Manhã de 1º de janeiro de 2002, Karlstad, Suécia
Ela terminou de fechar a última das quatro malas. Nunca imaginara que tinha tanta coisa! Observou Chloe. Estava deitada em sua cama, dormindo abraçada a uma boneca de pano. Sorriu. A menina acabara adormecendo ao esperar a mãe arrumar as malas.
Ainda admirando a pequena, deixou-se levar pelo silêncio que rondava a casa. Ainda não se acostumara com aquele silêncio ensurdecedor que dava impressão de que a casa estava vazia. E estava. Agora eram apenas ela e Chloe. Novamente.
O que a consolava era o fato de que aquele silêncio só era seu único companheiro por poucos minutos durante o dia, somente quando a pequena Chloe dormia exatamente como fazia naquele momento. Mas o alívio vinha em seguida, quando ela própria dormia, tomada pelo cansaço da rotina.
Ela sentia falta de Liah e do seu jeito de menina-moleca. Também sentia sua falta no trabalho, da excelente profissional que ela era. Sabia que Chloe também sentia saudades de Liah; desde os seus oito meses crescera com a presença dela, afinal!
E aquele silêncio que a perturbava tanto não a deixava mentir: desde que a outra se fora de volta para a Inglaterra, um vazio enorme pairou sobre aquele apartamento, antes tão alegre, tão vívido pela sua presença. Mas era isso, simplesmente. A casa estava vazia e ponto.
Agora, no entanto, estava de malas prontas para partir novamente. O destino? Oslo, Noruega. Não era muito longe dali, certo? 230 quilômetros separavam Karlstad de Oslo. Decidira, por fim, ir de carro.
Aproveitou que a filha dormia e foi tomar um banho. Enquanto a água caía sobre seu corpo, ficou a imaginar como seria a vida dali para frente. Já terminara seu curso na Academia de Aurores – sim, porque os instrutores concluíram que ela estava fazendo apenas hora extra e “brincando” ali, quando já tinha um preparo físico excepcional, mesmo após ter dado à luz, e um talento enorme para exercer a profissão.
Durante o período em que estava organizando as coisas para se instalar no novo país, procurara um emprego em que pudesse se exercer os seus conhecimentos e a profissão que sempre fora o seu sonho. Ela não queria trabalhar no Ministério ainda. Era nova por lá e não queria exigir muito nem parecer pretensiosa ao ponto de ter dois empregos num só estabelecimento. Ela gostava do que fazia na Confederação Internacional de Magia e era aquilo que a estava levando para conhecer outros países e realizar um sonho de criança: viajar pelo mundo.
Por fim, aceitou um emprego como instrutora na Academia de Aurores da Noruega. Era o suficiente. Quando ela pudesse se instalar definitivamente num país tentaria um trabalho no Quartel General de Aurores – e ela preferia que isso acontecesse quando estivesse de volta àquele que considerava seu país, apesar de ter nascido na França.
Já estava saindo do banho quando ouviu o telefone tocar lá fora. Enxugou-se o mais rapidamente que pôde e precipitou-se pelo corredor. Não queria interromper o sono de Chloe.
- Alô?
- Herms, querida, que bom que a encontrei em casa! – a Sra. Granger suspirou aliviada. – Pensei que só falaria com você quando chegasse à Noruega.
- Olá, mamãe! É, eu deixei para arrumar as malas agora pela manhã. Estava no banho ainda agora – Hermione explicou.
- Ah, então vocês já estão de saída?
- Mais ou menos. Eu ainda tenho que me arrumar e descer com as malas, mas creio que deva estar saindo dentro de quarenta minutos.
- E a boneca, como está?
- Dormindo.
- Ah, então quando acordar diga que eu e seu pai mandamos um beijo para ela – pediu Jane. –E, querida, cuidado. Não se esqueça de ligar! – orientou. – Faça uma boa viagem.
- Sem problemas. Obrigada, mamãe – Hermione agradeceu antes de desligar o telefone.
Ela sabia que a mãe ligaria. Era tão previsível, tão... Jane Granger! Sorriu com o pensamento. Vestiu-se colocando uma blusa de linho de manga comprida e gola alta bege e uma calça jeans com tênis. Prendeu o cabelo com rabo-de-cavalo e suspirou enquanto olhava-se no espelho. Quanto mais à vontade estivesse, melhor.
