“Na sua vida, você conhece pessoas. Você nunca mais pensa em algumas delas. Você se pergunta o que aconteceu a outras. Você se pergunta se algumas delas alguma vez pensaram em você. E há algumas pessoas em quem você deseja nunca mais pensar. Mas você pensa.” – The Wonder Years.
Capítulo 19
Se você tem uma missão, é porque pode realizá-la
por Lily Evans.
Uma vez me disseram que a cruz que você recebe só tem o peso que você pode carregar. É uma bela frase inspiradora, perfeita para os momentos em que nos sentimos prestes a desistir porque tudo parece difícil demais. Imagine essas palavras sendo ditas por alguém que teve seus maiores sonhos despedaçados e com a certeza de que nunca poderá realiza-los. Se algum dia você ouvir essas palavras de alguém em tal situação, vai fazer com que sua visão do mundo mude, mesmo que seja bem pouco. Talvez você pare de pensar que o mundo é injusto porque seus pais não o deixaram ir a alguma festa, porque alguém comprou aquela roupa que você queria ou porque você estudou muito para uma prova e acabou com uma péssima nota. Ou talvez você simplesmente pare, pense e agradeça por tudo o que você tem.
Evan McGoren me ensinou essa lição. Ele é só um jovem comum, assim como eu e você. Mas Evan, diferentemente de mim, teve os rumos de sua vida completamente mudados quando seus rins decidiram que não funcionariam mais da maneira correta. Evan tinha um sonho e dedicava-se exaustivamente para alcança-lo: ele queria ser um jogador de rugby profissional, e quem quer que o visse jogando não tinha dúvidas de que aconteceria mais cedo ou mais tarde. Há um ano, ele descobriu que jamais poderia realizar seu objetivo. O que ele fez em seguida foi procurar outras metas e paixões, enquanto repetia sem parar para si mesmo que se esses percalços tinham surgido em seu caminho, ele sem dúvida podia contorna-los.
Superar a si mesmo, a seus medos e suas desilusões, e superar uma barreira que subitamente é imposta eu seu caminho, parecendo dizer “não, você não vai passar por aqui” é o maior exemplo de força e coragem que alguém pode demonstrar. Como Evan, outras pessoas superam-se diariamente. Enquanto eu buscava inspiração para escrever este artigo, conheci pessoas: elas tinham perdido tudo e deram a volta por cima. Eram menores abandonados, ex-dependentes químicos, lutadores contra doenças ainda pouco difundidas (consequentemente, com uma pesquisa muito menor para encontrar sua cura). Essas pessoas pareciam as únicas com o direito de chorar sem descanso perguntando-se “por que eu?”. E, ainda assim, elas jamais o fizeram – ou decidiram que não mais o fariam. Eram muito mais fortes do que eu, com minha vida perfeitamente em ordem.
As histórias que conheci me ensinaram quem são os verdadeiros ídolos que deveríamos ter: todos aqueles que enfrentam o que vier com a cabeça erguida, que não se deixam abalar e que jamais se perguntam por que é tudo tão injusto. Porque, assim como Evan me ensinou, a sua cruz tem o peso que você pode carregar. Sempre. São os momentos adversos que mostram a força que você tem. E, principalmente, não temos o direito de nos lamentar por não conseguir algo – temos o dever de agradecer por tudo aquilo temos.
Obrigada Evan, Emilia, Matt, Christie, Julia, Dean, Felicia, Andrew, John e Catherine por compartilharem suas histórias comigo. Vocês também são meus ídolos.
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Eu não sabia que resposta deveria esperar para o meu artigo, que saiu na nova edição do jornal (eu mal podia acreditar que já estávamos na primeira quinzena de abril) na quarta-feira seguinte. Era um artigo pessoal, mas de certo modo universal. Eu tinha usado primeira pessoa, como é comum em qualquer crônica, mas queria que ele representasse algo para cada outra pessoa que o lesse. Eu queria passar uma mensagem – uma mensagem simples, uma mensagem clichê, mas, ainda assim, tão pouco difundida ultimamente. Evan tinha sido o grande destaque porque foi ele quem me realmente me passou aquela mensagem. Todas as histórias que conheci foram definitivas, mas eu não poderia citar todos eles. Esperava que as palavras que escrevi fizessem com que eles se sentissem honrados, de coração.
