Agosto de 1998
Estacionou o carro à porta de uma luxuosa mansão envolta por altos muros brancos e imponentes. Era tarde, já passavam das onze e a noite chuvosa não ajudava muito. Saiu do automóvel batendo a porta com força e caminhou apressado até os portões enquanto vestia a capa. Tocou a campainha e aguardou.
- Ele está te esperando do escritório – disse uma elegante e belíssima mulher loira, segurando uma garotinha de dois meses nos braços.
Cumprimentou-a com um rápido aceno e seguiu até o escritório.
- Sr. Haase? – chamou ao adentrar o aposento.
- Achei que não viesse mais, rapaz – murmurou o homem se levantando e contornando a mesa para cumprimentar o outro. – Trânsito?
- Como não bastasse ter que viver como trouxa...
- Sabe que o trabalho pede tais métodos... – interrompeu Haase.
- Que seja! – o moreno cortou. – Ainda temos que respeitar inúmeras regras ridículas mesmo havendo meios de contorná-las e, principalmente, a essa hora da noite, quando não há uma alma viva nas ruas.
- É pela segurança, homem! Não há por que tanto estresse com algo tão pequeno. Com sua idade não me descontrolava com tão pouco. E você só tem dezoito anos! – Haase replicou calmamente.
- Sabe, quando Draco disse que às vezes você lembra muito Dumbledore, não acreditei. Mas devo dizer que concordo com ele – bufou o rapaz.
Haase apenas sorriu.
- Se assim viverei tanto e tão bem quanto Alvo, não vejo motivos para viver de outro modo – respondeu. – Mas, então... como anda a garota?
- Está bem. Voltará para Hogwarts no dia primeiro.
- Ela decidiu?
- Hesitou, mas acabou concordando que seria bom para ela.
- E o pai dela?
- Ainda não se encontraram. Correspondem-se apenas através de cartas, nas quais ela mesma prefere não entrar em detalhes.
- Em outras palavras: ele não sabe que ela está em Londres – resumiu Haase. O outro apenas assentiu. – De qualquer forma, ela dará sinal de vida muito em breve. Pelo que acompanhei, teve uma recuperação excelente. – O silêncio tomou conta do aposento. – Ela não fala do ex-namorado?
- Algumas vezes, mas não é a mesma coisa que tempos atrás...
- E nem poderia. Ela não o vê há quase dois meses, desde o ataque a Hogwarts – Haase ponderou. – Além disso, pelo que me contou, eles não estavam tão bem naquela época.
- Pois bem – assentiu o moreno. – Vou esperar que ela termine Hogwarts para pedi-la em casamento. Enquanto isso, vou apenas investir na conquista – contou. – Temos uma relação muito boa, não vejo como não dar certo.
- Eu prefiro não opinar. Sabe que nesses assuntos costumo ser muito imparcial. Tenho uma filha de dezesseis anos, nunca me meti na vida amorosa dela. Não colocaria a minha varinha justo na sua, hã?!
- Sei disso, sei disso.
- Mas veja bem... Draco não ficará nada satisfeito em saber que o sócio dele planeja casar na mesma época que ele. O conhece tão bem quanto eu e sabe que ele odeia concorrência. Seriam dois casamentos grandiosos de pessoas de alta influência no mundo bruxo, os flashes não durariam tanto.
- Fica tranqüilo, sei o que faço. – assegurou. – E, acredite, meu casamento será para tão logo quanto o dele.
- Papai? – Uma garota de pele bem branca e cabelos castanhos muito lisos na altura dos ombros adentrou o aposento. Tirou a franja comprida que lhe caía sobre os olhos e caminhou até a poltrona onde o pai estava sentado, colocando uma das mãos sobre o ombro dele. – Narcisa pediu para avisar que já vai deitar. Jennifer dormiu e ela quer aproveitar o pouco tempo de paz que tem.
- Tudo bem, querida – ele assentiu. – Já conhece Blaise Zabini?
- Só de vista – ela respondeu. Ela se aproximou. – Como vai?
Blaise se levantou e beijou a mão da garota, sem tirar os seus olhos dos dela, os quais, não deixou de notar, eram de uma coloração diferente; um tom cinza muito escuro.
- Tiffany Haase – ele murmurou. – Cada dia mais bonita – disse, galanteador.