Pegou as malas e arrastou-as para fora do apartamento duas a duas. Chamou o elevador e desceu rapidamente, as chaves do carro em sua mão. Caminhou com as duas primeiras malas até o Volvo C30 que ganhara de seus pais em seu penúltimo aniversário. Nem queria imaginar o quanto eles haviam gasto com aquele mimo. Abriu a mala e colocou-as para dentro, correndo de volta para pegar as duas malas restantes.
Ao retornar ao apartamento, viu Chloe sentada no sofá com a sua pequena mochila no ombro e a boneca de pano nas mãos.
Estava surpresa que a garotinha não tivesse chorado por encontrar-se sozinha no apartamento. Viu a filha coçar os olhos e bocejar.
- Nós já vamos, não é? – perguntou, sua voz infantil estava séria.
- É, nós já vamos – Hermione assentiu pesarosa. – Venha cá – chamou e Chloe levantou-se, caminhando em sua direção. – Mamãe te ama muito, certo?
- Eu também te amo, mamãe – ela disse abraçando Hermione, mas se afastando em seguida. – Chad ligou – informou.
- Eu ligaria de volta, mas nós estamos atrasadas. Tenho certeza de que ele ligará para o meu celular mais tarde – Hermione falava mais para si do que para a pequena. – Agora vamos!
E Chloe estendeu a mãozinha para a mãe e as duas caminharam para a porta. Antes de fechá-la, porém, atrás de si, Hermione deu uma última olhada no apartamento que tinha sido seu lar nos últimos dois anos. Estava praticamente vazio, exceto pela cama de casal em seu quarto, pelo sofá e pela mobília embutida nos quartos, cozinha e banheiro.
Por sorte o apartamento era alugado e ela não teve que se preocupar com nada além de devolver as chaves ao dono quando saísse.
Sem mais, fechou aquela porta enquanto caminhava rumo à nova porta que a vida abrira em seu caminho.
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Manhã de 2 de janeiro de 2002, Ministério da Magia, Londres, Inglaterra
Caminhou apressada até o Departamento de Execução das Leis em Magia. Liah chegara no dia anterior à noite e elas não puderam se encontrar.
- Sra. Mackenzie? – uma voz surpresa se fez presente às suas costas. – Eu pensei que o seu horário de expediente fosse apenas à tarde, não?
Amy virou-se para encará-lo.
- Ah, Harry, é que a Liah chegou ontem à noite e eu não pude ir até a casa dos Mackenzie para vê-la. Você sabe, o trabalho...
- Hum, então tem assuntos inadiáveis a tratar com a Srta. Mackenzie, Sra. Mackenzie? – Harry ergueu uma sobrancelha.
- Você está ficando repetitivo – ela alfinetou.
- A culpa não é minha se hoje você tem o mesmo sobrenome de sua cunhada, irmãzinha – o moreno brincou, os olhos verdes intensos faiscando. – Mas que assuntos tão urgentes são esses que não podem esperar até a tarde?
Amy engoliu em seco. Não podia falar o real motivo que a levara ali, certo? Ela prometera a ele.
- Coisa de mulher, Harry. Você não entenderia.
- Você não está grávida de novo, não é? – ele arregalou os olhos.
- Não, Harry! Claro que não – revirou os olhos. – Agora me deixe ir. Passo no seu escritório quando sair daqui, prometo.
- Tudo bem, então – Harry deu um beijo na testa de Amy e saiu.
Amy levou a mão ao peito e suspirou, recomeçando a caminhar. No entanto, não precisou completar a sua rota. Liah saía de uma porta e estava vindo em sua direção, os olhos atentos e inquietos presos a alguns documentos que passava de uma mão para a outra.
- Ah, mas é com você mesma que eu quero falar! – anunciou para a cunhada.
Liah parou de chofre, pega de surpresa.
- Amy! – e então sorriu, caminhando ao encontro da outra. – Ah, que saudades!
- Eu sei, eu também – Amy murmurou. – Mas não posso me demorar. Você tem trabalho a fazer e eu tenho que pegar as crianças na casa de sua mãe, então...
- Não, não. Calma! Deixa só eu entregar esses papéis aqui à assistente do Hastings e eu já volto. Ele viajou e não tem data para voltar. É rápido! – garantiu antes de correr para uma das portas.
