N/A: ao lerem este capítulo, amados leitores, tenham em mente que a fic se chama Cliché Love Story, por motivos bastante óbvios. E tenham em mente, também, que ainda tem um epílogo depois daqui... Falo com vocês depois do capítulo.
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“Pessoas que são feitas para ficar juntas sempre dão um jeito no final.” – One Tree Hill
Capítulo 20
O ginásio da escola estava lindo, todo decorado com estrelas prateadas e várias outras estrelas brilhantes como platina pendiam do teto, formando um grande céu estrelado. Uma parede inteira estava coberta com uma cortina de pequenas luzes brancas, como aquelas que são usadas para decorar as casas no Natal. Era um desperdício usar uma decoração tão bonita em um baile de colégio.
Respirei fundo e alisei meu vestido azul-esverdeado antes de me juntar a Lene e Mary para fazermos a foto. Definitivamente, não precisávamos de pares para termos fotos bonitas no baile. Não precisávamos de pares para nada. Eu, é claro, não conseguia pensar em nenhum garoto que não fosse um certo jogador de futebol importante na jogada que permitiu que a Marion Collins empatasse o último jogo antes das férias de primavera. Marlene sempre dizia que não queria mais garotos de colégio. Mary... bem, Mary arranjava companhia quando bem entendesse.
- Caramba, vou ter que parabenizar a Jane assim que a encontrar – Lene comentou sorridente olhando em volta. Não mencionei que várias outras pessoas trabalharam duro no planejamento e decoração do baile porque sabia que praticamente tudo fora planejado por Jane; era por isso que ela precisava da opinião das amigas a respeito de tudo, já que o comitê pouco ajudava.
Nós logo avistamos Alice e Frank dançando na pista; eles acenaram contentes e nós respondemos. Todo mundo parecia contente esta noite. Mas meu olhar estava inconscientemente vasculhando o ginásio a procura de uma única pessoa, que parecia não estar em lugar algum.
- Querem dançar? – Mary perguntou, parecendo animada.
- Vão indo – eu disse. – Eu vou pegar um pouco de ponche e sentar por uns minutos.
Lene me olhou com cara de preocupação.
- Tudo bem? – perguntou.
- Tudo, sim – concordei com um sorriso tranquilizador. – Vão lá e eu encontro vocês daqui a pouco.
Lene ainda parecia estranhamente preocupada, mas mesmo assim concordou, e elas se afastaram. Eu andei em direção ao ponche.
- Lily! – ouvi uma voz conhecida às minhas costas. – Você está linda! Me agradeça por ter insistido para que comprasse esse vestido.
- Oi, Dorcas. – Eu me virei, já com meu copo de ponche nas mãos, para cumprimentá-la. Ainda era estranho não ter mais todos os amigos de James me achando uma terrível mentirosa. – Obrigada. E você, é claro, também está linda. Veio mesmo sem par? – perguntei por não ver nenhum garoto com ela. – Achei que disse que faria isso só para me convencer a vir. – Eu ri.
- Claro que eu trouxe um par. A Emmeline! – ela riu. – Mas parece que ela já encontrou seu príncipe encantado. – Ela indicou a garota alta e loura dançando nos braços de um garoto também alto e louro. – Longa história. Mas parece que é para valer. Por mais estranho que possa parecer.
Assenti.
- Fico contente por ver as coisas dando certo para ela. Em merece.
Dorcas concordou. Ela pegou seu próprio copo de ponche e nos afastamos em direção aos grandes pufes em preto e branco distribuídos perto da entrada da festa. Nós sentamos e continuamos a conversar. Dorcas, incrivelmente, estava sozinha por lá. Mais ou menos como eu.
- Só tem um garoto com que eu gostaria de estar, e ele provavelmente vai trazer a namorada esta noite. – Foi o que ela disse. Dorcas gostava mesmo de Remus. E muito, eu percebi. Ele não devia brincar com ela daquela maneira. Eu costumava pensar que Remus era o mais legal das quatro “pestes”, mas nenhum dos outros três estava partindo o coração de uma garota incrível como Dorcas. Pelo menos não da maneira como Remus estava fazendo.
