Hermione acordou sobressaltada. Olhou ansiosa para o despertador iluminado, apavorada com a idéia de ter perdido a hora.
Eram cinco horas, ainda. Com um suspiro de alívio, decidiu levantar-se. Desarmou o alarme do despertador, que ajustara para as cinco e meia. Não dormira bem. E não só naquela noite. Tivera insônia todas às noites, depois do casamento de Neville, e nas que antecederam também.
No dia anterior, chegara a casa e encontrara a mãe e a tia olhando as provas das fotografias do casamento.
Foi constrangedor o modo levemente desconfortável como as duas a olharam. Fora exatamente assim, no casamento. As pessoas trataram-na com especial deferência e simpatia, numa clara atitude de compaixão.
A única pessoa que a tratara normalmente fora Gina, a outra dama-de-honra, sua melhor amiga e de Luna. O conceito de Gina sobre relacionamentos e compromissos era dos mais cínicos possíveis. “O amor pode não durar, mas a inimizade dura”, ela costumava dizer.
Hermione vira a tia esconder as fotos da noiva e, quando saíra da cozinha, ouvira-a dizer a sua mãe que Neville amava Luna perdidamente, o que não a surpreendia, pois ela era uma jovem adorável.
— Mas nunca pensei que ele fosse se apaixonar tanto assim — a tia acrescentara, enquanto Hermione ouvia, parada no primeiro degrau da escada. — De meus dois filhos, Rony é o que parecia mais propenso a se apaixonar, por ser mais impulsivo, mais arrojado. Neville sempre foi mais sossegado. E Hermione, como estará se sentindo?
Rapidamente, Hermione subira a escada, com uma sensação que misturava dor e indignação.
Ela sabia como Rony reagiria, se ouvisse aquela conversa. Com certeza zombaria dela por ser objeto de comiseração dos outros e diria que nunca permitiria que tal coisa acontecesse com ele.
Talvez a tia tivesse razão ao dizer que Rony era o mais impulsivo dos dois filhos. Hermione concordava com isso, só que em um outro sentido. Rony tinha seu jeito próprio de fazer as coisas e passava por cima de qualquer um que discordasse de suas idéias. Quanto a ser mais apaixonado e sensível do que o irmão mais novo, isso não.
A única emoção que Rony podia exibir era a raiva. A mesma raiva que ela sentiu quando recebeu seu indesejável, odioso e desprezível beijo.
Arrepiada por um súbito calafrio, ela entrou rapidamente no banheiro para uma ducha quente. A manhã estava fria, mas, olhando pela janela, Hermione notou que a claridade da alvorada prenunciava um belo dia de sol e calor.
Não, o calafrio que sentira no corpo não era coisa externa, vinha de dentro dela mesma. Sua origem estava num fato de difícil aceitação. Em algum lugar de seu corpo, escondia-se uma reação involuntária, que ela provara fisicamente, ao ser beijada por Rony.
Mas não podia ser nada relacionado com desejo, e ela decidiu esquecer o assunto. Enquanto estava sob o chuveiro, revisou mentalmente os termos técnicos em japonês que estudara na noite anterior.
A convenção da qual iam participar seria uma novidade no campo de produtos eletrônicos e prometia ser um evento de alto nível. Não seria em Milão, onde ela estivera em ocasiões anteriores, mas num hotel spa de categoria internacional, nas montanhas.
Pelos prospectos que Neville mostrara, a convenção pareceria mais um período de férias do que de trabalho. Assim, ela refletiu, saindo do boxe, se houvesse oportunidade, aproveitaria as vantagens oferecidas pelo hotel.
Ao vestir as roupas íntimas, Hermione deu uma olhada em seu corpo nu, refletido no espelho do banheiro. Ela sempre fora esbelta, mas nas semanas que antecederam o casamento perdera alguns quilos. Agora, olhando-se com mais atenção, percebia como emagrecera. Comparando mentalmente seu corpo delgado com as curvas voluptuosas de Luna, admitiu que a escolha de Neville não era de admirar.
