Até que a morte nos separe
DRACO
Com a velocidade de um trem de carga, o carro despencava rumo ao fundo do fosso. A força da queda me empurrava contra o teto.
Mesmo assim, consegui dar um sorrisinho de adeus para Hermione quando atravessei a escotilha e subi no topo do elevador em queda.
A vibração fez com que eu soltasse a caixa de ferramentas. Alicates, martelos e chaves voaram para todos os lados. Voltei a cabeça para dentro do elevador, onde agora se ouvia uma versão pasteuriza da “Garota de Ipanema”. Um absurdo. Por que uma maldade dessas com uma canção tão linda?
Pulei para dentro do carro para pegar uma chave de grifa que chacoalhava no chão e voltei ao topo o mais rápido que pude. Ali, afundei a chave no que parecia ser um mecanismo de frenagem secundário. De início, a coisa não saiu do lugar, mas acabou cedendo. E então algo aconteceu. A velocidade da queda começou a diminuir. Cada vez mais.
Até que finalmente o carro parou. No quarto andar. O número estava grafado no dorso da porta. Fiquei pensando numa maneira de abri-la.
Bang!
O que quer que estivesse nos segurando não segurava mais.
E o elevador voltou a cair fosso abaixo, duas toneladas de metal, para depois se esborrachar no chão com um impacto ensurdecedor.
HERMIONE
Acabou. Santo Deus, como eu pude...
Olhando para o outro lado da rua, vi uma nuvem de poeira e estilhaços vazar pelas portas do arranha-céu ainda em construção.
Acidente de trabalho. É o que diriam depois. Ninguém jamais saberia o que de fato tinha acontecido.
Eu sequer estava no prédio quando tudo aconteceu. Minha equipe e eu estávamos perfeitamente seguras a poucos metros dali, dentro da nossa van preta — um centro de comando móvel de onde eu havia orquestrado a coisa toda. Na verdade, Draco passou bem ao nosso lado quando estava a caminho do prédio, e em nenhum momento de nossa conversa percebeu que não estávamos no octogésimo segundo andar.
Em termos estritamente técnicos, eu não tinha feito nada. Cho, aquela japa maldita, - não que ela tivesse culpa - havia detonado os explosivos.
Mas eu tinha planejado tudo. Tinha armado as cargas com minhas próprias mãos. Tinha premeditadamente deixado a impressão daquele endereço no bloquinho de anotações. A isca foi das mais rudimentares, coisa de criança, mas Draco mordeu-a com a inocência de um cordeirinho.
Tudo não passou de uma armadilha. Na qual ele havia caído como um pato.
Portanto, que diferença fazia não ter sido eu quem apertou o fatídico botão?
Minha intenção havia sido o tempo todo apertá-lo. Afinal era esse o plano. Não era? Minhas mãos estavam sujas de sangue — do sangue de Draco.
O que senti depois? Horror? Remorso? Pesar?
Não sei dizer. Um atordoamento, talvez, como o de um sonâmbulo que acaba de acordar no meio de um lugar desconhecido.
Como é que eu fui parar ali?
Por fim ouvi o alvoroço das sirenes dos carros de polícia e das ambulâncias que cercavam o local do acidente.
Mas sabia que as ambulâncias seriam desnecessárias.
Sou muito boa no que faço. Tinha certeza de que nenhuma pista havia ficado para trás.
Nenhum corpo.
Draco tinha... ido embora.
As luzes dos carros de polícia rodopiavam no ar como as luzes de uma discoteca surreal. Sentada ao meu lado, Luna analisava a expressão em meus olhos.
Mas virei o rosto antes que ela pudesse descobrir o que eu estava sentindo.
Eu era uma profissional. Como uma cirurgiã, não podia me permitir nenhuma espécie de sentimento se quisesse realizar bem o meu trabalho.
Meus olhos se voltaram para o tumulto do outro lado da rua.
Sim, eu tive coragem.
Fiz exatamente o que ele teria feito se eu não tivesse feito antes.
DRACO
— Ela foi capaz — eu disse, ofegando. — Ela foi mesmo capaz...
Levei alguns segundos para me convencer de que não estava no céu — nem no inferno. De que ainda estava vivo, pendurado pela ponta dos dedos a uma aba, quatro andares acima do elevador em escombros.
Escombros que deveriam ter incluído pedacinhos do meu crânio, do meu esqueleto inteiro.
Meu Deus. Ela foi capaz.
Cheguei a achar que jamais tivesse coragem.
