Amor. É uma delas. É uma daquelas palavras em que você acredita com todo força e depois perde a fé.
Em uma noite normal, eu estava batendo meu ponto em uma dessas calçadas escuras, à espera de clientes para pagar as contas e sobreviver. Não que eu goste do meu trabalho, mas eu preciso. Não é uma escolha, é uma necessidade. Um carro finalmente pára. Suspirei.
Andei até o carro prata. Me apoio na janela sensualmente, claramente convidando-o.
- O que vai ser? - perguntei. Do outro lado da janela, vi um ruivo extremamente atraente sentado ao volante. O rosto impassível. Os olhos azuis estavam vazios de expressão.
- Entra no carro. - disse simplesmente. O achei muito rude.
- Pois não. - entrei no carro, colocando o cinto.
O resto da viagem, o ruivo não disse nada. Apenas dirigiu. Ele nem me olhou. E eu não me atrevi a provoca-lo em nada, embora esse fosse o meu trabalho.
Ele parou o carro em um hotel barato; não me importei. Já tinha estado em lugares piores.
A recepcionista foi de uma grande eficiencia: fez tudo rápido e nos arranjou um quarto. Ao entrarmos nele, o ruivo, cujo nome eu ainda não sabia, se atirou na cama.
Não fez isso de modo provocador ou convidativo. Na verdade, ele parecia tenso. Decidir dar um tempo.
- Vou ao banheiro. - informei-o. Entrei no pequeno cubículo e encarei meu rosto no espelho. A noite não estava indo bem. Ele era diferente dos meus outros clientes. Parecia estranhamente culpado, o que me fez sentir imediatamente responsável.
Mas eu era uma profissional e se ele estava culpado ou não, já deixava de ser um problema meu. Como já fiz tantas vezes, retirei a saia absurdamente curta e os sapatos. Soltei tambem os cabelos que caíram em ondas nos ombros, dando um efeito sedutor.
Saí do banheiro lentamente e encontrei o ruivo na mesma posição. Quando me viu, sua reação foi a pior possível: ele chorou. Chorou mesmo. Eu vi as lágrimas e ele apoiou a cabeça nas mãos.
Certo, eu sabia que um dia aconteceria, mas não achei que fosse assim, tão assustador e preocupante. Minhas colegas haviam me avisado sobre homens deprimidos por uma separação. Este estava em um estado deplorável.
O ruivo chorou e não me olhou mais. Os soluços dele invadiram minha mente, lembrando-me dos soluços do meu pai quando minha mãe morreu.
Baixei minha guarda de profissional e voltei a ser aquela garota de vinte anos que eu sentia falta. Fui até a cama e me deitei ao lado do ruivo que mantinha o rosto nas mãos e ainda chorava.
Esperei que ele se acalmasse e olhasse novamente para mim para perguntar:
- Quer conversar sobre isso, ruivo? - eu ainda não sabia o nome dele.
O homem pareceu se surpreender e ficar grato ao mesmo tempo.
- Quanto vai custar?
- Tempo, mas isso é uma coisa que não me falta e não vou cobrar. - sorri para ele. O ruivo suspirou.
- Nunca falei disso com ninguem. Não sei como começar. - ele refletiu.
- Qual é o seu nome? - sugeri.
- Ronald Weasley.
Estendi minha mão para ele.
- Elizabeth Salander. - o ruivo a apertou. - Quantos anos tem?
- Vinte e quatro. E você? - ele estava sorrindo agora.
- Vinte. - sorri de volta. - Melhor?
- Sim.
- Ótimo. - aprovei - Agora vamos falar sobre o seu divórcio? - perguntei.
Ele juntou as sobrancelhas.
- Aguenta muito disso, não é?
- Você é o primeiro cliente com problemas desse tipo. - garanti à ele.
- Esta fazendo um bom trabalho.
- Obrigada. - parei. - Agora fale. - encorajei.
- Bem, quando tinha onze anos, uma garota de cabelos armados entrou na cabine que eu dividia com um amigo. Ela era metida à sabe-tudo e eu a odiei desde o primeiro momento. Depois de um tempo, eu descobri que ela era legal e nós, mais meu amigo, nos tornamos inseparáveis. Quando completamos quatorze anos, descobri que gostava dela e senti ciúmes quando ela foi convidada por um búlgaro, jogador de quadribol... - o ruivo parou seu relato e me olhou preocupado.
