Fazia muitos anos desde a última vez que Velerie tinha visto o esplendor do Salão Principal de Hogwarts, mas as memórias dos milhares de velas que flutuavam sozinhas e do teto encantado que revelava o tempo lá fora permaneciam; aquela aura mágica jamais sairia de sua mente.
Viu quando a professora Minerva McGonagall trouxe a fila de primeiranistas para frente da grande mesa onde os professores e funcionários se sentavam. Reconheceu Harry ali, logo a frente de uma cabeça que, a julgar pelos cabelos ruivos, devia pertencer ao Clã Weasley – eram boa gente os Weasley, Velerie fez uma nota mental de procurá-los assim que pudesse. Todos os primeiranistas pareciam nervosos, mas era sempre assim. Ela podia recordar da sua seleção.
O pai dela, Finn Moon, tinha sido da Corvinal e tinha certeza absoluta de que era pra lá que ela iria. Já a mãe, Morgana, não havia frequentado Hogwarts – como poderia? - e torcia apenas para que ela fizesse bons amigos, não importando em que casa fosse parar. Velerie fora escolhida para ser Grifinória, e não poderia jamais se sentir triste por isso, pois fora ali que fizera as amizades mais duradouras de sua vida. Como teria sido se não conhecesse Remo, Sirius ou Tiago? Ou ainda, como teria sido se não conhecesse Lilly Evans?! Sua vida tinha sido inteiramente decidida por causa daquela ligação... Encarou o prato vazio a frente, lembrando-se das primeiras impressões que tinha tido de Hogwarts.
A pequena Velerie Moon não conhecia ninguém na escola e se sentia tão só. Fora escolhida para ser Grifinória, e não Corvinal, como seu pai esperava. Se pudesse, correria agora mesmo para o corujal e escreveria uma carta para os pais, mas não tinha permissão de sair do dormitório naquele horário – e não queria parecer fraca. Abraçou os joelhos magros e pôs-se a chorar baixinho, com medo de que acordasse algumas das garotas que já dormiam. Eram sortudas, a maioria delas, pois tinham alguns amigos e até irmãos mais velhos no castelo.
- Você tá legal?! – Ouviu uma vozinha fina perguntar.
- Aham... – Respondeu-lhe, chorosa.
O dossel de sua cama foi aberto e ela encarou os olhos mais verdes que já vira em toda a vida.
- Meu nome é Líllian... Líllian Evans. Meus pais são trouxas... – A menina ruiva sentou-se na sua cama e enxugou suas lágrimas. – Não chore, também não sei quase nada de Hogwarts. – Ela parecia saber o que havia de errado com Velerie, sem precisar que a menina lhe contasse.
- Meu nome é Velerie, Velerie Moon. – Ela estendeu-lhe a mão, um pouco mais calma. – Meu pai é bruxo, minha mãe não... Mas ele era da Corvinal, então não sei nada sobre Grifinória. E ele nunca me contou muitas coisas sobre a escola, porque ele e minha mãe não tinham certeza se eu seria chamada ou não... Não conheço ninguém daqui... – A vontade de chorar recomeçava.
- Vel... Posso chamar você de Vel, não posso? – Mas ela continuou sem esperar resposta. – Você pode me chamar de Lilly. – Ela sorriu largamente. - Também não conheço quase ninguém no castelo. A única pessoa que eu conheço é o Severo, mas ele foi escolhido pra ser Sonserino... – Pela primeira vez na conversa, a voz da pequena Lilly vacilou. – Eu posso apresentar vocês. Talvez ele seja meio grosso no começo, mas ele não é mal. Faz isso por proteção, as pessoas não costumam gostar muito dele, sabe...
- Você tem certeza Lilly?! Não quero ser intrometida, ou algo assim...
- Claro que tenho! Ele adora explicar coisas sobre magia, e assim que perceber que você é uma pessoa legal, vai te tratar tão bem como me trata... Espere para ver! – A mãozinha de Lilly apertou a sua, delicada, e ela sorriu. Naquela noite, as duas dormiram abraçadas, como se fossem irmãs e tivessem feito aquilo a vida inteira.
Velerie despertou do seu pequeno devaneio quando ouviu o nome de Harry ser pronunciado, o observou sentar-se sobre o banquinho e não ficou nada surpresa quando o chapéu seletor gritou para o salão que ele era da Grifinória. Como poderia pertencer a outra casa, sendo seu pai e sua mãe excelente Grifinórios?!
