Capítulo 9: Holiday/Voyage (Feriado/Viagem)
“I beg to dream and differ from the hollow lies
This is the dawning of the rest of our lives
On Holiday” (Holiday – Green Day)
- Nessa data, Ginevra? – Harry me perguntou, com revolta – Vai faltar uma semana para as eleições. Eu preciso de você aqui comigo, me apoiando. Não dá pra você ir pra Noruega nesse momento, diga isso para a Parkinson.
- Harry, é a final da Copa Europeia de Quadribol. – tentei explicar, com fingida paciência, como se estivesse falando para uma criança de cinco anos teimosa – Eu não posso simplesmente dizer que não vou cobrir um evento esportivo dessa magnitude. A Parkinson me demitiria. Eu entendo o quanto é importante pra você essa reta final das eleições, mas você também precisa entender o quanto o meu emprego é importante para mim. Por que não vem comigo se te incomoda tanto ficar longe de mim?
- Tenho muito o que resolver por aqui, você sabe muito bem disso. E eu estou simplesmente cansado de ter que discutir com você quais deveriam ser as prioridades de uma mãe de família aspirante à primeira dama. – respondeu seriamente.
Revirei os olhos. Cansada estava eu dele não reconhecer que a minha vida não era só ele. Harry deveria saber que uma relação saudável não inclui viver em função da outra pessoa. Mas não, e esse é justamente um dos motivos do nosso casamento estar em crise.
- Harry, eu nem vou responder ao que você acabou de dizer. Já percebi que não adianta discutir com você, vai continuar teimando em sua opinião e eu na minha e sabemos como isso termina com portas batidas e vidros quebrados. – ponderei, respirando fundo.
- E por acaso não conversar vai resolver tudo? – perguntou, com indignação.
Oh Merlim, dai-me paciência! Ele quer uma briga, não é possível!
- Agora não, Harry. Eu vou tomar banho. Se quiser jantar, basta esquentar a comida. – falei, esquivando-me daquela conversa e subi as escadas sem olhar pra trás.
É tão difícil ter o próprio marido contra suas aspirações profissionais. Eu adoraria que ele fosse mais compreensivo. Por ironia do destino, o Draco, que eu nunca pensei que pudesse resultar em um bom marido, trata-me melhor que o Harry. O Draco me apóia, tenta me entender. Eu estou confusa, realmente confusa. Acho que o meu casamento está afundando cada vez mais e parece não haver volta. Será que eu deveria me separar após as eleições? Uma hora ou outra eu vou ter que conversar sério com ele e se o Harry não melhorar, talvez separação seja mesmo a melhor alternativa, mesmo que não a mais fácil. Era uma oportunidade incrível cobrir aquela final que seria entre o Braseck Meloves e o Montrose Magpies, ambos pertencentes à elite do quadribol europeu. Eu tinha ficado tão ansiosa quando a Parkinson me deu a notícia, daí vem o Harry e simplesmente tenta fazer com que eu me sinta mal por isso e o pior é que de certa forma ele conseguiu. Ah, mas não é como se eu fosse a única responsável pelo nosso casamento não estar mais dando certo.
Mesmo pensando nessas coisas, meu banho teve efeito relaxante em mim. Eu precisava dormir, estava cansada. Amanhã era um novo dia e eu já teria superado – ao menos em parte – as preocupações do dia anterior. Saí do banheiro direto para a cama e desabei. Eu estava dormindo já, quando senti uma mão acariciando a minha barriga.
- Ginny, me desculpa... – Harry murmurou em meu ouvido – Eu amo você e sei que você está feliz trabalhando.
Eu me virei na cama, abrindo os olhos sonolentamente e perguntando:
- Qual é o problema então, Harry?
Ele pareceu hesitar:
- Ciúmes? Você vai estar longe de mim...
- Harry, você acha que eu te dou motivos pra sentir ciúmes? – perguntei, tentando não transparecer nervosismo.
- Não sei. Você é uma mulher atraente ainda e nós estamos casados há muito tempo... às vezes me pergunto se você enjoou de mim.
- Harry, não é nada disso. – eu respondi, embora não sentisse sinceridade em minhas palavras – Eu apenas tenho estado ocupada e você também. Apesar de já algum tempo eu achar que nosso casamento está atravessando dificuldades. A nossa falta de comunicação, por exemplo... você não me contou previamente sobre a sua candidatura, não quis nem a menos saber a minha opinião sobre isso.
