Harry dormia um sono agitado em seu colchonete. Hermione estava de pé, observando-o. Há dois dias haviam montado acampamento naquela clareira no meio da floresta. Hermione nem sabia que aquele lugar existia. Muito menos que fazia parte da cidade de Londres. Precisava anotar em seu diário, para no futuro, quando o mundo estivesse em paz, vir com seus amigos e familiares, e realizar uma caminhada nas montanhas e acampar. Seria um passeio adorável.
Esse pensamento amargou seu coração e ela afastou-se, depois de cobrir Harry e fazer um carinho em sua testa úmida. Voldemort não possuía mais o poder de entrar em sua mente, mas as vezes, mesmo sem querer, Harry entrava na mente daquele monstro e via através de seus olhos, todos os horrores a que ele se propunha vivenciar.
Apenada, Hermione afastou-se deixando Harry tentar descansar. Inquieta, Hermione andou em torno da barraca, redistribuindo feitiços de proteção. A cada hora ela fazia isso, numa atitude repetitiva, do seu subconsciente, que a obrigava a exteriorizar o medo e a preocupação.
-Hermione – ela ouviu a voz chamá-la e virou-se para olhar na direção de onde a voz viera.
Ron estava sentado perto da fogueira, o braço havia sido retirado da tipóia na tarde anterior. Ele estava curado do estrunchamento, porém, ela ainda era capaz de vê-lo ensangüentado, desacordado e sentir nas mãos o calor do sangue vermelho. Precisou lutar contra esse sentimento, e aproximou-se dele, sentando ao seu lado no chão, muito perto.
-Não é incrível? – ele perguntou com naturalidade. – Mais uma vez é Natal.
-Ainda não é Natal, Ron. Amanhã sim será Natal – ela corrigiu, mais pelo habito que pela necessidade.
-Sim, tem toda razão – ele sorriu, achando melhor não comentar que nunca mudaria e sempre o corrigiria. E ele gostava quando isso acontecia. Nesses momentos, Hermione lhe dedicava total atenção. E parecia também apreciar esses momentos que dividia apenas com ele. – Harry está tendo outro daqueles pesadelos? – ele perguntou baixo, não gostando a idéia de tornar aquele assunto algo verbalizado em voz muito alta.
-Sim, acho que sim – ela ficou triste – me pergunto se são memórias de Voldemort ou apenas pesadelos dos últimos horrores que passamos – ela foi sincera.
Ron engoliu em seco quando ela tocou seu braço, na altura do ombro, numa caricia que o queimou através da camiseta que usava.
-Passamos por poucas e boas, não é Hermione? Quem diria. – ele disse pesaroso.
Sem nem notar, ela deixou sua mão naquele ombro forte, massageando.
-O que quer dizer? – ficou curiosa.
-Os três desajeitados e deslocados de Hogwarts? Não é inacreditável que estejamos lutando para salvar o mundo bruxo, quando não éramos capazes de salvar a nós mesmos?
-Eu não sei o que dizer. Uma pessoa pode ter um destino grandioso independente de sua capacidade sociável. – ela sorriu – Crescemos, Ron. Graças a Merlin não sou mais dentuça. – ela tornou a sorrir.
-Não, não é – ele prestou atenção aos seus dentes, ou a sua boca. Mas o fato era que o clima entre eles pareceu esquentar um tanto.
-Ainda não somos o que deveríamos ser – ela afastou-se um pouco, tirando a mão de seu ombro, e olhou para as chamas. – Enquanto essa guerra não acabar não saberemos como seriamos de verdade. Que tipo de adultos nos tornaríamos.
-Eu discordo, sei exatamente como você será adulta – ele abriu seu mais bonito sorriso e Hermione quase esqueceu de ouvir o que ele dizia, contemplando seus lábios, seu sorriso, seus olhos profundamente azuis.
Acontecia muito isso desde que os dois foram forçados há passar tanto tempo juntos. Aqueles olhos azuis eram a primeira coisa que ela via pelas amanhãs e a ultima antes de dormir. E adormecida, em seus sonhos, aqueles olhos bailavam em seus pensamentos mais loucos e apaixonados.
