2. Bloody Mary
- Sangue de homem-morto.
- Vampiros.
- Água benta.
- Demônios.
- Ferro.
- Espíritos.
- Prata.
- Metamorfos.
- Nerd do caralho. - Apesar do elogio, fechei a cara com o palavrão. - Não foi um elogio. - acrescentou como se tivesse lido minha mente.
- Eu sou uma excelente aluna. - sorri, satisfeita.
- Não seja convencida, Granger, você ainda tem muito a aprender.
- Pode mandar.
- Me dê um soco.
- Quê?
- Pode acontecer de você ter que dar alguns golpes de luta física pra escapar de alguns tipos de criaturas. Você precisa treinar.
- Ok.
- Ponha seu peso no soco e não precisa ter medo de me machucar, é importante você trei- PORRA GRANGER! - berrou ele com o belo soco que eu consegui acertar.
- Olha o que você fez! - ralhei assim que o choro alto invadiu o lugar.
Caminhei até o cesto de bebê e peguei minha afilhada, ou seja lá o que Aria fosse minha. Bem, certamente não havia tido nenhum batizado de fato, no entanto, a minha relação com a menina não era outra que não de mãe e filha, embora ela não tivesse uma gota do meu sangue.
Há aproximadamente um ano, o pai e a mãe de Aria tinham sido designados para resolver um caso sobrenatural que estava aterrorizando – e assassinando, diga-se de passagem – os moradores do povoado de Hogsmeade e do castelo de Hogwarts – escola onde eu até então dava aulas. - e durante o trabalho os dois acabaram se envolvendo em um relacionamento e ela ficou grávida. A questão é que acabou que eu era a ameaça sobrenatural e, para me salvar, Gina teve de fazer um sacrifício, ato esse que resultou na condenação de sua alma, levando-a ao inferno. Literalmente.
Gina não era apenas a minha libertadora, ela também era minha ex-cunhada, ex-namorada do meu melhor amigo, minha amiga de infância e, recentemente, a mulher que eu amava. Ou achava que amava. Enfim, não importa, todo o resto, além de ser minha culpa Aria ter ficado orfã de mãe, já era suficiente para me fazer tomar a decisão de perseguir Draco Malfoy até que ele aceitasse minha ajuda. Ou me ajudar, pra falar a verdade. Então agora estávamos nos preparando para resgatar Gina, o que consistia basicamente em invadir o inferno, encontrar a alma de Gina, e sairmos todos de lá vivos.
- Você está pronta. - disse Draco assim que Aria estava no meu colo.
- Posso escolher? - perguntei, simplesmente.
- Na verdade, eu já escolhi.
- Você sabia que eu ia passar no teste?
- É claro. Como eu disse, nerd do caralho.
Lancei-lhe um olhar repreendedor.
- Não fale palavrão na frente da menina! - ralhei.
- Deixa de frescura, Granger, ela não entende nada.
- Você é uma péssima influência para uma criança. - acusei.
- Diz a súcubo devoradora de garotinhos.
Ruborizei imediatamente.
Como eu disse, para surpresa de todos, inclusive minha própria, havíamos descoberto que eu era a ameaça em Hogwarts. Eu era uma súcubo. Súcubos são monstros nojentos que estupram – estuprar não é bem a palavra já que todos os homens se voluntariam sem saber das consequências posteriores, mas vamos deixar nesse termo – homens e, durante o sexo, alimentam-se da energia vital deles, levando-os ao óbito. E, a parte mais nojenta de todas, devoram os restos mortais dos mesmos. O problema é que eu levava uma vida quase que completamente normal durante o dia e quando eu dormia, a maldição aparecia e eu saía para as atividades de súcubo. Quando descobri o que havia me tornado, tentei me matar, mas Gina não só salvou minha vida como também sacrificou-se para me livrar da maldição. Draco adorava fazer piadinhas sem graça com isso porque sabia o quão irritada e envergonhada eu ficava.
- Você vai ficar aí fazendo piadas sem graça ou vai me contar sobre o que tenho que fazer?
- Você não, súcubo. - disse ele balançando a cabeça negativamente. Dei-lhe outro olhar letal. - Nós. Você pode até ser a corvinal perdida, mas quando se trata de combate físico não estou tão confiante quanto a suas habilidades.
