"Anywhere you go, anyone you meet, remember that your eyes can be your enemy. Hell is so close, heaven is out of reach."
Sweet and Low, Augustana.
- Tem certeza de que é por aqui? - perguntei, dando mais um passo cansado para contornar a montanha.
- Sim. Aqui diz: a 30 passos de dragão a noroeste de Hogsmeade. Nós acabamos de passar pela Dervixes e Bangue. Devemos ver o lugar em breve. - Tiago afirmou, apertando minha mão como incentivo.
E ele tinha razão. Atrás da montanha que ficava ao final do povoado, bem escondida por um vale estreito, havia uma casa de madeira de uns três andares, com uma volumosa chaminé liberando fumaça no ar de fim de tarde. Nos aproximamos cautelosamente e tocamos a campainha.
- Entrem, entrem de uma vez. Vocês estão atrasados. - um homem de idade, com o rosto coberto de largas cicatrizes, nos recebeu na porta, acenando impacientemente.
- Alastor Moody. - Tiago cochichou para mim, pelo canto da boca - Auror das antigas. Dos bons.
Moody não era o único auror que encontramos no local. Tão logo desembocamos em uma grande sala iluminada por tochas, embora fosse dia, Tiago recitou mais uns 15 nomes ao pé do meu ouvido. Alguns deles eu podia reconhecer dos tempos de colégio, como Dorcas Meadows, Marlene McKinnon, além de, é claro, Sirius Black, Remo Lupin e Pedro Petigrew. Havia ainda mais gente na sala; professores de Hogwarts, funcionários do Ministério da Magia e mais uma sorte de pessoas que não parecia ter ligação concreta umas com as outras. E, no centro de tudo, o professor Dumbledore, parecendo muito calmo e confortável.
- Caros amigos, que bom que todos vocês puderam comparecer. - ele começou e embora sua voz fosse baixa e suave como sempre, reverberou poderosa por aquela sala cheia - Imagino que vocês devam estar se perguntando o que fazem aqui... Não manterei o suspense. Essa reunião é o que posso chamar, sem meias palavras, de um recrutamento.
- Recrutamento?
- Para quê?
- O quê?
- Eu explicarei. - Dumbledore disse, acalmando as perguntas imediatamente - Por mais que nosso governo queira ignorar a atual situação do mundo bruxo, nós estamos em guerra, meus caros amigos. Se vocês tem acordado todas as manhãs para a mesma realidade que eu, não vou surpreendê-los ao dizer que Lord Voldemort e seus seguidores estão cada vez mais poderosos, ambiciosos e malignos...
Senti um arrepio subir por meus braços e Tiago passou a mão pela minha cintura, colando meu corpo ao dele, como se pudesse me proteger daquelas palavras. Daquelas verdades. Cada um de nós, presentes naquela sala, bebemos das palavras do professor Dumbledore. Tive certeza de que a mesma sensação percorria a todos na mesma ordem: expectativa, quando ele anunciou sua intenção de criar um exército de contra-ataque, a Ordem da Fênix. Orgulho, quando Dumbledore disse que se tínhamos sido convocados era porque éramos de sua inteira confiança e competência. Raiva, quando ele listou os acontecimentos das últimas semanas. E, por fim, uma vontade enorme de lutar até a morte para transformar tudo aquilo. Pouco a pouco, palavra a palavra, Dumbledore transformou cada um de nós - ex-alunos, aurores, professores, medibruxos - em guerreiros apaixonados.
- Uma fotografia para gravar esse momento? - um homem de cabelos castanhos sugeriu, retirando uma grande máquina fotográfica de dentro da capa.
Todos assentiram, aos poucos, e nos juntamos a um canto, sorrindo, mais confiantes do que em meses, de que podíamos vencer. De que tudo ficaria bem. O flash bateu e nos gravou, no auge da bravura - membros orgulhos da Ordem da Fênix.