Mas teve. Talvez tivesse pensado: “É ele ou eu.”
E você, Draco? Teria a mesma coragem que ela?
Se tivesse a oportunidade, teria estourado os miolos da vaca antes que ela pudesse despachá-lo para as profundezas do inferno?
Teria, Draco?
Pois ela teve. Não pensou duas vezes.
De volta à realidade: eu precisava usar parte da adrenalina que desperdiçava desejando a morte de Hermione na tentativa de sair dali de alguma forma — e acertar minhas contas tão logo possível.
HERMIONE
Mais uma viagem de táxi pelas ruas da cidade. Luzes cintilando como diamantes no ar fresco da noite.
Eu tinha tomado um banho rápido e trocado de roupa: a máquina mortífera acabara de cumprir uma missão e agora podia trocar computadores e armas por novos adereços: batom, rímel, um vestido novo, sapatos de salto alto.
O táxi parou junto ao meio-fio, e um porteiro me ajudou a sair. Diante de um dos restaurantes mais sofisticados de Nova York, conferi minha aparência no reflexo sobre a janela de vidro laminado. O vestido me favorecia: preto, feminino, sexy. Eu estava de volta ao papel de Hermione Malfoy — mulher e esposa.
“Não”, meu coração lembrou. “Esposa, não.”
“Viúva.”
Santo Deus, eu precisava beber alguma coisa. Então entrei, mal reparando nos olhares de admiração que me seguiam enquanto o maitre me conduzia até a mesa. Mesa para dois.
- Champanhe, por favor — eu disse enquanto me sentava.
- Pois não, Sra. Malfoy.
As pessoas me conheciam ali. Draco e eu éramos assíduos freqüentadores. Aquele era — ou melhor, tinha sido — um dos nossos restaurantes prediletos.
Pisquei as pálpebras para afugentar as lágrimas que ameaçavam brotar em meus olhos e examinei o ambiente — em parte por instinto e hábito, em parte por curiosidade. A sala parecia fervilhar de pessoas felizes. Amigos, familiares, casais apaixonados... Pelo menos todo mundo estava com alguém.
A solidão não era nenhuma novidade para mim. Boa parte da minha vida eu tinha passado sozinha, mesmo quando criança.
Mas naquela noite... Eu nunca havia me sentido tão sozinha.
Fechei os olhos e dei um longo gole no champanhe — a bebida das comemorações —, desejando que aquela efervescência contaminasse meu espírito. Afinal, não me faltavam motivos para comemorar, certo?
Eu havia sobrevivido ao desmantelamento de uma situação que já não se mostrava mais operante.
A frase era boa. Precisava anotá-la.
Mas, pensando bem... Os casais se separavam a toda hora, e em razão dos conflitos mais banais. Caramba, eu não tinha tido um conflito com o meu marido. Tinha tido uma verdadeira guerra — com armas, explosivos, o escambau. Não podíamos simplesmente dizer um ao outro: “Então tá, valeu, a gente se vê por aí”. Nosso relacionamento era de outra natureza. Do tipo “matar ou morrer”.
Até que a morte nos separe.
Naquela ânsia de dizer o tão esperado “sim”, ninguém realmente pára para pensar nessas palavras.
Então era isto: nossos joguinhos de amor e ódio tinham chegado a seu fatídico fim. Eu tinha vencido. E por sorte ainda estava viva.
No entanto, ao depor a taça de cristal sobre a toalha impecavelmente branca, tive a impressão de que, à minha frente, o prato e os talheres intocados e a cadeira vazia zombavam de mim.
Meu coração não se deixava convencer de que estávamos ali para comemorar.
De repente, risadas misturaram-se aos meus pensamentos. Tentei desesperadamente descobrir de onde elas vinham. Não deveria ter olhado. Vinham de dois pombinhos apaixonados, sentados num canto distante, totalmente imersos na adoração um do outro e alheios a tudo o mais que se passava ao redor, inclusive à vexaminosa expressão de inveja que decerto cobria meu rosto.
Lembrando a mim mesma de jamais desejar o impossível outra vez, levantei a taça vazia entre os dedos.
E, como se tivesse lido meus pensamentos, um garçom surgiu ao meu lado para servir mais um pouco do champanhe.
- Obrigada — murmurei, piscando os olhos para limpar a umidade.
- Madame.
Meu Deus, ele falou igualzinho ao Draco.
Então olhei para o homem... e quase dei um grito de susto!
Pois era Draco quem estava ali! Vivo e com todos os ossos no lugar... Mas como?
