“A experiência é uma professor dura, pois dá o teste primeiro, a lição depois.” – Vernon Law
Capítulo 17
Perder a escola é ótimo. Perder a escola deitada na cama sem conseguir comer nada é péssimo. É claro que foi tudo culpa de James.
Depois que eu voltei para casa ontem, não tinha mais escola para pensar, aulas para prestar atenção... Minha mente foi obrigada a voltar a pensar na situação. A situação era a seguinte: eu tive um garoto apaixonado por mim durante anos. Eu só fui perceber o quão incrível ele era depois de começar uma pesquisa de campo idiota para um conto mais idiota ainda. Quem eu achava que era? Personagem de filmes feitos para a televisão? Por causa de um conto. Um conto feito para um concurso em que eu não tenho chance alguma de sair vencedora, se eu analisar com sinceridade.
É claro que sempre tem a vilã. No caso, Clarissa Vermont. Ainda estou muito chateada com ela... Chateada é um eufemismo para o que eu realmente estou sentindo, mas vou deixar assim mesmo. Porque no fundo, eu entendo o ponto de vista dela. À sua própria maneira, Clarissa está tão correta ou tão errada quanto eu na história. Claro, ela traiu minha confiança e contou uma coisa com a qual ela não tinha relação alguma para uma pessoa com quem ela também não tinha relação alguma. Mas o único motivo por que ela contou, para começar, foi porque eu mesma não fiz isso. E eu deveria ter feito. Eu nunca concordei com usar as pessoas. Eu sempre julguei James e os garotos como ele por ficarem com as garotas em uma festa qualquer e depois nunca mais olhar na cara delas. E daí fui lá e o usei para expandir meus horizontes.
Eu comecei com isso porque a professora Cole, que me orientou bastante em todos os contos até agora, me sugeriu. Talvez eu devesse ter percebido lá atrás que ela não estava me dizendo para entrar em um relacionamento com o garoto acéfalo que eu escolhesse. Ela estava me dizendo para conhecê-lo melhor. Talvez para que eu pudesse perceber o quão errado era meu julgamento.
É claro que só fui perceber tudo isso depois, hoje. Depois de dormir. Porque ontem foi o dia da fossa. Foi o dia em que eu me enchi de chocolate, bolo de chocolate e cheeseburguer. Foi o dia em que eu fiz a pior mistura que poderia, de modo que meu estômago não pode suportar. E quando eu acordei na madrugada de hoje, e depois na hora em que eu supostamente deveria ir para o colégio, o revertério foi forte.
Isso é nojento. Mas foi o que me fez ficar em casa assistindo Cruzada, com o Orlando Bloom a manhã toda, já que eu não conseguia dormir.
Eu odeio Cruzada. Sério. Odeio essa parte da história. Mas estava passando na televisão, e as opções de programação tão cedo da manhã não são muito variadas. A maioria delas é propaganda de produtos completamente dispensáveis.
Bom, odeio o filme o suficiente para ele conseguir me fazer dormir mais algumas horas durante a manhã. Quando eu acordei de novo, estava me sentindo bem melhor. Tão bem que o cheiro de canja de galinha que vinha da cozinha me fez sentir fome. Aliás, a única coisa que salva quando eu fico doente é canja de galinha. Minha mãe só faz canja quando alguém fica doente. Eu não me importaria se fosse um prato típico e semanal da família Evans.
Tentei estudar depois de almoçar, tentei mesmo, mas era difícil me concentrar. Então só fiquei sentada na frente da televisão assistindo a um filme alemão com legendas e fingindo estar interessada... Filmes com legendas me lembravam de James. Eu ainda achava difícil acreditar que ele gostava daquilo.
É claro que pensar a respeito de James não ajudava em nada, então quando eu ouvi minha companhia tocar e, depois de levantar e olhar pelo olho mágico, descobri que eram Marlene e Alice, fiquei contente e aliviada. Aquelas duas iam fazer qualquer coisa para me animar, e eu sabia disso.
- Sabe como nos preocupa o fato de nossa nerd favorita não aparecer na escola? Principalmente quando essa nerd nunca falta às aulas? – Marlene perguntou, assim que eu abri a porta, entrando na casa antes que eu pudesse convinda-las. Alice a seguiu. Marlene não fazia mais cerimônias, pelo menos não na casa da família Evans. O que faz todo o sentido, se considerarmos as incontáveis vezes que ela já veio nos visitar.