Amy aguardou e alguns instantes depois, Liah fechava a porta às suas costas.
- Venha, vamos para a minha ala – e puxou a cunhada.
- Liah, chegou correspondência para você e Ravina pediu que eu te entregasse – uma voz suave e carregada de sotaque russo informou.
- Ah, obrigada, Yuska – Liah pegou o envelope das mãos da ruiva e se afastou com Amy ainda em seu encalço. – E então, a que devo a visita? – indagou antes de sentar-se em sua cadeira e apontar a outra para a cunhada.
- Você sabe a que vim, Liah.
- Não, eu não sei. E me pergunto por que não foi me ver ontem à noite.
- Aaron deve ter te dito que eu estava trabalhando.
- Oh, sim. Perdão! – Liah assentiu enquanto abria a carta. – Estranho, não tem remetente...
- Imagino que vai me ignorar, não é?
- Amy, você sabe que não é bem assim. Pode ser assunto de trabalho... Mas você pode dizer, eu estou ouvindo.
- Eu quero saber onde está...
- Hermione! – as duas disseram em uníssono. Amy, completando a frase; Liah por ter identificado a caligrafia da amiga.
- A carta é... dela? – Amy indagou.
- É – Liah confirmou e entregou o pergaminho à outra. – E quanto à sua pergunta...
- Não foi uma pergunta. Foi uma exigência! – Amy retrucou enquanto baixava os olhos para ler o pergaminho. Atônita, sua boca entreabriu-se ao reconhecer a caligrafia de Hermione. Mas não pôde ler; Liah já voltara a falar.
- Que seja! Eu dividia um apartamento com ela na Suécia.
- Hum, já estamos obtendo algum avanço...
- Mas não existe maneira alguma de falar com ela. Bem, nós poderíamos falar com o Hastings, mas ele está viajando e, de qualquer forma, ele mantém contato com ela por meio de cartas também – explicou. – A verdade é que essa é a primeira carta que eu recebo dela desde a última, que eu recebi ontem e estava guardada lá em casa há mais de vinte dias.
- Tudo bem, então nós iremos até ela – Amy sentenciou.
- Como é? – Liah parecia aturdida e descrente.
- Nós iremos até o tal apartamento que você dividia com ela.
- E quando você pretende fazer isso?
- Agora mesmo.
- Mas eu estou no meio do expediente e...
- Onde você estava duas horas atrás?
- Aqui.
- Então você vem comigo – e Amy arrastou-a para fora do Ministério.
- Você está louca?
Amy não contestou. Simplesmente puxou um pequeno objeto do bolso interno do sobretudo e esticou um cordão de ouro ao máximo que pôde e passou pelo pescoço de Liah e o seu. Girou a pequena ampulheta duas vezes e aguardou enquanto tudo à sua volta virava um borrão.
- O que você fez?
- Vira-tempo – Amy resumiu. – Em que lugar da Suécia devemos aparatar mesmo?
- No condado de Värmland, na cidade Karlstad, no centro – Liah murmurou a contragosto e ela mesma aparatou.
- E agora? – uma voz às suas costas indagou.
- Agora você me segue.
E as duas caminharam por dois quarteirões. Não demorou até que estivessem no edifício onde Liah morou nos últimos dois anos.
- Srta. Mackenzie! – o porteiro cumprimentou.
- Olá, Sr. Larsson – Liah murmurou educadamente. – Hermione está em casa?
Amy torceu os dedos, ansiosa pela resposta que estava por vir.
- Oh, não, não – o porteiro negou. – A Srta. Granger e a menininha deixaram o apartamento ontem pela manhã. E, devo avisar, de mala e tudo!
- Como é? – Amy indagou agressivamente.
- Amy, calma – Liah pediu, voltando-se em seguida para o porteiro. – Elas se mudaram?
- Sim, senhora. Hoje pela manhã a Sra. Portock esteve aqui para ajeitar o apartamento e semana que vem os novos moradores entram – explicou.
- E o senhor sabe dizer para onde elas foram? – Amy interrogou.
- Não, senhora. Nós nunca sabemos muito, embora estejamos aqui direto...
- Claro, eu entendo – Liah assentiu. – Tudo bem, então, Sr. Larsson. Bom ver o senhor.
- Digo o mesmo, Srta. Mackenzie. Até mais ver!