Eu tinha alguns lugares para visitar, então. Basicamente, a instituição de caridade e o hospital onde eu tinha estado para buscar inspiração. Eu havia prometido que levaria o artigo para que todos eles lessem, e cumpriria minha promessa. E eu esperava de verdade que Evan estivesse lá – ele era a pessoa que eu mais queria que lesse o que escrevi. É claro que queria que ele estivesse em uma de suas visitas regulares para hemodiálise, não por causa de alguma complicação em sua saúde.
O que foi realmente inesperado para mim no dia em que o jornal saiu, no entanto, foi a reação a ela. Porque eu imaginava que simplesmente não haveria reação. Quero dizer, adolescentes odeiam ler, não? Por que leriam o jornal da escola? Bom... Eles liam. É claro que não fui cumprimentada nos corredores pelos atletas sem cérebro, ou pelo pessoal too cool for you nem nada. Só que algumas pessoas pararam, realmente pararam para me dar parabéns pelo artigo. E, não, não estou me referindo aos meus colegas da redação ou à professora Rolland, de inglês, porque eles eram as únicas pessoas que eu esperava que lessem o artigo. Além dos meus amigos, e basicamente porque eram obrigados.
Então, sim, isso me surpreendeu. Pessoas lendo o jornal da escola e pessoas lendo meu artigo de quinhentas palavras. Sem contar, é claro, o fato de essas pessoas terem achado ele bom. Quer dizer, eu nunca fui muito crítica com o que escrevo, por isso quando digo que aquele artigo estava só razoável isso é algo bem próximo da verdade. Bom, não importa. Eu só queria que mais pessoas pudessem sentir-se inspiradas pela história do Evan, porque ele merecia. Totalmente. Isso o deixaria muito feliz mesmo.
Quando as aulas acabaram, o dia ainda estava bem longe de terminar. Não sei se dá para descrever minha surpresa quando Dorcas, Emmeline e Jane apareceram na minha frente, querendo falar comigo. Era realmente inesperado, uma vez que elas tinham tomado as dores de James e agora me odiavam, porque eu era uma vadia sem coração. Ou algo assim.
- Oi, Lily – disse Dorcas, com um sorriso angelical e num tom de voz completamente neutro. Hum, isso era tão estranho. – Será que você tem um tempo para conversar com a gente? – ela perguntou.
Eu não sabia se queria conversar com elas. Nós não tínhamos mais nos falado desde que James e eu terminamos. Elas não tinham me dito que eu era uma vadia nem nada, eu só conseguia perceber que era isso que pensavam. Até porque eu provavelmente também pensaria isso de mim, se eu fosse qualquer uma delas (especialmente Emmeline, porque eu meio que tinha roubado sua diversão ou seu amigo colorido. Era tão estranho voltar a pensar nisso, por sinal).
- Hum, é, acho que sim – respondi, meio sem jeito, sem saber o que deveria esperar de tudo aquilo.
- Parabéns pelo que você escreveu no Collins News, estava muito bom – Emmeline falou. Emmeline leu meu artigo. Será que o resto da Lista-A (de novo, era estranho pensar neles assim, porque eu tinha andado com eles por tanto tempo) tinha lido? Será que James...? Não que isso realmente importasse. Nem era um bom artigo, de qualquer maneira.
- Obrigada. – Eu sorri. O que mais eu poderia fazer? Quer dizer, quem não gosta de elogios?
- É, estava realmente muito bom, mas nós não queremos falar sobre isso – disse Jane. – Na verdade, a gente queria falar sobre James.
- Ah. Sobre... James. Certo.
- Sobre você e James, na verdade – corrigiu Dorcas. – Sobre como nós realmente ficamos chateadas com você durante um tempo.
- É, eu imagino – falei, em um fio de voz. Por que elas tinham que decidir falar sobre isso comigo agora? Eu achei que eram águas passadas, agora que finalmente estava superando tudo aquilo de verdade. E daí as três BFFs do Potter precisavam vir me dizer o quanto me odiavam e como eu era idiota? Não, obrigada.
- Eu só não sei se você realmente entende, Lily – Dorcas disse. – Sabe, James provavelmente odiaria o fato de nós estarmos aqui falando sobre ele com você, mas eu achei que talvez você entendesse melhor a nossa perspectiva se nós mostrássemos ela a você. Que é bem simples, na verdade: todo mundo sabia que o James era a fim de você há anos, e daí você resolveu corresponder e o deixou bem mais feliz do que em geral e daí logo depois ele descobre que o único motivo para você mudar de idéia a respeito dele era... Que você não mudou de idéia.
