4. My Favorite Mistake
Toda a dor que eu não sentira no dia anterior pareceu se multiplicar no dia seguinte. Minhas costas estavam doloridas, meu pescoço ardia e, acima de tudo, meu braço quebrado em final de recuperação estava me matando. Quem quer tenha inventado “era como se todos os ossos do meu corpo tivessem sido quebrados” para descrever a Maldição Cruciatus o fez por um motivo.
A água quente escorrendo pela minha pele no banho foi extremamente bem-vinda, apesar do calor ameno. A temperatura por volta de seus vinte graus com vento frio e céu ensolarado me permitiu deixar de lado os sobretudos e casacos que gostava de usar frequentemente. Apesar disso, pensei em agasalhar Aria muito bem, ela era nova demais para se expor a qualquer tipo de vento, mas quando voltei para o quarto, ela já estava limpa, vestida e alimentada.
Draco estava à mesa – servida com um belo café-da-manhã – lendo o jornal trouxa. Ele não olhou para mim ou disse qualquer coisa quando tomei um lugar para mim.
- Muito gentil da sua parte pedir café-da-manhã. - disse, erguendo uma sobrancelha, desconfiada.
- Não se anime, Granger. - disse ele, virando lentamente a página do jornal. - Eu só não quero que te reconheçam. Essa é Londres, afinal.
- Muito bem pensado, Sherlock.
- Sher quem?
- Pensei que você estivesse atualizado em referências trouxas. - disse servindo-me de uma deliciosa panqueca de amora e café puro.
- Só com as coisas que interessam.
Não me preocupei em manter a conversa viva. Comi lendo o meu Profeta Diário, jornal esse que eu sabia que Draco iria reciclar para si próprio sem me dar um nuque pela assinatura.
- Preciso te mostrar uma coisa. - anunciou.
Draco virou-se e com aquele mesmo feitiço de projeção na parede, uma faca dourada e uma arma apareceram sobre a tinta clara.
- Item um: a faca que mata demônios.
Ergui uma sobrancelha.
- Quantas dessa existem no mundo?
- Não sei. Mas eu sei que se existe uma faca que mata demônios, ninguém precisa mais dela do que duas pessoas prestes a invadir o inferno.
- E a arma?
- O Colt. - disse, triunfante.
- Isso deveria me dizer alguma coisa?
- Talvez. O Colt é a única coisa que mata qualquer coisa da Criação.
- Qualquer coisa qualquer coisa?
- Dizem que há cinco exceções, mas demônios não é uma dela.
- Merlim existe. - brindei com meu café.
- Bom, não temos como pegar a colt... ainda... mas a coisa com a faca é mais fácil. Tem uma das sete unidades na cidade, só precisamos comprar.
Encarei-o.
- Na seção esportiva ou de laticínios?
Ele não me deu atenção.
- Você vai precisar ser convincente sobre como você tem visto capetinhas vermelhos e chifrudos pela vizinhança, ou não vão te vender.
- Eu não tenho visto capetinhas vermelhos chifrudos. E eu não tenho ideia de como funciona esse ramo. É melhor você ir.
- É óbvio que é melhor eu ir. - ele revirou os olhos, como se eu tivesse o insultado – Mas eu não posso. O mercado negro é comandado por criaturas rebeladas, mas não rebeladas o suficiente para vender alguma coisa assim para um caçador.
- Você sabe que a probabilidade de isso dar errado é enorme, não é?
- Temos que começar por algum lugar. Ter certeza de que a faca está com o rebelado local já é um avanço.
- Você reparou que desde que começamos a trabalhar juntos eu faço seu trabalho o tempo todo?
- É parte do treinamento, benzinho.
Dessa vez fui eu a revirar os olhos.
- Você ao menos vai me dizer onde fica esse lugar ou eu vou ter que checar no listão?
Ter o endereço em mãos não ajudou em nada. Eu não tinha ideia de onde aquele lugar ficava e tive que parar e pedir informação milhões de vezes. Ao encontrá-lo, respirei fundo, repassei minha história mentalmente e adentrei.
Não posso dizer que não fiquei surpresa com o que encontrei. Como nos filmes, eu esperava um lugar sujo e mal cuidado, coberto de objetos expostos para venda há anos e que ninguém queria, algo perto da Borgin & Burkes, mas aquele lugar não era nada como aquilo. A loja não era muito grande, mas era limpa, clara e muito organizada. Prateleiras estendiam-se por paredes creme e algumas mesas-prateleiras ocupavam o centro da loja, com artigos menos raros, imaginei. Um homem alto e surpreendentemente bonito me recebeu com um sorriso ameno.
- No que posso ajudá-la?
- Eu... eu... estou tendo problemas com demônios.
- Humm. - fez ele. - Entendo, senhorita, pode me dizer como foi que descobriu a loja?