- Ginny, nós já conversamos sobre isso. Eu queria fazer uma surpresa e pensava que você iria ficar feliz com isso. Eu fui inocente, não fiz por mal. – ele me garantiu. – subindo a mão que massageava a minha barriga para um de meus seios.
- Ah, hoje não, Harry. Nós acabamos de discutir lá embaixo, eu não estou no clima. – foi o que respondi ao pedido mudo dele de intimidade.
Ele pareceu magoado e um tanto irritado:
- Mas o que é que está acontecendo com você, Ginny? Sinceramente, eu estou preocupado. Você sempre gostou de sexo e durante todos esses anos eu não tinha do que reclamar nesse assunto. Porém, já faz alguns meses que eu notei que você está estranha. A quantidade de vezes que a gente faz amor diminuiu drasticamente. Você não me deseja mais? Como quer que eu me sinta com você indo viajar sozinha para um lugar cheio de marmanjos jogadores de quadribol transbordando hormônios que não pensariam duas vezes antes de dar em cima, ou mais, da melhor jogadora que o Harpias de Holyhead já teve?
Abri e fechei a boca várias vezes numa tentativa vã de resposta, mas não consegui pensar em nada que pudesse dizer, não em um primeiro instante, ao menos. Era verdade o que ele estava dizendo sobre estarmos fazendo muito menos sexo que antes. Eu me sentia hipócrita cada vez que fazia sexo com Harry e depois pensava que era apenas obrigação conjugal e meu coração pertencia ao Draco. Harry ainda esperava minha resposta e quanto mais eu pensava, mais absurdas me pareciam as tentativas de explicação, então eu o beijei. Ele conseguia ser extremamente carinhoso em um beijo, fazendo eu me sentir querida. Quando quebrou o contato entre nossos lábios, encarou-me:
- Lembra de como foi a nossa primeira vez? – e eu assenti com um gesto da minha cabeça - Uma explosão de paixão e foi com aquela Ginevra apaixonada com quem me casei. Aposto que ela ainda está aí, escondida em algum lugar.
Beijamo-nos novamente e dessa vez a minha mente fez uma longa viagem, há vinte anos atrás...
***Flashback***
A Toca, quarto da Ginny
- Ginny, você é louca? Se seus pais ou um dos seus irmãos nos pegam aqui eu sou um homem morto! Eu achava que você apenas queria conversar. – Harry falou, nervoso e preocupado, quando eu tranquei a porta do quarto e me virei para ele.
- Ninguém vai descobrir, estão todos dormindo e deixei meu quarto impertubável. Não se faça de santo, foi você quem começou com esse assunto. – cobrei, cruzando os braços e olhando para ele.
- É, mas eu toquei no assunto porque eu achava que ia ser um longo processo te convencer, mas pelo visto me enganei. Sério, a gente não precisa fazer agora. – ele falou, soando todo compreensivo – Eu quero que você pense e tenha certeza sobre isso.
- Mas eu já pensei sobre isso. – e me aproximei dele – Eu quero. – falei meio sem jeito, colocando uma mecha de cabelo para trás da orelha.
Harry sorriu para mim:
- Tá ok. E qualquer coisa se você quiser parar, eu não vou ficar chateado. – e ele me tomou em seus braços em um beijo apaixonado.
Inicialmente não havia nada de novo no que estávamos fazendo. As mãos do Harry estavam firmes em torno da minha cintura e ele me puxava contra ele, colando nossos corpos. Entretando, logo as mãos dele estavam passeando por minhas costas e pelas laterais do meu corpo e não muito depois eu fui prensada contra o meu guarda-roupa. Sorte eu ter deixado o quarto impertubável, pois houve um baque quando meu corpo bateu contra o móvel. Harry parou o amasso:
- Você está bem? – perguntou, ofegante.
- Ótima. – eu sorri, maliciosamente – Onde estávamos mesmo...?