Não muito tempo depois, avistei, entrando no ginásio já cheio, James, Sirius, Peter e o próprio Remus. Só os quatro, todos vestindo traje social, incluindo gravatas. Isso definitivamente não era algo que se via todo dia.
Eu respirei fundo ao ver James. Ele estava tão bonito. Seu cabelo, desarrumado como de costume, contrastava com a formalidade do traje.
- Onde é que está a Eloise? – Dorcas perguntou, mas era uma pergunta retórica. Ela olhava na mesma direção que eu, mas para um garoto diferente do que eu observava. Eu concluí que Eloise devia ser a namorada de Remus.
Também vi o momento em que eles fizeram contato visual. Os outros três foram para o outro lado do ginásio, mas Remus veio em nossa direção; o olhar dele estava o tempo todo grudado no de Dorcas.
- Noite – ele nos cumprimentou e nós respondemos. Dorcas olhou para seus escarpins escuros.
- Achei que ia trazer Eloise – ela murmurou ainda sem levantar os olhos. – Suponho que ela more muito longe só para vir ao bai...
- Eloise e eu terminamos – ele respondeu cortando a fala de Dorcas e ela imediatamente levantou o olhar, que se dirigiu ao dele. – Eu disse a ela que não podia mais continuar com aquilo porque eu sou apaixonado por outra garota.
Dorcas abriu a boca, mas nenhum som saiu dela. Era como assistir televisão, a cena era totalmente Barrados no Baile ou algo assim. Remus não esperou que ela reencontrasse sua capacidade de falar.
- Eu quero você, Dorcas, e só você.
- Ai, meu Deus! – ela exclamou, aparentemente se recuperando da surpresa e descrença iniciais. – Remus!
Ela pulou do pufe e o agarrou ali mesmo. Eu sorri comigo mesma. Era bom ver as coisas se ajeitando. Talvez aquela magia de baile realmente existisse, talvez ela realmente mexesse com o ânimo dos estudantes. Talvez o bordão que eu tinha sugerido e que foi aprovado, Carpe diem, realmente estivesse sendo levado a sério. Talvez existisse uma razão verdadeira para todo o filme adolescente que se preze terminar em um baile.
- Posso pegá-la emprestada, Lily? – Remus perguntou quando eles finalmente se separaram.
- À vontade. – Eu sorri.
Eles começaram a se afastar, mas Dorcas parou e se aproximou de mim de novo, ainda segurando a mão de Lupin.
- Ei – disse ela. – Não vá ficar sentada aí por muito tempo. Foi você que sugeriu Carpe diem como o lema da festa.
- Eu sei. Não se preocupe, eu vou aproveitar o dia... Digo, a noite.
Fiquei observando os dois irem até a pista de dança e bebi o resto do ponche no meu copo plástico. Ninguém tinha tentado batizar a bebida ainda porque era muito cedo. Mas alguém com certeza ia tentar, mais tarde. E talvez conseguisse. Eu meio que queria que alguém conseguisse, talvez fosse um jeito melhor de passar a noite.
Eu observava os alunos dançando na pista quando avistei Clarissa. Ela parecia, como todo mundo, animada, mas baixou a cabeça assim que me viu. Clarissa não tinha tentado falar comigo desde que todo o incidente com James acontecera e isso era bom, porque eu não teria conseguido falar com ela. Só que, de alguma maneira, o fato de eu querer tanto que James me perdoasse e o fato de todos os amigos dele estarem por perto de novo me fez perceber que talvez eu pudesse perdoar a garota que tinha causado tudo aquilo. Clarissa Vermont se metera em algo que não era assunto dela, certo. Ela acabara com meu relacionamento feliz, certo. Mas foi tudo em nome do que ela acreditava – que as pessoas não deviam brincar com os sentimentos das outras; uma situação pela qual ela já tinha passado e por que já havia sofrido muito.
Eu me levantei, em parte porque precisava esticar as pernas, em parte porque sentia que era o certo. Me aproximei de Clarissa e pedi para falar com ela, que pareceu surpresa, mas concordou e me seguiu para longe dos alunos que dançavam.
