Encontro em Hogsmeade
Helen era talentosa, e Dumbledore depressa a designou para missões cada vez mais difíceis. Sirius se ressentia do diretor por isso. Para ele, o velho estava desrespeitando o luto que a garota lutava por esconder, mas que claramente ainda sentia. Também era visível, contudo, o poder terapêutico que proteger inocentes e deter Comensais da Morte tinham sobre Helen.
Massageando o braço, Sirius sentia dor da câimbra se esvaindo aos poucos. Levantou-se e passou a caminhar em círculos dentro da cela. Memórias de seu último ano em Hogwarts vieram-lhe à cabeça.
- “E é por isso que vocês precisam praticar com os ratos antes de poder evoluir aos gatos e a animais maiores.” – ia dizendo a professora McGonagall – “Agora, procurem a página 478.”
-“É a segunda vez esse mês que o Profeta Diário noticia um desaparecimento de trouxas.” – Sirius ouviu Frank Longbottom comentar com Arnold Spinnet.
-“Meu pai me disse que está acontecendo com mais frequência do que o jornal fala. O ministério está realmente se esforçando para abafar esses casos.” – o outro respondeu.
-“Do que vocês estão falando?” – Sarah McAllinston se inclinou na cadeira para espiar o jornal sobre o ombro de Frank.
-“Alguém anda seqüestrando trouxas e há suspeitas de que seja um grupo de bruxos.”
-“Por que alguém faria isso?” – Alice Fortescue entrou na conversa. Ela não perdia uma oportunidade de falar com Frank Longbottom.
-“Ninguém sabe.” – respondeu o garoto.
Sirius já não conseguia ouvir a professora McGonagall. Aquela conversa lembrava-lhe algo, ele só não sabia o que era.
-“Isso é ridículo.” – Sarah rebateu – “Se houvesse mais ataques, certamente o Profeta Diário divulgaria a notícia.”
-“Você é tão ingênua.” – Arnold não tinha tanta paciência com Sarah quanto Frank. – “O ministério quer manter a verdade abafada para evitar que a população entre em pânico.”
-“E deveríamos entrar em pânico? Quer dizer, só trouxas têm sido atacados. Quem quer esteja fazendo isso, com certeza não quer machucar bruxos.”
-“ Posso ver?” – Pediu Sirius, ao que Frank lhe passou o jornal.
A “reportagem” não passava de uma pequena nota espremida no canto da página por uma receita de bolos de caldeirão da Madame Delicie, uma bruxa robusta que sorria e apontava a varinha para a lista de ingredientes no topo da página. Sirius leu:
“Família de trouxas desaparece misteriosamente em Egham.
Por Dália Isley
Uma família de trouxas desapareceu de sua residência em Egham, de acordo com declaração do departamento de polícia local. A residência não apresentava sinais de arrombamento nas portas ou janelas, mas o interior estava destroçado e havia manchas de sangue nas paredes.
O delegado declarou que uma busca foi iniciada, mas não há suspeitos. “
-“Por que suspeitam que um grupo de bruxos esteja seqüestrando trouxas?” – Sirius perguntou enquanto devolvia o jornal a Frank.
-“Ninguém suspeita oficialmente.” – começou Arnold. – “Mas meu pai me disse que os aurores do ministério estão investigando em segredo. Não há sinais de arrombamento nas casas, isso é um sinal importante.”
-“Se a investigação está sendo feita em segredo, como seu pai sabe? Ele está sendo muito irresponsável divulgando esse tipo de informação a você”
Quem falava era Lílian Evans. Sirius revirou os olhos, somente uma certinha como a Lílian Evans poderia fazer um comentário como aquele. Àquela altura, Sirius percebeu, metade da classe prestava mais atenção à conversa deles do que à explicação da professora. Além das amigas de Sarah McAllinston, Tiago Potter, Remo Lupin, Pedro Pettigrew e a amiga de Lílian, Helen Hunt, também tinham os ouvidos atentos.
-“Está tentando aprender a fazer bolos de caldeirão, senhor Longbotton?” – Frank ficou branco ao ouvir a voz da professora – “Ou será que está tentando ensinar a receita aos senhores Spinnet e Black?”
Frank não teve palavras para responder. McGonagall continuou:
-“Guarde esse jornal antes que eu tire pontos da sua casa. O resto de vocês, olhos nos livros!”
Após o toque da sineta, Tiago, Remo e Pedro se juntaram a Sirius, que lhes explicou tudo sobre a notícia e as opiniões de Arnold Spinnet.
-“O pai de Spinnet é auror, se não me engano. Pode ser que esteja investigando esses casos pessoalmente.” – opinou Lupin.
