Gina contemplou furiosa os raios de sol que entravam pela janela de sua cozinha. O céu limpo e o calor eram o prenúncio de que seria um excelente dia para um churrasco. Entretanto, ela não participaria da reunião. Não iria a parte alguma, graças a Harry e, claro, a sua mãe.
Os jardineiros contratados para cuidar dos jardins do edifício estavam chegando numa caminhonete verde, o que lembrou Gina de que as floreiras das janelas e da pequena varanda de seu apartamento estavam precisando de um pouco de atenção.
Ela ouviu o barulho em sua caixa de correspondência no corredor e, mesmo descalça, foi abri-la. Retesou-se ao perceber a caligrafia do pai num envelope grande que, aparentemente, continha algum tipo de convite formal. Outro casamento?, ela pensou desanimada, imaginando se o pai ainda não se cansara de trocar de parceiras.
Era um convite de casamento, Gina descobriu, mas para o da filha de uma de suas ex-madrastas.
Emily era a filha mais velha da segunda esposa do pai de Gina. Era muito afeiçoada a ele, muito mais que a própria Gina.
Gina ainda se lembrava da dor e do ressentimento que sentira nas raras visitas a seu pai, ao perceber a atenção especial que ele dedicava a Emily. Como sentia-se rejeitada ao sentir que ele amava Emily, que nem era filha, mais do que a ela!
Gina respirou fundo.
Seu pai explicava, no bilhete escrito a mão anexado ao convite, que estava fazendo uma reserva, para ela e acompanhante, no hotel local:
"Infelizmente não podemos acomodar você em casa, pois estaremos hospedando Emily e o noivo. Certamente os gêmeos também ficarão conosco e estarão trazendo as namoradas da universidade. Portanto, sei que você entenderá..."
O pai de Gina possuía uma magnífica casa de sete quartos, em estilo georgiano, que comprara por uma ninharia nos anos oitenta. Ela entendia que, com tantos filhos, não haveria espaço para ela. Para falar a verdade, quando houvera?
Jogando o convite sobre a mesa da cozinha, decidiu que não iria ao casamento. Por que iria? Para submeter-se ao papel da intrusa, da indesejada? Que Emily fizesse o papel da filha favorita!
Cada vez mais irritada com o brilho do sol, Gina fechou a persiana da cozinha.
Sabia o que iriam dizer quando ela não aparecesse para o casamento de Emily, mas não se importava. Por que haveria de se importar, se o próprio pai não se importava com ela?
Depois de tomar o café da manhã, Gina lembrou-se de que não podia deixar que Luna descobrisse que ela ficara em casa. Alem do mais, tendo Harry como vizinho, mesmo não o tendo visto após a discussão, era mais que certo que Luna saberia onde ela passara o dia.
Portanto, porque estava precisando de plantas, adubo composto e vários outros itens para as áreas plantadas de seu apartamento, decidiu visitar um famoso centro de jardinagem especializado em plantas raras que ficava a uma boa hora de carro de seu bairro.
Gina retornou a sua casa no começo da tarde e, com uma rápida olhadela, certificou-se de que a caminhonete de Harry não estava no estacionamento.
Enquanto descarregava o carro, tentava esquecer como sua manhã fora turbulenta. O tempo agradável trouxera muitos visitantes ao centro de jardinagem, a maior parte formada por famílias de pai, mãe e bebê.
Gina reconheceu que os pais haviam mudado muito desde sua infância. Agora estavam muito mais envolvidos com os filhos, mais fisicamente afetivos. Vê-los com as crianças a fizera reviver tempos passados, tempos sofridos. Apesar do que Harry dissera, não precisava de aconselhamento para entender as próprias emoções.
Naquele momento, o churrasco de Luna e Neville estaria no auge. O pequeno quintal estaria cheio de amigos deliciosos, agradáveis e divertidos, com interesses e estilos de vida bastante cosmopolitas. Gina sabia que teria se divertido muito. Entretanto, graças a Harry, estava de fora.