E elas deixaram o edifício.
- Você não sabia, não é? – para Liah, aquilo era mais uma afirmação.
- Não. Eu imaginei que ela fosse continuar aqui por um bom tempo, principalmente depois de dois anos...
- Dois anos – Amy bufou, inconformada. – Eu sei que eu já te perguntei isso, mas... Por que nunca comentou antes o nome de “sua colega com quem dividia o apartamento”?
- Não comece, Amy! Pelo amor de Morgana! Eu já ouvi o bastante naquele dia – Liah replicou. – Meu ouvido doeu por horas, sabia?
- Eu imagino. Desculpe! Mas é que discutir por telefone nunca foi o meu forte...
- Eu prefiro não comentar a respeito – Liah riu.
- Uh, está frio! – Amy estremeceu.
- Estamos na Suécia, querida! E em pleno inverno. Você esperava um calor de 86ºF? – Liah brincou. – Agora vamos tomar um chocolate quente até a hora de voltar. Isso vai nos manter aquecida por um tempo. Conheço uma cafeteria excelente ali na esquina!
- Você está fugindo, não é?
- Não, Amy. Eu apenas não faço idéia de onde Hermione possa estar – garantiu. – Mas eu não entendo esse seu interesse.
- É mais do que eu posso explicar.
- Você já me disse isso uma vez...
- Liah, tudo o que eu posso dizer... – ela interrompeu.
- Tudo o que você pode dizer...? – Liah estimulou.
- Quando chegarmos ao café eu te explicarei tudo.
E Amy apressou o passo acompanhada de Liah. Quando já estavam sentadas, Liah fez o pedido e voltou-se para a cunhada, que parecia tensa.
- E então?
- Liah, quantos anos mesmo disse que tinha a menina? Você sabe, a filha de Hermione...
- Ela completará três anos daqui a exatamente um mês.
Amy então fez as contas, embora soubesse que era desnecessário.
- Eu tenho um amigo que perdeu a namorada há três anos e meio por conta de uma profecia. A namorada dele foi embora sem deixar qualquer rastro de onde pudesse estar. Claro que ela não foi embora por vontade própria. Como eu disse, havia uma profecia...
- E eu conheço esse amigo?
- Liah, eu já estou dizendo muito. Se tudo for exatamente como eu imagino que seja, você se tornará fiel de um segredo de dimensões enormes!
- Uau, agora eu estou realmente curiosa.
- Pois então! Essa namorada que o meu amigo perdeu é Hermione.
- Hermione? Hermione Jane Granger?
- Ela mesma – Amy confirmou e sentiu um arrepio perpassar sua espinha. Ouvir o nome inteiro de Hermione e saber que ela estava viva e perto – ao mesmo tempo longe – era um alívio. Ao mesmo tempo era angustiante; a saudade que sentia era angustiante. – Ela também é uma grande amiga minha. Ou, pelo menos, costumava ser.
- É, o mundo realmente é pequeno – Liah concluiu sombriamente.
- No mundo bruxo tudo se cruza, Liah. Devia estar acostumada com isso.
- Eu estou me acostumando com a idéia – Liah brincou enquanto recebia o chocolate quente que a garçonete lhe passava.
- Então, eu não sei se você conseguiu associar as coisas, mas... Chloe... É esse o nome da menina, não é? – Liah assentiu enquanto bebericava o chocolate quente. – Você me disse duas vezes que ela vai completar três anos, lembra-se? E Hermione sumiu há três anos e meio...
- Você está me dizendo que você sabe quem é o pai de Chloe? – Liah tremeu, derramando generosas gotas de chocolate quente sobre a mesa.
Amy engoliu em seco e assentiu.
- Mas nem mesmo Hermione sabe! Ela vai ficar tão feliz quando...
- Você não vai conseguir contar – Amy adiantou-se. – Primeiro porque você não sabe o nome dele; e segundo, porque há uma profecia a se cumprir e você não pode violar o tempo dela – Liah encarou Amy sem entender. – É como eu disse: se tudo for acontecer como imagino que vá acontecer, você não conseguirá dizer uma palavra a respeito disso a Hermione. Portanto, melhor não tentar. Ela costumava ser bastante curiosa e não gostava de meias-palavras.
- Então ficará contente em saber que ela continua exatamente assim – Liah bufou. – Coitada da minha amiga! Ela queria tanto saber quem é o pai de Chloe...
