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Hermione acordara no dia seguinte com a mente visivelmente abalada. A noite com Viktor havia sido maravilhosa, havia de admitir, pois o garoto a tratava como uma verdadeira princesa. Por outro lado, a discussão repentina com Fred antes de dormir havia sido devastadora. Ela nem notara quando havia pregado os olhos para descansar um pouco.
Ao revirar-se na cama, considerando que era final de semana e ela estava totalmente tranqüila, agarrara o travesseiro lembrando-se que Fred lhe dera antes de sair. Onde ele estava indo daquele jeito? Por que fizera aquilo? Ela não sabia responder aquelas perguntas e apenas ficara chorando por horas diante do salão comunal da Grifinória até que Neville a ajudasse a se sentir bem o suficiente para conseguir subir as escadas do dormitório feminino.
Agora a morena estava ali observando uma desolada Ginevra Weasley. O que havia acontecido afinal? Ela se lembrava bem de que a amiga lhe contara sobre o pedido de namoro junto com o convite para o baile, mas não havia visto o casal durante a festividade, agora se lembrava bem. Algo estava errado ali e ela pôde notar melhor quando abraçou a amiga mais uma vez.
— Gina? O que aconteceu com você?
— Harry, Hermione!
— Não acredito que ele foi capaz de decepcionar de você. — A garota estreitou o abraço com a ruiva, sentindo a cabeça dela pousar suavemente no seu ombro, em meio a lágrimas.
— Não, ele não fez nada de errado. Ele foi levado, Hermione. Eu os vi!
Como os comensais haviam se aproximado de Hogwarts sem serem notados e devidamente combatidos? A certeza de vitória deles era grande para terem se aproximado com tanta audácia; Em outro caso, não ousariam adentrar as terras sob proteção de Dumbledore. Aquilo estava soando muito mal.
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Karkaroff havia avisado Severus de que o dia escolhido para a ação seria o baile festivo de Hogwarts, onde os alunos estariam concentrados em um único ponto do castelo e o grande alvoroço auxiliaria nos planos. Por mais que Dumbledore estivesse ciente de tudo e confiante de que aquilo era necessário para que Harry compreendesse que apenas ele era capaz de confrontar Voldemort, o ex-comensal não se sentia tão seguro assim.
Por debaixo dos panos, Severus havia cuidado pessoalmente para que Harry – apesar da brutalidade dos planos de Voldemort – fosse levado com certa segurança e se mantivesse vivo diante do encontro. Era apenas questão de alguns dias para que Dumbledore interviesse diretamente para resgatá-lo. A idéia era que Harry pudesse observar o rival a fim de descobrir sua própria força, apenas isso. Numa próxima oportunidade, mais ciente e preparado, ele conseguiria derrotá-lo.
Assim, a marca na testa de Harry começara a queimar como nunca naquela noite em meio ao baile, deixando Gina preocupada excessivamente. Carinhoso e despreocupado consigo mesmo, o garoto havia se distanciado pedindo para que ela permanecesse ali com os irmãos porque tudo passaria logo. Ele a informara de que iria espairecer no corredor de troféus, próximo dali e calmo como sempre, e partira.
Se passara algum tempo e Ginevra estava cada vez mais preocupada, até que ela conseguisse fugir dos irmãos para encontrar o namorado. A cena que vira fora horrorosa. Através de uma das imensas janelas entreabertas do corredor dos troféus, Harry era levado desacordado por dois comensais. Por mais que ela tivesse gritado por ajuda ninguém fora capaz de acudi-la.
Fora naquela mesma noite de ação, e com muito custo, que os gêmeos Weasley haviam descoberto o paradeiro do amigo Potter: uma pequena e discreta casa nos arredores de Hogsmeade. Não havia tempo para auxílio dos amigos ou dos professores. Precisavam ser rápidos se queriam resgatá-lo. Por mais que não se dedicassem tanto às artes acadêmicas, os garotos eram muito inteligentes e estavam dispostos a qualquer coisa.
