Hermione acordou, mas não resistiu à tentação de ficar um pouco mais na cama, sob as cobertas. Alguma coisa lhe dizia que não seria fácil encarar a realidade.
“Não, não é possível”, ela exclamou em voz alta, sentando-se bruscamente, chocada com a lembrança do que lhe acontecera em sonho.
Entretanto, no íntimo, sabia que tudo fora real demais para ser sonho. O lugar de Rony, ao lado dela, felizmente estava vazio.
Onde ele estaria? Devia ter descido para o salão de convenções, concluiu.
“Acho melhor me levantar e vestir-me, para estar pronta quando ele voltar”, pensou.
A simples idéia de encará-lo era suficiente para mexer com seu sistema nervoso e revirar-lhe o estômago. Que vergonha!
Sentindo o corpo estranhamente dolorido, ela pulou da cama. Todos os detalhes de seu comportamento começaram a tomar forma mais nítida em sua mente, inclusive as palavras que dissera.
Sob o chuveiro, conseguiu lembrar-se claramente da confusão de que fora vítima.
“Não, não posso ter feito isso!”, indignou-se. Entretanto, tinha certeza de que fizera.
“Pensei que ele era Neville”, lamentou-se, desesperada.
Só um terrível engano explicaria sua ilógica e desprezível atração sexual por Rony.
Eram quase oito horas, quando ela terminou de se arrumar. Tinha que descer para tomar café, mas a última coisa que estava com vontade de fazer era comer. Não, na verdade, o pior de tudo seria encarar Rony, depois de tudo o que acontecera.
Tensa, ela esperou que a qualquer momento a porta do quarto se abrisse. Não demorou muito para que isso acontecesse, e Rony entrou.
Ela tentara preparar-se psicologicamente para o encontro, mas não conseguiu evitar a reação de vergonha; O sangue subiu-lhe ao rosto, enquanto ela olhava para todos os lados, menos para ele.
— Eu... ia descer para tomar café — mentiu, dirigindo-se apressadamente para a porta.
— Agora, não. Antes, há uma coisa que preciso falar com você.
— Não!
A rapidez e a veemência de sua negativa traíram-na de maneira clara e precisa. Hermione teve certeza disso, quando Rony estendeu a mão e segurou-a pelo pulso.
— Deixe-me ir — ela ordenou, furiosa. — Quero que você...
— Eu sei. Você já me disse, durante a noite – ele interrompeu, lutando para dominá-la.
— Não foi para você que eu disse aquilo – Hermione declarou. — Eu...
Seu corpo tremeu por inteiro, enquanto ela procurava palavras que explicassem com lógica o que fizera, o que dissera. Tinha que haver uma forma razoável para justificar seu comportamento. Como não conseguiu achar nenhuma que a satisfizesse completamente, Hermione apelou para a única que, embora perigosa, talvez funcionasse.
— O que aconteceu a noite passada não foi... Eu sonhei que você era Neville. Estava sonhando com ele, quando... Você deve ter percebido, pensei que era ele — quase gritou, tentando se defender. — Você deve saber que eu nunca...
Calou-se, notando a ameaçadora expressão de Rony, a raiva estampada em seu rosto.
— Continue — ele incentivou. — Estava falando de seu sonho. Pensava que eu era Neville, mas não estava dormindo, quando fizemos amor. Estava, Hermione?
Ele fez uma pausa.
— Sabia quem era que estava tocando em você, dando-lhe prazer — continuou. — Sabia que não era meu irmão.
— Eu acreditava que era ele — Hermione mentiu, refugiando-se num canto. — Eu... eu queria...
— Era a mim que você queria — Rony interrompeu-a. — Mas prefere mentir para si mesma. Pode enganar qualquer um, Hermione, menos a mim.
— Eu estava fazendo de conta que você era Neville! — Hermione declarou em desespero, disposta a não ouvir mais nada.
— Isso é o que você diz, minha querida.
Ele olhou-a de alto a baixo, com seu jeito detestável.
Hermione sentiu o corpo tremer de raiva.
— Na verdade — ele continuou —, agora você não é mais virgem, não é mesmo, Hermione? E vou dizer mais, não me importo que você negue. Foi a mim que você desejou, ontem à noite... meu corpo...
