Foram as melhores semanas da sua vida. O medo não mais assolava seu coração, após aquele dia. Sentia-se satisfeita, completa, como um sonho que podia viver acordada. Não temia mais as surras, a dor desapareceu de seu coração, mesmo quando era humilhara e mal-tratada. Porque havia ela. Havia a mulher que cuidava de sua vida. Que era o seu mundo.
Mas, um dia, enquanto fazia suas tarefas, veio um grupo de crianças com a óbvia intenção de atormentá-la. Não gostavam de ver a felicidade nela.
— Do que está sorrindo, Granger? - havia perguntado um dos garotos, que se aproximavam, fazendo um ar de desdém.
— Nada em especial, senhor. - havia respondido naturalmente, sem parar de limpar os degraus do Hall de Entrada, a tarefa do momento.
— Olhe para quem fala com você, inútil! – dizia rancoroso, por ter se sentido completamente ignorado, principalmente por ela.
Com calma, tinha parado de limpar e se levantou, erguendo os olhos para o garoto. Os olhos dele faiscavam de raiva. Ladeando, havia mais dois garotos e duas garotas junto com ele.
— Se deseja alguma coisa, eu farei, senhor. – informara, mesmo que todos já soubessem disso de cor e salteado.
— E quem foi que mandou que se levantasse, insolente? Nós deveríamos tirar esse sorriso de seu rosto e colocá-la em seu devido lugar. - um sorriso perverso formara-se no canto de seus lábios, quando olhava para os que o acompanhavam.
— Voltarei aos meus afazeres, sem sorrir, se assim desejar, senhor. - respondera com ar simples, fazendo o sorriso desaparecer e uma pequena reverência.
Mas seu olhar demonstrando que isso não significava muita diferença em seu humor, enquanto voltava a se ajoelhar novamente, voltando à limpeza concentrada.
Foi quando viera o primeiro chute, fazendo-a bater em direção ao corrimão. Sabia que isso ocorreria, mas não ligava. No dia seguinte iria visitá-la e a dor física era suportável. Desaparecia.
— Você não sabe seu devido lugar, Granger? - o garoto havia falado com desprezo, encarando-a sem qualquer piedade, mesmo que ela tivesse se encolhido, colocando os braços onde fora chutada. - Pois nós vamos te mostrar. É aí, aos nossos pés. Pois não passa de um objeto. - ele rira debochadamente. Ouvia, sem falar nada contra, enquanto apenas massageava o local onde tinha sido atingida.
- Não é, Bryan? A Tia-avó disse... é parecido com um vaso. Faz parte do patrimônio da nossa família. - falava uma garota, sorrindo maldosamente. - E podemos fazer o que quiser com ela. Isso não é mais nada além de um brinquedo. Então vamos brincar com ele.
Sabia que não haveria escapatória, como nunca houvera. Receberia outra surra. As crianças iriam “brincar com ela” novamente como era o direito delas.
Mas ocorreu algo inesperado naquele dia. Algo que mudaria toda a sua vida, tudo que conhecia.
Absolutamente tudo.
— HERMIONE! – ouviu o grito estridente de sua mãe.
Não passou alguns segundos e as crianças que batiam nela, sem qualquer piedade, repentinamente pararam. Quando ela abriu os olhos, pode ver sua mãe ali, de pé ao seu lado. Sentiu uma felicidade tão grande pela presença dela e sorriu, enquanto a via ajoelhar-se ao seu lado para pegá-la em seus braços como já tinha ocorrido naquela manhã. Dos olhos de Granger vertiam lágrimas, misturando-se com o sangue que saía das feridas recém adquiridas.
— Mamãe. – disse fracamente, sorrindo. Mas esta não estava ainda observando. Seu rosto estava virado para onde as crianças pareciam caídas, assustadas.
— O que estão fazendo com ela!? - ela havia gritado, olhando para as crianças, com os olhos furiosos. - SAIAM DAQUI, MALDITOS! - ela gritou ainda mais alto, muito alterada.