- Eu sabia que eu não ia conseguir me ver livre de você tão fácil. - murmurei, ainda gingando Aria em meus braços, tentando acalmá-la.
Ele esticou-se na poltrona preguiçosamente, estralou os dedos e voltou a me encarar. Apontou a varinha para a tela do notebook e depois para a parede. As imagens que apareciam nas notícias que ele havia selecionado projetaram-se magicamente para a parede bege-claro do quarto. Eram três fotos do mesmo jornal, apenas em dias diferentes, nada que me chamasse a atenção.
- Três notas no obituário, é isso? - perguntei, cética.
- Não são as mortes. São as causas. - disse Draco, impaciente.
- Estou ouvindo.
- No mísero prazo de duas semanas, essas três pessoas – falou apontando dramaticamente para cada uma das notinhas na parede – foram mortas com seus olhos arrancados.
- Literalmente arrancados?
- Sim. Os olhos sumiram, desapareceram.
- Oh meu Deus. - disse devolvendo Aria perfeitamente adormecida para o cesto.
- O que você faz agora?
- Olho os padrões?
- É, é.
Dei dois passos para frente a fim de examinar as imagens projetadas na parede detalhadamente.
- Profissões diferentes, sexos diferentes, idades diferentes, vizinhanças diferentes. Não consigo achar uma conexão.
- Nem eu. - disse Draco como se aquilo fosse algum avanço. - Temos que ir até lá. Um dos enterros é amanhã.
- E a Aria?
- Ela vai junto, oras. Até descobrirmos se há realmente alguma coisa sobrenatural acontecendo aí. Se tiver, eu vou deixar ela na minha mãe.
- Não seria melhor deixar antes? Um enterro não é o lugar mais apropriado para um recém-nascido.
- Não vou sair caçando algum bruxo que me deixe usar a lareira deles às sete da manhã, Granger. - disse ele, como se eu fosse uma idiota. - A menos que haja realmente algum perigo.
Dei-lhe outro olhar ofendido e caminhei até a cama. Com um bocejo, transfigurei a cama de casal em duas de solteiro antes de me deitar. Ainda encarei o teto por mais meia hora antes de cair no sono.
A água fria foi um merecido conforto para minha pele em um dia de pleno verão como aquele e quando eu saí do banheiro já vestida Janice, a ama de leite que havíamos encontrado para Aria, estava amamentando-a. Aquela cena não me agravada muito. Entre muitos outros motivos, eu achava que era errado pagar para uma mulher que dera seu filho para adoção amamentar um bebê sem mãe, mas eu sabia que leite materno era melhor para Aria embora ao menos uma mamadeira ao dia fosse de leite em pó para recém-nascidos.
- Bom dia, Janice. - cumprimentei.
- Bom dia, srta. Granger. - respondeu a mulher. - Já estou quase terminando.
- Você já tirou o leite para à tarde? - perguntei, desconfortável.
- Sim. - respondeu. - Está no frigobar.
A mulher terminou de amamentar rapidamente e aproveitei enquanto Draco pagava-a para limpá-la e arrumá-la.
- Essa criança parece uma princesa. - elogiou Draco.
- É porque eu sou uma princesa, papai. - disse em voz infantil mas não ridícula. Ainda. - Onde vamos tomar café?
- Você não sabia? Funerais servem excelentes lanches.
Balançando a cabeça, segurei Aria delicadamente e descemos para o estacionamento já repassando as poucas informações sobre o crime que tínhamos até agora. Acomodei o bebê na cadeirinha e magicamente cuidei para que o conversível não a deixasse exposta ao sol. Notei, pelo canto do olho, que Draco ergueu a mão para o botão do rádio, mas deixou-a cair, porque música alta não era bom pra um bebê tão novinho. Ele era um pai bom e preocupado, afinal de contas.
Velórios nunca foram alegres, mas ao descobrir que Albert Shoemaker havia deixado duas filhas – sendo a mais velha apenas uma colegial – já órfãs de mãe fez minha espinha gelar. Pobres garotas.
- Trabalhávamos com seu pai. - mentiu Draco descaradamente. - Ela é Shirley, eu sou o Josh.
- Trabalhavam? - perguntou a mais velha, confusa.
- Sim. - acrescentei, gentilmente. - Sentimos muito.
- Então... que coisa horrível. Nós nem sabíamos que ele estava com problemas de saúde.
