Capítulo Seis - Jantar
- Hermione? Acorde, eu sei que você está me ouvindo. Por favor, acorde.
Harry, meu melhor amigo.
Abri os olhos, acostumando-me rapidamente com a penumbra. Os olhos verdes que eu tanto amava me encararam preocupados.
- Como você se sente, minha linda? – ele perguntou todo preocupado. Mas aquelas íris verdes transpareciam mais alguma coisa...
- Acho... acho que estou bem, Harry. O que aconteceu? Por que eu estou aqui?
- Você não se lembra? – eu acenei negativamente com a cabeça e ele continuou. Pude notar a raiva que tomou conta da sua expressão. – Você foi violentada, Hermione.
Lembrei de tudo, como se uma lâmpada houvesse sido acesa dentro da minha mente. Ronald, meu próprio marido, fizera aquilo.
- Eu não estou grávida, certo? – perguntei temerosa.
- Por sorte, não. Herms, juro que quando eu pegar esse filho da puta, eu vou mandá-lo para onde Voldemort foi, juro por Merlin!
Ele não sabia que fora Ronald. Ele não deveria saber.
- Você lembra de alguma coisa, Herms? Se for demais para você, não precisa me falar. – ele disse, ao pegar na minha mão e acariciá-la lentamente.
- Harry, eu só lembro de desmaiar assim que consegui realizar o patrono, desculpe... Alguém mais sabe que eu estou aqui? – Não queria um escândalo sobre isso. Se Harry descobrisse que fora Ronald, as vidas deles estariam arruinadas.
- Só a Ginny sabe. Tive que sair no meio da noite, assim que soube da sua entrada aqui. Não sabia que eu era seu contato para emergências... Não consegui localizar Ron. – ele disse, como se estivesse se desculpando de alguma coisa. Mal sabia ele que Ronald era a última pessoa que eu queria ver nesse mundo.
- Quantas horas se passaram desde a minha entrada aqui, Harry?
- São dez horas da manhã agora, Mi. Você deu entrada às duas da manhã.
Legal. Pelo código do hospital, vítimas de estupro deveriam ficar sob vigilância durante doze horas após a entrada. Iria me atrasar para cuidar de Scorpius.
- Por que, Hermione, o seu interesse súbito no horário?
- Ah, Harry... Aconteceu tanta coisa que você não sabe... – e contei tudo desde o meu encontro estranho com Snape até o pedido para cuidar de Scorpius. Harry pareceu não ter gostado da notícia. E tampouco pareceu surpreso com o fato de Snape estar vivo.
- Você está trabalhando para Malfoy? – ele perguntou, desconfiado.
- Tecnicamente, eu estou ajudando a olhar o filho dele enquanto ele se recupera da separação. Estou fazendo um favor para Snape até dezembro, quando ele vai ter que arranjar outra pessoa para cuidar do bebê.
- Mas Mione, você não sabe cuidar de crianças. Você não quer uma justamente por causa disso!
- Eu sei... Mas assim que eu olhei para o rosto de Cop, que é o apelido que eu dei para ele, eu me apaixonei. Aquele bebê é tão lindo... E eu sinto pena dele, por estar crescendo sem uma mãe por perto e sem um pai que preste atenção às suas necessidades.
- Bom, minha linda, você é que sabe. Se é somente durante as suas férias, então tudo bem. – Malfoy e Harry tinham um acordo silencioso. Não se xingavam e não se elogiavam. Fingiam somente serem velhos conhecidos e nada mais.
Estava prestes a interrogá-lo sobre Snape quando a porta da enfermaria foi aberta e a ruiva mais barriguda que eu já vira passou por ela. Ginny continuava linda e agora estava mais ainda com o seu segundo e terceiro filhos no ventre. Pude perceber como os olhos de Harry brilharam ao ver a esposa.
- Hermione, você quer me matar do coração? – acho que estou começando a perceber como nós, grifinórios, somos dramáticos. – Primeiro, ligam em casa no meio da madrugada, segundo, Harry sai de casa aparantando quase sem conseguir vestir direito as calças e terceiro, você está aqui conversando com o paspalho do meu marido, como se nada houvesse acontecido?
- Calma, Ginny. Os seus filhos não vão gostar da agitação. - ela se sentou onde Harry estava. – Vá comprar alguma comida decente para a sua queridinha que quase morre do coração, marido.