Meus passos ecoavam na rua vazia, mais alto do que as batidas frenéticas do meu coração. As gotas da chuva retumbavam nas poças, meus pés afundavam na água enquanto eu corria cada vez mais rápido. O vulto negro virou uma esquina e eu acelerei atrás, a varinha rasgando o ar na minha frente em movimentos rápidos. Os feitiços povoavam minha cabeça no automático, mas a velocidade tornava difícil acertar o alvo. Lancei um estupefaça e o comensal se defendeu habilmente, agitando a varinha por cima do ombro. Continuamos a correr. Eu não ia deixá-lo escapar.
Vi-o derrapar em uma calçada molhada e sua capa arrastou no chão, quando ele fez uma curva tropeçante para a esquerda. Dei um impulso forte com os pés e me atirei sem pensar sobre o vulto encapuzado, antes que ele pudesse recuperar totalmente o equilíbrio. Rolamos no chão, em uma luta de mãos, varinhas e cotovelos. Mal conseguia respirar. Parei por cima, a varinha espetada contra o pescoço do comensal.
- Estup...
- Lílian! - a voz dela reboou pela noite chuvosa, no momento em que o capuz escorregou por seus cabelos loiros.
- Cissa? - minha voz falhou e a varinha afrouxou a ameaça.
- Lils! - olhei por sobre o ombro e vi Tiago aparecer na noite, seus olhos captando em um único momento toda a situação - Encarcer... - ele começou, a varinha apontada para Narcisa.
- Tiago, não! - interrompi-o com um aceno desesperado de cabeça.
- Lils...?
- Eu... - desviei os olhos dele para a mulher abaixo de mim - Cissa...
- Lílian.
- Lils!
- Eu... Eu...
Sentei na cama de súbito, o coração batendo na garganta. Minha mão estava fechada nos lençóis, como se empunhasse uma varinha. Não empunhava. A chuva caía do lado de fora, mas eu estava seca, enroscada em lençóis quentes.
- Lils? - Tiago me chamou, erguendo-se na cama, esfregando os olhos sonolentos - Você está bem?
- Eu... preciso ir.
- O que?
- Eu preciso ir. - disse, afastando os lençóis para o lado.
- Ei, ei... calma. Foi só um pesadelo. Já acabou. Vem aqui...
- Não! Não... - empurrei-o pelo peito, tentando me desprender de seus braços - Eu preciso ir.
- Ir aonde?
- Eu só... - levantei da cama de Tiago e catei rapidamente minhas roupas pelo quarto - Eu preciso ir.
Adiantei os passos pela casa silenciosa, esperando tomar uma boa dianteira antes que Tiago pudesse vir atrás de mim.
- Lils! - ouvi-o chamar em um sussurro - O que você está fazendo?
Ignorei-o. Continuei caminhando o mais rápido que pude pelos corredores labirínticos da mansão Potter, até a saída. Praticamente corri os últimos passos, abri a porta e desaparatei um momento antes que Tiago me alcançasse.
Abri a porta do meu apartamento ainda com o coração palpitando. Corri até o quarto, vasculhando as gavetas até encontrar o pergaminho.
Narcisa, você está aí? Vem me encontrar. Agora. Por favor. Por favor, Narcisa.
Escrevi, minha letra manchada e quase ilegível pela pressa.
Ok.
Foi a resposta simples que apareceu longos momentos depois. Larguei o papel e a pena sobre a cama e voei até a porta do apartamento. Abri-a no segundo exato em que Narcisa apareceu. Era madrugada, mas Narcisa vestia uma roupa de gala, perolada, e seu rosto estava maquiado de forma a destacar todos os seus traços aristocráticos, no melhor estilo Black. Não perguntei nada. Apenas olhei para ela, meu coração finalmente voltando a um ritmo aceitável, enquanto aqueles olhos se fixavam em mim. Aqueles olhos ridiculamente azuis.
Eu dei um passo para a frente e Narcisa esticou os braços para mim. Nossos corpos se encontraram e eu me apertei contra ela.
- Sonhei com você.
- Acho que não foi um sonho bom. - ouvi-a sussurrar, seus dedos se enroscando pelo meu cabelo.
- Não, não foi.
- Vem comigo a um lugar?
- Eu sempre vou, não é mesmo? - respondi, sorrindo. Narcisa me puxou de vez para fora do apartamento e desaparatamos.
Abri os olhos em uma praia escura. A lua estava enorme no céu e não chovia.