Rony já havia comentado sobre sua falta de curvas, quando foram obrigados a dançar juntos, na última festa de Natal da empresa. Com uma única mão, ele quase rodeara toda sua cintura. Para não perder o costume, ele zombara, dizendo que ela tinha corpo de menina, não de mulher.
“É apenas um indicativo de sua relutância em crescer e aceitar a realidade”, fora o comentário sarcástico dele.
“Sou adulta, tenho vinte e dois anos”, Hermione replicara com raiva.
Rony tornara-se odioso, no entanto Hermione o adorara, na infância. Fora ele que, pacientemente, a ensinara a andar de bicicleta e a empinar sua primeira pipa. Fora ele também que enxugara suas lágrimas, quando ela levara o primeiro tombo da bicicleta e quando a linha da pipa se arrebentara.
Tudo mudara, porém, quando aos doze anos ela se apaixonara por Neville. Rony, que sempre fora alegre e divertido, tratando-a com carinho e respeito, mudara completamente de comportamento ao saber de seus sentimentos pelo irmão. Hermione retribuíra sempre com a mesma moeda, e a antipatia, com o passar dos anos, aumentara, em vez de diminuir.
Agora, a última coisa que desejava, ela admitiu, vestindo um conjunto apropriado para a viagem, era ficar quatro dias exposta às provocações de Rony, na Itália. Entretanto, fugir covardemente das responsabilidades não era de sua natureza. Levava seu trabalho muito a sério.
O serviço de tradução que fazia era importante, mas Hermione reconhecia que não havia o suficiente para mantê-la ocupada oito horas por dia, cinco dias por semana. Entretanto, os outros tipos de trabalho que ela tivera de assumir obrigaram-na a fazer um curso noturno de computação. Era um bom investimento, já que ela desejava provar seu valor e envolver-se nos assuntos administrativos da empresa.
A bagagem que arrumara na noite anterior estava no andar de baixo. Apanhando o casaco, que completava o conjunto de saia reta e blusa de seda, Hermione estudou criticamente a própria imagem, no espelho do quarto.
Os cabelos cacheados e compridos faziam-na realmente parecer mais jovem, porém, ela não tinha intenção de cortá-los. Neville dissera uma vez que cabelos compridos emprestavam à mulher um ar de incrível feminilidade. Luna, entretanto, usava curtos os cabelos loiros, quase como os de um garoto.
Seu tipo de rosto não se adaptava bem a uma exagerada maquilagem, Hermione sabia, mas achou que estava um pouco pálida. Os olhos se destacavam, grandes e brilhantes, sob as grossas sobrancelhas escuras. O nariz, pequeno e afilado, compunha um conjunto harmonioso com a boca, de lábios carnudos e sensuais.
Ao chegar à cozinha, a primeira coisa que Hermione fez foi tomar uma deliciosa xícara de café. As torradas, ela não ia mesmo comer. Seu estômago sempre se manifestara nervosamente antes de ela viajar de avião.
Seu tio, o pai de Rony e Neville, fora piloto amador. Ele e um amigo morreram, quando o avião em que viajavam caíra, durante uma violenta tempestade. Neville ficara arrasado com a morte do pai e chorara a grande perda, como todos os outros parentes. Rony tivera uma reação diferente. Fechara-se em si mesmo, permanecendo mudo e distante.
No exato momento em que sorvia o último gole de café, ela ouviu o barulho do carro de Rony. Com agilidade, colocou a xícara na mesa e correu para a porta da frente, levando consigo a bagagem. Como ela, Rony estava vestido formalmente. Usava terno cinza-claro que, pelo corte perfeito, acentuava os ombros largos.
Quando ele pegou a mala maior da mão dela, Hermione percebeu seu olhar de inspeção e já esperou algum comentário depreciativo. Entretanto, o que ele estava conferindo mesmo era algo mais profundo, pelo menos do ponto de vista masculino. Seu olhar demorou-se um pouco na leve elevação dos seios de Hermione.