- Aproveitando a noite? – perguntei, sem saber como iniciar a conversa.
- Sim. – ela deu de ombros. Em seu vestido branco, ela não parecia nada com a cobra da escola. Parecia uma garota como qualquer outra. – Pelo menos enquanto eu conseguir ignorar o quanto praticamente todo mundo aqui me odeia, acho que posso me divertir. Apesar de bailes não serem a minha coisa favorita, você deve imaginar a razão.
É claro, porque ela tinha sofrido a maior humilhação da vida dela no baile de inverno. Uma humilhação tão grande, tão forte, tão difícil de lidar que fez com que ela pensasse, realmente pensasse, em tirar a própria vida. Lembrar desse fato fazia com que eu me sentisse uma pessoa terrível por chama-la de vaca, mesmo que eu estivesse com muita raiva dela naqueles momentos.
- É – concordei. – Escute, Clarissa, eu só estava pensando em como você só contou tudo ao James porque pensava que estava fazendo o certo, porque não entende como alguém pode brincar com os sentimentos dos outros, principalmente quando os outros não fazem nada além de ser bons...
- Me desculpe, Lily – ela me interrompeu, finalmente olhando para mim. – Eu sou uma idiota. Eu me meti em algo que não tinha nada a ver comigo... E machuquei vocês dois.
- Você não machucou James – eu neguei. – Fui eu quem fez isso. E, bem, se eu tivesse tido a decência de contar a ele e pedir perdão, você não precisaria ter se metido.
Eu estava me culpando pelo ato dela, o que não era minha intenção. Mas eu não corrigi.
- Eu entendo que você me odeie, Lily. Quer dizer, você contou uma história pessoal para mim, confiou em mim... E o que eu fiz logo em seguida foi trair sua confiança. Quando você foi uma das únicas pessoas que foi legal comigo, quando tentou me ajudar a lidar melhor com meus próprios problemas. – Ela olhou para mim com expectativa, esperando que eu dissesse alguma coisa, mas eu simplesmente não consegui. – Eu não posso dizer que eu não faria de novo se tivesse a chance. Mas... eu falaria com você. Eu tentaria convencer você de todas as maneiras. E só depois... Só depois eu procuraria pelo James.
- E seu eu provasse a você que o amava? – eu não sabia se alguma vez já tinha dito que amava James e era estranho estar falando isso para justamente ela.
- Então, talvez, eu achasse que isso era o mais importante.
- Clarissa, eu... Olhe, eu entendo seus motivos, por que você só conseguiu agir dessa maneira e de nenhuma outra. Eu estava errada em não ter contado a James... Eu só gostaria de ter tido a chance de fazer isso, entende?
Ela assentiu.
- Eu lamento. Lily, me desculpe, me desculpe mesmo.
Eu pensei por um momento. Eu deveria desculpa-la? Deveria dar uma terceira chance a Clarissa Vermont? Ela merecia?
É, ela merecia. Eu provavelmente não voltaria a contar meus maiores segredos a ela, como se fosse minha melhor amiga, mas eu poderia perdoá-la. Eu queria que James me perdoasse pela merda sem tamanho que tinha feito, não queria? Por que eu não poderia perdoar Clarissa também? Se ela não tivesse ninguém, afinal, provavelmente ia se tornar mais amarga do que já era, e isso só teria efeitos ruins.
- Tudo bem. Eu perdoo você, Clarissa.
Ela pareceu não acreditar logo de cara. Mas depois, sorriu.
- Obrigada. Você... Você é incrível. Obrigada por mais essa chance. Obrigada por ter me dado uma chance quando nem eu mesma me dei. Por me mostrar que valia a pena conhecer as pessoas a minha volta. Por fazer com que seus amigos também me dessem uma chance. Talvez você não acredite, mas as coisas mudaram muito para mim desde que você começou a ser minha tutora em história.
Eu sorri, sentindo-me aliviada por conseguir fazer isso com sinceridade.
- Acredito. Eu sou ótima assim. – Era uma alívio conseguir fazer uma piada idiota também.