- Onde...?
- Brighton. - ela explicou rapidamente - Meus pais têm uma casa perto. Costumávamos passar os verões aqui. Gosto de vir pra cá... O mar... me acalma.
- Calma é uma coisa rara ultimamente.
- Sim. - Narcisa despiu-se da capa e esticou-a sobre a areia, displicentemente, então se sentou.
- Como você está, Cissa? - perguntei em um sussurro, me sentando ao lado dela.
- Com saudades de você.
- Fazia tempo...
- Duas semanas.
- Eu andei...
- Ocupada. - Cissa me completou - Eu sei. Eu também.
- Também estou com saudades.
- Eu estou aqui agora. - Narcisa murmurou e eu balancei a cabeça positivamente.
Ela estava ali agora. Esse advérbio era a palavra mais ressonante da frase, e nós duas sabíamos disso. Eu quis parar aquele momento no tempo e fazer aquele "agora" ter um quê de "para sempre". Talvez fosse apenas a maneira como o cabelo dourado de Narcisa refletia a luz da lua, ou como seus olhos miravam minha boca, exatamente da mesma maneira que o fizeram naquela noite na boate trouxa. Como se ela já não tivesse me experimentado muitas e muitas vezes. Como se ainda fôssemos duas garotas confusas, meio indecisas, que não faziam a menor ideia do que estava acontecendo. Bom, na verdade, éramos mesmo.
Narcisa tinha aquele poder estranho de deixar toda minha vida em suspenso e me arrastar para um universo paralelo de fantasia. Eu quisera, eu quisera mesmo arrastá-la - até mesmo à força - para a vida real comigo. Mas não era possível. Ela tentara me dizer isso, me mostrar isso, uma vez atrás da outra. Eu tinha cobrado de nós algo que nem eu nem ela tínhamos para oferecer. Nós não existíamos fora do Éden. E nosso tempo no paraíso estava se esgotando. Tudo que tínhamos era o agora. Como sempre.
Inclinei o corpo na direção dela e nossas bocas se uniram. Cissa suspirou antes de partir os lábios para receber meu beijo. Nossas línguas se enroscaram naquela dança lenta. As mãos dela desceram para minha cintura e me deitaram sobre sua capa que cobria a areia macia. Seus lábios quentes desceram para o meu pescoço, fazendo uma trilha incandescente de beijos e lembranças.
- Você é uma medibruxa?
Narcisa esgueirava as mãos para dentro da minha camisa, suas unhas deslizando pela minha barriga até o começo do sutiã. Suspirei, erguendo os braços para que ela me despisse da peça. Então tateei à procura do fecho de seu vestido justinho e deslizei o zíper até o final. Cissa se ajoelhou e baixou uma alça de cada vez, empurrando o tecido apertado por seu corpo esbelto, lenta e provocativamente. Havia alguma coisa naquela delicadeza sofisticada dela que me tirava do sério.
- Tenho uma dívida com você.
Ela não estava usando sutiã e quando seu vestido foi finalmente jogado para o lado e Cissa se inclinou mais uma vez sobre mim, seus seios praticamente se ofereceram aos meus lábios , irresistivelmente. Beijei-os lenta e dedicadamente, sentindo-a puxar meu cabelo e gemer baixinho ao meu ouvido. Minhas mãos deslizaram por seu corpo macio e a livrei de sua última peça de roupa.
- Eu confiei em você.
- E por quê? Por que, diabos, você confiou em mim?
Os dedos de Narcisa correram até o cós da minha calça jeans e batalharam com o botão por um momento, antes de abri-lo e empurrarem o tecido pelas minhas pernas. Chutei a calça para longe e enrosquei minhas pernas ao redor do corpo de Narcisa, puxando-a mais para mim. Nossas bocas voltaram a se encontrar, agora mais sedentas, mais famintas. Sentia as mãos dela deslizando pelas minhas coxas até os joelhos, voltando em direção aos quadris e afundando as unhas em minha cintura.