Era o tipo de inspeção masculina a que ela já estava acostumada. De certa forma, gostava de saber que os homens a admiravam como mulher, mas não esperara isso de Rony.
O modo sensual como ele a olhara fora desconcertante. Hermione juraria que ele nunca percebera sua passagem de adolescente para mulher feita. Resistiu à tentação de fechar a gola do casaco e apenas olhou-o com jeito agressivo.
— Pegou tudo? — ele perguntou. — Passagem, passaporte, dinheiro...
— Claro — ela respondeu simplesmente, esforçando-se para ser civilizada.
O Jaguar brilhava intensamente ao sol da manhã. Quando ele abriu a porta do passageiro, Hermione sentiu o cheiro maravilhoso do couro que revestia os acentos. Neville e a mãe também eram diretores da empresa, mas usavam carros de muito menos luxo.
— É lindo — Hermione comentou, alisando o couro macio com os dedos. — Uma exigência de seu trabalho, presumo.
— Não, na verdade não é — Rony chocou-a com a negativa, pondo o carro em movimento. — Mesmo que eu quisesse usar minha influência na empresa para tirar certas vantagens, não poderia. As altas taxas de juros para se adquirir um carro de luxo em nome de uma companhia são proibitivas.
Hermione sentiu-se corar, entendendo a mensagem logo no início da explicação. Ele quisera dizer que, ao contrário dela, não usava sua influência em benefício próprio.
A indignação cresceu no íntimo de Hermione. Quando seria julgada pelos seus méritos, em vez de ser condenada só porque era filha de uma importante acionista da empresa?
O trânsito ficou intenso, quando se aproximaram do aeroporto. Hermione agitou-se nervosamente no banco, embora limitada pelo cinto de segurança. Sua maior preocupação era o terrível momento da decolagem. Depois que estivesse lá em cima, seria mais fácil relaxar.
A região da Itália onde se realizaria a convenção ficava a três horas de carro, a partir do aeroporto onde aterrissariam. Por seus cálculos, Hermione concluiu que passariam a maior parte do dia viajando. A simples lembrança de que poderia ser Neville seu companheiro de viagem encheu-lhe os olhos de lágrimas. Com muito esforço, ela impediu que as lágrimas caíssem.
— Coitadinha da Hermione! — Rony exclamou com sarcasmo. — Apaixonada por um homem que não a quer. Tenho a impressão de que isso é uma peça de teatro, cujo papel principal você está gostando de desempenhar.
— Não é verdade — ela negou em tom abafado.
— É a impressão que eu tenho — ele reafirmou. tomando a direção do estacionamento. — Parece que você acha mais interessante representar o papel da autopiedade do que ter um amor de verdade.
Hermione estava furiosa quando ele estacionou o carro e abriu a porta. Não se daria ao trabalho de responder ao insulto. Assim, evitaria que ele percebesse o quanto a magoara.
— Não é de admirar que Neville preferisse uma mulher de verdade na cama — Rony disse com crueldade, abrindo a porta do passageiro para que ela descesse.
“Eu sou uma mulher de verdade”, Hermione desejou protestar. “Tão real quanto Luna, capaz de amar e despertar desejos.”
Seria mesmo? Haveria algo de especial em Luna, que estava faltando nela? Todas as dúvidas sobre sua sexualidade, surgidas desde a notícia do compromisso de Neville com Luna, irromperam em seu íntimo.
Rony sabia de seus medos e de sua insegurança sobre o assunto? Como poderia? Impossível. Ele estava tentando apenas magoá-la, provocar uma reação que confirmasse a teoria de que ela era tola e imatura.
Com que intenção ele fazia aquilo, Hermione realmente não sabia, e também nunca se questionara a respeito. Estaria ele forçando um motivo para despedi-la da empresa? Destruí-la profissionalmente?
Após ter retirado a bagagem, Rony fechou o carro e esperou impacientemente que ela o acompanhasse.
