Capítulo 9
Monotonia
- Senhorita Granger! – A voz de Luiza ecoava em meu cérebro, como se estivesse a uma distância considerável de mim. – Senhorita Granger, se continuar com essa mesma falta de atenção, a mandarei para o Saint Mungus ao invés do Quartel General dos Aurores. – Pisquei algumas vezes antes de me despertar dos devaneios.
Eu estava caída ao chão, frio e úmido. Apoiei as mãos naquela lama para conseguir me levantar, mas a dor que senti percorrer por todo o meu corpo não era algo a qual eu me lembrava. Ergui a cabeça para olhar a mulher que estava em pé, alguns passos à frente. Estávamos em uma floresta sombria, as árvores tinham troncos tão altos que era impossível ver o céu. As raízes eram tão grossas que pela dor em minhas costas devo tê-las batido em uma raiz próxima de onde estava caída.
Tentava me lembrar quando fomos para aquela floresta, uma vez que Luiza havia transfigurado a sala para que parecesse um enorme campo, com o gramado verde e o céu bem azul e apenas uma árvore completando a paisagem.
Estava exausta e aquela névoa negra que pairava entre nós me impedia de enxergar com clareza.
- Pensei que fosse a melhor aluna de Hogwarts. – Se ela queria atingir meu psicológico, conseguiu. Imediatamente levantei sem sua ajuda e estreitei os olhos para me acostumar com aquela escuridão, embora ainda estivéssemos em uma sala de treinamento dentro do Ministério da Magia. – Seja qual for o problema você deve esquecê-lo quando estiver treinando.
- Eu sei. – Falei rispidamente limpando minha calça e me posicionando para outro ataque.
- Não, terminamos por hoje. – Levantou os braços como se estivesse pedindo uma trégua. – Vá para casa, descanse e amanhã veremos o que fazer. – Ela não estava satisfeita. Abaixei a varinha acompanhando com o olhar a mulher sair daquela sala. Aos poucos o lugar se transformava novamente em uma sala qualquer e totalmente vazia. Insignificante aos que não a conheciam.
Já havia escurecido quando deixei o Ministério da Magia. Ainda usava a mesma roupa do treinamento. Estava um pouco suja de lama, assim como o rosto e meus cabelos; que mesmo presos eu sabia que estavam bagunçados. Mas não me importava.
Caminhei pelas ruas de Londres, procurando por um beco onde pudesse aparatar para casa, mas por algum motivo não entrei em nenhum dos três que apareceram pelo caminho. Apenas continuei andando. Os pés fixos no chão e as mãos firmes na alça da bolsa que estava pendurada no meu ombro esquerdo.
Para onde meus pés estavam me levando? Não sei. Não sabia nem mesmo por quanto tempo estava caminhando pelas ruas de Londres. Uma hora? Duas? Lembro-me que parei de andar somente quando cheguei a um parque desconhecido onde crianças brincavam mesmo com o frio de novembro.
Algo havia me chamado a atenção naquelas famílias. A união que – aparentemente – elas tinham? O sorriso no rosto dos pais? Ou as gargalhadas de felicidade das crianças que corriam para não serem pegas?
- Desculpe incomodar, mas, a senhorita poderia nos dar licença? – Com um simples movimento olhei para a mulher que estava ao meu lado tentando passar pelo caminho que eu estava bloqueando. Recuei dois passos abrindo passagem e observando o bebê que dormia no carrinho verde escuro. – Obrigada! – Agradeceu empurrando o carrinho. Sendo seguida por mais duas crianças.
Suspirei tristemente voltando minha atenção para as crianças. Não me atrevi há verificar as horas; ninguém ficaria preocupado com a minha ausência. No momento era apenas eu e meus próprios pensamentos.
Em passos lentos caminhei mais para o interior daquele parque movimentado. Achei um banco vazio onde me sentei. Larguei a bolsa ao meu lado e cruzei os braços, como se aquele gesto fosse me ajudar a pensar. Pensar em como tudo mudou em poucos meses. Pensar em como uma simples carta do Ministro e um simples “sim” poderia mudar toda uma vida.
Vida a qual lutei para manter durante onze anos.
E agora? Bem... Magoei as pessoas mais importantes da minha vida. Melissa me culpa pela falta do pai e eu sinto que Luan precisa do pai, o verdadeiro.
O que eles não imaginavam é que a pessoa que nunca mais pretendia rever em minha vida, o principal motivo da destruição de tudo o que batalhei nesses últimos anos, o pai deles e o amor da minha vida era nada mais e nada menos que Harry Potter.