Assim que a seleção terminou, Dumbledore deu as boas-vindas aos alunos e as mesas se encheram de comida. Ela sorriu, de repente esfomeada, e se serviu de pudim de carne e rosbife. Enquanto comia, procurava por mais rostos conhecidos na mesa; ficou muito feliz quando viu o guarda-caça, Hagrid, no extremo esquerdo. Ele era um homem gigantesco, mas a despeito de seu enorme tamanho, era extremamente bondoso e gentil. Obviamente, conhecia também Madame Pomfrey, com quem trabalharia a partir daquele dia, e a professora Minerva. Não sabia quem era o jovem com expressão assustada que usava um enorme turbante em volta da cabeça, mas decidiu que por alguma razão, não gostava dele. Entretanto, nenhum rosto causou-lhe maior surpresa do que o rosto de Severo Snape.
- Severo?! – Lilly o encontrou no corredor de Poções, antes da aula dupla que teriam com Sonserina. – Quero apresentar-lhe uma pessoa... Essa é Velerie Moon.
O garoto, cujos cabelos eram negros e batiam no ombro, olhou-a de cima a baixo, com certo desdém.
- Quem? – Ele perguntou.
- Velerie Moon! – Lilly respondeu, a contragosto. – Ela é minha amiga, é da Grifinória e não sabe nada sobre Hogwarts. Porque você não explica pra ela as coisas que me explicou, antes de virmos para cá?
Snape pensou por um segundo, observando a garota a sua frente; uma coisa que ele pareceu gostar foi o cabelo dela, que era tão negro quanto o seu, e talvez até mais longo. Não fazia seu gênero se preocupar com os outros, muito menos com cabeças-ocas que não sabiam nada sobre Hogwarts antes de entrar na escola - Lilly era uma exceção, claro, sendo seus pais quem eram. Mas decidiu que, sendo Lilly quem lhe pedia, e tendo a oportunidade de mostrar-se mais uma vez tão inteligente para a idade, aceitaria.
- Tudo bem, eu posso ajudar...
- Obrigada Severo. – Era a primeira vez que ele ouvia a voz de Velerie, e achou que era uma voz muito bonita, apesar de parecer assustada. – Eu sabia que você não podia ser de todo mau...
- Você não me conhece, certo. Não precisa fingir que conhece. – Ele a cortou no meio da fala, apesar de sentir um enorme deleite por causa daquela menina que agia como se o conhecesse desde sempre.
- Severo! Não fale assim com a Vel!
- Vel?! É esse o seu apelido? – Ele parecia se divertir muito com o apelido que Lilly havia dado para a garota.
- É sim... Sev. – Velerie devolveu a brincadeira no mesmo tom irônico. – Algum problema?
- Não... Vel. Nenhum problema.
Na verdade, era a primeira vez que Severo encontrava alguém que pudesse devolver suas brincadeiras daquele jeito, sem parecer intimidada. Lilly nunca dava o braço a torcer também, mas de alguma forma era diferente, porque ele sabia que por dentro ela era atingida pelo seu sarcasmo. Entretanto, não foi assim que aconteceu com Velerie, e ele ficou se perguntando por que motivo.
- Vamos Sev, Lilly... Não devemos nos atrasar para as aulas! – Velerie pegou cada um dos amigos com uma mão e saiu arrastando os dois pelo corredor, até entrarem na sala.
Uma coisa muito estranha aconteceu enquanto Velerie observava Snape a distância. Ela viu, com toda a clareza, quando o olhar do professor se cruzou com os olhos de Potter – os mesmos olhos incrivelmente verdes de Lilly – e percebeu o enorme ressentimento e ódio que ele parecia emanar daqueles olhos negros e profundos. Algo definitivamente não estava correto, e antes que aquele dia terminasse, ela precisava descobrir o quê. Além disso, não tinha se despedido adequadamente do velho amigo na última vez que se viram, dado os terríveis acontecimentos, e não poderia deixar as coisas mal resolvidas daquele jeito. Assim que acabasse o banquete, e os alunos estivessem recolhidos, decidiu que o procuraria no castelo para que conversassem e colocassem as coisas nos devidos lugares.
Os pensamentos dela foram interrompidos mais uma vez por Dumbledore, que dessa vez proferia os típicos avisos do começo de aulas. Falou sobre a proibição de circular na floresta nos limites da escola e de fazer mágicas nos corredores durante os intervalos das aulas. Avisou os alunos sobre os testes de quadribol e, o que Velerie achou muito incomum, os proibiu de circular pelo lado direito do corredor do terceiro andar – a menos que procurassem “uma morte muito dolorosa”, nas suas próprias palavras.