Fechei a porta e me virei para as duas, que tiravam seus casacos. Não fazia mais tanto frio agora, porque já era março.
- Não precisavam se preocupar. – falei. – Foi só um dia. Não é como se eu tivesse sumido da face da Terra ou algo assim.
- Mas é porque você nunca falta a escola, Lils – explicou Alice. – Quando alguém que está sempre presente por acaso perde aula, todo mundo estranha.
Dei de ombros. Era verdade.
- E, bem... Ficamos preocupadas. Com a perspectiva de ter que ver você entrando em depressão a la Bella Swan em Lua Nova – Lene falou, sem precisar explicar o que ela queria dizer. – Não que eu ache que você fosse virar um zumbi que mal sai de casa durante quatro meses por causa de um garoto. (N/A: fala dedicada a minha amiga Lisa Prongs: isso aí, Elisa! Nada de fossa eterna por causa de garotos como nossa (não)amiga Bella Swan);
- Obrigada por isso – eu respondi, em tom de brincadeira, mas na realidade sentindo uma espécie de alívio internamente. Eu não queria ser confundida com Bella Swan. – Eu só... Bem, comi muito doce ontem. Misturei muita coisa – expliquei, sentando no sofá e colocando o filme alemão (e chato) no mudo. – Então, isso não fez bem para meu sistema digestório. Devem imaginar o que aconteceu.
- Hum? – Alice perguntou, parecendo realmente não ter entendido. Eu suspirei. Ia ter que falar.
- Vomitei de madrugada. E hoje de manhã.
- Ew, Lily – ela falou. Pelo menos ela entendeu a situação. – Não poderia ser mais discreta?
- Tentei. Só que você não entendeu.
Alice riu.
- Tem razão. Foi exatamente isso que aconteceu.
- Então... – recomecei a falar, já que a sala caiu num silêncio. As duas olhavam para mim com expectativa. – Lene contou a você o porquê de James terminar comigo?
Foi Marlene quem respondeu:
- Não. Achei que você deveria contar, se quisesse. É sua história.
- Obrigada por isso – agradeci, mesmo que já não fizesse mais muito sentido. James já sabia de tudo de qualquer maneira. Me surpreendi por, aparentemente, a escola inteira não saber. Não que eu imaginasse que James ia publicar no Facebook algo como “Lily Evans é uma vaca mentirosa”. Mas sei que as notícias correm extremamente rápido quando difundidas por corredores de escola.
Lene sorriu, e eu recomecei a falar:
- Bom, Alice, vou contar a versão resumida. Eu estou participando de um concurso de contos da revista Publisher, sabe? Então precisei escrever uma história sobre aquele tema clichê de garoto popular com garota nerd. O tema é tão raso, pensei. Escrevi um conto ainda mais raso. E daí me disseram que eu podia explorar o tema melhor, se conhecesse o garoto popular. Se não me deixasse influenciar pelo cinema americano. Então fui atrás de James. James era o garoto popular, atleta, acéfalo. Como se um acéfalo conseguisse dar um bom atleta... – Tinha acabado de me ocorrer que pensar que atletas são acéfalos é falho. James tinha me mostrado que para fazer boas jogas e vencer (pelo menos no futebol), era preciso pensar, usar o cérebro. – Eu acabei percebendo que ele era... Ele é incrível. Simples assim. Mas aí o estrago já estava feito.
- Ah, Lily... Eu lamento. Mesmo – Alice falou. Não eram as palavras mais inspiradas (ou inspiradoras) que alguém poderia dizer. Mas ali, naquele momento, vindo da minha amiga, elas pareciam mais do que suficientes.
Eu tentei dar um sorriso. Não saiu muito bonito, já que ele não refletia nada do que eu estava realmente sentindo.
- Obrigada. E não se preocupe. Nem você, Lene – acrescentei. – Está tudo bem.
- Queria dar uma surra na Vermont hoje – disse Lene, parecendo muito obstinada. O comentário e a seriedade dela quase me fizeram rir. Me fizeram sorrir com sinceridade. Era por isso que Marlene McKinnon era minha melhor amiga. – Só que daí pensei melhor e decidi que se eu começar com esse negócio de bater em pessoas vou acabar parecendo um macho, o que você sabe que não faz muito meu estilo... E eu sabia que não era isso que você ia querer.