- Ela não pergunta?
- Quem? Chloe? – Liah indagou e Amy assentiu. – Já perguntou muito. Hermione sempre diz que ele está viajando. Mas a menininha é inteligente. Não vai demorar até que perceba a verdade.
- Não me surpreende que ela seja inteligente. A mãe sempre foi a primeira da turma – Amy sorriu tristemente. – Mas ela só tem dois anos, Liah. Pelo menos até os cinco Hermione vai conseguir levar a mentira adiante. De qualquer forma, seria bom que ela mudasse a história até que Chloe possa entender a verdade.
E o silêncio se estendeu. Amy bebeu um generoso gole de seu chocolate quente.
- Você sente falta dela, não é? – Liah indagou. Amy fechou os olhos e concordou com um aceno breve. – Eu também.
Amy riu.
- Não vai querer comparar, não é?
- Não, não vou – Liah murmurou. – Não se preocupe. Eu vou falar com ela sobre você.
- Você acha que ela vai lembrar? – Amy animou-se.
- Não sei, mas não custa tentar, certo? – Liah sorriu. – Ah, eu acabei por não ler a carta! – lembrou-se, pegando-a no bolso e passando a ler.
- O que diz?
- Que Chloe sente saudades e ela também, que elas estão bem, conta que ela conseguiu concluir o treinamento na Academia de Aurores, deseja um feliz Natal e um ótimo ano novo... – Liah murmurou ainda lendo. Sabia exatamente o que Amy ansiava. – Mas não diz para onde foi.
- E eu acho melhor você nem perguntar. Deixe que ela diga, se quiser – Amy murmurou. – Apenas fale de mim. Se ela lembrar, já estarei satisfeita o bastante.
- É isso que eu não entendo... Se ela lembrar?! O que quer dizer com isso?
- Bem, você disse que ela não sabe quem é o pai de Chloe, certo? Então eu suponho que ela tenha apagado algumas partes de sua memória, também por conta do efeito profético.
- Que coisa complicada, hein?
- Complicado vai ficar para você se nós não voltarmos para Londres. Você tem que estar em sua sala dentro de dez minutos – Amy mudou de assunto enquanto olhava o relógio de pulso.
Liah não insistiu e bebeu o restante de seu chocolate, pensando em como extrairia de Amy o restante da história sobre a tal profecia.
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Tarde de 27 de fevereiro de 2002, Academia de Aurores, Oslo, Noruega
A lycra de suas calças fazia com que se sentisse indo correr no parque e não trabalhar. O rabo de cavalo no alto da cabeça, os tênis e o casaco que cobriam o top fitness faziam sentir-se ainda mais jovem, como se estivesse voltando à sua adolescência.
- Bonita – Chloe murmurou para ela.
Ela riu.
- Obrigada, querida – agradeceu dando um beijo na testa da filha. – Agora mamãe vai ter que ir. Você promete se comportar?
- Vou ficar quietinha aqui esperando – assegurou a pequena.
- Então eu posso ir tranqüila, não é? – Chloe concordou com um aceno. – Ok, dona Chloe. Qualquer coisa pede à Irina, certo? Aquela moça que está sentada ali atrás do balcão, está vendo? – novamente a menina concordou. – Daqui a pouco estou de volta!
E dizendo isso, virou-se para sair da recepção da Academia. Caminhou rapidamente até uma área aberta, onde os seus alunos já estavam a postos para sua primeira aula. Percebeu que alguém estava falando de frente para os outros. Supôs que fosse o diretor, por conta dos trajes mais formais. Uma camisa pólo amarela, calças e sapatos sociais.
“Definitivamente, só pode ser o diretor”, concluiu ao se aproximar.
- ... É jovem como vocês, o que eu creio que vai tornar as aulas mais prazerosas para vocês e... – ele parou ao perceber que Hermione se aproximava. – Ah, aí está ela! – ela levou a mão ao ombro dela e puxou-a. Hermione deu um sorriso tímido. – Garotos, essa é Hermione Granger, a instrutora de vocês.
- Olá – ela cumprimentou e ouviu vários murmúrios descompassados.
- Muito bem, vou deixar que você se apresente e assuma o comando, Srta. Granger.
Hermione pigarreou enquanto tirava a mochila que trazia num dos ombros.