Sem dúvida, àquela altura, Luna já teria dado um jeito de apresentá-lo a Cho. Francamente, Gina suspeitava que a amiga tinha razão: Cho era exatamente o tipo de Harry.
Ela ficou imaginando se ele olharia dentro dos olhos de Cho para dizer que "sexo sem emoção é como uma flor sem perfume"... Só imaginava o efeito que aquelas palavras teriam em sua amiga tão vulnerável.
Basta, Gina!, ela ralhou consigo mesma, enquanto carregava as plantas para o apartamento. Se estava preocupada, era pelo bem de Cho, pronto. Não queria ver sua amiga envolvida com um homem hipócrita como Harry Potter.
Foram necessárias várias viagens até que ela pudesse levar todas as compras até o apartamento. Finalmente, abriu a porta-balcão que dava para sua varanda e começou a remover o canteiro de amores-perfeitos, murmurando ternamente às plantas que elas logo seriam transferidas para um canto especial no jardim do prédio.
Ao terminar a varanda, já começava a escurecer, apesar de a temperatura ainda estar agradável. Mas Gina continuou a trabalhar. Para que parar? O que mais tinha a fazer, além de escrever uma carta para o pai, recusando o convite?
As onze da noite, Gina colocou a última planta no lugar. A varanda precisava de uma limpeza, mas ela decidiu que isso poderia esperar até a manhã seguinte. Deixando a porta-balcão aberta para manter a sala arejada, entrou no chuveiro para um banho repousante.
Harry ficou intrigado ao perceber as luzes acesas no apartamento de Gina. Luna lhe contara que ela iria passar o fim de semana fora....
Sua preocupação aumentou quando, ao sair do carro, percebeu que a porta da varanda estava aberta. Seria muito fácil para um ladrão escalar a parede e entrar. As fechaduras eram frágeis, como ele próprio pudera confirmar em seu apartamento, e Amy comentara na manhã anterior o quanto estava preocupada com a segurança do prédio.
Estava justamente imaginando o que fazer, quando viu o carro de Gina. O que estava fazendo em casa? E se voltara inesperadamente e surpreendera o intruso? E se...?
Harry subiu as escadas de dois em dois degraus e então bateu rapidamente à porta de Gina. Ela ouviu as batidas enquanto saía do banho. Estranhando que uma visita chegasse àquela hora, prendeu o cinto do robe com força e foi até a porta. Só podia ser Amy que, não conseguindo dormir, procurava alguém para conversar.
Sem maquiagem e com os cabelos molhados presos com uma toalha, Gina parecia mais a criança solene que ela fora um dia do que a mulher que era agora.
Ao abrir a porta, a última pessoa que esperava ver era Harry. Imaginava que ele, àquela altura, estaria confortavelmente instalado na casa de Cho, sem dúvida oferecendo o tipo de solidariedade que fazia Gina ter náuseas só em pensar.
Mas ele não estava com Cho.
Sem titubear, ele entrou e fechou a porta atrás de si.
— Você está bem?
— Sim, é claro que estou bem! Por que não deveria estar?
— Luna disse que você passaria o fim de semana com sua mãe. Quando cheguei e vi as luzes e a porta de sua varanda aberta, pensei que havia ladrões em seu apartamento e...
— E então bateu em minha porta, esperando que eles o deixassem entrar — ela escarneceu. — E isso?
— Não. Eu sabia que você estaria aqui porque vi seu carro; portanto pensei... — Ele passou as mãos pelos cabelos, ciente de como ela iria reagir quando soubesse o que ele imaginara. Uma mulher sozinha... vulnerável... linda.,, e com o tipo de temperamento que enlouquece um homem...
— O que está fazendo aqui, afinal? — ele indagou. — Luna me contou que sua mãe mora no litoral sul.