Vi uma lágrima solitária em seu rosto. Clarissa passou as costas da mão na bochecha para secá-la. Eu compreendia, de certa maneira, o que isso significava para ela.
- A gente se vê por aí, Clarissa – eu disse, com um último sorriso e me virei para caminhar até a pista, sentindo uma estranha sensação de alívio, como se tivesse tirado um peso enorme das minhas costas. Isso era bom e eu finalmente sentia vontade de dançar ao som de Pussycat Dolls com minhas amigas. Era para isso que os bailes existiam, afinal. Dançar. Se divertir. Aproveitar o momento.
Era engraçado o quanto era possível se divertir em algo tão idiota quanto o baile da escola se você simplesmente se deixasse levar. É, talvez o Baile da Primavera fosse brega, cheio de alunos que só estão lá para fazer desfile de moda (porque, sinceramente, a maioria estaria mais feliz em outra festa qualquer), uma briga por uma coisa tão sem noção quanto uma coroa ou uma tiara que representa o fato de você ser o rei ou a rainha do baile, como se isso de fato fosse grande coisa. Não é. Nada disso é relevante. Mas assim que você admite que, sim, o baile é brega e não tem nada demais, você pode aproveitá-lo; você pode dançar, rir, conversar e ter certeza de que esse é um dos momentos da escola dos quais você vai lembrar e vai se divertir depois. E acho que esse é o objetivo de tudo.
Finalmente, o tempo (que parecia meio estagnado no começo do baile) passou voando, de modo que me surpreendi quando chegou a hora de anunciar o rei e a rainha do baile. Vi os cinco garotos e as cinco garotas concorrentes se dirigirem à área mais iluminada do salão para o anúncio. James estava entre eles, e parecia extremamente entediado, como se a última coisa que ele fosse querer na vida fosse ser coroado o rei do baile de primavera. Bem, não era mesmo muito do feitio dele. Para ser sincera, nenhum dos garotos parecia realmente ligar para aquilo, ao contrário das animadíssimas garotas.
Não foi surpresa nenhuma quando foi anunciado o resultado: Sirius Black era o rei e Melissa Keyes, que eu sabia que estava em Física comigo, era a rainha. Embora a rainha sempre fosse ofuscada pela beleza estonteante de Sirius, Melissa parecia bem feliz consigo mesma.
Eles foram para o meio do ginásio, com o holofote sobre suas cabeças e dançaram The Way You Look Tonight, que não é nem um pouco uma música para ser desperdiçada com o rei e a rainha do baile, mas foi só algo que Jane quis fazer. Segundo ela, no baile dela ninguém ia dançar música lenta brega; tragam Frank Sinatra! Sirius fez a menina rodar pelo salão, conforme manda o figurino (e Sinatra) e os dois pareciam estar realmente se divertindo, porque riam muito da comicidade da situação.
Minha melhor amiga Marlene mal sabia que ia ter uma espécie de piripaque lá mesmo, tendo em vista que ela não tinha como saber que Sirius, terminada a música, ia chama-la para dançar. Exato, Marlene, dançando com Sirius. Ele já tinha perguntado sobre ela, sobre ela e Miguel, mas nunca tinha realmente tentado nada. Marlene parecia extremamente feliz, surpresa e um pouco atônita, mas recuperou-se rapidamente e foi dançar com ele.
Uns quinze minutos mais tarde, Lene apareceu para falar comigo, que tinha sentado novamente em um dos pufes. Acho que a visão de James com aquela cara tinha me deprimido seriamente. Ou talvez não tenha sido a expressão dele, e sim simplesmente o fato de eu tê-lo visto de novo. E ele estava lá e eu aqui. Aparentemente, ia continuar sendo assim para o resto da vida.
- Você viu? Digo, eu e Sirius Black dançando? – Lene me perguntou sem esconder a animação.
Pus um sorriso em meu rosto e respondi:
- Sim! – A animação pela minha amiga era genuína, pelo menos. – E aí?
- Bom, daí ele tentou me beijar e eu disse que não era bem assim... Porque, sabe como é, ele é Sirius Black. Mas ele disse que estava tudo bem. Disse que estava tudo bem! E daí perguntou se eu queria ter um encontro com ele, então. Lily! Sirius Black me chamou para um encontro! Ele disse que ia estar aqui nas férias e que ia me ligar. Acha que ele vai mesmo fazer isso?