Bolhas parecidas com as do champanhe começaram a dançar na periferia do meu campo de visão, como se pedissem que eu desviasse o olhar.
Mas segurei firme e devolvi o olhar fixo de Draco.
Santo Deus, além de vivo, ele estava absolutamente lindo naquele terno escuro. Muito calmo para alguém que acabara de ludibriar a morte.
Suponho que a maioria das mulheres que acabaram de assassinar o próprio marido teria demonstrado um pouco de espanto. Mas os anos de prática e treinamento vieram ao meu auxílio, carregando-me numa espécie de onda até que eu pudesse recuperar o controle. Minha mão tremeu ligeiramente quando levei a taça à boca, mas dei um longo gole como se estivesse esperando por Draco a noite toda.
Deixei que ele falasse primeiro.
— Pensei em várias coisas pra te dizer neste momento — falou por fim. — “Querida, por sua causa estou no fundo do poço...” ou “Foi você quem me deixou assim, tão caído!”.
Casualmente engoli o champanhe e perguntei:
— E então, vai dizer o quê?
Os olhos dele quase perfuravam os meus.
— Quero o divórcio.
Uffff. Soco no estômago.
Meu rosto? Imagem em close-up. Meu perfil mais favorável voltado para a câmera. Interpretação digna de um Oscar: apertando as pálpebras como se avaliasse cuidadosamente a proposta dele, falei:
— Gosto da idéia. Foi aqui que você me pediu em casamento; a simetria chega a ser bonita.
Draco puxou a cadeira vazia.
- Posso me sentar?
- Por favor.
Tão logo ele se sentou e acomodou o guardanapo no colo, um garçom de verdade se aproximou da mesa.
— Champanhe, senhor?
Em nenhum momento Draco despregou os olhos de mim.
— O champanhe é para as comemorações.
Ele permaneceu em silêncio o suficiente para que eu me lembrasse: ele havia dito a mesmíssima coisa naquela noite do passado. Mas desta vez acrescentou, áspero:
— Vou querer um martini.
A interpretação de Draco era seca, controlada, talvez um pouco à la Clark Gable. “Isso deveria ser um filme”, pensei.
Sem quebrar o nosso olhar recíproco, aproveitei a deixa dele e disse ao garçom:
— Vou acompanhá-lo no martini.
O garçom recolheu minha taça de champanhe e desapareceu. Draco estudava meu rosto através do lume das velas, e eu me esforçava ao máximo para parecer bonita e indiferente.
— Você não pediu que levassem o meu prato e os meus talheres — ele disse depois de um tempo. — Não estava esperando por mim, estava?
Dei de ombros.
- Digamos que eu seja uma mulher sentimental.
- Está surpresa?
- Por você ter tido tempo de fazer a barba?
- Por não ter atirado ainda.
Não pude conter o riso. Para duas pessoas determinadas a matar uma à outra, éramos extremamente parecidos.
Eu deveria ter imaginado que, sob o guardanapo de linho, ele escondia mais do que as jóias da família.
Afinal, na qualidade de profissional calejada, eu tinha feito exatamente a mesma coisa. Obedecendo a um reflexo, eu havia tirado de um coldre que fazia as vezes de liga de meia uma pistola minúscula que depois escondi sob o guardanapo. Naquele exato momento a arma estava apontada diretamente para os... miolos dele.
— Não, isso também não me deixa surpresa — respondi.
E assim deixamos claro um para o outro que sabíamos muito bem qual era a situação ali. Sorrimos como dois inimigos que, de tão semelhantes, acabam por desenvolver uma estranha amizade.
— Sabe do que mais gosto nos restaurantes? — Draco brincou. — Estão sempre cheios de testemunhas. — E com um sorriso propôs uma trégua. — Mãos sobre a mesa?
“Será que posso confiar nele?” pensei.
Claro que não.
Acontece que estávamos no meio de um restaurante sofisticado. Um lugar onde éramos conhecidos. Nada adequado para um assassinato. Além do mais, quem de nós saísse vivo daquela situação jamais conseguiria uma mesa ali novamente.
Lentamente levantei as mãos do colo e coloquei-as sobre a mesa. Draco fez o mesmo.
“Se não veio aqui pra me apagar, Draco, por que diabos veio então?”
Achei melhor resolvermos nossos assuntos de trabalho durante os aperitivos, antes que pedíssemos a comida. O chef daquele lugar era um gênio da culinária, e subitamente me senti faminta.
— Então — eu disse — você veio aqui para discutir os termos do divórcio.