-Será ainda mais autoritária, resmungona e exigente – ele começou a falar – e terá toda a razão para isso. Terá um cargo de sucesso, quem sabe Ministra da Magia! Terá uma família perfeita e harmoniosa.
Hermione franziu a sobrancelha diante desse cenário. Não sabia se gostava muito dessa perspectiva.
-É o que parece, não é? Sou sempre tão séria – ela concordou, e Ron notou seu tom um pouco triste – mas não é isso que sonho para minha vida adulta.
-Não? – ele não acreditou nessa possibilidade.
-Eu quero uma carreira. Claro que sim. Mas não sei até onde eu gostaria de ir.
-Pensa em ser auror? – ele perguntou e Hermione ergueu os olhos castanhos para ele com algo de melancólico.
-Não. Mas que outra profissão poderia ter no pós-guerra? Voldemort morto não mudará o fato que haverão muitos comensais a solta, tentando se vingar e dar continuidade a seu legado. Não poderia ignorar, depois de tudo que já vive nessa guerra, e simplesmente deixar o trabalho pesado para outras pessoas. Serei auror enquanto a profissão for necessária para a sobrevivência do mundo bruxo. Depois...gostaria de um trabalho mais calmo.
-Sempre pensei que correria o mundo, Hermione, que você seria alguém em movimento, sendo importante em todos os lugares onde fosse. Aventureira. Livre. Independente.
-Eu quis isso – ela confessou, surpresa em com Ron havia entendido-a. – Quando era menor. Agora...eu quero tantas coisas diferentes, Ron.
-E o que você quer, Hermione?
Ela manteve os olhos nele por um segundo, contendo a vontade de confessar exatamente o que ela mais desejava na vida. Molhou os lábios, afastou os olhos, corou um pouco. Sua voz soou cansada ao dizer:
-Quero ajudar o mundo a vender essa guerra, e se vencermos...quero seguir ajudando por tanto tempo quanto necessário., então, o dia que tudo estiver em paz e o mundo calmo outra vez, quero uma profissão que não me obrigue a trabalhar demais. Talvez algo com livros e não ria de mim – avisou antes que ele risse, mas foi inevitável, ele deu um risinho e ela acompanhou-o – Quero me casar, Ron. Ter filhos. Cuidar de uma família. Não quero mais ser livre e ter o mundo só para mim.
- E essa família? – ele pareceu animado em perguntar – Sabe como seria?
-Oh, tenho uma vaga suspeita – ela disse rindo – Meu marido precisa ser esforçado. Não quero casar com um preguiçoso – o olhar dela lhe deu uma dica e também, uma indireta – Penso em um filho ou dois. Não terei sete. Nem pensar.
-Nem pensar – ele repetiu pensativo. – A menos que fossem gêmeos. Então...você deveria reconsiderar.
-Gêmeos? – ela olhou para ele sem entender imediatamente. – E onde acharia um homem com históricos de gêmeos na família? Não é algo tão comum, Ron – jogou verde.
Ele deu de ombros, olhando para as chamas. Claro. Ele não daria o primeiro passo. Talvez não quisesse dar...
-Bem, se fosse gêmeos, poderia repensar – acabou dizendo, esperando que ele entendesse a indireta – E você? O que pretende depois que a Guerra acabar?
Olhos nos olhos, Ron não afastou os seus como aconteceria no passado. Ele comprou esse olhar. Hermione lutou para não suspirar tolamente, demonstrando o quanto apaixonada era por aquele ruivo cruel.
Cruel era vê-lo todos os dias, ouvir sua voz, desejar seu toque e ter que se conformar com sua amizade. Apenas amizade.
-Com um pouco de sorte consigo ser auror – ele moveu o braço curado a poucos dias – Goleiro nunca mais – ele disse um pouco saudoso.
-Oh, Ron, nessa confusão toda de nos manter vivos esqueci completamente que você ama o quadribol! – ela disse surpresa consigo mesma – Quem sabe, quando pudermos ver um medibruxo ele possa...quem sabe não haja seqüela alguma!