— Não é verdade. Era Neville que eu queria — ela protestou, ameaçando chorar.
— Não foi o que demonstrou — ele lembrou-a sem piedade.
— Você percebeu que era em Neville que eu estava pensando, Rony. Sabe que amo seu irmão. Por que não parou? Por quê?
— Porque sou homem, Hermione, e quando uma mulher se oferece sexualmente para um homem, como você fez...
Ele fez uma pausa para avaliar a reação dela.
— Se estiver procurando mais desculpas, sinto muito, Hermione, mas não vai encontrar nenhuma. Eu lhe dei o que você pediu. O que aconteceu entre nós foi...
— Aconteceu porque eu pensei que você fosse Neville — ela teimou.
— Você queria que eu fosse ele, mas sabia que não era — Rony corrigiu.
— Pare! — Hermione ordenou. — Não quero mais falar sobre isso. Quero esquecer tudo o que aconteceu.
— E você acha que eu não quero? — Rony replicou com brutalidade. — Acha que estou gostando de saber que fui usado na cama, como substituto de meu irmão? Que você descarregou em mim toda sua frustração por não ter sido capaz de conquistá-lo?
Hermione ficou chocada com a maneira de Rony falar. Muitas vezes, ele ficara zangado com ela, fora indelicado, mas nunca falara tão brutalmente sobre sexo.
— Não tem mais nada a dizer em sua defesa? – ele perguntou, sarcástico.
— Eu... Não foi bem assim — Hermione protestou. — Você faz parecer que fui eu quem...
— E não foi? Bem, você disse que deseja esquecer o que aconteceu. Espero que seja possível. Veremos o que nos reserva o futuro — ele filosofou.
O tom de ameaça na voz de Rony fez Hermione levantar a cabeça. Pela primeira vez, ela o olhou de frente, desde que ele entrara no quarto.
O que viu foi um olhar gelado como o pólo norte.
— O que está querendo dizer? — perguntou nervosamente.
— Use a cabeça, Hermione. A noite passada nós fizemos... sexo, e, embora você se faça de ingênua, não pode ignorar as possíveis conseqüências.
— Con-conseqüências... — Hermione gaguejou ao compreender a extensão do problema. — Não, não pode ser! Não fizemos...
— Claro que fizemos. E, apesar de eu nunca ter feito nenhum teste, não duvido de minha eficiência reprodutora.
— Pare com isso! — Hermione suplicou, cobrindo o rosto com as mãos. — Está me assustando. Eu não posso estar... você não pode ter me...
Ouvindo-o rir, ela tirou as mãos do rosto.
— Que pena! — ele ironizou. — Coitadinha, não consegue nem achar as palavras. Quer que eu diga o que você me pediu, ontem à noite? Quanto me implorou para possuí-la?
— Não — Hermione respondeu quase num gemido. — Ainda continuo achando que tudo não passou de um engano.
— Um engano? Oh, não, Hermione. Você é que está enganando a si própria.
Ele tornava tudo tão real que ela ficou tonta, e as pernas bambearam. Porém, quando Rony tentou ampará-la, ela empurrou-o com raiva, lutando para segurar as lágrimas que teimavam em cair.
— Não sei como pude confundi-lo com Neville! — Hermione gritou, angustiada. — Vocês não têm nada em comum. Ele é bondoso e gentil... nunca faria...
— Nunca faria o quê, Hermione? Nunca a excitaria como eu, nunca a faria sentir o que significa realmente ser mulher? Era isso que ia dizer?
— Não era nada disso.
— O que eu acho é que você não está sendo honesta consigo mesma. Prefere a ilusão de um sonho de adolescente. Pense bem, se você tivesse dormido com Neville, provavelmente ainda estaria perfeitamente virgem. Mais claro que isso seria impossível, Hermione. Ele não a quer.
— E você me quis — ela provocou nervosamente.
— Eu queria uma mulher — Rony replicou com crueldade. — E você se ofereceu. A cavalo dado não se olham os dentes.
— Você me surpreende — Hermione revidou com sarcasmo. — Nunca pensei que ficaria satisfeito com uma mulher que quer outro homem.
