chegara para pegar as crianças. Logo os dois irmãos estavam de volta.


- E então, como está? – ele se agachou ao lado da garotinha.


- Com curativos – ela suspirou, derrotada.


- Melhor assim, não acha? – Herod sorriu de lado. – E como é o seu nome?


Os irmãos se entreolharam, desconfiados.


- Francine – a garotinha respondeu.


- E o seu, rapazinho?


- Josh.


- E a mãe de vocês, onde está?


- Deve estar chegando – Francine respondeu. – E quem é você? Digo... Qual o seu nome?


De longe, Tiffany saía do carro observando a cena. Herod Christow estava agachado ao lado de Francine sob o olhar desconfiado de Josh. “Meu garoto”, ela sorriu satisfeita. Apressou o passo e viu uma garotinha loira se aproximar deles.


- Vamos, Herod? – Brianna chamou.


- Herod – Francine respondeu. – Diferente.


- Tif chegou, Fran – Josh murmurou para a irmã ao ver Tiffany se aproximar.


- Olá, meus amores! – Tiffany se aproximou com um sorriso largo, um ar maternal já conhecido invadindo-a. – O que houve com seu joelho, Fran?


- Ela caiu – Josh respondeu rapidamente. – Já a levei para a enfermaria e Madame Price fez o curativo.


- Pronto, a mãe deles chegou, agora nós podemos ir – Brianna sibilou ao pé do ouvido de Herod.


- Bem, nós já vamos. Se cuida, garotinha! – Herod brincou com Francine e se virou para sair com a irmã.


Tiffany automaticamente se agachou para Francine.


- O que ele queria com vocês? – indagou desgostosa.


- Foi ele quem me ajudou – Francine respondeu com simplicidade.


- Você o conhece, não é, Tif? – Josh perguntou à Tiffany.


- Conheço – “Infelizmente”, Tiffany pensou.


- Já que você o conhece, por que não o convida para ir ao parque conosco? A irmã dele também podia ir – a garotinha sugeriu.


Tiffany virou-se para procurar Herod, que já estava do lado de fora da escola.


- Ele já está indo embora – argumentou.


- Eu vou até lá – Francine correu para os portões, deixando a mochila com Tiffany.


A morena suspirou e fechou os olhos.


- Não acho que você goste muito dele – Josh comentou enquanto observava a irmã falar com o loiro. – Por quê?


- Eu pergunto o mesmo para você – Tiffany riu.


- Não é você quem diz para nós não falarmos com estranhos? – o garoto ergueu uma sobrancelha e deu um sorriso torto.


- Sim – Tiffany ficou séria. – Não é que eu não goste dele. É só que... ele é muito petulante.


- E o que é petulante? – Josh pareceu curioso. – Sabe, eu odeio quando vocês, adultos, falam palavras difíceis.


A morena riu.


- Pronto! – Francine estava de volta. – Ele disse que encontra a gente lá.


“Que ótimo”, Tiffany virou os olhos.


- Onde está a Jen? – ela perguntou.


- Desculpe o atraso, Tif. Eu tive que ir à biblioteca devolver os livros que peguei semana passada – Jennifer se aproximou. – Você foi à livraria hoje?


- Não se preocupe, comprei o seu livro – Tiffany disse à irmã.


- Ah, obrigada! – Jennifer abriu um largo sorriso. – Vamos mesmo ao parque?


- Agora mesmo! – Francine respondeu.


- Aquela sua amiga, Brianna, vai conosco – Josh murmurou.


- Sério? – a animação de Jennifer renovou-se.


- Ela e o irmão dela – Francine confirmou.


Ao ouvir a resposta da caçula da turma, Tiffany suspirou pesadamente.


- Vamos, então – disse, por fim, segurando as mãos das crianças, um de cada lado, enquanto Jennifer os seguia logo atrás.

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Comentários: 2

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Enviado por Ingrid D. em 22/09/2011

Miillaa, infelizmente não há outro endereço onde a fic esteja sendo postada. Estou trabalhando na repostagem, mas está dando muito trabalho, pois as configurações do site mudaram muito, então os capítulos mais antigos estão com a antiga formatação. Se quiser começar a ler, fique à vontade. Já conhece as duas outras histórias? Farei o possível para adiantar a repostagem e voltar a escrever, de modo a concluir a publicação. Beijos.

Nota: 5

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Enviado por Miillaa em 22/08/2011

Ei, eu queria começar a ler a trilogia, só que não quero começar a ler algo e não ter um fim. Eu fui no blog da fic e li tudo oque tinha lá, vi que a fic foi excluida do F&B e vi que ela está sendo repostada. E como no blog só tem do cap 26 ao 52, eu queria saber se tem algum lugar que tenha a fic do começo até onde já foi escrita postada. Ou que no blog ou aqui no F&B Ela vai ser postada toda, eu realmente queria saber, realmente queria ler as fics. Enfim, beeijos

Nota: 1

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