- Vi no Facebook.
Ele me olhou, intrigado.
Amaldiçoei minha falta de talento para teatro.
- Qual o problema?
- Ahn... eu preciso de alguma coisa para... bem, demônios. Eles têm me perseguido. Eu sonho com eles o tempo todo, pele vermelha, chifres, rabos pontudos... eu estou aterrorizada, não consigo fazer mais nada! - exclamei três tons acima da minha voz normal.
- Posso ver. Bem, nós temos alguns amuletos que podem afastar todo o tipo de demô-
- Não. - interrompi, tentando parecer lunática. - Eles encontrarão um jeito de voltar. Preciso de algo mais... eficaz. Banir, matar, algo assim..!
- Desculpe-me, mas demônios não podem ser mortos.
- Mas... mas... me falaram sobre uma faca que mata demônios. - Twitter. - sussurrei, tentando novamente soar lunática.
- Desculpe-me, não tenho nada do tipo.
- Oh, eu compreendo. Mas... se o senhor arrumar algo, tenho, tenho como ficar sabendo?
- Não. Sinto muito. Não oferecemos serviços online. - ele sorriu, afetado.
Agradeci com um sorriso amarelo e me virei para ir embora.
Eu tinha certeza que ele não estava me contando tudo o que sabia. Que mentira mais estúpida também. Facebook? Twitter? Só podia ser coisa de Draco Malfoy. É claro que minha péssima atuação e meu diálogo limitado não haviam ajudado muito também.
Virei-me para sair, mas simplesmente não conseguia me fazer ir embora sem tentar mais nada. O tempo estava passando e não estávamos chegando a lugar algum. Exceto que agora eu sabia usar uma arma de fogo.
- Accio Ruby. - murmurei baixinho pondo apenas a ponta da varinha para fora.
Milagrosamente um objeto leve e frio veio para a minha mão.
- Ora, ora. - disse o homem, já não tão simpático. - Uma bruxa.
- Entenda, moço, eu... preciso disso. Estou ficando atormentada já. - insisti na mentira.
- Não está à venda.
- Eu não me importo com o preço.
- Não está à venda para caçadores.
Gelei.
- Escute, eu não -
Mas ele já tinha vindo para cima de mim e blá, blá, blá.
- Eu não quero bagunça na minha loja, então eu terei que te matar rápido, Weasley.
Não tive tempo o suficiente para ficar chocada por ele ter me confundido com Gina Weasley, porque a ameaça de morte era mais urgente. A faca não precisava que o demônio estivesse em um corpo humano para matá-lo, mas se estivesse, ela faria o mesmo serviço, mas não sem levar o humano possuído junto. Eu havia passado por muitas coisas na vida, mas eu não estava preparada para matar uma pessoa inocente e indefesa.
Passei a mão pelo cesto de amuletos sobre uma das mesas e atirei um punhado sobre o homem. Isso só o atrasou por meio segundo, mas foi tempo o suficiente para eu puxar minha garrafinha de água benta da bolsa. Ele gritou, ferido, quando o líquido o atingiu enquanto eu puxava meu terço e minha Bíblia para fora.
Não é qualquer pessoa que pode mandar um demônio de volta para o inferno, mas mesmo os que conseguem, não o fazem sozinhos. É preciso canalizar alguma fonte santa de poder antes de qualquer coisa. Uma Bíblia e um terço bento eram o suficiente, aprendi. Meu único problema, portanto, era que eu nunca havia performado um exorcismo na minha vida.
Não tive tempo nem para respirar fundo antes de pronunciar firmemente as palavras do rito. Ele era longo e eu não podia dar brechas. Latim não era meu ponto forte, mas eu descobrira que era melhor do que o Malfoy. Minha única vantagem, infelizmente.
- In nomine Patris omnipotentis, amantissimus Filius Dei, Spiritu Sancto, ex Maria Virgine dulcedo, et virtus Domini sanctae ecclesiae...
Como eu sabia que aconteceria, as luzes do lugar piscaram, as portas e janelas bateram, os papéis voaram e o homem começou a se contorcer. Tentei deixar as ameaças desconexas como “rasgar você” que ele proferia como podia fora do caminho. Apertei tanto o terço na minha mão – tanto implorando proteção divina quanto canalizando o máximo de poder que eu podia – que chegou a doer.
Quando tudo acabou, me deixei cair no chão, tonta e cansada.
Não tive muito tempo para descansar, porque havia um humano provavelmente ferido à minha frente. Corri até ele, rezando baixinho para que ele não tivesse uns ossos quebrados ou hemorragia interna.
- Você está bem?
- Obrigado! Obrigado! Obrigado, Senhor! - exclamou ele, agarrando-me pelos ombros e distribuindo beijos nas minhas bochechas.
