Aparatar era pior do que os livros descreviam. Pérola sentiu o chão sumir de seus pés e instintivamente agarrou-se ainda mais ao homem que lhe abraçava. Seu estômago revirava como se estivesse em uma longa montanha russa, tinha calafrios e só torcia que aquilo acabasse. Mas quando finalmente sentiu os pés encontrarem o chão novamente percebeu o quanto estava tonta e se noção de equilíbrio. Pérola tentara dar um passo mais sentira seu corpo cair, suas pernas estavam trêmulas e fora ele quem a segurara e impedira que encontrasse o chão.
- Cuidado. É sua primeira vez e foi uma viagem extremamente longa, você vai ficar fora do ar por algum tempo. – a voz dele soava distante, e o fato dele falar em inglês complicava ainda mais.
- Certo.- fora tudo que conseguira responder, sequer sabia como havia sido posta em um sofá.
- Harry, que bom que você voltou. Nós precis... Quem é ela? – logicamente ela não conhecia a voz, e resolveu parar de prestar atenção na conversa, apenas aninhou-se no sofá e fechou os olhos.
- Vamos para a cozinha e eu te explico. – Harry falara sério e acompanhara Dorian até a cozinha onde finalmente se sentara, também estava um pouco zonzo, mas não tinha certeza se era pela viagem.
- Ok. – Dorian sentou-se à sua frente – Quem é aquela garota?
- Pérola é o nome dela. Ela é a nova professora de Estudos Trouxas de Hogwarts, e minha responsabilidade pelos próximos meses. – Harry passou as mãos pelo seu rosto perguntando-se como conseguiria agüentar o peso em seus ombros por mais tempo.
- Mas, porque você teve que trazê-la? Ela não poderia ter vindo sozinha?- Dorian perguntou, notando o cansaço no homem que via como mentor.
- Bem... – ele respirou fundo, o cheiro de chocolate ainda estava recente – Ela é uma trouxa. – ele riu de forma sarcástica – E uma brasileira.
- Espera aí, você aparatou do Brasil com ela? Você é maluco?- Dorian levantou-se da cadeira visivelmente preocupado – Eu nem consigo contar quantos kilômetros são.
- Uns dez mil. – Harry disse reclinando-se na cadeira de forma convencida, achava engraçado como Dorian o tratava como criança às vezes.
- Dez... HARRY! Você deve ter esgotado sua magia. Vocês poderiam ter se perdido, ou aparatado no meio do Atlântico. - Dorian andava de um lado para outro com os olhos arregalados.
- Eu estou bem. Agora, o que você queria me dizer mesmo?- Dorian finalmente sentou, sua face se tornou séria.
- Achamos um dos covis, precisamos atacar imediatamente. - a face de Harry também se transformou, de repente se podia ver as rugas ao redor de seus olhos.
- Você já convocou todos? – ele se levantou.
- Eles estão esperando. Mas... – a expressão de Dorian se tornou mais leve – E ela?
Harry olhou pela porta da cozinha, Pérola parecia ter dormido no sofá, usava o sobretudo como coberta, encolhida embaixo dele. Ela parecia como uma criança, e lhe lembrava de Hermione. Como ele podia sentir aquele instinto de proteção crescer nele tão rápido? Ela estava tão frágil naquele momento, que ele queria ficar e abraçá-la, apenas para que ela não acordasse sozinha. Mas porque ele pensava assim?
- Harry.- Dorian lhe trouxe de seus devaneios.
- Monstro!- em um instante o elfo aparatou em frente a ele, Monstro não mudara muito em todos aqueles anos.
- Pois não, Senhor Potter.
- Por favor, cuide da moça que está no sofá. O nome dela é Pérola, seja bom com ela. – os olhos de Harry demonstravam certa ameaça.
- Sim, senhor.
- Vamos, Dorian. – ele deu uma última olhada para o sofá antes de aparatar com seu segundo em comando.