- Ele não estava. - disse a garota. - Foi de repente.
- Porque ele não estava! - exclamou a menina mais nova de repente. - Foi culpa minha.
- Lily, a culpa não foi sua. - disse a mais velha, fungando. - Coisas ruins acontecem.
- Sua irmã está certa. - disse Draco mais gentilmente do que eu pensei que ele fosse capaz. - Por que você diria algo tão horrível?
- Porque eu chamei a loira do banheiro logo antes de ele morrer!
- E como... hm... você fez isso?
- Eu disse “bloody mary” três vezes na frente do espelho do banheiro. Ela arrancou os olhos dele, é o que ela faz.
Draco olhou sugestivamente para mim.
- Querida, - disse ele bancando o pedagogo. - não importa o que você disse, não foi culpa sua. Mary só tira os olhos de quem a chama e ele não a chamou, chamou?
- Não...
- Shirley? - perguntei alguns minutos mais tarde examinando cada pedaço do banheiro onde Albert Shoemaker havia sido morto na noite anterior enquanto Draco segurava Aria do lado de fora.
- Eu meio que tenho tesão por atrizes pornô. - disse ele, dando de ombros.
Bufei.
- Isso não faz sentido. No mundo inteiro as crianças brincam de loira do banheiro, blood mary, etc, e ninguém morre.
- Talvez seja porque ela não é loira. Talvez ela seja morena e chorona.
- Quê?
- A Murta-Que-Geme.
- Oh, por favor. - resmunguei revirando os olhos. - Estou tentando trabalhar aqui.
- Foi só uma piada. - disse ele aos risos.
- Típico senso de humor sonserino. - resmunguei. - A lenda diz que se você invocá-la, ela te mata. E é isso, não faz sentido.
- Talvez a Mary esteja querendo evitar problemas com a lei. Você sabe, matar menores. Talvez ela esteja cuidando dos adultos responsáveis.
- Espíritos se preocupam com a cadeia?
- Piada. Outra. Merlim, você não consegue sorrir por nada.
- Procurar evidências de algum tipo de monstro em uma cena de crime recente não exatamente me anima.
Não tendo achado mais nada após invadir o banheiro onde Albert Shoemaker havia morrido, decidimos parar para almoçar em um restaurante popular. Enquanto esperava minha salada de batatas com bife ao molho, aqueci a mamadeira que Janice deixara para Aria e comecei a alimentá-la, ignorando completamente a presença de Draco.
- Então, estou esperando sua teoria.
- Nós realmente temos que fazer isso durante o almoço?
- É só uma questão de tempo até alguém dizer as palavras mágicas de novo.
Suspirei.
- Eu acho que essa é a cidade onde a lenda começou. - comecei. - A única explicação para uma coisa dessa. Precisamos encontrar qual crime deu origem ao espírito da Mary.
- Você é uma boa aluna, Granger.
- Então... devemos deixar Aria com a sua mãe?
- Antes de começarmos a caçar um espírito raivoso que arranca os olhos das pessoas fora? Acho que sim.
- Você vai ligar pra ela?
- Eu não tenho uma coruja, ela não tem um telefone. Vamos simplesmente aparecer.
- Vamos coisa nenhuma, você é o Malfoy, você leva a Aria.
- É muito bom saber que posso contar com você, Granger.
Terminei de cuidar de Aria, certificando-me que ela estava completamente bem, e entreguei-a para Draco após uma longa despedida. Ele havia encontrado um bar bruxo na periferia da cidade e o dono cobrara alguns galeões para deixá-lo usá-la. Imaginei que ele ia usar a lareira com Aria porque teoricamente era mais seguro, mas para voltar ia apenas aparatar.
Usar magia para passar pela garota dos arquivos na única delegacia local não foi difícil. Eu queria, mesmo, tentar a persuasão primeiro, mas eu não tinha os belos olhos cinzas de Draco - ou o sorriso irresistível de Gina, pensei com tristeza. - e certamente não tinha tempo a perder antes que outra criança brincasse de Bloody Mary e acabasse matando seus pais ou responsáveis.
Felizmente, “Accio” era um feitiço que eu dominava e imediatamente a pasta que eu queria veio parar nas minhas mãos. Com mais um aceno de varinha, transmiti todo o conteúdo dos documentos para a pasta com folhas em branco que havia trazido comigo.