Harry riu para mim como se pensasse “Ai, como eu amo essa mulher, mas um dia ela me mata....” e deixou o quarto correndo para realizar as vontades de sua amada.
- Conte-me e não esconda nada de mim, Hermione. Os meus sentidos de grávida estão aguçados e qualquer mentira será detectada. – ela disse, desafiando-me com seus olhos cor de mel.
- Eu fui violentada, Ginny. – ela olhou bem fundo nos meus olhos e percebeu o que eu não havia contado para Harry.
- Foi o meu irmão, não foi? Ele passou em casa assim que Harry aparatou. Parecia bêbado demais para falar coisa com coisa, mas eu percebi o que ele estava tentando dizer com “fiz uma besteira”. Ele é um imbecil. Há quanto tempo isso vem acontecendo, digo, ele ficar bêbado que nem um gambá?
- Desde mês retrasado. Mas essa foi a primeira vez que ele me violentou. Eu lembro que ele lançou algum feitiço em mim e eu apaguei. Depois acordei toda dolorida e foi ai que eu chamei os médicos por meio de um patrono.
- Por que ele fez isso, Hermione?
- Ele quer um filho, Ginny. Mas eu não consigo ainda. Não tenho coragem para criar um filho no meio de um clima desses.
Ela pareceu entender muito mais do que eu disse com aquelas palavras. Era como se ela soubesse de algo, alguma coisa que me impedia de ter filhos normalmente, mas que nem eu sabia. Ou vai ver, era só a minha imaginação.
Harry voltou com um pacote de feijõezinhos de todos os sabores e ficamos comentando do sobre o meu novo “trabalho” na Mansão dos Malfoy. Assim que deram duas horas da tarde, pedi alta ao medibruxo responsável por mim e, com centenas de recomendações, pude sair daquele local vestindo uma roupa que Ginny trouxera. Segui direto para a Mansão Malfoy, direto para a razão do meu patrono.
Aquele havia sido mais um dia de alegria do lado de Cop. Seu sorrisinho de bebê me alegrava de formas que eu não sabia que podiam existir, como se ele pudesse ser tudo o que eu queria na minha vida. Eu o tratava como se fosse o meu próprio filho e quando a noite chegou, senti vontade de ficar ali com ele.
Assim que Cop pegou no sono, desci as escadas quase me arrastando pelo caminho. Encontrei Malfoy no mesmo lugar em que eu o encontrara no dia anterior.
- Você chegou mais tarde hoje, Granger. Não pareceu para o café.
- É... Tive complicações. – ele se virou para mim e eu pude perceber que passara o dia inteiro querendo olhar dentro dos olhos dele. O que estava acontecendo comigo? Efeito dos remédios, pensei, enquanto a imagem do hospital se formava em minha mente. Até que eu quebrei o contato visual.
- Malfoy! Não lhe dei permissão para entrar na minha mente. – eu disse brava. Ele não poderia saber o que tinha acontecido.
- O que aconteceu com você, Granger? Brigou com o idiota do seu maridinho? – ele perturbou, provavelmente chutando a causa. E acertando. Virei o rosto e caminhei para a porta, até que ele segurou o meu braço machucado.
- Ai! Não me toque! – afastei-me rapidamente, mas ele conseguiu ver o corte que voltara a sangrar no meu braço.
- Granger! Desculpe-me... – Malfoy pegou a varinha e tentou cicatrizar novamente a ferida, o que não deu certo. Meu organismo ainda estava fraco para fechar-se por meio de feitiços, como o medibruxo havia me explicado.
- Não vai funcionar. Pegue o bálsamo dentro da minha bolsa. – Ele passou uma boa porção em cima do ferimento, que foi aos poucos fechando.
- Seu marido lhe fez isso? – ele me perguntou, com raiva faiscando em seus olhos. Perguntei-me porque ele estaria reagindo desse jeito, afinal, o pai dele maltratara tantas mulheres no passado e nem por isso ele queria matar o Malfoy pai.
- Isso não lhe diz respeito, Malfoy. Agora, eu tenho que voltar para casa.
- Você vai voltar para ele lhe fazer isso de novo? Hoje, você não sai daqui, Granger. – e ativou as travas de segurança mágicas da Mansão.
Ótimo. Presa com Malfoy a mando dele. Era tudo o que eu precisava.
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- Malfoy, pare com isso e me deixe sair daqui. – eu falei, com um tom de alerta na minha voz. Ele ainda se lembrava do soco que eu havia dado em seu nariz perfeito no terceiro ano. – Destrave essa droga de porta.