- Miles, você está todo sujo. – Uma senhora agarrou o braço do menino que estava a minha frente. Ele protestava a atitude dela. – Você precisa de um banho. – Ele continuou a se debater conforme se afastavam. – Vamos para casa. – A voz daquela senhora era abafada pelos gritos e o choro do menino. Aos poucos se tornavam cada vez mais distantes, até não serem mais ouvidos.
À medida que os minutos passavam, o vento parecia ficar mais gélido, balançando árvores e obrigando famílias a saírem pouco a pouco daquele lugar. Sobrando apenas uma garotinha que brincava sozinha de bola há alguns metros de mim. Ela usava vestes de inverno, luvas que a atrapalhavam segurar a bola que estava brincando e uma touca que cobria quase todo o cabelinho castanho e cacheado dela. Aquela menina era um tanto que familiar, principalmente os olhos verdes que me fitaram por alguns segundos, até a atenção dela voltar-se para a bola.
- Ora, ora Granger. – Senti alguém sentar ao meu lado naquele banco de ferro. – Sempre atrás dos trouxas. – Aquela voz. – Não nega as raízes...
- Me seguindo, Malfoy? – Continuei com os braços cruzados, os olhos fixos naquela garotinha e não me importando com a presença do ex-colega de escola.
- Não usaria exatamente essas palavras. – Riu do próprio comentário.
- Diga o que quer e me deixe em paz.
- Quero fazer uma proposta. – Parecia misterioso, mas não o olhei e não fiz nenhum movimento que entregasse minha curiosidade.
Com o meu silêncio, ele continuou.
- Quero que seja minha. – Direto ao ponto. Imediatamente virei o meu corpo em direção ao dele, assustada. Ele começou a rir com a minha reação. – Tão previsível Granger.
Segurei a alça da minha bolsa e a ajeitei em meu ombro enquanto levantava daquele banco e, com passos apressados, tentava me afastar dele.
- Eu quero uma resposta. – Ele apareceu de repente em minha frente, impedindo que continuasse a andar.
- Você já sabe. – Desviei de seu corpo e continuei a andar.
- Todos dizem que as pessoas merecem uma segunda chance. – Falou com a voz alta e se houvesse mais alguém naquele parque teria chamado a atenção para nós dois. – Estou pedindo a minha chance, a minha segunda chance. – Se eu não o conhecesse, acreditaria em suas palavras.
- Pessoas, Malfoy, não você. – Continuei andando, aborrecida até mesmo com minhas palavras.
- O que você tem a perder, comigo? – Perguntou entrando mais uma vez em minha frente.
- O que eu ganho com tudo isso? – Era uma pergunta retórica.
- Dinheiro... Poder... Jóias... – Sorriu irônico com a minha pergunta, como se a resposta fosse óbvia. – E então?
- Não!
- Você está negando tudo que nunca poderá ter sem mim? – O choque em suas palavras era quase palpável.
- Não. - Pela primeira vez olhei em seus olhos, talvez assim ele entendesse o que eu estava querendo dizer. - Estou negando tudo o que eu nunca quis ter. – Tentei dizer as palavras pausadamente, quem sabe ele entendesse? – Ainda mais com você. – Completei decidida a não continuar aquela conversa.
- Espere! Você está se esquecendo de algo importante. – Malfoy me obrigou a ficar onde estava para poder ouvi-lo. – Seus filhos.
- O que você quer com meus filhos? – Esqueci de que poderíamos ser vistos por trouxas e retirei a varinha do cós da minha calça.
- Calma Granger. – Debochou da minha atitude. – Quero apenas que olhe para aquelas crianças atrás de mim... – Inocentemente obedeci.
Além daquela garotinha, havia um menino de cabelos negros aparentando a mesma idade. Fiquei me perguntando por onde ele havia aparecido e como Malfoy sabia da existência dele, sendo que estava de costas para os dois.
- Muito parecido com Luan e Melissa, não? – Em um movimento rápido, forcei minha varinha em seu pescoço.
- Fique longe dos meus filhos.
- Olhe para eles novamente, Hermione...
- Como ousa dizer o meu nome?
- Apenas olhe. – Obedeci, mais uma vez.
Só que não havia mais crianças. Sem perceber afrouxei a varinha do pescoço dele e comecei a procurá-los. Onde estariam? Não havia nenhum adulto com eles. Será que estavam perdidos? Percorria rapidamente meus olhos castanhos por todo o parque a procura das crianças. Malfoy gargalhou ao meu lado, desviando toda a minha atenção para ele.
