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14. Capítulo XIV


Fic: Harry Potter e a Wendelin Phoenix.


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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2009




Embora pouco soubesse de seu passado, tinha conhecimento suficiente de tudo o que acontecera em sua vida antes do dia dezesseis de junho de 1998. Com o passar do tempo, fora lembrando de determinadas coisas, mas tivera que praticamente recomeçar sua vida. E a razão para viver se limitava a uma pessoa: Chloe Ann.


Chloe era sua única filha, tinha dez anos e era tão inteligente quanto a própria mãe. Cabelos castanhos claros, muito lisos, e olhos verdes como esmeraldas, pele muito branca. Ela era simplesmente sua filha e os traços não negavam; era sua cópia exata, exceto pelos olhos. Estes ela não sabia de onde a filha herdara. Do pai, certamente.


Por muitas vezes conversara com sua mãe, procurara saber mais de seu passado, obter informações sobre o pai de Chloe, mas era como se algo a impedisse de falar sobre isso. Determinou, por fim, que sua filha carregaria o sobrenome Granger até que descobrisse quem era o pai dela.


Abriu os olhos e encarou o teto. Era assim que acordava todos os dias. Sentia falta de alguma coisa, acordava e tinha vontade de permanecer deitada. A única coisa que a motivava a se levantar e enfrentar o dia de pé era sua filha. Levantou e dirigiu-se ao banheiro. Tomou um banho e, após toda a higiene matinal, retornou ao quarto, ainda de roupão e uma toalha amarrada na cabeça.


Sorriu ao ver sua filha sentada na cama, segurando um urso de pano. Já estava toda arrumada.


- Bom dia, mamãe! – disse, abrindo um sorriso.


- Bom dia, querida! – ela se aproximou da menina, que se pôs de pé e a abraçou. Seu sorriso se alargou e ela depositou um beijo em sua bochecha. – Você não perde tempo mesmo, não é? – brincou, mexendo com o dedo indicador no nariz da filha.


- Se vamos para York, temos que acordar cedo – murmurou a garotinha com graça. – Já arrumei minhas coisas e tomei café. Estava só te esperando.


- Vou me trocar, certo?


- Certo – ela deu um beijo no rosto da mãe e correu para a sala da casa.


Colocou um vestido leve branco com detalhes em preto e uma sandália baixa. Parou por um momento e observou o anel que estava em seu dedo. Era de ouro branco com uma pedra de brilhante solitária. Ainda se perguntava quem a tinha presenteado com ele, mas nunca obtivera resposta. Sabia que era de extremo valor para ela, jamais o tirava – nem mesmo o tirara nos três anos de relacionamento com Chad. Era simplesmente lindo.


Em sua caixa de jóias também haviam outras peças que ela não lembrava de ter recebido de seus pais. Um colar com um pingente que tinha dois ‘H’ entrelaçados, uma pulseira com símbolos em Runas, um anel de compromisso... Em sua concepção, fora presente do pai de Chloe, mas ela não sabia ao certo.


Pegou a mala e dirigiu-se para a sala, onde a filha a esperava observando a rua pela janela. Sorriu. A menina completara seus dez anos no dia anterior, dia dois de fevereiro, e estava ansiosíssima para a viagem à York. Por um rápido momento, se viu no lugar da garota. Um flash rápido invadiu sua mente e ela se viu conversando com a própria mãe, e depois descendo do carro em York... Tudo era tão real.


Sabia que aquilo deveria ser uma lembrança, era viva suficiente para o ser. Estava acostumada àqueles flashes repentinos – eles começaram três meses atrás, desde que retornara à Inglaterra. Era como se toda a memória que estivera perdida estivesse retornando, aos poucos, com a familiaridade do ambiente. Balançou a cabeça levemente a fim de afastar tais pensamentos.


- Vamos, Chloe? – chamou.


- Vamos, sim – e as duas caminharam de mãos dadas até a porta. Enquanto a mãe fechava o porta-malas, a menina sentou-se no banco da frente do Volvo C30.


- Sabe que não pode ir aí, querida – repreendeu com cautela.


- Tudo bem! – Chloe suspirou pesadamente e pulou para o banco de trás, juntando-se a Daisy, sua fêmea de golden retriever. – A vovó vai?


- Ela e seu avô já devem estar lá – sentou-se batendo a porta e deu partida no carro.