— Sim, é verdade — Gina concordou friamente. Agora teria que dar alguma explicação a Luna. Poderia dizer à amiga que, ao chegar à casa da mãe, descobrira que ela viajara. Quanto a Harry, bem... Que obrigação tinha de dar-lhe alguma explicação?
— Estava indo para a cama — ela começou, e então se calou ao ver a marca de batom no rosto de Harry... Batom no rosto e... Ela se aproximou alguns centímetros e sentiu o perfume nas roupas de Harry.., Era o perfume de Cho; ela o reconheceria em qualquer lugar.
Ele acabara de deixar uma mulher... a amiga de Gina com quem ele compartilhara uma noite muito... íntima. Uma noite muito íntima, ela decidiu amargamente ao reparar em outra mancha de batom perto do ouvido de Harry.
Por mais que fosse contra seus princípios, dessa vez Gina sentiu que deveria valer-se de um pequeno subterfúgio. Afinal, não estava em guerra com aquele homem? Ela baixou a voz, os olhos e disse docemente:
— Foi muito gentil de sua parte preocupar-se comigo. — Um sorriso contrito curvou seus lábios. — Estava a caminho da cozinha, para preparar o jantar; quer me fazer companhia ou já está satisfeito?
Por um momento, Gina imaginou que ele entendera o sentido implícito de suas palavras, mas ele respondeu simplesmente:
— Aceito apenas uma xícara de café, obrigado.
— Uma xicara de café... Bem, isso eu posso providenciar. As portas da varanda ainda estavam abertas e, quando Gina foi fechá-las, deliberadamente soltou a toalha dos cabelos. Estava usando apenas um robe de algodão fino e, com alguma sorte, a luz por detrás dela daria a Harry uma boa ideia do que o tecido estava escondendo.
Gina sabia, sem modéstia, que tinha um corpo muito sensual. Apesar da boa ossatura, tinha formas delicadas e femininas. Sua cintura era fina, os quadris levemente arredondados, os seios empinados e firmes. Os mamilos haviam se enrijecido com o ar fresco da noite. Bom..., ela pensou. Os homens gostavam de pensar que apenas eles provocavam aquela reação nas mulheres. Harry não seria diferente.
Mas se ele fosse um décimo do homem que dizia ser, como poderia reagir às insinuações de Gina se, como ela deduzira, acabara de fazer amor com Cho? Não, ele não era o que se gabava de ser; ela sabia.
Gina caminhou até a cozinha, os movimentos do corpo deliberadamente sutis e sensuais. Ao encher a chaleira, sorriu e ronronou:
— Por que não fica à vontade?
Ele não a fitou enquanto se sentava, mas Gina sabia que ele estava atento às curvas sensuais de seus seios. Não havia muito espaço na cozinha estreita, mas não havia motivo para ele deliberadamente recolher as pernas para não tocá-la enquanto tirava o paletó e colocava-o sobre a perna.
O convite do pai de Gina ainda estava sobre a mesa. Depois de servir o café, ela pegou o envelope rapidamente.
— Um convite formal de meu pai. Foi a maneira que ele encontrou para me dizer que Emily é a filha que ele prefere, tão doce e disposta a agradar...
— Emily? — Harry franziu a sobrancelha. — Sua meia-irmã? — ele indagou com aquele interesse tipicamente americano.
— Não! — ela apressou-se em responder. — E filha de uma de minhas ex-madrastas. Louise, a mãe dela, foi a segunda esposa de meu pai. Agora estão divorciados, mas Emily sempre manteve contato com meu pai. Ela o considera como seu verdadeiro pai. Ele ficou com Louise tempo apenas para produzir os gémeos.