- Vou levar isso como um “sim” - sibilei, desnorteada.
- Eu lembro de cada coisa que aquela... coisa fez, com o meu corpo! Foram anos, anos da minha vida! Você me libertou, obrigado!
- Qual o seu nome?
- Rick Donnovan.
- Sr. Donnovan, se eu fosse o senhor... estaria a quilômetros de distância daqui. Não vai demorar muito até alguém chegar.
- Você tem toda a razão. Eu vou sumir, nunca mais volto nessa merda de cidade! Obrigado de novo.
- Hey, Sr. Donnovan!
- Hum?
Fui até o balcão de atendimento e peguei uma das grandes sacolas. Pedi para ele segurar para mim enquanto eu esvaziava os cestos de artigos simples para ele.
- Leve isso. Por garantia. - sorri, nervosa. - E procure um terapeuta.
- Obrigado. - ele acenou.
Olá mundo, essa é Hermione Jane Granger, salvando o dia desde Julho de 2008.
- Você o quê?
- Não se faça de retardado, Malfoy.
- Porra, Hermione! O que aconteceu com “se não der certo, apenas descubra se a faca realmente está lá”?
- Nós precisamos daquela faca. Gina depende de nós.
- Você acha que eu não sei disso?
- Eu fiz o que eu tinha que fazer.
- É, e agora estamos fodidos.
- Não estou entendendo o que eu fiz de errado.
- Você exorcizou um demônio rebelado!
- Você exorcizava demônios o tempo todo!
- Eu não pretendia invadir o inferno, Granger. Demônios rebelados fogem do inferno, literalmente, como o diabo foge da cruz. Todos os demônios sofrem no inferno, mas demônios rebelados... eles servem de saco de porrada para os outros! Ele virá atrás de você, ele provavelmente vai descobrir quem é você, ele vai descobrir que você está trabalhando comigo! Nós vamos perder o elemento surpresa! Além disso, à essa altura, alguém já deve ter assumido o cargo da loja, e esses também virão atrás de você! Nós temos que sair daqui, agora!
- Draco – comecei.
- Eu não estou exagerando, acredite.
Eu o encarei, aturdida. Para mim, realmente parecia uma implicância boba ou algo do tipo. Eu não fiz nada do que ele não vinha fazendo há quase dez anos. Não acreditava que o efeito pudesse ser tão catastrófico assim.
Mas Draco acreditava. Enquanto eu o observava, ainda surpresa demais para retrucar alguma coisa, ele reunia magicamente todas as suas coisas e de Aria, pronto para seguir em frente.
- Você está me deixando, é isso? - perguntei, percebendo o que ele estava fazendo.
- É o que eu deveria fazer. Você fez merda, Granger.
Eu o encarei, ainda boquiaberta demais para retrucar.
- É claro que não estou te deixando. Eu sou um caçador, eu protejo as pessoas. E sem mim você não sobreviveria cinco minutos.
- Ótima confiança nas suas habilidades didáticas, Malfoy. - falei, com azedume.
- Não é nos meus ensinamentos que não confio, é na sua falta de habilidades como caçadora.
- Hey! - protestei, realmente ofendida. - Eu posso ser uma excelente caçadora, ok? Eu lutei na Guerra Bruxa, isso quer dizer alguma coisa!
Draco não teve tempo para me insultar mais um pouco em resposta porque a campainha tocou. Revirei os olhos quando ele sacou um revólver de balas de ferro e o preparou para ser usado.
- Pelo amor de Deus! - resmunguei.
Não pude deixar de ficar apreensiva e contrair meus músculos ao marchar até a porta tentando fingir que não havia nenhum tipo de preocupação. Quase caí para trás quando vi meus dois melhores amigos do outro lado da porta.
Normalmente Harry Potter e Rony Weasley não invadiriam o quarto de hotel dos outros dessa maneira, mas foi o que eles fizeram.
Antes mesmo de eu terminar de fechar a porta, escutei protestos e um início de briga atrás de mim. Me virei imediatamente para encontrar os dois recém-chegados pingando água dos cabelos.
- Ele ficou louco? - bradou Ron, muito perto de pegar sua varinha e acertar velhas contas de colégio.
- Eu tinha que testá-los. - justificou Malfoy, claramente satisfeito com a situação.
- É com ele que você fugiu, Hermione? - exclamou Ron mais uma vez.
- É claro que eles não são demônios. São meus melhores amigos! - o ignorei.
- Você também era melhor amiga de alguém!
Suspirei, engolindo a resposta. Eu tinha coisas mais urgentes para tratar do que Draco Malfoy.
- O que diabos vocês dois estão fazendo aqui?
- Desculpe Mione, - começou Harry, só um pouco mais simpático do que Ron – mas o que você está fazendo aqui?