“Os próximos quatro dias prometem ser os mais longos de minha vida”, Hermione refletiu.
— Pode relaxar agora. Já estamos no ar.
As palavras de Rony em seu ouvido fizeram Hermione suspirar de alívio.
Tendo recusado o assento da janela, que Rony oferecera, ela ajustara o cinto de segurança. O avião taxiara e começara a decolagem.
Sem ter a mão de alguém para segurar, o que ajudaria a reduzir seu medo, Hermione, instintivamente, apoiara-se de leve no braço de Rony.
Ele nunca sentia medo? Nada era capaz de quebrar seu férreo autocontrole? Nunca ninguém o fizera sofrer? Ela se perguntara quase tudo ao mesmo tempo, sem se incomodar com as respostas. Na verdade, no momento estava mais preocupada com seu medo da decolagem.
Como sempre, agora que estavam realmente no ar, ela sabia que a viagem seria tranqüila até o final.
— Olhe, Rony, que linda vista! — Hermione suspirou, admirada, olhando pela janela do carro alugado.
Havia transporte regular entre o aeroporto e o centro de convenções, mas Rony preferira alugar um carro. Hermione aprovara a idéia. Confiava em Rony como motorista e, além disso, ele conhecia bem as estradas italianas.
A idéia de ficar com ele durante três horas dentro de um carro era outro assunto. Assim que começaram a subir pela estrada de montanha, ela decidiu ocupar-se com seus próprios pensamentos, para não ter que conversar.
O orgulho a impedia de confessar que seu amor por Neville se tornara um pesado fardo, que ela tentava desesperadamente afastar de sua vida. Se ela e Rony tivessem um bom relacionamento, se ela confiasse nele o suficiente para falar de seus sentimentos, seria diferente. E contaria quanto se esforçava para libertar-se de um amor impossível, que só lhe trazia sofrimento.
A decisão de ficar em silêncio, porém, começou a perder força. A estrada serpenteava por uma cadeia de montanhas, levando-os através de pequenos vilarejos e cidades onde havia praças da época da Renascença.
As comunidades eram tranqüilas, e apenas sua arquitetura lembrava um passado de guerras, invasões e conquistas, o maravilhoso cenário encantou Hermione, a ponto de ela esquecer o voto de silêncio que se impusera.
Rony, naturalmente, já não se impressionava tanto. Tinha parentes na Toscana e em Roma. A beleza da Itália não era novidade para ele.
— Sem dúvida, é uma vista que você apreciaria bem mais, se estivesse com Neville — Rony comentou, em dado momento. — Entretanto, ele não compartilharia de seu entusiasmo. É um homem que gosta da moderna vida urbana, tanto quanto Luna.
Hermione não disse nada e virou o rosto para que ele não visse seus olhos embaçados de lágrimas. Rony tinha razão. Neville nunca compartilhara de seu amor pela história, pela natureza. Ele mesmo admitira, claramente.
Hermione ficou sem argumentos para contradizer. Ainda bem que faltava pouco para chegarem, ela pensou. Ajeitando-se no assento, virou o rosto para a janela e fechou os olhos.
“Quatro dias, meu Deus! Faça com que passem depressa”, ela pediu mentalmente.
— Hermione...
Sonolenta, ela abriu os olhos e esticou o corpo dolorido. O carro diminuiu a marcha. Haviam chegado ao seu destino.
O hotel, como constava dos prospectos, fora originalmente uma fortaleza medieval, construída por um príncipe italiano. Ficava no alto de uma montanha, para proteção da propriedade. Entretanto, o texto puro e simples não fizera jus à grandeza da obra vista ao vivo. Era uma edificação que parecia escavada na própria rocha, elevando-se a partir do pátio onde Rony estacionara o carro.
Mesmo sabendo que a velha fortaleza fora transformada em um moderno e confortável hotel, Hermione ficou arrepiada com o que via a sua frente. A solidez rústica do edifício de pedra era suavizada apenas pela manta de hera que o revestia e pelas roseiras do jardim que o cercava.