Pérola espreguiçou-se com um sorriso no rosto, tinha sido um sonho maravilhoso. Ela sentiu a coberta cair e apressou-se a puxá-la de volta, estava frio demais para aquela época do ano. A coberta cheirava a ele ainda, como era possível? Ela abriu os olhos devagar e deparou-se com uma sala que desconhecia. Havia uma lareira onde o fogo crepitava, quadros que a olhavam curiosos, alguns com uma cara de poucos amigos.
Aquilo estava mesmo acontecendo.
- Boa noite senhorita...
Pérola olhou para a origem da voz e deixou um gritinho escapar, logo tampando a boca com a mão. Ela nunca vira algo como aquilo, mas sabia o que lhe lembrava, os filmes não foram totalmente fiéis, mas a aparência do elfo era interessante. O rosto dele ela repleto de rugas profundas, as orelhas eram longas e a boca quase não tinha lábios, mas ele se vestia muito bem e estava ereto.
- Quem é você? – ela finalmente achou coragem para perguntar.
- Meu nome é Monstro, sou o responsável pela casa. – ele fez uma leve reverência com a cabeça, a expressão dele não era convidativa, de fato, parecia levemente arrogante.
- Essa é... A casa de Sirius? – ela perguntou em um sussurro.
- Não. Essa é a casa do senhor Potter, e já pertenceu à honrada família Black. – ele respondeu pomposo.
- Ah é, você não gosta do Sirius. – ela riu, enquanto ele demonstrou irritação – Então isso é mesmo real, essa é a Ordem da Fênix.
- O Senhor Potter pediu para cuidar da senhorita, gostaria de comer alguma coisa?
- Potter... Estranho como isso soa. – ela percebeu uma leve expressão de impaciência – Sim, eu adoraria algo pra comer, se não for um incômodo. – sorriu tentando ser educada.
- Irei providenciar. – ele saiu da sala.
- Inacreditável...
Pérola levantou-se do sofá, vestiu corretamente o sobretudo, estava muito frio para se livrar dele, além de que era estranhamente confortável sentir seu perfume. Harry Potter deveria ter por volta dos 40 anos, mas era tão atraente que incomodava. Talvez fosse apenas a fantasia que ela criara sobre ele que fazia isso, mas ele lhe passava uma confiança e segurança que não podiam ser frutos de nenhuma fantasia.
- Se Harry existe então Draco... – ela sorriu intimamente, como seria o jovem Malfoy por volta dos 40, melhor que o Lucius do filme ela esperava.
Um estalo seco ecoou, logo outro e outro, de repente Pérola se viu cercada por pessoas, e de repente todas essas pessoas estavam apontado suas varinhas para ela. Isso não era um bom sinal, ela ergueu as mãos assustada.
- Quem é você e o que faz aqui? FALE LOGO!
O ruivo parecia mal humorado, tinha cabelos longos presos em um rabo de cavalo, sua face possuía grandes cicatrizes e seus olhos claros eram assustadores. Seu primeiro pensamento fora Carlinhos, mas esse parecia ser novo, enquanto Carlinhos já teria passado dos cinqüenta.
- EU NÃO ESTOU BRINCANDO! – ele avançou contra ela irritado, quando um estalo seco foi ouvido e de repente ele estava batendo as costas contra a parede da outra sala.
- NÃO A AMEACE DE NOVO, RONALD!- era a voz de Harry, ele se posicionara em frente a ela em uma atitude protetora, enquanto o ruivo levantava-se ainda irritado. – E VOCÊS, ABAIXEM SUAS VARINHAS!
- Harry... – uma mulher de traços orientais adiantou-se com a voz calma, seus cabelos negros eram curtos, na atura do queixo, e sua voz era calejada – Não o trate assim. Nós não tínhamos idéia de quem ela era. Ainda não temos, na verdade.
Ronald... Rony. Como podia ser? Ele era tão absurdamente diferente. E parecia mais novo que o próprio Harry. Rony deveria ser o palhaço, o cara que sempre achava algo para sorrir, não esse poço de mal-humor e ira. O ruivo de fato apertava a própria varinha como se fosse quebrá-la.
- Não sabia que você trazia pessoas para cá sem avisar a Ordem. – ele resmungou.
- Eu não sabia que te devia satisfações. – o moreno ameaçou avançar, mas Pérola segurou-lhe o braço, fora instintivo, e quando percebeu soltou-lhe.
