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10. Capítulo X


Fic: Harry Potter e a Wendelin Phoenix.


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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 Noite de 12 de agosto de 2003, Oslo, Noruega
 


- E então, qual o veredicto? – Hermione indagou a Chad, que acabara de fechar a porta às suas costas.


- Finlândia – ele suspirou deixando as chaves do carro sobre a mesa e sentando-se no sofá, onde Hermione e Chloe estavam sentadas.


- Uau, nossa vida vai ser bastante viajada, pelo visto! – ela riu enquanto depositava um selinho nos lábios dele.


- Era o que você sonhava, não era? – ele perguntou.


- Ainda faltam muitos lugares para conhecer – ela assentiu.


- Você realmente é o oposto de mim – ele murmurou sombriamente.


Hermione riu.


- Chloe, querida, por que não vai lá dentro pegar o jogo? Agora que o Chad chegou, nós podemos jogar – sugeriu.


- Snap Splosivo? – Chad perguntou.


- Hoje eu ganho de você – Chloe disse antes de sair, mostrando a língua ao loiro.


- Ela me ama – ele riu antes de beijar Hermione.


- Isso é nojento – Chloe estava de volta.


Chad e Hermione se afastaram sorrindo.


- Tudo bem, vamos jogar – Chad despejou as cartas sobre a mesinha.


- Esperem. Eu tenho uma notícia para dar a vocês – Hermione interrompeu.


- Hum, temos novidades! – Chad parecia curioso.


O telefone tocou.


- Fica para depois – e Hermione correu para atender.


- Eu detesto quando ela faz isso – Chloe murmurou.


- Espere ela voltar e eu quero ver ela não contar – o loiro sorriu. – Nós faremos coceguinhas nela até ela contar, combinado?


- Combinado – a pequena concordou enquanto sorria e afastava a franja dos olhos.


- Quem era? – Chad perguntou quando Hermione retornou.


- Rhina. Parece que estava adivinhando que eu precisava falar com ela.


- Já avisou a ela que vai ter que se mudar?


- Ela vai providenciar as coisas – Hermione assentiu sem entrar em detalhes. Aquela parte de sua vida era confidencial, nem mesmo Chad podia saber. – E então, vão querer saber qual a novidade?


Chloe olhou para Chad, que ergueu a sobrancelha para ela.


- Claro – responderam juntos.


- Então, é uma coisa boa... – Hermione começou.


- Você vai enrolar muito? – Chad indagou.


- Ok, já vi que vocês não gostam de surpresa mesmo, não é? – ela revirou os olhos. – Tudo bem. Nossa família vai crescer um pouquinho. – os olhos de Chad brilharam e Chloe encarou a mãe curiosa. – Amanhã vai chegar uma filhote de golden retriever para você, princesa – ela contou.


- Sério? – os olhos de Chloe brilharam. – Quem comprou?


- Foi a cadela da Rhina que teve filhotinhos e ela nos ofereceu um. Ela ligou para confirmar que traria amanhã pela manhã – contou.


Ela viu que Chad parecia murcho, decepcionado.


- O que houve, Chad? – indagou preocupada.


- Nada. É só que eu achava...


- Que eu estava grávida? – Hermione completou. Ela tinha sérias dificuldades em refrear seus dons, principalmente ler a mente dos outros.


Chad assentiu, os olhos baixos.


- Bem, havia uma outra notícia, mas aí a Rhina ligou e falou dessa surpresa que ela estava preparando para a Chloe, então eu contei primeiro... – ela interrompeu. – Mas sinto que desapontei você, não é? Talvez não tenha sido desse jeito que eu planejei contar para você...


Uma pausa.


- Mamãe sabe como deixar as pessoas curiosas, não é? – Chloe acotovelou as costelas de Chad, que não pareceu se incomodar muito.


- Ok, não vai soar nada romântico, mas...


Uma pausa. Chad ergueu as sobrancelhas como se estivesse incentivando.


- Eu vou ter que contar, mamãe? – Chloe indagou à mãe.


Hermione a encarou surpresa. Não tinha como Chloe saber.


- Bem, eu até vi você chegar com aquele papel na mão, mas sei que você não gosta que eu mexa em suas coisas, não é? – a menininha se justificou como gente grande. – Mas você está pensando como contar e é como se você estivesse dentro da minha cabeça...