Seguiram conversando de forma animada e descontraída. Pararam numa cafeteria para fazer um lanche ainda em Londres. Ainda não tomara café como Chloe fizera.


- Toma o seu suco. Bebe tudo, hein? – ela estendeu o copo e sentou-se à mesa com uma bandeja nas mãos.


O celular tocou.


- Sim?


- Alô? – fez uma voz do outro lado da linha. – Hermione Jane Granger! Onde você está? Não disse que viria ontem, querida? Quer nos matar de preocupação?


- Mamãe, ontem Chloe resolveu levar umas amiguinhas lá para casa, não houve jeito de ir, mas estamos a caminho. Parei para tomar café da manhã.


- Tudo bem. Ainda vai demorar?


- Não. Devo estar aí em duas horas. – respondeu, enfiando uma torrada na boca.


- Ah, bem antes do almoço, então! Devo aguardar para lanchar com vocês?


- Seria ótimo.


- Então vou falar com a Sandy. Boa viagem, querida.


- Obrigada, mamãe.


- Mamãe, manda um beijo para a vovó por mim? – fez Chloe, recolocando o canudo na boca.


- A Chloe está mandando um beijo.


- Diz que a vovó está mandando outro para ela. Tchau, querida. – e desligou.


- Acho melhor adiantarmos. – murmurou Hermione.


- Mamãe, você viu o jornal de ontem? Estava falando daquela tal de Pansy Parkinson. Ah, e tinha uma notícia sobre um homem chamado Henry Potter...


- Harry Potter. – Hermione corrigiu. – Vi, sim.


- Sabe, às vezes acho que você não gosta dela. – comentou Chloe.


- Não é que eu não goste. É só que a Parkinson influencia as pessoas a aceitar suas idéias.


- Foi ela que criou esse projeto de caça dos abortos e descendentes de trouxas, não é? – Hermione confirmou com um aceno. – E isso também incluiria a nós, não é? – Hermione novamente assentiu. – Mamãe, você acha que o ministro vai deixar que ela manipule dessa maneira?


- Sinceramente, querida, não faço a menor idéia. – Hermione suspirou. – Ela tem influência no Ministério, você sabe disso.


- Você a conhece?


- Não. Só através dos jornais e dos estudos que fazemos por conta do trabalho.


- E o que esse Harry Potter faz?


- Ele trabalha no Ministério, é chefe do Departamento de Execução das Leis da Magia. Não sei muita coisa sobre ele. Só sei que ele é muito famoso – Hermione tinha curiosidade de saber como um homem de personalidade tão forte e presença tão marcante se deixava influenciar tão facilmente por uma mulher como Pansy Parkinson. Ele, ela sabia, tinha muito mais poder no Ministério do que a própria Pansy.


- Harry Potter. Gosto do nome dele – comentou Chloe. – Ele é bonito, não é, mamãe?


Hermione não respondeu. De fato era um homem muito atraente, mas algo em sua mente transformava-se em um vácuo quando tentava relacionar algo ao nome ou à pessoa dele. Balançou a cabeça a fim de esvaziá-la de qualquer pensamento relacionado a ele. No momento, ele não passava de um mero inimigo.


- Sabe, eu não consigo entender como podem suspeitar dele – Chloe continuou, seus olhos estavam pensativos. Ela referia-se a Hermione e seus pensamentos sobre o moreno. – Ele não poderia estar envolvido com essa mulher, mamãe. Que tipo de pessoa pode apoiar uma coisa que pode acabar consigo mesma?


Hermione entendeu a perspectiva da filha e teve que admitir que ela estava certa. Não fazia sentido Harry Potter apoiar as idéias de Pansy Parkinson quando ele era filho de uma nascida trouxa. Chloe era muito mais esperta do que ela julgava e tinha o poder de sempre surpreendê-la.


- Terminou, Chloe? – perguntou.


- Sim, mamãe – respondeu a garota após um longo gole do suco.


- Então vamos. Temos duas horas para chegar a York. Sua avó está nos esperando. – ela se levantou e pegou a filha pela mão, deixando a padaria.


Hermione já trabalhara nos Ministérios da Magia sueco, norueguês, finlandês e alemão, mas fora transferida para o Ministério inglês em outubro do ano anterior, quando a poeira em volta das propostas de Pansy Parkinson baixou. Como seu trabalho na Wendelin Phoenix seria prejudicado se ela freqüentasse o Ministério, pediu demissão na Confederação Internacional da Magia e pediu que tivesse em sua própria casa o seu espaço de trabalho, recebendo inquéritos, documentos e pastas criminais a cada dois dias.