- Obrigada, Sr. Mork – agradeceu e observou-o se afastar. Voltou-se então para os seus “alunos”. – Muito bem, como foi dito anteriormente pelo Sr. Mork, meu nome é Hermione Granger e eu serei a instrutora de defesa corporal de vocês durante todo o curso. Sei que está soando repetitivo, então vou falar rapidamente de mim e ir ao que realmente importa, certo? – ela deu um leve sorriso e deixou sua feição ficar séria. – Estou aqui para ensinar um pouco de artes marciais, defesa pessoal e duelos corporais, onde vocês terão que derrubar a vítima em questão com habilidade e agilidade, principalmente. Vocês poderão me chamar de Hermione, sem problemas. Sobre mim, hum... Eu tenho 21 anos, nasci e cresci na Inglaterra e já passei por uma série de treinamentos para chegar onde estou agora. Nenhum deles aconteceu para me profissionalizar, muito pelo contrário. Eu fui escolhida para um treinamento com o mestre Jason G. McCoy quando ainda era adolescente. Sou formada em auror, embora muitos de vocês possam ter a mesma idade que eu... Digamos que sou... precoce, certo? – ela arrancou risos de alguns.
- Hem hem – alguém pigarreou às suas costas, interrompendo-a.
- Sim? – Hermione se virou para encarar o recém-chegado.
- Desculpe interromper, Srta. Granger, mas tem um rapaz na recepção à sua espera. Ele parece conhecer a sua filha... – Irina, a recepcionista, anunciou.
- Ele quer falar comigo agora? – a morena indagou.
- Não, ele só pediu para avisar, mas não queria interromper.
- Bem, já interrompeu, mas o recado está dado. Obrigada – agradeceu e observou a mulher se afastar, exatamente como fizera quando o diretor saiu.
- Então, continuando... – ela começou, mas foi novamente interrompida, desta vez por uma aluna.
- Você tem uma filha? – perguntou timidamente.
- Sim – Hermione corou. “Agora vão pensar que eu fui uma adolescente rebelde e irresponsável”, pensou com escárnio. A palavra precoce agora devia ecoar nas mentes de todos aqueles que estavam presentes ali. Ela sentiu-se desconfortável ao perceber os olhos cheios de indagações que estavam sobre si.
- Quantos anos ela tem? – perguntou um rapaz.
- Três anos – respondeu rapidamente. – Mais tarde eu peço para ela vir até aqui para vocês a conhecerem, certo? Agora vamos voltar para a aula! – cortou o assunto. – Bem, agora eu vou começar com umas demonstrações do que eu aprendi tanto no treinamento para a minha formação como auror quanto no que eu tive com Mestre McCoy.
Hermione então tirou o casaco sem se incomodar com o frio de fim de inverno. Logo estaria suando e nem sentiria. Viu alguns alunos prenderem a respiração com tal ato e algumas alunas cochicharem algo como “nem parece que é mãe” e admirarem sua forma.
Mas os alunos pareceram surpreender-se mesmo quando ela conjurou duas espadas sem uso de varinha ou qualquer outro artefato. Logo ela estava testando a agilidade dos alunos e correndo, dando mortais e quase voando para pegar as espadas antes que eles fossem atingidos; eles sempre eram pegos de surpresa. “Ela é demais!”, ouviu alguém murmurar enquanto conjurava uma corda e pegava a última espada no ar quando esta ia passar a poucos centímetros da cabeça de um aluno.
A verdade é que ela podia ler os pensamentos deles facilmente e não era difícil perceber o que fazer em seguida. As habilidades de Mangid delas agora estavam amadurecidas e presentes em tudo o que ela fazia. Seria mais fácil trabalhar com eles dessa forma, saber suas dificuldades e perceber como deveria lidar com cada um deles.
- Ok, vou pausar um pouco. Agora eu gostaria que vocês se alongassem. Eu vou passear por entre vocês testando a flexibilidade e outros aspectos físicos e vou trabalhar primeiro na forma e no preparo de vocês. Comigo vocês irão realmente estar numa academia – assegurou sorrindo.