Os olhos da mãe se arregalaram. Chloe já aprendera a ler, ela sabia, por isso entendeu o que ela quis dizer a respeito do papel – na verdade exames – que Hermione trouxera para casa. Mas nunca imaginou que as habilidades bruxas dela fossem se apresentar tão cedo. Lembrou-se de Liah e riu – certamente a amiga teria repetido algumas vezes que a sua filha era um prodígio.


“É como se você estivesse dentro da minha cabeça”, Chloe dissera e afirmara saber o que ela queria contar a Chad. Seu sorriso tornou-se nervoso. Aquilo não estava certo, não é? Resolveu não pensar naquilo agora. Deixaria para enviar uma carta à Amy e esperar para confirmar suas suspeitas.


- Mamãe? – Chloe chamou e sentou-se no sofá ao lado dela.


“Eu posso tocar?”, ela indagou em pensamento e Hermione logo captou. Novamente os olhos de Hermione se arregalaram com a surpresa, mas ela assentiu levemente. Chloe sabia que Hermione podia escutá-la.


- Ok, o que está acontecendo? Hermione, que cara é essa? – Chad interrompeu.


Nenhuma das duas respondeu, no entanto. Chloe levou a mão à barriga de Hermione e sorriu. “Eu ainda não consigo escutar ele – ou ela”, ela pensou e olhou nos olhos da mãe, que engoliu em seco.


“É porque ele é muito novinho, querida”, pensou em resposta.


- Sabe, mamãe, hoje é o dia mais feliz da minha vida – a menininha disse em voz alta.


- É? – e antes que percebesse, Hermione estava sorrindo. – E por quê?


- Eu descobri hoje que vou ganhar uma cadelinha – Chloe começou. – Melhor, vou ganhar um irmãozinho! – ela finalizou abraçando a mãe.


Hermione sorriu e seus olhos pousaram no rosto de Chad, que parecia começar a entender.


- Sim, Chad. Eu estou grávida – assentiu para ele.


- Você está falando sério? – o rosto dele iluminou novamente.


- Nunca falei tão sério em toda a minha vida – ela sorriu.




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Tarde de 21 de novembro de 2003, Helsinki, Finlândia


 
Acordou. Estava em seu quarto. Tentou se levantar e então notou o emaranhado de fios que estavam presos ao seu corpo.


- Argh, agulhas! – ela suspirou.


Não se lembrava de muitas coisas, apenas de uma mancha de sangue no edredom e depois tudo rodar. Olhou para o chão do quarto. Estava limpo. Talvez Chad tivesse limpado os resquícios de vidro.


Fechou os olhos e respirou fundo, abrindo-os novamente e encarando o teto. Olhou em volta novamente. Só então assimilou as coisas. O que acontecera com seu quarto? Ela também não estava deitada em sua cama, certo? E onde estavam as prateleiras cobertas de livros e seus pertences? Definitivamente, não estava em seu quarto.


Ouviu vozes do lado de fora e não precisou fazer esforços para absorver cada palavra do que diziam, embora estivessem um tanto distantes e confusas. Ela não tinha problemas quanto a isso como as outras pessoas, as normais.


Fechou os olhos, concentrando-se para fechar a mente.


- Ela acordou – uma voz aguda, que ela reconhecera ser de Chloe, anunciou do lado de fora.


A porta se abriu e sua tentativa falhou. Chad adentrou o quarto, os olhos vermelhos e inchados.


- Como você está, Mione? – ele acariciou seu rosto delicadamente.


- Você estava chorando? – ela indagou.


Chad apenas baixou os olhos, balançou a cabeça negativamente, engoliu em seco e a encarou novamente.


- Não faça esforços, você ainda está fraca – ele pediu.


- Chad, eu quero saber o que aconteceu – ela exigiu. – Onde eu estou? Por que todos esses fios?


- Nós estávamos deitados na cama com Chloe, lanchando hoje de manhã e quando você levantou para levar a bandeja para a cozinha... bem, você desmaiou – ele contou. – Eu fiquei tão preocupado, não sabia o que fazer! Chloe estava tão atônita quanto eu, ela chamava por você e eu, na minha confusão, acabei ligando para o meu pai e...


- Como você não me levou ao hospital, ele trouxe o hospital até mim – ela murmurou a contragosto. – É a segunda vez que você cuida de mim – deu um leve sorriso.