O corpo de Narcisa, a pele de Narcisa, o toque de Narcisa... Você estuda feitiços, transfiguração, estuda até ficar exausta e acredita que entende um pouco como as coisas funcionam. Você lê tudo que pode, pesquisa e cutuca e experimenta plantas, os fundamentos da herbologia, ervas, animais e os mistura nas poções mais incríveis. Você acha que entende alguma coisa dos elementos, da natureza, do corpo, de química. Então você conhece alguém que reage em você como ácido, veneno e antídoto. Alguém que te queima, te alivia, te inferniza e te sacia uma vez atrás da outra e te faz aceitar, depois de quase vinte anos de luta contínua para entender tudo... que você não entende nada. Que nunca entenderá a natureza, seus mistérios e seus milagres. Você conhece alguém e... Isso explica tudo.
- Você está brincando com fogo. Cuidado.
Cissa nos fez rolar, invertendo as posições. Em um segundo, sua mão abriu meu sutiã e ele foi atirado para um ponto qualquer da areia. Senti seus dedos explorando meus seios, sentindo-os arrepiados em suas mãos e aproveitando-se do efeito que tinham sobre a minha pele. Seu rosto se afundou em meu pescoço, me inundando de beijos molhados, de pequenas mordidas e sucções que deixariam mais do que seu nome, sua marca em minha pele.
Gemi, deslizando a mão para entre suas pernas e sentindo-a apertá-la entre suas coxas quentes. Sorri, continuando meu caminho até tocá-la com a ponta dos dedos.
- Um beijo. Foi, definitivamente, um beijo.
- Foi o que eu pensei...
Ela me queria. Podia sentir isso na maneira como me apertava contra si, no jeito como seu rosto estava afogueado. Podia sentir isso enquanto ela enfiava as mãos pelo meu cabelo e balbuciava meu nome, suspirando sua respiração quente e úmida em meu ouvido. E podia sentir isso enquanto a tocava e meus dedos deslizavam lenta e continuamente por sua excitação.
Cissa levou suas mãos até minha calcinha e afastou-a para baixo, até que também pudesse me tocar. Soltei um murmúrio de prazer quando sua mão se infiltrou pelas minhas pernas e me tocou intimamente. Uma nas mãos da outra. Um resumo tão simples e tão preciso dos últimos meses. Uma nas mãos da outra. Meio desajeitadamente, sem posição certa, testando, de um jeito e de outro, tentando encontrar o lugar certo. Uma nas mãos da outra. E isso era tudo que importava. Os olhos dela estavam nos meus, me atraindo para aquele desespero velado ao qual eu correspondera desde o primeiro dia. Estávamos as duas fugindo de tudo e nos esbarramos no meio do caminho. E acabamos assim, uma nas mãos da outra.
Os toques tornaram-se mais exigentes, mais apressados. Nunca fechamos os olhos. Pude ver naquelas íris azuis quando o clímax se aproximou, assim como ela pôde ver nas minhas. O desejo não era a cereja que finalizava tudo. Sempre fora, entre nós, o prato principal. Aquela dorzinha no fundo do peito, aquela angústia intrínseca de uma despedida, aquele sentimento de falta que vem depois da plenitude... aquela era a cereja. E a dor veio. A angústia. A falta. Mas, antes, a plenitude. Ela cresceu em mim, se expandiu até a ponta dos meus dedos e extravasou para o universo no orgasmo mais intenso da minha vida. Narcisa me acompanhou o tempo inteiro.
Então caímos as duas, lado a lado, suadas, abraçadas e em silêncio. Uma nas mãos da outra.
- Eu amo... Londres.
- Eu amo Londres também.
Tiago tocou minha campainha na tarde seguinte, sabendo que eu estava de folga. Trouxe um jogo novinho de snap explosivo, muitas e muitas caixas de feijõezinhos de todos os sabores e dois litros de cerveja amanteigada.
- Eu sei que não é o programa mais divertido do mundo, mas... - ele começou a se justificar, ainda parado na soleira da minha porta.
- É perfeito. - respondi, me afastando para que ele entrasse.
