Tarde de 27 de agosto de 2004, Casa dos Potter, Londres
Ele estava remexendo os papéis sobre a mesa, lendo e relendo cada um deles. Todas as manchetes do Profeta Diário, as informações coletadas nos últimos quatro anos... Ele estava perto de descobrir de quem se tratava o indivíduo que estava assassinando pessoas em torno da Grã-Bretanha.
O que as vítimas tinham em comum? Todas eram nascidas trouxas. “Um projeto de Voldemort”, ele pensou desgostoso. O objetivo daqueles assassinatos estava claro: o extermínio dos que fossem ‘sangues-ruins’, como eram preconceituosamente chamados os que não tinham ascendência totalmente bruxa.
Metade dos papéis que ele tinha em mãos era de Karen, se não mais. Ele não entendia onde ela conseguia tanta coisa, tantas informações sobre aquele caso, mas o material estava sendo tão útil que ele resolvera deixar sua curiosidade para outro momento – um que fosse mais oportuno.
Ela estava no quarto, provavelmente acomodada numa poltrona grande e confortável, lendo. Karen gostava de romances policiais – e eles estavam sendo de grande ajuda para aplacar a terrível ansiedade que se apossara dela por conta das intermináveis horas que passava em casa; Harry providenciara para que pelo menos o último mês da gestação corresse na mais plena calma e tranqüilidade merecida.
Ele baixou os papéis e respirou fundo. Estava ali há horas! Levantou-se, pegou a jarra que estava na estante e colocou um pouco de água num copo, voltando em seguida para a poltrona que ocupava instantes atrás.
Ouviu um baixo gemido e seus olhos vagaram para a porta. Garth estava sentado ali e tinha os olhos fixos nele.
- Venha aqui, Garth! – ele chamou. O cão hesitou. – Venha, garoto! – Harry viu o cachorro se erguer, sem sair do lugar, o rabo abanando. – Pode vir! – insistiu e ele próprio de pôs de pé.
Caminhou até a porta e agachou-se ao lado do golden retriever, mexendo atrás de sua orelha.
A campainha tocou.
- Sr. Potter? – a voz rouca de Betty ecoou instantes depois e logo ela estava subindo para o patamar em que Harry se encontrava.
- Quem é, Betty? – ele indagou, pondo-se de pé.
- Na verdade, estão procurando pela Srta. Priestly – a senhora informou. – É a irmã dela. Está acompanhada de um rapaz.
- Mande que subam e lhes mostre o caminho do quarto. Karen está lá repousando – ele instruiu.
- Sim, senhor – e Betty se retirou.
Ele pôs Garth para dentro do gabinete e fechou a porta. Uma vez por mês, ao que ele sabia, Karen recebia a visita desse rapaz misterioso. Sabia que se tratavam de assuntos particulares – e, imaginava, familiares –, por isso nunca se metera.
Ouviu passos e sussurros se aproximarem e se distanciarem novamente, a porta do quarto fechar com um baque surdo e, de novo, passos rápidos se aproximarem e se afastarem – que ele julgou ser Betty descendo.
Tomou seu lugar novamente, concentrando-se nos papéis. Ouviu Garth dar um suspiro pesado antes de deitar-se ao seu lado, a cabeça sobre as patas, quieto, como se nem estivesse ali.
---
- Karen? – a cabeça de Hallie surgiu.
- Hall! – Karen deixou o livro de lado e sorriu, as mãos sobre a enorme barriga de oito meses. – Venha, entre.
Hallie adentrou o quarto, acompanhada do rapaz já conhecido que costumava visitá-la todo mês.
- Ah, Max! – ela cumprimentou. – Estava me perguntando se havia esquecido de mim – ela riu.
- Eu não sabia que estava aqui, então fui direto para o apartamento de vocês – ele explicou.
Max Givet era um rapaz simples, pai de família embora fosse novo para os dois filhos que tinha e o terceiro que estava por vir – ele tinha vinte e oito anos. Moreno, olhos negros e estatura mediana, era membro da Wendelin Phoenix ou WP, como eles costumavam chamar entre si.
- Tia Elizabeth atrasou um pouco os documentos. Ela queria acrescentar outras coisas antes de enviar as informações, segundo disse, mas sabendo que podia demorar, achou melhor enviar de uma vez e aguardar mais notícias – Hallie murmurou. – Ela colocou um esquadrão de pessoas para fazer algumas investigações – acrescentou. – E pediu para avisar que ela virá pessoalmente mais tarde para falar com você.