Harry correspondeu o meu sorriso e enterrou uma mão nos meus cabelos enquanto começava a beijar o meu pescoço. Eu simplesmente adorava quando ele fazia aquilo, minhas pernas pareciam virar gelatina. Segurei-me firme nele para que não corresse o risco de ser desapontada por meus joelhos. Eu suspirava a cada nova mordiscada que ganhava e não esperava pela próxima ação do Harry. Ele me pegou pelas pernas e me carregou até a minha cama. Chegando lá se inclinou sobre mim, beijando meus lábios. Beijar na horizontal me pareceu diferente, mas muito satisfatório. As mãos dele entraram por dentro da minha blusa e acariciaram a minha pele quente. Harry não tinha mãos geladas, mas naquele instante a diferença de temperatura entre elas e o meu corpo parecia gritante. Era como se ele estivesse, de alguma maneira prazerosa, incendiando minha pele. De repente, Harry me puxou para ficar sentada, fazendo um convite para que eu sentasse em seu colo. Ele deixou que as alças da minha camisola caíssem por meus ombros para poder beijá-los e em seguida, segurou pelos lados a barra da minha veste e começou a erguê-la. Eu o ajudei um pouco e em alguns segundos eu estava livre da peça. Era a primeira vez que ele me via de lingerie. Eu estava um tanto constrangida e para tirar o foco de mim, tirei a camisa do pijama dele, o que o incentivou a desabotoar e arrancar meu sutiã. A seguir, ele me abraçou:
- É muito bom sentir o contato da sua pele na minha. Você é linda, Gi. Eu te amo.
- Também te amo, Harry. – respondi, acariciando as costas dele.
Em segundos, nossos lábios estavam colados novamente e nossas línguas dançavam ávidas, uma contra a outra. E novamente ele beijou meu pescoço, mas dessa vez foi descendo lentamente, até alcançar meus seios. Ele sugou um dos mamilos e eu arranhei as costas dele, tamanho prazer aquele simples gesto me fez experimentar. Harry pareceu gostar daquilo, pois dessa vez, além de sugar, também mordiscou. Um som estrangulado saiu da minha boca. Harry Potter estava me fazendo gemer! Merlin que me ajude a sobreviver, porque eu acho que se alguém puder morrer de prazer, eu corro seriamente esse risco. Quando ele parou, eu logo me vi dizendo:
- Oloco, Harry.
- Desculpa. Eu te machuquei?
Eu ri:
- Eu não estava de forma alguma reclamando.
- Que bom.
- Hum, deita na cama. – eu pedi e ele fez.
Eu me inclinei sobre ele e beijei seus lábios. Sentei mais ou menos na altura dos quadris dele e fui descendo os beijos para o pescoço, peitoral. Eu o arranhava levemente na região do abdômen e o sentia tremer levemente. Movi-me um pouco sobre ele e senti um volume embaixo de mim. Tentei me ajeitar melhor e ele acabou soltando um leve gemido. Mais uma vez Harry inverteu as posições. Ele levantou-se e se livrou das calças e da cueca cinza-chumbo. E eis que pela primeira vez eu assistia de fato um homem excitado e nu. Fiquei um tanto preocupada com o quanto doeria. Mas era o meu Harry, ele faria o que pudesse para não me machucar. Em seguida, ele voltou para a cama:
- Você vai querer mesmo tentar? – perguntou-me e eu fiz que sim – Eu prometo ir devagar, mas ainda assim, vai doer.
- Tá, eu sei disso. – respondi e apertei a mão dele brevemente.
Harry acariciou o meu ventre e depois foi descendo a minha calcinha pelas minhas pernas. Quando ele as tirou completamente eu me senti vulnerável. Mais uma vez Harry beijou os meus seios e então eu senti algo entrando e saindo de mim rapidamente, mas não era o pênis dele. Era um dedo. E para a minha surpresa era muito bom. Em pouco tempo eu percebi que estava sentindo um prazer crescente. Acho que Harry devia ter adicionado um ou dois dedos no meio do processo, porque o atrito tinha aumentado e estava doendo um pouco, mas era bem suportável. Temporário, pois mais uma vez o prazer retornou, em escala crescente. O meu quadril estava elevado e até então eu nem havia percebido. Eu já não mais controlava os sons que saíam da minha boca e então eu tive um orgasmo.
- Gostou do aquecimento? – Harry quis saber, oferecendo-me um sorriso matreiro.
- Uau. – foi tudo o que consegui pronunciar.
- Bom, agora vai ser pra valer. – ele me avisou, se posicionando entre as minhas pernas – Preparada? – e eu fiz que sim.
Harry forçou a minha entrada. Estava doendo, mas eu pretendia aguentar, não era pior que uma cólica realmente forte. Então ele forçou mais e sentindo que uma boa parte de seu membro estava dentro de mim, ele parou. Eu o agradeci mentalmente, pois assim eu teria um tempo para me acostumar à sensação de tê-lo dentro de mim. Distribuía selinhos carinhosos pelos meus lábios e bochechas. Após o que me pareceu cerca de um minuto, ele estocou contra mim novamente e quando o pênis inteiro dele estava dentro de mim, ele parou novamente.
