Manhã de 7 de janeiro de 2005, Helsinki, Finlândia
- Você tem mesmo que ir? – ela perguntou enquanto o observava fazer as malas.
- Você sabe que sim – ele se aproximou dela, segurando seu rosto entre as mãos com delicadeza.
Ela baixou os olhos, desviando-os do olhar dele.
- Então espero que saiba que eu não posso te acompanhar dessa vez – sussurrou.
- Infelizmente estou ciente disso – Chad tinha a voz triste, seu pesar misturado homogeneamente com seu desgosto.
Ele deixou-se cair na cama, as mãos encobrindo seus olhos.
- Então é isso? – ela sentou-se ao seu lado. – É assim que termina? – o loiro ergueu o olhar para ela, mas não respondeu. – Eu realmente preferia que, se fosse para acontecer, que fosse por escolha e decisão nossa e não por conta do trabalho.
Chad engoliu em seco.
- Não está sendo nada fácil para mim também, Mione. Sabe disso – ele assegurou. – Mas nós sabíamos que alguma hora isso ia acontecer. O fato é que nós nunca estamos preparados o suficiente para despedidas.
Hermione não conseguiu evitar que as lágrimas invadissem seus olhos.
- Onde está Chloe? – ele indagou.
- Desceu com Daisy – Hermione respondeu com simplicidade. – Ela sabia que nós precisávamos conversar – deu um sorriso torto. – Acho que ela se parece mais comigo do que eu imaginava.
- Ela também não gosta de despedidas, não é? – ele riu com tristeza.
- Tanto quanto eu – a morena assentiu enquanto limpava as lágrimas com um gesto impaciente. – Ela disse que queria ter uma lembrança feliz contigo, e não uma lembrança onde havia choro e tristeza.
- É melhor assim – Chad assentiu. – Não fique chateada – pediu.
- Eu não estou. Sei que não é culpa sua – Hermione enxugou os olhos e mordeu o lábio inferior.
- Então me ajude a deixar para trás razões que deixem saudades.
- Não será necessário – ela murmurou. – Eu já sinto saudades.
Ele estava partindo de volta para a Inglaterra. Ela sofria, mas ninguém escutava, ninguém mais se importava. Chad fora muito bom para ela naqueles últimos anos. Foram quase três anos juntos, compartilhando cada momento...
- Quando sentir saudades ou quando estiver se sentindo vazia, busque-me em suas lembranças – ele disse. – Não será necessária nenhuma prova material de que eu estive aqui com você ou do que vivemos. Então, você pode esquecer todo o resto. – Num gesto simples, Chad lhe beijou a testa.
Hermione assentiu e viu-o pegar uma sacola grande e colocá-la sobre o ombro e segurar a mala maior na mão sem muito esforço. Eles caminharam juntos até a sala e ela parou no meio do caminho, observando-o parar antes de chegar à porta. Ele ficou parado alguns instantes, ainda de costas para ela.
Chad então se virou para ela, os olhos vermelhos. Ele estava lutando contra as lágrimas, aquilo estava claro para Hermione. Então ele largou as coisas no chão e correu para ela. Chad sorriu e ela sentiu a mão dele em sua nuca. Ele a beijou intensamente, como nunca fizera antes. Ela sentiu os olhos encherem de lágrimas novamente, mesmo fechados.
Quando deu por si, seus pés já não tocavam o chão. Ela estava, literalmente, nos braços dele. Ao se afastarem, os olhos dele procuraram os dela e eles se fitaram, afogando-se em silêncio... O verde no castanho, o castanho no verde.
- Eu te amo, Mione.
- Eu também amo você, Chad – ela murmurou em resposta. – Do meu jeito, mas é amor.
Ele sorriu e se virou. Antes de sair, deu uma última olhada para ela. E a porta se fechou.
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Noite de 11 de maio de 2005, Berlim, Alemanha
- E aqui estamos nós, começando tudo de novo – Chloe murmurou, deixando-se cair no sofá. – Nós nunca conseguimos ficar mais de dois anos em um lugar, não é?
Hermione riu enquanto colocava as duas últimas malas para dentro do apartamento.
- Que dia chegam as nossas coisas?
- Amanhã ou depois. Depende do trânsito – Hermione respondeu. – Dessa vez nós tínhamos mais coisas nossas do que do proprietário do apartamento.