- Bem, eu acho que ele já está interessado em você há algum tem...
Marlene me interrompeu.
- O quê? Ele está interessado em mim faz algum tempo? Sirius Black estava interessado em mim e você sabia e não me contou?
- Desculpe, Lene. Sério! É que eu não sabia realmente. Quer dizer, ele nunca me falou que estava interessado, sabe, com todas as letras. Ele me perguntou sobre você na festa da Jane e depois quis saber o que você via no Miguel... E, bem, eu acabei esquecendo de mencionar tudo isso a você.
- Eu jamais vou ter perdoar – ela ameaçou, mas sorria e não parecia nada chateada. Suponho que não tenha como ficar infeliz depois de descobrir que, supostamente, Sirius Black está a fim de você.
- Bom, isso não importa muito agora, certo? Quer dizer, apesar de você não ter me deixado terminar, acho que ele vai mesmo te ligar. E, além disso, você esteve com Miguel esse tempo todo. Que diferença ia fazer?
Lene deu de ombros ao meu lado.
- Quanto tempo perdido... – ela murmurou.
- Não foi tanto tempo perdido, foi um mês ou dois – eu disse. – E você teve bons momentos com ele. Não era como se você esperasse que fosse durar a vida toda, certo?
- Tem razão. Já acabou e eu nem fiquei com ele por tempo suficiente para sentir muita falta depois. Foram só... Alguns bons momentos que vou guardar na memória.
Eu sorri a incentivando.
- Agora vá lá dançar com seu príncipe... Se é que se pode chamar Sirius Black de príncipe. – Fiz uma careta. Sirius não era exatamente quem vinha à minha mente quando eu pensava em um príncipe encantado, apesar de sua aparência impecável.
- Sirius não é um príncipe – ela concordou. – Dã, ele é um rei!
Mas antes de ela se afastar, quando ainda ríamos, vimos Jane andando por ali.
- Jane! – Marlene gritou, escandalosa. Por incrível que pareça, era a primeira vez que a víamos no baile inteiro. Tinha muita gente que eu ainda não tinha visto.
- Oi! – Jane nos cumprimentou. Ela parecia mais majestosa do que qualquer uma com seus enormes saltos agulha e seu tomara-que-caia prateado.
- Meu Deus, isso está lindo! – Lene exclamou fazendo um gesto amplo com o braço para mostrar que se referia à decoração. – Parabéns.
- Obrigada. Deus sabe que eu me estressei completamente para que tudo ficasse perfeito... Mas valeu a pena. – Jane parecia satisfeita com o trabalho que ela e o resto do comitê tinham feito. Mais ela do que o resto do comitê. – Estão se divertindo? – perguntou, como boa anfitriã que é.
Nós conversamos por mais alguns minutos, e depois Jane se afastou para resolver algum problema. Pobre Jane.
- Vá com Sirius – eu sugeri a Lene. – Eu sei que é o que quer fazer.
- E você, vai ficar aqui?
- Meu Deus, que obsessão vocês todos têm com isso. Vou ficar e descansar um pouco, esses saltos estão acabando comigo. E daqui a pouco vou dançar.
- Tudo bem, tudo bem.
Lene se afastou e eu fiquei no pufe, apenas observando as pessoas na pista. É incrível como todo mundo poderia parecer ridículo quando dança. Mas no fim das contas, praticamente ninguém parece.
É claro que alguém me tirou do meu devaneio, para variar. Mas dessa vez foi o Sr. Turner. Cara, sei que eu tenho todo aquele negócio de professores = carrascos, mas ele estava realmente bonito de camisa azul combinando com seus olhos. E, além disso, eu gostava bastante dele.
- Oi, Sr. Turner. Não sabia que estava aqui.