- Hermione? – uma voz mais grave se aproximou. – Como se sente?


- Estou bem – ela assegurou. – Obrigada, Dr. Hastings.


- Só fiz o meu trabalho, querida – ele sorriu, mas logo ficou sério.


Chad e ele se entreolharam, aparentemente preocupados.


Novamente Hermione ouviu vozes do lado de fora.


- Quem está aí? – indagou.


- Victoria, Caroline, Chloe e seus pais – Chad contou.


- Ok – ela fechou a cara. – Dá para vocês me contarem o que realmente aconteceu?


- Hermione, é algo delicado... – começou o grisalho Dr. Hastings.


- Não importa, eu tenho o direito de saber – ela cortou. – Eu vi sangue, eu me lembro. O que aconteceu comigo? – então ela associou. – O meu bebê! – sentiu os olhos arderem e marejarem. – O que aconteceu com o meu bebê? – indagou pausadamente, tomando ar a cada palavra.


- Houve alguma alteração hormonal em seu corpo, Hermione, e uma baixa na progesterona... – o médico continuou.


- Eu perdi o bebê, não é? – as lágrimas derramaram incontrolavelmente pelo seu rosto. – Eu... perdi... – ela levou as mãos ao rosto e soluçou.


Sentiu os braços de Chad envolta de si e a mão quente do doutor em seu ombro, afagando-o. Chad suspirou. Hermione sabia que ele chorava silenciosamente. Quanto ao sogro, sabia que só não chorava naquele momento porque convivia com a perda freqüentemente em seu trabalho.


- Eu vou deixar vocês a sós – e Sebastian Hastings deixou o aposento, fechando a porta às suas costas.


Hermione desvencilhou-se do namorado.


- O que deu errado? Eu estava fazendo todos os exames, me alimentando direito...


- Ninguém pode prever esse tipo de coisa, Mione – Chad replicou cautelosamente.


- Como não? Uma baixa de progesterona pode ser prevista, Chad – ela murmurou amargamente.


- Sua próxima consulta era só na próxima semana... Seu corpo estava em constantes modificações e em três semanas muita coisa muda, acredite – suas palavras não ajudaram muito e ele pôde ver isso na expressão dela. – Hermione, nós podemos ter outros bebês. Você ainda é jovem, tem uma vida inteira pela frente...


- Mas eu queria esse bebê, Chad! Você não imagina como eu o desejava, como eu estava feliz por tê-lo se desenvolvendo aqui comigo, como eu tinha feito planos... – a sua voz foi morrendo. – E agora é como se toda a expectativa depositada nessa gravidez tenha ido para o ralo, por água abaixo. E Chloe... ela estava tão ansiosa pelo irmãozinho...


- Chloe vai superar – Chad garantiu. – Se você superar. Vocês têm uma à outra, você tem a mim, Chloe tem a Daisy... hã? – ele incentivou com um pequeno sorriso nos lábios.


Seu sorriso se alargou quando viu Hermione sorrir também. Ele referia-se à cadelinha.


- Daisy tem sido uma companheira e tanto para ela, não é? – ela sussurrou.


Chad confirmou com um aceno.


- Promete que vai ficar bem? – ele segurou as mãos dela com firmeza.


Ela assentiu timidamente e mordeu o lábio inferior. “Ele está tentando parecer forte, está tentando superar também... Ele perdeu tanto quanto eu”, ela pensou. “Mas ninguém sabe a dor que é para uma mulher perder um bebê”. Ela odiava saber que falhara. E, naquela situação, falhara como mãe e como mulher. No entanto, sabia que aquela dor, aquele sentimento que a assombrava iria passar.


- Prometo.




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Noite de 31 de janeiro de 2004, Casa das gêmeas Priestly, Londres



- Vocês têm certeza de que não vão querer? A torta está maravilhosa! – Hallie se aproximava para juntar-se a eles no sofá com uma generosa fatia de torta de limão em mãos.


- Olha, vendo você comer com tanto gosto, eu acho que vou aceitar – Harry brincou, levantando-se para pegar.


- Karen? – Hallie chamou a irmã, que parecia evitar o seu olhar.


- Eu já disse que eu não quero! – ela murmurou pausadamente, como se estivesse sem fôlego para dizer tudo de uma só vez.


Harry estava voltando com uma fatia da torta também e assim que o viu, ela respirou fundo e prendeu a respiração.