- Você tá bem? – ele quis saber.
- Eu tô bem, Harry. – ofeguei – A dor é suportável.
- Tá, mas eu não quero que se faça de forte, se estiver doendo muito, me avise que eu paro.
Depois de um tempo, Harry alcançou meus lábios e me beijou. Segundos depois, enquanto ainda me beijava, começou a se mover. No início foi incômodo e estranho, mas o beijo dele estava me distraindo bem. Até que não sei dizer em qual momento o deslizar se tornou constante e bem-vindo. Eu o puxei mais contra mim e ele aceitou esse gesto como um incentivo para aumentar a velocidade:
- Tá gostando? – ele perguntou, com a respiração descompassada.
Eu podia ver que ele estava suando, seus cabelos ficando grudados na testa.
- Yeah, não pára! – eu o incentivei.
Harry fazia caras e bocas e eu sabia que ele estava a ponto de atingir o ápice, não me enganei:
- Oh Ginny! – falou entre gemidos e pouco depois desabou ao meu lado, respirando aceleradamente.
Fora bom, mas eu não tinha conseguido gozar novamente. Porém, estava feliz por ter garantido isso a ele:
- Eu te amo, Harry.
- Também te amo, Ginny. – disse e me aconcheguei contra ele.
***Fim do flashback***
Estava de folga durante o recesso de Natal e Ano Novo. Eu e Harry fomos buscar as crianças em King’s Cross. Ele de melhor humor e eu mais culpada. Enquanto esperávamos o Expresso de Hogwarts, Draco e Astoria chegaram à plataforma. Foi constrangedor, ao menos para mim. Os dois se aproximaram de nós e trocamos cumprimentos formais. Quando meu olhar cruzou com o do Draco, senti minhas bochechas queimando. Meu marido e meu amante, frente a frente. A cada vez que eu pensava nesses termos, que lembrava que mais do que um relacionamento baseado em amor, eu estava vivendo uma farsa. Sentia-me suja ao pensar no adultério que estava cometendo. Sinceramente, não sei por quanto tempo aguentarei administrar essa vida dupla. Está me matando... Mais cedo ou mais tarde terei que fazer uma escolha e apenas de pensar nessa decisão que eu postergava, sentia dores de cabeça. Para minha felicidade, o Expresso não tardou a apontar no horizonte. Portanto, logo eu estava abraçando meus filhos. Era muito bom estar com eles novamente! Depois de nos deixar em casa, Harry foi para o Ministério trabalhar.
- Crianças, guardem os malões em seus quartos. – e eles me obedeceram.
Depois de um tempo notei que a casa estava muito silenciosa, então fui checar o que cada um deles estava fazendo (ou seria aprontando?). O quarto mais próximo era o de James. Bati à porta e entrei:
- Oi, filho. O que você tá fazendo?
James estava sentado à escrivaninha e tinha a sua frente pergaminho e pena:
- Escrevendo uma carta.
- Para quem? Você acabou de chegar em casa.
Ele sustentou o meu olhar por alguns segundos e em seguida, desviou:
- Para a minha namorada.
Adentrei mais o quarto e me sentei na beirada da cama dele:
- Eu não sabia que o senhor tinha uma namorada. Pode ir me contando como isso aconteceu e quem é ela.
- Ai, mãe. Que intromissão! – resmungou e como ele sabia que eu não iria a lugar algum antes de saber o que havia perguntado, cedeu – É a Camille.
- A garota de quem você falou em Hogsmeade?
- Sim, é ela...
- Hum, e há quanto tempo estão namorando?
- Algumas semanas. Mãe, eu queria convidá-la para o nosso almoço de Natal, posso? – perguntou-me, esperançoso.
- Claro, querido. – ofereci-lhe um sorriso afável – Mas ela vai dormir no quarto da sua irmã, caso pernoite – avisei-lhe.
- Mas por quê? – perguntou, parecendo inocente.
- Porque sim. – e me levantei – Agora termine a carta e pode convidá-la. – acrescentei e saí do quarto de James.
Eu não era ingênua. Sabia muito bem que garotos de 14 anos já tinham hormônios em alta. Não queria nem imaginar meu filho fazendo sexo com uma garota... Isso faria eu me sentir muito velha. Foi tentando tirar esse tipo de pensamentos da minha cabeça que bati à porta do Al e entrei. Ele estava deitado na cama, cantando uma música de rock que estava ouvindo no rádio.
- FILHO! – gritei, mas aparentemente ele não havia me ouvido.