-“Ainda assim, concordo com a Evans, ele não deveria sair por aí espalhando informações secretas do ministério, não até que encontrasse alguns suspeitos ou tivessem certeza que são bruxos que estão cometendo esses crimes.” – disse Pedro.
-“Rabicho tem um bom ponto.” – observou Tiago.
Uma parte de Sirius concordava com Spinnet e Longbottom: havia alguma coisa errada com aquela história, mas ele preferiu guardar seus pensamentos para si. Os quatro caminhavam em direção ao salão principal. A fome e o cheiro do almoço que emanava do salão fizeram roncar suas barrigas. Quando se sentaram à mesa, o assunto da conversa já havia mudado por completo.
-“Semana que vem é lua cheia.” – lembrou Tiago.
-“Para onde vamos dessa vez?”
-“Acho que não deveríamos ir a lugar algum, Rabicho.” – disse Lupin, com um olhar de quem pedia para que os outros falassem mais baixo.
Naquele momento, Sirius reparou que Snape passava atrás do amigo, caminhando estranhamente devagar.
-“Não se preocupe, Aluado, ninguém está ouvindo.” – seu tom de voz alto sobressaltou os amigos. – “Acho que deveríamos aproveitar essa lua cheia como nunca!”
Sirius não pôde deixar de reparar no estranho olhar que Snape lhe lançou ao ouvir suas palavras. Quando o sonserino se afastou, ele sorria.
-“O que há com você?” – perguntou Lupin.
-“Nada. Bife de fígado?”
-“Eu detesto bife de fígado!” – Tiago fez cara de nojo.
-“Deveria comer, faz bem à saúde.” – Lílian Evans sentou-se ao seu lado, trazendo Helen Hunt a tiracolo.
Tiago e Lílian começaram a discutir sobre a comida. Os dois haviam saído em um encontro no último fim-de-semana de passeio à Hogsmeade, e apesar de Tiago se recusar a admitir, os dois andavam agindo muito como namorados. Não demorou muito para que alguém se lembrasse que no sábado seguinte os alunos seriam novamente liberados para visitar o vilarejo.
-“Podemos ir todos juntos! Lílian, você vai comigo. Helen, você pode ir com Remo e podemos chamar Alice para ir com Sirius. Só falta um par para você, Rabicho.” – disse Tiago, formando os pares completamente ao acaso.
-“Eu acho que não vou. Temos muito dever de casa para a outra semana, sem contar a prova de História da Magia.” – declarou Remo, e Sirius se perguntou como era Tiago, e não Remo, quem estava namorando Lílian Evans.
-“Então está resolvido, somos seis.” – Tiago sorriu.
Ninguém teve coragem de contrariá-lo. Sair em um grupo de seis, afinal, dificilmente poderia ser chamado de um encontro. Sirius lançou um breve olhar à Helen, lembrando-se do encontro acidental que tivera com ela na Torre de Astronomia algumas noites antes, e tentando decidir se deveria ou não objetar-se a vê-la em um encontro com Pedro ou Remo ao invés de com ele.
Objetar-se por que? Por que eles haviam passado horas conversando e ele havia descoberto que Helen era uma garota legal? O que isso significava realmente?
O momento de se opor passou em branco. Não houve manifestação de nenhuma das partes e, assim, seguindo a arbitrariedade de Tiago, Helen foi pareada com Pedro, e Sirius com Alice Fortescue.
“Sair em um grupo de seis não é um encontro.” – Sirius pensou consigo mesmo, repetindo a frase como se fosse um mantra em sua cabeça enquanto devorava a comida sem tirar os olhos do prato.
O final de semana chegou de repente, trazendo consigo a tão esperada visita a Hogsmeade. O grupo se encontrou já na sala comunal da Grifinória.Tiago e Lílian saíram lado a lado, absortos um no outro, sem prestar atenção ao outros que vinham atrás. Pedro parecia animado com a sugestão de que teria um encontro com Helen aquele dia. Colocou-se ao lado da garota e puxou um assunto qualquer, ao que ela respondeu com uma atenção educada. Ao lado de Sirius, Alice Fortescue não parecia muito feliz, até que a visão de Frank Longbotton passado o braço por cima dos ombros de Sarah McAllisnton a fez subitamente aquecer-se e agarrar o braço de seu par.
O grupo coeso de seis que Sirius tanto imaginara dissipou-se em três casais em encontros antes mesmo que eles cruzassem os portões de Hogwarts, e ele não sabia por quê aquilo o incomodava tanto.
À sua frente, os cabelos negros e lisos de Helen balançavam, soltos . Seu olhar perdido encontrou seu foco naqueles cabelos, olhando-os sem ver. A conversa de Alice passava por ele, mas não ficava.