- É, Lene. Eu realmente não ia querer que minha amiga virasse um macho-macho-man – eu falei, idiotamente, e ri. Foi um riso fraquinho, mas foi um riso.
- Então ia pedir a Miguel que fizesse isso por mim, mas ele não me parece muito o tipo de cara que bate em mulheres. O que é ótimo, mas não tanto naquele momento – Lene parecia muito séria, mas eu sabia que ela estava brincando. É claro. – De qualquer maneira, Miguel está estranho. Mal trocamos meia dúzia de palavras hoje. – Ela tentou parecer indiferente, mas eu pude ver que estava chateada pelo seu modo de falar.
- Provavelmente só está preocupado com as provas – sugeri, tentando fazer com que ela se sentisse melhor.
- Acho difícil. Ele me disse que provavelmente vai ter que repetir o ano quando voltar para o Chile, porque vai perder muita matéria que não é ensinada aqui.
- Ele deve estar com saudades de casa ou qualquer coisa parecida – Alice disse. Marlene pareceu aceitar melhor essa sugestão.
- Provavelmente seja isso – concordou. E depois mudou de assunto: - Alice e eu não sabíamos que estava com problema no estômago, então iríamos sugerir que fizéssemos brownie, como nos velhos tempos... Mas agora acho que vamos ter de mudar os planos, não, Alice?
- Não! – interrompi. Eu estava me sentindo muito melhor e não conseguia deixar de admirar a idéia de fazer brownie ouvindo um CD antigo das Spice Girls com Lene e a Alice. Nós nos divertíamos muito
fazendo isso há alguns anos. (Sim, sempre fomos assim, um tanto nerds). – Podemos fazer isso. Estou melhor. Posso totalmente mexer com chocolate, manteiga e nozes sem ficar enjoada.
- Você não deveria continuar se enchendo de chocolate, Lily – Alice disse, soando um pouco como uma mãe preocupada. Era quase engraçado. – Não pode fazer bem.
- Sei disso. Só quero fazer o brownie. E deixá-lo para os meus pais. E para vocês. Podem levar um pedaço para casa.
- Ok, acho que tudo bem – Alice concordou. – E sei que depois vai querer se preocupar com o dever de casa, mas eu e Lene trouxemos algo e não aceitamos que não o queira – ela falou, tirando um sacola de plástico branca da bolsa, e estendendo-a para que eu pegasse.
Olhei dentro da sacola. Era um DVD do último filme do Batman. Eu tinha achado o filme fantástico, mas não entendi por que elas me trariam logo esse. Não precisei perguntar o que queria para que Lene respondesse:
- Estávamos quase pegando 10 Coisas que eu odeio em você, especialmente para que pudesse ver o Heath Ledger, mas pensamos melhor e decidimos que aquele negócio de todo de “odeio principalmente o fato de não odiar você e blá blá blá” era muito piegas para hoje. E daí trouxemos Batman porque era o único outro DVD dos filmes dele que tinha na loja.
- Certo – eu disse. – Será Batman, então.
Foram duas horas e meia durante as quais eu não pensei em James. Quero dizer, não pensei a respeito do monte de besteiras que eu tinha feito ultimamente. E quando terminamos o filme e as meninas foram embora (não sem antes terem certeza de que eu ia ficar bem, claro. Ou então não seriam elas), eu percebi quanta coisa ainda tinha por fazer. E era exatamente por isso que eu precisava parar de pensar no passado e me concentrar no que me esperava logo à frente.
x
Quando cheguei à escola na segunda-feira, estava me sentindo muito melhor. E, além disso, meu próximo conto para o concurso estava praticamente pronto. Eu tinha conseguido desenvolver uma história de superação sozinha – e ela estava relacionada com esportes, força de vontade e a capacidade de fugir de um meio familiar completamente conturbado. É claro que conhecer os garotos da ONG a minha professora minha tinha me levado ajudou bastante – aquelas crianças e jovens eram muito fortes, tinham passado por muita coisa e compartilharam muitas histórias inspiradoras comigo. Mas eu finalmente tive a percepção de que, embora eu pudesse buscar inspiração nessas pessoas, eu não podia retratá-las em minhas histórias – porque aquilo por que elas tinham passado era pessoal, e eu não tinha que escrever a respeito. Eu escreveria para meu artigo no Collins News, o jornal da escola, mas não para ganhar um concurso.