Resolvi então desligar o aparelho e apenas assim ele pareceu notar minha presença, pois disse em um tom surpreso:
- Nossa, mãe, você tá aqui...
- Pois é, Al. Você teria reparado antes se não estivesse com o som ligado tão alto. Quantas vezes devo dizer que desse jeito você vai ficar surdo? – falei em um tom reprovador, colocando as mãos na cintura.
- Tá, mãe. Vou tentar me lembrar disso da próxima vez. Hum, mas o que fez você vir até aqui? O quarto é imperturbável, não é possível que estivesse ouvindo de lá debaixo.
- Vim ver o que você está fazendo, conversar. Está tudo bem com você, Al?
- Sim, apenas preocupado com a próxima partida de quadribol que será contra a Grifinória. É daqui menos de um mês.
Eu sorri, aproximando-me. Era tão mais fácil quando a minha maior preocupação era a próxima partida da Grifinória. Senti-me nostálgica. Ser adulta era extremamente complicado, ainda mais na minha posição...
- E vocês estão treinando direitinho?
- Sim, sempre com muito afinco.
Sorri para ele:
- Então não tem porque se preocupar, querido. Vai dar tudo certo. – e me levantei da cama.
- Mamãe? – Al me chamou e voltei a olhar para ele – Posso convidar Scorpius para cear com a gente?
Não pude evitar engolir em seco antes de responder:
- Acho melhor não.
- Mas por quê? Eu achei que você não tivesse nada contra ele ser meu amigo. – pareceu chateado.
- E não tenho. Não é essa a questão, Al. Natal é um feriado para se passar em família. Contra o Scorpius não tenho nada, mas você sabe que eu e seu pai não nos damos bem com os pais dele... Está fora de questão convidarmos os Malfoy.
- Mas, mãe...
- Sem mas, mocinho. – eu o interrompi e me retirei do quarto.
Não ter que interagir com o Draco com a minha família por perto no feriado... Era melhor assim.
***
Voyage, voyage
Plus loin que la nuit et le jour, (voyage voyage)
Voyage (voyage)
Dans l'espace inouï de l'amour.
Voyage, Voyage [Voyage – Desireless]
Esta noite assistirei à final da Copa de Quadribol. Sei que a Ginevra já está por aqui há alguns dias, cobrindo os preparativos para o jogo, mas apenas consegui tirar o dia de hoje de folga para viajar até a Noruega. Esses últimos tempos têm sido tão tumultuados! Eu tenho estado ocupado demais. Que saudades que eu estou da minha ruiva! Bom, mas hoje, se tudo der certo... Sorri internamente com esse pensamento.
Olhei-me no espelho, checando minha aparência. Estava impecável. Era assim que eu queria estar, tanto por ser uma pessoa pública quanto para impressionar positivamente a Ginevra. Em seguida parti. Aparatei, mas era preciso seguir a pé por certo trecho. Andei consideravelmente rápido, pois estava animado, esperando ver uma ótima partida. Quando cheguei ao camarote Ginevra já se encontrava lá, no entanto, havia outras pessoas presentes. Cumprimentei-os e na vez dela eu dei um beijo demorado em sua mão e sussurrei em seguida em seu ouvido:
- Hoje, depois do jogo. Eu vou te esperar próximo à base das arquibancadas.
Ela não sorriu nem nada, apenas ficou séria, aparentando indiferença ao meu comentário. Realmente espero que ela não esteja brava comigo. Está certo que eu tenho sido um tanto ausente ultimamente. Mas por Merlin! A culpa não é minha. Se eu pudesse escolher... No entanto, não dá. Tenho que cumprir os compromissos do meu trabalho e da minha campanha. Não é fácil. Não é justo se ela estiver ressentida comigo por isso. Fiquei perdido em pensamentos de como poderia voltar às graças de Ginevra e como resultado quase me sobressaltei ao ouvir a voz do comentarista ecoar pelo estádio, dando boas-vindas aos torcedores e em seguida apresentando os jogadores de cada time. Para a minha satisfação, o pomo não foi pego nos primeiros quinze minutos de jogo. Não, foi uma partida intensa e disputada. Durou cerca de duas emocionantes horas. Fiquei feliz com o resultado, estava mesmo torcendo para o Montrose Magpies. Foi uma vitória apertada, os times tinham mantido-se quase o tempo inteiro empatados. Definitivamente pegar o pomo de ouro havia feito a diferença na decisão daquele jogo. Depois que me despedi das pessoas, lancei um discreto olhar na direção de Ginevra e saí do camarote.