— Quem disse que fiquei satisfeito? Se realmente está pensando que me deu o mínimo de satisfação, ainda tem muito o que aprender. Apenas, da próxima vez, não espere que eu seja o professor.
— Não se preocupe — ela replicou, furiosa.
Porém, intimamente, a raiva estava desaparecendo, dando lugar a uma sensação de vazio. Não estava envergonhada apenas pela inexperiência na cama, mas também pela consciência de sua vulnerabilidade sexual.
Pelo resto da vida, teria de conviver com a lembrança do que ocorrera entre os dois.
— Não quero nem saber onde vou dormir esta noite, mas aqui é que não será — ela avisou, categórica.
— Qual o problema? — ele perguntou mansamente. — Está com medo de descobrir que não é Neville que você realmente quer?
— Não.
A caminho do salão de convenções, Hermione imaginava que não era realmente aquele o motivo pelo qual não queria dormir com Rony uma segunda vez. Sabia que desejava outro homem, outro corpo. Mas, no entanto...
Ela deu um suspiro profundo, incapaz de negar a si mesma que desejara Rony alucinadamente. Sabia quem ele era e mesmo assim permitira...
— Ei, você está bem? — alguém perguntou em alemão. Ela percebeu que fechara os olhos. Abriu-os depressa e viu-se diante de Krum.
— Desculpe, eu estava distraída.
— Não precisa se desculpar — ele declarou com um sorriso charmoso. — Hermione, eu gostaria de falar com você.
— Não vá dizer que precisa de meus serviços como tradutora — ela brincou.
Estava feliz em conversar com outra pessoa. Ajudaria a tirar da cabeça os acontecimentos da noite anterior.
— Se disser, não vou acreditar — continuou. – Seu inglês é muito bom.
— Não é isso — Krum explicou. — Na realidade, queria convidá-la para jantar comigo hoje à noite.
Jantar com esse jovem bonito seria bom, Hermione pensou.
— Eu adoraria — respondeu com sinceridade. Qualquer coisa, qualquer pessoa, seria bem-vinda se fosse para mantê-la longe de Rony.
— Hermione, se já terminou a parte social...
A voz de Rony ecoou como um açoite atrás dela, fazendo Hermione estremecer de puro nervosismo. Krum olhou-a, levemente confuso.
— Estamos aqui para trabalhar — Rony lembrou-a. — Tenho uma reunião importante com clientes japoneses, em quinze minutos. Quero que esteja lá, como intérprete. Além disso, precisamos conversar sobre umas coisas, antes.
— Estarei lá num instante, Rony.
Hermione tentou controlar-se, aceitando com altivez a ordem de Rony. Podia ser sua prima e empregada da empresa da família, mas ainda se orgulhava de ter personalidade própria.
Dirigindo-se a Krum, confirmou que jantaria com ele.
— Vou adorar jantar com você, Krum. Às oito está bom?
Em vez de ir embora e deixar que ela terminasse a conversa com o jovem alemão, Rony ficara esperando, Como se fosse um carcereiro. Hermione, empertigada, acompanhou-o na direção do estande.
— Se é na cama de Krum que está pretendendo dormir esta noite, Hermione, suspeito que não vá ser possível — ele disse cinicamente.
Enquanto falava, Rony segurou-a pelo braço, guiando-a entre os grupos de pessoas.
— Desconfio que não terão muita privacidade, nem espaço na cama — continuou. — O gerente do hotel mandou colocar uma cama extra no quarto dele, devido à superlotação.
— Como ousa insinuar isso? — Hermione repreendeu-o, sentindo-se corar de vergonha. — Só porque dormimos na mesma cama uma noite, não quer dizer que sou obrigada a sair por aí, fazendo sexo com qualquer um.
— Verdade? Você me deixa surpreso — Rony ironizou. — Eu não faria esse juízo, se não conhecesse seu costume de usar um homem em lugar de outro.
Hermione teve uma reação inesperada. Numa fração de segundo, sua mão subiu e caiu violentamente sobre o rosto dele. Com os olhos marejados, ficou perplexa, sem acreditar no que acabara de fazer.