- Eu sei, eu já sei tudo isso. Dorcas, ele me disse isso. Acredite, eu compreendo a situação perfeitamente – eu disse, amargamente. – É por isso que tentei de todas as maneiras fazer com que ele me perdoasse. E ele não me perdoou. Se ele espera que eu peça de joelhos ou contrate uma porcaria de um avião pra carregar “me desculpa” no céu acima da escola... Bem, eu não vou fazer.
- Não, Lily – Jane se apressou em falar, provavelmente entendo rapidamente como eu estava chateada. – Não é isso que estamos dizendo. A gente só queria dizer que ficamos super felizes porque James estava finalmente conseguindo o que ele queria há tempos e porque ele estava finalmente encarando um relacionamento sério, o que a gente pessoalmente acha importante e legal, e daí... Bem, ele é nosso amigo há muito tempo, fomos nós quem o recebeu na Marion Collins quando éramos um bando de pirralhos. Então, por mais que gostássemos de você, ficamos do lado dele, entende?
- Entendo, Jane. É claro que eu entendo. E eu nunca reclamei disso.
- Eu sei – Jane concordou, sorrindo de modo afetuoso. – Nós sabemos, quero dizer. Só que nós estivemos conversando e pensamos que, bem. Nós gostamos de verdade de você. Nós já temos provas suficientes de que você gosta de James e de que se arrependeu do que fez. Sei que é mais difícil para ele perdoar você, mas... Nós só achamos que você não precisa perder tantas pessoas de uma vez só.
- Porque a gente realmente não quer perder a sua amizade, Lily – completou Emmeline.
Eu não tinha muita certeza do que deveria dizer. Eu tinha amigos, amigos de quem eu gostava muito, na verdade, e tinha passado a maior parte da vida sem essas três garotas por perto. Mesmo assim, eu tinha aprendido a conviver com elas e acabei descobrindo que elas eram meninas incríveis; pessoas incríveis. É claro que as lágrimas que derramei foram por James, que era ele quem eu mais queria de volta, mas de repente percebi que eu sentira falta da companhia delas também. Porque essas três garotas não eram mais só as amigas de James Potter, elas eram minhas amigas também.
- Eu... Tudo bem – respondi, meio sem jeito, com milhares de pensamentos rodando na minha cabeça. – Eu também não quero – disse, e sorri para elas. Elas sorriram de volta.
- Nós não podemos convencer o James a voltar com você, sabe – Dorcas começou – mas gostaríamos que isso acontecesse. Mesmo – ela garantiu.
Assenti. Eu também queria, isso era evidente.
- Mas nós estamos tentando, saca? – Emmeline falou, em tom de confidência. – Estamos tentando plantar a idéia na mente dele, sutilmente. (N/A: Elas estão tentanto fazer um INCEPTION! Haha Lembrei disso, sorry).
- Emmeline! – Dorcas repreendeu, e recebeu “o quê?” de resposta. – Nós não mandamos em James, não tem como a gente dizer que vai fazer ele mudar de idéia.
- Não foi isso que eu disse – Emmeline protestou. – Disse que estamos tentando, o que nós realmente estamos fazendo.
- É, mas ficar falando isso pode dar esperanças a Lily e... – Dorcas se interrompeu, parecendo lembrar que eu estava presente.
- Não tem problema – me apressei em garantir. – Obrigada pela tentativa, de qualquer maneira. Sei que ele está sendo difícil quanto a isso, e não o culpo, então estou tentando deixar para trás.
Jane me deu um sorriso triste, assim como Dorcas. Elas pareciam bem mais pessimistas do que Emmeline a respeito da idéia de alcançar o objetivo. Era mais ou menos como eu me sentia e eu não as culpava.
- Bom, de qualquer maneira, queremos saber se quer comprar vestidos para o baile de primavera com a gente – Dorcas perguntou, mudando completamente de assunto.
O baile de primavera. Bailes de escola eram algo tão idiota e mesmo assim todo mundo comparecia, o que não fazia sentido algum. O falatório a respeito já tinha começado e eu só conseguia pensar em como não estava nem um pouco animada para ele.
- Bom, na verdade não estou pensando em ir ao baile – respondi com sinceridade. – Eu não tenho um par – tentei soar convincente, como se esse fosse realmente o motivo para eu não ir.