- Obrigada. – Ela corou levemente. – Bom, acho melhor eu subir. Já está tarde e, bem, já atrapalhei mais do que deveria. Boa noite!
Blaise observou-a deixar o aposento.
- O sempre galanteador Blaise Zabini – Haase brincou. – Você não tem jeito, não é? Mas fica o aviso: dessa você passa longe, hein?
- Não precisava nem avisar... – O rapaz sorriu, maroto.
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Estava jantando na casa dos sogros. Desde que retornara de Hogwarts, a sua relação com os Weasley se tornara mais amigável.
- Gina vai morrer sem você na escola com ela – Rony brincou.
- Acredite, será tão ruim para ela quanto para mim – assegurou.
- Vocês irão superar, queridos. Só alguns meses e ela estará de volta – comentou a Sra. Weasley.
- E vocês terão com o que ocupar suas cabeças – replicou o Sr. Weasley. – Gina está em ano de N.I.E.M.’s e você tem o trabalho na firma, hã?!
- E, Malfoy... A quantas anda a M&Z Law? – interessou-se Rony.
- Vai bem. Mas parece que Blaise anda com a cabeça em outro planeta. Está deixando o financeiro todo por conta da pobre da secretária.
- Notei que andava estranho – Gina comentou. – Ele costumava ser mais aberto...
- Pelo menos ele não perdeu o senso de humor. Este é característico dele – Rony observou.
- Isso não é da nossa conta, garanto. De certo, tem os seus motivos – interrompeu a Sra. Weasley. – Rony, querido, o que disse que tinha para nos contar? – perguntou apreensiva.
- E-er, bem... É que eu estou viajando no dia nove de setembro. E-eu fui convocado para jogar pelos Chudley Cannons – contou.
- Ora, meu filho, mas isso é maravilhoso!
- Concordo com Arthur. Parabéns! – cumprimentou Draco.
Mas nem todos pareciam tão felizes com a notícia, ou pelo menos não demonstraram. Gina emudeceu instantaneamente e em seu rosto se formara um sorriso que misturava alegria e leves traços que indicavam surpresa. Já a Sra. Weasley, simplesmente caíra no choro.
- Mamãe? Você está bem? – Rony repetia fazendo coro com os demais.
- Vou pegar um copo com água para ela. – Draco apressou-se.
- Eu sabia que isso ia acontecer... Droga, droga, droga! – O ruivo deu um tapa na própria testa. – Mamãe, não vou deixar você, prometo!
- Ma-mas e-eu estou feliz por voc-cê, querido – ela gaguejou enquanto recebia o copo que Draco lhe entregava. – É s-só que n-não consigo me acostumar com i-isso... – Ela tinha a voz embargada pelo choro. – É difícil para uma mãe ver a casa e-esvaziando, os filhos que ela criou com tanto sacrifício e carinho indo embo-bora, tomando seus rumos, encaminhando-se na vi-vida...
- Por Morgana, mamãe! Rony não vai te abandonar. – Gina revirou os olhos. – Além disso, o Gui está vindo morar aqui com a Fleur, a casa não vai ficar vazia nunca. – A garota se aproximou do irmão. – Se ela fizer isso todas as vezes que um de nós precisar sair de casa, eu vou fazer uma campanha para Fred, Jorge, Carlinhos e Percy voltarem, juro.
- Não se preocupe, você será a próxima – Rony cochichou antes de voltar a atenção para a mãe, que se debulhava em lágrimas.
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Quando finalmente chegou em casa, já passava da uma da manhã. Silenciosamente, retirou a capa, deu uma rápida olhada no ambiente e subiu as escadas. Percebeu a silhueta de uma luz que vinha de um dos quartos. Ela ainda estava acordada.
Adentrou o quarto. Ela estava lendo, sentada na cama, as cobertas cobrindo-lhe as pernas. O abajur da mesinha de cabeceira era a única fonte de luz do aposento.
- Lu? – chamou.
- Ah, querido! Demorou na casa do Sr. Haase, hã?! – comentou, levantando-se e se aproximando. – Draco estava lá?
- Não. Foi para um jantar na casa dos sogros com Gina – ele respondeu.
- E como estão Narcisa e Jennifer?
- A menininha está cada dia mais bonita. Mas também, tendo Narcisa como mãe... – ele não completou e, encarando-a, sorriu. – Thomas fez um bem imenso a Narcisa. Pensei que nunca mais fosse vê-la deste jeito, tão feliz.