- Vocês dois, parem com isso. – dessa vez o homem tinha cabelos lisos e oleosos, lembrava-lhe a descrição de Snape, porém tinha um rosto arredondado e óculos sobre o nariz.- Harry, porque você não explica o que está acontecendo.
- Muito bem. – Harry finalmente guardou a varinha, não sem antes lançar um olhar de reprovação ao ex-amigo, que Pérola não pôde perceber – Essa é Pérola, a nova professora de Estudos Trouxas de Hogwarts.
- E o que ela faz aqui? – resmungou Ronald, e logo emendou com um sorriso sarcástico – Se vossa realeza puder nos dizer.
- RONALD! – uma loira de cabelos longos e olhos grandes o repreendeu, ela estava séria, seus lábios eram rosados e trazia brincos de rolha nas orelhas, essa fora a única coisa que denunciara sua identidade.
- Pérola está sob minha proteção até o início das aulas em Hogwarts. Alguém tem algum problema com isso? – as palavras se dirigiam a Ronald, obviamente, mas ele apenas resmungou e saiu do cômodo.
- Boa noite, Pérola. Meu nome é Neville. – o falso Snape sorriu estendendo a mão que ela de pronto aceitou.
- Prazer. – ela falou fracamente com um sorriso, todos eram tão diferentes do que ela esperava.
- Luna Lovegood- exclamou a loira dando um meio sorriso.
- Cho Chang, prazer.- a morena de cabelos curtos sorriu.
- Chega de apresentações, por que vocês não vão cuidar dessas feridas?
Só então Pérola percebeu o estado dos trajes deles, estavam surrados, sujos, alguns pareciam empapados com sangue e certos lugares, Luna especialmente tinha um círculo vermelho em sua cintura, onde sua mão parecia estar pressionando já há algum tempo. Pérola estava assustada, o que poderia ter ocorrido? Harry percebeu seu olhar, precisaria logo explicar o que estava havendo.
- Eu posso ajudar? – ela havia tentado afirmar, mas sua voz fraca acabara transformando a afirmação em pergunta.
- Não é preciso querida. – uma senhora de cabelos rosas surgira da lareira sem aviso, seus cabelos eram longos, mas ralos.
- Tonks... – ela sussurrou sem perceber.
- Olha, ela me conhece. – a senhora riu, e todos pareceram acompanhá-la.
- Não existem muitas senhoras com cabelo rosa chiclete, Tonks. – exclamou Neville enquanto aproximava-se de Luna e a puxava para sentar no sofá.
- Verdade. – ela então se virou para Pérola – Eu estou acostumada a cuidar deles, acho que é melhor você e Harry conversarem. - Harry acenou com a cabeça e colocou o braço sobre os ombros da brasileira, levando-a pelas escadas.
Uma caminhada silenciosa seguiu-se. Pérola podia sentir a tensão entre ela e seu herói de infância, como se ambos caminhassem para um abismo. Ao mesmo tempo, a morena sentia o braço dele sobre seus ombros, e o calor do corpo dele deixando-a confortável e segura. Por mais que tentasse descrever aquela situação não poderia encontrar palavras fiéis ao momento.
Harry a fizera subir até o último andar. Seu quarto ainda era o quarto de Sirius, e muitas das coisas do Black mantinham-se intactas, apesar de metade da Ordem “viver” ali, portanto, não havia um lugar tranqüilo ou menos mórbido aonde levá-la. O homem se viu parando diante do quarto que outrora pertencera à Régulus Black, e que coincidentemente situava-se de frente para o dele. Ele sabia que não era coincidência, entretanto.
- Você vai ficar aqui. – ele disse enquanto abria a porta, o quarto estava um pouco abandonado, e algumas teias de aranha podiam ser vistas pelos cantos. – Infelizmente ele não é usado há anos, portanto está um pouco... Desarrumado.
- Não tem problema. – ela sussurrou com um sorriso enquanto entrava no quarto, não se lembrava exatamente de como J.K. o descrevera, mas provavelmente não lhe fazia justiça. – Ele é...