- COM ELE! - Ron fez questão de acrescentar.
- Harry... Ron... desculpem, é assunto confidencial.
- Desde quando há assuntos confidenciais entre nós três, Mione? - disse Harry, levemente magoado.
- É só que se as pessoas erradas tiverem certas... hum, informações... pode ser muito prejudicial.
- Não estou entendendo nada! - disparou Ron, ainda furioso.
Levantei-me com um sorriso pequeno e apontei a varinha para cada um de meus amigos, aparentemente ninguém tinha pensado em se secar depois do banho de água benta de Draco.
- Obrigado! - balbuciaram Ron e Harry juntos.
- Eu mereço. - Draco chamou a atenção para si novamente, revirando os olhos e movendo os braços teatralmente. - Vou dar o fora desse lugar, é muita DR pro meu gosto.
- Nos vemos por aí, Malfoy. - disse Harry, aparentemente tentando ser educado.
- Eu espero que não, Santo Potter. - respondeu Draco, azedo, lembrando muito o garoto babaca que fora em Hogwarts muitos anos atrás. - Você sabe onde me encontrar, Granger. - continuou, colocando Aria no canguru e apanhando as malas deles.
- Hermione, - começou Harry, espantado – quem é esse bebê?
- NÃO ME DIGA QUE VOCÊ TEVE UM FILHO COM ELE! - exclamou Ron.
- Granger. - disse Draco, em tom de aviso, antes de nos deixar.
- É, Granger, estamos esperando. - disse Ron, irônico.
Sentei-me novamente à mesa, massageando minhas têmporas.
- O que diabos vocês dois estão fazendo aqui? - repeti.
- Eu coloquei metade dos meus subordinados atrás de você, Hermione. - explicou Harry, já calmo. - Você sumiu... deixou uma carta completamente vaga... você não achou realmente que não iríamos te procurar, achou? Isso insultaria sua inteligência.
Sorri, com o quase-elogio.
- Eu só achei que vocês não fossem me encontrar.
- Que tal sairmos pra almoçar juntos e a gente conversa?
- Eu adoraria, - disse, triste, sabendo que se Draco não estivesse exagerando como eu imaginava, não podia arriscar a vida dos dois. - mas não posso.
- Por quê?
- É complicado.
- Hermione... talvez possamos ajudar. Por favor, nos conte.
- Eu agradeço, Ron. De verdade. Harry, você também. Vocês me rastrearam... vieram até aqui... é muito bom saber que vocês se importam, mas a única pessoa que pode me ajudar é Draco Malfoy.
- Por que, Mione? - insistiu Ron, aborrecido. - Que tipo de ligação você tem com ele? Aquele bebê não é filho de vocês, é?
- Não. - me esforcei para não complementar com um “é filha da sua irmã. Ah, onde ela está? No inferno, literalmente.”
- Então..?
- Desculpem. - continuei. - Eu não posso dizer nada. É por uma causa maior. - sorri com meu próprio argumento estúpido. - Se tudo der certo... prometo que explico tudo. Mas agora é melhor pra todo mundo vocês ficarem longe, e sem saber de nada.
- Nós lutamos uma guerra juntos! - argumentou Ron, visivelmente triste.
- Exato. - concordou Harry. - Como algo pode ser mais sério do que isso? Como não podemos retribuir agora que temos a chance?
- Você não me deve nada. - afirmei. - Vocês dois têm mulheres, e logo mais terão filhos. Vocês têm uma vida para voltar para. Por favor, se vocês querem me ajudar, me deixem ir. Não me procurem. Por favor.
- Eu não concordo com isso! - exclamou Ron, voltando ao tom bobo do início que tanto me encantava.
Harry concordou com ele.
- Eu vou ter que azarar os dois, é? Perdi a paciência. u_ú
- Hermione!
Sorri.
Sorriram.
Rimos.
Gargalhamos.
- Eu amo vocês. - disse, por fim. - Mas nós realmente precisamos ir. Para lugares diferentes, Ronald. - acrescentei antes que ele começasse a pronunciar as palavras de vitória.
Fui até cada um e abracei e beijei ambos. No fim, demos um meloso e sincero abraço coletivo.
- Está bem. - disse Harry, resignado. - Mas você tem que prometer se você precisar de alguma coisa... qualquer coisa...
- E se vocês puderem ajudar, principalmente, - interrompi – sim, eu procuro vocês.
- Negócio fechado.
- Ok, temos que ir. Vocês primeiro.
- Mas...
- Harry!
- Ok, ok. Se cuida!
- Mione...
- Vão! - sorri, tentando parecer confiante.
O problema em intervenções como essa, é que quando elas não dão em absolutamente nada, uma sensação insuportável de despedida toma o lugar da saudade e da preocupação.