Ele tinha trazido um par. Se os professores eram obrigados a aparecer no baile a cada dois anos, pelo menos podiam trazer companhia. Caso contrário, seria só terrível para eles: um baile de colégio cheio de adolescentes e você lá, sem nada para fazer a festa inteira. A companhia dele até lembrava Shakira, mas muito pouco. Devia ter vinte e poucos anos e era mesmo bonita (Shakira, no entanto, é mais). É, não estava acontecendo balanceamento de vencedores da loteria genética nesse caso. Mas era bom. Marlene nunca ia perdoar os céus se a noiva do Turner fosse uma baranga.
- Eu tenho que cuidar do ponche – ele respondeu. Porque alguém ia tentar derramar vodca “acidentalmente” lá, é claro. – Os garotos nesse momento estão todos me classificando como o professor mais odiado daqui. – ele deu de ombros.
Fui obrigada a rir. Era típico. Depois ele me apresentou à Katherine, que sorriu e foi simpática. E quando ela estendeu a mão direita para apertar a minha, pude ver seu anel de noivado. O quão bem será que paga um cargo de professor na Marion Collins no começo da carreira? Ou, veja bem, pode ser o dinheiro da família ou as economias dele. Ou uma relíquia. De qualquer forma, tenho certeza que é indelicado ficar pensando na renda das outras pessoas, mas o anel é realmente bonito.
- O que é que está fazendo sozinha por aqui? – ele perguntou. Caramba, até os professores! Dei um desconto porque era o Turner e eu estava me perguntando sobre seu salário mensal.
- Só descansando um pouco.
- É mesmo? Porque você parece chateada.
- Pareço?
Ele assentiu.
- E no caso de realmente estar chateada, tem alguém que com certeza estaria na mesma situação que você.
Eu virei para ver o que ele indicou com a cabeça. Ou melhor, quem. James estava sentado num sofá preto mais distante. Ele tinha tirado o paletó e desfeito o nó da gravata, que estava só pendurada em seu pescoço. Ele segurava um copo plástico e tinha, ou apenas era o que parecia daqui, o olhar perdido em nenhum ponto em particular. Ignorava completamente o casal que se agarrava bem ao seu lado. Não sei como conseguia.
- Ah... Sr. Turner, você está sabendo... das histórias?
O Sr. Turner riu.
- Bom, Lily, vocês dois são meus alunos e fazem parte da mesma turma.
E tenho certeza de que os professores são todos como tias velhas durante o cafezinho: não conseguem deixar de comentar as fofocas do corredor. Até parece que algum deles me engana.
- Ah, bem... Certo. Mas não estou chateada com isso, não – menti prontamente.
- Claro – ele concordou sem parecer completamente convencido. – Bem, tenho que dar uma circulada. Mas aproveite a festa – ele recomendou, como todo mundo, e eu assenti. Depois se afastou, levando Katherine pela mão. Ela acenou discretamente e eu respondi.
Assim que eles saíram do meu campo de visão, virei de novo para olhar para James. Ele realmente parecia chateado.
E eu precisava de ar fresco, de modo que me levantei e andei rapidamente até a saída. Senti o ar gelado imediatamente. A insuficiência do meu vestido curto e fino em manter o calor do corpo não ajudava, mas não me importei muito. Um pouco de ar frio ia fazer bem para os meus pensamentos.
Não tinha muita gente do lado de fora do ginásio, apenas alguns casais e um gripo de amigos ocupando um banco e cantando Rolling Stones. Ok, ao menos eles estavam com certeza se divertindo mais do que eu.
- Está querendo congelar?
Eu virei na direção de onde vinha a voz. Era James, o que eu já sabia, porque não poderia não reconhecer sua voz. Ele trazia o casaco na mão e o pôs sobre meus ombros assim que se aproximou. Eu me senti imediatamente agradecida pelo gesto.
- Não está gostando da festa? – ele perguntou, puxando papo como se nada nunca tivesse acontecido entre nós.
- Estou – menti. Ou não menti, já que eu estava gostando da festa. Sabe como é, na medida do possível. – Só vim... Arejar um pouco a cabeça.
Ele olhava para a frente, percebi pela visão periférica, assim como eu. Eu não queria encará-lo porque temia ainda ver raiva ou decepção em seus olhos. Eu me perguntava por que ele não queria olhar para mim. Talvez ainda me achasse desprezível? Mas ele não estaria falando comigo nesse caso, estaria?