- Assustador. – ele riu de forma contida – Eu sei.
Ninguém se atrevera a dormir ali. Por anos Harry fora tomado por pesadelos que transformavam seu quarto em um verdadeiro show de horrores. Levara algum tempo até Luna lhe contar como ele gritava à noite, e lamentava o que acontecera com Hermione, e como se culpava. A loirinha tentara gentilmente explicar que o quarto dele deveria estar povoado por Guunkans, e ela poderia tentar ajudar. Mas isso tinha sido há muitos anos, quando Luna ainda sabia como sorrir.
- Eu ia dizer... Enorme.
O quarto era sem dúvida alguma o dobro do que tinha no Brasil. Havia um enorme guarda roupa, com espelhos nas portas centrais, e adornos que ela nunca vira. A cama possuía um dossel, como em contos de fadas, e apesar dos lençóis empoeirados impunha majestade ao quarto. Havia uma porta na lateral, que ela imaginava ser um banheiro próprio, e uma janela fechada, que ela só esperava poder abrir. Embora parecesse ter sido maravilhoso um dia, sua única iluminação vinha do corredor.
- Monstro! – o elfo pipocou ao lado dela, mas estranhamente não a assustou, na verdade seus sentidos pareciam estar se habituando a pessoas aparecendo do nada.
- Sim, Senhor Potter.
- Poderia arrumar o quarto para a senhorita?
- Este quarto, senhor? – havia um pouco de tremor nas palavras de Monstro, Pérola lembrou-se de como Monstro era próximo de Régulus Black, o nome que estava na porta do quarto.
- Eu ficaria feliz com qualquer quarto, Monstro. – ela sorriu, tentando ser compreensiva.
- Não! – o tom firme de Harry lhe deu um arrepio na espinha. – Pérola ficará nesse quarto. Entendeu, Monstro?
- Claro, senhor. – o elfo abaixou a cabeça em tom de aceitação, mas a sua voz saíra rouca, e levemente irritada.
- Ótimo. Enquanto isso, acho melhor conversarmos em meu quarto, se não se importar. – Harry se colocou no beiral da porta, enquanto apontava para a porta do outro lado do corredor.
- Sem problemas. – ela tentou sorrir, mas ainda não havia se recuperado do modo como ele agira com o elfo, de fato se sentia impelida a não contrariá-lo.
Harry esperou que ela saísse do quarto e então fechou a porta, ele ainda ouviu os resmungos de Monstro, mas não abriria mão daquele quarto para sua protegida. Era estranho chamá-la assim, protegida. O moreno então abriu a porta do próprio quarto e esperou que ela entrasse.
Pérola só poderia descrever o quarto com uma palavra: simples. Era o total oposto do quarto em que estivera há pouco mais de um minuto. O quarto era pequeno, com um simples guará-roupa de duas portas e uma escrivaninha. A cama era de madeira, mas simples, apenas um colchão que não parecia muito macio, um lençol e um travesseiro, de fato sequer estava arrumada. Harry fechara a porta às suas costas e seguira direto para uma garrafa que estava em cima da pobre escrivaninha, servira-se um copo e entornara goela abaixo.
- Uísque-de-fogo. Te ofereceria, mas não acho que vai lhe agradar.
- Não, obrigada. – ela sussurrou, e sem sequer perceber apertou o sobretudo contra o corpo, como se sentisse frio, de fato, aquele cômodo parecia gelado.
- Sente-se.- ele lhe apontou uma cadeira que ela sequer vira que estava ali – Eu não sei o quanto McGonagal te contou...
- Nada. – ela riu de forma nervosa – Apenas que eu devo ensinar Estudos Trouxas. O que faz sentido, eu sou uma trouxa. Se bem que... Eu ainda tinha alguma esperança. – ela estava pensativa, era como se falasse consigo mesma, e não com Harry.
- Esperança? – ele questionou sem entender.
- Bem... Esperança de que talvez eu pudesse usar uma varinha, eu não sei. Desde que aquela coruja entrou na minha casa, é como se qualquer coisa fosse possível.
- Esperança... – ele repetiu baixinho, e então sentou-se na cama, ainda com o copo vazio na mão.