- Aconteceu alguma coisa que eu não estou sabendo? – Karen indagou preocupada.
- Bem, digamos que ela está cheia de novidades – Hallie respondeu.
- Que tipo de novidades? – a irmã insistiu.
- Parkinson está fora de área há dois dias – Max se pronunciou. – Aparentemente isso a preocupa.
- Pode ser bom, mas... – Hallie começou.
- Pode ser ruim – Karen completou. – Fora isso, algo mais de importante?
- Como andam as investigações por aqui? – a gêmea perguntou à irmã.
- Harry está enfurnado desde cedo no gabinete estudando alguns papéis. Eu disponibilizei alguns dos meus – sei que não deveria, mas eu disse que andei pesquisando – e ele está tentando descobrir algo que nós não saibamos.
- Você chegou a ver o que ele tem? – o moreno perguntou.
- Ele está bem perto. Tem dados preciosos. Tirei uma cópia e enviei à tia Elizabeth.
- O que explica muita coisa – Hallie murmurou pensativa. – Talvez você tenha ajudado mais do que esperava e ela queira lhe falar a respeito disso.
- Hall, ela já está aqui?
- Estava nos planos dela passar as férias inteiras na Suíça, mas ela acabou voltando uma semana antes para o trabalho – respondeu.
- E onde está o envelope, Max? – ela voltou-se para o moreno.
- Aqui – ele abriu uma pequena maleta e retirou um grosso envelope. – Acho que nunca esteve tão recheado – entregou a ela.
- Pelo menos a WP teve uma folga a respeito da alucinada da Parkinson – Hallie comentou.
- Em compensação, existe um bruxo alucinado matando gente inocente por aí – Karen replicou.
- A idéia de investigar a respeito foi sua, querida. Agora agüenta! – a outra loira riu. – Bem, maninha, agora nós temos que ir. A mulher do Max já está internada e, você sabe, ele deve estar uma pilha de nervos.
- Compreendo totalmente. Pode ir, Max. Fique à vontade! E meus parabéns mais uma vez.
- Obrigado, Karen – ele agradeceu. – Breve será você.
Karen sorriu e acariciou a barriga. Hallie se aproximou, deu um beijo na testa da irmã e acariciou a sua barriga.
- Se cuida – ela murmurou antes de sair atrás de Max.
Ela permaneceu observando o corredor vazio por alguns instantes. A porta que dava para o quarto de Harry sempre despertara curiosidade em nela; sempre estava trancada.
Levantou-se com cuidado, uma mão na parte inferior da barriga e a outra nas costas, ajeitando a postura. Em seguida, pegou o envelope que acabara de receber de Max, segurando-o firmemente. Ela não estava acostumada a levar os documentos da WP para os lugares que freqüentava e não se sentia segura deixando aquele monte de informações tão vulnerável – o único lugar onde guardava aquele material era em sua casa, num armário à chave. E depois, aquela casa não era sua e Harry desconhecia a existência da sociedade. Ela teria que guardar aquilo em um lugar seguro, certo?
Lentamente, caminhou até a tal porta e forçou a maçaneta. “Trancada!”, ela pensou com desgosto. O que podia haver por detrás daquela porta que fazia com que Harry a mantivesse sempre fechada? Ela nunca perguntara. Sabia que o noivo não era do tipo que gostava de muitas perguntas e respeitava aquilo. Se ele quisesse falar – e fosse importante ou necessário ser feito –, ele o faria.
---
Estava cansado e já não conseguia mais se concentrar. Resolveu sair com Garth para dar um passeio no parque ou qualquer lugar onde pudesse espairecer e esquecer o trabalho ao menos por um momento.
Sabendo que Hallie e o tal rapaz já tinham ido embora, ele saiu do gabinete e seguiu para o quarto.
---
Karen ouviu passos dentro do gabinete e, alarmada, rapidamente jogou o envelope no chão e empurrou-o, com o pé, por debaixo da porta.
Sentiu uma pontada na barriga; o bebê estava chutando. Aquilo nunca a incomodara, mas nas últimas semanas estava lhe causando um desconforto terrível. A dor veio depois. Ela fechou os olhos e respirou fundo, novamente levando a mão à parte inferior do ventre. Passou. No fim das contas, a sua maior dificuldade era respirar. Era como se o bebê tivesse crescido além da conta e estivesse esmagando os seus órgãos por dentro – e ela sabia que estava acontecendo de verdade, era normal.
A porta do gabinete se abriu e Garth saiu de dentro do aposento seguido por perto de Harry.