A garotinha não respondeu. Limitou-se a olhar em volta.
- Daisy! – Chloe se levantou e correu atrás da cadela que tinha ido para os quartos.
Hermione sorriu e olhou para o novo apartamento. Era incrível como ela nunca se acostumava com aquilo, com as constantes mudanças, mesmo após sete anos. Perguntou-se quanto tempo aquela nova vida duraria antes que o destino se encarregasse de levá-la para outro lugar...
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Manhã de 4 de setembro de 2005, A Toca – casa dos Weasley
- Ah, eles chegaram! – Molly correu para a porta.
- Molly, querida, controle-se! – o Arthur pediu, cauteloso.
Quando a matriarca Weasley os recebeu, ele agradeceu mentalmente por ser Rony quem carregava Reese e não Lilá. Isso faria com que a esposa não extravasasse demais em suas recepções calorosas – e saudosas.
- Olá, mamãe! – Rony cumprimentou ainda cinco metros distante da entrada da casa de seus pais. – Olha lá, princesa, dá um ‘oi’ para a vovó – ele disse para Reese. A menininha estava pendurada em seu pescoço, os cabelos ruivos cortados na altura dos ombros e a franjinha caindo sobre seus olhos azuis acinzentados.
- Ah, meus queridos! Como vão? – Molly se aproximou para cumprimentá-los com um sorriso de orelha a orelha. – Venham, entrem! Percy e Penélope já estão aí com as crianças.
Rony não se mostrou surpreso com a visita de Percy. Fazia dois anos desde que ele voltara para o convívio com a família Weasley, o que deixara a Sra. Weasley realmente satisfeita. Aquele era um dos típicos domingos em que a família se reunia – mas nem sempre era possível que estivesse completa como naquele dia.
- Olá, Sra. Weasley! – Lilá cumprimentou a sogra. – Sr. Weasley – ela acenou para Arthur, que sorriu em resposta.
- Gui e Fleur ainda não vieram?
- Oh, eles estão vindo! Provavelmente estão arrumando as crianças. Thierry andou se metendo com os gnomos do quintal – Molly explicou. – Vamos, vão entrando!
- Tio Rony! – três cabecinhas ruivas correram em direção ao recém-chegado.
Rony sorriu para os sobrinhos e se agachou, colocando a pequena Reese no chão.
- Tia Lilá, Reese pode ir brincar comigo lá em cima? – uma garotinha de cabelos castanhos acaju perguntou voltando-se para a loira.
- É claro, Jenna – Lilá assentiu, sorrindo.
Jenna era a filha caçula de Percy, tinha três anos, como Reese, sendo mais velha apenas por quatro meses. Além dela, ainda tinham Kyle e Evan, de quatro e seis anos, respectivamente.
Os dois estavam agora contando a Rony sobre o último jogo da temporada que assistiram. Claro, sem se aprofundar muito no assunto. Evan costumava dar boas lições sobre Quadribol ao irmão, que começara a dar suas primeiras demonstrações de que puxara ao pai e não aos seus tios, que eram fanáticos pelo esporte.
- Os outros disseram a que horas devem chegar? – Lilá indagou a Molly.
- Bem, eu creio que já estejam todos a caminho – Molly respondeu.
- Venha comigo, Lilá. Vamos para a sala, assim você poderá sentar-se e conversar um pouco com Penélope – Arthur chamou e eles seguiram para a sala.
- Todos vêm mesmo? – Rony foi quem perguntou à mãe.
- Sim, acho que nós conseguiremos juntar todos hoje – a Sra. Weasley sorriu maternalmente. – Ah, querido, como vocês fazem falta!
- Hum – o sorriso do ruivo foi sumindo e ele encarou a mãe, sério. – Era exatamente sobre isso que eu estava querendo falar com a senhora, mamãe – ele coçou a cabeça, sem jeito.
- Ora, meu filho! – o sorriso de Molly foi sumindo e seu rosto assumiu uma expressão entre a dúvida, a suspeita e a preocupação. – Sobre isso o quê, exatamente?
- Bem, eu fui escalado para jogar pela Irlanda na próxima copa, então... – Rony sorriu. – Acho que nós devemos estender um pouco a nossa estadia por aqui – ele continuou. – É claro, se não for incômodo para a senhora que eu ocupe novamente o meu quartinho.