- É impossível viver bem ao lado de um repugnante Comensal da Morte, principalmente quando falamos de alguém tão sórdido como Lucio Malfoy.
- Não discordo de você. Nem mesmo Draco agüentava mais a situação em que vivia – ele concordou. – Mas mudemos de assunto. E você, como está? Thomas perguntou por você.
- Estou ótima, graças a Merlin! Recebi tratamento especial nestes dois meses. Contei com homem maravilhoso, carinhoso e gentil como você e a preocupação de um dos melhores medibruxos de todos os tempos. Quem não estaria bem?
- Eu nunca escondi o interesse que tenho por você, Luna – ele disse, sério.
A loira se aproximou colocando as duas mãos sobre os ombros dele.
- Eu sei. Também nunca menti ao dizer que há possibilidade de um dia corresponder-te. Por enquanto, somos apenas amigos... – Ela ofereceu-lhe um selinho. – Com benefícios – brincou, tocando rapidamente a ponta do nariz do moreno com o dedo indicador.
Ele sorriu.
- Já é um começo...
- E pode dar muito certo – ela murmurou. – Gostaria de saber o que será de mim este ano em Hogwarts. Eu ando tão perdida!
- Farei o possível para te ver. Não deixarei você sozinha. E, além disso, Gina volta para Hogwarts ainda este ano, esqueceu?
- Já vi que terei mil e uma perguntas a responder. – Luna revirou os olhos.
- Você responde apenas se quiser.
- Como se você não conhecesse Gina Weasley, não é?
- Ao menos não tive que participar de um interrogatório onde ela fizesse as perguntas. E, convenhamos: está para nascer alguém tão curiosa quanto Gina – ele exagerou. – Isso sem falarmos do dom que ela tem de te colocar nas piores situações imagináveis.
- Realmente. As perguntas dela são bastante cabeludas. – ele a encarou com a sobrancelha erguida. – Tudo bem; força de expressão – justificou-se. – Embaraçosas, as perguntas.
Blaise permaneceu sério.
- O que foi? – ela perguntou, confusa.
- Nada, sua boba! – Ele beijou-lhe a testa. – Vamos dormir. Já está tarde.
- É, estava só esperando você chegar. Sabe, é bom conversar com você.
- Mas devia ter dormido. Não faz bem ficar acordada até tarde. Não há problema algum se é para o seu bem – ele disse, preocupado, colocando uma mecha de cabelos atrás da orelha dela.
- Tudo bem – ela assentiu, enquanto recebia um breve beijo na testa. – Boa noite! – Voltou a sentar-se na cama, observando-o retirar-se para o seu próprio quarto.
Satisfeito, deixou o aposento com um sorriso bobo brincando em seus lábios. Agora ele tinha certeza: ela era a mulher certa para ele e ele a conquistaria, custasse o que custasse.
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Manhã de primeiro de setembro de 1998, estação King’s Cross
Observou o movimento. Parecia que com a derrota de Voldemort, a quantidade de alunos triplicara. Muito provavelmente os pais, que no ano anterior seguraram os filhos em casa, sentiam-se mais seguros a enviá-los à Hogwarts, onde poderiam retomar os estudos normalmente. Haveria uma falha, era certo, mas que seria devidamente corrigida.
- Bando de anõezinhos – bufou Rony.
Gina riu. Rony, de certa forma, tinha razão. Parecia que com o passar dos anos, os alunos de Hogwarts encolhiam ainda mais. Ela sabia que sentiria falta do irmão pegando no seu pé, reclamando de tudo, rabugento. Ele podia ter todos os defeitos do mundo, mas ela simplesmente o adorava, exatamente daquele jeito. Abraçou-o fortemente.
- Se cuida, hein? – ele murmurou.
A caçula Weasley sorriu e fechou os olhos, ainda envolvida pelo abraço. Resmungou um ‘sim’ como resposta enquanto assentia com a cabeça. Afastaram-se e ficaram se encarando por alguns segundos.
- Então... tchau, não é? – ela murmurou, os olhos marejando.
- Tchau. – E o ruivo deixou a plataforma. Aquilo, de certo, era um adeus. Não sabia quando o veria novamente.
Limpou os olhos antes que as lágrimas escapassem e virou-se, esbarrando em algo.