Antes de encontrar o irmão no mesmo corredor em que Harry fora levado, tendo as vassouras e varinhas a auxiliar o resgate, Fred havia parado para falar com Hermione. Sabia o quanto ela estava magoada com ele, com razão, e até mesmo considerava que as coisas pudessem ter conseqüências difíceis durante o confronto. Ele poderia até mesmo ser expulso de Hogwarts pela audácia de fugir no meio da noite!
Por fim, a conversa não havia tomado os melhores rumos. Hermione era uma garota decepcionada e Fred era um garoto orgulhoso. O que poderia ter saído de bom daquilo? Ambos haviam dito todas as coisas ruins que poderiam dizer, sendo que em seus corações queriam simplesmente se abraçar e pedir perdão. O orgulho falara mais alto e ali estavam eles a se separar mais uma vez.
Antes que partissem, George lhe havia perguntado sobre Hermione, mas não havia o que ser dito. Removendo-os para longe da conversa, um barulho fora ouvido próximo ao corredor, um baque surdo e mal calculado. Alguém caíra ao chão.
— O que foi isso? — Fred questionara surpreso.
— Deve ser aquele estúpido monitor da Corvinal. — George dissera sem muito ânimo. O tal garoto era realmente desastrado, disputando muito bem o título com Neville. — Anda, vamos antes que ele resolva nos barrar.
Longe dali, naquela mesma noite, Fred fora descoberto do lado de fora da pequena casa acompanhado do seu irmão. O comensal que os vira alertara outros dois para que se aproximassem e iniciassem o confronto, do qual diversos feitiços poderosos eram lançados ao longe. Os garotos Weasley, notavelmente em apuros, fugiam apressados quando um dos comensais ousara tentar ferir George com um feitiço que nenhum dos dois conhecia até então.
Naquele momento, movido pelo instinto fraternal, Fred entrara diante do irmão a fim de protegê-lo, recebendo o feitiço totalmente contra si. Enquanto o comensal com seus semelhantes comemoravam o acerto, George apanhara as vassouras carregando o irmão desacordado consigo em uma manobra de rapidez. Sentia-se completamente assustado com aquilo.
Os terrenos de Hogwarts jaziam silenciosos quando eles ali chegaram novamente. Fred havia sido levado às pressas para a ala da enfermaria por seu gêmeo totalmente desolado, que tentava explicar à Dumbledore o que ocorrera. Apesar dos cuidados, o mais brincalhão dos ruivos faleceria no dia seguinte, pela manhã, algo que Hermione só saberia ao descer as escadas para procurá-lo durante o café da manhã.
A Grifinória estava de luto por um dos mais geniais garotos que haviam passado por ali. O que seria da Casa, de Hogwarts até, sem as marotices dos gêmeos Weasley? George sequer sentia como se fosse ele mesmo sabendo que o irmão não estaria mais ali com ele. O desespero rasgava em múltiplos pedaços o coração de Hermione e não havia quem não chorasse com ela naquele momento de cumplicidade dos grifinórios.
Em honra ao baderneiro, o adorável ruivo de sorriso debochado, Hogwarts incendiara os céus ao redor com os fogos que ele criara, lindos com o imenso dragão chinês que corria ao lado das estrelas entre múltiplas explosões coloridas. Até mesmo os garotos de Durmstrang, que partiriam no dia seguinte, sentiam-se acolhidos diante da demonstração de afeto.
A única coisa que consolara - ainda que pouco - os bruxos, fora a chegada de Harry Potter dois dias depois. Estava abatido, machucado, mas vivo. Dumbledore o salvara como se era esperado e a tristeza que havia sobre a morte de Friedrich Weasley podia ser um pouco amenizada na mente do diretor com a certeza de que Harry agora despertara o potencial que havia em si, trazendo à tona a chance de derrotar-se Voldemort.
"Eu te amo", Hermione conseguia escutar a cada minuto. A voz de Fred, seus toques e cada segundo que haviam passado juntos agora se repetiam incessantemente na sua cabeça.