- O que você está fazendo de pé, Nena? – o moreno indagou.
- Caminhando um pouco – não era de todo uma mentira. – Meus pés ficam inchados se eu ficar muito tempo sem andar, sabe disso.
- E o desconforto? – ele insistiu.
- Está tudo bem – Karen garantiu.
Harry ergueu uma sobrancelha, um traço marcante de seu ceticismo.
- Estou indo andar no parque com Garth, tudo bem? – disse, por fim.
- Eu até gostaria de ir com vocês, mas...
- E por que não vem? Eu vou de carro, de qualquer forma.
- Você está doente, Potter? – ela brincou. – Você nunca me deixa levantar para beber água ou ir ao banheiro sozinha e agora está sugerindo que eu vá ao parque com você?
- Bem, não que eu ache uma boa idéia, mas você precisa caminhar, certo? E, eu acredito, não há nada melhor do que ir ao parque, respirar ar puro e ficar em contato com o verde da natureza – ele se aproximou galante, abraçando-a pela cintura. – E depois... não deixa de ser um passeio romântico.
Karen riu.
- Harry, eu estou grávida, não há nada de romântico nisso – balançou a cabeça negativamente, ainda rindo. – Olha para mim... Eu mal consigo andar!
- Você está linda! – ele sorriu. – Além disso, não faltam bancos no parque onde você possa sentar –murmurou. – Agora vamos, antes que anoiteça!
- Harry! – ela repreendeu.
- Nena, esta pode ser a última vez que iremos ao parque a sós – ele argumentou.
- Nós não iremos a sós. Iremos a quatro – Karen corrigiu. – Eu, você, Garth e nosso bebê.
- Eu vou ter que te carregar até lá, é isso? – Harry arqueou as sobrancelhas, sugestivo.
- Ok, eu já estou indo – ela voltou ao quarto, pegou um chapéu e os óculos escuros. – Só por precaução – sorriu antes de aceitar a mão que ele lhe estendia.
O fim de tarde de uma sexta-feira ia ficando aparente a cada metro que se aproximavam do Hyde Park. O movimento nas ruas crescia consideravelmente à medida que se aproximavam do centro de Londres. Harry estacionou o carro e saltou, abrindo a porta para Karen.
Era um típico dia de verão, quente e seco, mas com uma leve brisa percorrendo os ares.
Karen saltou do carro segurando o vestido comprido azul que usava como se temesse que o vento o levantasse. Harry sabia que não era o vestido que ela segurava, mas a barriga; ela tinha um instinto de proteção extremamente forte. Ela já estava de óculos escuros e prendera os cabelos loiros num menina-moça. Pegou os óculos escuros que ela lhe estendia e colocou-os.
Ele deixara de usar os óculos de grau há alguns anos, quando resolvera corrigir a visão com uma cirurgia trouxa – e nem assim as pessoas paravam de comentar a sua semelhança com seu falecido pai, James Potter.
Não muitos minutos depois eles estavam caminhando por entre as crianças que corriam de um lado para o outro, brincando. Garth, comportado, seguia rigorosamente ao seu lado. Um menino acabou por se esbarrar em Harry e olhou para cima timidamente, pedindo desculpas e voltando a correr para longe.
- Você consegue me imaginar o trabalho que um filho meu vai dar? Se puxar ao pai e ao avô, então... Imagina só... Eu deitado no chão até tarde da noite brincando com uma porção de carrinhos em miniatura, mesmo tendo trabalho cedo no dia seguinte... – ele comentou, sonhador. – Ou então correndo, jogando Quadribol com meu filho no parque num dia de domingo?
- Bem, talvez você goste de brincar de boneca – a loira riu.
- Boneca? – Harry despertou de seus devaneios, prestando atenção na noiva.
- É – ela comentou, despreocupada. – Não é um menino, Harry. Não é filho; é filha – Karen corrigiu, paciente.
- Mas você não disse que não sabia ainda?
- Bem, eu não sabia até essa manhã, quando fui à consulta... – ela explicou. – Eu não resisti – admitiu corando.
- O mal é a curiosidade! – ele riu. – Agora você acabou com a idealização do meu rapazinho – fingiu-se de desapontado.
- Ah, mas você vai ter uma garotinha para mimar à vontade! – ela entrelaçou a outra mão na dele e colocou-se em sua frente, fitando-o atentamente. – Eu realmente espero que ela tenha os seus olhos.
Harry riu.
- E eu espero que ela seja tão linda quanto a mãe dela – ele a beijou.