- A mais inteligente de Hogwarts. – Seus braços estavam cruzados enquanto negava com a cabeça, falsamente decepcionado. - Tão tola que nem ao menos percebeu que tudo não passou de uma ilusão.
- Ilusão? – Indaguei.
- Vou ter mesmo que repetir? Eu disse que...
- Eu sei o que disse. – Senti-me novamente em umas das brigas irritantes de Hogwarts. – Eu quero saber como descobriu a aparência dos meus filhos quando pequenos. – Minha voz saiu autoritária.
- Assim... – Ele retirou um pedaço de pergaminho do bolso que estava dobrado três vezes. Ele esticou o braço para que eu pegasse.
Sem demora desdobrei aquele pergaminho velho e amassado, talvez porque estivesse no bolso dele. Queria acabar com aquele suspense. Não conseguia imaginar o porquê, mas a cada vez que meus dedos tocavam em uma parte do pergaminho, eu sentia que não deveria continuar. Desdobrei uma última vez.
- Como a conseguiu? – Indiquei aquela foto, com o semblante sério.
- Jamais revelarei. – Era como se estivesse tirando o sarro de mim, e estava conseguindo, porque inconscientemente eu o estava ajudando.
Até perceber o que ele estava fazendo.
Mas o pior não era a foto que estava naquele pergaminho. Foto essa que tirei quando Luan e Melissa começaram a andar. Lembro-me muito bem daquele dia. Faltavam alguns dias para o natal e a neve parecia nos castigar todos os dias desde o começo de novembro. Nem mesmo o vento gelado balançando violentamente as árvores impedia que os dois insistissem em brincar na parte externa da casa. Eu sempre negava. Até aquele dia.
O sol parecia querer deixar seus raios iluminarem a cidade. Mudar aqueles dias frios e monótonos em dias mais alegres. Pelo menos para Luan e Melissa. Com a tentativa do sol aparecer, mesmo com as nuvens carregadas, não nevava aquela manhã.
E mais uma vez os dois vieram até mim.
- Mamãe... – Estava terminando de arrumar a bagunça que eles fizeram na mesa do café da manhã. Olhei para os dois que estavam ao meu lado. Melissa era quem falava e Luan segurava a enorme bola vermelha. - Podemos brincar lá fora? – Olhei de Melissa para Luan, que sorriu imediatamente querendo me persuadir com aquele gesto.
- Tudo bem. – Os dois começaram a pular a caminho da porta. Peguei o meu casaco que estava pendurado atrás da porta de entrada e os acompanhei para o lado de fora.
- Você entrou na minha casa? – Lembrei que Melissa e Luan usavam as mesmas roupas que as crianças que observava minutos atrás.
- Pensar neles, na segurança deles, não a faz querer mudar de ideia?
- Já sabe a minha decisão.
- Você quem quis assim. – Pegou a foto de minhas mãos e desaparatou.
Olhei para os dois lados daquele parque – agora – deserto. A varinha ainda firme em minha mão, não me importando com o que as pessoas poderiam pensar caso me vissem a segurando. Caminhava em passos apressados quando aparatei para frente da minha casa. Sem me preocupar que poderia estar fazendo aquilo aos olhos de trouxas.
Eu sabia que dona Ruth estaria me vigiando. Aquela senhora corcunda de cabelos pretos pintados me esperava todos os dias na janela de sua casa, alegando que estaria preocupada se “chegaria bem em casa”. Apenas uma desculpa para não demonstrar a suspeita que ela tinha de que nós – eu e meus filhos – éramos diferentes, estranhos. E justamente hoje todas as suspeitas que um dia ela tivera, se tornariam realidade. Obviamente ela não é acostumada com vizinhos aparecendo de repente em frente as suas portas.
Com apenas um floreio da varinha – assim que entrei em casa –, as janelas e portas se trancaram, cortinas se fecharam e as luzes se apagaram, deixando a casa exatamente como eu queria. Sendo iluminada apenas pela luz fraca da madeira que crepitava na lareira.
“Como a conseguiu, Malfoy?” De repente lembrei-me da foto.
- Lumus. – Com apenas a varinha em contraste com toda aquela escuridão, subi a escada, correndo pelo pequeno corredor até meu quarto. Abri a porta bruscamente, fixando meus olhos no criado mudo ao lado da minha cama.
Costumava deixar a foto, parecida com a que Malfoy tinha, em um retrato ao lado da cama. Mas agora, ela não estava mais lá. Peguei o retrato vazio e voltei para o andar de baixo.