-Hermione- ele segurou sua mão para que ela se acalmasse – Não há seqüela alguma, estou bem. – ele sorriu para acalmá-la. – Fez um trabalho incrível. Serei eternamente grato – ele levou sua mão aos lábios e ela sentiu o coração parar dentro do peito, para então, começar a bater descompassada mente – No entanto, tenho medo de sempre lembrar disso. E um goleiro não pode ter medo de usar os braços.
-Pode esquecer, Ron. Quando a guerra acabar, pode esquecer desse momento – sugeriu docemente.
-Não quero esquecer de nada na minha vida –ele negou – Nossas escolhas, nossas decisões e nossas lembranças fazem de nós o que somos. É o que o meu pai sempre diz. E quer saber? É isso que eu quero. Ser auror, ter uma profissão. Uma família. Uma mulher compreensiva. – ele não afastou os olhos mesmo que ela corasse profundamente. – Alguém paciente...- ele começou a rir e ela não entendeu – isso me mataria de tédio. – ele desmentiu-se e ela entendeu rindo junto dele.
O riso chamou atenção de Harry que havia acordado de seu conturbado pesadelo e ouvira as vozes de seus amigos numa conversa sobre futuro e perspectivas.
-Harry – ela disse surpresa ao vê-lo acordado.
Harry sentou-se um pouco afastado deles, olhando para as chamas. Era provável que os dois houvessem esquecido que Ron ainda segurava a mão dela carinhosamente. Dedos entrelaçados.
-"Ele" outra vez? – Ron perguntou preocupado.
-Não. - Harry abraçou os joelhos, olhando para as chamas outra vez. Preferiu não contar dos pesadelos onde todos aqueles que ele ama morrem por causa dele. Pelas mãos de Voldemort – Sabe o que farei quando isso tudo acabar?
Os dois negaram e Harry sorriu. Um sorriso saudoso.
-Casar com Gina. – ele sorriu ao notar a surpresa dos dois – Tenho que fazer isso antes que alguém a tire de mim. Sua irmã é incrível – ele disse sorrindo um pouco acanhado.
-Eu sei – Ron concordou – Está pronto para enfrentar seis irmãos mais velhos pela mão dela?
-Sim- ele disse convicto. – E tecnicamente são cinco. – ele e Ron trocaram um sorriso – Quero ser auror. Talvez defensor para no futuro manter em Askaban todos esses comensais desgraçados que prendermos. – foi convicto – E quero uma família. Muitos filhos. Sete não é um numero que me assuste – ele disse olhando para Hermione.
Ela sorriu e Ron olhou de um para o outro, mesmo sabendo que não havia necessidade, sentia um pouquinho de ciúmes dos dois.
-Gina não vai gostar dessa idéia. Mas tenho certeza que ela dirá sim para o seu pedido mesmo assim.
-Parece que está tudo resolvido então – Ron brincou – Já definimos nosso futuro.
A frase pesou entre eles. Hermione soltou a mão da mão dele e também ficou pensativa. Estavam em uma floresta, em um acampamento improvisado comendo comida ruim, dormindo mal, com medo, longe de ter um Natal feliz. Pensamentos de futuro não tinham muito lugar quando se está naquela situação.
-Sei que vamos conseguir – ela disse depois de muito silêncio. – Se não conseguirmos...sofro pelos que sobreviverem. Pelo que será da vida de cada bruxo e cada trouxa. Sei que não estaremos aqui para ver o fim de tudo. Mesmo assim, tenho a certeza que sempre haverá outros como nós. Pessoas que irão lutar com todas as suas forças por liberdade. Pela paz. Se morrermos lutando, quero que saibam que morrei feliz em ter cumprido meu dever. Feliz em ter seguido minhas convicções até o fim.
-Sim – Ron concordou olhando para ela – Sentimos o mesmo não é Harry? Sempre haverá outros. De qualquer modo, prefiro sobreviver.
Hermione olhou para ele com olhos marejados.
-Sempre me faz rir – ela disse docemente e Ron sustentou esse olhar.
-Pena que não temos presentes – Harry quebrou o clima, um pouco constrangido em estar entre eles.