- Eu não entendo! É a sua preferida e, no entanto, você não comeu um pedaço sequer – Hallie insistiu.


- Quer? – Harry sentara-se ao lado da namorada e deu uma garfada na torta, estendendo para ela.


Karen abriu a boca para dizer-lhe pela enésima vez que não queria, mas antes que pudesse balbuciar qualquer coisa, levou a mão à boca e precipitou-se para fora da sala.


- Ah, de novo isso! – a outra gêmea revirou os olhos.


- O que ela tem? – o moreno indagou sem entender muita coisa.


- Vertigens – comentou. – E náuseas. E cada vez mais eu tenho certeza de que cinqüenta por cento disso é culpa sua – Hallie riu.


- Tem acontecido com muita freqüência?


- Bem, fico surpresa que isso não tenha acontecido enquanto ela estava com você, afinal, ela passa a maior parte do tempo em sua companhia – a loira murmurou levando outra garfada à boca. – E, sim, tem acontecido com bastante freqüência aqui em casa, ao menos.


- Tudo bem, agora eu estou realmente preocupado – ele levantou-se, deixando a torta de lado sobre a mesinha de centro e caminhando para o banheiro.


Bateu à porta.


- Karen? – chamou. – Karen, você está bem?


Ele a ouviu destrancar a porta e sair. Parecia estar ótima.


- Quando você pretendia me contar? – ele indagou franzindo o cenho.


- Assim que eu tivesse certeza do que estava acontecendo.


- E acha que precisa de mais evidências? Já não é o suficiente? – ele repreendeu. – Hallie parece estar mais certa sobre isso do que você mesma. E o corpo é seu – acrescentou dando ênfase. – Quanto tempo, exatamente?


- Eu não sei. Uma ou duas semanas.


- Mas nós não... – ele gesticulou. – Você viajou para a casa de seus avós na Finlândia para passar o Natal e o ano novo com sua família e, quando voltou, eu estava viajando. Aliás, eu cheguei há seis dias! – ele exasperou-se.


O que mais o irritava era que Karen estava rindo dele.


- É uma besta mesmo! – ouviu Hallie rir da sala.


Harry fechou a cara e ergueu uma sobrancelha para Karen.


- Eu estava falando dos enjôos, Harry – ela explicou-se. – Faz uma ou duas semanas desde que começaram...


- Está querendo me dizer que você ainda não foi ao médico? – ele parecia nervoso agora.


- Não. Mas eu acredito que o feto esteja com cerca de seis semanas – ela respondeu.


- Então eu vou mesmo ser...? – ele engoliu em seco sem completar a frase e viu Karen assentir, hesitante.


- Parabéns, papai! – Hallie riu de novo. – Agora nós podemos ter certeza de que cinqüenta por cento da culpa é sua! – dessa vez ela gargalhou tão alto que poderia acordar o prédio inteiro.


- Ok, nós vamos viajar amanhã mesmo para contar a novidade a seus pais – Harry anunciou para Karen, ignorando a cunhada.


- Que novidade?


- Bem, eu creio que o fato de você estar grávida ainda é uma novidade para eles tanto quanto é para mim – ele assinalou.


- Mas eu posso falar por telefone – Karen replicou.


- Eu faço questão – sentenciou. – Agora vem aqui, mamãe – ele sorriu, puxando-a para si.


Karen sorriu e o beijou, se afastando por alguns instantes.


- Eu te amo, Harry – ela sussurrou.


- Eu te amo, Nena – e foi a primeira vez que ele dissera aquilo, com todas as letras, mesmo após quase três anos.


- Tudo bem, agora respeitem a minha presença – Hallie se aproximou e Harry novamente a ignorou. – Dá licença, casal? Eu quero ir ao banheiro – ela parou diante deles com a mão na cintura.


- Como quiser, Hellish – o moreno debochou e tirou Karen do caminho.


Viu Hallie lhe estender a língua e deu um falso sorriso afetado.


- Vocês parecem crianças! – Karen revirou os olhos.


- A culpa não é minha se sua irmã me ama – ele riu.


- Ok, você pretende viajar como amanhã sem as passagens?


- Isso não é problema – ele puxou o celular do bolso e em menos de uma hora já tinha acertado tudo. – Pronto! Amanhã, depois do almoço, nós embarcamos – anunciou.


