Granger nunca tivera tanta felicidade em sua vida e estava mais desastrada, apesar de fazer suas obrigações com tanta satisfação que deixou uma boa parte da família observando aquele comportamento estranho.
Não se importou, mesmo quando as crianças começaram a “brincar com ela” com mais freqüência que antes, no óbvio intuito de retirar o sorriso de sua face, surrando-a ou humilhando-a ainda mais do que normalmente. Mas não importava o que faziam, era tudo em vão. Havia uma pessoa no mundo que se importava com ela. Isso era o suficiente para ela sorrir pelo resto da vida.
Todas as manhãs, bem cedinho, algumas vezes chegando ser quatro da manhã, ela já estava lá no quarto da mulher que, em uma das primeiras visitas, pediu para chamá-la de “mamãe”. Achou estranho, à princípio, pois não sabia exatamente o que seria isso. Escutava algumas crianças falarem isso às mulheres que os acompanhavam. Seria isso que ocorria? As mulheres elegiam as crianças que deixaria chamá-la de mamãe?
Estava tão feliz que esqueceu de mencionar para ela os dias de visita, os únicos dias que não poderia ir vê-la. Só lembrou-se, quando já era tarde demais, quando foi trancada no sótão. Ficou desesperada por perceber o erro terrível e tentou de todas as maneiras sair de lá. Esmurrou a porta, gritou e suplicou para que a deixassem sair por uns meros minutos. Nada adiantou.
Não, não... não podia decepcioná-la daquela forma. Seu desespero e desolação pela inutilidade de seus atos aumentavam gradativamente a cada frustração.
Na manhã do dia seguinte, destrancaram. Eram seis da manhã, o normal horário que todas as empregadas acordarem para fazer o serviço matinal, junto com Granger. Seu desespero, se era possível, conseguiu aumentar ao perceber entrar no pior dilema de sua vida: Fazia todo seu serviço, ou ia explicar para mamãe o porque de não ter aparecido?
O desespero da pobre garota era tão visível que a empregada não pode deixar de notar. Olhava perdidamente o espaço, encolhida contra a cama como se estivesse vendo monstros horrorosos em cada sombra e os três pratos estavam intactos no chão. O que devia ter acontecido para que Granger voltasse a ter o rompante da primeira vez que tinha ficado trancada?
— Granger, algum problema?
— Não... não é nada. – ela falou se encolhendo, mas seus olhos continuavam a procurar alguma coisa.
— Fale, você não está bem. – sua voz não era doce, nem gentil, mas era muito mais cativante à Granger, do que da família.
A empregada tinha certa pena de Granger. Todas as empregadas o tinham, em realidade. Sabiam que a família a tratava como uma escrava dentro de casa, não a deixavam nem mesmo sair para os jardins, brincar ou se divertir. Batiam impiedosamente. Mas elas eram simples empregadas que praticamente moravam lá dentro. Não podiam falar o que ocorria dentro daquelas paredes para o lado de fora. Suas vidas estavam em jogo caso isso ocorresse.
— Eu não fiz a minha obrigação de ontem. – ela finalmente desabafou com um ar assustado, como se alguém pudesse materializar ali e bater nela.
— Não entendo, vários desses dias você não faz suas obrigações. Não tem porque te culparem, você não tem condições de fazê-lo. – não entendia porque Granger decidira, naquele dia, falar uma coisa daquelas. Tinha noção que ela tinha trauma de não poder fazer as obrigações por causa das surras, mas todos sabiam que, naquele dia em específico, era impossível.
— Eu prometi para a senhora doente... que a visitaria todas as manhãs... e ontem eu não pude... e hoje também não. – lágrimas caíram de seus olhos, sem que pudesse contê-las, causando maior remorso na empregada.
— Mas ontem você sabe que está isenta de todas as obrigações, Granger. – ela falou, tentando amenizar a dor da menina.
— Mas eu não a avisei! E eu preciso trabalhar! – ela parecia num conflito terrível, fazendo a empregada entender que a própria Granger queria praticar aquela obrigação por vontade própria e não pudera.
A empregada respirou fundo. A pobre menina sofria o tempo inteiro... Não queria lhe causar mais dor e sabia que ela acabaria com o conflito assim que esclarecesse as coisas com a filha da senhora Narcisa, a “mulher doente” como Granger chamava. Compreendia, finalmente, porque Granger estivera tão feliz naqueles dias. Achou que era preciso manter aquele segredo, pois talvez, do jeito que aquela família era, iriam tirar a única felicidade da criança.