Mesmo assim, ela ainda ia ao Departamento de Mistérios toda tarde.


Infiltrar-se no espaço ministerial fora a melhor maneira de estudar a política pós-Voldemort. Além disso, conseguia manter-se à sombra e podia passar mais tempo com sua filha.


Ela se dera aquela semana de folga para visitar York com a filha e os pais. Carl, Marcia e as filhas não iam com tanta freqüência a York agora. Marcia por conta do trabalho na França, Carl porque estava onde a mulher estivesse e as filhas porque estavam casadas e já tinham filhos para cuidar – além do trabalho, é claro.


Quando finalmente chegaram a York, pouco passava do meio dia.


- Jane, querida, pede para a Sandy pôr a mesa. Herms e Chloe chegaram! – dizia o Sr. Granger enquanto seguia em direção aos portões da casa para receber a filha e a neta. Abraçou as duas. – Como estão, queridas?


- Estamos bem, papai – respondeu Hermione, sorrindo. – E o senhor?


- Tudo na paz de Deus, meu amor – ele disse estendendo as duas mãos, cada uma sendo aceita por uma das duas. – Vamos entrar. Carl está vindo com Marcia esta tarde.


- Em plena terça-feira? – Hermione estranhou.


- Marcia está de férias – o Sr. Granger contou. – As meninas também virão dessa vez. Hilary quer aproveitar a licença à maternidade e Ashley recebeu duas semanas de folga.


- Uau, coincidência, hein? – Chloe murmurou. – Pelo menos não vou ser a única criança aqui – comemorou. – Jake e Mike vêm, não vêm?


Jake – na verdade Jacob – era o único filho de Ashley; e Mike – na verdade Michael – era o filho mais velho de Hilary.


- É claro, querida – o Sr. Granger confirmou. – E você vai conhecer a Jess – ele sorriu para Chloe.




---




Na semana seguinte...




Batidas à porta tiraram sua concentração do memorando que escrevia.


- Entre.


- Sr. Potter? – Cynthia adentrou o aposento. – Correspondências.


- Ah, é claro – ele recebeu dois envelopes das mãos da secretária.


- Com licença – e Cynthia saiu.


Em plena segunda-feira, apenas duas cartas era relativamente pouco para o que costumava receber. Pegou a primeira e ignorou completamente a segunda quando percebeu sua cor – roxo berrante; devia ser assunto de trabalho.


Ele olhou o remetente: Giuly Evans. Estranhou. Giuly nunca enviava cartas para Harry, normalmente esperava para ligar quando estivesse em casa.


Abriu apressado o envelope e leu a carta. Sentiu como se em seu peito um buraco antigo se formasse novamente e voltou ao início do pergaminho. A carta havia sido escrita àquela manhã, a caligrafia inconfundível de Giuly estava apressada, o que deixava sua letra levemente inclinada.


Sem pensar duas vezes, ele se pôs de pé e pegou seu sobretudo no acostamento da cadeira, colocando-o. Estava caminhando para a porta quanto bateram.


Cynthia.


Ele agradeceu pela secretária ter aparecido. Precisava mesmo passar-lhe algumas orientações antes de pegar estrada.


- Entre.


- Ah, está de saída? – a voz não era de Cynthia e ele sentiu-se desagradavelmente irritado por reconhecê-la. Era a última pessoa que queria ver naquele momento.


- O que você quer aqui, Pansy? – as narinas dele se alargaram e ele precisou se controlar para não colocá-la para fora aos gritos.


- É apenas uma visitinha periódica, Potter – ela sorriu cinicamente. – Sabe, eu estava me perguntando se havia recebido minha cartinha.


- Ah, que bom que eu não a abri – ele apontou o papel roxo berrante sobre a mesa. – Eu estava mesmo imaginando que não era coisa boa. Mas parece que você não quis esperar e veio pessoalmente – Harry deu as costas para ela, desgostoso.


- Se eu fosse você, não sairia daqui sem ouvir o que tenho a dizer – a voz dela assumiu um tom pateticamente sério.


- Como se eu não soubesse! – ele revirou os olhos.


- Potter, nós teremos a primeira reunião do Conselho Wizengamot em duas semanas após quatro anos e meio de portas fechadas e eu realmente espero que esteja preparado para fazer o que eu vou mandar ou...