A primeira parada do grupo foi na Dedosdemel. Enquanto Tiago e Lílian provavam os novos sabores das delícias gasosas, Helen ajudava Pedro a escolher bombons e Alice tentava convencer Sirius a comer um pacote de feijõezinhos de todos os sabores com ela. Sirius detestava feijõezinhos de todos os sabores.
Quando ouviu Helen rir de algo que Pedro lhe dissera, Sirius sentiu uma veia destacar-se na sua têmpora. Flagrando um olhar torto que Alice lançou em direção a Frank e Sarah, ele decidiu aproveitar a oportunidade.
-“Você realmente não gosta de vê-lo com ela, não é mesmo?”
Alice se assustou, mas conseguiu recuperar-se a tempo de disfarçar.
-“Do que você está falando?”
-“De Frank Longbotton. Não faça essa cara, Hogwarts inteira já percebeu que você tem uma queda por ele.”
O queixo dela caiu. Bom – pensou ele – isso facilita muita coisa.
-“E você gosta dela, não é mesmo?”
Foi a vez de Sirius levar um susto.
-“Você ainda gosta da Sarah.” – Alice sorriu em triunfo. Sirius sorriu de alívio, entrando na farsa.
-“Tem sido difícil esquecê-la.” – Suspirou ele, tentando fazer parecer que aquilo era uma grande confissão.
-“Então o que você propõe?”
-“Isto.” – Sirius puxou-a pela cintura e a beijou. Alice compreendeu de imediato do que ele pretendia e correspondeu.
Metade da Dedosdemel parou para observá-los.
-“Acho que está na hora de uma cerveja amanteigada.” – Sorriu Alice, puxando Sirius pela mão e chamando o resto do grupo.
Os outros concordaram de imediato. Sirius reparou que Frank Longbotton não tirava os olhos deles enquanto os seis saíam da loja. Aparentemente, Alice conseguira o efeito que desejava, enquanto ele não recebera sinal algum de que seu gesto fora reparado por quem interessava.
Seis era um número um pouco excessivo para uma mesa do Três Vassouras, de forma que eles precisaram se espremer para poderem sentar todos juntos. Enquanto Tiago e Lílian pareciam estar em seu planeta particular, conversando animadamente sobre alguma coisa, Alice estava comprometida demais em sua interpretação de par romântico de Sirius, insistindo em beijá-lo a cada dois minutos, ou sempre que algum colega de Hogwarts passava pela mesa deles rumo ao balcão. Pedro continuava conversando com Helen, que tentava manter o diálogo, mas ia visivelmente distraindo-se e perdendo o interesse. Por fim, antes mesmo de terminar o primeiro copo, ela se levantou.
-“Desculpem, não estou me sentindo muito bem.” - Ela puxou a bolsa para cima do ombro. – “Vou voltar ao castelo. Desculpe, Pedro. Foi muito divertido.”
Sem dar tempo a comentários, ela saiu. Sirius também se levantou e saiu atrás dela. Alice tentou segurá-lo, em vão.
Sirius podia vê-la correr pelo caminho sinuoso que ligava o vilarejo à escola. Chamou-a, mas ela não respondeu. Foi somente quando entraram no castelo que ele a alcançou.
-“Helen, fale comigo!” – Pediu, mas ela não parou de caminhar.
Tomando uma atitude de que posteriormente se envergonharia, Sirius agarrou-a pelo braço e a forçou até um corredor vazio.
-“Está me machucando, seu bruto!”
Helen conseguiu se soltar e encarou aqueles olhos frios a sua frente.
-“O que é que você quer?” – Ela estava furiosa. Sirius deixou escapar um sorriso doentio.
-“Você ficou com ciúmes.”
-“Ciúmes de quem?”
-“Ciúmes de mim. Pode admitir.”
-“Você é louco.” – ela deu-lhe as costas e caminhou para longe, mas Sirius a seguiu.
-“Você ficou com ciúmes por eu ter ficado com Alice. Vamos, Hunt, admita!” – insistiu ele, assustando um grupo de primeiranistas com seus gritos.
Helen parou e virou-se novamente para ele.
-“Lílian tem razão sobre você, não passa de um idiota, egocêntrico e convencido. Eu tentei dizer a ela que você na verdade era um cara legal, que essa sua pose toda era só uma fachada dura para impedir aproximações sinceras, mas ela não quis me ouvir. E quer saber? Era ela quem estava certa afinal.”
Sirius se assustou um pouco com as palavras dela, mas logo se recompôs e se aproximou para beijá-la. Helen, porém, não correspondeu. Afastando-se depressa, ela bateu com força no rosto dele, deixando uma marca vermelha.
-“Fique longe de mim.” – foi a última coisa que ele a ouviu dizer.
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