— Acalme-se, mamãe... – ela falou, chamando atenção dela novamente.
Ela lançava-lhe um olhar preocupado, observando o estado em que se encontrava, mesmo que nem tivesse sido surrada muito.
— Não se preocupe. - sua voz saíra baixinho - É... é comum. – percebeu os olhos dela arregalarem com aquele comentário. - Não contei... porque não quis preocupá-la. - continuou, vendo os olhos que pareciam ficar cada vez mais chocados. - Por favor, não se preocupe. – pediu, ao perceber as lágrimas que cairiam dos olhos dela.
Vira pela segunda vez sua mãe com aquele aspecto desamparado. Suas palavras haviam sido ditas com ar angustiado, enquanto as pontas de seus dedos meio trêmulos tocavam as feridas com delicadeza, limpando o sangue.
— Perdoe-me, Hermione. - ela colocava os cabelos longe das feridas e fazendo-a ficar mais próxima ao seu corpo. - Perdoe-me, por favor. - sua voz era trêmula pelo choro que começava - Como eu pude ser tão tola de achar que pudessem cuidar de você. Que tivessem um pouco de compaixão naqueles corações duros como rocha. Tê-la condenado à essa vida desumana! - ela dizia em desespero e olhando para o alto, abaixando a cabeça com os olhos fechados, parecendo não conseguir encará-la, chorando sem parar. - Por favor, perdoe-me!
Levantou a mão calmamente até ela, recostando-a em seu ombro. Mesmo que não quisesse, ela acabou sendo capturada por seus olhos, assim que estes abriram.
— Eu só posso agradecer, mamãe. - disse calmamente e o sorriso novamente lhe aparecera em sua face – Porque, desde que apareceu, você me fez suportar tudo. Você me fez superar o medo e desaparecer a minha dor. - ela então indicara seu próprio peito, olhando para baixo – Eu vou suportar qualquer coisa por você. Eu farei qualquer coisa, só para poder ficar ao seu lado.
A mão que estava em seus cabelos saíra. Ela as fechava com força, enquanto fechava também seus próprios olhos com igual força, respirando com dificuldade. As palavras demoraram à sair de seus lábios.
— N-n-não fale, Hermione. – dizia, enquanto a ajudava a sentar-se. Conseguia, normalmente. A surra não durara tempo suficiente para fazer grandes estragos.
O sorriso permanecia em seu semblante e continuou em silêncio, como sua mãe tinha pedido. Foi quando ouviram passos pesados e apressados que iam na direção de ambas, fazendo as duas erguerem os olhos, intrigados, antes de falarem mais alguma coisa.
Lúcio estava vindo, os olhos insanos, alterados. Evelyn havia se levantado imediatamente, junto com ela. Não entendia bem ao certo o que estava acontecendo para deixá-lo daquele jeito, mas sabia que ele devia estar bem furioso.
- O que significa isso, Evelyn? - a perguntara era tão seca e ríspida que Granger manteve-se ao lado dela, com medo do estado jamais visto do senhor Lúcio.
Observou os punhos de sua mãe fecharem-se, pela segunda vez aquele dia. Suas juntas embranqueceram e quando falou, havia uma raiva incontida em sua voz. Quando olhou para cima, viu lágrimas. Suas expressões contorcidas de fúria.
— O que é isso? O QUE É ISSO, VOCÊ AINDA ME PERGUNTA? - a repetição da fala foi mais brusca, ela gritava com o senhor Lúcio, ficando cada vez mais alterada – EU É QUEM DEVERIA PERGUNTAR!