Harry a interrompeu.


- Eu acabo de saber que minha bisavó morreu e você me vem com essa história de novo? Ora, me poupe! – ele saiu do aposento batendo a porta atrás de si.


Estava nervoso, uma verdadeira pilha de nervos e ela aparecia com aquela conversa? Encaminhou-se para a bancada onde Cynthia se encontrava. A secretária pareceu notar sua expressão e adiantou-se:


- Sr. Potter, me desculpe, eu tentei impedir, mas...


- Não se preocupe com isso – ele assegurou. – Cynthia, eu quero que você cancele todos os meus compromissos e os transfira para quarta-feira. Tenho alguns problemas pessoais para resolver hoje e não sei se amanhã poderei vir trabalhar, então...


- Como quiser, Sr. Potter.


- Obrigado – e ele se retirou antes que os passos apressados de Pansy Parkinson o alcançassem.


Ele não estava com cabeça para as idéias loucas dela e certamente explodiria se tivesse que ouvir sua voz por mais alguns instantes. Não sabia com que fundamentos ela levava aquela chantagem idiota adiante, mesmo após nove anos. Que frutos aquilo lhe rendera, afinal? Nenhum!


Ele fechou os olhos e suspirou enquanto caminhava rapidamente para fora do Ministério da Magia.


Velocidade. Era disso que precisava. Sua terapia. Entrou no carro e pegou o celular, discando para Hallie.


- Hall?


- Ah, oi, Harry! – ela cumprimentou. – Está tudo bem? O que houve?


- Eu preciso que vá lá para casa. Minha bisavó faleceu esta madrugada e...


- Oh, Harry, sinto muito! – e ela parecia sentir, realmente. – Eu presumo que esteja na estrada a caminho de York, certo?


- Exatamente – ele assentiu. Graças a Merlin, Hallie nunca fora de muitas perguntas, mas de conclusões rápidas certeiras. – Então, tudo bem para você?


- Não se preocupe. Eu estou saindo do Ministério agora mesmo – ela garantiu. – E... Harry?


- Sim?


- Cuidado na estrada – ela pediu.


- Pode ficar tranqüila – ele assegurou. – E obrigado, Hall.


- Não há de quê. Até logo, Harry – ela desligou.


Zoe não seria problema agora. Ainda com o celular na mão, ele discou o número de Amy. Em comunicação. “Droga!”, ele esmurrou o volante e pisou fundo.


Sua bisavó morrera. Agora a única “família” que ele tinha eram Dudley e Giuly – e Zoe, é claro. Ele então percebeu que estava chorando. Era incrível como ele nunca notava. As lágrimas simplesmente corriam pelo seu rosto sem esforço algum, sem que ele mudasse a expressão. Ele poderia sorrir agora e as lágrimas continuariam saindo e banhando seu rosto. Era inevitável – e involuntário como as batidas de seu coração e o ir e vir de sua respiração.


Agora ele só queria chegar a York, e logo.




---




Ele acabara de chegar ao Ministério da Magia.


Saiu do elevador ainda pregando seu broche de identificação no sobretudo que usava enquanto caminhava em direção ao segurança. Estendeu sua varinha e aguardou. Foi autorizado – todo mundo conhecia o seu rosto naquele lugar. Ele vinha constantemente visitá-la.


Pretendia seguir diretamente para a sala dela, mas algo em seu caminho chamou a atenção.


- Droga! – ele ouviu a morena dizer e se agachar e recolher os papéis que caíram de sua pasta.


Correu para ajudá-la com o único intuito de ver o rosto que agora se escondia atrás da cortina de cabelos bem cuidados e repicados.


- Obrigada – ela agradeceu ainda sem encará-lo.


- Por nada. Quer ajuda? Eu posso levar isso se quiser – ele tentou sorrir. – E se me disser onde é sua sala, é claro – ele acrescentou, observando que ela não tinha um crachá como o seu; ela trabalhava ali, com certeza.


Ela finalmente ergueu o rosto para ele e depois para seu crachá.


- Eu realmente agradeço – ela murmurou. – Sr. Christow.


- Me chame de Herod – ele pediu.


“Quanta intimidade”, ela bufou.


- Para onde você vai, moça? – Herod insistiu.


- Escritório Internacional de Direito da Magia – a morena respondeu.


Ela viu o rapaz tomar o fichário de suas mãos.