Quando se afastaram, ela ainda mantinha os olhos fechados e um sorriso sereno no rosto. Harry permitiu-se admirá-la por alguns instantes em silêncio.
- Que tal um sorvete? – sugeriu após dar um selinho nela, fazendo-a abrir os olhos novamente.
- Uma ótima idéia! – ela sorriu. – Mas depois teremos que voltar. Tia Elizabeth vai me visitar hoje e não disse a que horas iria, então... – explicou. – E, depois, já está ficando tarde.
- Como quiser, Madame – ele brincou e deu um último selinho nela antes de voltarem a caminhar.
---
Fazia duas horas que estava de volta ao gabinete de sua casa. Karen dissera que ele estava ficando paranóico, mas ela parecia entender a sua preocupação e pressa.
Ele abriu as gavetas à procura de algo que ainda não estivesse em suas mãos. Achou um envelope datado – agosto/2002. Não o reconhecia, não se lembrava de tê-lo colocado ali. Hesitou por um momento, mas abriu-o.
Cópias de várias edições do Profeta Diário, páginas e páginas de matérias arrancadas da revista O Pasquim... Todas falavam do mesmo assunto: as propostas de Pansy Parkinson. Jogou tudo sobre a mesa e novamente olhou o envelope, checando se estava vazio.
E estava. Exceto por um ínfimo pedaço de papel. Enfiou a mão no envelope e o resgatou. Provavelmente estava esquecido ali desde a data que constava no envelope – há dois anos.
KENSINGTON, High Street, 30
Olhou o verso... Nada. Anotou o endereço mentalmente.
Ele conhecia aquele lugar, inclusive, mas perguntava-se o que aquilo queria dizer e por que o endereço estava no meio daquilo tudo. Havia uma razão, certo? E como ele nunca vira aquele envelope? De onde surgira aquilo?
- Harry, o jantar está servido! – ele ouviu Karen chamar.
Largou tudo e recostou-se na cadeira, esfregando os olhos e mantendo a mão sobre eles depois.
- Harry? – a loira insistiu, a voz distante e abafada.
Coçou a cabeça e se levantou.
- Estou descendo! – avisou. – Vamos, Garth – chamou e desceu com o golden retriever em seu encalço.
Ele havia programado sair com Karen àquela noite para jantar num restaurante – talvez o Mirabelle ou o Quo Vadis. Às sextas-feiras, conforme ele aprendera com o tempo, o Bistrotheque não era o melhor lugar para se jantar.
Bem, eram apenas planos. Principalmente agora, que Elizabeth Newbie resolvera visitar a sobrinha – que, por acaso, era sua noiva e estava em sua casa. Não que ele se importasse. Ele não tinha nada contra a tia de Karen; ao contrário, a admirava. Mas havia algo nela que o intrigava. Por muito tempo ele achara que a Dama de Ferro não gostava dele, o encarava com certa desconfiança – como se a qualquer momento ele fosse voar no pescoço de Karen e dilacerá-lo.
Não importava muito os motivos que ela tinha agora. Nos últimos tempos ela passara a tratar como a um velho conhecido, e não formalmente como fazia por serem colegas de trabalho, chefes de departamentos complementares no Ministério.
Elizabeth ainda não chegara e ele sentiu-se inconformado por não terem ido jantar fora. Daria tempo, afinal. E talvez sobrasse.
Olhou o relógio. 20h. Enquanto caminhava pelo corredor, observou uma janela qualquer. Ainda estava escurecendo. “Fenômenos que só o verão proporciona; 20h e o crepúsculo ocorrendo”, ele pensou.
Novamente inconformado, pensou que talvez pudessem estar saindo do parque somente àquela hora. Quando chegou lá embaixo, Karen já estava sentada à mesa aguardando-o.
- Que cara é essa? – ela indagou.
- Preocupação, ansiedade, nervosismo e... contrariedade – ele murmurou com veemência a última palavra.
- E uma pequena dose de irritação, estou errada? – Karen ergueu uma sobrancelha, sugestiva.
Ele encarou-a, flexionando a mandíbula. Baixou os olhos e colocou o guardanapo sobre o colo.
- Não, não está – ele assentiu.
- Eu sei que gostaria de ter ido jantar fora, querido, e que estava realmente contente com o passeio ao parque...
- Não se trata disso – ele interrompeu. – Não apenas.
- Que tal dar uma folga ao trabalho? Pensei que tinha tirado o dia de folga, mas você passou o dia inteiro enfurnado naquela sala, martelando um monte de informações repetidas na cabeça... Isso é estressante, Harry – ela argumentou. – Esse fim de semana você não vai nem passar perto de lá, está ouvindo? Nem que eu tenha que trancar aquele gabinete e jogar a chave pela janela!