-Esperem – Hermione disse levantando e correndo apressada para a barraca. Ela voltou cinco minutos depois com uma caixinha de musica nas mãos. Abriu-a e colocou no chão, longe da fogueira, e perto deles, sentada ao lado de Ron, sacou a varinha e realizou um feitiço sem som.
A caixinha foi se transformando aos poucos em uma arvore de natal em miniatura. Hermione conjurou alguns detalhes, mesmo assim, ficou algo simples e triste.
-Era para ser bonito – ela disse tentando sorrir e esquecer a tristeza que passavam.
Ron apanhou a própria varinha e conjurou uma estrelinha brilhante.
-É o meu pedido de natal – ele disse para incentivá-la.
Hermione fez o mesmo e então, Harry também fez. Logo a pequeninha arvore estava coberta de pedidos de Natal com a forma de estrelinhas brilhantes. Suspirando, Hermione recostou-se em Ron.
-Há essa hora meus pais devem estar ceando – ela disse sonhadora – Ao menos não sentem minha falta.
-Sim, os meus devem estar ceando também. Posso imaginar mamãe desconsolada pela nossa falta. Gina triste, todos preocupados. Ainda bem que há Fler e o bebê para animá-los.
-E Tonks e o bebê dela também - Hermione lembrou-o.
-Haverá alegrias esse Natal. – Harry engoliu o sofrimento e sorriu – Estamos a cada dia mais perto de matá-lo. Vale à pena comemorar isso.
-Sim – Hermione concordou – Temos todos os motivos do mundo para comemorar. Estamos juntos e estamos vivos. E lutamos pela paz. Lutamos por um futuro melhor e sincero. Outros Natais virão. E serão mais felizes.
Harry concordou, levantando-se.
-Vou tentar dormir outra vez. Feliz natal – ele disse apático.
Um último olhar para a árvore e ele entrou na barraca.
-Queria vê-lo feliz outra vez – Hermione disse a beira das lágrimas.
-Ele ficará bem. – Ron garantiu – Hermione, o que você pediu de presente de Natal?
Recostada em seu ombro, a cabeça junto a seu pescoço, ela pensou em lhe dizer. Pensou em verbalizar seu pedido. Pedira paz, e vitoria. Pedira para que seus sonhos de futuro se concluíssem. Pediu por Ron. Pediu por seus pais. Pediu por tantas coisas.
Afastando-se, ela olhou em seus olhos.
Eram safiras azuis e profundas. Hermione não sabia o que fazer com esse desamparo apaixonado que a tomava quando eles se olhavam nos olhos. Frágil, entreabriu os lábios para dizer algo.
Mas o som não saiu.
Ron alisou sua bochecha com uma das mãos e ela soube que seria beijada. Finalmente. Tantos anos de espera e seria beijada.
O primeiro roçar de lábios a deixou tremula e ansiosa. Ele tinha lábios cheios, úmidos, suculentos. Hermione havia beijado algumas vezes em sua vida, mas não era assim. Nada se comparava a isso.
O cheiro de Ron, a presença dele. Seus braços musculosos a sua volta, acolhedores e protetores. Hermione sentiu-se tão bem, tão feliz, que nenhuma tristeza resistiu a um segundo daquele toque gentil.
A gentileza foi substituída por total paixão e o beijo ganhou vida e fome, e ambos haviam esquecido tudo quando ouviram sons. Movimento ao redor do esconderijo invisível deles. Alarmada, Hermione afastou0se, varinha em mãos. Ron fez o mesmo.
Cada um para um lado, checando e refazendo as defesas.
Talvez não fosse nada. Era uma guerra, e o medo é constante.
Era Natal, mas não podiam fraquejar.
De longe trocaram um longo olhar enquanto reforçavam a segurança e esperavam que não fosse outra ameaça.
Ia ser assim por muito tempo.
Na pequena arvore de Natal uma das estrelinhas brilhava, enquanto em seu brilho refletia o beijo dos dois.
Um desejo fora realizado.
Um pedido de dois apaixonados.
FIM
AUTORA: essa fic de Natal é homenagem ao filme que eu ainda nem assisti completamente. O sétimo filme, que marca a contagem regressiva para o fim de uma era de amor e dedicação. Espero que tenham curtido como eu curti escrever. Beijos!!!