— Depois veio Harriet, que não tinha filhos. Aquilo durou cinco anos e produziu Anne, Sam e... deixe-me pensar... Gemma ou Jemima. Não consigo me lembrar. Como vê, com o tempo não havia mais espaço para mim na casa. E, claro, eu era uma criança difícil, nada parecida com Emily, que era tão paciente e adorável com meus irmãos... Agora é a vez de Lucinda. Ela e Emily também são amigas íntimas. Para falar a verdade, parece que as duas foram colegas de escola. Emily é apenas três anos mais velha que eu, e papai gosta tanto de coisinhas jovens e inocentes... Agora ele deve estar ficando cansado, pois o relacionamento já está durando três anos. E, é claro, os tri-gêmeos são tão agitados! Não é fácil para um homem com cinquenta e tanto anos... — Gina balançou a cabeça. — Sem dúvida ele adorará o papel de pai da noiva, principalmente por que Emily sempre deixará muito claro que ele é o homem mais importante em sua vida...
— Então não vai ao casamento? — Harry a interrompeu gentilmente.
— Casamentos não são meus eventos favoritos. — Gina o fitou, acrescentando: — Não, não irei e ninguém sentirá minha falta. O convite foi apenas formalidade. A verdade é que meu pai gostaria de acreditar que não existo. E, é claro, se eu for — ela ponderou — sempre alguém comentará que não estou fazendo meu papel feminino, que não estou acompanhada de um homem atraente... atraente como meu pai, claro...
Gina deu-se conta de que sua voz não apenas aumentara de tom, como também se carregara de emoção. Por que estava se comportando daquela forma? Por que estava revelando tanto sobre si?
Observando as emoções no rosto de Gina — raiva, confusão, desconfiança e dor — Harry sentia vontade de abraçá-la, de curá-la de todos aqueles males. Conseguia vê-la como a criança que fora: a intrusa, a diferente, a sensível... e inteligente demais para não perceber o preconceito dos adultos que a cercavam.
— Se quiser, vou com você ao casamento — ele disse. A oferta deixou Gina estarrecida. As palavras de Harry deixaram-na incapaz de qualquer outra ação que não fosse simplesmente perguntar:
— Por quê?
Ele apenas deu de ombros.
— Por que não?
— Não vou! Não tenho motivo nenhum para ir — Gina respondeu ferozmente.
— Tem, sim — Harry contradisse. — Ele é seu pai. Todos são sua família...
— Não tenho pai! — Gina irrompeu. — Nem família. Não vou e ponto final.
— Assim como não foi ao churrasco de Luna? Estranho... Não imaginava que você fosse o tipo de mulher que fugisse de situações para não se sentir vulnerável. Isso só faz provar...
— Eu não fugi! — Gina atalhou, exasperada. — E nada me faz sentir vulnerável!
Harry ignorou o olhar desaflante de Gina.
— Está mentindo, Gina; não apenas para mim, mas para você mesma...
— Fingindo! — Gina já ouvira o bastante. — Afinal, quem aqui está fingindo? Você...
Gina percebeu, horrorizada, que não conseguia mais falar, que sua garganta estava fechando, que os olhos estavam cheios de lágrimas. Lágrimas... Ela nunca chorava. Nunca...
Ao ver a reação de Gina, Harry decidiu que havia momentos na vida de um homem em que deveria ignorar a voz interior que lhe recomendava cautela e agir seguindo unicamente seus instintos.
Com os olhos toldados pelas lágrimas, Gina o viu levantar-se e aproximar-se, mas não percebeu o que ele iria fazer até sentir os braços fortes ao redor de seu corpo, uma das mãos prendendo-a contra o corpo dele enquanto a outra lhe afagava as costas com a mesma ternura que um pai usaria com uma filha.
Por alguma razão, o que ele estava fazendo, ao invés de acalmá-la, de controlá-la , fez com que ela chorasse com maior desespero, com soluços tipicamente infantis. Ele murmurava palavras doces para confortá-la.
Nenhum homem a tratara daquela forma, aconchegando-a em seus braços fortes e consolando-a como se ela fosse uma criança. E ela não costumava reagir daquela forma, chorando, retribuindo o abraço e só desejando sentir-se segura... compreendida.