- Suécia, aí vamos nós! – Hallie simulou entusiasmo. – Que dia vocês voltam?


- Depois de amanhã – Karen respondeu.


- Vocês são sem graça! Eu passaria o resto da semana lá – a gêmea bufou. – Ah, eu daria tudo para ver a cara do papai!


- Você só precisa enfiar a mão no bolso, querida – Harry assinalou.


Ele sabia que a família delas era rica, embora ambas preferissem manter esse detalhe à sombra.


- Eu ainda acho uma bobagem ir até lá, Harry – Karen murmurou.


- Quero ver quando nós estivermos lá e eu estiver falando com seu pai se você ainda vai achar uma bobagem – foi tudo o que o moreno disse. – Agora eu tenho que ir. Vou arrumar as coisas e acertar a minha agenda dos próximos dois dias. Amanhã a gente se vê – ele deu um selinho nela e caminhou para a porta, com a namorada em seu encalço.


- Boa noite – ela sorriu e fechou a porta.


Pai. Ele seria pai! Balançou a cabeça de modo a espantar o devaneio. Quando o elevador chegou e a porta se abriu, ele pôde ver o seu reflexo no espelho. Que sorriso bobo! Deu uma tapa na própria face e entrou na pequena caixa de aço.


Para casa? De maneira alguma! Ele pegou o celular e discou o número que já sabia de cor.


- Amy? – ele chamou.


- Ah! Oi, Harry – ela cumprimentou.


- Te acordei?


Ele a ouviu rir do outro lado.


- Eu vou fingir que não ouvi a sua pergunta, ok? – ela murmurou. – Eu acabei de sair do Ministério.


- Às 22h40?


- Para você ver o que é a minha vida – ela riu. – E então, o que aconteceu para você me ligar a essa hora?


- O que acha de me encontrar no The York?


- Uau, o descontraído e lotado The York? – Amy indagou com um tom levemente surpreso, mas não perdeu a piada: – Imagino que para quem é freqüentador nato do sossegado e elegante Bistrotheque deve ser quase uma aventura, não?


- Você e o seu senso de humor impagável – ele revirou os olhos. – Te encontro em dez minutos no Vingt Quatre, então – e desligou antes que pudesse ouvir a resposta dela.


O Bistrotheque era sossegado, sim. Mas à noite, o Cabaret Room do restaurante era tão famoso quanto o London Eye. E ele não tinha reserva. O pub The York provavelmente estaria cheio – como sempre – e ele só o sugerira porque sabia que estaria aberto àquela hora. Só depois foi que se lembrou do Vingt Quatre – o pacato e calmo Vingt Quatre – aquele que todos faziam questão de dizer que ficava aberto...


- 24 horas por dia, 365 dias por ano – ele riu ao repetir em voz alta sozinho.


Poucos minutos depois estava estacionando o carro. Pediu uma mesa para dois no canto mais discreto que eles tivessem e foi sentar-se.


Amy estava lá não muito depois.


- Eu ainda não entendo por que me surpreendo com você – ela murmurou tomando seu lugar.


- Olá para você também – os olhos verdes intensos de Harry faiscaram.


- Não seja cínico, Harry. Não sei se eu já te disse, mas o cinismo não combina muito com você – Amy ergueu uma sobrancelha. – E então, o que me trouxe aqui a essa hora?


- A menos que tenha aparatado, o que eu duvido muito, provavelmente o seu carro – Harry zombou.


- Muito engraçado – a morena deu um sorriso amarelo.


- Não é só você que tem o humor negro afiado, minha querida irmãzinha – ele alfinetou.


- Olha, eu sei que você me ama, mas não dava para deixar para debochar de minha pessoa amanhã, não? Era só pedir, eu iria mais cedo ao Ministério e nós travaríamos um duelo para ver quem de nós é mais afiado nesse negócio de humor negro. Sabe, eu tenho dois filhos pequenos e um marido em casa – ela assinalou.




- Não poderia. Amanhã estarei embarcando para a Suécia depois do almoço.


- Então me chamou aqui para me dizer que vai viajar?


- Não. Chamei você aqui para te contar o motivo da minha viagem relâmpago – ele resumiu.


- Muito bem, agora isso está ficando interessante – ela virou-se para chamar o garçom. – Uma soda, por favor – pediu e voltou-se para Harry. – Vai querer algo?