Passei os olhos pelo lugar, repentinamente desolada.
Na pressa em sair dali, Draco acabara esquecendo uma chupeta de Aria. Olhar o objeto me trouxe um aperto no peito ainda maior. Será que eu realmente havia colocado todos nós em um perigo maior do que já estávamos? Se acontecesse algo a mais alguém por culpa minha, eu jamais iria me perdoar. Especialmente se esse alguém fosse Aria.
Draco não havia pago a conta, então eu tive que sacar algum dinheiro – imagem só – da minha poupança trouxa para arcar com as despesas sem deixar rastros. Eu podia imaginar o azedume na voz do Malfoy ao dizer algo como “ao menos isso você fez certo”.
Maldita lombriga albina.
Assim que me vi livre do motel, tentei localizá-lo. “Você sabe onde me encontrar”, onde aquele animal esperava que eu fosse? O único lugar fixo que estivemos juntos várias vezes fora a Mansão Malfoy, mas ele não era burro – ou pouco psicótico – o suficiente para ir a um lugar tão óbvio, se ele achava mesmo que havia todo tipo de criatura rebelde atrás particularmente de nós dois agora.
O Motorola V3 rosa-choque – escolhido por ele, obviamente – me irritou assim que o apanhei no fundo da minha bolsa. Ele era a atual moda adolescente idiota e o animal albino jamais perderia uma chance de me estressar. Ou de demonstrar como ele não me suportava.
Quase tive uma crise nervosa quando a mensagem da caixa postal me recebeu “Você não deveria ter esse número. Algo está muito errado. Deixe seu recado e quem sabe você consiga um horário comigo, docinho”. Tão, tão irritante. Não sei o que mais: ele não me atender ou a mensagem estúpida da caixa postal.
- Onde você está? Eu não tenho ideia de onde te encontrar! ME ACHE. - quase gritei com o aparelho. - Idiota! - acrescentei, antes de desligar rapidamente como se ele pudesse estar escutando escondido e vir me xingar de volta.
Olhei ao redor, aturdida. Eu não tinha para onde ir e nem sequer as minhas coisas. Apenas uma bolsa com algumas armas anti-criaturas sobrenaturais, minha varinha, algum dinheiro, maquiagem... e um bom livro.
O sol nem tinha terminado de descer todo, mas a única opção atrativa ao meu redor era um bar. Um pub, ou sei lá o quê. Não era um restaurante, tampouco uma danceteria. Entrei, me acomodei no balcão e não demorou para o garçom simpático vir falar comigo.
- Chá da tarde ou jantar? - ele perguntou, sorrindo.
- Bebida.
- Eu não quero me meter, mas -
- Então não se meta.
Ele me olhou, estarrecido, a simpatia se esvaindo automaticamente.
- Desculpe. - disse, depressa. - A culpa não é sua. Está muito cedo, eu sei. Pode me trazer uma batida sem álcool.
- Ok. - disse ele, recuperando a boa vontade. - Por conta da casa.
- Pensei que fosse muito cedo. - murmurei, observando o copinho de álcool que ele colocara na minha frente.
- E é. Mas o dia foi difícil, certo?
- Vida difícil. - murmurei baixinho antes de virar a bebida.
… e engasgar, pateticamente, e quase cair da banqueta.
- Acho que vou ficar só com aquela batida. - falei, vencida e envergonhada.
Ele apenas sorriu, indo buscar meu pedido.
As horas passaram e Draco – ou mesmo as criaturas vingadoras que ele prometeu que viriam atrás de mim – deram sinal de vida. Eu tomei tantas batidas sem álcool que provavelmente já estava tão bêbada de açúcar quanto ficaria com bebida.
Quando abri aquela tampa rosa ridícula para verificar pela milésima vez que não havia nenhuma ligação ou torpedo novos, e que meu sinal estava funcionando perfeitamente, uma voz feminina me chamou de volta à terra.
- Namorado desaparecido?
- Quem me dera.
- Chefe chato?
- Quem me dera.
- Problemas com a operadora?
- Você pode chutar a noite toda, - respondi, sorrindo – mas nunca vai conseguir sequer se aproximar do tamanho da loucura.
- Eu consegui te fazer sorrir. Já é um começo.
Sorri mais uma vez.
- Engraçado como esse comentário sempre tira um segundo sorriso das pessoas.
- Meio que é a intenção. - ela continuou. - Bo Silk.
- Her-Helena Cox.
- Posso te pagar um drink, Helena?
Eu a olhei por meio segundo. Cabelo castanho, mediano e encaracolado caía por sua pele apenas um tom mais clara que chocolate. Os olhos eram de um verde amarronzado ou vice-versa e a boca e nariz eram finos. O corpo era ainda mais maravilhoso do que o rosto, sem economia em cada curva, do tipo que deixa qualquer pessoa atordoada. Ela parecia ter mais ou menos a minha idade ou pouca coisa coisa a menos. Ela era tão, tão bonita.