— Vou te dar uma chance, Granger. Irei deixá-la ir esclarecer as coisas para a mulher e fazer uma parte das suas obrigações matinais, até terminar isso. Mas só hoje, para avisá-la. – ela disse com um ar crítico, para dar ênfase na sua única oportunidade.
Granger mal acreditava em seus ouvidos, enquanto a encarava estupefata. Mas conseguira se recobrar, levantando-se correndo e abraçando-a.
— Obrigada! – e falando isso, havia soltado-a e saído correndo.
A empregada apenas observou, enquanto ela desaparecia pelos corredores. Por sorte, aquela hora da manhã, apenas as empregadas da cozinha estavam acordadas.
Granger correu como nunca pelos corredores, até chegar na porta do quarto da mulher doente. Ela abriu vagarosamente, observando que esta já encontrava-se acordada, com ar preocupado.
— Mamãe... – ela começou, sentindo-se culpada, mesmo que não o fosse completamente.
— Hermione! – ela dissera, observando-a com os olhos assustados, mas logo mudaram para o alívio. – O que aconteceu? – perguntou, enquanto esticava os braços para ela, como fazia todas as manhãs, convidando-a ao seu abraço protetor.
— Perdoe-me. – disse, ao se aproximar, com os ombros curvados para frente, a cabeça muito baixa. – Eu esqueci de avisá-la... – ergueu a cabeça, devagarinho, sem se aproximar demais. Não se sentia digna de receber o seu carinho.
— Avisar o que? – indagou, confusa.
— É que... nos dias de visitas... eu fico trancada no sótão, onde eu durmo. O dia inteiro. E só me liberam às seis horas, que é quando começo a trabalhar. – ela abaixara a cabeça novamente, as mãos entrelaçadas sobre o peito, tentando conter a dor que começava a aflorar, depois de tantos dias.
Não compreendia porque sentia mais medo de falhar com ela do que com todos na casa. Ela não iria lhe bater, mesmo que tentasse. Mas havia alguma coisa nela que, se falhasse, seu mundo cairia. Era como perder seu chão.
— Perdoe-me por não ter avisado! – ela suplicou, ajoelhando-se ao lado da cama, apoiando os braços e a cabeça sobre esta, chorando. Não podia ter feito aquilo, não podia ter esquecido!
Sentiu-a acariciando seus cabelos com calma. Reconfortante, como sempre tinham sido e foi parando calmamente de chorar. Ela conseguia curar tão rápido aquela dor.
— Tudo bem, querida. Você não tem culpa. – respondeu carinhosamente.
Ergueu os olhos, encarando-a. Os dedos dela passaram pelo seu cabelo, ajeitando-o por trás da orelha, como sempre fazia. Encarava-a com um olhar brando e carinhoso, ainda que continuasse a sentir que havia falhado com ela.
— Acha... mesmo... que não tenho culpa? – perguntou em expectativa, seus olhos esperando pela resposta, ansiosa.
— Você não tem culpa, Hermione. Nunca teve. – ela dizia com um ar tão convicto que ela acreditou. Acreditou mesmo. Será então que ela conseguiria esclarecer porque todos a culpavam?
— Mamãe. – ela chamou, assim que tinha sentado na cama e era abraçada novamente.
— Fale. – pediu, apertando-a mais contra o próprio corpo.
— Não é o que a senhora Narcisa e o senhor Lúcio pensam de mim. – ali, sob a proteção dos braços dela, sentia-se relaxada. Não havia perigo de desobedecer as regras. – Um dia eu soube... que quando eu apareci, eu destruí a família. Que quando eu apareci, ela foi obrigada a se separar da sua única filha. Foi quando eu apareci, que os problemas apareceram. Então disseram... que uma mulher chamada Evelyn iria decidir minha vida. Que ela iria decidir se eu ficava aqui ou era jogada na rua. – ela então estremeceu, enquanto continauva com uma voz mais triste – eu tenho medo desse dia. Tenho medo dela aparecer... – lágrimas apareceram em seu rosto, enquanto observava a mulher à sua frente. – Quem iria querer alguém que destrói uma família? Que só trás problemas para todos? O que farei, quando for mandada para a rua?