- Ah, meu Deus, Lily, nós estamos no século XVIII, por acaso? – Dorcas revirou os olhos. – Eu não tenho um par, não quero um par, mas quero comprar um vestido lindo e fazer todo mundo sentir inveja de mim. – Ela riu. – Eu e as meninas, também.
Não sabia como fugir. Marlene estava usando o mesmo argumento comigo e eu estava só empurrando a discussão mais para a frente, e foi o que eu tentei fazer com as três animadas garotas paradas em minha frente, falhando completamente.
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Na quinta-feira, fui com minhas novas-velhas amigas, mais Marlene e Alice, procurar vestidos para o baile. Era algo exaustivo, mas foi muito divertido. Seis meninas passeando pelas ruas de Londres, rindo histericamente, procurando lojas legais com preços bons e vestidos diferentes, em cores bem distintas, de modelos mais distintos ainda... Na verdade, parecia meio que uma missão impossível, mas não era, porque nós conseguimos completa-la. Voltei para casa com um vestido azul-esverdeado de cetim, coberto com organza preta cheia de glitter (o que, sinceramente, me lembrava muito de cortinas), o que meio que me fazia parecer uma fada-princesa-wannabe, mas que todas as garotas afirmaram efusivamente que caíra muito bem em mim. Achei que elas sabiam melhor do que eu, e isso foi confirmado quando mostrei o vestido a Petúnia, que aprovou.
Jane passou boa parte do tempo perguntando o que achávamos das opções de decoração, música e outras coisas para o baile. Esse ano ela era a chefe do comitê dos bailes do colégio. Emmeline mencionou educadamente que tinha um comitê inteiro para quem ela podia fazer todas essas perguntas, mas Jane garantiu que poucos deles ajudavam em alguma coisa, e, principalmente, que ela precisava de opiniões decentes para fazer o baile direito.
Também descobri várias coisas sobre as meninas, como o fato de Emmeline ter pais separados e viver praticamente em um zona de guerra entre os dois, ou de Jane estar decepcionadíssima com o irmão mais velho dela, que estava na faculdade e recentemente tinha começado a namorar uma mulher de trinta e quatro anos, quando ele só tinha vinte. Jane a chamava de a papa-anjo.
Foi uma tarde legal, eu estava mesmo precisando me divertir e me ocupar com futilidades enormes como aquelas, foi como um sopro de ar fresco na minha mente, limpando um pouco as coisas que estavam fora do lugar. É incrível como isso pode acontecer.
Assim, quando precisei aparecer no hospital e naquela casa de caridade que tinha me inspirado tanto, eu estava com o espírito bem mais leve do que me sentia há tempos.
Apesar de eu ter dado todo o destaque do meu artigo para Evan, porque ele era quem tinha dito todas as coisas que fizeram com que eu passasse a enxergar muita coisa de maneira diferente, parece que todos que foram citados no final da história ficaram contentes com a mensagem que eu quis passar. Isso, sem dúvida, me deixou orgulhosa. Eu ficara muito feliz ao receber elogios dentro da escola, mas saber que as mesmas pessoas que haviam me inspirado e me dado uma lição de vida gostaram do que eu escrevi foi incrível.
Evan foi com quem falei por último, porque eu meio que tinha uma inclinação egoísta a fechar o dia com chave de ouro – ele era quem eu mais queria impressionar. Ele falou comigo antes de ir para sua sessão de hemodiálise, o que eu sabia que era algo terrível para ele. Eu não conseguia me imaginar precisando ir três vezes na semana para um hospital e ficar ligada a uma máquina por quatro horas inteiras para conseguir fazer algo que deveria ser natural. É claro que Evan aceitava o fato muito melhor do que eu jamais aceitaria – era por isso que ele era alguém que me inspirava tanto.
- Lily! – ele me cumprimentou animadamente e eu me perguntei, de novo, como conseguia. – Tudo bem, querida?
Eu sorri.
- Tudo bem – respondi no tom mais animado que conseguia fazer. Seria algo horrível parecer chateada. – E você?
Parecia idiota perguntar. Como poderia estar tudo bem? Entretanto, a resposta que recebi foi:
- Tranquilo. Então, vai me deixar ler o que escreveu, ou você tem vergonha? – ele riu.
- Não, claro que vou deixa-lo ler. Estive esperando por esse momento há dias!