Por muitos séculos, o palazzo, como era chamado, fora usado como residência, até ser ocupado pelo exército alemão, na Segunda Guerra Mundial. Hermione sabia que não só os quartos haviam sido modernizados para receberem os hóspedes. O jardim aquático italiano também fora restaurado, e haviam sido plantadas as mesmas qualidades de rosas e arbustos que o ornamentavam originalmente.
Apesar de ter lido sobre a exuberância do hotel, Hermione não estava preparada para o que via, e não conseguiu evitar um leve arrepio. Era assustador.
— É um lugar impressionante. Deve ter recebido muitos prisioneiros — Rony comentou. — Não são muitas as chances de alguém fugir daqui.
— Não, não são — Hermione concordou, desanimada. Talvez os prisioneiros tivessem as mesmas chances que ela de escapar de Rony nos próximos quatro dias.
O estacionamento estava ficando lotado rapidamente, com a chegada de outros convidados.
— A recepção deve ser daquele lado. Vamos nos registrar, antes que chegue mais gente — Rony sugeriu, saindo do carro.
Dentro do hotel, a austeridade da fortaleza acabava logo na recepção. O enorme salão com teto em forma de cúpula era iluminado por candelabros de cristal, e havia afrescos nas paredes. Só um salão com aquelas dimensões comportaria tantas cores, como dourado, carmim e azul, Hermione concluiu, caminhando para a mesa central de recepção.
As recepcionistas, impecavelmente uniformizadas, ocupavam-se em atender o pequeno fluxo de convidados que acabara de chegar. Hermione ficou cinicamente divertida ao ver Rony receber um tentador sorriso de uma das moças, apesar de ser o terceiro da fila.
Ela estava cansada de saber que as mulheres achavam Rony muito atraente. Mas nem mesmo quando ele foi atendido pela sorridente recepcionista Hermione se incomodou. Que fizesse bom proveito, pensou, dando de ombros.
Ela ficou tensa quando, de repente, ouviu o que a moça estava dizendo para Rony. Correu para junto da mesa.
— O que ela quis dizer com “quarto duplo”? — perguntou, indignada.
A recepcionista já estava pegando a chave, quando Rony interveio.
— Deve estar havendo um engano — ele argumentou em fluente italiano. — Reservamos dois quartos separados.
— Não pode ser — a moça discordou, com a lista de reservas na mão. — Aqui está: sr. e sra. Granger.
— Eu sou Hermione Granger, mas não somos casados...não sou esposa dele.
A moça ficou olhando-a, sem entender nada.
— Rony, explique a ela, por favor — Hermione pediu. Como puderam cometer um engano desses?, pensou, furiosa, enquanto Rony explicava à recepcionista que houvera confusão e pedia quartos separados.
Fora a secretária de Neville que fizera as reservas. Era uma pessoa responsável e extremamente eficiente. Hermione não acreditava que ela tivesse cometido um erro tão grande.
O gerente foi chamado e, depois de ouvir o que estava acontecendo, deu de ombros, com um gesto negativo de cabeça.
— Sinto muito, mas não será possível ceder-lhe dois quartos — disse a Rony. — O hotel está completamente lotado devido à convenção. Todos os quartos estão ocupados.
— Deve haver um quarto... um lugar... — Hermione insistiu.
— Nada. Não temos nada — o gerente declarou.
— Então, vamos ter que arrumar outro lugar para ficar — Hermione explodiu.
Sentiu-se corar sob o olhar fulminante de Rony.
— Onde você está com a cabeça? — ele perguntou. — A cidade mais próxima fica a sessenta quilômetros daqui.
— Então... então vou dormir... no carro — Hermione decidiu, embora relutante.
— As quatro noites? Não seja ridícula! — Rony ralhou, olhando-a com pouco caso.
— Rony, eles não podem fazer isso! — ela protestou, quando o gerente foi atender um grupo de japoneses. — Faça alguma coisa!