Compreendida. Ela parou de chorar, retesou o corpo e afastou-se, rejeitando Harry.
Se, até aquele instante, uma parte do cérebro de Harry estava lhe dizendo que o corpo que ele abraçara não era o de uma mulher sensual, mas o de um ser humano carente, a outra parte entrou em estado de alerta ao vê-la erguer o rosto, os lábios entreabertos, prontos para criticar seu comportamento protetor.
O que havia na combinação de vulnerabilidade e força num rosto de mulher molhado de lágrimas e olhos cheios de fúria que evocavam uma reação tão instantânea e primitiva num homem?, ele se perguntou no momento em que desistiu de resistir à tentação.
Harry a beijou. O inesperado do calor de seus lábios contra os de Gina fez com que ela arregalasse os olhos, como uma garotinha inexperiente.
Ela tinha um gosto delicioso, Harry percebeu. Os lábios doces e saborosos como um pedaço de fruta faziam-no querer mais e mais.
Gina sentiu-se estonteada quando ele afastou os lábios o suficiente para tocar os dela com a ponta da língua. Ela olhou para a boca de Harry e então ergueu os olhos para os olhos profundamente verdes, a expressão confusa. Um arrepio involuntário percorreu seu corpo.
Harry percebeu que a forma com que ela o fitava não era uma encenação; duvidava até que ela soubesse o que estava fazendo. Mas ele sabia exatamente o que ela desejava; não precisou esperar que pedisse. Portanto, beijou-a profundamente, como desejara beijá-la desde o início.
Quando encostou a cabeça no braço de Harry para permitir que ele lhe beijasse o pescoço, Gina gemeu de puro prazer, enterrando as unhas nos músculos das costas dele e estremecendo às carícias. Ela ergueu os seios, os mamilos túrgidos e escurecidos, claramente visíveis através do tecido fino.
Harry afastou os tecidos do robe e deslizou as mãos ao longo das pernas bem torneadas, para sentir se a feminilidade de Gina tinha a mesma umidade suculenta e deliciosa de seus lábios.
Queria tocá-la com seus dedos e levar o cheiro, o gosto de Gina até seus lábios, para então beijá-la enquanto ainda sentia o gosto dela em sua boca. Desejava que ela soubesse que, uma vez saciado o desejo de estarem juntos, ele queria repetir aquela intimidade substituindo os dedos com sua boca... e, se ela desejasse compartilhar aquela intimidade, explorando-o da mesma forma, então...
Gina gemeu fundo ao sentir o desejo em seu corpo começar a latejar. Não podia esperar mais. Jamais desejara um homem com tamanha... intensidade.
Suas mãos deslizavam pelo corpo de Harry. Ele calou os pequenos gemidos de satisfação com um beijo sôfrego e Gina logo sentiu-lhe a ereção. Ela não o queria daquela forma, com rapidez e desespero, o prazer atingido antes que pudessem desfrutá-lo. Ela desejava... desejava...
Afastando os lábios, murmurou roucamente:
— Aqui não... Na cama... Quero... quero você na cama, Harry... Você inteiro, e não apenas...
Ele entendeu, sem que ela precisasse completar seu desejo. Deixou que ela o guiasse até o quarto e então estreitou-a novamente em seus braços, beijando-a profundamente, usando sua língua para demonstrar o prazer que seu corpo poderia proporcionar a Gina, aos dois. Ele afastou o robe dos ombros macios e explorou-lhe o corpo com um toque delicado e torturante. Estremecendo, Gina colou o corpo contra o dele.
Contudo, quando ela fez menção de despi-lo, Harry afastou-a gentilmente e sussurrou:
— Não, ainda não... Quero primeiro olhar para você... vê-la... conhecê-la, Gina.