- É mesmo? Por quê? – ele quis saber, procurando pelo meu artigo no jornal que lhe estendi.
- Ah... – dei de ombros. – Acho que você vai entender depois que ler.
Passamos uns três minutos em silêncio, eu, Evan e a namorada dele. Os últimos dois, lendo; eu, simplesmente esperando.
Quando Evan levantou o olhar da página de jornal, vi um brilho em seus olhos – aquele brilho de quando temos lágrimas nos olhos, mas elas ainda não caíram.
- Lily... Eu... Obrigado pelas palavras – ele disse. – É sério. Quisera eu ser tão forte quanto você me fez parecer aqui.
Eu balancei a cabeça em negativa.
- Você é, Evan. Você é uma das pessoas mais fortes que já conheci. Tudo aquilo que escrevi é a mais pura verdade, é como você aparece aos olhos de qualquer um que olhe de fora – fiz questão de garantir.
Ele sorriu para mim.
- Obrigado por isso, é incrível para mim também, poder ler o que você escreveu. É incrível poder inspirar alguém como você, Lily.
Eu sorri de volta, talvez o sorriso mais verdadeiro que tinha dado em todo o dia.
- Posso ficar com o jornal? – ele perguntou. Assenti. É claro que ele podia. – Vou me lembrar de ler o que você escreveu quando eu estiver pensando em desistir. Porque às vezes eu também penso.
- Mas sei que você não vai desistir, Evan. Sei que você tem força para passar por tudo isso. Não é? – me dirigi à namorada dele.
- Ele tem muita força – ela respondeu, sorrindo ternamente para Evan. – Ele tem força suficiente para mim também.
Eu assenti; era como eu imaginava. Depois disso, tive que deixar que Evan fosse para sua terrível sessão e fui embora do hospital. Eu me sentia terrível porque embora Evan fosse forte e fizesse tudo para que ninguém a sua volta ficasse mal com a situação dele, pensar nisso me chateava. Ver pessoas doentes me chateava. Simplesmente entrar em um hospital, sabendo o que havia dentro dele, por mais que eu não visse, deixava minha cabeça pesada.
Fiquei feliz quando tirei o celular da bolsa para tirá-lo do silencioso e vi que tinha perdido uma ligação de Marlene. Liguei para ela assim que passei pelas portas do hospital.
- O que vai fazer hoje à noite? – ela queria saber.
- Acho que tentar convencer meus pais a pedir pizza – respondi, sem muita animação. Olhei para o céu, que estava azul. Fazia um dia ameno de primavera, era maravilhoso.
- Bem, eu tenho uma proposta... – ela começou, cuidadosa. – Não diga não rápido demais – advertiu.
Se ela estava me advertindo a não dizer não rápido demais era porque eu provavelmente não iria gostar da idéia. Isso não ajudou a me animar, mas fiquei em silêncio, esperando.
- O que acha de irmos ao jogo da Marion Collins hoje? – perguntou.
Eu quase ri. Pensei em rir, quase cheguei lá, mas parei. Quer dizer, eu deveria ter rido. Marlene certamente estava tentando fazer algum tipo piada, me convidando para o jogo de futebol da Marion Collins.
- Quê? – foi o que eu disse, ao invés de gargalhar audivelmente, como pensei em fazer primeiramente.
- Bom, eu pensei que seria legal – ela disse. – Você sabe que eu gosto de futebol...
- Sim, Lene. Você gosta dos jogos importantes do Chelsea, sei muito bem disso. Não de ir a jogos da Marion Collins. – Eu já tinha entendido que não se tratava de uma piada, então pensei que talvez ela tivesse perdido a razão ou algo assim.
- Na verdade, eu gosto, sim – ela disse. – Sabe, é legal demonstrar um pouco de espírito escolar de vez em quando... E esse é o último jogo antes das férias de primavera... E todo mundo acha que a escola tem uma chance boa de ganhar, o que é bem inédito. E, bem, pensei que talvez você pudesse se interessar mais agora que você sabe mais sobre o jogo.
É, eu tinha aprendido um pouco por causa de James. A maior parte eu já havia esquecido e eu não conseguia me enxergar realmente gostando de futebol algum dia. Talvez nos jogos da seleção da Inglaterra. Talvez, muito pouco provavelmente, de algum time. Mas não do colégio.
- Lene... – eu comecei, sem ter muita certeza do que responder. Eu não conseguia pensar em nada melhor do que “futebol é chato, demora demais para acabar”.