— FOI O NOSSO TRATO, FILHA INGRATA! NÓS CUIDARIAMOS DESSA ABERRAÇÃO, ENQUANTO VOCÊ IA COLOCAR AS IDÉIAS NO LUGAR NAQUELA CASA DE VERANEIO! DÊ GRAÇAS À DEUS QUE VOCÊ TEVE A CHANCE DE CONHECÊ-LA, POIS NEM ISSO DEVERIA! - ambos pareciam extremamente alterados. Suas mãos foram diretamente às vestes de sua mãe, olhando temerosamente para o senhor Lúcio, com os olhos arregalados. Nunca vira uma discussão tão feia.
— ESSA MALDITA FAMÍLIA E ESSE MALDITO NOME FOI A DESGRAÇA QUE RECAIU SOBRE MIM! FOI POR CAUSA DESSA DESGRAÇA DE TRADIÇÃO QUE TIVE DE CONDENAR MINHA PRÓPRIA FILHA À ESSA VIDA ESCRAVA! - ela dizia, vertendo lágrimas de seus olhos, os punhos fechados. Então, entre dentes, sem berrar, continuou – E a minha ingenuidade de acreditar que vocês podiam ter algum coração dentro desse peito. De acreditar que a tratassem com o mínimo de dignidade que um ser humano merece. Foi nisso que eu errei. Porque eu acreditei que pudesse haver um coração batendo dentro de estátuas insensíveis.
— Sua... - o rosto dele estava avermelhado também, suas expressões contorcidas de tanta raiva. Ele também estava com os dentes cerrados, punhos fechados, tentando se controlar. - Pois que acabe isso aqui e agora. Já fui muito paciente com você.
O que ocorreu logo em seguida foi rápido demais. O senhor Lúcio retirou uma adaga que escondia na bengala que normalmente carregava consigo todo tempo. Ela sabia da existência dessa adaga camuflada, pois a utilizava como “autodefesa”, mas naquela hora, ele com certeza não iria usar para aquilo. Com ela em suas mãos, em riste, partiu para cima de Granger que dera apenas tempo de dar um passo para trás, assustada.
Foi tão rápido. Apenas viu uma sombra que ficou à sua frente, antes da adaga quase lhe acertar a garganta.
A adaga não acertou o alvo esperado. Quando o senhor Lúcio viu, a adaga perfurava o abdômen de sua própria filha, fazendo-a cair de joelhos, assim que retirou a adaga, perplexo. Observava a mancha enorme de sangue que começava a aparecer através das vestes.
— Mamãe! - sua voz saíra alta, espontânea, imediata. Estava assustada, ajoelhando-se ao lado dela, vendo todo aquele sangue.
— Hermione... - a voz dela saíra fraca e forçada, com as mãos no ferimento, manchando suas mãos de vermelho. - Tivemos... tão pouco tempo. - suas palavras foram ditas naquele tom estranho, um sorriso se formara nos lábios dela, tristes e conformados, enquanto encurvava-se, com a mão sobre o ferimento. Suas expressões contorcendo-se de dor, momentos após.
— Não! Mamãe! Isso vai sarar, não se preocupe! - ela dizia em desespero, sem saber como ajudá-la. Jamais vira tanto sangue.
— Você... foi a única coisa que me restou. Meu único tesouro, da qual tentaram me privar. Não, eu não poderia deixar meu esforço, meu sofrimento junto ao seu acabar assim. - ela dizia, tendo espasmos de dor, encurvando-se ainda mais sobre o corpo, começando a apoiar-se na escadaria de mármore.
— Mamãe! - ela dizia desesperada. Ela sentia... que a perderia. Para sempre. Não aquilo não podia ser verdade!
— Faça apenas meu último desejo, Hermione. Apenas um último desejo. - sua voz era embargada, erguendo a mão avermelhada pelo próprio sangue.
— Não, não será o último! - ela dizia, pegando em sua mão, sem se importar que suas mãos começavam a sujar-se do líquido viscoso e avermelhado.
Ela sorria, com um olhar resignado. Lacrimejava. Fechou-os novamente, quando teve outro espasmo de dor.