Ela não tinha inibições quanto a seu corpo e não sentia vergonha de sua sexualidade, de seus desejos. Entretanto, pela primeira vez na vida, enquanto Harry dava um passo para trás para contemplar, com o olhar lento, cada parte de seu corpo, conheceu pela primeira vez o que era a insegurança, a ponto de conter a respiração, ansiosa, preocupada... Ao fitar os olhos de Harry, seu medo contido transformou-se em pura emoção.
— Gina... — ele disse roucamente e o tremor em sua voz mostrou a Gina tudo o que ela precisava saber. Ele estava extasiado, a excitação evidente pela forma com que ele adorava a perfeição feminina de seu corpo.
Recuperando a confiança, ela esperou que ele se aproximasse; que ele a tomasse em seus braços e a beijasse enquanto a carregava para a cama. Ao aproximar-se da cama, ele já a beijava lentamente no pescoço. Enquanto a deitava na cama, já lhe afagava deliciosamente os seios. Enquanto deitava o corpo sobre o dela, já sugava avidamente um mamilo túmido. Gina emitiu um longo gemido de satisfação. A carícia tornou-se mais insistente, mais forte e a sucção assumiu um ritmo alucinante. Com os olhos enevoados pelo desejo, Gina começou a desabotoar a camisa de Harry e então sentiu... o perfume, o inconfundível perfume de outra mulher.
Foi como uma queda livre sem pára-quedas. Não havia mais esperança, nenhuma sensação de segurança. E com o reconhecimento da dor, veio o choque, a raiva... o pânico.
Agora Gina tinha toda a prova de que precisava. Como estivera certa em não confiar nele!
Com determinação, tentou recuperar o chão, tentou convencer-se de que o que acontecera era parte de seu grande plano, de que sabia o que estava fazendo o tempo todo, de que simplesmente fingira que o desejara, de que nunca estivera a ponto de perder o controle.
Ao sentir o corpo sensual retesar-se, em claro sinal de rejeição, Harry ergueu os olhos.
— Obrigada — disse Gina —, mas não precisa seguir adiante. Já provou o que eu queria... que eu estava certa a seu respeito...
— Certa a meu respeito? — Harry viu a raiva nos olhos azuis, mas não entendeu o que estava acontecendo.
— Você é uma farsa, Harry! — A expressão no rosto de Gina era triunfante. — Um mentiroso... um impostor. Não é nada diferente do resto dos homens... Você não queria apenas sexo, sexo sem envolvimento, lembra?
Harry fechou os olhos e apelou para o autocontrole. Agora entendia. Sabia o que estava acontecendo, o que ela estava tentando fazer. Instinto de preservação... A compaixão de Harry ajudou-o a aceitar a necessidade de Gina rejeitar as emoções que certamente estava sentindo. Mas ele ainda era um homem, afinal, e naquele momento...
— Gina — ele disse com firmeza —, não há como descrever o que estamos experimentando... compartilhando... como simplesmente sexo. Entendo que é difícil para você...
— Não? — Gina o interrompeu, o tom cortante. — Então, se não foi apenas sexo, o que foi? Amor? — ela escarneceu.
— Não sei — ele admitiu. — Mas afirmo que havia muito mais acontecendo entre nós, não apenas a excitação física de dois corpos...
— Deveras? Ora, pois deveria saber. Afinal, disse a mesma coisa a Cho, estou certa?
— Cho?
Gina admitiu que ele era um bom ator, para fingir com tanta facilidade.
— Sim, Cho — ela repetiu. — Lembra-se dela? E aquela com quem estava, antes de mim... aquela cujo batom ainda está no seu rosto... aquela cujo perfume ainda está na sua roupa. Bem aqui!
Ela deixou a ponta dos dedos tocá-lo no pescoço, no ponto onde ela lhe abrira a camisa em seu desejo de afagá-lo.
— Você está com o perfume dela... Dela... E, para que não restem dúvidas — ela acrescentou, determinada a sair-se completamente vitoriosa daquela experiência —, eu jamais o desejei, Harry... nem que fosse apenas para o sexo. Você não é meu tipo. Só o que queria era demonstrar como é fácil descobrir suas mentiras.