O rosto da Sra. Weasley se iluminou num sorriso.
- Ah, Rony, mas isso é maravilhoso! – ela o puxou para um de seus sufocantes abraços.
Pego de surpresa – “Como ainda posso me surpreender com os ataques de felicidade dela?” –, Rony agradeceu mentalmente por ninguém ter se assustado com o grito histérico e súbito de sua mãe.
- O que é maravilhoso, Molly Weasley? – Gui se fez presente, trazendo Sophie no colo. Thierry vinha logo atrás, de mãos dadas com a mãe. O primogênito deu um beijo na testa da Sra. Weasley e cumprimentou o irmão. – Como vai, irmãozinho?
- E aí, cara? – Rony deu um aperto de mão no irmão mais velho. – Uau, mas você ficou loira mesmo, hein? – ele brincou com Sophie, que sorriu e escondeu o rosto no pescoço do pai.
- É, ficou a cara da mãe – Gui comentou. – A propósito, mamãe, é bom avisar Percy que Evan e Kyle estão na garagem do papai.
- Ah, minha nossa! – Molly correu para a sala.
Os irmãos riram.
- Vocês não deviam rir – Fleur se colocou. – A mãe de vocês vai ficar louca!
- Se depender dos onze netos dela, não vai demorar muito – Gui riu novamente.
Com o arrastar dos minutos, os outros Weasley e seus respectivos pares e filhos foram chegando. Logo já estavam todos presentes, conversando e rindo – ou brincando, no caso das crianças que corriam pelo quintal.
- Vou colocar o almoço! – a Sra. Weasley anunciou. – Rapazes, a sala é de vocês! Livrem espaço para que possamos abrir a mesa. Moças, vocês chamam as crianças – orientou. – E, Katie e Angelina, vocês podem vir até a cozinha me ajudar com os pratos?
- Claro, Sra. Weasley – as duas assentiram e seguiram para a cozinha enquanto os homens iniciavam a baderna na sala.
- O que foi que eu perdi? – Draco indagou, surpreso.
Ele tinha saído alguns instantes atrás para levar Sarah ao banheiro e acabara de retornar à sala com uma garotinha loira segurando forte a sua mão.
- Nada demais, querido – Gina sorriu. – Eles viram verdadeiras crianças quando estão todos juntos – ela contou enquanto observava os irmãos se divertirem (des)arrumando o ambiente com um sorriso no rosto.
“Bons e velhos tempos”, pensou.
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Noite de 7 de setembro de 2005, casa dos Malfoy
- Eu estou dizendo, Draco! – Gina assegurou enquanto tirava o sobretudo e pendurava-o no cabide.
Eles tinham acabado de chegar do Ministério da Magia. Nos últimos meses, Draco estava trabalhando – ou melhor, “dando uma forcinha”, como ele gostava de dizer – no Escritório Internacional de Direito da Magia. Ele tinha uma empresa de advocacia com Blaise Zabini, afinal! E Tiffany indicara o nome dele ao chefe do departamento.
- Sua cunhada é uma louca! – ele revirou os olhos, rindo.
- Eu sei. E você já disse isso algumas vezes – ela riu. – Ela é inacreditável!
As horas que tinha passado com Lilá Brown durante o seu horário de almoço – quando Draco estava numa reunião importante – tinham sido hilariantes e Gina lembrava-se de cada instante em seus mínimos detalhes.
- Quanto tempo, Lilá? – ela indagou enquanto limpava o canto da boca com o guardanapo.
- Cinco dias – a loira respondeu. – Gina, eu estou realmente preocupada.
- Lilá, as regras estarem atrasadas cinco dias não significa que você esteja grávida! – a ruiva replicou. – É normal. Talvez você esteja estressada demais!
- Como se uma pessoa que não trabalha e não faz nada na vida pudesse estar estressada... – Lilá revirou os olhos.
- Mas você está dando muita importância para isso, o que é um fator contribuinte. Além do mais, existe ansiedade, preocupação... quer mais causas do que isso? Eu acho que já está de bom tamanho! – Gina ergueu o braço discretamente, chamando o garçom. – Esquece essa história! – aconselhou voltando sua atenção para a cunhada. – E depois, se você estiver realmente grávida, que mal há nisso?
- Eu não sou casada com seu irmão, Gina! – a loira desesperou-se.