— Você precisa viver. – disse, parecendo ignorar o que ela tinha dito anteriormente - Apenas isso... eu quero que viva a vida que lhe dei com tanto sacrifício. - sua voz era quase nada. Ela fechava os olhos, como se estivesse cansada. Empalidecia com uma rapidez extraordinária.
— NÃO! MAMÃE! - as palavras saíam desesperas, impensadas, impulsivas, enquanto a via cair sobre a escada, o sangue escorrendo por esta, manchando o piso branco. - NÃO! - ela gritava, sentindo-se partir em pedaços. A dor a possuía, enquanto via-a deitada de lado, ainda com uma das mãos sobre o ferimento que já produzia uma poça de sangue.
Não havia mais palavras. Não havia mais lágrimas. Havia apenas a imagem dela à sua frente, inerte e gelada. Suas mãos tremiam, enquanto iam até seu corpo, sem perceber que o senhor Lúcio via à tudo aquilo, paralisado pelo choque.
A conversa, o sangue... a garota. Tudo por causa daquela maldita aberração. Por causa daquela aberração que Narcisa estivera tão fria aqueles anos. Por causa daquela aberração que Evelyn fora mandada embora. Por causa daquela aberração que acabou matando a própria filha.
A adaga, ainda pingando sangue, ergueu-se. Seus olhos estavam alucinados, enquanto olhavam Granger sobre o corpo de sua filha. Mas alguma coisa denunciou esse movimento, pois esta erguera os olhos em sua direção, virando a cabeça para ele. Os olhos de sua filha pareciam encará-lo. Olhos castanhos, inocentes e gentis. Ele havia parado, hipnotizado por aquele olhar.
Mas as expressões dela haviam mudado. Seu medo fora substituída por algo diferente. A adaga que carregava começou a tremer, mas sabia que sua mão estava firme. As expressões de seu rosto, que sempre tiveram sido o medo, resignação e submissão haviam sido transformadas em ódio.
A adaga voou de sua mão, fazendo-o dar passos para trás, observando a adaga flutuando no ar, em riste, em sua direção. Granger levantava-se, meio desajeitadamente do chão, retirando seu olhar de cima dele para a mãe que estava ao seu lado. Suas roupas já estavam cheias de sangue.
— O que é isso... - sua voz saía baixa, enquanto encarava perplexo a cena bizarra. - Que aberração do inferno você é!
Sua cabeça estava levemente baixa, como se carregasse algo muito pesado. A voz dele tinha chamado sua atenção, erguendo novamente os olhos na direção dele e havia um brilho demoníaco neles. Os cabelos estavam meio desarrumados e ela não se deu ao trabalho de fazê-los sair da frente de seus olhos.
— Você destruiu tudo. - aquelas palavras eram ditas com um ódio profundo, parecendo ter ignorado o que ele havia falado. Sua voz soava como uma confusão de dor intensa e rancor. Não havia mais a Granger amedrontada ou obediente. – Vocês destruíram tudo... - havia algo insano eu seu caminhar. Era lento, arrastado, seus braços continuavam imóveis ao lado de seu corpo e os olhos, vidrados. – Mataram... minha mãe... o meu mundo. E vocês... pagarão por isso... com o de vocês.
Ele começou a andar para trás, olhando a adaga que flutuava ao lado dela, como se fosse um guarda-costas. Seu coração estava aos pulos, os olhos arregalados. O que ela pretendia?
Não teve tempo de pensar em nenhuma resposta. Sentiu a adaga perfurar-lhe o ombro, fazendo-o até ser empurrado para trás, com um grito de dor, caindo no meio do Hall de entrada.
— Perderão... aos poucos... - sua voz, enquanto se aproximava, tinha uma calma desumana. Um sorriso maligno o estampava, a adaga já havia voltado para o seu lado. – o mesmo que tiraram de mim... - falava, perfurando uma de suas coxas, fazendo-o berrar novamente de dor.