Desci do carro de minha mãe e, depois de estar segura no calçamento, levantei o olhar para o céu. Era um dia cinzento e feio, mas felizmente não fazia mais tanto frio. Faltavam poucos dias para a primavera e isso já era bastante animador. Além disso, eu sempre gostei da rua do meu colégio. Ela era mais colorida do que o habitual.
Entrei na escola e andei pelo caminho conhecido que levava até o meu armário. Quando estava chegando perto, me surpreendi ao ver alguém inesperado parado em frente a ele, esperando por mim. Era Snape.
Eu não sabia se queria falar com ele. Da última vez que tínhamos nos falado, ele e James tinham discutido, por minha causa. Eu me lembrava com total clareza do momento em que Severus perguntou a James como era estar com os restos dele. Se referindo a mim. Sei que aquelas palavras deveriam atingir James, e não a mim, mas elas me atingiram.
E antes disso, a experiência toda tinha sido bastante traumática.
Eu não via o que mais poderia fazer – eu não ia fugir de Snape como se tivesse medo dele ou algo assim – então simplesmente continuei andando na direção do armário, sem fazer contato visual.
- Olá, Lily – Severus disse. Eu fui obrigada a levantar o olhar.
- Severus – eu respondi. Ele deu um passo para o lado e deixou a porto do meu armário livre. Andei até ela e a abri. Ele não disse nada, de modo que me senti obrigada a falar. – Quer alguma coisa?
Ele não respondeu. Permaneci em silêncio enquanto tirava alguns livros do armário e largava meu casaco lá dentro. E depois fui obrigada a me virar e encará-lo. Eu ainda estava esperando por uma resposta.
- Eu... – ele começou. E então parou de novo. Eu gostaria muito de saber o que é que ele quer tanto dizer, mas não consegue. Deve ser horrível. Ou talvez seja horrível falar comigo de novo depois de tanto tempo e depois de como as coisas ficaram. Exceto pelo fato de ele ter falado comigo há pouco tempo. Quando ele e James tinham brigado por minha causa. E não, não era lisonjeiro. Nem um pouco. – Ouvi dizer que não está mais saindo com Potter – ele disse, por fim.
Bati a porta do meu armário com mais força do que pretendia, e me encostei a ela. Mantive meu olhar fixo na capa do livro que havia trazido para o colégio e respondi:
- É, não estou mais saindo com ele. E?
Severus não parecia querer responder, ele continuava com seu silêncio irritante. Mais uma vez, fui obrigada a encará-lo e, diante disso, ele se viu obrigado a responder, embora parecesse sinceramente lamentar ter começado essa conversa.
- Eu só queria saber. – Ele deu de ombros. – Sabe que eu nunca achei que ele fosse bom o suficiente para você.
Eu não consegui evitar que alguns reflexos de raiva me possuíssem. Por que eu deveria ligar para o que ele pensava? Por que ele achava que eu queria saber?
- Mas isso não importa realmente, importa? – eu indaguei. – Afinal, você não tem mais nada a ver comigo ou com a minha vida. Faz tempo. – Isso teria sido o suficiente. Ele não precisava ouvir mais nada. Mas eu continuei: - E, é claro, não vamos esquecer do fato de James ser muito, mas muito melhor do que você foi para mim. James não me desapontou como você fez, Snape... E fez mais de uma vez. Acho que você deveria saber que se eu e James não estamos juntos hoje, é exclusivamente por culpa minha.
Severus ficou em silêncio. Eu claramente tinha conseguido atingi-lo. E, de algum modo, eu percebi que ele se arrependia daquilo que tinha feito alguns anos atrás. Que ele gostaria que tudo tivesse sido diferente. Talvez ele realmente pudesse me... amar. Ter me amado. Ainda me amar. Só não fazia sentido alguém amar você e magoá-la de tal maneira que parecesse difícil demais deixar para trás.
Snape não disse nada. Seu silêncio me incomodava. O olhar em seu rosto me incomodava. Ele parecia realmente triste. E isso não estava me fazendo bem.