- Ai! – ela reclamou e encarou a figura loira à sua frente. – Ainda bem que o Rony foi embora – murmurou, os olhos arregalados. Estava branca, as mãos geladas.
- Ah! Oi, Gina! – cumprimentou Luna. – O que disse?
- Não, não... Nada – Gina apressou-se em responder. – Como vai, Luna? Não nos vemos há um bom tempo, não é? – tentou iniciar um diálogo amigável e o mais natural possível.
Luna deu um sorriso tímido.
- Estou bem, obrigada. E você?
- Nenhuma novidade, mas está tudo ótimo – a ruiva disse. – Draco está trabalhando com Blaise, vai acontecer o batismo de Jennifer na primavera... Creio que saiba quem é Jennifer, não? – Luna assentiu e abriu a boca para dizer algo, mas Gina continuou. – É a irmã do Draco, faz três meses no próximo dia vinte e...
- Gina, eu sei de tudo isso – Luna interrompeu. – Como também sei que seu irmão vai jogar pelos Chudley Cannons, que o Harry é um dos mais fortes candidatos a chefe do Departamento de Execução das Leis da Magia, que Hermione sumiu e que Quim abandonou o cargo de Ministro da Magia para voltar ao antigo cargo como chefe do Quartel General de Aurores. Ah, e é claro: o casamento de Lupin e Tonks – ela enumerou. – Sumi, mas ando me informando. Sei de tudo o que acontece. Tenho, inclusive, a melhor fonte...
- Como você sabe de tanta coisa? Onde você esteve todo esse tempo? Por que sumiu? – Gina bombardeou.
- Não importa. Não quero falar sobre isso, ok?
- Ouch! Tudo bem – a ruiva murmurou, os olhos curiosos arregalados.
Aquela não era uma atitude comum vinda de Luna Lovegood, o que a Weasley não deixou de notar. Estava mais fria, mais distante, e toda conversa que as duas iniciavam era superficial, sem muito desenvolvimento. Luna deixara bem claro que não queria falar sobre o tempo que passara fora e Gina parecia respeitar na medida do possível.
- E o Rony? – Luna perguntou após vários minutos de um silêncio ensurdecedor. Gina surpreendeu-se com a súbita pergunta. Tirou a atenção do jornal que lia, deixando-o de lado.
- Está bem.
- Ele estava com você na estação hoje, não?
- Estava. Foi embora pouco antes de me esbarrar com você.
- Imaginei. – A loira suspirou. – E os outros? Nada da Hermione ainda?
- Graças a Merlin, todos se recuperaram e estão bem, trabalhando... Pelo que soube, os ex-alunos marcaram de se encontrar todas as sextas-feiras após o expediente no Três Vassouras. É um meio de não perder o contato, afinal.
- É, é uma boa idéia – Luna murmurou, pensativa, anotando mentalmente a informação para lembrar de enviar uma carta a Blaise assim que chegasse a Hogwarts. Ele certamente gostaria de saber e seriam as oportunidades perfeitas para se encontrarem.
- Bom, mas quanto à Hermione... É algo que ninguém entende. Tudo bem, você voltou, mas Amy parecia segura ao dizer que ela poderia não voltar tão cedo, que já nem sei mais – Gina comentou. – Pena que não terei chance de provar a ela que aos vinte anos ela estaria com filhos no colo. – sorriu, lembrando-se do ano anterior, logo que chegaram a Hogwarts. Ela era outra de quem sentiria falta.
- E o Harry? Como está lidando com isso?
- Está se sacrificando com o trabalho, sempre arrumando algo trabalhoso para ocupar o tempo e a cabeça.
- Bom, só o tempo que gasta para criar desculpas e não se divertir não dava para preencher tudo, não é? – Luna zombou. – Mas alguém tem que mostrar para ele que isso não vai ajudar em nada. Ele tem que tocar a vida dele e, quem sabe, conhecer outras mulheres, se aventurar. Não digo que deva esquecer a Hermione, se prender a um novo alguém... mas isso não é viver!
- Já tentei argumentar de todas as maneiras, mas segundo ele, ‘se isso não é vida, parece bastante’. – Gina usou as palavras que ele mesmo usara em uma conversa anterior. – E Amy disse que a profecia dizia que eles iriam se encontrar e que, então, seria o encontro definitivo, quando eles ficariam juntos ou não.