Gina e sua calma estavam começando a deixá-la impaciente.
- Vocês vivem juntos há cinco anos, viajando para cima e para baixo em uma interminável lua-de-mel, então suponho que isso já valha como se fossem casados – o garçom chegara. Gina entregou-lhe o pagamento em dinheiro e se pôs de pé. – E vocês já têm uma filha, não é?
Lilá não respondeu. Gina teve certeza de que ela dera-se por vencida quando a loira a puxou pelo braço e precipitou-se para fora do restaurante, apressada.
- Para onde estamos indo? – a ruiva indagou, os olhos em alerta.
- Você vai comigo à farmácia... agora!
Novamente Gina revirou os olhos e deixou-se levar pela cunhada. Já dentro da farmácia, ela esperou pacientemente que Lilá voltasse ao caixa.
- O que é isso? – ela arregalou os olhos ao ver a loira despejar caixas e mais caixas sobre o balcão.
- Testes de gravidez – Lilá respondeu como se fosse óbvio.
- E para quê tantos? Tem mais de dez aqui!
- Um de cada marca, só para ter certeza.
Gina viu Draco rir.
- Eu nem ousaria descrever Lilá Brown, Gin – ele murmurou. – E o resultado?
- Bem, deu positivo – a ruiva respondeu com um sorriso maroto no rosto. – Em todos! – acrescentou.
- Então ela está mesmo grávida?
- Ela ainda consegue esperar pelo contrário, não sei como!
- O que mais ela quer?
Gina bufou.
- Amanhã ela vai pegar o resultado do exame de laboratório que ela fez – respondeu virando os olhos.
- Ela é bastante persistente – Draco disse num tom assombrado. – Acho que agora sai o casamento.
- Você ainda tem dúvidas? – ele observou Gina rir e deixar-se cair no sofá quando Sarah apareceu no aposento.
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Tarde de 31 de março de 2007, St. Mungus
- Nasceu! – Blaise Zabini deu um salto da cadeira.
- Por Merlin, Zabini, você está num hospital! – Draco repreendeu, ríspido.
- Ah, qual é, Draco! Aposto que quando a Sarah nasceu você não ficou quietinho assim – Zabini retrucou.
- É diferente. Sarah foi minha primeira filha – o loiro revirou os olhos.
- E única – o moreno assinalou.
- Onde está Charlotte? – Draco perguntou, referindo-se à filha de cinco anos do amigo.
- Lollie? Lá em cima com sua mulher – Blaise murmurou.
- Sr. Blaise Zabini? – uma medibruxa se aproximou.
- Sou eu – ele se apresentou, um sorriso largo no rosto.
- Acho que temos mais uma garotinha – ela sorriu. – Parabéns, papai.
- Obrigado.
Draco riu. Blaise exibindo orgulho chegava a ser cômico! A medibruxa saiu e o moreno se virou para ele, um sorriso abobalhado em sua face.
O loiro deu uma tapa na cara do amigo.
- Ai! O que foi? – ele levou a mão ao lugar onde Draco batera.
- Você está parecendo uma besta idiota – o loiro lançou-lhe um olhar de repugnância. – Então, qual o nome?
- Lorraine Zabini.
- Hum... – Draco assentiu.
- Ou Loren – os olhos de Blaise brilharam ao dizer o apelido da filha recém-nascida.
- Você é desprezível, Zabini.
- Tão babão quanto você – o moreno rebateu, fechando a cara.
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Manhã de 28 de agosto de 2008, casa dos Potter
Ele adentrou o quarto da pequena Zoe com um copo cheio de suco de laranja e um urso enorme debaixo do braço e uma caixa bem segura em sua mão. Não passavam das seis da manhã.
Colocou o urso ao pé da cama. Era o último dos presentes. Se aproximou da cabeceira e sentou-se ao lado da filha, beijando sua testa.
- Feliz aniversário, princesa – ele sussurrou ao ouvido dela, que se virou e abriu os olhos, espreguiçando-se. Ela então olhou para o pai e sorriu. – Trouxe seu suco preferido – sorriu e entregou a ela o copo.
- Obrigada, papai – ela assentiu e sentou, bebendo todo o conteúdo do copo.
- Já viu a quantidade de presentes que você ganhou?
Harry viu os olhos verdes intensos da filha faiscarem ao notarem a pequena montanha de pacotes sobre o pé da cama. Ele sorriu satisfeito.