- Disse algo errado? – o jeito como ela dissera, com o cuidado de uma criança, trouxe a Harry um sorriso que ele não esperava.
- Não, nada errado. É só que... – o sorriso lentamente morreu – Sabe o sétimo livro, quando eu morro, volto e mato o Voldemort?- ele arqueou a sobrancelha.
- Sei... – ela disse, estranhando como aquilo saía tão irreal vindo da boca dele.
- Bem, a Gina exagerou. – ele cruzou os braços, obviamente irritado.
- Gina... Espera... Gina... J.K... Você está dizendo...
- Sim, são a mesma pessoa. Apesar da maioria não saber disso, afinal, a intenção era escondê-la de Voldemort, o que com certeza ficou mais trabalhoso quando ela resolveu publicar aquela porcaria de livro.
- Hey! Não fala assim de Har... – ela parou no meio da frase - Ok, isso ficou um pouco estranho.
- Tudo o que a Gina precisava era ficar quieta com o Dino, vivendo uma vida trouxa e normal. Mas ela tinha que dar uma de escritora, numa tentativa absurda de revelar o nosso mundo aos trouxas.
- Mas isso não é ruim, isso seria... Bom. - ela disse baixinho, ele parecia furioso com o livro, e aquilo a assustava.
- Só que os trouxas não estão prontos pra isso. E quando ela percebeu que encerrar um livro infantil com uma revelação de que era uma história real e que estávamos em guerra não ia dar certo, bem, ela teve que inventar alguma coisa.
- Isso foi depois do quinto livro, não foi?
- Exato.
- Eu sabia. – Pérola deu um soco no ar - Ela perdeu a mão com o livro seis. A história começou a ficar muito estranha.
- Ela transformou o que realmente aconteceu em uma versão light. Então, basicamente, eu não morri, não fui pra estação do céu e não derrotei Voldemort. E a guerra já dura 22 anos. - ele parecia cansado de repente, decepcionado até.
- Isso explica todas as varinhas viradas pra mim. – ela sorriu, tentando fazer graça, apesar de inútil.
- E explica os machucados. Estávamos voltando de uma batida em um dos covis dos comensais. Eu fiquei um pouco pra trás, para ajudar Dorian a levar algumas pessoas para o St. Mungus.
- Dorian?- ela questionou, esse era um nome novo.
- Você vai conhecê-lo logo.
- Mas vocês não estão fugindo, vocês ainda estão na casa do Sírius, e Hogwarts ainda está em pé.
- Reconstruída seria a palavra certa. – Harry deitou-se na cama, mirando o teto em silêncio por alguns minutos. – A guerra existe, mas conseguimos conter a muito custo. De fato ela se misturou com o terrorismo de vocês, isso ajudou bastante.
- De nada? – ela arqueou a sobrancelha incrédula, havia um frio na barriga lhe puxando para deitar ao lado dele, um magnetismo estranho, que ela não ousaria obedecer.
- Ter trouxas no mundo bruxo se tornou um perigo, principalmente se estiverem ligados à Hogwarts, que é de onde eu comando a resistência.
- Você é o vice-diretor agora?
- Não, apenas o professor de DCAT.
- Eu só posso imaginar o que uma trouxa, professora de Estudo dos Trouxas em Hogwarts pode passar. - ele inclinou o rosto para o lado, fitando-a novamente, ela parecia preocupada.
- Por isso McGonagal me enviou. Sou sua garantia de sobrevivência. - ela riu, e ele franziu a testa.
- Acho que não tem segurança melhor que O-Menino-Que-Sobreviveu, não é? – ele franziu a testa.
- Se tem algo que Gina escreveu certo ao meu respeito é que eu odeio ser chamado assim.
- Ok, ok, entendi. Desculpe. – ela fitou o chão por algum tempo, o silêncio tomara conta do cômodo.
- Talvez você possa... – a voz dele soou baixo.
- O quê? – ela ergueu a cabeça e o fitou, ele encarava o teto novamente.
- Usar magia. Eu não sei como funciona no Brasil, talvez você tenha perdido a carta, eu não sei.