Passamos a tarde comendo, bebendo e explodindo minha mesinha de centro da sala. Seus olhos, sua voz e seu riso simples eram como um cobertor quente. E, naquela época, andava fazendo muito frio. Eu e Tiago conversamos por horas, sobre a Ordem da Fênix, sobre o St. Mungus, sobre nossos amigos. Ele não perguntou em nenhum momento o que tinha acontecido na noite anterior. Ele era um bom homem. Ele era... Bom, ele era o meu homem. Tiago completou minhas horas, meu dia, e Narcisa deslizou para fora da minha cabeça assim como um sonho bom que lhe foge quando você acorda.
A noite caiu, e nós ficamos deitados na cama, meio enjoados pela mistura de feijõezinhos doces e nojentos e mais cerveja amanteigada do que era aconselhável. Então ele se virou para mim, seus olhos brilhando por trás das lentes.
- Lils...
- Hm? - murmurei, preguiçosamente.
- Eu te amo. - ele disse e meu coração pulou uma batida.
- Eu também te...
- Não. - ele me interrompeu, segurando uma das minhas mãos e apertando-a - Deixa eu terminar. Eu me apaixonei por você no dia em que eu te vi pela primeira vez, no Expresso de Hogwarts, sentada ao lado do Ranhoso e achando que era ok ir para a Sonserina...
- Tiago! Eu...
- Espera. - ele riu, balançando a cabeça - O que eu quero dizer é que... Eu sei que fui um idiota por muito tempo. E que demorou para eu desfazer a primeira impressão que te deixei.
- E a segunda. E a terceira.
- Fica quieta.
- Sim, senhor.
- Continuando... - ele franziu as sobrancelhas, fingindo irritação - Eu provavelmente estou emocionalmente envolvido nesse relacionamento há muito mais tempo do que você. Então vou entender se sua resposta não for exatamente a que eu espero...
- Tiago?
- Esquece, isso é tudo mentira. Por favor, diga sim.
- Mas o que...?
- Lílian Evans... você quer se casar comigo?
- Não tem um prato limpo nessa casa!
- Você não precisa de prato para comer cereal! - exclamei e Tiago revirou os olhos.
- Nós vamos precisar de um elfo doméstico. É sério.
- Você sabe as condições... - disse, me levantando para abrir a janela para a coruja que bicava o vidro. Coloquei alguns nuques na bolsinha que ela trazia na pata e fiquei com o Profeta Diário.
- Não vamos explorá-lo! - Tiago argumentou, ainda vasculhando meus armários sabidamente vazios - Vamos tratá-lo bem! Como um membro da família...
- Se for assim... - aquiesci, enquanto folheava as páginas do jornal. As manchetes eram terríveis. Pulei as primeiras páginas, sem estômago para ler o sensacionalismo barato que tentava encobrir a realidade do mundo bruxo.
- Alguma notícia interessante?
- O que você acha? - perguntei, observando que a parte de coluna social crescera exponencialmente e o caderno voltado para jornalismo investigativo fora praticamente extinto.
Passei os olhos pelo jornal como um todo, até que uma foto particularmente grande chamou minha atenção. Mesmo em preto e branco, eu podia sentir a atração magnética daqueles olhos azuis. Narcisa estava de pé, ao lado de Lúcio Malfoy. Sua mão direita estava apoiada no ombro dele, deliberadamente mostrando o grande anel de noivado que ilustrava a manchete.
UNIÃO DE NARCISA BLACK E LÚCIO MALFOY SELA AMIZADE ENTRE DUAS DAS MAIS ANTIGAS E TRADICIONAIS FAMÍLIAS BRUXAS.
Engoli em seco, correndo os olhos pelo sorriso triunfal de Malfoy e pela expressão contente de Narcisa. Os dois pareciam tão... felizes. Mordi o lábio, sentindo um peso estranho na boca do estômago. O peso de um ponto final.
- Nós podíamos ter ficado em casa.
- Se você disser isso mais uma vez, juro que nunca mais tento um gesto romântico.
- Não seja dramático. - resmunguei. Mas segurei a mão de Tiago e entrelacei nossos dedos.
- Só se faz seis meses de casamento uma vez na vida, Lils.
- E sete. E oito. E nove. - argumentei e ele revirou os olhos e me puxou para si.
- Vamos comer, beber e ir para casa fazer amor o resto da noite.