- Tudo bem se estiver achando uma merda. Isso é brega e sem graça mesmo. – Vi ele dar de ombros e quase sorrir com seu próprio comentário.
- Mas é bonito. – Eu dei de ombros também. – E tem gente que parece estar realmente se divertindo.
- Tem gente que parece estar se divertindo? – ele perguntou. – Você não está, então.
- Estava. Mas agora... Bem, estou desanimada – respondi com sinceridade.
Ele não respondeu. Respirei fundo antes de pôr para fora o que tinha para dizer, sem querer adiar, com medo de perder a coragem. Esse era o momento. Ele estava falando comigo. Depois do que eu tinha feito, ele estava falando comigo de novo. Por vontade própria, não porque eu o estava perseguindo. Eu sabia que estava prestes a repetir tudo o que já tinha dito mais de uma vez, mas eu precisava.
- James, me desculpe. Me desculpe por ter sido tão estúpida e por ter te julgado sem ao menos saber quem você era. De todas as coisas que você disse, o que mais me marcou foi quando você falou que o te chateava mesmo, mais do que qualquer outra coisa, é que o motivo para eu ter me aproximado de você era porque eu achava que você ia ser um idiota. Porque você está certo, James. Foi exatamente isso que eu fiz. – Eu fiz uma pausa para respirar. Ele não parecia estar pronto para falar qualquer coisa que fosse (nem mesmo “você já disse isso, Evans”). – E, no fim, eu que sempre julguei você era quem estava fazendo bobagem, enquanto você estava sendo só você mesmo... Mesmo que eu achasse difícil acreditar que você tinha mudado. E foi isso que partiu meu coração, sabe? Perceber que você tinha mesmo mudado... E que quando eu finalmente percebi isso, e gostei de quem você é agora, já era tarde demais para desfazer a bobagem que eu tinha feito. Mesmo que tudo corresse às mil maravilhas, eu ia ter sempre na minha lembrança que tudo tinha começado em cima de uma mentira. Em cima de um julgamento equivocado. Em cima do meu próprio preconceito.
Eu senti uma lágrima correr do meu olho direito. Apressei-me para limpá-la. James estava olhando muito fixamente em frente e não disse uma palavra. Então eu soube que era eu quem tinha de continuar. Respirei fundo mais uma vez.
- Eu só queria que você soubesse que eu entendo você. Depois de tanto tempo tentando me provar que era bom o suficiente para mim... E eu nunca te dei nenhuma chance para mostrar isso... Não até surgir a oportunidade de me aproximar só porque eu esperava que você me decepcionasse. – Mais uma ou duas lágrimas escorreram. Eu não me preocupei em secá-las dessa vez. – Então, James, eu lamento. Lamento porque, no fim das contas, quando eu vi quem você era, eu gostei de você. Só que da maneira estúpida como eu fiz as coisas, eu perdi você logo em seguida.
Eu olhei esperançosa para ele, mas James ainda olhava para frente sem desviar o olhar nem um milímetro. Ele também não disse nada. Mais uma vez foi a minha voz que preencheu o silêncio, com as mesmas palavras de sempre. Existia uma grande diferença, no entanto, entre escrevê-las ou fala-las em voz alta.
- Mas se tem uma coisa que eu quero que você saiba, não importa o quanto você me odeie no momento, é que eu mudei de opinião a seu respeito. Eu já disse isso, mas estou reafirmando para deixar bem claro. Eu nunca mais vou conseguir pensar em você como... Como uma atleta popular, sem cérebro, vazio e raso. Porque você, James, é um dos caras mais legais que eu já conheci na vida. E quem quer que seja a garota que você vai eventualmente escolher para ficar com você, ela tem muita sorte.
Dizendo essas palavras, eu senti como se uma tonelada tivesse sido tirada dos meus ombros, do meu coração. Elas eram necessárias. Eu queria que ele soubesse de tudo isso. Eu queria que, no caso de ele realmente me odiar, ele me odiasse sabendo de tudo isso.