Aparatei de volta no hotel com peso na consciência. Se fosse a seção de arquivos do Ministério, levaria, no mínimo, uma poção polisuco, alguma magia e muita interpretação e persuasão. Os trouxas, afinal, eram realmente tão vulneráveis quanto Gina argumentara certa vez.
Quando Draco retornou sem Aria, parecia que uma parte do meu corpo havia sido arrancada de mim. Estar sozinha enquanto a menina estava com pai era totalmente passável, mas isso... incomodava muito mais do que eu previra.
- Conseguiu alguma coisa? - perguntou ele, objetivo.
- Sim. - anunciei, orgulhosa. - Mary Worthington, 19 anos, modelo, assassinada há três anos.
- Estou ouvindo.
- Mary era uma modelo não muito bem sucedida. Ela ganhou alguns concursos de beleza e sonhava em ir para Los Angeles para ser atriz. Acontece que uma certa noite alguém entrou na casa dela e arrancou os olhos dela com uma faca. No banheiro.
- Bom o bastante. - foi um elogio contido, mas me fez sorrir.
Usando o mesmo truque que Draco usara na noite anterior, projetei os dados do papel para a parede.
- Vê a foto? - perguntei, me encolhendo com a imagem que eu mesma projetara. - As iniciais? T-R-E? Foram feitas no espelho com sangue, com sangue da Mary.
- O assassino deixou uma assinatura?
- Sim. - respondi. - Ou a própria Mary desenhou as iniciais na tentativa de revelar o nome do assassino.
- Ok. - disse Draco como se fosse me ensinar alguma coisa. - Temos alguém que se encaixa nas iniciais?
- Trevor Ramond Samson.
- Que é...?
- Um cirurgião.
- E, deixe-me adivinhar, os cortes eram certeiros, quase profissionais. - disse ele, enojado.
- Exatamente.
- Ok. E por que o dr. Frankstein faria isso com uma simples modelo?
- Aparentemente por motivo nenhum. Acontece que Jessica Worthington, a irmã de Mary, testemunhou sobre o caso. Ela disse que não sabia quem o namorado dela era, mas que Mary andava falando que iria contar para a esposa do “T” que ele a traía para que pudessem assumir o romance.
- Então o filho da puta arrancou os olhos dela primeiro.
Fora uma pergunta retórica.
- Mas... Mary foi morta há três anos. Por que ela só começou a se vingar agora?
- Espíritos levam tempo para definhar. Quando um espírito se torna como Bloody Mary e assombra e mata pessoas, não significa que a pessoa – ou o espírito em si – seja ruim. Eles não têm paz e ficam presos entre o nosso mundo e o deles, acabam enlouquecendo, procurando por justiça de alguma forma.
- É o que acontece com os nossos fantasmas. Então por que eles não enlouquecem também?
- Não. O que acontece com nossos fantasmas é diferente, eles são um outro tipo, um tipo que Trouxas não têm acesso.
- Ah. - suspirei. - Temos um problema. Mary não foi enterrada, foi cremada.
- Então como...?
- O espelho. - dissemos, juntos.
- Bem, então é só achar o espelho original e quebrá-lo. Fácil.
- Não tão fácil. - eu disse. - Todos os pertences de Mary foram leiloados. O espelho agora está em uma loja... não podemos simplesmente entrar numa loja de espelhos e sair quebrando os produtos. Além do mais, como vamos saber se ela não apenas pode pular para outro, como os quadros de Hogwarts?
- Você tem razão. Precisamos atraí-la primeiro.
- Você quer dizer invocá-la?
- Infernos, sim.
Sair de casa de madrugada para invocar espíritos nunca foi exatamente o meu ideal de carreira bem sucedida. Draco, por outro lado, estava acostumado. Invadir a loja foi tão fácil que eu quase acreditei que não era crime.
- É esse. - disse Draco.
- Vai fundo. - incentivei, irônica.
Com um muxoxo impaciente, ele disse, alto e claro: bloody mary, bloody mary, bloody mary.
Esperamos.
- Não está acontecendo nada.
- Talvez a loira do banheiro não goste de testemunhas. É melhor você ir dar uma volta. Só fique atenta, eu posso precisar.