- Você não vai voltar para a sua casa junto com o seu maridinho de meia-tigela hoje, Sangue-Ruim. E nem tente escapar... – ele falou com um tom animado, quando ameacei partir para cima da porta. – Ela te dará um choque e você cairá desmaiada por até dez horas. Por experiência própria, eu a aconselho a não tentar. Papai era um tanto controlador quando queria... Você pode dormir no quarto de hóspedes que fica na frente do quarto de Scorpius. Tome um banho lá e desça para o jantar. Aposto que nem almoçou hoje.
- Vá se ferrar, Malfoy. Deixe-me sair AGORA. – ele estava testando os meus limites de paciência.
- Granger, faça o que eu te aconselho. Por favor. É tanto sacrifício assim dormir sob o mesmo teto que eu? Sei que eu sou lindo e gostoso e que quase todas as mulheres do mundo bruxo querem dormir comigo, mas seria tão difícil assim para você se submeter a ficar perto de mim por uma só noite?
Ele finalizou seu discursinho com a sua melhor cara de garanhão. Eu estava totalmente enganada sobre ele. Ele não estava deprimido com a sua separação, tampouco com a retirada da alma de seus pais. Malfoy sempre seria aquele tipo de pessoa, preocupado somente com ele mesmo.
- Malfoy, você não me quer aqui e eu não quero ficar aqui. Se você acha que acontecerá a mesma coisa que aconteceu hoje e que eu me atrasarei para cuidar de Scorpius, pode ficar despreocupado. Mesmo porque se eu for atrasar, irei avisar de antemão. Fique tranqüilo. Agora, me deixe sair daqui.
- Não.
E então, ele simplesmente virou as costas e seguiu para o andar superior.
- Sugiro que peça a algum dos elfos para conseguir-lhe uma muda de roupa limpa. Vejo-te no jantar, Granger, daqui uma hora.
Suspirei com raiva. Se ele achava que poderia me tratar assim, ele estava muito enganado. Fui até a porta e tentei quase todos os feitiços de desarmamento que conhecia. Até uma contra armadilhas testei. A única coisa que eu consegui foi diminuir o efeito do sistema de nocaute. De dez horas, diminui para dez minutos. Nem preciso dizer como consegui estimar o tempo.
Subi a escadaria, afundando meus pés com tanta força em cada degrau que eles ficaram doloridos após algum tempo. Abri a porta do quarto para me deparar com a decoração mais esquisita do que de todos os outros cômodos que eu havia conhecido (o que cobria uma área constituída pela cozinha, sala de estar, sala de brinquedos de Scorpius, quarto de Scorpius e o saguão de entrada). O quarto era todo em dourado e tinha detalhes em vermelho, o contrário do que acontecera com o meu quarto de monitora chefe em Hogwarts. O fato de ter um quarto com as cores da Grifinória naquela casa me assustou, e muito. Pelo que eu sabia, a família Malfoy nunca tivera um integrante da Grifinória.
Caminhei até o meio do quarto e reparei o grande espelho redondo que cobria a maioria do teto. Ele tinha a moldura em dourado e pelo brilho, desconfiei que talvez fosse ouro puro. A cama gigante com dosséis e tecidos na cor dourada e vermelha chamou a minha atenção imediatamente. Aquele quarto tinha uma aura de romantismo, mas ainda faltava alguma coisa para que ela se completasse. Talvez um casal se amando na cama... Quando eu pensei para quê que aquele quarto poderia ter sido usado na época dos comensais, quase vomitei no tapete vermelho aos meus pés.
Chamei a elfa que eu mais conhecia dali, a Galatéia, e ela prometeu trazer roupas para o jantar e um pijama. Ela me forneceu alguns produtos para a minha higiene, de algumas fragrâncias específicas que eu adorava. Fui para o banheiro e decidi experimentar a enorme banheira de mármore negro, parecidas com as que tinham em Hogwarts. Pus a loção com cheiro (e gosto) de baunilha e fiquei imersa na água quente (e saborosa) durante meia hora. Saí de lá quase sem raiva de Malfoy. Se ele me manteria mesmo presa lá, por que eu não deveria aproveitar cada segundo dos luxos?