Ouviu um suspiro vindo dela, enquanto a afastava lentamente, passando a mão lentamente por seu cabelo.
— Você não trás problemas, minha querida... – respondeu com o conhecido ar carinhoso que confortava tanto Granger – E sei que Evelyn vai ver a mesma coisa. O quão especial você é.
Abriu um sorriso e sentiu aquelas palavras retirando tanto peso de si, como um toque de mágica. Algo que só ela podia fazer.
Se ela pudesse, ficaria o resto do dia, em seus braços. Ficaria ali o resto da sua vida, a eternidade. Tudo se resumia àquela mulher gentil e de aspecto frágil pela qual faria tudo, qualquer coisa.
Mas não podia. Precisava ir.
— Mamãe, desculpe, mas eu não posso mais ficar. Eu não deveria nem mesmo ter vindo. - ela explicava, enquanto, à contra-gosto, começava a se desvencilhar do único lugar que não queria sair. - Eu começo sempre a trabalhar às seis horas.
— Compreendo. – ela disse, conformada.
— Amanhã voltarei. – ela falou, para animá-la. Ainda continuava a sorrir, quando saiu correndo do quarto para os afazeres normais do dia-a-dia.
Por alguma razão desconhecida a Granger, nas próximas visitas, sentia que ela parecia meio pensativa, até mesmo um pouco apreensiva. Não compreendia, mas se preocupava, pois aquilo começou a piorar conforme os dias passavam. Com essa preocupação, afetou seu trabalho e começou a ser castigada mais vezes pelo dia, não conseguindo curar suas feridas em apenas uma noite, como normalmente ocorria.
Quando aparecera, com os ferimentos meio cicatrizados em sua face, a mulher assustou-se, perguntando o que havia acontecido.
Não queria que soubesse o verdadeiro porquê. Sabia que a preocuparia mais e já bastava os misteriosos pensamentos que ela carregava com ela para atormentá-la. Decidiu, pela segunda vez em sua vida, mentir. Gaguejou muito para conseguir dizer simplesmente que tinha andado se distraindo demais enquanto trabalhava e acabou produzindo aqueles machucados. Não podia mentir, lembrava-se a primeira vez que foi surrada brutalmente e por isso sentia um intenso medo de fazer aquilo.
Por sorte, mesmo que sentisse que uma hora seria descoberta, aquilo parecia ter satisfeito-a, pois não perguntou mais nada.
Finalmente, um dia, quando chegou ao seu quarto em outra madrugada, ela tinha uma expressão tão temerosa em seu rosto que Granger conseguiu externar a pergunta que não tivera coragem antes:
— Algum problema, mamãe? – perguntou, aproximando e pegando delicadamente em sua mão.
— Eu... - ela abaixou os olhos e sentiu como tremia, pela mão que segurava. Sabia, sentia... ela estava sofrendo, por alguma razão.
— Estou aqui, mamãe. Por favor, pode falar qualquer coisa, farei tudo o que me pedir. - apertara levemente sua mão, aproximando-a de seu peito, tentando lhe passar mais segurança para falar o que tanto a incomodava. Aquele não era seu dom, como o dela, mas precisava tentar.
— Hermione... - os olhos se ergueram, entristecidos. Sua voz era sofrida, enquanto com a mão que ela tinha livre, ia até seus cabelos, fazendo-os repousar ali e um sorriso vacilante começar a aparecer em seus lábios – Você... é tão amável... tão gentil... - lágrimas começarem a rolar por seu rosto. Suas feições se contorceram, como se sentisse uma dor profunda, cada músculo do corpo dela começando a tremer – O que eu fiz com você? - murmurou, enquanto deslizava a mão por seus cabelos.
O que ela falava? Olhava-a confusa, enquanto esta desviava os olhos e chorava com mais intensidade.
— Eu estarei pra sempre aqui, mamãe. Sempre, para o que precisar de mim! Tudo o que eu puder fazer, eu farei. – falou, com o intuito de acalma-la, mas pareceu não surtir o efeito desejado.
Ela deslizou da cama, fazendo os dedos que estavam entre seus cabelos deslizar para suas costas. Ajoelhada no chão, apertou-a contra si fortemente e sentiu que suas costas eram lentamente molhadas. Parecia apenas estar sofrendo mais, enquanto falava.