Harry deu um sorriso torto.
- Tem a minha palavra – assentiu.
- Ótimo. Agora coma, mandei preparar o salmão especialmente para você – ela sorriu.
- Está com uma cara ótima! Obrigado – o moreno murmurou de forma amena.
Karen sorriu satisfeita e ela própria começou a comer em silêncio, observando-o de esguelha de instante em instante.
A campainha tocou e Betty surgiu apressada para atender.
- Boa noite – Harry ouviu a voz de Elizabeth Newbie vinda da sala ao lado, a sala de visitas.
- Boa noite, Madame Newbie. A Srta. Priestly havia dito que viria – Betty informou. – Ela está na sala de jantar com o Sr. Potter. Eu vou chamá-la.
- Não, não, não se incomode. – Elizabeth adiantou-se. – Eu aguardarei aqui.
- Sim, senhora – e os passos de Betty se aproximaram. Logo ela apareceu no aposento.
- Não se preocupe, Betty, nós já terminamos – Karen disse e se levantou. – Você vem, Harry?
- Claro – Harry bebeu o restante de sua água para tirar o gosto do vinho da boca e limpou-a com o guardanapo.
Ele levantou e a seguiu.
- Olá, tia Elizabeth – Karen cumprimentou assim que adentraram a sala de visitas.
- Mas está enorme desde a última vez que eu a vi, minha querida! – Elizabeth se aproximou e abraçou a sobrinha, se afastando em seguida e acariciando a sua barriga. – Está magnífica! – elogiou. – Como vai, Harry?
- Bem, obrigado – Harry a cumprimentou. – E presumo que a senhora possa dizer o mesmo – e deu um sorriso galante.
- Oh, sim. Um tanto atarefada com a carga de trabalho e outros projetos, mas está tudo esplendorosamente bem – ela sorriu e lançou um olhar significante à Karen, o qual passou despercebido por Harry. – E o bebê, é para quando?
- Para o meado de setembro – Karen respondeu desgostosa. – Eu gostaria que nascesse antes de o início do mês, mas pretendo fazer parto normal.
- Ah, entendo. Por conta do ano letivo, não é? Certamente atrasará um ano.
- Exatamente por isso – a sobrinha confirmou.
- É menino ou menina? – a tia indagou.
- Menina – Harry respondeu.
- Não ficou desapontado? – Elizabeth dirigiu-se a ele.
- Não, não. Na verdade, não. Claro que todo pai quer um filho para compartilhar atividades e outras coisas de homem, mas o importante é que o bebê nasça com saúde, independente do sexo – o moreno respondeu com sinceridade e brincou: – E depois, nós só fazemos o que gostamos, certo?
Elizabeth riu.
- Ainda terá tempo para encomendar um menino – ela assegurou.
- Oh, não! – Karen apressou-se em responder. – Não quero arriscar que venham gêmeos.
- Ora, e qual o problema? – a tia perguntou, as sobrancelhas arqueadas, surpresa. – Eu tive gêmeos, sua mãe teve gêmeos...
- E só! – a loira interrompeu. – Se vierem gêmeos, serão três filhos e eu acho que dois é o suficiente!
- Isso porque você cresceu com esse parâmetro familiar, querida.
- Pois eu quero ter mais três filhos! – Harry comentou. – Nunca tive uma família, então quero uma bem numerosa.
Ele riu, acompanhado das duas.
- Dará um bom pai, tenho certeza – Elizabeth comentou. – Muito bem, meus queridos, eu gostaria de papear a noite toda, mas venho tratar de assuntos particulares e importantes – ela assinalou e parecia sinceramente pesarosa. – Se importa se eu a roubar por um instante, Harry?
- Não, é claro que não! – ele assegurou. – Eu ia sair mesmo, dar uma volta de carro para pensar um pouco, então... Fiquem à vontade!
- Aonde você vai, Harry? – Karen indagou quando ele se levantou e se pôs de pé ao lado dele.
- Dar uma volta, prometo que volto logo – ele a beijou rapidamente. – Eu te amo, ok?
- Eu também te amo, Harry – ela murmurou e deu um selinho nele.
- Até logo, Madame Newbie – ele acenou e saiu.
- É um bom partido – Elizabeth Newbie deixou escapar para a sobrinha assim que a porta da frente bateu.
Karen estranhou o comentário da tia, mas nada disse.