Ficamos calados quando o garçom chegou para servir os martinis. Draco levou o seu à boca sem se dar ao trabalho de fazer o nosso brinde habitual. Depois inclinou-se para a frente como se fosse fazer um galanteio qualquer.
- Nossa situação é bastante incomum — falou. — Você obviamente quer me ver morto; e eu, bem, devo admitir que a sua longevidade é cada vez menos importante para mim. — Draco roçou os dedos no queixo, pensativo. — Que tal abrirmos fogo agora mesmo e deixar que vença o melhor?
- Isso seria uma pena — eu disse. — Aposto que me expulsariam daqui se vissem seu corpo estatelado no chão.
Os olhos de Draco faiscavam; o ar à nossa volta parecia crepitar de tensão.
— Então nosso problema se resume a estas mãos—Draco mostrou as mãos, um sorriso irônico nos lábios — e o que fazer com elas.
Meu corpo se contorceu na cadeira. Draco tinha mãos maravilhosas. E naquele instante eu podia pensar num milhão de coisas que ele poderia fazer com elas, embora nenhuma tivesse a mais remota relação com o nosso problema.
A sala estava cada vez mais quente. Foi então que o timbre sensual de um sax alto se interpôs entre nós, enfeitiçando-nos com uma linda melodia.
Um sorriso pachorrento brotou nos lábios de Draco, convidando-me a fazer o mesmo.
— Quer dançar? — ele sussurrou.
Não escondi minha surpresa. Não havíamos dançado desde aquela primeira noite em Bogotá.
- Achei que você não gostasse de...
- Fazia parte do disfarce.
- A preguiça também?
Draco não se deixou afetar. Permaneceu como estava, com a mão estendida num convite.
Quando coloquei minha mão na dele e fiquei de pé, ele sussurrou no meu ouvido:
— Elas ficam na mesa?
Fiz que sim com a cabeça, e ambos depusemos sobre a toalha nossas armas embrulhadas em guardanapos de linho.
De repente, Draco me enlaçou num abraço apaixonado. Assustada, não resisti quando suas mãos começaram a percorrer meu corpo: ombros, cintura, quadris...
Jamais havia sido revistada de maneira tão sensual.
- Só pra garantir... — ele disse a meia voz.
- Satisfeito
- Claro que não.
“Cachorro!”
Lívida, rodopiei o corpo dele e encostei-o contra uma parede escondida atrás de um vaso de plantas. (Horas na academia me haviam rendido muito mais do que belas curvas.) Meu corpo pressionando o dele, o jazz embalando nosso complicado abraço, fiz com que se submetesse à mesma tortura que pouco antes ele mesmo havia impingido a mim. Minhas mãos esquadrinhavam seu corpo, ávidas: o peito firme, as costas largas e musculosas, os quadris sensacionais... os bolsos da calça...
Senti as bochechas corarem. Draco carregava uma arma no bolso ou simplesmente estava feliz por ainda não ter me matado?
Por mera distração, baixei a guarda e dei a Draco a oportunidade de se desvencilhar do meu abraço e puxar-me pelo cotovelo até a pista de dança. Tentei escapar, mas logo me vi aprisionada contra as paredes rijas do seu corpo.
— Acha que esta história vai ter um final feliz? — ele sussurrou tão logo nos deixamos levar pela música.
Tentei ignorar o prazer que sentia com a respiração dele no meu pescoço.
— Final feliz, só nas histórias que ainda não terminaram.
Em resposta ele me apertou ainda mais e me conduziu, aos rodopios, por todo o salão.
E continuamos a dançar.
Uma dança do acasalamento ou um duelo? Quem poderia saber?
Fosse o que fosse, Draco conhecia todos os passos daquele tango de paixão, ódio, remorso... e dor.
O homem estava me torturando ali, na frente de todo mundo. Então fiz o que havia muito eu tinha aprendido a fazer quando sentia dor: reagi.
- Na sua opinião — desferi —, por que nossa história não deu certo? Porque vivíamos vidas separadas? Ou por causa das mentiras?
- Tenho uma teoria — respondeu Draco. — Recém-criada.
- Sou toda ouvidos.
Draco tomou minha mão direita e me cingiu pela cintura.
— Você matou nós dois.
Uma flecha venenosa direto no meu coração.
- Interessante — retruquei.
Mas ainda havia mais.
- Seu alheamento, sua eficiência fria, especialmente na cama...