- Uma taça de vinho, talvez – sugeriu.


- Uma taça de vinho, então – Amy acrescentou. – Obrigada – e o garçom saiu. – Ok, você conseguiu me deixar realmente curiosa.


- Você poderia estar usando suas habilidades de Mangid para descobrir, não?


- Desculpe desapontar-te, querido. Achei que não gostasse que eu invadisse a sua mente – ela deu um falso sorriso.


- E eu não gosto – ele assentiu sombriamente.


- Eu não ia tentar – dessa vez ela riu abertamente. – Mas o que você quer me dizer?


- Karen está grávida – Harry respondeu sem rodeios.


- Grávida? – Amy fez, surpresa.


- É, parece que eu vou ser pai – ele deu de ombros e sorriu timidamente.


“Mal sabe que é pai”, Amy pensou baixando os olhos. “Uma menininha habilidosa, tanto quanto a mãe. Uma Mangid”.


Sim, Chloe era uma Mangid. Amy ficara surpresa em constatar isso quando recebera a carta de Hermione cinco meses atrás. Nunca houvera um caso de ligação direta – em outras palavras, hereditariedade – entre Mangids antes. A menina era uma anomalia, uma raridade.


- Quanto tempo? – ela indagou, abandonando de seus devaneios.


- Ela ainda não fez os exames, mas acredita ter seis semanas de gestação.


- Bem, ninguém melhor do que ela para saber – Amy murmurou. – Parabéns, Harry! Fico feliz por você.


- Obrigado.


- Então vai viajar para contar aos pais dela? – ela parecia confusa.


- Vai dizer que você também diria por telefone, não é? – ele presumiu. – Mais que isso. Eu vou pedi-la em casamento.


- O quê? – Amy alteou a voz, aparentemente horrorizada com a informação.


- Qual o problema, Amy? Nós estamos juntos há quase três anos, ela está grávida, eu a amo e...


- Não, Harry. Não precisa se explicar – ela o interrompeu. – Desculpe, é só que eu me exaltei um pouco. Pega de surpresa – resumiu.


Ela sabia que ele amava Karen. Um amor que nasceu com o tempo e foi se instalando. Não era o mesmo amor que ela sabia que ele nutria por Hermione, mas ainda assim era amor.


Ele, por outro lado, sabia que Amy nunca fora muito a favor do relacionamento dele com Karen e entendia os motivos dela, afinal, ela era amiga de... Ele interrompeu seus pensamentos e, inconscientemente, levou a mão à taça de vinho que o garçom colocava sobre a mesa e bebericou.


- E quando vocês pretendem se casar? – indagou sem muito interesse.


- Não depende só de mim, e ela nem mesmo sabe de meus planos... – ele viu Liah erguer uma sobrancelha. – Mas eu não pretendo que seja para logo. Na verdade, quero esperar até que o bebê nasça.


- Hum, é claro – Amy assentiu com uma pequena dose de escárnio que Harry pareceu não notar.


- E Liah e Scott...? – ele começou, mudando bruscamente de assunto.


- Ah, esse é um caso que eu prefiro não comentar – Amy adiantou-se, interrompendo-o novamente e tomando um generoso gole de sua soda sem encará-lo.




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Manhã de 2 de julho de 2004, Helsinki, Finlândia
 


Deixou a sala com um sorriso satisfeito no rosto. Ela podia ir direto à Confederação Internacional da Magia e pedir para sair do cargo, mas não era o que ela queria. Gostava do que fazia lá.


Sabia que talvez nunca chegasse a trabalhar como auror. Já estava morando na Finlândia há quase um ano e, quando viera, conseguira transferência como instrutora da Academia de Aurores. Por enquanto, isso bastava. Ela tinha outro trabalho que por si só já lhe concedia a carga de adrenalina e ação que ela gostava de sentir.


Ela tinha tudo o que queria. Uma filha encantadora, um namorado maravilhoso, e era – quase – realizada profissionalmente.


Bem, quase porque ainda não tivera a chance de realizar seu sonho, certo? Mas na Confederação Internacional da Magia realizava outro sonho: o de viajar. Unia o útil ao agradável.


Já na Academia de Aurores podia levar pessoas a realizarem um sonho que ela tinha. Lembrou-se que uma vez, quando ainda morava na Suécia, Liah lhe perguntara por que ela não fazia o curso e trabalhava como auror se queria tanto.