- Foi um urso que você pediu a sua madrinha, não foi? – ele perguntou a ela, referindo-se a Hallie.
- Um bem grandão! – Zoe assentiu.
- Desse tamanho aqui? – Harry pegou o urso que trouxera.
- Uau! – os olhos da menininha brilharam por baixo cortina de cabelos loiros e ela estendeu os braços em direção ao bicho de pelúcia. – O que mais eu ganhei?
- Acho que você vai ter que abrir para descobrir – o moreno incentivou e Zoe largou o urso e saltou para fora das cobertas, sentando-se na beirada da cama para começar a abrir os presentes. – Hallie disse que vem te ver mais tarde. Ela e Justin vêm almoçar conosco.
- E a tia Amy? – ela levantou o rosto e tirou, desajeitada, a franja dos olhos.
- Deve estar chegando por volta das 8h – o pai respondeu. – Ainda é cedo, Zoe.
Harry se colocou de pé.
- Você não vai trabalhar hoje? – a pequena indagou.
- Não. Eu vou usar quatro dias de minhas férias acumuladas para irmos passar o fim de semana em York – respondeu. – Vou deixar você abrir seus presentes, ok?
Ela assentiu enquanto rasgava outro embrulho. Ele saiu do quarto e ficou observando-a da porta por alguns instantes. Tudo na pequena Zoe lembrava Karen, até mesmo o formato dos olhos – que, no entanto, eram verdes como os seus. Os cabelos loiros eram muito lisos, diferentemente dos da mãe, que eram leve e graciosamente ondulados.
Karen. Aquele dia era feliz e triste ao mesmo tempo. Zoe sabia que o mesmo dia em que nascera foi o dia da morte de sua mãe, mas ela não parecia entender muito bem aquilo. E, Harry pensou, aquele dia também fora o dia em que ele encontrara uma razão para viver quando sua vida já não fazia mais sentido: Zoe Morgan¹ Potter.
E já fazia quatro anos.
Ele resolveu deixar a filha sozinha e seguiu para seu próprio quarto. Deitou-se na cama e ficou encarando o teto. O silêncio da casa era quase ensurdecedor, mas agora era muito bem vindo. Desistiu de ficar ali e foi até o gabinete. Perguntou-se o que viera fazer ali e balançou a cabeça negativamente, descendo as escadas para o primeiro andar e depois as escadas que levavam ao subsolo.
Só havia a biblioteca naquele pavimento. Ele abriu a porta e seguiu olhando as prateleiras cheias de livros que um dia foram de seus pais. Já lera pelo menos um terço daquela biblioteca e, naquele momento, nenhum livro pareceu lhe interessar. Talvez ele não quisesse ler, afinal.
Caminhou até o fim do enorme aposento, indo para a saleta dos fundos que era de sua mãe. Era um lugar silencioso e aconchegante. Ele sentia-se bem ali. Sentou-se na grande poltrona vermelha e observou a sala ao seu redor. Em cima da pequena mesinha estava um grosso livro. Ele levantou e foi checar o título.
Hogwarts: uma história
Era a mais nova edição, pelo menos até a época em que ele o recebera. Presente de Hermione em seu aniversário de dezessete anos. Ele acabara de sentar na cadeira por detrás da escrivaninha quando ouviu uma voz chamar por seu nome do lado de fora.
Ele levantou e ficou parado, encarando a porta, por onde Amy apareceu alguns instantes depois. Instintivamente olhou o relógio de pulso.
8h03m.
Fazia tanto tempo desde que ele fora acordar a filha?
Amy trazia Zoe em seu colo, já tomada banho e devidamente vestida. “Betty é a minha salvação”, ele pensou sorrindo.
- Bom dia, Sr. Potter! – a morena se aproximou dele dando um beijo em seu rosto. – Sua filha estava me dizendo que o senhor não vai trabalhar hoje...
- É, eu não vou – ele respondeu.
- Ah, que ótimo! Então o que acha de irmos dar um passeio? Estive pensando em levar a minha bonequinha de porcelana ao London Eye.
- E ao Hyde Park – a loirinha lembrou.
- E ao Hyde Park – Amy concordou. – Para tomar sorvete – acrescentou.
- Você está deixando Zoe mal acostumada, Amy – ele disse em tom de falsa repreensão.