- Vamos pular as duas primeiras etapas. - sugeri e Tiago estacou a dois passos da entrada do restaurante. Ele considerou a ideia por um longo momento. Meu erro foi não ter contido um sorriso vitorioso.
- Não! Mulher ardilosa... Você bem podia ter sido uma sonserina.
- O Chapéu Seletor considerou essa opção, sabia? - contei, distraidamente.
- Mesmo? E o que o fez mudar de ideia? - Tiago questionou, me arrastando para a recepção.
- Não sei. - menti, dando de ombros. Na verdade, assim que ele considerara a Sonserina, meus pensamentos haviam se desviado para Severo e eu tinha ficado feliz, pensando que poderia ficar ao lado dele e protegê-lo. De alguma maneira, isso me atirou direto na Grifinória.
Entramos no restaurante, afinal. Era um lugar agradável. Aproveitamos uma das poucas noites tranquilas que tínhamos nos últimos tempos. A Ordem ocupava a maior parte do nosso tempo livre. E ainda tínhamos nossos "empregos oficiais". O cardápio era todo muito tentador, mas não comi quase nada. Ultimamente, tudo me dava enjoos terríveis.
Quando Tiago resolveu pedir a conta, horas depois, pedi licença e me levantei para ir até o toalete. Coloquei a mão sobre o estômago, sentindo-o começar a se embrulhar. Respirei fundo, mirando meu reflexo no espelho do banheiro, lavei o rosto e o sequei lentamente.
Foi então que, ainda olhando através do espelho, eu a vi. Meu coração deu tantas cambalhotas no peito que quase saiu pela boca. Apertei mais forte meu estômago, a náusea aumentada pela surpresa. Minha boca se abriu e eu me virei para a entrada para encarar de frente aquelas íris azuis.
- Lílian... - Narcisa disse calmamente, seu corpo tenso e imóvel, seus olhos fixos em mim.
- Eu não sabia que você estava aqui... Eu não te vi...
- Eu acabei de chegar.
- Estou de saída... - disse, e ela balançou a cabeça em concordância.
- Você se casou.
- Você também... - repliquei, dando um passo trêmulo na direção da porta. Na direção dela. - Narcisa Malf...
- Não. - ela me interrompeu, adiantando-se um passo também para me calar ao cobrir minha boca com uma das mãos - Não quero ouvir na sua voz. - completou, deixando a mão cair ao lado do corpo.
Assenti lentamente com a cabeça e Narcisa abriu um meio sorriso e se afastou na direção dos lavatórios.
- Cissa... - chamei-a, em um fio de voz. Ela se virou para mim novamente e seu meio sorriso abriu-se completamente.
- Exatamente.
- Eu...
- Sempre vou amar Londres. - Cissa completou e eu engoli em seco, balançando bobamente a cabeça.
- É...
- Eu também.
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N/A: Nossa, eu nem acredito que consegui escrever esse capítulo. Tinha saído completamente do clima de SaL e tava com medo de levar meses pra conseguir fazer alguma coisa com esse final. Mas consegui. Acabei de escrever, e só dei uma mini-revisadinha. Então não estranhem se estiver cheio de errinhos. E meio que queria pôr logo um ponto final nessa história.
Sei que não é o final que todo mundo estava querendo, mas é o final que fazia sentido, o final para o qual a fic inteira se encaminhou e espero que vocês entendam e, apesar de tudo, gostem.
Eu nunca quis postar essa fic, mas preciso admitir que gostei da experiência, porque teve gente que LEU. YAAAAY. E isso é sempre incrível. Eu queria agradecer um por um, como fiz nos primeiros capítulos, mas está tarde e meu pc está travando o tempo todo =/ paoskaoskoa
Mas para cada um que já leu isso aqui, meu muitíssimo obrigada, vocês me deixaram feliz e fizeram de 2011 um ano mais bonito para mim (fazer o que? Fim de ano chega e nós ficamos assim, com esse sentimentalismo todo).
Enfim, ainda faltam dois capítulos de Insane, então espero encontrar vocês lá! (Por favorzinho!) :P
Feliz ano-novo pra todo mundo.
Beijos enoooormes!
;*