E ela queria me pagar uma bebida.
Não pude deixar de rir.
Ela me olhou, não sei se mais curiosa ou mais ofendida.
- Desculpe. Não sei o que há de errado comigo hoje. - suspirei, tentando voltar à mim. - É só que foi um dia realmente longo. Eu acho que vou querer essa bebida... se ainda.. hum, estiver valendo.
Ela sorriu, ainda interessada, mas não tanto quanto antes.
- Isso é gostoso. - sentenciei quando as bebidas que ela escolhera chegaram.
- Notei que você gosta de bebidas doces.
- Você notou que eu bebi uma batida de cada sabor do menu? - murmurei, envergonhada.
- Na verdade algumas foram duas. Outras três.
- Pronta para sair correndo?
- Você está? - ela disse segurando minha mão, delicadamente.
Um arrepio elétrico – do tipo dos gostosos – fez os pelos da minha nuca se eriçarem mais do que deveriam para um contato tão inocente.
Quarenta minutos depois – sem exagero – eu estava entrando numa loja de joias do outro lado da rua seguindo aquela desconhecida absurdamente linda e charmosa. Talvez eu realmente tenha ficado bêbada de açúcar ou aquelas duas bebidas tinham um teor alcoólico superior ao que eu imaginava. Ou as duas coisas. Ou nenhuma. Eu estava há quase um ano sem sexo, afinal de contas.
Assim que chegamos ao escritório de Bo, ela me prensou na porta. Eu não me fiz de pudorosa e retribuí com desejo seus beijos enlouquecedores. Gemi baixinho quando seus lábios chegaram – e como chegaram rápido – na parte dos meus seios que o sutiã não escondia por trás da blusa toda aberta.
Interpretando meus suspiros como um pedido para ir mais longe – e não estando enganada – Bo me empurrou para a mesa, varrendo todos os itens de escritório sobre ela ao chão.
Retirar nossas roupas se provou uma tarefa de extrema dificuldade. Ou apenas eu que estava sem prática, depois de quase um ano de celibato, como uma vozinha amarga no fundo da minha mente me fez questão de lembras, mas quando o corpo dela totalmente nu entrou em meu campo de visão, eu quase tive um orgasmo só por isso mesmo. Sério.
Se perfeição não existe, Bo Silk com certeza é quem chega mais perto.
Parecendo adivinhar meu pensamento, com um sorriso ela voltou para os meus lábios enquanto uma das mãos encontrava meu seio direito e a outra fez a curva da minha cintura e quadril até o meio das minhas pernas lenta, suave e lascivamente.
O gemido veio baixinho novamente quando seus dedos aparentemente experientes encontraram meu sexo, mas ela não continuou. Bo afastou-se apenas o suficiente para me examinar, mas foi o suficiente para irritar a minha fome, que protestou, indignada, com uma pulsação no meu clitóris.
- O que é você?
- Quê? - perguntei, sem entender absolutamente nada.
- O que você é? - ela repetiu, ainda no mesmo tom divertido.
- Você não está fazendo nenhum sentido.
- Eu não consigo sentir sua energia vital. - explicou - Mas eu sinto sua energia e cheiro... você é humana. Por que eu não consigo sentir sua energia vital então?
Não sei o que me dominou primeiro: nojo, choque ou horror.
Todas as minhas armas sobrenaturais estavam dentro da minha bolsa, caída perto da porta. Sempre o mesmo erro. Eu estava nua e completamente vulnerável. Contando com a sorte, pulei da mesa, aproveitando o movimento para chutar Bo. É claro que isso não a machucou, mas serviu de distração por um precioso momento que eu precisava para chegar até meu revólver com balas de prata.
- O que você é? - exigi, apontando a arma para ela.
- Você sabe mesmo como brochar uma garota.
- Balas de ferro. Responda a pergunta.
Ela me olhou, finalmente surpresa, mas ainda com divertimento.
- Uma caçadora? Sério, Helena? Se é que esse é mesmo o seu nome. - ela se aproximou, sorrindo. - Eu sou uma súcubo.
- Merda. - não pude evitar o palavrão.
Tentei ignorar todas as perguntas sobre mim que ela começou a fazer e apanhar minhas roupas o mais rápido que pude. Não tinha fechado nem o sutiã ainda quando ela interrompeu.
- Por que você está se vestindo?
- Você não disse que o clima acabou?
- Eu sou uma súcubo, Helena. - ela me prensou na parede mais uma vez. - O clima sempre pode voltar.
- Eu tenho uma arma encostada no seu peito. Se você fizer qualquer coisa -
- Balas de ferro não me matam.