Assim que cheguei à base das arquibancadas cruzei os braços e esperei. E esperei. E... Maldição! O que estava fazendo com que aquela mulher demorasse tanto para descer? Estaria ela praticando algum tipo de vingança em razão da minha ausência? Fechei a cara. Quem ela pensava que era para me fazer esperar – olhei no relógio e já havia se passado meia hora – todo esse tempo, nessa temperatura amena? Quando eu já havia perdido a conta de quantas vezes havia bufado por ela me fazer esperar, Ginevra surgiu... Acompanhada? Como é que ela se atrevia? Era justamente o apanhador do Montrose. Eles conversavam animadamente e eu senti algo dentro de mim rugir com ferocidade. Ela não poderia estar flertando com ele, poderia? Quis me bater mentalmente por me sentir inseguro daquele jeito. Ginevra era minha e não se daria ao disfrute de ficar de paquerinhas com caras pelo menos 10 anos mais novos que ela. Bom, ela poderia não ter segundas intenções, mas ele... Ah, aposto que já tinha pensado nela nua umas cinco vezes durante a conversa. Não deixaria que ele pensasse uma sexta vez sobre isso. Andei sorrateiramente até onde eles estavam:
- Jogou bem, Mason.
- Obrigado, Sr. Malfoy.
Sorri e falei:
- Poderia nos dar licença? Tenho assuntos a tratar com a Sra. Potter.
Ginevra fez cara feia para mim e então acrescentou para Mason:
- Mande-me uma coruja para marcarmos uma entrevista, certo? Faça isso ainda amanhã. Foi um prazer conhecê-lo pessoalmente, Paul.
- O prazer foi meu, Ginevra. – ele sorriu e eu continuei sério.
Esperei que ele se afastasse alguns passos, antes de me dirigir a ela:
- A sério que você deixou que ele te chamasse pelo primeiro nome?
Ela revirou os olhos:
- Não é nada demais, Draco. Estava apenas sendo simpática. Ele é um astro de quadribol, tenho que entrevistá-lo. É meu trabalho.
Respirei fundo, tentando parecer compreensivo. Potter perdera pontos com ela ao implicar com o emprego, eu não poderia cometer o mesmo erro:
- Por que demorou? – limitei-me a perguntar.
- Porque eu estava fazendo o meu trabalho, caso você não tenha percebido. Não estou aqui a passeio, se é o que tem pensado que tenho feito esses dias por aqui. – respondeu atravessado.
- Credo, que mau-humor. Eu apenas estava perguntando. Pensei que estivesse fazendo de propósito para me castigar.
- Draco, eu não sou criança. Sei que você esteve ocupado. Apenas quero que aceite que eu também estive.
- Eu aceito, ponderei. – e coloquei uma mão na cintura dela – Sentiu minha falta?
- Draco, aqui não. – ela se desvencilhou, olhando para os lados – Alguém pode nos ver.
- Onde então? – eu ri e acrescentei – Bom, eu estava torcendo para o Montrose e você?
- Também. – ela sorriu.
- Acho que deveríamos comemorar. Que tal irmos tomar uns drinques em um bar? Qualquer coisa você pode fingir que está me entrevistando sobre meus planos para o quadribol como candidato a ministro...
- Ah, não sei... Tá, vamos.
Andamos lado a lado, mas não próximos demais. Eu queria era andar de mãos dadas com ela para mostrar que ela era minha e que era proibido aos outros terem certos pensamentos sobre ela... Sei como esses jogadores de quadribol são assanhados! Andamos por alguns minutos até um pub que parecia ser o melhorzinho naquela rua bruxa. O bar era legal, parecia bem equipado até. Havia alguns bancos lá perto, mas preferi uma mesa. Fui buscar as bebidas, sempre observando para ver se algum marmanjo se atreveria a importunar a minha ruiva. Assim que voltei com as bebidas, ela sorriu para mim e sorveu um gole generoso de seu próprio copo.
- Cuidado, Ginevra. Beber demais pode te fazer passar mal. – alertei-a.
- Draco, eu sei beber. São anos de experiência, meu caro. – respondeu, piscando um olho.
Primeiro foram os copos de gim, depois algumas doses de firewhisky. Nossas conversas se tornavam cada vez mais risonhas e descontraídas e nossas mãos se tocavam frequentemente. Algum tempo passado, Ginevra olhou-me fixamente:
- O que foi? – quis saber.
- Eu senti a sua falta, Draco. – ela me falou, com a voz um pouco enrolada.