— Como... - ela soluçava fortemente em seu ombro. - Como pude... a culpa... por tudo... - sua voz era de absoluta tristeza, enquanto a abraçava mais fortemente, as mãos no peito tão coladas aos corpos que até mesmo doía. Mas nenhuma das duas parecia notar isso.
— Não, senhora! Não! Não tem nenhuma culpa! - sua cabeça fazia sinais negativos, inconformada com o que a senhora falava. Não compreendia exatamente que culpa dizia possuir, mas ela era muito boa para isso. Aquela senhora não era igual à Granger. Ela não era culpada!
— Eu tenho! - ela dizia imperativa, tremendo descontroladamente - Fui eu quem te deixou nessa maldita mansão! Fui eu quem lhe infringi tanto sofrimento por anos! Eu que a obriguei à essa vida terrível! - a angústia naquelas palavras eram como navalhas no coração de Granger que desesperava-se para tentar fazer o sofrimento dela amenizar.
Naquele momento, Granger decidiu separar os corpos, empurrando-a lentamente para longe. Não fora muito difícil, mesmo com o abraço forte, pois ela cedeu rapidamente. Soltou a mão dela, que ainda mantinha segura enquanto era abraçada. Suas mãos foram até seus ombros e sua voz saíra firme.
— Está enganada, minha senhora! – disse com convicção, enquanto a encarava, mesmo sem poder ver seus olhos, pois esta os escondera entre as mãos – Eu nasci aqui! E a senhora chegou só faz algumas semanas!
As mãos, que estavam sobre o rosto, deslizaram lentamente, até conseguir ver as lágrimas que corriam livres dos olhos dela, tão iguais aos seus. Encontravam-se desfocados, direcionados ao chão. Os ombros estavam caídos, num ar derrotado. Quando sua voz saíra, era baixa e conformada.
— Não, Hermione... - um sorriso triste, meio nervoso, aparecera em seus lábios. Sua voz mudara para algo estranho, que ela não conseguia entender. - Eu morei aqui minha vida inteira, sentindo intenso desejo de ir embora. No momento que mais desejei ficar nessa maldita casa, eu fui obrigada a sair para muito longe. - ela segurava a barra de seu vestido branco simples com certa força e seus olhos se fecharam. Respirava profundamente, entre soluços, como se estivesse se acalmando.
Nesse momento, como se algo muito pesado caísse em seu estomago, Granger arregalou os olhos enquanto sentia sua respiração acelerar. Seus lábios formaram a frase que temia ter uma afirmativa.
— Foi por minha causa? - a perspectiva de ter mais uma culpa a fez estremecer e dar um passo para trás. Não, não... poderia ser culpada por qualquer coisa, mas não com ela!
A resposta não viera. Viu-a erguer os olhos em sua direção e seu braço esticou-se, até chegar à sua face, paralisada pelo medo. Havia uma expressão branda em seus olhos naquele momento, enquanto a observava.
— Hermione... jamais se perguntou como sabia seu nome, sem nunca ter me visto uma única vez? - Sentiu sua face aquecer, lentamente. No começo se perguntou várias vezes, mas esse detalhe simplesmente passou depois de algumas visitas. Não se importava mais – Nunca quis saber meu nome ou o porque lhe pedi para me chamar de “mamãe”? Nunca se perguntou porque a pessoa que decidiria sua vida chamava Evelyn?
Ela abaixou o rosto, encarando o chão e um pouco das pernas da senhora. Estava envergonhada, pois já se habituara de que ninguém a ajudava. Ninguém esclarecia suas dúvidas. Então, quando a resposta era muito difícil, ela simplesmente a esquecia, nunca ninguém se importava se ela sabia ou não.
— E-eu já... já estou acostumada. N-não precisa me contar nada se não quiser, senhora. Não precisa se incomodar. - gaguejara um pouco, temerosa. Qualquer coisa relacionada ao tema “Evelyn” era aterrorizante.
— Incomodar...? - seus olhos abaixaram um pouco, com ar pensativo, meio triste ainda. - Incomodar... - sua voz repetira, enquanto a mão que recostava em sua face deslizava, afastando-se. Recolhera seus braços para junto do corpo, como suas pernas também, encolhendo-se próximo da cama, fazendo Granger observá-la intrigada – Por isso não entendeu... porque pedi para me chamar de mamãe... você não sabe o que é ter uma mãe. - sua voz era baixa, entristecida, conformada. Falava aquela frase para si mesma, mas não podia deixá-la acreditar nisso. É claro que ela sabia! Ela tinha descoberto!