- É claro que -
E então ela estava me beijando. Um beijo muito diferente de todos os que ela me dera até então. Sua língua dominava a minha – como antes – mas de um modo diferente, mais profundo. Sua boca trabalhava menos urgente, mais lenta e... muito mais excitante. A única coisa que me impediu de não resistir a tentação e me entregar foi que eu me lembrava muito bem o que uma súcubo fazia, as pessoas inocentes que ela machucava.
Interrompi o beijo com um tiro. Mais dramático, impossível.
Ela se afastou, mais irritada do que ferida, e eu corri até minhas roupas jogadas por todo o cômodo, vestindo-me o mais rápido que pude, torcendo para que pudesse sair dali antes que seu ferimento se curasse sozinho. Não calcei meus sapatos nem fechei os botões da calça, mas tentei sair do mesmo jeito.
- Já vai, Hermione Granger?
Me virei, surtando.
Era esse o ataque que Draco previra contra mim, então?
- Do que você está falando?
- Por favor, não me subestime. Eu não consigo sentir sua energia vital, mas ao te beijar tentando te ler como imortal... você é uma ex-imortal. Como isso pôde acontecer? Você também era uma súcubo. Eu nunca conheci alguém que deixou de ser uma súcubo antes!
- Há uma cura. - murmurei, sentimentos de pena, imaginando o que aquela garota tão bonita havia feito para merecer aquela maldição. Provavelmente nada, como eu.
- Não é uma doença, Hermione.
Bo, já completamente curada e limpa, sentou-se na mesa onde estivéramos há poucos minutos e cruzou as pernas, dando-me seu melhor sorriso sedutor. Tive que fazer um esforço grande para não manter meus olhos em seu corpo perfeito.
- Você ficou imune ao poder do súcubo.
- Quê?
- Eu não posso tirar sua energia vital. Mas eu sempre tenho outras maneiras de te matar, você sabe.
- Você está dormindo. Eu posso te ajudar, acordada. Você ainda é humana em algum lugar aí dentro.
Ela apenas gargalhou.
- Então era esse o tipo de súcubo que você era? Que pena. Bem, eu não sou esse tipo de súcubo. Eu não sou resultado de nenhum ritual fracassado, muito menos um monstro descontrolado que devora pessoas quando sua parte humana dorme. Sou como um vampiro. Ainda sou eu, completamente eu, mas como o vampiro bebe sangue... eu me alimento de energia vital. Mas durante o dia tenho um emprego fixo como professora de dança em uma academia e gosto de tomar sorvete de flocos. E também ninguém morre por minha causa.
- Existem tipos de súcubo? Mais de um tipo?
- Você fez seu curso de caçadora à distância?
- Não pedi sua opinião! - esbravejei. Por que todo mundo resolveu questionar minhas habilidades de aprendizado? Eu podia ser uma ótima caçadora se quisesse! - Por que você está me contando tudo isso?
- Porque você não pode me matar. Somente meus superiores podem, e eles estão muito satisfeitos com meu trabalho. Além disso, você é muito interessante. Quero saber mais sobre você.
- Eu estou indo embora. - me virei para a porta.
- Por que você tem que estragar a diversão? - ela protestou, aborrecida. - Você não vai à lugar algum. - ergueu a chave, com um sorriso vitorioso. - Vem pegar. - completou descruzando as pernas, tentadoramente.
Revirei os olhos já pronunciando o encantamento. Alohomora era tão, tão básico e sempre tão, tão útil.
- Oh meu Deus, você além de tudo é uma bruxa! - ela exclamou, num tom ainda mais excitado – sem trocadilhos – vindo atrás de mim por sua sofisticada loja de joias não tão raras.
- Você está nua, pelo amor de Deus!
- Mas você prefere assim, não prefere?
Desaparatei, provavelmente para seu completo aborrecimento.
Aparentemente eu havia me tornado imune ao poder de súcubos, mas também inapta a sair na rua sem encontrar alguma criatura do inferno – e de fazer alguma bobagem com ela. Eu precisava ir para casa. Esse dia precisava acabar. Rápido. Urgentemente.
Vasculhei minha mente mais uma vez, na esperança de ter algum tipo de iluminação e finalmente entender do que Draco Malfoy estava falando quando disse que eu saberia onde encontrá-lo. Fechei os olhos, perplexa com a falta de vergonha na cara de Draco ao pensar em um lugar. Se ele não estivesse por lá, ao menos era seguro.
- Porra, Granger. Onde você se enfiou?
- Whiles, filho da puta? - limitei-me a dizer.
Além do segundo palavrão da noite, não pedi licença para entrar. A educação de Hermione Granger não era mais a mesma.
Eu queria socar Draco, azará-lo, ou menos xingá-lo mais um pouco, mas eu ia me contentar com uma boa noite de sono.