- Então é para lá que nós vamos – ele anunciou e passou a caminhar à frente. Ela permaneceu parada, a boca entreaberta, surpresa. – Você não vem?


Ela então fechou a cara e caminhou a passadas duras e largas, ultrapassando-o.


- Como é seu nome? – Herod perguntou.


- Tiffany Haase – ela respondeu automaticamente e acrescentou: – Para você, apenas Srta. Haase.


- Tudo bem – ele assentiu e também acrescentou com um sorriso maroto: – Tiffany.


Ela revirou os olhos. “Idiota!”, pensou. “Um verdadeiro playboyzinho, filhinho de papai”.


Tiffany Haase agora tinha vinte e sete anos. Ainda morava na casa do pai, embora já se julgasse velha para isso. Ela queria simplesmente sair de lá, mas nas condições em que se encontrava, aquela decisão precisara ser adiada por tempo indeterminado.


Desde que completara vinte e cinco anos desistira da idéia de casar e, um dia, ter filhos. Simplesmente não encontrava nenhum cara que lhe despertasse o interesse – e Draco já lhe apresentara pelo menos metade da elite bruxa. E ela se achava feia.


Herod – assim como todo rapaz que tivera a honra de conhecê-la – discordava completamente dela, mesmo que ela não soubesse. Era de uma beleza exótica, estonteante, que fazia qualquer um sentir-se hipnotizado por ela.


Mas esse não era o motivo pelo qual ela se mantinha na casa do pai. Ela havia adotado um casal de irmãos – na verdade, ela tinha sido adotada como uma mãe para eles – e resolvera que eles precisavam de uma família, de um ambiente onde eles pudessem sentir-se em casa e a casa de seu pai lhes proporcionava isso. Já eram crescidos; o menino, Josh, tinha oito anos e a menina, Francine, seis.


- Bem, acho que chegamos – ela anunciou. – Obrigada novamente.


Ele sorriu e baixou os olhos.


- Por nada – e ele virou-se para sair. – Até mais ver!


A última esperança de que ela o chamasse se foi quando ele fechou a porta as suas costas. “Difícil”, ele arqueou uma das sobrancelhas com um sorriso malicioso no rosto.


Seguiu seu caminho para o nível nove e desceu as escadas que levavam ao Décimo Tribunal. A sala ao lado estava trancada.


- Ela tem o dom de me deixar plantado aqui – ele bufou e recostou na gélida parede de pedra.


Ouviu passos se aproximarem e se recompôs, as mãos nos bolsos.


- Vejo que é pontual – ela sorriu e depositou um selinho em seus lábios.


- Cortou o cabelo? – Herod indagou.


- Uau, você notou? – ela riu. – Qual é, Herod? O que você anda aprontando?


- De onde você tirou isso? – ele se afastou para que ela abrisse a porta.


- Você nunca nota nada, idiota, e hoje vem com essa conversinha? Bem, certamente há algo de errado.


- Eu não vou discutir com você, Pansy.


- Não sobre isso – ela completou. – Nós temos muito a discutir hoje.


E Pansy destrancou a porta, passando por ela e esperando que ele fizesse o mesmo e a fechasse às suas costas.


- Fui falar com o Potter hoje – ela anunciou com desgosto. – Na verdade, estou voltando de lá.


- Ainda com essa história? Pensei que quase cinco anos depois você já a teria esquecido.


- Jamais, Herod – a morena bateu na mesa. – Mas eu acho que do Potter eu não posso esperar muita coisa. Depois de nove anos, a história do Departamento de Mistérios não vale nada. E depois, vai ser a palavra dele contra a minha – ela bufou. – Que credibilidade eu tenho perto dele?


- Bem, se você levar em conta como você já manchou sua imagem aqui dentro por causa dessas idéias loucas de “limitar a participação de nascidos trouxas e abortos dentro da sociedade bruxa”... Eu acho que nenhuma. Eu devo ter mais credibilidade do que você, nessa joça, e olhe que eu nem trabalho aqui! – ele comentou.


- Eu vou fingir que não ouvi o seu comentário, Christow – ela lhe lançou um olhar fulminante.


- E o que você pretende fazer?


Ela pareceu pensar um instante, os dedos contornando repetidamente os próprios lábios, o olhar vidrado num ponto qualquer da sala.