- É um jogo bruxo. - confirmei. - Minha mãe era bruxa e meu pai é trouxa. Não tinhamos dinheiro para me pagar Hogwarts, então eu e meu pai nos mudamos para Londres quando minha mãe morreu. - expliquei. - Continue.
Ronald me olhou com uma mistura de pena com tristeza, mas continuou:
- Seu nome era Víctor Krum. Ela continuou a falar com ele por cartas, como amigos. Dois anos depois, tentei esquece-la beijando outra garota e fazendo-a ver que gostava de mim. Aos dezessete, estavamos mais unidos que nunca, ainda como amigos. E então eu a deixei com palavras cruéis e a fiz chorar. Quando voltei para ela, prometi a mim mesmo que não a faria chorar por mim. Beijamo-nos pela primeira vez algum tempo depois disso. Namoramos; aos vinte e dois eu a pedi em casamento e ela engravidou de uma menina. E antes da nossa filha nascer, ela recebeu uma carta do maldito búlgaro, convidando-a para passar o Natal com ele. Nó brigamos. Ela queria ir e dizia que ele havia nos convidado, mas eu não acreditei. - ele tinha lágrimas nos olhos. - Então, eu sai de casa e voltei completamente bêbado. Eu bati nela! - ele chorava e eu sentia tristeza me invadindo e as lágrimas me escapando. - Ela jogou um feitiço em mim e eu desabei, desacordado. Na manhã seguinte, ela não estava mais lá e antes de sair, ela havia me dado banho, me vestido e me posto para dormir na cama. Na cozinha, ela havia me deixado um bilhete: "obrigado, Ronald". Só isso. E eu sabia onde ela estava. Mas eu não fui atras dela. - ele ainda chorava e eu tambem, contagiada pela tristeza que ele dividia comigo.
- Sinto muito. - sussurrei.
- Não sinta. A culpa foi minha. - ele pediu. - Eu nunca mais a vi. Ela mandava a minha filha, Rose, para me visitar. Mas Rose era tão parecida com a mãe, nos gestos. Ela tinha o mesmo olhar arrogante de sabe-tudo, mesmo com pouca idade. Doía ter que vê-la. Mandei uma carta à ela por intermédio de Rose, pedindo à ela que parasse de mandar minha filha para me ver e assim ela o fez. - ele terminou.
Ficamos em silêncio por muito tempo, ambos deitados, ambos esperando as lágrimas secarem.
- Qual era o nome dela? - perguntei.
- Hermione Granger. - Ronald respondeu.
- Já pensou em pedir desculpas?
Ele me olhou como se eu fosse louca.
- Isso já faz dois anos.
Arregalei meus olhos.
- E daí? - desafiei.
- Ela se casou com o maldito búlgaro. E o pior foi saber que ele havia nos convidado. Literalmente. Meu amigo e minha irmã receberam cartas iguais. - ele parecia revoltado.
- Esta na hora de recomeçar, não acha? - ele me olhou como se eu fosse louca novamente - Mande uma carta desculpando-se. E mesmo que ela não volte para você, vai saber que sente muito. Peça à ela para ver a filha novamente. E ela vai saber que você se preocupa. Diga que a quer de volta, e mesmo se ela não voltar, vai saber que você a ama. Acho que isso já é o suficiente. - sorri. - Prometa que fará isso.
Ronald levantou os olhos azuis para mim e disse:
- Só se prometer que vai deixar essa profissão de lado. Isso não serve para você.
Cheguei perto dele e lhe dei um breve selinho e me levantei.
- Não faço por que quero. Faço por que preciso. Vou ficar bem. - garanti, vestindo a saia, os sapatos e prendendo o cabelo. Voltei a ser profissional. - Nada de pagamento. - lhe disse ao ver que ele puxara a carteira. - Eu não fiz meu trabalho. - peguei minha bolsa. - Foi um prazer conhece-lo. - e saí do quarto.
O que é um homem de sorte?
Ronald Weasley era.
O carro prata nunca mais parou no meu ponto.
Nota: parte grifada, para melhor entendimento do leitor, são as memórias da personagem.
Comentem.