“Porque é um trabalho que vai exigir muito de mim. São viagens constantes e eu tenho Chloe. Não que eu esteja me privando por causa dela, mas acho que toda criança merece a devida atenção, carinho e afeto. Quando ela crescer e for mais independente de mim, eu vou correr atrás de meu desejo. Enquanto isso, tenho outros sonhos a realizar”, foi o que respondera. E era verdade. Por que apressar as coisas se ela estava feliz fazendo o que fazia?


Bem, ela não estava viajando, mas tinha dois empregos que não permitiam que ela passasse mais do que a noite em casa. O que a deixava mais tranqüila era o fato de ter Chad.


E ainda tinha o terceiro trabalho. Não gostava muito de lembrar nem citá-lo, mas por ora ele era o mais próximo do que faria se fosse auror. “Com uma etapa a mais, mas isso não precisa ser citado, é só mais um detalhe”, sorriu.


Em resumo, seus trabalhos encharcavam seu corpo com doses elevadíssimas de endorfina e adrenalina. Os dois últimos lhe proporcionavam o exercício físico. Agora ela iria exercitar a mente.


Inominável. Chegara a hora de fazer outra coisa que ela fazia muito bem, obrigado: mostrar sua inteligência.




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Noite de 12 de julho de 2004, Vingt Quatre, Londres
 


- Eu não vou me casar em agosto! Eu me recuso – Liah sentenciou.


Ela estava de casamento marcado com Scott Olivier.


Como ela viera parar ali ela não sabia. “Aconteceu”, era o que costumava pensar para justificar as coisas. A verdade é que ela era muito boa quando se comprometia a fazer algo. E fizera tão bem feito que conseguira fisgar Scott. Não fora tão simples assim, é claro. Ela penara um bocado.


“Que homenzinho difícil, por Deus!”


O problema é que não estava em seus planos levar aquilo tudo tão a sério. “E ele levou”, pensou amargamente. Não estava apaixonada, não sentia nada em relação a ele. Mas não podia simplesmente desistir quando estava conseguindo o que Elizabeth Newbie lhe pedira.


Então se envolveu com ele assim mesmo. Não era fácil saber o que ele estava sentindo ou se o seu trabalho árduo estava surtindo efeito. Ele era sério demais, diferentemente de todos os caras que ela já seduzira, por capricho, em sua adolescência. Ele não demonstrava nada, não era meloso, não fazia o tipo romântico e, definitivamente, não era previsível.


Mas era charmoso – em demasia, até.


Era o tipo certo de cara para ela. Ela concluíra isso com a convivência. Ela detestava caras melosos, apaixonados e previsíveis. E detestava relacionamentos do tipo “namoro adolescente”. Era tão... adolescente!


Na época, ela estava consciente de que todos os ‘encontros’ deveriam soar casuais, portanto não ia atrás dele. Ela deixava que ele viesse até ela ou que se esbarrassem pelos corredores do Ministério da Magia. Depois vieram os jantares, os almoços, as caronas...


Pelo menos a confiança dele ela já tinha. Era um grande passo em seu plano. Mas aí ele começou a agir de uma maneira mais introspectiva – se é que era possível. É claro que ela não viu nada de mal naquilo; estava acostumada com o jeitão fechado dele. Talvez estivesse acontecendo alguma coisa, certo?


E estava. Ela descobriu no dia em que encontrou uma tulipa sobre sua mesa. Amarela, solitária. Ele estava sentindo algo por ela, algo que não estava previsto. Lembrava-se da primeira vez que ele a levou para sair – depois de receber a tulipa. Ele a chamara para caminhar no final da tarde às margens do Tamisa. Já à noite, sentados numa mesa conversando e tomando sorvete, ele dissera que estava curioso e tinha vontade de tentar uma coisa. E, bem, ele a beijou.


As coisas tinham fugido do controle. E o que ela poderia fazer? Ela podia evitá-lo, certo?


Errado. Ela não queria e não ia evitá-lo. Era tarde; quando deu por si, já estava apaixonada.


- Ah, e você quer casar quando? – Amy indagou. Elas estavam sentadas numa mesa de restaurante após o trabalho.


- Eu não sei! Mas em agosto eu não caso!


- Que superstição idiota, Liah! – Amy revirou os olhos.