— Fazer o quê? — ele perguntou, gesticulando para o salão agora repleto de pessoas requerendo atenção. — Você já participou de outras convenções, sabe como isso é. Quando algo dá errado no começo, vai assim até o fim.
— Talvez, mas nunca deu errado antes — Hermione reclamou. — Como podem cometer um erro desses? Deve haver alguma coisa que se possa fazer. Ofereça dinheiro... qualquer coisa...
— Chega, Hermione — Rony ordenou pausadamente como fazia quando ela era criança. — Não há nenhum quarto vago! Você ouviu!
Ela estava pronta para dizer que não ficaria ali. Entretanto, lembrou-se de que Rony adoraria a chance de alegar falta de profissionalismo e calou-se.
Rony, certo de que o assunto estava encerrado, assinou o livro de registro.
— Vamos andando — convidou. — Deus sabe quanto tempo teremos de esperar por um carregador.
O quarto deles ficava num dos andares de cima. Quando saíram do elevador e pisaram no chão revestido de mármore polido, o silêncio era quebrado apenas pelo zumbido do ar-condicionado.
— Por aqui — Rony orientou.
Andaram à direita de quem saía do elevador e chegaram ao quarto, alguns metros adiante. Assim que Rony abriu a porta, Hermione entrou e viu, espantada, que havia somente uma cama de casal.
Ela olhou para ele e depois novamente para a cama.
— Não acredito no que estou vendo! — exclamou.
— Agora ouça, Hermione, e corrija-me, se eu estiver errado. Como tradutora oficial da empresa, não seria de sua responsabilidade providenciar traduções corretas para todos os departamentos?
— Você sabe que sim — ela concordou, irritada. — Mas...
— Nesse caso, seria você a pessoa mais indicada para providenciar as palavras certas para a reserva de quartos.
— Se tivesse chegado ao meu conhecimento, sim, mas...
— E também acho que não estou enganado ao dizer que na data em que foi feita a reserva, você acreditava que viria à convenção com Neville — ele comentou, interrompendo-a.
Hermione fitou-o, incrédula, ao compreender o que ele estava querendo dizer.
— Certo, eu pensava que viria com Neville! — ela concordou, furiosa. — Mas isso não significa que alterei as reservas para dormir com ele na mesma cama. Não tenho nada a ver com essa confusão!
Parou de falar para tomar fôlego.
— A reserva foi feita por fax, enquanto eu estava de férias, e se pensa que eu seria capaz de... forçar... de fazer uma coisa dessas eu...
Não pode continuar, impedida pela força das emoções.
— Não posso ficar neste quarto com você – declarou assim que se recompôs. — Não posso e não vou ficar!
— Pare com a histeria — Rony gritou. — Não temos escolha. Passei meses entrando em contato com companhias internacionais. Clientes em potencial estarão participando da convenção. Não tenho tempo para perder com uma histérica manipuladora que...
— Eu não arranjei isso! Não tem nada a ver comigo — Hermione continuou protestando. — A última coisa que desejo... é dormir na mesma cama com você.
— Acredito, Hermione, mas também pode acreditar que você não é meu tipo preferido. O que estava planejando? Algum tipo de trapaça? Pretendia contar a Luna que você e Neville dormiram juntos?
— Não!
A voz de Hermione ecoou como uma explosão. Como ele podia pensar uma monstruosidade daquelas?
— Eu amo Neville, Rony. Isso significa que ele está em primeiro lugar, na minha vida. Não o magoaria por nada no mundo. Não precisa me dizer que ele não me ama. Acha que eu iria querê-lo, sabendo disso?
Ela soluçou, incapaz de continuar.
— O que acho é que seu tão falado amor por Neville tornou-se uma obsessão enorme, e que você está perdendo a razão.
— Está enganado — Hermione murmurou. — Não é obsessão. — Entretanto, pela expressão do rosto de Rony, ela concluiu que ele não acreditava.