- Eu tenho duas semanas – Pansy murmurou e, depois de alguns segundos, seu olhar levantou-se para o rosto do loiro. Os olhos azuis esverdeados dele tinham um ar brincalhão enquanto ele girava uma caneta em torno dos dedos.


- E não tem muitas opções – Herod acrescentou. – Só o próprio ministro.


- Gérard Glenn – ela assentiu, os olhos azuis brilhando.




---




Amy desligou o telefone radiante. Hermione estava de volta! Ela podia, enfim, revê-la após quase onze anos e conhecer a filha que a amiga tinha com Harry, Chloe.


O celular apitou. Ela conferiu o visor.


1 chamada perdida


“Droga!”, ela nem tinha se tocado do tempo que passara falando com Hermione. Ouvir a voz da amiga era tão reconfortante que ela simplesmente esquecera tudo.


- Harry! – ela crispou os lábios numa fina linha. “Talvez seja importante”, ela pensou antes de retornar a ligação.


- Alô? – uma voz atendeu. Ela não gostou nem um pouco daquele tom. Harry não estava bem, ela tinha certeza.


- Harry? Aconteceu alguma coisa? – ela indagou, preocupada.


- Minha bisavó, Amy – o moreno resumiu. Mas Amy sabia que ele simplesmente não conseguira continuar.


- O que aconteceu à Dona Katine, Harry? – ela agora estava realmente preocupada. Harry não respondeu e seu silêncio fez com que ficasse subentendido. – Oh, Harry – sua voz encheu-se de pesar. – Eu sinto muito, de verdade. O que eu posso fazer por você? E Zoe, onde está?


- Em casa. Pedi que Hallie fosse para lá.


Para Amy não era preciso que estivesse próxima dele e lendo seus pensamentos para saber que ele estava na estrada para York.


- Eu te encontro em York – foi tudo o que ela disse antes de desligar. Sabia que se não o fizesse, ele certamente a impediria e diria que não era necessário, que ele voltaria no outro dia bem cedo, etc. e tal.


Ela ainda estava em casa e seu turno no Departamento de Mistérios só começava à tarde, então se trocou e ligou para Aaron, pedindo para que o marido segurasse as pontas porque iria fazer uma rápida viagem a York e não sabia se voltava ainda àquele dia. Ela ligaria para o Ministério, mas sabia que não era necessário, então deixou passar. Quando já estava no elevador sentiu um arrepio perpassar sua espinha.


York. “Hermione não disse que estava passando a semana lá?”, ela arregalou os olhos com tal lembrança. Sabia que a amiga estava terminando de arrumar as coisas e retornar à Londres, mas perguntou-se se seria rápida o suficiente para que Harry não a encontrasse. “Ou será que é assim que a profecia termina?”




---




Giuly veio recebê-lo na porta da Mansão Branca. A expressão que ele tinha no rosto transparecia exatamente o que ele estava sentindo. O vazio de uma perda – para Harry, mais uma.


Eles se cumprimentaram brevemente com tapinhas nas costas e seguiram lado a lado para dentro da casa.


- Onde ela está? – Harry perguntou assim que ultrapassou o portal da entrada da casa.


- No quarto – Giuly respondeu com certa dificuldade.


Harry sabia que ele só tinha a ‘vó Katine na vida e compreendia o que aquela perda significava para ele. Quando alcançaram o segundo andar da casa, um terceiro rapaz juntou-se a eles.


- Harry? – a voz rouca se fez presente.


Era Dudley Dursley. Harry o cumprimentou e pôde sentir que o primo não estava lá muito bem, também. Agora eles eram três solitários na vida, sem pais, sem família, sem ninguém. Exceto por Harry, é claro, que tinha uma filhinha linda.


- Onde está Zoe? – Dudley indagou.


- Ficou em Londres – ele respondeu.


- É melhor assim – Giuly assegurou. – Nós já providenciamos tudo. Ela deixou um testamento. Estava segurando-o quando eu vim vê-la hoje pela manhã. Seu último desejo era que seu corpo fosse cremado.


Harry assentiu. Ele entrou no quarto e observou o corpo da bisavó. Não teve coragem o suficiente para se aproximar e tocá-la; a simples visão de seu corpo inerte, em sono profundo – e saber que ela não acordaria mais – já era muito ruim. Deu as costas e baixou os olhos, enfiando as mãos nos bolsos das calças.


- Eu liguei para uma funerária. O corpo segue para o crematório dentro de 24h, mas só pode ser cremado após 48h do óbito – Dudley foi quem explicou. – Eu sugeri fazer um velório íntimo, aqui na Mansão Branca mesmo.