- Nox. – Sussurrei descendo degrau por degrau da escada.
Então era isso. Malfoy havia entrado em minha casa, mas a procura de que? Não havia nada ali que ele pudesse querer. Nem mesmo aquela foto de Luan e Melissa. Sentei ao chão, de frente a lareira acessa, sem desgrudar meus olhos de onde deveria ter a foto de meus filhos.
Deixei a varinha em cima do sofá, mas segundos depois voltei a segurá-la.
- Vamos lá, Hermione. – Suspirei fechando os olhos e pensando na lembrança mais feliz que tinha. – Expecto Patronum. – E a forma perfeita de uma lontra prateada irrompeu no meio daquela escuridão. – E se eu dissesse que preciso de você, Harry? O que faria? – Em seguida a lontra ultrapassou a janela. Sumindo de vista.
Sentia-me vulnerável. Sensível. Precisando de Harry ao meu lado.
Os minutos seguintes pareceram horas. Mexia na varinha, como se fosse um objeto que nunca tivesse visto, fazendo com que algumas faíscas coloridas saíssem dela.
Ouvi batidas que vinham na direção da porta. Virei meu corpo e apoiei uma de minhas mãos no sofá para levantar. Coloquei a varinha no cós da minha calça e caminhei até a porta. Segurei a maçaneta, ponderando se deveria ou não abri-la. Respirei fundo, adquirindo um pouco mais de coragem, até girar a maçaneta e abrir aquela “barreira” que havia entre nós. Com a certeza de que não seria outra pessoa, lá estava ele, em minha frente, com seus olhos verdes fixosem mim. Naquelemomento em que nossos olhos se encontraram, tive a certeza de que mudaria tudo aquilo que me trouxe até aqui.
Eu deixaria o Ministério da Magia e mudaria de casa, para um bairro bruxo talvez, voltarei a trabalhar somente no Profeta Diário e retomarei minha vida de antes, longe de todos. O que eu não sabia era que outros problemas apareceriam e que eles mudariam toda a minha vida, mais uma vez.
N/A: MENINAS, tenho que pedir mil desculpas outra vez. O sumiço foi culpa das provas, fiquei três semanas fazendo provas que acabaram ontem. Mas estou aqui, de volta e com capítulo novo. Esse capítulo foi mais para a Hermione colocar alguns pensamentos em ordem, cair na real sobre o que está acontecendo. Aquele momento que todos precisam as vezes, para pensar sobre a vida. AH! Sobre o capítulo oito e o piti da Melissa... Era exatamente o que eu queria, que ficassem com raiva dos pitis que ela faz, que quisessem que ela nem mesmo tivesse existido. Eu adoro quando reclamam, sério, porque estou conseguindo o que planejava *-* Agora sobre os comentários... Isis, concordo com você. Hermione poderia jogar tudo para o alto e se aprofundar naqueles olhos verdes de uma vez u_u Melissa, adolescente problemática. Falou tudo. E eu também não gosto, por isso - vou confessar - aquele foi o último escândalo dela. E não precisa pedir desculpa, eu amo esses comentários de desabafos AOKOPAKOAP. Eu nem cheguei a pensar sobre quem poderia ter ganhado o jogo, na verdade foi como se tivessem cancelado, mas pelo gol acho que foi a Grifinória mesmo xD Minerva está quase um Dumbledore KOAPKAOP. E obrigada pelos elogios *-* EnigmaticPerfection, Hermione, todos querem matá-la. Por que fica se fazendo de difícil se o Harry está lá todinho para ela? u_u AKOPKOAAKO Carol, talvez seja isso que a Melissa esteja precisando, uma conversa de mulher para mulher, porque olha, está difícil com ela KAOPKAOPAK Laauras, os pitis da Melissa acabaram, pode ficar tranquila. E uma coisa que você falou é verdade, chamar atenção, afinal, sem o amor de um pai a criança fica um pouco carente. Ainda longe da mãe, sofrendo pressão psicológica, deu nisso... O lado - quase - sonserino dela.
E sobre o significado das tulipas vermelhas, na época que escrevi o capítulo do evento do Ministério eu estava lendo um livro de romance que o casal demonstrava o amor com uma tulipa vermelha, sempre. Achei muito a cara do Harry e da Hermione, embora eles não estejam focados muito no romance. MAIS UMA VEZ, desculpas pelo demora. O próximo capítulo virá semana que vem, boa noite *-*