- Isso é tudo? – me vi obrigada a perguntar. – Ou tem algo mais que queira dizer?
Ele simplesmente negou com a cabeça e saiu andando, os cabelos caindo no rosto, a cabeça baixa. Fiquei olhando ele se afastar até virar a esquina em um corredor e, soltando o ar, voltei a andar. Eu me sentia estranhamente para baixo. Precisava de um novo ânimo que não ia conseguir na primeira aula. Assim, contrariando o usual, fui para a biblioteca e passei todo o primeiro tempo lendo um livro de menininha, em que tudo era muito colorido e bom.
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Marlene e eu estávamos indo para o refeitório, quando dei de cara com James, no pátio, em frente ao prédio B. Ele estava com Remus e uma garota que, se não me falha a memória, faz parte do grupo de debate. Junto com ele. Ela era alta e esquia.
- Talvez ele esteja traduzindo para ela – eu comentei de forma amarga.
- O quê? – Marlene perguntou, sem entender nada.
- James. Talvez esteja traduzindo o que está inscrito no arco na entrada do prédio B – expliquei. – Como ele fez conosco, lembra? Quando eu disse que sempre quis saber?
- Ah... Ainda não acredito que ele estudava latim.
- Bem, ele estudava em um daqueles colégios de gente metida, então faz sentido – comentei, dando de ombros, desviando os olhos de James e da garota, que riam. Certo. – Talvez seja a nova garota dele?
- Lily... – Lene disse, parecendo não querer ter aquela conversa. Eu realmente não a culpava.
- Eu sei – respondi. – É só que se ele realmente gostava tanto de mim quanto ele dizia, era de se esperar que fosse demorar pelo menos algum tempo para voltar a ser exatamente o garoto que ele me disse que não era mais. – Meu tom de voz era completamente amargo, embora eu não quisesse isso.
- Lily, você não sabe. Pode ser só uma amiga. Pessoas conversam, lembra? E, segundo, se ele estiver ficando com ela ou o que seja, provavelmente só está fazendo isso porque... Bem, talvez porque esteja chateado com você.
- Isso não ajuda em nada – eu disse, em um tom de voz mais alto, porque entramos no refeitório barulhento.
- Eu sei – ela respondeu, pesarosa. – Só estou tentando ser sincera.
Ao menos ela era sincera. Ninguém podia negar que James me odiava bastante no momento, era algo evidente. E como as notícias correm, todo o mundo já sabia. Mesmo Snape, que basicamente vive com seus amigos sinistros e possivelmente usuários de drogas ilícitas.
Droga. Eu não queria a voltar a pensar em Snape.
Lene e eu sentamos em uma mesa vazia, esperando que nossos amigos chegassem ao refeitório ou terminassem de se servir.
- Onde está Miguel? – perguntei a ela, estranhando que não estivessem juntos.
- Miguel e eu tivemos uma discussão. Acho que foi tudo por água abaixo.
- É mesmo? O que foi que aconteceu?
Ela parecia muito tranqüila com o que quer que tenha acontecido. Ou com o fato de achar que tudo estava “indo por água abaixo”. Era inesperado, porque quando ela tinha aparecido lá em casa há alguns dias, parecia bastante chateada por as coisas não estarem bem.
- Ah... Nós só somos muito diferentes, sabe? Quero dizer, Miguel é bonito e engraçado e era legal quando conversávamos sobre o país de onde ele veio, sobre sua infância ou sobre a minha, mas agora nós simplesmente não conseguimos mais conversar direito. Ele fala sobre coisas que não me interessam e tenho certeza de que meus assuntos são completamente tediosos para ele. – ela deu de ombros. – De qualquer maneira, mais cedo ou mais tarde vamos ter que dar um fim a tudo isso, porque ele vai embora. Assim, não tem choro nem nada.
- Que bom que está tudo bem com você, então. Mas ainda não deram um fim, não é? Só discutiram.
Lene assentiu. Sua resposta foi tranqüila. Eu sabia que ele tinha parado para pensar sobre tudo e tinha concluído que sofrimento algum valia a pena. Ela disse:
- Mas tudo está se encaminhando para um final.