- Lily, por favor! Eu realmente quero ir, todo mundo vai estar lá, e quero que esteja comigo. Você já foi aos jogos antes, não é até divertido?
- Uau, não sabia que isso era tão importante para você – eu respondi, realmente surpresa com a vontade que seu tom de voz demonstrava. – Bem, acho que podemos ir – cedi. Se era tão importante para ela... Não era como se eu estivesse dizendo que podíamos ir para uma cadeira de tortura medieval ou algo assim.
- Yay! – ela falou animadamente. – O jogo é às oito, meu pai pode nos levar.
- Certo – concordei com um suspiro. – Lene, o trem já vai chegar, falo com você mais tarde, certo?
Ela respondeu com um animado “tudo bem” e eu desliguei o telefone. É claro que eu tinha me metido numa dessas. Bem-vindo à vida de Lily Evans.
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- A escola inteira veio assistir esse jogo? – perguntei a Marlene enquanto subíamos as arquibancadas procurando por um lugar vago. Elas estavam completamente cheias de alunos (dos mais jovens aos mais velhos) e pais. Não fazia sentido para mim que tantas pessoas se locomovessem só para assistir a um jogo de futebol do colégio. Nosso time nem é muito bom.
- School spirit – Marlene riu. Revirei os olhos.
- Lily? – ouvi alguém me chamando. – Lily! – procurei pela origem da voz... e encontrei Emmeline e Remus sentados o mais perto possível do gramado. Em acenava para mim.
- Ótimo! – Marlene comemorou, feliz. – Lugares para sentarmos. – Dizendo isso, ela começou a andar na direção deles, e eu a segui.
- Que bom que vieram assistir o jogo – Emmeline comemorou. – Querem sentar com a gente?
Ela não precisou perguntar duas vezes. Marlene e eu nos sentamos.
- Dorcas e Jane não vieram? – perguntei, estranhando que elas não estivessem juntas como sempre.
- Elas... sentaram em outro lugar – Emmeline explicou de maneira vaga, olhando pelo canto do olho para Remus.
- E, sim, Dorcas está evitando a minha presença – Remus explicou, parecendo infeliz. Eu ficava infeliz por ele, mas também me lembrava das coisas que James falara, sobre ele ter escolha na situação, e que escolheu a namorada. Então, na verdade, não podia deixar de concordar com a atitude de Dorcas.
Eu não sabia o que responder, então simplesmente fiquei em silêncio e Emmeline aproveitou a deixa para conversar sobre assuntos sem importância. Ela e Marlene falavam sem parar, de modo que eu fiquei em silêncio olhando para o campo, onde as líderes de torcida demonstravam sua coreografia. Remus também olhava fixamente para a frente, e eu me perguntava o quão terrível nós não teríamos tornado a situação dele – três garotas que provavelmente não calariam a boca.
No entanto, quando os times entraram em campo, as meninas passaram a aplaudir os garotos da Marion Collins animadamente e depois ficaram em silêncio. Remus não parecia mais tão desesperado para procurar os outros amigos dele (até porque Peter Pettigrew resolvera aparecer, correndo e dizendo que tinha perdido a hora porque tinha dormido demais).
- Por que James está no banco? – perguntei a quem pudesse responder, estranhando que ele não estivesse jogando, já que era a “grande estrela” e tudo o mais.
- Porque o treinador Ford ainda não o perdoou completamente – Remus respondeu. – Então hoje tem outro lateral esquerdo jogando. Parkes. – ele me mostrou o garoto. – Ele não é muito bom, mas é a opção que Ford.
- Ele tem James também – falei.
- É, bom, James perdeu a confiança dele. Mas não precisa se preocupar, se Parkes estiver muito ruim em campo, Ford vai tirá-lo – Remus garantiu, como se eu estivesse realmente preocupada com o possível desempenho ruim do time.
O jogo começou e eu tentei, tentei mesmo me animar com ele, mas estava parado demais. Parado demais até a escola visitante fazer um gol, aos vinte e cinco minutos. Isso foi um golpe terrível na animação dos meus colegas de escola, que praticamente silenciaram daquele momento em diante. Eu estava observando o tal Parkes com mais atenção do que deveria, e ele realmente falhava em cruzar a bola para a área adversária de uma maneira decente. Quer dizer, eu não sei muito (ou não sei nada) de futebol, mas tem certas coisas que você consegue enxergar. Ele era bom na defesa, no entanto. Ou assim me pareceu, já que o gol que a Marion Collins tomou veio pelo lado direito.