- Você parece ansiosa – a tia observou. – Não vou alongar muito essa conversa. Vamos ao que interessa – ela anunciou. – Eu li as informações que me deu e fiz algumas observações que talvez, por mera falta de atenção, você não tenha feito. Creio que Hall comentou com você a respeito da Parkinson, estou certa?
A loira assentiu.
- Muito bem, como eu imaginava.
- Você acha que isso pode ser ruim? – Karen indagou cautelosa.
- Eu tenho certeza de que isso é péssimo, Kare – ela utilizou-se de seu apelido de infância; definitivamente, se ela tentara soar amena, algo de errado havia no sumiço de Pansy Parkinson.
- E quanto ao tal bruxo...?
- É sobre isso que vim falar – Elizabeth abriu a própria bolsa e retirou uma cópia do manuscrito – ou rascunho ou o que quer que fosse – de uma notícia que sairia no dia seguinte.
Ela estendeu-o para Karen e tirou os óculos, cruzando as pernas e apoiando o cotovelo sobre elas, uma haste dos óculos na boca, a qual ela mordia casualmente.
- Uma morte na Escócia anteontem e duas aqui em Londres essa madrugada? – os olhos de Karen estavam arregalados.
- Hum, três mortes... – a tia murmurou, a voz rouca. – Três nascidos trouxas – completou. – Vim porque sabia que você está interessada nisso, assim como sei que seu noivo está investigando.
- Você não veio aqui só para isso, tia – Karen arqueou uma sobrancelha.
Elizabeth deu um meio sorriso e assentiu brevemente.
- O fato é que com você fora do Conselho de Wizengamot eu não posso acompanhar Parkinson como gostaria...
- E veio saber de informações ainda assim.
- Harry Potter também é membro, afinal – ela lembrou à loira.
- Ele disse que ela não tentou nada nos últimos tempos. E depois, a última reunião do Conselho foi há dois meses.
- Então suas informações ainda são válidas.
- Tecnicamente, são válidas há seis meses.
- Eu daria carta branca para que a WP se concentrasse completamente nesse bruxo – até porque ele também anda desafiando os nossos interesses há dois anos – mas tenho medo que percamos algum passo da outra...
Ela se interrompeu e recolocou os óculos.
- Mas eu não sei, há algo que não se encaixa nessa história toda – ela parecia pensativa aos olhos da sobrinha. – Um bruxo surgir assim, das sombras, com os mesmos interesses de Pansy Parkinson, mas com o instinto de Voldemort...
- Os três têm exatamente os mesmos ideais, só que em proporções diferentes – Karen interrompeu. – O primeiro e o último são sádicos, têm sangue frio o suficiente para fazer o trabalho utópico de Parkinson com as próprias mãos, pôr em prática, se é que me entende.
- Está no caminho certo, Kare. – Os olhos de Elizabeth pareceram vagar para o nada, orbitar para o limite num canto superior da cavidade ocular. Ela estava pensativa em demasia, como se quisesse escolher as palavras certas para usar. – É como se Parkinson quisesse levar adiante o ideal de eliminar os mestiços da sociedade bruxa e o bruxo que está matando toda essa gente estivesse fazendo este trabalho da mesma forma que Voldemort o faria, complementando a idéia de nossa querida colega de uma maneira mais... definitiva.
Karen arregalou os olhos, parecendo entender.
- Você acha que... eles têm alguma ligação? – indagou hesitante.
Elizabeth deu um meio sorriso malicioso e suas palavras seguintes transbordavam escárnio:
- E por que não?
---
Ouviu o celular apitar mais uma vez. E depois duas vezes seguidas, o que indicava que sua bateria tinha acabado e ele desligara.
“Ótimo”, ele revirou os olhos.
Ele pensara em ir à Toca, mas então se lembrou que Rony estava viajando e, provavelmente, o Sr. Weasley não estaria em casa; ele sempre trabalhara até tarde. Sentiu-se levemente desapontado. O fato de A Toca ser fora dos limites da cidade permitiria que ele dirigisse mais, o que ele sempre considerara uma terapia.
Estava dirigindo a caminho da casa de Sirius, em Knightsbridge. O padrinho sempre fora excelente companhia, principalmente pelo seu ar descontraído e malicioso – de uma forma saudável, é claro.
É, talvez fosse o lugar certo para ir e espairecer.
---
Elizabeth Newbie deixara a casa cerca de quarenta minutos atrás.
“Eu sugeriria que desse uma olhada no material que te enviei mais cedo”, ela dissera antes de sair.