- Eu sou tia dela, então eu posso. Quem não pode é você – ela apontou para Harry. – E então, vamos?
Ele olhou para Zoe. A menininha abriu seu melhor – e maior – sorriso.
- Tudo bem.
- Garth vai com a gente – Zoe murmurou.
- Aposto como ele não fará objeção alguma! – Harry riu. – Vamos.
- Quer dizer que vocês vão a York hoje? – Amy perguntou enquanto caminhavam para fora da biblioteca. – Ah, eu queria ir, mas trabalho à tarde...
- Nós ficaremos lá até domingo. Você pode ir com Aaron e as crianças sábado pela manhã e passar o fim de semana conosco – o moreno sugeriu.
- É uma ótima idéia! Vou falar com o Sr. Mackenzie – Amy sorriu. – Estou mesmo precisando de um descanso.
- Bem, sábado é aniversário de Dona Katine – Harry acrescentou.
- Ela é minha trisavó, sabia? – Zoe perguntou à Amy, que confirmou com um aceno e um sorriso.
- Quantos anos? – a morena indagou, dirigindo-se à Harry.
- Noventa e nove.
- Sério? – Amy pareceu surpresa. – Acho que vou me mudar pra York... Se for me garantir uma vida tão longa e com uma aparência e jovialidade tão boa, não será má idéia.
Harry riu.
E Amy notou que o homem frio que ele se tornara após a partida de Hermione não existia desde o nascimento de Zoe. Karen havia conseguido mudanças grandiosas, mas somente a chegada da filha fora quem o trouxera de volta.
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Noite de 29 de agosto de 2008, Londres, Inglaterra
Acabara de chegar de viagem e, como sempre, iria jantar na casa de seus pais. Estava cansado demais, tudo o que queria era que aquele dia acabasse logo e ele pudesse voltar para casa, cair na cama e dormir por dois dias seguidos.
Onde ele estivera? Estados Unidos. Aquele país não dormia – Hermione dizia isso logo que começou a trabalhar na Confederação Internacional da Magia e ele passou a acreditar naquilo –, mesmo em tempos de crise.
Tomou um banho e se trocou rapidamente, seguindo para a casa de seus pais.
- Boa noite, Sr. Hastings – a secretária da casa cumprimentou.
- Boa noite, Grace – ele murmurou. – O Dr. Hastings já chegou?
- Não, senhor. Mas sua mãe está lá dentro aguardando-o.
- Ah, obrigado – ele viu Grace se retirar e deu um passo rumo ao corredor, mas não foi necessário se deslocar.
- Chad! – Caroline, agora com seus vinte e dois anos e tão bela quanto antes, se aproximou. – Como foi de viagem?
- Cansativa, no mínimo – Chad deu um sorriso torto.
- Ah, não pode ser tão cansativo do que trabalhar com o papai – ela sorriu tentando animá-lo. – Olha como eu estou?! – ela apontou para si. Estava toda vestida de branco, os olhos cansados – mas alegres.
- É, não parece a Carol que eu conheço – ele sorriu.
- Eu estava indo tomar banho quando ouvi a Grace falar o seu nome e não resisti! – ela o abraçou. – Que saudades, meu irmão!
- Também sinto sua falta, pequena.
- Você não vai acreditar quem está lá dentro com a mamãe – Caroline fez suspense quando se afastou.
- Carol, eu pensei que você estivesse tomando banho – a voz de Victoria Hastings veio do corredor, se aproximando. – Ah, Chad, meu filho! – um sorriso largo se formou no rosto dela. – Elloe, venha aqui um instante.
- Elloe! – os olhos de Chad brilharam.
- Olá, Sr. Hastings – ela sorriu para ele aquele sorriso perfeito que só ela tinha.
- Ela tem novidades, Chad – Caroline sorriu, sugestiva. – Bem, levando em conta que nós pensávamos que você ia morrer sem se casar, acho que aos trinta e três anos já dá para começar a pensar nisso, não acha? – ela zombou.
- Carol! – Elloe e Victoria repreenderam.
- Está tudo bem – o loiro garantiu. – O que eu tenho que saber que eu ainda não sei? – ele se aproximou de Elloe e depositou um selinho em seus lábios.
- Teremos que mudar a decoração de seu apartamento. Para azul. – Elloe começou. – Ou rosa, talvez.