O estalido do tapa chamou a atenção das pessoas em volta. Entretanto, a única coisa que ela conseguia ver era a apavorante tranqüilidade de Rony. A frieza de seu olhar era enregelante. Hermione sentiu-se paralisada.
— Como você é previsível e antiquada, Hermione — ele comentou por fim. — Sabe, tenho novidades para você. Como inocente e inexperiente virgem, você saiu-se muito bem, apesar de seu comportamento sexual estereotipado.
Ele fez uma pausa para observá-la.
— Entretanto, agora que não pode mais alegar seu estado virginal mumificado, precisa saber de uma coisa. A agressão física cometida por uma mulher pode significar muita coisa para um homem. Pode significar que ela o deseja.
— Não — Hermione discordou com veemência.
— Sim — Rony insistiu. — Em vez de continuar negando, ouça o que estou dizendo. Mesmo no tempo em que era aceitável a mulher bater na cara de um homem, ela sabia muito bem que podia estar usando uma faca de dois gumes.
Respirou fundo antes de continuar.
— O homem tanto podia entender como uma repreensão, como também podia beijá-la para acalmar-lhe os ânimos.
Ele riu, ao vê-la fitando-o com ar de espanto.
— Hermione, não me diga que nunca leu um livro, ou assistiu a um filme, em que o herói devolve um tapa recebido com um beijo de tirar o fôlego?
— Isso é ficção — ela protestou, dando de ombros. — E, além do mais, você... não é nenhum herói.
— E você também não é nenhuma heroína, certo? — Rony complementou. — Mas, na próxima vez em que tiver vontade de descarregar em mim seu mau-humor, lembre-se de que posso pensar que está com segundas intenções.
— E daí? Vai me beijar?
Hermione deu de ombros, em atitude de desdém.
— Não — ele negou calmamente. — Não vou beijá-la, simplesmente. Vou deitá-la numa cama e...
— E o quê? — Hermione perguntou em tom de desafio, tentando esconder o medo. — Vai me estuprar?
— Oh, não seria estupro. Não, com você gritando aos quatro ventos que me quer, me deseja, pedindo para que eu...
Hermione pensou que ia desmaiar. Chegou a sentir um calafrio invadindo seu corpo. Fechando os olhos, usou toda sua energia para superar a fraqueza que já começava a dominá-la. Não queria passar por mais uma vergonha.
— Eu te odeio, Rony — declarou, apertando os dentes. — Odeio como nunca odiei alguém, em toda minha vida.
Ela estava desesperada, pensando em deixá-lo sozinho e desaparecer na multidão. Seria fácil escapar dele, mas por quanto tempo ficaria livre?
Não. A melhor maneira de tratá-lo era agir com indiferença, ignorá-lo, manter distância e esquecer completamente o que acontecera. Tinha que banir da mente, para sempre, o episódio da noite anterior.
— Então, o que está achando da convenção?
Hermione respondeu à pergunta de Krum apenas com um trejeito dos lábios, como a dizer “mais ou menos”.
— Estou gostando — ele informou. — Mas não sei se estou fazendo o que realmente gosto. Na universidade, sonhava em ser escritor. Meus pais, porém, diziam que eu precisava pensar no futuro e, como está difícil arrumar um bom emprego na Alemanha...
Deu de ombros, e Hermione sorriu.
— Não quero aborrecê-la, falando só de mim. Gostaria de saber um pouco mais de você.
— Não há muito o que saber — Hermione confessou.
O que havia de novidade acontecera nas últimas vinte e quatro horas, ela pensou, mas não era o tipo de coisa para se conversar com qualquer um.
Era uma sorte os clientes japoneses, com quem Rony estava jantando, terem seus próprios intérpretes. Mas Hermione ficara levemente irritada ao ver a maneira como Rony olhava para a atraente japonesa que traduzia o que ele e o homem a seu lado falavam.
Parecia que ele tinha mais respeito pelo profissionalismo da japonesa do que pelo de Hermione, que sempre defendera os interesses da empresa.
— Parece que está com raiva — Krum observou. — Foi algo que eu disse?
— Estava pensando em outra coisa, outra pessoa — Hermione admitiu.
— E uma pena que tenha havido tanta confusão e falta de organização aqui no hotel — ele comentou.
Hermione concordou com um gesto de cabeça.