- Eu também. – sorri para ela – Você não sabe o quanto.
- Quero que você me mostre... – ela insinuou, esfregando o pé dela no meu tornozelo.
- Você é uma bêbada safada. – eu ri e me levantei, ajudando-a a ficar em pé – Vamos embora, você já bebeu o suficiente por hoje.
- É que o jogo foi muitooo bom, Draco. – ela tentou se explicar e se apoiou no meu braço.
Chegando do lado de fora resolvi que seria melhor irmos a pé. Aparatação conjunta traria o risco dela ficar enjoada e... eca! Não! Por sorte, o local em que eu estava hospedado não ficava longe dali. Segurei-a consideravelmente próxima de mim, para que ela não perdesse o equilíbrio em seus sapatos de salto. Andamos por alguns minutos até que alcançássemos a porta do chalé em que eu estava hospedado. Eu estava pegando a varinha dentro de minhas vestes quando Ginevra me empurrou contra a porta:
- Mas que di...?
No instante seguinte, os lábios dela prensaram os meus. Fui pego de surpresa, não esperava aquela atitude dela. Respondi ao beijo automaticamente. Era certo. Era confortável. Era familiar. Quando quebramos o contato, observei o sorriso bobo que havia no rosto dela e lembrei que ela estava bêbada. Melhor seria mesmo que entrássemos logo e eu a colocasse para dormir. Rapidamente abri a porta e a conduzi para dentro. Fiz ela se sentar na cama e tirei seus sapatos:
- Agora você pode dormir. – acariciei o rosto dela – Vai se sentir nova em folha pela manhã.
- Que falou em dormir, Draco? Eu tô beeem... – ela sorriu.
Eu ri:
- Discordo disso, Ginevra.
- Não quero dormir! Sinto euforia, não conseguiria dormir. Tenho vontade de fazer mil coisas ao mesmo tempo.
Eu ri novamente antes de responder, achei que ela estava muito engraçada:
- Ah, é? Do que você tem vontade? De pegar uma vassoura e sair sobrevoando o continente europeu?
- Adorei essa ideia! – ela bateu palmas e eu já ia me arrependendo de ter falado isso – Mas sabe o que eu adoraria mais?
- Por favor, não me diga que é continuar bebendo pra prolongar a sensação. - disse seriamente.
- Não é isso. Eu quero fazer amor com você. – e ela segurou minhas mãos.
- Ah, isso... – sorri maliciosamente, mas em dois segundos a consciência me tomou – Ginevra, você está bêbada. Eu não vou me aproveitar de você estar nesse estado.
- Não seja bobo. – ela revirou os olhos e soltou minhas mãos – Essas últimas semanas sem te ver foram tortura para mim. Eu te amo, Draco. Acho que devemos conversar sobre isso. Sobre os nossos sentimentos, se podemos ter um futuro... Tem sido tão difícil para mim levar essa vida dupla. Você não tem ideia.
Eu tinha sim ideia, para mim também estava sendo. Mas como ela sempre foi uma grifinória certinha deve sentir uma culpa mais arrasadora do que eu sinto. No entanto, apenas o pensamento de discutir a relação já me apavorava. De fato preferia quando ela apenas queria sexo de mim nessa noite.
- Eu te amo também, Ginevra. Mas tem certeza que quer conversar sobre isso agora?
- Sim, é claro que sim, Draco! Nós estamos arrastando esse caso secreto desde setembro quando nos beijamos naquele evento político. Quando estou com você me sinto nas nuvens, mas quando estou com minha família sinto uma culpa corrosiva praticamente o tempo todo. Isso está me matando. Eu não tenho mais vontade de ir para a cama com o meu marido, mas tem vezes que eu tenho que ir para que ele não desconfie que estou cometendo adultério. Meus filhos e Harry me admiram e eu estou fazendo algo que os magoaria...
- Ginevra, eu também tenho problemas. A Astoria é muito devotada a mim, ela faz de tudo para tentar me fazer feliz. Meu filho é meu orgulho e eu sei que ele ficaria desapontado comigo se descobrisse que estou traindo a mãe dele.
- Mas o que você sugere então, Draco? Não podemos continuar a arrastar essa situação. Em algum momento vai acabar saindo do nosso controle.
- Como assim? – eu quis que ela especificasse.
- Você não acha que podemos acabar brigando por ciúmes e outros motivos ou então alguém pode descobrir sobre nós? Estou sendo realista, Draco. Viu como não estou tão bêbada quanto você pensava? Eu vejo as coisas como elas são.