- O que leva a entender que ainda assim Hermione pode ir embora – Luna concluiu.
- Eu não tinha pensado dessa forma... – A outra pareceu ponderar um instante. – Não, sem chance! – ela descartou a hipótese. – Eles se amam demais para acabar assim.
- Você já parou para pensar que esse encontro pode levar anos para acontecer? E nesse tempo muita coisa pode ter mudado, eles terão suas vidas e adaptar uma à outra pode não dar certo... E o que é presente, simplesmente virar passado.
O silêncio tomou conta do ambiente. Gina emudecera e sua cabeça trabalhava a mil. Por fim, apenas ergueu os olhos e encarou a loira:
- Mas algo me diz que essa história não acabou e está longe de acabar – replicou sombriamente, deixando as reticências no ar.
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Tarde de vinte de dezembro de 1998, casa dos Black
- Seis meses e nem sinal dela! – o moreno bradou. – Não é possível que ela simplesmente tenha apagado o passado, tudo o que ela viveu aqui, o mundo bruxo de sua vida.
- Calma, Harry! Eu já disse que pode ser conseqüência da profecia...
- Ainda mais essa; a maldita profecia. – Ele deixou-se cair numa poltrona. – Amy, você precisa lembrar! – sem tom parecia ser suplicante.
- Não dá, já tentei de todas as maneiras, sabe disso! – ela replicou. – Se ao menos soubéssemos quem a profetizou...
Os dois silenciaram, parecendo imersos em seus devaneios.
- Só tem um jeito de saber – Harry murmurou sério e parecendo decidido.
- Harry, não! Nem pensar. – Amy se levantou, aproximando-se. – Você sabe dos riscos, seu emprego pode acabar entrando em jogo...
- Onde mais eu vou encontrar essa droga de profecia? – ele elevou a voz.
- O que está acontecendo aqui? – perguntou Sirius, adentrando o aposento.
- Nada, pai – a garota respondeu rápido. “Rápido demais”, Sirius pensou.
- Não é nada, Amy. E nós dois sabemos disso – o homem replicou calmo, porém sério. – O que está acontecendo aqui? Harry não teria alteado a voz se estivessem apenas conversando, com certeza.
- Tudo bem. – A morena mordeu o lábio inferior. – A profecia – ela entregou. – Mas estávamos apenas conversando, ele apenas se exaltou um pouc...
- De novo isso? – Sirius interrompeu. – Harry, você precisa esquecer isso. Há dois anos que essa profecia foi encontrada, desde então não foi mais vista. Tanto Amy quanto a própria Hermione já disseram que foi encontrada quando vocês estavam em Londres, na casa onde seus pais moravam e onde você mora hoje. Se tinha que estar em algum lugar, era lá e, pelo visto, não está!
- E onde foi parar?
- Não sabemos. Somos tão ignorantes neste assunto quanto você – o homem respondeu.
- Mas também não há chances de estar no Departamento de Mistérios, a menos que haja uma cópia, o que é absurdamente impossível. E todos sabemos disso – Amy completou.
- Toda profecia é única, eu sei – Harry assentiu. – Mas... Quais as possibilidades de achar os dizeres, mesmo que a esfera tenha sido perdida?
- São poucas. Hermione deve ter levado consigo o papel que estava na caixa com a profecia. – supôs a garota.
- Ah, ótimo! – Harry bufou. – Lá se vão todas e quaisquer chances de um dia saber o que a profecia dizia.
- Harry, o seu interesse não é na profecia, mas em uma pista que possa surgir de onde a Hermione possa estar e de como encontrá-la – Sirius concluiu. – E se Lílian retirou a profecia do Departamento de Mistérios, esta ficou guardada por mais de dezesseis anos numa caixa e apenas a Hermione retirou de lá, sem que ninguém a visse depois... o melhor é esquecer que ela existe e esperar que a última parte se cumpra... naturalmente.
- Amy, querida, o Aaron está... – Alissa adentrou o aposento e ao perceber que atrapalhava, fez o sorriso que tinha no rosto desaparecer automaticamente. – Desculpe, não sabia que estavam...
- Não se preocupe, querida. – Sirius se aproximou da esposa. – Nós já terminamos, não é?
- Sim, já estávamos mesmo indo – Amy confirmou e ela, assim como Sirius e Alissa, encarou Harry, que parecia confuso, sem saber o que dizer. – Vamos? – a garota encorajou.