- É aí que está. Eu já escolhi essa garota. – A fala dele me surpreendeu. Eu pensei que ele simplesmente escolhera o silêncio, escolhera me ignorar. Mas ele continuou: - Quando eu tinha 14 anos e assisti ela sendo Julieta em Romeu e Julieta naquela maldita aula de teatro que éramos todos obrigados a fazer. Eu acho que essa foi a primeira vez que eu prestei atenção em você, Lily. Talvez porque, basicamente, tenha sido obrigado, já que você tinha o papel principal da peça do final do ano.
Agora ele olhava para mim. E isso só serviu para aumentar a minha confusão. Nada mais estava fazendo sentido algum.
- O quê...? – eu proferi com a voz bem baixinha, sem saber o que falar.
- Eu fiquei mesmo puto com o que você fez, e você claramente entendeu o motivo. – James falou, desviando o olhar do meu de novo. Mas não demorou muito para ele voltar a olhar para mim. – Mas eu não quero mais discutir isso. Qual é o sentido de eu ficar longe de você, afinal? Quando você finalmente, da maneira que ocorreu, não importa, teve a chance de ver quem eu sou... E quis ficar comigo depois do que você viu. Cara, qualquer motivo parece muito estúpido.
- Então... – Soou inaudível até para mim. Limpei a garganta e comecei de novo: - Então, o que isso quer dizer, afinal?
- Quer dizer que se você quiser a sua segunda chance... Bem, estou disposto a fazer isso. Dar uma segunda chance.
- Sério? – Eu não esperei pela sua resposta. – É claro que eu quero. Mais do que qualquer coisa.
E daí eu o beijei. Era incrível como eu não conseguia mais sentir frio quando estava nos braços dele. Era incrível como eu conseguia me sentir como se finalmente estivesse voltando para casa depois de muito tempo longe.
E era ainda mais incrível como eu não conseguia nem achar ridículo ficar pensando coisas tão, mas tão bregas.
- Quando você decidiu? – perguntei, ainda abraçada a ele, ainda no pátio. – Me dar uma segunda chance?
- Sei lá – ele respondeu. – Agora. Ou talvez no dia seguinte ao que eu descobri tudo. Eu com certeza estive pensando nisso desde que ocorreu.
- Por quê? – eu não consegui me conter. Eu não precisei dizer o que estava pensando, eu sabia que James sabia. Que se a situação fosse o contrário, eu não teria dado uma segunda chance. Que talvez eu não tivesse nem perdoado.
- Porque não tinha sentido continuar assim. Não quando estar com você era o que me deixava feliz.
Eu sorri e o beijei de novo.
Mias tarde, quando cheguei em casa (bem tarde mesmo, já que aparentemente era uma tradição fazer um pós-baile na casa de alguém), me peguei pensando no que tinha acabado de acontecer.
Tanta coisa tinha se consertado nessa noite, como num passe de mágica. Talvez exista alguma magia em bailes de escola, no final?
Ou talvez, só talvez, no fundo mesmo, todo mundo aprecie um bom clichê. Afinal, dizem que quando bem utilizado, um clichê pode se transformar em uma história incrível.
Eu não duvidava. Eu mesma estava tendo minha própria história de amor clichê. E era a coisa mais incrível que eu já tinha vivido.
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N/A: depois de reler, reescrever e revirar todo esse capítulo milhares de vezes, aqui está. Como eu disse lá em cima, a enorme quantidade de clichês presente nele é proposital, principalmente porque a proposta da fic era desenvolver essa história em cima de um monte de clichês das histórias de romance adolescente. E não vamos esquecer que existem algumas coisinhas (concurso de contos, conhecem?) que ficaram sem solução... porque existe um epílogo que deve ter a metade do tamanho de um capítulo normal.
Enfim... James lindo perdoou a Lily, todo mundo já sabia, não tem nada de muito inesperado aqui. Talvez tirando o fato de a dança do rei e da rainha do baile ser Frank Sinatra hahaha Eu não podia perder uma oportunidade como essa.
Agradeço os comentários e os elogios, adoro todos!
Nos vemos, em breve, no epílogo.
Fernanda M