Afastei-me de Draco tentando me manter alerta ao mesmo tempo. Não queria deixá-lo sozinho, ou ficar sozinha, mas talvez ele tivesse razão. Caminhei por algumas fileiras me sentindo dentro de um labirinto de... bem, espelhos. Parei em frente a um particularmente grande. Passei as mãos pelo meu cabelo semi-preso, ajeitando-o. Esperei.
- Nada está acontecendo! - xingou Draco alguns minutos mais tarde. - Por que nada está acontecendo?
Suspirei. Virei-me para voltar até o espelho original de Mary onde estava Draco, mas minha visão periférica captou algo que eu não esperava: meu reflexo não havia se movido conforme me virei. Voltei-me para o espelho diante de mim novamente. Embora eu com certeza tivesse uma expressão confusa no rosto, a do meu reflexo era dura e reprovadora. Arregalei os olhos ao perceber que, ao contrário da Hermione do espelho, eu não estava com os braços cruzados. Bloody Mary estava ali.
Virei-me, tentando correr para o espelho original e quebrá-lo, mas antes de dar sequer um passo, uma pressão incômoda invadiu minha testa e olhos. Vi duas espessas lágrimas de sangue escorrerem pelos olhos da Hermione do espelho, exceto que ela manteve-se impassível, enquanto eu passei as mãos no rosto desesperadamente para verificar se aquilo estava realmente acontecendo. E estava, meus olhos estavam sangrando.
- Você fez. - vociferou a Hermione do espelho. - Você matou todos aqueles garotos inocentes.
A pressão nos meus olhos e testa aumentou absurdamente enquanto as lágrimas de sangue aumentaram em quantidade e volume. A hemorragia interna, suponho, me fez engasgar em meu próprio sangue e em poucos segundos eu estava ajoelhada no chão.
- É sua culpa. Esse é o seu segredo.
Senti que estava prestes a desmaiar – ou morrer de vez, não sei – quando de repente a outra Hermione virou milhões de pedacinhos. Por trás da moldura, vi Draco com um bastão na mão. Imediatamente a dor e a pressão se foram.
- Você está bem? - perguntou ele, ajudando-me a levantar.
- Sim. - murmurei.
Apoiei-me em Draco tentando não machucá-lo e fizemos o caminho de volta devagar, até que ambos caímos de joelhos mais uma vez. Notei que Draco não estava sendo ferido, mas a dor, a pressão e o sangramento nos meus olhos haviam voltado. Olhei para trás para perceber o que estava acontecendo. Para o meu terror, quebrar o espelho onde Mary estava não só não a matou como também a libertou. Agora ela estava livre para andar por onde quer que fosse, dentro e fora do espelho. E era o que ela estava fazendo.
Mary parecia saída de um manicômio: olhos vermelhos, trajes muito sujos e rasgados, cabelo bagunçado, pés descalços, e pose torta e desalinhada. Ela caminhou na minha direção rosnando baixinho, repleta de fúria.
Para piorar a situação, Draco não parecia ter um plano B. E eu muito menos.
Draco, que não estava ferido, avançou para ela com uma barra de ferro, procurando retardá-la, mas antes que ele pudesse aproximar-se, foi atirado para longe. Não sei quantos espelhos quebraram, mas pelo barulho não foi apenas um.
Ouvi Draco levantar enquanto meus olhos ainda derretiam nas próprias órbitas. A dor e a pressão eram alucinantes e eu ainda engasgava no meu próprio sangue.
- O reflexo... dela... -vomitei as palavras.
Captando o que eu quis dizer, mas sem confiar muito, Draco passou a mão pelo espelho original e mirou-o para o espírito. Mary estacou no lugar.
- Todas aquelas pessoas! - vociferou a própria imagem de Mary enquanto duas grossas lágrimas de sangue brotavam dos olhos da outra. - Você as matou! É sua culpa.
Para meu alívio, a hemorragia nos olhos da Mary fora do espelho só aumentou enquanto seu próprio reflexo a acusava e, com um grito agudo, o espírito explodiu em sangue, que, ao cair no chão, eram apenas centenas de caquinhos estilhaçados. Com um último esforço, Draco atirou o espelho original no chão, quebrando-o também.
- Cacete, isso vai ser tipo uns trezentos anos de azar. - ouvi antes de desmaiar.