Tomei um susto ao olhar no espelho após ter vestido o traje que Galatéia havia me trazido. A lingerie de renda era totalmente preta e sensual, o que combinava com o vestido curto de mangas na cor negra que moldava o meu corpo e as sandálias com brilhantes nas tiras. Quase a chamei de novo para pedir outro tipo de vestimenta, mas eu desconfiava que ela não apareceria de jeito nenhum. Passei uma leve maquiagem ao redor dos olhos, para não parecer tão pálida e quando senti o meu estômago reclamar por comida, deixei o quarto.
Antes de descer para o salão de jantar, certifiquei-me se Cop continuava nos seus sonhos gostosos de bebê e quase perdi a vontade de comer para ficar observando. Ele estava com um dedo na boca e parecia estar dormindo em cima de uma nuvem tão macia...
- Concordo que meu filho é a coisa mais linda do mundo, mas não creio que seja tão lindo a ponto de você se esquecer de comer. – Malfoy falou às minhas costas. Tomei um susto, porém continuei a velar o sono de Scorpius. – Vem, Granger. Ainda não consegui te ver direito nessa escuridão...
Ele me puxou até o corredor e fechou a porta quase sem nenhum ruído. Malfoy olhou para o meu corpo, examinando-me de cima a baixo pela claridade do lustre acima das nossas cabeças.
- Até que você não está tão mal, Granger. – arregalei meus olhos, ultrajada. – Venha. A comida nos espera.
Notei como ele próprio estava vestido, com o máximo de elegância em um terno preto e gravata borboleta. Seus sapatos eram tão lustrados que eu podia ver tudo o que havia no teto do corredor. Seu cabelo platinado estava penteado para trás, como ele sempre deixava. Tudo para representar o mais puro e único dos homens, além de mais rico também.
Malfoy me puxou até o salão, o qual uma única mesa longa de mogno ocupava. Havia um lindo e majestoso vaso de cristal com rosas vermelhas no meio da mesa. Malfoy me puxou até o lado que tinha pratos dourados e sentou-me em uma cadeira ao lado da dele. Serviu-me vinho branco e tirou a tampa do meu prato, revelando salmão com alcaparras.
- Pesquisei ao que você teria alergias. Não havia nada para salmão... Espero que goste. – e se sentou ao meu lado. Seu prato parecia ser composto de folhas verdes e uma massa, também verde. – Posso lhe pedir um pedaço?
Eu me segurei para não rir, mas não agüentei.
- Você me pedindo um pedaço do meu peixe? Está querendo o que comigo, Malfoy?
- Só ter um jantar tranqüilo... – Olhei para o seu rosto fino fixamente e ele continuou – Quero lhe agradecer, Granger. Sua ajuda está sendo muito apreciada. Obrigado.
- De nada, Malfoy. – eu respondi, surpresa com a sua educação. Aquele homem estava me deixando muito confusa. E aquelas borboletas estúpidas em meu estômago reagiam a cada fala dele. – Você não precisa agradecer. Cuidar de Scorpius está sendo muito bom para mim.
- Por que você não teve filhos?
- Não quis. – respondi, sem querer aprofundar o assunto. Pena que eu estava conversando com Malfoy.
- Por quê?
- Deixa isso pra lá, Malfoy.
- Me diga, por favor.
- Ron não estava preparado. – menti. Ele não era o problema todo, pensei.
- Mentira.
- Não entre na minha mente!
- Não entrei. – ele olhou bem fundo nos meus olhos e afirmou. – Seus olhos dizem que você está mentindo. Weasley quer filhos, e isso foi o principal motivo da briga de ontem, outra coisa que seus olhos dizem.
- Deixe de brincadeiras.
- Não estou brincando e você sabe que eu não estou. Vocês tiveram uma briga feia ontem, pelo que a vizinha de baixo comentou. Vidros quebrando, alguma coisa pesada caindo diversas vezes no chão, porém, um único grito preenchia o som. Gritos masculinos. O que ele fez, Granger?
- Nada! Ele não fez nada! Pare com isso! Não finja que você se preocupa comigo, Malfoy. Isso só te torna pior do que você realmente é! – Levantei da mesa rapidamente e corri escada acima, para a segurança do quarto de hóspedes. Abracei-me ao travesseiro e comecei a chorar. Chorei todo o ódio que me consumia cada vez que eu lembrava as acusações que Ronald jogara na minha cara, todos os tapas e socos que ele me dera quando eu estava desacordada, todas as vezes que ele se impulsionara para dentro de mim sem a minha vontade. Chorava tanto que nem escutei quando Malfoy entrou no quarto e se sentou perto de mim.