Desde então, Karen estava pensando em mil e uma maneiras de arrombar a porta do quarto em que passara o envelope por debaixo da porta. Ela repreendeu-se várias vezes e chegou a xingar-se de nomes que jamais diria em voz alta.
Estava ali, parada, encarando a porta há mais de meia hora.
“Estúpida, idiota, lerda, energúmena, imbecil...”, novamente autodenominou-se de vários nomes, acrescentando outros à lista conforme ia lembrando e batendo na própria testa a cada um adicionava.
Foi então que seus pensamentos iluminaram-se.
“É claro! Como não pensei nisso antes?”, ela estapeou a testa novamente e desceu as escadas.
- Betty? – chamou. – Betty?
- Sim, Srta. Priestly?
- Eu sei que talvez o Sr. Potter tenha pedido para que você não fizesse isso, mas eu acho que poderia ser nosso segredinho – ela começou. – Então, você... – mordeu o lábio inferior. – Você tem as chaves... – ela pigarreou. – Você tem as chaves do quarto que dá para a porta do quarto de Harry?
- Eu não sei se devo... – Betty começou.
- Ele não precisa saber, Betty. É rápido, eu prometo. Só tenho que pegar uns papéis lá dentro – Karen entrelaçou os dedos das mãos ansiosamente sobre a barriga.
- Tudo bem – Betty puxou um molho de chaves de dentro do bolso do avental e tirou uma única chave dentre todas elas, estendendo-a para a loira. – É essa. Só não se esquece de trancar assim que sair.
- Não vou esquecer – Karen garantiu antes de subir as escadas novamente.
Muito rápido para alguém que estava grávida de oito meses, ela alcançou a tal porta e encarou-a por mais alguns instantes. Segurou a chave com firmeza e levou-a a fechadura, destrancando-a com um estalido. Respirou fundo e levou a mão à maçaneta. Abriu lentamente e deu um passo para dentro do quarto desabitado, embora rigorosamente organizado.
Desviou sua atenção por um instante, olhando para o chão atrás da porta. Ali estava o envelope. Puxou a varinha e apontou para ele sem verbalizar o feitiço, mas trazendo-o para suas mãos ainda assim.
Novamente seu olhar voltou-se para o quarto. Era simples, mas muito bonito e de bom gosto. Ela supôs que aquele quarto havia pertencido a uma mulher, alguém que deveria ir e vir àquela casa com certa freqüência no passado – ou, pelo menos, o quarto teria sido designado a ela com esse intuito.
Avaliou a segunda hipótese e ela lhe pareceu mais plausível, visto que os armários estavam completamente vazios, assim como a escrivaninha e todo o resto. O quarto não parecia ter sido usado mais do que uma vez.
Tomada pela curiosidade, aproximou-se da escrivaninha e sentou-se na cadeira que ali estava. Ela parecia buscar coragem para fazer qualquer coisa. Ela temia estar ultrapassando os limites. Nem por um segundo pensou que Harry podia estar de volta a qualquer momento e encontrá-la ali.
Abriu a gaveta da escrivaninha sem imaginar o que a aguardava. Havia uma pequena pilha de fotografias mal organizadas e jogadas ali dentro. Não estava surpresa por encontrá-la ocupada. Ela juntou as fotos e as pegou cuidadosamente. Olhou a primeira com atenção. Sorriu. Harry aos onze anos acompanhado de dois amigos, um garoto e uma garota. Ela reconheceu o primeiro – Rony Weasley e seus cabelos ruivos eram inconfundíveis. A menina, no entanto, ela não reconheceu, mas sabia que em algum lugar de sua memória ela era conhecida.
Tentou associar com aquelas mulheres que ela conhecia, amigas de Harry, mas nenhuma parecia o suficiente com ela. Os cabelos lanzudos, cacheados e castanhos não pertenciam a nenhuma delas – todas tinham cabelos lisos, ela lembrou-se, e nenhuma naquela tonalidade.
Gina era ruiva, Luna e Lilá loiras, Amy e Isabella tinham os cabelos negros como carvão... E as outras colegas de escola, que ela só encontrara nas reuniões que os ex-alunos de Hogwarts faziam vez ou outra, Parvati e Padma Patil, Ana Abbott e outras tantas que ela não recordava os nomes, não se pareciam nem um pouco com aquela garotinha.