- E, antes que todos possamos nos retirar e dormir, eu gostaria que dessem as boas-vindas e uma salva de palmas para duas pessoas novas na escola! O Prof. Quirrel aqui ao lado, que os ensinará a combater a Arte das Trevas... – Dumbledore fez uma pausa para que pudessem aplaudir Quirrel, que quase derrubou o turbante enquanto retribuía as boas-vindas com uma mesura exagerada. – E Velerie Moon, que um dia estudou em Hogwarts e hoje volta como medibruxa, auxiliando Madame Pomfrey na ala hospitalar!
Velerie levantou-se da mesa, e acenou graciosamente para os alunos, enquanto alguns aplaudiam e outros assoviavam.
- Nossa, Fred, olha aquela mulher! Quantos anos você acha que ela tem? Uns vinte?! – Rony Weasley perguntava ao irmão na mesa da Grifinória.
- É claro que ela não pode ter vinte anos, seu desmiolado. – Hermione Granger o cortou. – Como você acha que Dumbledore poderia contratar uma pessoa tão jovem para ser Medibruxa?! É preciso muita competência e anos de experiência pra ser admitida num cargo desses...
- Tanto faz sua sabe-tudo. – O garoto resmungou.
- Mas isso é estranho, de qualquer forma... – Hermione agora falava sozinha. – Talvez ela use algum tipo de poção rejuvenescedora... Nada que eu não possa descobrir com umas idas à biblioteca!
Velerie ficou um pouco sem graça com a reação de alguns alunos. Os mais sagazes e mais velhos perceberam que ela parecia muito jovem para ocupar um cargo como aquele. Por essa razão não queria que Dumbledore a apresentasse em público, não queria levantar suspeitas. Mas Dumbledore nunca errava e por isso ela tratou de se acalmar, pensando que era melhor seguir os conselhos do diretor. Tornou-se a sentar-se e procurou mais uma vez o rosto de Severo Snape na mesa dos professores; qual não foi sua surpresa quando o encontrou não olhando odioso para Potter, mas sim em choque olhando para ela própria?!
- Oi... – Ela disse, sem emitir som e apenas mexendo os lábios. Mas ele não respondeu. Simplesmente virou o rosto e não voltou a olhar para ela durante o banquete.
*****
Velerie esperou até que todos terminassem o hino de Hogwarts, o que foi um grande tormento, tendo em conta que os gêmeos Weasley levaram quase a noite inteira em ritmo de marcha fúnebre. Viu todos os alunos retirarem-se do grande Salão, em direção as suas salas comunais e aos dormitórios. Viu quando Snape saiu da mesa dos professores, com uma mesura para Dumbledore, e saiu do Salão, com suas vestes negras esvoaçantes. O jeito que ele andava ainda era o mesmo da juventude dos dois, extremamente solene, mas cheio de personalidade. “Bom, exatamente como o próprio Sev”, ela pensou consigo mesma.
Tentou escapulir dos velhos professores que haviam lhe ensinado e ainda estavam em Hogwarts, mas não conseguiu. Teve que inventar uma história sobre como esteve ocupada esses dez anos no exterior, estudando as sociedades bruxas e trouxas ao redor do mundo. Ninguém, além de Dumbledore e talvez Severo, que era extremamente fiel ao diretor, deveria saber da verdade sobre sua ausência do mundo bruxo. Parou a Profa. Minerva no pé da escada e, como quem não queria nada, perguntou onde eram os aposentos de Severo.
- Ah, Vel, minha querida. Antes de qualquer coisa, você deveria saber... – Minerva respondeu-lhe, sem conseguir, entretanto, esconder sua curiosidade sobre o motivo daquela pergunta. – Que é muito bom ter você de volta em Hogwarts. E o Prof. Snape, naturalmente, encontra-se nas masmorras, onde ensina Poções e insiste em viver. Não sei como consegue, naquele lugar tão abafado e frio...
- Ah, Profa. Minerva, ambas sabemos que nenhum lugar estaria mais adequado à personalidade dele, não é verdade?
- Bom, sim, acho que devo admitir que você está com a razão. – Ela disse-lhe, relutante.
- Nesse caso, professora, tenha uma ótima noite e nos vemos amanhã, no café, não?
E antes que Minerva pudesse fazer-lhe mais perguntas sobre os bruxos espanhóis ou trouxas escoceses – pelos quais parecia nutrir um profundo interesse- Velerie tomou o caminho rumo às frias masmorras de Hogwarts.