- Você sabe muito bem o quanto nossa situação é complicada, Ginevra. Achei que concordássemos sobre isso.
Ela respirou profundamente e nós nos encaramos por vários segundos, em silêncio, até que ela resolveu quebrá-lo:
- Quer mesmo ficar comigo, Draco?
- Mas que pergunta estúpida é essa? A resposta é óbvia.
- Então divórcio. – ela falou, categoricamente demais para quem não estava completamente sóbria.
Foi a minha vez de respirar profundamente:
- Sou uma pessoa pública. Eu já te disse que...
- O Harry também é.
- Tá. Vamos deixar para discutir novamente após as eleições, o que você acha? Até lá nos deveríamos pensar sobre tudo para não decidirmos nada de cabeça quente.
- E acho que não deveríamos nos ver nesse meio tempo. A imprensa vai estar muito em cima de você e do Harry.
- Tudo bem, você está certa. – concedi – Eu vou sentir a sua falta...
Abraçamo-nos fortemente. Seria tão mais fácil se eu não fosse apaixonado por ela. Minha carreira política não permitia que eu saísse da linha do moral e socialmente aceitável... Já havia batalhado tanto durante esses anos para mostrar que eu era digno de confiança. E agora esse sentimento avassalador ressurgia pra complicar a minha vida!
A seguir nos beijamos. De início suavemente, mas com o passar dos segundos foi se tornando mais e mais carregado de desejos e segundas intenções. Já estávamos em uma cama, era óbvio para o que as coisas estavam encaminhando. Despimos-nos com pressa, era a sede daquelas últimas semanas de ausência e do que ainda estava por vir. Fizemos amor com adoração. Olhos nos olhos, mesmo ritmo, respirações falhas, lamúrias e poucas palavras para descrever aqueles momentos. Com Ginevra, sexo não era apenas sexo. Minha satisfação estava profundamente conectada à dela. Era um bem-querer que transbordava qualquer definição que eu pudesse ter sobre o que era um orgasmo e a caminhada para tal.
Após termos atingido o ápice, ficamos deitados de mãos dadas:
- Eu queria poder fazer coisas comuns com você, como passear pelo beco diagonal de mãos dadas e tomar sorvete na Florean Fortescue.
- Eu queria poder te levar pra jantar nos melhores restaurantes bruxos, buscar você no seu emprego e poder te contar como foi meu dia no trabalho. Tipo, sermos um casal normal. – eu falei, enrolando eu dedo inocentemente no cabelo dela.
- É mesmo. Não me arrependo de ter casado com o Harry, pois amo meus filhos. Mas gostaria que eu e você pudéssemos ter uma chance de sermos realmente felizes um com o outro. – ela me confessou e eu senti um peso dentro de mim.
- Vamos ver como serão as eleições e depois pensaremos nisso. Eu prometo pensar com carinho sobre isso, Ginevra. Você é maravilhosa, querida. – prometi a ela.
Ela sorriu e a seguir acariciou meu rosto e me deu um selinho:
- Sabe a parte do sono? Então...
- Vamos dormir. Tenho certeza que terei uma bela noite de sono tendo você nos meus braços.
Ela riu:
- É, vamos fazer algo de um casal normal. Dormir de conchinha.
- Pois, é. Vem cá. – eu falei, virando as costas dela para mim e deixando que ela se aninhasse a mim.
- Boa noite, Draco. – ela se despediu e bocejou em seguida.
- Boa noite, minha ruiva. – respondi e depositei um beijo na curva do pescoço dela, o que a fez suspirar.
Depois eu haveria de pensar em problemas, eleições e casamento. Agora não. Naquele momento eu estava em paz e tudo que eu queria era não ter preocupações e dormir com a mulher que eu amava em meus braços, viajando para a terra do sono.
N/A: Sim, sei que demorei séculos! Mas além dos vários afazeres universitários a minha inspiração/imaginação tinha me abandonado. Espero que o capítulo tenha sido ao menos razoável e já vou avisando que no próximo capítulo vai haver uma tempestade... ahauhauahu. Esse capítulo foi a “tranqüilidade” antes da tempestade.
Tradução das epígrafes de letras de música. A primeira é a do Green Day e a segunda do Desireless.
Eu estou pedindo para sonhar e discordar das mentiras sujas
Esse é o começo do final de nossas vidas
Num feriado
***
Viaje, viaje
Mais longe que a noite e o dia
Viaje
O espaço inaudito do amor
Viaje, viaje