O restante da aula correu tranqüilamente. Ao final, ela não queria sair dali, tampouco os alunos. Estavam sorrindo e se divertindo com os movimentos que Hermione ensinara para alongarem melhor e melhorar a flexibilidade. Uns ajudavam os outros e agora recebiam a sentença final:
- Então na próxima aula vamos correr um bocado para entrar em forma, fazer abdominais, flexões... Quero ver todo mundo suando a camisa, ok? – e logo foi interrompida por um grito ao longe que reconheceu ser de Chloe.
“Que gracinha”, Hermione ouviu uma aluna dizer.
- Eu estava me perguntando se você ia ficar aqui por mais uma hora além do expediente – uma voz de homem disse atrás de si.
- Chad! – ela abraçou o amigo. – O que faz aqui?
- Ah, é uma longa história – ele sorriu. – Melhor você se despedir de seus alunos. Chloe não está mais tão paciente como antes... – ele sussurrou ao ouvido da morena.
Hermione trocou um olhar com ele e olhou para a filha, que estava no colo do loiro. Conferiu o relógio de pulso e seus olhos arregalaram em surpresa. Chad riu.
- Bem, pessoal, infelizmente nós já passamos bons quarenta minutos do horário da aula e eu tenho que me despedir de vocês. Agora eu tenho que dar um pouquinho de atenção ao meu pingo de gente – brincou. – E então, Rosalie, matei sua curiosidade?
- Ela é a sua cara! – Rosalie disse, tão tímida quanto antes. – Mas os olhos são dele – apontou Chad.
- Ah, não, não! Ele não é só um amigo da família que está nos visitando – Hermione explicou evidentemente embaraçada. – Mas os olhos são do pai – acrescentou. – Então é isso! Amanhã nós continuamos.
E os alunos dispersaram, alguns vindo falar com ela rapidamente antes de irem embora. Em alguns minutos restaram apenas ela, Chad e Chloe, no colo do rapaz.
Vestiu rapidamente o seu casaco e pegou a mochila, colocando-a sobre um dos ombros.
- E então, a que devo a sua ilustre presença? – ela brincou enquanto começaram a caminhar para o seu Volvo que deixara do lado de fora da Academia.
- Estou me mudando para cá. Transferido – Chad resumiu.
- Sério? Nossa, pensei que você nunca fosse aquietar em um lugar! – Hermione murmurou. – Pelo menos vai parar um pouco de viajar, não é?
- É, vou ficar mal acostumado. Não estava nos meus planos vir para cá.
- E acha isso ruim?
- Não, é bom que fico próximo de vocês pelo menos. Alguém conhecido, afinal!
- Chad pode morar com Chloe – a garotinha levantou o rosto do ombro de Chad, onde estava descansando a cabeça, instantes atrás.
Chad riu, mas não respondeu.
- Onde você está morando? – perguntou à Hermione.
- Não muito longe daqui. Está de carro?
- Estou. Passei as últimas três semanas viajando sabendo que era a última viagem até que eu chegasse ao meu destino e parasse por tempo indeterminado. Saí de Londres e atravessei o Canal da Mancha, daí foi França, Alemanha e Dinamarca. Peguei a ponte de Copenhagen a Malmö e daí por diante só chão.
- Muito asfalto, pelo visto – Hermione comentou. – Por que não me avisou que viria?
- Muita coisa para resolver nos últimos dias. Minha vida foi uma loucura esse mês! Despedidas, viagens... e agora estou aqui. Estou exausto! – murmurou. – Desculpe.
- Sem problemas – ela concordou. – Dê-me ela e vá para o carro. Quanto mais rápido chegarmos ao apartamento, melhor para você. Assim você descansa.
A viagem até o apartamento levou menos de quinze minutos. Hermione deixou que Chad estacionasse na segunda garagem que tinha direito e eles subiram juntos.
Chad deixou-se cair na poltrona da sala assim que saiu do banho, já vestido com um moletom e meias.
- Amanhã terei que sair cedo à procura de um apartamento.
- Por que não fica aqui? Pode ficar no quarto de hóspedes e fazê-lo seu – Hermione sugeriu ao voltar do quarto de Chloe.
- Eu não quero incomodar, Mione. Talvez não seja boa idéia também. E seus pais quando quiserem vir te visitar?
- Não se preocupe quanto a isso. Eles não deverão vir com freqüência e podem ficar no quarto de Chloe também. Isso é o de menos!
- Ela dormiu? – ele indagou.