- Está falando sério?
- Acha que ser pai é pouco?
- Pouco? – ele sorriu. – Isso é demais! – ele beijou a namorada.
Ele e Elloe estavam juntos há pouco mais de um ano. Era um relacionamento um tanto quanto complicado por conta das viagens constantes dele e dos plantões consecutivos dela. No fim das contas, descobriram que escolheram empregos que não permitiam famílias ou relações fixas, mas estavam conseguindo superar aquele determinismo.
Chad estava com trinta e três anos e Elloe com trinta e dois. Estava mesmo na hora de começar a pensar em casamento.
- Espero que seu pai não se incomode de ficar um tempinho trabalhando sem mim – ela comentou.
- Acho que ele não vai se importar nem um pouco – o loiro sorriu e olhou para a irmã. – Você terá alguém à altura para substituí-la.
Ele piscou para Caroline, que retribuiu o gesto com um sorriso.
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Noite de 31 de outubro de 2008, pelos ares de alguma parte do mundo
Halloween – Dia das Bruxas. Há quanto tempo não sabia o que era aquilo?
Naquele momento estava num avião, novamente partindo. Dessa vez, no entanto, o destino era o seu ponto de partida inicial. Aquela idéia a fez suspirar e sorrir. Há muito desejava aquilo.
Ela olhou para o banco ao seu lado. Chloe estava adormecida em seu colo, as mãos segurando fortemente uma revistinha Crossword e uma caneta. Sorriu. A menina era uma ferinha nas palavras-cruzadas.
E tinha apenas nove anos. Ao lembrar-se desse detalhe, sentiu-se velha, embora só tivesse vinte e nove anos recém-completos.
Sentiu o avião descer e logo o comandante anunciou que o pouso no Aeroporto de Heathrow havia sido autorizado.
Ela sentiu um breve frio na barriga e fechou os olhos, a expectativa inundando seu peito.
Voltava para a Inglaterra como chefe do Departamento de Mistérios. O convite fora feito no meado de setembro, poucos dias antes de seu aniversário, e ela aceitara sem pensar duas vezes. Em troca, teve que abdicar de seu emprego na Confederação Internacional da Magia e das viagens.
Chloe ficara fascinada com a novidade. Tudo o que ela mais queria era voltar para a Inglaterra, onde nascera, de onde não tinha lembrança alguma. Mais do que isso, ela queria ir para um lugar onde tivesse certeza de que não sairia mais.
Hermione sentiu-se culpada. A filha não gostava muito daquela vida cheia de constantes mudanças.
Antes de partir, porém, teve que pedir transferência na Academia de Aurores. Também falara com Rhina e Alecia sobre abandonar o seu “emprego nada digno, mas justo”. Elas criaram um monte de facilitações para mantê-la dentro da “empresa” e Hermione concordara, por fim.
Depois se reunira com Elizabeth Newbie e ela lhe passara algumas informações, lhe dissera que Karen sabia de quem se tratava o bruxo que estava matando os nascidos trouxas em torno da Grã-Bretanha antes de morrer e pediu que ela procurasse evidências que os levassem à identidade dele.
Naquele momento Hermione teve certeza de que havia dedo da Dama de Ferro em sua transferência para a Inglaterra, assim como tivera na transferência de Liah seis anos atrás.
“Quero que providencie uma nova identidade, Hermione. Será mais seguro para você enquanto estiver na Grã-Bretanha”, Madame Newbie sugerira.
Na última reunião que tivera com as meninas de Rhina e Alecia, ficara sabendo que a sede européia seria transferida da Península Escandinava para a Grã-Bretanha. Novamente sentiu-se culpada, mas a animação delas era tamanha que sua culpa foi se esvaindo aos poucos.
Em seguida, numa conversa particular com Rhina, ela pedira alguns documentos e a outra ficara de providenciá-los. Rhina lhe entregara seus documentos naquele mesmo dia. Soube, então, que elas partiriam para a Inglaterra no início de 2009.
Ela pegou o passaporte dentro da bolsa. Havia dois deles ali. Ela abriu o primeiro.
Granger, Hermione J.
Devolveu este à bolsa e pegou o outro.
Gauer, Helena J.
- Helena Jordin Gauer – ela murmurou em voz baixa. Aquele seria o seu nome público dali por diante.
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Morgan¹: nome do meio de Karen.