Mas ela a conhecia! Tinha certeza disso. Passou para a próxima foto. Agora estavam quarto pessoas: Harry, Ninfadora Tonks e Deborah Black – ela reconheceu – e a mesma garota. Agora, ela estimou, Harry deveria estar em seus quinze ou dezesseis anos. Mas isso não a interessava. Novamente seus olhos fitaram o rosto da garota, o seu sorriso, seus olhos... Agora estava claro. Como ela não a reconheceria?
Uma mulher tão importante dentro da WP, bonita, atraente, misteriosa e inteligentíssima...
Ela passou as fotos. A próxima tinha apenas Harry e ela no mesmo lugar onde fora tirada a anterior. Depois surgiu uma em que ambos estavam de branco na presença de um senhor e uma senhora – e, a julgar pela semelhança, supôs que fossem os pais dela –, outra em que estava somente eles dois.
Essa atraiu sua atenção. Harry a abraçava pela cintura e eles sorriam. Pareciam ser bastante amigos, pelo visto. Perguntou-se por que ela não freqüentava as festas, as reuniões... E teve certeza de que a resposta estava na próxima foto.
Estava errada. A próxima foto tinha toda a turma da escola e a que veio depois trazia o trio – Harry, Rony e a garota – novamente.
Ela prendeu a respiração ao encontrar uma foto em que eles se beijavam. Ela já vira Harry com aquela roupa numa foto de sua formatura, então soube que era uma foto da mesma ocasião.
Talvez eles tivessem brigado, ou o relacionamento deles não tivesse acabado de uma forma muito amigável.
Então era isso. Aquele quarto pertencera a Hermione Granger, aquela mulher que ela conhecia hoje e que, na adolescência, fora uma das melhores amigas de Harry Potter – e sua namorada.
Não soube explicar por que, mas não se sentiu nem um pouco desconfortável com a descoberta. Estava surpresa, é verdade, mas nada além disso. Só pareceu se desesperar ao lembrar-se da filha de Hermione, a menininha que era incrivelmente parecida com ela, mas seus olhos...
Karen arregalou os olhos. Voltou para a primeira foto, onde Harry ainda preservava seus onze anos. Os olhos da pequena Chloe eram os mesmos olhos de Harry, aqueles olhos incrivelmente verdes e tão lindos que, segundo diziam, também pertenceram a Lillian (Evans) Potter.
Então Harry tinha uma filha com Hermione?
Aquela pergunta ecoou em sua cabeça repetidas vezes. Por que ele nunca lhe dissera nada? Ou será que ele não sabia da filha?
“Não, nem mesmo Hermione sabe quem é o pai, segundo Liah”, ela pensou.
Então Harry também não sabia.
Ela guardou as fotos novamente e se levantou, caminhando para fora do quarto. Quando Harry chegasse, ela procuraria uma forma de abordá-lo sobre o assunto, por mais desconfortável que pudesse ser para ele.
Trancou a porta e chamou Betty para devolver a chave, depois seguindo para o quarto. Recostou-se em sua poltrona e abriu o envelope. Procurou se concentrar ao máximo no material que recebera e esquecer a descoberta que acabara de fazer.
E em alguns minutos, estava tão absorta que, se alguém estivesse falando com ela, certamente não responderia. Ela tinha um caderno e uma caneta em mãos e agora fazia suas anotações e conclusões. Ao final, sentia que estava no caminho certo... E estava tão perto quanto Harry naquela busca.
Harry. Onde ele estava? Olhou o relógio sobre a escrivaninha e assustou-se. Já passavam das 23h. Ela se levantou e foi ao gabinete dele. Estava uma bagunça, mas aquele lugar sempre tivera a cara dele. A mesa estava abarrotada de papéis e ela estranhou ao ver um de seus envelopes sobre ela.
Aproximou-se e observou o que ele tinha ali em cima. Sentou-se e passou a procurar por algo que nem mesmo sabia o que era. Um comprido pergaminho de anotações dele a fez parar. Ela o leu com atenção e lembrou-se de toda a conversa que tivera com sua tia.
“Interessante”, ela pensou.
- Então é isso? – ela pensou em voz alta com um sorriso enorme nos lábios.
Pôs-se de pé, pronta para ir ao seu quarto enviar o envelope à Hermione, sabendo que ela também estava interessada naquela história, mas antes que pudesse sair, viu um pedacinho de papel com sua grafia sobre a mesa, esquecido e misturado por entre as páginas avulsas de jornal.
KENSINGTON, High Street, 30
Ela conhecia aquele endereço, sabia o que ele significava.
Seus olhos se arregalaram e o pânico a invadiu.
- Harry! – ela murmurou, desesperada.