— E-e-eu se-sei sim, senhora! - gaguejara por algum motivo.
Aproximou-se, ajoelhando ao lado dela, sentindo-a estremecer e rejeitando-a. O que tinha feito de errado? Não! De todas as pessoas, ela não podia rejeitá-la. Todas as pessoas, menos ela.
— Não, Hermione, você não sabe. - seus olhos voltaram-se para ela, ainda vazios, as marcas de suas lágrimas ainda em seu rosto – O seu nascimento foi o porque de ser obrigada a sair. O seu nascimento foi o porque de querer ficar. E você é o motivo de estar aqui novamente. - viu as lágrimas de seus olhos formando-se novamente, enquanto erguia uma das mãos até o rosto infantil – Eu lhe dei seu nome e sobrenome. Eu lhe dei a vida, mas não pude fazer o mais importante que toda mãe deve fazer. Acompanhar seu crescimento. - ela fez uma pausa, parecendo sentir dor, abaixando os olhos. Ela respirou fundo, antes de continuar. - Por isso eu pedi para me chamar de mamãe. Porque é isso que eu sou. Eu sou a mulher que chama Evelyn, quem decidiria sua vida. Porque fui quem lhe dei a vida e eles acham que eu decido se devo tirá-la.
Não sabia definir o que sentia. Parte de seu corpo queria fugir, temendo-a desesperadamente e imediatamente afastou-se, por instinto, e quando a mão dela deixou de tocar seu rosto, foi como se estivesse a cair num abismo sem fundo. O abismo em que ela tinha saído quando a conhecera agora se abria novamente. Temia se aproximar da pessoa que julgaria sua vida, mas era como abandonar a única pessoa que tinha realizado e continuava a realizar todos os seus sonhos.
— Por favor... – sussurrou, enquanto mantinha sua mão ainda erguida no ar, tentando se aproxima, apenas fazendo-a se encolher com mais medo.
Ela a observava tão desamparada, enquanto retraía sua mão erguida no ar com a rejeição. Abaixava os olhos, tristemente, enquanto encolhia-se no próprio canto. E foi ao observa-la daquela forma que se deu conta o quão irracional estava sendo.
De como era dependente dela, como doara sua vida exclusivamente para ela. Acordava de manhã, pensando nela e adormecia, para sonhar com ela. Entendeu que aquela revelação não tinha mudado nada em sua vida. Ela já era dona de sua vida, antes de saber aquela verdade.
Seus músculos relaxaram. Foi se aproximando dela lentamente, enquanto esta continuava encolhida e a chorar recostada na cama, com as mãos sobre o rosto.
Recostara a cabeça em seu colo, fazendo-a, num ato automático, afastá-las do corpo, para deixar que deitasse ali. Quando observou sua face, da onde ela retirava lentamente as mãos, um pouco confusa, sorriu.
Sua voz saíra calma e serena, enquanto fechava os olhos.
- Então, o senhor Lúcio estava certo. Uma mulher chamada Evelyn decidiria minha vida. - Nesse momento ela sorrira, abrindo novamente os olhos, sentindo o pequeno estremecimento do corpo dela. Sua voz serena parecia fazê-la somente começar a entrar em choro novamente – Por favor, só peço um único desejo... que, o que decidir para mim, deixe-me continuar ao seu lado. Faça o que quiser comigo, mas não me deixe longe de você. - suas mãos foram até a blusa dela, calmamente, fechando, sentindo o pano entre seus dedos. Seus olhos fizeram o mesmo, fechando-se, sentindo o rosto roçar na blusa.
Não houve palavras. Sentiu uma de suas mãos, ainda úmidas, passar por seus cabelos, penteando-os com delicadeza. O medo havia ido embora e sentiu seu coração leve. Entregaria sua vida por ela, pois não suportaria viver sem o seu carinho, sua atenção, seu afeto, seu sorriso... precisava dela, como o ar que respirava.
- Eu te amo tanto, Hermione... - ela sussurrava, enquanto sua mão continuava a acariciar seus cabelos. Sua voz parecia mais calma.
- Eu também... mamãe. Eu também... - ela repetiu, suspirando e relaxando finalmente, quase adormecendo em seu colo.