- O advogado deve estar chegando. É um velho amigo da família, e fará a leitura do testamento – Giuly  acrescentou.


- Bem, então está tudo resolvido – Harry murmurou. – Eu não sei se eu teria o sangue frio de tomar frente dessa maneira, então, eu só posso agradecer – aos dois.


- Não foi nada, Harry. É uma situação terrível para todos nós, ninguém imaginava... – Dudley começou.


- Nós sabíamos que isso ia acontecer, mais cedo ou mais tarde. Ela chegou aos noventa e nove – Giuly continuou. – Muitos não chegam com a saúde que ela tinha nem aos oitenta!


- É, mas parece que a “saúde que ela tinha” não foi suficiente – Harry comentou em resposta, a cabeça baixa e um tom que variava do rude ao pesaroso. – Desculpem – pediu e andou para fora do quarto. – Eu vou dar uma volta. Preciso colocar as idéias no lugar.


E ele desceu as escadas. Quando deu por si, já estava caminhando pelas ruas de York. O movimento fraco era natural àquela hora, principalmente naquela época do ano, quando estava mais frio. Por sorte ele viera bem agasalhado.


Caminhava cabisbaixo, mas podia ver os carros passarem, vindo da direção oposta, ao seu lado de tempos em tempos. Ouviu um cão latir e ergueu o rosto. Ele vinha dentro de um carro prateado, um Volvo C30, a cabeça para o lado de fora da janela, a língua para fora, o vento lambendo seu pelo e seu focinho.


Deu um sorriso com a visão. Conforme o carro foi se aproximando de uma lombada, a velocidade diminuiu e ele pôde ver quem estava dentro do carro, mesmo através do vidro escurecido pela película. E tudo aconteceu muito rápido.


Uma menininha estava no banco de trás, colocando o cinto. Ela ergueu o rosto para fora e o encarou. Ele sentiu os olhos extremamente verdes dela focalizarem os seus. Olhou então para a mulher que dirigia o carro. Não dava para ver muito do seu rosto; grande parte dele estava coberto pelos óculos escuros. Seus cabelos estavam presos a um coque bem apertado no alto da cabeça e ela usava uma roupa bastante arrumada para quem estava visitando York.


Novamente olhou para a garotinha e, ignorando seus olhos verdes intensos, pôde ver nela a imagem de Hermione aos onze anos. Antes que pudesse encarar a mulher novamente, o carro já tinha partido.


Ele balançou a cabeça negativamente, a fim de afastar aquela idéia idiota. Não havia chances de ser Hermione, afinal! Ou havia? Lembrou-se então de que a família de Hermione tinha uma casa em York, certo? Uma casa onde Carl e Marcia Vernet moravam com suas filhas desde a morte da avó de Hermione... A mesma casa que estava vazia desde que Hermione sumira.


Sentiu-se um idiota por alimentar aquelas esperanças. Ele não a tinha esquecido, afinal? Sorriu como se aquilo fosse a maior besteira que tivesse pensado na vida. Não, ele nunca a esquecera. Ele a guardara bem no fundo, a fim de dar uma chance a si mesmo, mas ele ainda a amava.


Ele amara Karen, e muito. E, ironicamente, a história de “um amor só se cura com outro” não funcionara com ele. Ele não estava curado do amor nem da perda de Hermione, muito menos do amor ou da perda de Karen.


Conseguira dar a volta por cima, é verdade – duas vezes. Mas somente porque não queria estender aquela dor. Achava, entretanto, que não valeria a pena procurar por outro amor. Nem mesmo se fosse para dar uma figura materna a Zoe. Ele conseguira criar a filha sem a precisão de nada parecido. Claro que a pequena contava com duas tias que matariam e morreriam por ela: Amy e Hallie. Além delas, ainda havia os avós – pais de Karen – que sempre se fizeram muito presentes, assim como os Newbie.


No fim das contas, a menininha tivera um suporte familiar de peso. Sirius e Alissa, os Weasley... Todos eram apaixonados por Zoe.


- Harry? – uma voz feminina chamou. Ele virou-se para encarar a recém-chegada, mesmo sabendo de quem se tratava.


- Amy – foi tudo o que disse.