- Ah, claro. Vamos, sim. – E os quatro deixaram o escritório, encaminhando-se para a sala, onde Aaron aguardava sentado no sofá.
- Minha linda, que saudades! – Ele deu um rápido beijo na noiva. – Trouxe um presente para você. Entrego-te mais tarde junto com uma surpresa que andei preparando – ele segredou.
- Ah, não precisa pressa. Quero matar as saudades antes, certo? – ela murmurou e o noivo assentiu.
- E aí, Harry? Como vai? – ele cumprimentou, se levantando e estendendo a mão para o moreno, que a aceitou de imediato, sorrindo. – Sr. Black... – Sirius o olhou feio. – Oh, desculpe; Sirius...
- Assim está melhor – murmurou o homem, cumprimentando-o. – Bem vindo, rapaz. Como foi a viagem?
- Muito boa, apenas cansativa – o outro respondeu, sentando-se novamente e sendo acompanhado pelos demais. – Meus pais resolveram ficar por mais um tempo. Voltarão dentro de três semanas, no máximo.
- Para o casamento, creio eu – fez Alissa.
- Exatamente – Aaron confirmou. – Daí eles ficam; nós vamos.
- Vamos passar a lua-de-mel nos Estados Unidos? – Os olhos de Amy brilharam como os de uma criança que recebe no Natal o presente que mendigara durante todo o ano.
- Vejo que as surpresas hoje não serão poucas, hã?! – Sirius brincou. – Só quero ver se minha filha vai estar viva até o casamento... Porque desse jeito, Sr. Mackenzie, você mata ela excitada!
- Sirius Black! – Alissa repreendeu, fazendo todos rirem.
- Digo... Ela pode acabar se animando tanto que vai ter um enfarte, não é? – ele corrigiu. – Querida, apenas usei o termo errado. Você entendeu o que eu quis dizer.
- Ah, certas coisas não mudam – Alissa suspirou, revirando os olhos.
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Tarde de 22 de janeiro de 1999, casa dos Black
Ela estava de costas para a porta, encarando o espelho à sua frente. Estava nervosa e suas mãos suavam. Seu rosto contradizia tudo o que estava sentindo; estava sereno, soberano. A ansiedade era tamanha que ela sequer se movia. Nem mesmo o fato de virem batidas da porta fez mexer-se por um segundo sequer.
- Entre – ela disse, baixando os olhos por um momento.
Pelo reflexo do espelho, viu a mulher morena sentar-se na cômoda. Tinha os cabelos lisos e castanhos, olhos amendoados igualmente castanhos e a pele muito branca. Estava vestida socialmente, usando um vestido de cor vinho comprido, com um generoso decote na frente, mas nada que pudesse ser chamado de vulgar, os cabelos presos em um coque despojado, mas muito bonito, e a franja, agora grande, propositalmente solta.
Ela permaneceu sentada na cômoda e observando a primeira como se não houvesse coisa mais interessante para ser vista. Tinha um sorriso satisfeito no rosto.
- Eu não sei se isso é realmente o que quero, não agora – Amy disse, sem virar-se para encarar a recém-chegada.
- É normal ficar ansiosa quando se vai casar.
- E o Aaron?
- Querida, ele não poderia estar mais feliz.
- Eu o amo tanto... – Amy suspirou.
- Garanto que ele te ama tanto quanto você possa imaginar. Agora não fique pensando que não está fazendo a coisa certa, não se pergunte se é realmente isso que você quer... Porque é exatamente o que você quer. A ansiedade apenas te deixa mais nervosa, mas não há com o que se preocupar. Você vai terminar de se arrumar e vai descer, vocês vão se casar e tenho certeza de que fará o meu irmão muito feliz – a outra disse com convicção. – Daqui a pouco estarão todos aí e você não poderá se atrasar muito, embora seja algo tradicional, a noiva atrasar.
- Tem razão. – Amy limpou os olhos antes que as lágrimas que se formavam pudessem escapar. – Obrigada, Liah! – Ela abraçou a cunhada.
- Não foi nada, sabe disso! – Liah respondeu, encarando-a com um sorriso nos lábios. – Você está linda!
Amy sorriu e baixou os olhos, corando levemente. Observou-a deixar o aposento.