- Onde está a Aria?
- Com a Jo.
- Ela é tão confiável assim? - perguntei. Somente Aria para me fazer estender a conversa mesmo.
- Sim. Gina confiava, pelo menos. Nós três fizemos algumas coisas interessantes juntos. - explicou com um sorrisinho indecente.
- Informação demais. - murmurei, enojada.
Ele me deu outro sorrisinho convencido.
- Nojento. - completei.
- Você pode ir buscar ela?
- Claro que não. Eu acabei de chegar... e tive um dia horrível.
- Eu estou ocupado.
Só então passei os olhos pelo lugar. Draco acabara de se sentar em uma grande poltrona em frente a uma televisão ligada num canal esportivo que transmitia uma espécie de top com as melhores capturas de pomo de ouro. Uma garrafa vazia de conhaque jazia ao lado da poltrona e uma outra mal começada na mão do próprio. Como de uma noite quente com uma mulher lindíssima eu vim parar aqui?
- Você bebeu uma garrafa inteira de conhaque?
- É claro que não. Já estava pra lá da metade.
- Você está bêbado. - acusei, indignada.
- Não, só ocupado. Às vezes você deveria experimentar beber algo proibido para menores de 21.
- Se eu não tivesse bebido hoje, o fim do meu dia teria sido outro.
- O que houve, Granger?
- Não é da sua conta.
- Você andou bebendo? Hihihi.
- Dois drinks. E foram o suficiente.
- É exatamente por isso que você precisa de uma bebida. - falou enchendo um copo e empurrando-o pela mesa para mim.
- Por favor, não seja ridículo, eu não vou beber com você.
- Tudo bem. - ele ergueu o próprio copo e bebeu, talvez imaginando que estava me fazendo inveja. - Vai lá ficar rolando na cama por horas sendo atormentada pelos seus problemas e seu dia de merda, súcubo.
Ele tinha razão. Para o meu completo horror, ele tinha total e completa razão.
Rezando mentalmente para que eu não me arrependesse, peguei o copo e virei o mais rápido que pude. Velocidade Hermione Granger, é claro. Dessa vez, não engasguei, mas a sensação inicial também não foi boa, mas eu sabia que depois do segundo copo isso mudaria.
- Como você não é nem um pouco mais legal bêbado? Nem menos convencido ou idiota?
Ele deu mais um daqueles sorrisinhos infernais.
- É só porque você não está bêbada.
Não sorri.
Estendi meu copo para ele, que o encheu mais uma vez prontamente.
Se algumas batidas sem álcool podiam ter estragado a minha noite daquela forma, duvido muito que algumas doses de conhaque pudessem fazer algo pior.
Até a Lei de Murphy tem que ter algumas exceções. Ou assim gostamos de pensar...
Não sei se foi o sol forte no meu rosto ou o gosto amargo horrível na minha boca que me despertou. Tentei levantar minha cabeça, mas uma pontada forte me fez soltar um ruído baixinho. Reuni as forças necessárias para me erguer e abrir os olhos, tirando o cabelo – particularmente bagunçado, notei de cara – do rosto. Quase gritei de pânico com a cena ao meu redor. A cama de casal do quarto não havia sido transfigurada em duas de solteiro, como geralmente, e o mesmo lençol envolvia a mim e um corpo masculino descamisado. Olhei-o, aturdida, e então reconheci Draco Malfoy desmaiado ao meu lado. Desesperada, ergui o lençol por cima de mim apenas para me deparar com minhas pernas enroscadas com as dele e ambos os corpos totalmente livres de qualquer tecido.
…mas algumas coisas simplesmente temos que aprender de novo, de novo, e mais uma vez.
N/A: Oi leitoras inexistentes *-*
Primeiro de tudo: NÃO ME BATAM PELOAMORDEDEUS D:
Essa última cena aí foi inspirada na última cena do episódio Scars And Souvenirs da minha eterna influência, Grey's Anatomy <3 E o Colt e a faca são artefatos existentes em Supernatural. Normalmente eu só falo de todas as influências no final da fic, mas agora tem essa lei de plágio no FeB e vai que algum doido me denuncia né -q
Ah, sobre o rito de exorcismo lá em cima... eu não sou nem louca de ir atrás de um exorcismo de verdade né kk DEUS ME LIVRE, GUARDE, PROTEJA E ILUMINE, AMÉM. Então joguei no Google Tradutor uma frase religiosa em Latim e THAT'S IT. FIM DE PAPO. KKK credo.
Enfim, esse capítulo demorou um pouco mais do que o previsto, mas prometo que vou manter essa frequência de, no máximo, um capítulo a cada dez dias, viu? Vou sim terminar essa fanfic até o final do ano. #OREMOS
Comentários, por favor? *-*
kisses from hell -n