Harry já ouvira o bastante. Ter compaixão era uma coisa; permitir que ela desse vazão àquela paranóia impunemente era outra.
— Eu não minto — ele asseverou. — Não preciso disso. Nem tenho a tendência de criar um mundo de fantasia para mim, com vilões inexistentes, porque é a única forma de não me sentir ferido, com medo ou vulnerável. E não preciso fingir que todas as mulheres são minha mãe e, que, por isso, carregam a mesma culpa por terem me abandonado. Seu pai abandonou você e sua mãe porque...
— Não foi minha culpa! Não é verdade... Tentei ser boa, ser o que ele queria!
Com o rosto pálido, Gina quase gritou aquelas palavras, os olhos injetados, cheios de lágrimas.
— Tem razão, Gina, não foi culpa sua — ele concordou gentilmente. — Mas, no fundo, não é nisso que acredita, é? Assim como se recusa a crer que pode estar errada... que eu possa ter genuinamente desejado você, física e emocionalmente... que eu não menti, que...
— Vá para o inferno! — Gina exclamou. — Como pode vir até mim, depois de ter saído da cama de Cho? Não posso acreditar em você!
— Não? — Harry indagou rispidamente, a paciência finalmente esgotada. — Então tente acreditar nisto...
Ele a aprisionou em seus braços e calou o protesto de Gina com um beijo apaixonado e furioso que imediatamente derrubou-lhe as defesas e fez com que ela se agarrasse a ele, combatendo fogo com fogo, retribuindo o beijo com a mesma urgência desesperada, sabendo que não era apenas o contato entre seus corpos que a estava fazendo agir daquela forma, sabendo que a ereção de Harry apenas espelhava o desejo que latejava em seu próprio corpo.
— Não fiz amor com Cho... Eu nunca, nunca saí da cama de uma mulher, do corpo de uma mulher — ele enfatizou — para outro. Eu agora poderia levar nosso contato à conclusão natural e possuí-la — ele disse cruamente —, para provar como está errada, não apenas com relação a mim, mas com relação a si mesma. Só Deus sabe o quanto a desejo. Mas, se eu a possuir, estarei indo contra meu próprio princípio de jamais tocar numa mulher com raiva. E, francamente, você ainda não é uma mulher. É apenas uma criança zangada e ferida, que agride todos os homens que se aproximam porque o único homem que você ama não retribui seu amor.
Os lábios de Harry sorriram ao contemplar a expressão furiosa de Gina, mas seus olhos permaneceram destituídos de qualquer emoção.
O orgulho de Gina impedia que ela escondesse o corpo; ao contrário, ela levantou-se da cama com a cabeça erguida e acompanhou-o até a porta. Ao chegar lá, Harry voltou-se, os olhos fixos nos dela.
— Para sua informação, a única mulher cujo perfume poderia estar em mim, na minha pele, no meu corpo... é você. Desejava adormecer sentindo seu cheiro em mim, o seu gosto em minha boca. Sabia disso? — ele perguntou, a voz grave.
Para a surpresa de Gina, ele repentinamente aproximou-se e inclinou a cabeça para beijar-lhe o seio nu, antes de dizer roucamente:
— Queria provar você não apenas nos seios, mas aqui também.
Então, antes que Gina pudesse impedir, Harry tocou-a brevemente, mas íntima e deliberadamente, onde o corpo dela latejava, úmido e preparado para recebê-lo.
O sangue subiu instantaneamente para o rosto de Gina.
— Sim, eu sei — sussurrou Harry. — Você quer que eu parta!
Emudecida, Gina observou-o caminhar até a cozinha para pegar o paletó. Esperou um tempo demasiadamente longo até que tivesse energia para fechar a porta e trancá-la.
Nada em sua vida, em sua experiência, tê-la-ia preparado para o que acabara de acontecer... Nada e ninguém.