Liah Mackenzie era a irmã de Aaron, sendo dois anos mais nova que o irmão. Como ele, também era americana, estudara no Instituto de Magia Nolux. Viera para a Inglaterra quando terminou os estudos e hoje tinha vinte anos, como Amy. Trabalhava no Ministério da Magia, no Departamento de Execução das Leis em Magia. Era linda e de uma personalidade maravilhosa.
Terminou de se arrumar e saiu, caminhando lentamente até a sala de tevê, onde seu pai a esperava, parecendo concentrado em um copo de whisky. Ele levantou os olhos para ver quem estava à porta e, Amy pôde notar, eles brilharam intensamente no momento em que ele ergueu por inteiro o rosto para encará-la, com um sorriso bobo nos lábios.
- Está linda! – ele murmurou, deixando o copo sobre a mesinha e caminhando em direção a filha.
- Obrigada – ela respondeu, sorrindo. – Vamos?
- Vamos. Creio que já estejam todos aí – o pai concordou, oferecendo o braço para a garota, que aceitou, ainda com um sorriso brincando em seus lábios. Entreolharam-se e ela viu, nos olhos do pai, traços de emoção, mesmo que este não demonstrasse.
A música começou a tocar, apenas instrumental, misturando o órgão e o saxofone. Desceram as escadas e caminharam por um longo tapete vermelho que atravessava toda a sala da casa, rodeado por convidados. Amy simplesmente não conseguia parar de sorrir, estava transbordando felicidade. Acenava discretamente para todos os convidados, que a admiravam encantados.
Ela optara por um vestido que não pedisse o uso de véu e luvas. Era todo em cetim branco, tomara-que-caia, cauda comprida, bordado com uma tonalidade perolada, tendo uma fita de cetim da mesma cor de cerca de cinco centímetros contornando a parte superior do busto, dando um toque final ao corpete todo bordado. Era simples e perfeito.
Os cabelos negros estavam presos a um rabo de cavalo baixo por uma presilha cravada por pérolas e a franja jogada para o lado, colocada atrás da orelha. Os brincos eram de ouro e também de pérolas, pequenos. No pescoço, uma grossa gargantilha.
Foi entregue ao noivo, que apenas cumprimentou o sogro com um aperto de mão e eles voltaram-se para o padre, que fez uma cerimônia rápida e bela.
Quando finalmente o casamento acabou, magicamente toda a arrumação anterior foi substituída por mesas e cadeiras cobertas por mantas de seda e uma música suave a tocar. O ambiente estava lotado. Os noivos abriram o vinho espumante e brindaram, agora casados. Tiraram fotos e em seguida foram cumprimentar os convidados. Harry, como prometido, fora padrinho ao lado de Liah e Ethan. O posto de madrinha da noiva permanecera vazio, representando o lugar que Hermione deveria ocupar.
Isabella e Olívio foram testemunhas da união. Também estavam presentes todos os Weasley, à exceção de Percy (Gina conseguira uma autorização de Dumbledore para deixar Hogwarts por dois dias), vários membros da Ordem da Fênix, Draco Malfoy e alguns colegas de trabalho, tanto dela quanto de Aaron, que ainda trabalhava no Departamento de Cooperação Internacional em Magia.
- Só faltou a Hermione – Aaron comentou.
- Onde será que ela está agora? – Amy se perguntou. – Sinto tanto a sua falta, Herms!
Aaron sorriu tristemente a abraçou a mulher.
- Esquece isso. Vamos nos divertir que o dia é nosso – disse, piscando para ela ao se afastar.
- Tudo bem – Ela beijou-o. – Vou jogar o buquê – anunciou em voz alta, fazendo com que todas as mulheres solteiras se aglomerassem atrás de si. – No três, hein? Um... Dois... e... Três! – E lançou-o para trás.
Virou-se e viu uma Gina sorridente com o buquê em mãos. Piscou para a ruiva, que retribuiu o ato. De fato, só faltava Hermione.
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Noite de 2 de fevereiro de 1999, 19h30
- Chad, pelo amor de Deus!
- Calma, nós estamos chegando...
- Por que diabos você não aparatou? – ela perguntou. – Eu estou tendo meu filho, será que você não percebeu? Ai! – ela rugiu de dor. – Vamos, rápido, Chad. Eu não vou agüentar muito...