- Granger... Não fique assim. – ele tocou na minha mão com cautela e, vendo que eu não me opunha ao consolo, esfregou meu braço gelado.
- Você não entende! Você nunca vai entender! Nunca vai entender o que é ser violentada pela pessoa em que você mais confia, que gosta de você e que você prometeu passar o resto dos seus dias ao lado. Eu fui traída, usada e julgada por um cara que chega em casa bêbado todos os finais de semana fedendo a perfume barato de prostitutas. Sabe o quão frustrante é ter que manter um casamento de aparências no qual a pessoa que mais sai machucada é você?
Malfoy chegou mais perto do meu corpo deitado e me abraçou pelas costas, me dando conforto e proteção, como se ele quisesse compartilhar comigo toda a dor que eu estava sentindo. Tentei me afastar, mostrando-lhe que não era preciso, mas ele me apertou mais em seus braços. Lutei contra ele, até que desisti e deixei que ele me confortasse, até que eu senti que estava bem o bastante para lhe contar o que estava acontecendo.
- Ronald pede um filho toda vez que chega em casa, mas eu não quero dar filhos para um cara que bebe toda semana. Eu não quero constituir uma família desse porte com alguém que não liga a mínima para mim. Ele consegue ser tão egoísta e insensível... Eu cheguei em casa ontem para fazer um jantar para ele, para que ele me desculpasse pela minha recusa em ter filhos. Não gosto de ficar brava com ele porque eu acabo me sentindo mal. Nós acabamos discutindo de novo e ele lançou um feitiço em mim. Desmaiei e ele pôde fazer o que ele quis comigo. Quando eu acordei, ele não estava mais em casa. Assim que eu percebi o que tinha acontecido, chamei os médicos e acabei sendo levada para o St. Mungus. Por isso eu me atrasei hoje, eles só me liberaram depois das duas da tarde. – finalizei, esperando que Malfoy me soltasse. Contudo, ele me abraçou ainda mais forte e deitou-se ao meu lado na cama gigante.
- Desculpe por ter te pressionado, Granger. Eu sei que você está deprimida. Desculpe. Você quer voltar a comer?
- Não. – Seria muito estranho se eu pedisse que ele continuasse a me segurar daquele jeito?
- Você não vai fazer nada contra ele? Ele cometeu um crime...
- Não. Se eu fizesse isso, a vida dele e da sua família toda iria acabar. Não posso fazer isso com os Weasley e nem com Harry e Ginny... Eles ficariam decepcionados. Ronald não parecia estar em suas condições normais até...
- Você não acha que ele pode fazer isso de novo? Você me disse que ele chega todo final de semana bêbado e uma pessoa dessas pode ser muito perigosa...
- Acho que ele não se atreveria a fazer isso.
- Eu não quero que você se sujeite a probabilidades, Granger.
Virei-me para olhar em seus olhos e ele parecia estar falando sério. Muito sério. Como se fosse capaz de me impedir de voltar para casa à força.
- Eu não posso perder uma babá tão boa para Scorpius. – ele falou, desviando os olhos cinzas.
- Malfoy! – dei um tapinha em sua lapela do terno todo amarrotado e sorri fracamente com a piada.
- Uma babá tão boa e linda... – ele sussurrou, olhando para a minha boca.
- Ora, ora, ora... Draco Malfoy, o Sangue Puro, está tentando flertar com Hermione Granger, a Sangue-Ruim? – brinquei, mas nem eu consegui desviar os meus olhos da boca dele. A minha fala pareceu acordá-lo do transe.
- Bom, já que você não quer continuar o jantar e nem experimentar a fantástica Torta Holandesa que eu mandei preparar, vou-me embora. – ele se separou de mim e levantou-se.
- Espera ai, Torta Holandesa? Por que você não me disse antes? Com licença! – passei por ele, parado na porta do quarto, e disparei de volta para o salão. Pena que ele me alcançou antes que eu pudesse terminar de descer as escadas.
- Ganheeei! Vou ficar com metade da torta! – ele sorriu vitorioso, enquanto se gabava sobre o quanto ele iria comer.
Talvez Malfoy fosse mais divertido do que eu pensava. E mais criança também.
Ou talvez minha cabeça estivesse confusa, depois de tudo. O bom foi que aquela brincadeira infantil desviou a minha atenção.