- Você acha, mesmo? – ela olhava para as próprias mãos, imaginando o que aconteceria se tivesse uma varinha em mãos, sua voz era incrédula.
- Bem, infelizmente não temos mais o Sr. Olivaras para consultar, mas podemos ir até o Beco. O sobrinho-neto dele assumiu a loja, Finley McGrim.- a conversa parecia tão despreocupada e natural, Harry não se lembrava de ter uma conversa tão fácil há anos.
- Eu... Gostaria disso. – ela sorriu voltando a encará-lo.
- Então amanhã iremos ao Beco. – ele levantou da cama de repente, Pérola quase caiu pra trás com o salto que deu da cadeira, mas ele não aparentou perceber.- Eu devia checar os outros. Fique à vontade, Monstro deve buscá-la quando terminar.
- Obrigada. – ela sorriu enquanto ele passava por ela em direção à porta.
Pérola escutou a porta ser fechada e se viu sozinha no quarto dele. Parecia insano, mas dentro dela um sentimento de excitação começava a se libertar. A morena deu alguns passos em direção à cama onde ele estivera deitado, acariciou as cobertas simples, estava quente ainda. Tudo aquilo estava acontecendo, um sonho de criança que não era sonho. Pérola deveria estar confusa, preocupada, perdida entre tantas informações, mas era como se tudo fizesse um bizarro sentido em sua cabeça. Era como se ela já soubesse. Ela subiu na cama e deitou-se. Era quente, confortável, tranqüilo. Pérola se sentia em casa. Ela estava em casa.
Harry ainda estava parado recostado na porta. Apenas o silêncio vinha do seu quarto. O homem fitava o teto e respirava profundamente. No minuto em que pusera os pés pra fora do quarto, algo parecia faltar-lhe. Aquela conversa simples, tranqüila, sem preocupações, era tudo o que ele gostaria de ter tido nos últimos 22 anos. Ele era o seu herói de infância, e ainda assim ela lhe tratava apenas como uma pessoa comum. Havia algo de confortante na presença dela, algo que lhe fazia sorrir. O que Dumbledore estava tramando afinal?
- Senhor. – Harry sequer notara quando o elfo aparecera à sua frente – O quarto está pronto, senhor.
- Obrigado, Monstro. – ele falou baixo – Vou avisá-la, pode voltar aos seus afazeres.
- Como quiser, senhor.
Monstro desapareceu imediatamente, enquanto Harry virava-se para abrir a porta novamente. A mão sobre a maçaneta parecia pesar alguns quilos. Havia tanto tempo que Harry não tinha essa sensação, ele não sabia se era pela aparência dela, que lhe lembrava de Hermione, ou se era apenas... Apenas o conforto de encontrar alguém que lhe entende, algo que ele sequer encontrara na sua mulher. Ele não sabia onde aquilo o levaria, ele só queria que fosse um lugar iluminado em sua vida.
- Esqueça Harry, ela é só outra responsabilidade sua, outra obrigação, uma professora de Hogwarts, nada mais. - ele sussurrou para si mesmo enquanto girava a maçaneta.
Harry não pôde dizer nada, ou chamá-la, ou sequer firmar as palavras que dissera a si mesmo há segundos atrás. Ela estava deitada em sua cama, os olhos fechados, dormindo serenamente como um pequeno anjinho. Naquela posição a garota parecia mais nova do que era, como uma criança que se quer pôr no colo e acariciar os cabelos eternamente. O moreno fechou a porta e carregou a cadeira que ela outrora usara para perto da cama. De forma delicada posicionou a cadeira ao lado da cama, e sentou-se.
Por quanto tempo ele ficou em silêncio admirando-a, ele não saberia dizer. Também não sabia dizer quando abandonou a cadeira e deitou-se ao lado dela. Mas quando acordou pela manhã, e sentiu seus braços ao redor de sua cintura, e seu hálito quente no seu pescoço, ele sabia que nunca dormira tão bem. Ele sabia que se dependesse dele, eles nunca deixariam aquele momento escapar pelas suas mãos. Harry apertou-a mais contra si e alisou seus cabelos, voltando a fechar os olhos.
O mundo poderia acabar ali.