- Não é superstição, Amy. Agosto é o mês do desgosto, é péssimo para casamentos! – Liah retrucou. – Ninguém casa em agosto, se é que você nunca notou.


- Ninguém liga para isso... E depois, os pais de Scott estarão de férias em Londres somente até o final de agosto.


- O que significa que eles estarão aqui a partir do dia 23 de julho, certo? – Liah concluiu e Amy assentiu. – Ótimo, então casarei dia 25 de julho. É o último domingo do mês.


- É daqui a duas semanas, Liah!


- Não importa! Eu tenho o vestido pronto e todos os preparativos em ordem. Podemos muito bem adiantar três semanas...


- Simples assim! – a cunhada riu. – Já disse isso ao Scott?


- Ele não vai se importar com isso.


- Ele também vai casar, sabia?


- Eu sei. É meu sonho ver ele de terno e gravata – os olhos de Liah brilharam.


- Por que isso? – Amy indagou curiosa.


- Vai dizer que você nunca se perguntou se ele pode parecer mais sério do que ele é normalmente?


- Liah, você não existe! – Amy riu.




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Manhã de 25 de julho de 2004, Godric’s Hollow
 


A casa estivera fechada desde que Liah concluíra o curso no Instituto de Magia Nolux, nos Estados Unidos. Não fazia sentido mantê-la em uso quando todos passavam a maior parte do tempo em Londres. O Sr. e a Sra. Mackenzie optaram por colocá-la à venda, mas Liah fizera questão de interromper os planos dos pais alegando que seria bom ter um lugar para descansar quando cansassem da cidade.


No fim das contas, ela encontrara outra razão para manter a casa no povoado: a realização de seu casamento.


Amy deixara os filhos com Aaron e agora estava caminhando pelas ruas a caminho da casa de número 11. A última vez que estivera ali fora em companhia de Harry e Hermione, no dia de seu noivado. Sorriu. Não podia ter lembrança melhor daquele lugar.


Hermione... Inevitavelmente pensou nas cartas que recebia com certa regularidade da amiga. Normalmente uma por mês. Raras eram as que conseguia responder e mandar em tempo hábil. Precisou prender a coruja algumas vezes para que pudesse enviar a resposta. Não sabia onde Hermione estava agora, mas sabia que depois que saiu da Suécia morou por pouco mais de um ano e meio na Noruega. Sabia que ela só lhe revelara porque já não morava mais lá.


Antes que pudesse perceber seus pensamentos já estavam em Harry. Era incrível como um atraía o outro. Por muitas vezes perguntara-se como ele conseguira superar a perda de Hermione tão rápido, mas sempre se lembrava que três anos separavam Hermione e Karen na vida dele.


Bem, agora fazia seis anos desde o “sumiço” de Hermione.


Amy sabia que ela estava reconstruindo a vida dela longe dali, assim como Harry estava reconstruindo a sua. Ia ser pai dali a pouco menos de dois meses.


Ela levantou os olhos e observou a rua. Do outro lado, Harry vinha acompanhado de Karen. E como ela estava bonita naquele vestido verde comprido! Todo em crepe seda, um generoso decote mostrando os seios fartos por conta da gravidez e o seu ventre protuberante de sete meses. Ela caminhava de mãos dadas com o moreno – seu noivo – e tinha um sorriso largo no rosto.


Ficou parada ali. Não tinha mais por que continuar quando as pessoas que ia visitar já estavam a caminho do casamento. Ela imaginara que eles fossem de carro por conta de Karen, mas não descartara totalmente a hipótese de eles seguirem andando, exatamente como faziam agora.


E Amy notou que Harry também ria com algo. Ele a notou e acenou, murmurando algo para Karen em seguida. A loira sorriu para a “cunhada” e baixou o rosto. Amy sabia como era difícil caminhar quando não se conseguia enxergar os próprios pés.


Seus olhos recaíram sobre a barriga de Karen e ela sentiu o arrepio perpassar sua espinha. Por um instante sua vista ficou turva e ela sentiu como se estivesse fitando o vazio. Sentiu o corpo vacilar para frente e procurou firmar-se, fechando os olhos. Respirou fundo e abriu-os novamente.


Mau presságio.


Balançou a cabeça negativamente e afastou aquele pensamento. “É só uma vertigem”, pensou enquanto procurava sorrir para os outros dois que agora estavam a poucos passos de alcançá-la.

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