Fiquei muito feliz ao descobrir que não perdera minha visão – ou vida – quando abri os olhos e me vi em um quarto grande e confortável, luxuoso até. Ao levantar, descobri que uma enxaqueca martelava minha cabeça, mas não era nada comparado ao que eu experimentara, a julgar pelos raios de sol penetrando o ambiente, no dia anterior.
Quando as portas do aposento abriram-se com a minha simples aproximação, perguntei-me se aquilo era fruto de alguma tecnologia avançada ou simplesmente um feitiço doméstico pouco utilizado. Ao descer a escada e encontrar um elfo doméstico me esperando, no entanto, não tive dúvida quanto a segunda opção.
- O café está servido no jardim, senhorita. - disse ele com uma reverência de má vontade.
- Muito obrigada. - agradeci seguindo o elfo que fez seu caminho para fora murmurando coisas que eu não consegui ouvir, mas sabia que eram ofensas. Não me aborreci.
- Você está viva. - disse Draco com voz infantil, dando mamadeira a Aria.
- Bom dia. - disse, tímida. - Estamos na sua casa?
- Na casa da minha mãe. - corrigiu. - Senta. Come.
A mesa estava sentado tão bonita e convidativa que eu simplesmente não pensei duas vezes antes de aceitar. Sabia que café acentuava dor de cabeça, mas não resisti a uma xícara com minha panqueca de bacon.
- Onde estão... os moradores?
- Provavelmente ensaiando a entrada triunfal. Você está bem?
- Com um pouco de dor de cabeça. Você me trouxe pra cá?
- Não, Granger. Bloody Mary converteu a Igreja da Inglaterra e fez uma boa ação te trazendo aqui.
Estava com dor de cabeça demais para responder a provocação.
- Acabou?
- Sim, ela se foi. De verdade dessa vez.
- A Aria está bem?
- Eu estou ótima, não estou? Eu estou linda, titia! - fez ele como se fosse Aria quem estivesse falando.
Sorri.
- Podemos ir embora depois do café?
- Vai querer dar uma de Testrálio magro, Granger?
- Eu só não me sinto confortável, ou bem-vinda, na Mansão Malfoy. Sua mãe pode não gostar.
- Hermione, - disse ele, sério. - Não seja mal agradecida. Minha mãe te limpou e cuidou de você.
- Não é o que quis dizer. - ponderei. - Não quero dar trabalho.
- Ninguém vai me impedir de passar um tempo com minha netinha.
- Sra. Malfoy. - cumprimentei o mais educadamente que pude.
- Não se preocupe. - disse, tomando um lugar à mesa. - Vocês podem e devem ficar o tempo que quiserem.
- Nós realmente temos que ir, mamãe. - disse Draco. - Mas nós vamos voltar. Temos coisas para fazer, coisas essas que não são seguras para Aria... ela vai precisar ficar com você as vezes.
- Eu vou adorar. - disse ela. - Eu só não acho segura qualquer coisa que vocês estejam fazendo. Ela é muito novinha para passar o dia de um lado pro outro, ela precisa de um lar. - acrescentou, séria. - Eu poderia cuidar dela o tempo todo.
- É temporário. - eu disse, afetada pela hipótese de uma outra mulher que não Molly Weasley criando a filha de Gina, caso algo desse errado. - Nada vai acontecer com a Aria.
- Bem, não é como eu acho que deveria, mas ele é o pai, não posso fazer nada. - disse Narcisa, no que, para mim, soou como uma ameaça muito bem disfarçada. “Ele é o pai”.
- Você pode cuidar de sua neta e garantir que ela ficará segura enquanto o papai trabalha.
- Que demônios de trabalho é esse, Draco?
- Temos que ir. - disse, ignorando a pergunta da mãe sem cerimônia, o que me fez questionar o quanto sobre a verdadeira ocupação de Draco a mãe dele realmente sabia.
A despedida foi desconfortável e com ar inapropriado, por isso quando o clichê conversível vermelho de Draco – que ele havia buscado no motel de Basildon pela manhã, bem como nossos pertences. - disparou para longe dali, eu soltei um suspiro de alívio.
- Há alguma coisa que você queira dizer sobre o caso? Foi o seu primeiro.
Olhei para cima, pensativa.
- Eu não sei. É mais fácil e mais difícil do que eu pensava. - ponderei. - O que você achou da minha primeira performance?
- Nerd do caralho. - limitou-se a dizer.