Num gesto dramático, Draco dobrou-me para trás, e eu fiquei ali, impotente, as costas arqueadas, os olhos mal disfarçando o ódio que subia do peito. — Pra você, nosso casamento era uma missão - ele continuou —, algo a ser analisado, planejado e executado. Mas não vivido.
Humilhada e furiosa, tratei de sair daquela posição submissa: reuni minhas forças, reergui o tronco e afastei-me aos rodopios. Mas Draco me puxou de volta, como se eu fosse um ioiô atado a um fio de barbante. E mais uma vez me aprisionou: minhas costas contra seu peito, meus quadris encaixados em seus quadris, seu queixo apoiado no meu ombro.
— E você fugia! — contra-ataquei. — A bebedeira... Aquela sua devoção quase monástica ao fliperama...
Draco conduziu-me até um recanto mais escuro do salão e ali paramos, ofegantes e suados, mas sem desfazer o nosso abraço. Queria que ficássemos cara a cara, olhos nos olhos.
— Que importância isso tinha pra você — perguntou, avultando-se sobre mim —, já que nosso casamento não passava de uma dissimulação?
Ele me segurava tão forte que eu mal podia respirar. As palavras escorregaram da minha boca.
— Quem disse que nosso casamento era uma dissimulação?
Achei que ele fosse me triturar.
- E não era?
Engoli a seco.
- Bem... E pra você, era?
- Perguntei primeiro.
A melodia do saxofone passeava em minhas veias como uma espécie de anfetamina, fazendo com que meu coração por pouco saltasse à boca. Draco me perfurava com os olhos, inebriava-me com seu abraço sensual e forte.
“Quem é este homem, e o que ele fez com o bundão do meu marido?”
- Então vamos contar até três — ele propôs.
Fiz que sim com a cabeça.
- Um, dois... três!
Eu sentia seu coração bater forte e rápido enquanto nos abraçávamos, suspensos na penumbra. E por um instante cheguei a pensar que... a me sentir como... a desejar que...
Mas as palavras...
Não havia palavras.
Como naqueles pesadelos em que a gente quer gritar, precisa gritar, mas os lábios não se mexem, a voz não chega à garganta.
Isso mesmo, um pesadelo. Eu ali, nos braços de Draco. Tinha um milhão de coisas para dizer a ele, mas algo me puxava para trás.
E depois de cada segundo que ele não dizia nada, eu me sentia ainda menos encorajada a falar. Até que o silêncio nos afastou por completo.
A verdade nua e crua se interpusera entre nós como uma espada — cortando todos os nossos laços e falando por si mesma.
Eu podia ver a resposta nos olhos dele.
“Nada de final feliz.”
Não suportava mais continuar em seus braços, mesmo assim não encontrava forças para me afastar. E Draco parecia incapaz de me deixar partir.
Não sei dizer por quanto tempo permanecemos ali. Mas então a música acabou, as pessoas começaram a aplaudir e a voltar para suas mesas, e o encanto se quebrou.
Nossa dança tinha chegado ao fim.
Para nunca mais recomeçar.
- Hermione — ele falou de repente, a voz dura e fria. — Nossa história pode terminar aqui ou pode terminar lá fora. Mas, de um jeito ou de outro, termina hoje.
- Então me deixe ir!
- Não estou te segurando.
Aquelas palavras calaram fundo no meu coração.
“Idiota!” O que aparentemente tinha sentido no toque dele, visto nos olhos dele, não havia passado de uma miragem. Real para mim; nada além de uma jogada estratégica para ele. E naquele instante percebi o que realmente estava errado na história toda.
Draco já havia se desligado de mim; mas eu ainda não havia me desligado dele.
E a verdade mais terrível era: talvez jamais fosse capaz de fazê-lo.
Virei o rosto, achando que fosse me estilhaçar no chão como uma taça de champanhe. Tentei reencontrar a força que me havia sustentado durante aqueles anos todos.
Por fim afastei-me de Draco e perguntei ao garçom mais próximo:
- Por favor, onde fica o toalete?
- Por ali, senhora.
- Obrigada.
E continuei andando, controlando-me para não cair, para não sair dali correndo como uma fugitiva.
Podia sentir os olhos de Draco ainda pregados em mim. Um olhar quente, que só podia ser de ódio.
Fazia muito que não me importava com o que os outros pensassem de mim.
Então por que aquilo me machucava tanto?
***
N/A: Pois é, né??
Coitadinha da Mione... o Draco é MAL... Mas enfim... Finalmente temos ação na fic... e agora vai ser pra valer...
Bjus a todos e todas que acompanham a fic.