- Vejo Zoe em seus pensamentos – ela murmurou. Harry a olhou feio. – Não me olhe com essa cara. Você está distante e não está sendo de muitas palavras, também – ela defendeu-se. – Vi você sorrir quando aquele carro passou por você. Você conhecia quem estava nele?


- Por um momento, achei que sim – ele resumiu. – Mas a visão do cão foi que me fez sorrir. Era um golden retriever, como Garth.


Amy assentiu e infiltrou-se nos pensamentos do moreno novamente. Não era só aquilo. Ela viu o moreno associar a imagem de uma garotinha no interior de um carro à de Hermione quando tinha quase a mesma idade.


Ela tentou não demonstrar surpresa. De fato, se pareciam muito. Exceto pelos cabelos e olhos. Perguntou-se então se não seria Hermione dentro do carro com a filha e o cão de quem Harry falara. Era bem possível, concluiu. Mas não fora daquela vez que eles se reencontraram.


Pela primeira vez naqueles – quase – onze anos ela perguntou-se que situação o destino estava aprontando para aquele reencontro, sabendo que esse dia estava cada vez mais próximo.




---




Dias depois...




Batidas à porta fizeram com que fechasse seu armário e colocasse rapidamente uma pilha de papéis sobre a mesa.


- Entre – disse em voz alta. A porta se abriu com um estalido. – Ah, é você! – ela revirou os olhos e deu as costas.


- Como vai a Princesinha de Gelo? – ele aproximou-se, afastou os cabelos curtos e negros dela da nuca e depositou um beijo na região.


- Nem vem, Herod. Hoje eu não estou boa. – ela desvencilhou-se. – Nem com tesão para isso – ela completou, enquanto se afastava.


- Por que estou com a velha sensação de déjà vu? – ele indagou, coçando o queixo falsamente. – Eu perguntaria “Ih, qual é, Pansy? O que deu errado dessa vez?”, mas eu tenho certeza que você vai estar com todo o tesão do mundo quando souber o que eu tenho para você.


Ela o viu erguer uma sobrancelha, sugestivo. Sorriu maliciosamente e lançou-lhe um olhar cético.


- Surpreenda-me, então – ela desafiou.


Herod tirou um envelope de suas costas e jogou para ela. Pansy abriu-o com curiosidade.


- Correspondências, Herod? – ela virou os olhos e bufou. – Eu mandei você investigar os podres de Gérard Glenn e você me traz um monte de cartas? Se eu quisesse que interceptasse o correio, eu mesma o faria!


Herod permaneceu com o mesmo sorriso largo no rosto e a sobrancelha erguida, ignorando o comentário – e o desmerecimento – da morena.


- Você se surpreenderia com o que está escrito aí – ele murmurou. Numa fração de segundo, ele estava sentado numa cadeira, as pernas cruzadas sobre a mesa de Pansy e abrindo uma goma de mascar. Jogou a embalagem sobre a mesa e aguardou.


- Você pensa que está aonde? – Pansy lançou-lhe um olhar fulminante.


Ele fingiu pensar.


- Não estou na casa da sogra porque eu não tenho sogra, embora saiba que sua mãe adoraria me ter como genro – ele riu com escárnio. – Mas estou no escritório da minha... amiga de infância – uma pausa e uma nova risadinha antes de completar: – E amante.


- Não ouse dizer isso outra vez – sua expressão endureceu.


- Pansy, eu sugiro que você olhe isso logo para que eu tenha a minha recompensa e possa te deixar em paz – ele fechou o punho sobre a boca e deixou seu olhar fixar-se nela.


Pansy então tomou o seu lugar atrás da escrivaninha e  abriu as correspondências do ministro. Pegou a mais recente e começou a ler.


- Então Gérard Glenn tem um filho fora do casamento... – ela sorriu maliciosamente.


- Sexo selvagem? – Herod indagou de súbito.


- Isso é muito mais do que eu esperava – os olhos de Pansy brilharam.


- Por uma semana – ele sorriu satisfeito.


- É, parece que conseguiu me surpreender – ela se levantou, deu a volta na mesa e sentou-se no colo do loiro. – Não é tão incompetente quanto parece, hã? Garoto esperto – Pansy passou a língua sobre o lábio inferior e mordeu-o em seguida.


- Sexy – ele sibilou enquanto ela entrelaçava as pernas às suas costas.


Ela riu.


- Safado – foi o que disse antes de enterrar as mãos nos cabelos loiros do cúmplice e beijá-lo com ferocidade.

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