Sorri.
- Então, estou preparada para enfrentar o inferno?
- Não. Mas não se preocupe, eu também não estou. Ninguém nunca esteve.
- Você está dizendo que nunca ninguém conseguiu invadir o inferno?
- Não. - ele disse com um pequeno sorriso. - Estou dizendo que ninguém nunca conseguiu sair do inferno.
Não respondi. Eu conhecia os riscos.
- Por que ela veio atrás de mim se você a convocou? As escolhas dela não eram aleatórias, eram?
- Bem, eu fiz uma pequena pesquisa. As iniciais no espelho de Mary Worthington não eram uma assinatura do assassino, ela mesma fez. Ela passou os últimos minutos da sua vida tentando expor aquele homem. E todas as pessoas que ela atacou... todas estavam envolvidas em algum assassinato secreto.
Encolhi os ombros, quase preferindo não ter perguntado nada.
- Então ela só matava gente ruim?
- Hermione. - disse Draco, balançando a cabeça. - Você não é uma pessoa ruim. Você é uma irritante sabe-tudo, mas você não é uma má pessoa.
- Bloody Mary não concorda.
- Você realmente está levando em consideração a opinião de um espírito que tentou te matar? Realmente?
Ambos sorrimos.
- Além do mais, aquela vaca nem era loira. - disse ele num verdadeiro tom de revolta. - Bem, se isso te tranquiliza, – continuou - descobri que a terceira vítima era uma garota chamada Charlie Harrison... Mary a matou porque ela terminou com um namorado e o cara se matou. Agora, me diga, essa garota, Charlie, teve alguma culpa na morte do garoto?
- É claro que não. - sibilei.
- Por quê?
- Porque ela não teve uma escolha. Jesus, ela provavelmente nem estava presente quando ele morreu.
- Você também não teve uma escolha. E você também não esteve presente. Não sua consciência, pelo menos.
- Bem, se a Mary estava matando pessoas com esse tipo de critério absurdo que usou nessa Charlie Harrison, então eu estou feliz por tê-la eliminado. Possivelmente salvamos vidas e -
- Te faz sentir menos culpada?
- Não. - falei. - A culpa não diminui nem um pouco. Mas é como se, talvez, fosse algum tipo de compensação... como quando uma pessoa é obrigada a fazer trabalho voluntário para pagar uma pena, ela está fazendo algo de bom para a sociedade... para compensar o que fez de ruim.
- Eu sei o que você quer dizer.
Ficamos em silêncio mais uma vez.
- Então você realmente salva trouxas. Eu nunca pensei que fosse admirar Draco Malfoy por seu trabalho com trouxas. - sorri.
- Bem, querendo ou não, bruxos meio que têm mais chances de se defender ignoram completamente a existência dos caçadores porque querem.
- Exatamente. Você protege os trouxas.
- Você matou pessoas inocentes, Gina pagou por isso, e é por isso que você está aqui. Eu fui um Comensal da Morte. E todas as pessoas que me ajudaram, Snape, Potter, todas, sem exceção, eram mestiças. No fundo, Granger, todo caçador está aqui porque quer compensar algo, diminuir a culpa.
Virei-me para verificar Aria, que dormia tranquila e seguramente no banco de trás, e depois me encolhi no banco do passageiro. As palavras de Draco podiam não ser as mais animadoras, mas não deixavam de ser verdade. Se não fosse pelo desfecho da história em Hogsmeade, eu não estaria aqui. Se não fosse pela Guerra, Draco e Gina também não estariam nessa vida de caçador. Todos nós estávamos apenas tentando ficar em paz com nós mesmos. Alguns, como eu, falhando miseravelmente.
Deixei-me afundar no meu banco encarando apenas os tons de laranja que já começavam a tingir o sol por detrás das nuvens anunciando o não muito distante pôr-do-sol.
N/A: Olá crianças lindas do meu Brasil *-*
Sei que essa fic está há muito atrasada e que já deveria até ter terminado, mas devido a problemas de computador tive que reescrever o capítulo e minha memória é uma linda, então o bichinho saiu totalmente diferente do que eu tinha escrito no notebook, mas tá valendo. Enfim, tá aí finalmente, vamos ver se consigo terminar essa fic como o planejado, em dois meses. IUHEUIEHEUI
Beijinhos, comentem.