— Granger? - ela ouviu uma voz, às suas costas. Reconhecia-a... a senhora Narcisa.
Imediatamente a adaga virara-se em riste para ela, sem que Granger tivesse se virado, assustando-a, ao perceber a adaga flutuante.
— Saia daqui, Narcisa! - Lúcio gritava o máximo que conseguia, enquanto gemia de dor pelos ferimentos – Granger é um demônio! Saia, ela vai te matar! - ele dizia, enquanto Narcisa se abstraia da cena.
Evelyn deitada, encurvada sobre as escadas, em cima de uma poça de sangue. Poucos passos adiante, estava Granger toda ensangüentada, com seu marido ferido logo à sua frente e a adaga flutuante no lado direito, direcionada para ela, que estava em cima da escada.
Nesse momento, Granger havia começado a se virar para ela, erguendo a cabeça para poder observá-la. O brilho insano em seus olhos de um ódio avassalador, tornando seus olhos castanhos mais assustadores...
— Matar...? - a voz de Granger soara, como se processasse aquela palavra. – Não. Vocês não... vou matar todos... os outros.
E a adaga fora em direção a ela, rápido, zunindo, sem dar chances de esquiva, perfurando a perna, fazendo-a cair logo em seguida com um berro, segurando o ferimento.
— Vocês serão... os últimos. Porque eu quero... que saibam como é... um mundo destruído. - o brilho de seu olhar aumentara – O brinquedo... vai brincar.
Ouviu passos que se aproximavam. Seu sorriso insano, que se abria, sabia. As suas presas estavam vindo para a armadilha. Sabia como proporcionar a dor àqueles dois, como desejava... algo dentro de sua mente os culpava exclusivamente pela vida que tinha levado. Os causadores da morte de sua mãe. Os destruidores do seu mundo. Eles saberiam o que ela sentia.
— Mas o que está acontecendo? - soara uma voz masculina, enquanto via os passos brecarem ao ver a cena.
— Draco. - ela falou, mas ainda encarando os de Narcisa, com um sorriso maligno.
Esta demonstrara um semblante desesperado, quase como se pudesse entender o que seus olhos transmitissem. Como se soubesse que seria a verdadeira última vítima. Tentara se arrastar para a escada, gritando, quando viu a adaga apontar diretamente para Draco, seu filho mais novo.
— Pare, Granger! Por favor... pare. - estava tremendo, enquanto fixava seus olhos na adaga. Porém, não houvera compaixão, quando ouviu-se o zunido da adaga que perfurava o coração dele e uma tosse seca, enquanto este segurava a adaga que lhe era enfiada no peito.
— NÃOOOO! - berrara Narcisa, olhando o filho cair de joelhos, com a mão sobre o peito, os olhos desfocando-se, quando finalmente caíra no chão, inerte. Caíra em prantos desesperados, enquanto tentava se arrastar até ele. Mas algo a impedia.
O senhor Lúcio urrava de fúria atrás dela, mas ela ignorava-o completamente. Eles precisavam saber o que era dor, o que era morrer por ela, pouco à pouco. Mesmo que o que eles sentissem não fosse nem perto o que ela sentira durante toda sua vida.
Ouviu-se o tilintar de outros objetos metálicos que começavam a se mexer em um lugar distante da casa, enquanto aquela adaga foi novamente para o seu ombro direito, como um animal fiel.
Os garotos que tinham ido junto com Draco, tentaram correr ao se recompor da cena, mas ela erguera a mão na direção deles, fechando-a e puxando o braço, fazendo-os voar até o outro extremo do saguão violentamente.
— Ninguém irá sair daqui. Este chão será o túmulo de todos, assim como o de minha mãe. – disse com frieza.
Facas vindas da cozinha agora também flutuavam, fazendo logo suas primeiras vítimas, que haviam sido desnorteadas ao serem jogadas contra a parede.