Os primeiros penosos quarenta e cinco minutos chegaram ao fim e o juiz recolheu a bola, de modo que eu estava livre para ir até a cantina para comprar uma Coca gelada. Ninguém estava a fim de levantar, de modo que tive de ir sozinha. Quando estava voltando para meu lugar, dei de cara com Miguel. Eu o cumprimentei de maneira educada, mas ele me pediu para esperar.
- Eu só queria um minuto, se você tiver – ele disse. Eu concordei e deixei que falasse. – É sobre Marlene. – Eu meio que esperava, então não fiquei nem um pouco surpresa. Não é como se nós tivéssemos muitas outras coisas em comum para falar.
- O que tem Marlene? – perguntei, tentando soar amigável e provavelmente falhando completamente.
- Ela tem falado de mim? Falado em voltar? – ele parecia ansioso e esperançoso. Era estranho porque Marlene tinha me dito que o término tinha sido mútuo, que era o que os dois queriam.
- Ela... Na verdade, não – respondi com sinceridade. O expressão dele desabou, mas ele logo se recompôs. – Olha, Miguel, você é um garoto legal, e pode ter certeza de que Marlene afirmou isso veementemente o tempo todo, mas... Lene não namora, ela sempre foi mais de aproveitar a vida enquanto é jovem. E... sinceramente, eu nunca quis desanimá-la, mas você vai voltar para o Chile em alguns meses e que futuro vocês teriam, de qualquer maneira.
Miguel pareceu chateado com minhas palavras, mas elas eram a mais pura verdade e eu não conseguia me arrepender de ter falado.
- É, acho que você tem razão – ele concordou, dando de ombros. – Gosto dela, só isso. Ela é diferente de todas as outras garotas que já conheci.
Eu dei um sorriso para ele. É claro que ela era.
- Eu posso imaginar. Só que você vai encontrar uma garota ainda mais legal que ela quando voltar para casa, sabe – garanti. – E não vai ter data de validade.
Ele riu.
- É, quem sabe. – ele deu de ombros de novo e com um “te vejo por aí” retomou o caminho para a cantina, enquanto eu lentamente comecei a me dirigir para meu lugar na arquibancada. Cogitei contar a Marlene o que tinha acabado de acontecer, mas decidi não o fazer. Ela parecia bem decidida e até mesmo aliviada quando me disse que tinha terminado com Miguel e eu certamente não queria levá-la para um caminho que possivelmente a faria sofrer quando ele fosse embora.
Me juntei ao grupo e conversamos, todos animados apesar de derrota, até o jogo recomeçar. James voltara no lugar de Parkes, o que todo mundo afirmou que era mesmo só questão de tempo para acontecer. Demorou uns dez minutos para ele começar a jogada que levaria a um gol que, por acaso, foi marcado por Sirius. Inacreditável. Foi o suficiente para o público ficar animadinho e comemorar outra vez.
E James, quando passou bem na minha frente, pareceu ter notado pela primeira vez que eu estava assistindo ao jogo (porque, é claro, ele não tinha que ficar olhando para as arquibancadas mesmo). E daí sorriu para mim, levantando o braço direito com a mão fechada em um punho, comemorando o gol. Eu ri de volta, inesperadamente feliz.
Futebol não parecia mais tão ruim, afinal.
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N/A: Como todas as minhas última notas, essa começa com um pedido de desculpa pela demora. Dessa vez eu nem ao menos tenho uma boa razão, como o vestibular, mas espero que vocês me perdoem. Como todo mundo sabe (ou pode saber olhando as informações da fic), a Cliché começou lá em julho de 2009 e como já faz tanto tempo, eu acabei perdendo um pouco da minha animação inicial. Mas é claro que não vou parar agora que está tão perto do fim, certo?
Então, mais uma vez foi um capítulo sem nada demais... E aquele artigo da Lily, que é para ser uma coisa bem escrita, ficou tosco pra caramba e eu peço sinceras desculpas por isso. E por outro (de novo e de novo e de novo) capítulo morno. E mal escrito (mal escrito mesmo. Quando acho que algo que escrevi ficou bom eu só digo que ficou bom e não é o caso).
Obrigada pelos comentários e elogios, como sempre, amo vocês.
Fernanda M.