- Vou pedir para irem preparando o centro cirúrgico. – Ele pegou o celular. – Elloe, avise meu pai que estou chegando com Hermione e que a bolsa dela estourou, o filho dela está nascendo. Prepare o centro cirúrgico. Estaremos aí em dez minutos.
- Dez minutos? – Hermione berrou. – Você quer que eu tenha meu filho no seu carro ou morra de dor?
Chad desligou o telefone.
- Agüenta aí! – E pisou fundo.
Chegaram ao St. Mungus e nem passaram pela recepção; foram direto para o centro cirúrgico.
Chad andava de um lado para o outro nos corredores, ansioso. Parecia que seu filho estava nascendo.
- Chad, querido!
- Sra. Granger, graças a Deus! – ele disse, se aproximando. – Sr. Granger, como vai?
- Vou bem, meu caro – respondeu Stan. – E minha princesa?
- Há meia hora na sala de cirurgia e nada – respondeu o loiro. – Nunca a vi tão nervosa.
- Instinto materno aflorado. Já passei por isso – brincou Jane. – A propósito, Chad, já fiz a ‘limpa’ que seu pai recomendou lá em casa. Todos os pertences que pudessem trazer indícios de seu passado foram jogados fora. Quando ela poderá voltar?
- Breve. Ela tem um apartamento pequeno de dois quartos aqui em Londres, mas creio que depois que o filho dela nascer ela vá passar esses quatro primeiros meses em Godric’s Hollow. Mas está nos planos dela sair do país.
- Sair do país? – repetiu Jane. – Para onde ela pretende ir?
- Com certeza não é para longe. A depender da profissão que ela escolher, é provável que fique de país em país para construir e consolidar sua carreira. Hermione é uma mulher de personalidade muito forte, gosta de se aventurar. Mas a apoio totalmente. Será bom para a vida profissional dela.
- E vocês, se acertaram? – perguntou Stan.
- Na verdade, ainda não. É como se estivéssemos nos conhecendo. Ela parece estar fechada a qualquer tipo de relacionamento.
- Ela gosta de você, rapaz. Apenas está insegura por não saber quem é o pai de seu filho e não se lembrar de nada que seja relacionado a nenhum homem que teve em sua vida – o Sr. Granger comentou.
- Mas vocês sabem quem é o pai da criança, não sabem?
- Há algo que nos impede de contar. Não sabemos o que é – Jane contou.
- Ela também se lembra de tudo na vida dela, mas é como se houvesse um grande vácuo no meio disso tudo. Ela não se lembra de ter se envolvido com ninguém – Chad analisou. – É estranho. É como se tivesse alguma magia poderosíssima sobre ela...
20h05m. Ouviu-se um choro irromper o silêncio do corredor.
- Nasceu! – os olhos de Jane se encheram de lágrimas e ela abriu um imenso sorriso.
- Parabéns, vovó! – Chad brincou, abraçando-a. – Parabéns, Sr. Granger.
- Obrigado, filho.
- E então? – o loiro perguntou ao ver Elloe e seu pai deixarem a sala de parto.
- É uma menina – respondeu Sebastian.
- Uma linda menina! Precisam ver... E os olhos, então?! – Elloe murmurou admirada. – Incrivelmente verdes, como duas esmeraldas.
- Iguais aos do pai – Jane deixou escapar. – Quando poderemos vê-las?
- Estão indo para o quarto. Dentro de meia hora, creio eu, poderão conhecer a netinha de vocês.
Cerca de vinte minutos depois, Jane e Stan estavam a caminho do quarto de Hermione.
- Filha, meus parabéns! – A mãe abraçou a filha.
- Obrigada, mamãe – Hermione agradeceu. – Vejam como é linda! – mostrou.
- Incrível! É igualzinha a você quando nasceu – Stan comentou.
- Os olhos dela são verdes. Uma pena que esteja dormindo. Queria que vissem.
- Nós sabemos. A Dra. Fenty nos contou – o pai murmurou.
- Fez um bom trabalho, querida – Jane disse e Hermione sorriu. – Qual será o nome dela?
- Chloe. Chloe Ann – contou a morena. – E só. Pelo menos até eu descobrir quem é o pai dela.
Jane e Stan se entreolharam preocupados.
“Até lá, a menina passará tranqüilamente por filha do Chad”, pensou Jane ao ver o loiro adentrar o quarto.