Luísa permanecia perplexa com as marcas nos pulsos da amiga, porém, rezava para que todo o resto da história fosse um simples exagero ou uma brincadeira. Não podia acreditar que a garota que a fazia sorrir todos os dias vivia em um mundo de lágrimas.
- Acho que dormi demais! – disse Rachel enquanto se levantava do sofá com o cabelo bagunçado e a blusa levantada.
- Na verdade, sim. – respondeu Luísa sorrindo. – Deve estar com fome não é? Eu preparei um bolo pra você.
- Acho que vou querer ficar aqui para sempre. – respondeu Rachel rindo e indo até a cozinha.
As duas se sentaram a mesa, enquanto Rachel comia, Luísa apenas olhava a garota. Não conseguia esconder a sua angustia diante a menina. Ela tentava desviar seu olhar do pulso da menina, mas era inevitável.
- O lanche estava maravilhoso, acho que nunca comi tão bem em toda a minha vida. – disse Rachel com a boca suja de chocolate.
- Que bom que gostou! – disse Luísa com um sorriso torto.
Já se passava das 19:00 quando Rachel anunciou que iria tomar banho. Luísa ficou na sala vendo televisão, porém, não conseguia se concentrar em nada. Precisava tirar Rachel de sua mente.
- Eu preciso falar com ele. – murmurou para si mesma.
Luísa foi para o computador e abriu o seu e-mail na esperança de encontrar o namorado ali. Mas foi em vão, pois havia apenas uma mensagem deixada há sete horas. Luísa olhou para o quadro onde havia fotos dela e do namorado, sua vontade foi de chorar, mas ela já havia passado dessa fase e o problema agora era outro.
- Me perdoe pela demora, é que eu estava precisando de um bom banho. – disse Rachel chegando ao quarto com o cabelo ainda molhado e seu pijama de Super Herói.
Luísa se sentou em sua cama e com um olhar carinhoso acenou para que a amiga senta-se ao seu lado. Logo, Rachel estava sentada ao lado da menina com um olhar confuso.
- Desculpa por não ter levado a sério o que você disse, é que eu jamais poderia acreditar que era verdade. – disse Luísa olhando nos olhos da menina.
- Como assim? – perguntou Rachel.
- Sobre você se cortar... – ela olhou para o pulso da menina- e até mesmo se drogar. – disse a menina falando lentamente cada palavra.
- Eu não queria mentir para você, então contei a verdade. Mas não quero que se preocupe, porque eu gosto muito de você, e não quero que isso estrague tudo. – respondeu a menina flertando o chão.
- Rachel, isso não muda nada. – disse Luísa puxando o queixo da menina e lhe encarando. – Eu só quero te conhecer e...cuidar de você. – a menina agora flertava o chão.
- Você não quer isso. Talvez você queira agora porque seu namorado não está aqui e você precisa ocupar o seu tempo. – a menina olhava para a janela, não queria encarar a amiga.
- Não seja idiota. Eu só quero retribuir tudo o que você tem feito por mim nesses últimos dias. Você foi a única pessoa que conseguiu me fazer sorrir de verdade. – confessou Luísa.
- Luísa, eu fugi de casa quando tinha doze anos e vim morar com meus avôs. Eu fugi de casa porque meus pais brigavam desde o nascer do sol até o cair da noite e eu já não suportava isso. Em alguns dias não tínhamos comida e nem se quer luz elétrica ou água. Porque meu pai perdia todo o dinheiro que recebia em jogos de bilhar ou bebida. E minha mãe ficava chorando em casa, eu já não suportava mais isso, portanto, fugi de casa. Fiquei meses na estrada, pegando carona e dormindo em postos de gasolina até chegar aqui. Quando cheguei aqui prometi para mim mesma que apagaria tudo isso e construiria uma nova história. – disse Rachel olhando nos olhos de Luísa.
Luísa não conseguia pronunciar uma palavra, estava em choque. Ela não podia acreditar que aquela garota que já havia passado por todos esses tormentos ainda conseguia ser doce e ajudar os outros enquanto estava em pedaços.
- Por isso você se droga e se corta? – perguntou Luísa com a voz falhada.
- Eu venho tentando parar a um tempo, agora eu só faço isso quando estou me sentindo sozinha ou quando o passado bate a minha porta e eu não consigo mantê-la trancada. – a menina olhava para Luísa, seu olhar era frio e distante.
- Existe algo que eu possa fazer por você? – perguntou Luísa enquanto segurava a mão da garota.
- Você vem fazendo desde o dia em que falei com você. Você me fez esquecer boa parte dos meus problemas, me fez ver que nem tudo é tão ruim. Fez-me acreditar que talvez existam coisas que não se precisa comprar. – a menina deu um sorriso torto.
- Eu não sei quem é você, mas eu estou com você. – disse Luísa enquanto abraçava Rachel.
Rachel apenas respirou fundo e sentiu o cheiro do perfume da menina, era doce, muito doce. Seu cabelo também era macio e seu sorriso encantador. Não havia razão para ficar triste ao lado dela. Ela era o seu pote de ouro no fim do arco-íris
- Eu gosto de você. – sussurrou Rachel enquanto abraçava a menina.
- Eu também, muito. E não quero que você se perca outra vez, quando se sentir assim, me procure. Sempre estarei aqui para lhe dar a minha mão. – disse a menina olhando nos olhos de Rachel.
A noite logo chegou e após jantarem um Risoto de Frango feito por Luísa, as duas assistiram o clássico a Bela e a Fera, porém, Luísa pegou no sono antes do termino do filme. Rachel assistiu até o fim. A história era realmente algo encantador e até então desconhecida pela menina.
Rachel foi até a cozinha buscar um copo d’agua e quando voltou Luísa ainda estava dormindo. A menina dormia feito um bebê e ainda sorria. Rachel deu um beijo na bochecha da menina
- Durma bem e não se esqueça de suas palavras ao amanhecer. – sussurrou a menina, que em seguida adormeceu ao lado da menina.
Em um mundo onde só se viu ilusões e lágrimas espalhadas pelo chão, um sorriso é como um nascer do sol, um novo dia. Talvez não fosse a melhor escolha ou o mais sensato a se fazer, porém, era a razão do seu sorriso.