— De fato, certas coisas foram muito desagradáveis.
— Estive pensando em alugar um carro para conhecer as redondezas — Krum disse. — Não quer me acompanhar?
Hermione sentiu-se tentada a aceitar o convite, mesmo que fosse apenas para ficar longe de Rony. Porém, levava seu trabalho a sério. Se estivesse ali com Neville, ou com qualquer outro membro da empresa, não pensaria em usar Krum para afastar-se do trabalho. Pensando assim, ela recusou o convite, com um gesto negativo de cabeça.
— Se mudar de idéia, é só me dizer.
— Obrigada. Você é muito gentil.
Demoraram-se mais do que os outros, no salão de jantar. Hermione não queria retomar ao quarto muito cedo. No entanto, chegou o momento de dar o jantar por terminado, e ela e Krum despediram-se.
Ao chegar ao seu andar, Hermione rezou para que Rony ainda não houvesse subido para o quarto. Trêmula de nervosismo, quase não conseguiu introduzir o cartão magnético na fenda. Entretanto, quando a porta se abriu, ela viu, aliviada, que não havia nem sinal de Rony.
Tratou de tomar uma ducha rápida. Depois que se enxugou e vestiu o roupão, ficou alguns minutos observando a enorme cama, em todos os seus detalhes. O coração bateu tão forte que ela, automaticamente, levou a mão ao peito tentando aliviar a ansiedade.
Não podia dormir outra vez com Rony, pensou.
Tremendo, removeu da cama um pesado acolchoado e arrumou-o no chão, esperando que Rony não chegasse naquele momento.
Mesmo dobrado, o acolchoado não era suficiente para amenizar a dureza do mármore. Pelo menos, era um jeito de mostrar a Rony que, apesar de suas insinuações, ela não estava disposta a repetir os acontecimentos da noite anterior.
Entretanto, deitada no escuro do quarto, Hermione descobriu que nem todas as insinuações eram mentirosas. Ela implorara para que fizessem amor e correspondera plenamente, desejara-o, insistira para chegarem às últimas conseqüências.
“Tudo porque eu queria que ele fosse Neville”, comentou consigo mesma.
No fundo, sabia que era Rony, e nada fizera para interromper a marcha dos acontecimentos.
Era impossível compreender como tudo acontecera, por que motivo o estimulara a... fazer sexo, a transportá-la para um lugar que ela nunca imaginara existir.
Impossível? Nem tanto assim. Ela bem se lembrava do fogo que ameaçara consumi-la, do desejo abrasador que a dominara.
Estava quase amanhecendo, quando Hermione acordou, abraçada ao travesseiro, como se abraçasse alguém. O corpo todo doía.
Com movimentos rápidos, livrou-se do travesseiro e levantou a cabeça para ver se Rony estava dormindo. Para sua surpresa, viu que a cama estava vazia.
Se ele não voltara para o quarto, onde passara a noite? Por alguma razão, Hermione pensou na japonesa que vira sorrindo para Rony durante o jantar.
Teriam passado a noite juntos? Nenhum dos dois fizera o menor esforço para esconder o fato de que se achavam atraídos um pelo outro. Hermione notara a mensagem sutil, a maneira como ela tocara no braço de Rony, chamando a atenção dele para um comentário qualquer.
“Bem, que façam bom proveito”, ela pensou com falso desdém.
Lamentava apenas não ter sabido antes. Poderia ter dormido confortavelmente na cama e tido uma boa noite de sono.
Sim, que fizessem bom proveito, Hermione reafirmou mentalmente. Seria hábito de Rony dormir cada noite com uma mulher diferente? Parecia falta de caráter, concluiu com amargura.
Foi uma sensação estranha e desagradável, a que Hermione sentiu, ao imaginar que Rony podia estar dormindo com outra mulher. Estranha, porque era a mesma sensação que costumava sentir em relação a Neville. Desagradável, porque... porque...
Claro que não era ciúme, Hermione pensou, passando para a cama e levando o acolchoado consigo. Como poderia ser?
Entretanto, ao tentar dormir novamente, quanto mais pensava no querido rosto de Neville, mais via o de Rony.
— Não! — ela negou em voz alta. — Não, não, não!