Seu sorriso aumentava, enquanto via os olhos de Narcisa irem de um lado para o outro, desesperada... indefesa... acuada.
Os gritos de dor, fúria e desespero... as lágrimas que molhavam a escadaria de mármore de um branco puro, sendo lentamente manchada por sangue do ferimento de Narcisa. Do sangue de sua mãe que jazia, deitada, aos seus pés. E dali à pouco, o sangue de todos os habitantes da casa estariam manchando aquele piso. Assim como haviam manchado sua alma. Todos viriam até ela. E ela apenas os esperava.
Mas não queria matá-los tão rápido. Queria vê-los aos seus pés, como a obrigaram a fazer sua vida inteira. Os passos começaram a ser frenéticos, vindo de todas as direções, encontrando a mesma cena, por mais que Narcisa gritasse para que não viessem, para que fugissem.
Alguns tentaram ir até a porta de saída da mansão, mas assim que a abriram, ela foi trancada estrondosamente. Trincos haviam sido ouvidos. Nada iria sair dali. Ouviu pessoas chorando, outros começarem a pedir por perdão, outros implorarem. Estavam fazendo o que queria, apesar de não os observarem.
Seus olhos se fixavam em Narcisa, mantendo um sorriso malévolo, olhando seu desespero de perceber que veria toda a família morrer à sua frente. Havia um sentimento de ódio único por ela... como se soubesse que fora por causa, principalmente, dela que tinha tido aquela vida. Era à ela que desejava causar mais dor.
Foi matando um por um, com as facas da cozinha, enquanto mantinha a adaga que assassinara sua mãe ao seu lado, como um animal fiel, esperando por ordens mudas de sua dona.
Mas uma hora ela havia desviado os olhos de Narcisa, pois as empregadas, tirando as da cozinha que já estavam lá pelo roubo das facas, haviam chegado, saindo dos afazeres pela casa, pela gritaria que ocorria, quase desmaiando logo que viram a cena. Facas de cozinha automaticamente foram em direção à elas, mas pararam no meio do caminho, quando seus olhos insensíveis as encararam, como se estivesse processando algo. Ponderando.
— G-G-Gran-ger. - gaguejara uma das empregadas, quase não dando para entender o que falava. Aquela que havia lhe liberado do sótão para avisar sua mãe sobre as visitas.
— Você. - ela dissera com uma voz maligna. As facas mataram todas as outras que estavam junto com ela, logo após ter dito essa única palavra.
— M-meu De-Deus! - ela exclamou, tremendo feito louca quando viu suas colegas caírem ao chão, todas as facas voltando-se na direção dela.
— Porque está matando as empregadas? O que elas fizeram!? - falava a senhora Narcisa, vendo que ela não ia parar simplesmente na família. Parecia que qualquer coisa que aparecesse à sua frente, ela mataria.
Os olhos malignos se voltaram novamente para ela.
— Nada. Foi isso que fizeram. - ela havia falado insensível – Ajudaram à me manter aqui.
— Tenha piedade! - havia dito a empregada, de joelhos, rezando, com as mãos juntas.
— Estou tendo. - fora a resposta sem emoções – A mesma piedade com que vocês me trataram a vida inteira. - complementara, seus olhos brilharam com ainda mais ódio, quando todas as facas foram em direção à empregada, matando-a imediatamente, sem agonizações.
Todos começaram a choramingar e aqueles que tentavam correr para dentro da casa morriam imediatamente. Via as mulheres a abraçar as crianças. Algo que ela nunca mais poderia sentir, começando a fazê-la sentir mais raiva. Não sabia como estava controlando as facas, mas sabia que elas estavam fazendo o que desejava. E o que mais desejava era eliminar a fonte de sua dor que produziram a vida inteira.