- Sim, mas não tente fugir. Você vai descer agora para buscar as suas malas e, quando eu sair do banho, quero você devidamente instalado.
- Hermione?
- Eu não quero ouvir, Chad! Sem desculpas! – ela virou-se para encará-lo e acabou se batendo em algo duro.
- Obrigado.
Hermione então olhou para cima. Seus rostos estavam próximos demais, seus corpos praticamente colados. Ela sentiu ruborizar e piscou.
- Não há o que agradecer. Somos amigos, não é? – ela sussurrou e então se afastou. – E não há problema nenhum em ele morar conosco – ela acrescentou para si mesma antes de entrar no banheiro. – Somos amigos – repetiu.
“O Chad é louco por você, Hermione. Só você não vê!”, a voz de Liah ecoou pela enésima vez em sua cabeça.
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Manhã de 23 de março de 2002, Casa dos Potter, Chelsea, Londres
Ele estava acordado há alguns minutos, encarando o teto. Sentiu ela se mexer sobre o seu peito e baixou os olhos para encará-la. Um longo suspiro e ele soube: ela acordara.
- Bom dia – sorriu.
- Bom dia, Sr. Potter – ela ergueu-se e o beijou. – Está acordado há muito?
- Na verdade, quarenta minutos – ele contou olhando o relógio de pulso que jazia sobre o criado mudo. – Estava pensando... O que acha de fazermos um passeio? Ir a York, passar a noite lá na casa da bisavó Katine e voltar amanhã depois do almoço? Eu te deixo em casa quando chegarmos, não se preocupe.
- Acho a idéia maravilhosa! – ela deu um selinho nele. – Mas melhor nos apressarmos, não acha?
- Tenho certeza – ele riu.
- Então vá tomar um banho que eu arrumo tudo aqui – ela disse antes de se levantar.
Harry também levantou e a observou puxar os lençóis brancos para dobrar.
- Karen – ele chamou. – Melhor se vestir. Betty estará subindo para arrumar isso. Preocupe-se em arrumar uma mochila para você e outra para mim e só. Tome banho no quarto de hóspedes, se quiser adiantar o processo.
- Tudo bem – ela revirou os olhos ao que ele riu e entrou no banheiro.
Karen correu para o telefone e discou.
- Alô? Hallie? – ela cumprimentou. – Não, não é nada. É só para avisar que eu vou viajar com o Harry e volto amanhã à tarde, ok?
Depois de a irmã avisada, ela desligou o telefone e correu para se aprontar, os passos de Betty nas escadas ficando cada vez mais altos.
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Manhã de 14 de abril de 2002, St. Mungus
- E então? Recebi o recado agora a pouco – Harry se aproximou.
- Nada ainda. Ela disse que o sonho dela era ter parto normal – Rony murmurou baixando os olhos, as orelhas de um vermelho intenso. Ele parecia nervoso.
- E o restante da família? – Harry perguntou.
- Bem, Lilá está em trabalho de parto há quatro horas e agora são sete da manhã. Nada mais justo que todos tenham ido tomar café no refeitório.
- E você já comeu?
- Não. Eu não tenho fome.
Harry riu.
- Pelo visto está ansioso, hã?
- Nem brinca, cara – o ruivo encostou na parede. – Gina está lá em cima no quarto da Luna.
- Luna? – o moreno indagou, atônito.
- Você não soube? Luna passou por uma cesariana essa madrugada pouco antes de nós chegarmos. Draco soube e veio com Gina. Aí nós chegamos e Gina acabou ficando. Ainda a pouco subiu para visitar a menininha.
- É menina?
- É. Chama-se Charlotte – Rony contou. – É bonitinha, quase não tem cabelo.
Harry riu.
- Daqui a pouco é você que vai babar por aí.
- E os outros babando minha filha – o ruivo murmurou.
- Ué, Lilá não disse que não queria saber se era menino ou menina?
- E ela não sabe. Mas a doutora fez os exames, uma ultracenofagia...
- Ultrassonografia, Rony – Harry corrigiu.
- Isso, ultrassonografia e acabou dizendo a nós que era uma menina. Reese, segundo Lilá.
- E se fosse menino?
- Roger – o ruivo murmurou. – Ela tem um gosto esquisito.
- Ela gosta de você, não é? – Harry riu.
Rony bufou e deu um soco leve no braço do amigo.
- Sem graça!