Corpos tombavam por todos os lados. Não mais ouvia as lamúrias do senhor Lúcio que estava às suas costas. Na verdade, tivera de dar-lhe uma facada no outro ombro, quando ele havia tentado atacá-la, ao conseguir se levantar com esforço do chão. A senhora Narcisa chorava tanto que o sangue que escorria pelas escadas abaixo de seus olhos era mais claro.
E, finalmente, sobrara apenas Narcisa e Lúcio.
- Insuportável, não? - Granger havia comentado, não demonstrando qualquer emoção, finalmente se mexendo.
Virara-se em direção a Lúcio, com a adaga. Ele estava deitado, sem muitas forças, pelos ferimentos profundos em ambos os ombros. A adaga flutuava, na vertical, mirando exatamente o centro de seu peito.
- N-não. Não... - Narcisa quase não tinha voz para falar, enquanto observava impotente a morte do seu marido – Não... por favor... - naquele momento ela fechou os olhos, virando o rosto.
Só ouviu o zunido da adaga descendo em direção ao peito de seu marido. As lágrimas não mais rolavam por seu rosto. Tremia incessantemente, enquanto passeava seus olhos pelo Hall de Entrada, agora completamente vermelho.
Granger começou lentamente a subir os degraus da escada, para finalmente fazer a última vítima. Seus passos eram seguidos pelo barulho mórbido do sangue que era pisado. Narcisa parecia ignorar o fato, ainda olhando para os lados, vendo todos que amava jazendo no chão frio de mármore. Recostava suas costas na parede e o ferimento de sua perna parecia não doer. A loucura proporcionada pela dor dos assassinatos transparecia em seus olhos arregalados.
- Granger... - ela tinha uma voz fina, fraca e frágil, quando a observou na sua frente, erguendo seus olhos alucinados.
Esta, no entanto, não falou nada. A adaga que flutuava ao seu lado, havia ficado na vertical, ficando entre as duas.
Narcisa sabia o que aquilo sugeria, apesar de não ter sido pronunciado qualquer palavra. Olhava a adaga manchada de sangue. Seus dedos foram até seu cabo, trêmulos e temerosos. Os olhos castanhos de Granger ainda fixados no rosto dela.
Pegou a adaga, observando pela lâmina seus olhos azuis. Um sorriso apareceu em seus lábios, enquanto analisava sua imagem na lâmina ensangüentada.
A resposta para aquilo era óbvia. Não suportaria viver depois daquele massacre. Aproximou a lâmina do próprio pescoço e transpassou-o, logo em seguida, tombando para o lado.
Dos lábios de Granger, apenas houve um sorriso, enquanto virava-se para encarar a cena ao seu redor. Observou as facas que flutuavam no ar, pairando sobre as vítimas caídas pelo chão. Ali, do alto da escada, a visão era... tão bela.
Então, uma das facas flutuou até ficar de frente com ela, na altura do seu peito. A dor não ia acabar. Não, enquanto tivesse aquilo batendo dentro dela.
Mas seus olhos depararam-se com a imagem de sua mãe caída aos pés da escada e a lembrança de seu último desejo veio-lhe à mente. E junto... a sua promessa.
“Farei tudo por você, mamãe.”
- Qualquer coisa. - murmurara, enquanto seus olhos demonstravam toda a dor de seguir o último desejo de sua mãe.
As facas caíram imediatamente ao chão, fazendo um barulho ensurdecedor, reverberando pelas paredes dos corredores silenciosos e sem vida. Seus olhos voltaram ao normal, enquanto encarava os cabelos loiros de sua mãe, manchados de sangue.
Foi seguindo, caminhando pela escadaria, até ficar ao lado dela, onde sentou-se de cabeça baixa. Ajeitou-se ao seu lado, fazendo com que seus braços, sem vida, a enlaçassem. Mas ela sabia que não haveria o mesmo calor. Mas era o único lugar que conhecia... era o único lugar que sentia-se segura. E ali ficaria o tempo que precisasse.
“Tudo... por você... mamãe.”, e fechou os olhos.