A mesa foi enchendo conforme o pessoal aparecia com bandejas cheias de comida, e mudamos de assunto. Era bom falar sobre coisas aleatórias e irrelevantes.
Em um certo momento, vi Sirius, Emmeline, Peter e Jane chegando ao refeitório. Eles também me viram. Sirius acenou de longe e eu respondi. Não pude deixar de reparar no olhar das garotas. Então, elas me odiavam por ter partido o coração de James. Bem, era uma grande prova de lealdade.
Me deixava triste, no entanto, perceber que ao mesmo tempo em que eu perdia James, eu perdia as amizades incríveis que estava fazendo. Eu realmente aprendi a gostar daquelas pessoas. Só era estranho que, no meio dos outros, Sirius parecesse não se importar com o que tinha acontecido. Ele tinha sorrido e acenado para mim. Talvez seja assim porque ele é um garoto. Garotos e garotas são muito diferentes.
Enquanto o restante da minha mesa conversava animadamente, eu me perguntava se algum dia poderia fazer com que as coisas voltassem a como eram antes. Quando eu simplesmente não ligava.
x
Eu estava lendo sentada em minha cama, alguns dias depois, quando tomei uma decisão. Poderia ser tanto boa quanto estúpida, mas eu estava disposta a correr o risco e esperar para ver. Decidi que talvez, se James lesse o conto que escrevi inspirada nele, ele pudesse achar um pouco mais fácil me perdoar. Embora eu não quisesse continuar correndo atrás dele, talvez ele pelo menos se sentisse melhor, ou pudesse me odiar um pouco menos.
Sentei na cadeira da escrivaninha e encarei a tela do computador. Abri meu email, digitei o email de James no destinatário e tentei pensar no que escrever. Como não conseguia pensar em nada, primeiro anexei o arquivo e digitei algo no assunto. Encarei a campo de mensagem vazio, exceto por uma palavra: “James,”.
Fiquei muito tempo pensando, começando e apagando as palavras que escrevia. Tudo parecia supérfluo demais, sem sentido algum. Até que finalmente me rendi e decidi que era o melhor que conseguiria. Reli a mensagem:
James,
Sei que não quer ouvir falar de mim. Sei que está chateado, que provavelmente me odeia. Não o culpo. Fui estúpida, menti para você e não tive a coragem de ser sincera no momento em que percebi que eu já não enxergava as coisas da mesma maneira que antes. Talvez se eu tivesse te contado tudo quando percebi que gostava, gostava de verdade, de você, você sentisse tanta raiva de mim quanto sente agora. Mas, pelo menos, eu me sentiria menos covarde. E isso seria algo bom.
Gostaria que soubesse que estou mandando isso apenas porque aprendi, quando abri minha mente, a gostar de você. Percebi o quanto você se aproximava do garoto dos meus sonhos. Percebi que você era muito mais do que eu imaginava, e que ainda iria me surpreender muito, se eu permitisse. É por isso que quero que leia o conto que escrevi inspirada em você. Quero que leia a história e quero que perceba, através dela, o quanto minha opinião a seu respeito mudou. Quero que você veja todas as palavras positivas que minha protagonista diz sobre o garoto da história, porque elas poderiam perfeitamente ser minhas ao me referir a você.
Esse garoto não é você, James. Não acho que poderia transformar você em um personagem e lhe fazer justiça. Mas tudo o que enxerguei em você me trouxe inspiração para criá-lo.
E quero muito que veja como eu exponho meus próprios preconceitos e como foi bom deixá-los para trás, simplesmente porque tinha motivos para fazê-lo.
Espero que a leitura da história que escrevi faça com que você sinta um pouco menos de desgosto, e espero que isso o alegre um pouco. Todas as minhas palavras (mesmo que venham através de uma personagem) são sinceras. E as escrevi muito antes de você descobrir tudo. Faz muito tempo que me arrependi da maneira como tudo começou, mas infelizmente não posso mudar o passado.
Com amor,
Lily Evans.
Antes que eu me acovardasse, apertei o botão “enviar”. Estava feito. Agora, só me restava esperar que ele lesse.
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N/A: PERDÕES, MIL PERDÕES! Faz quase CINCO meses que eu atualizei essa fanfic pela última vez e estou completamente envergonhada.
Sei que não adianta justificar, mas gostaria de explicar que desde agosto eu tenho aula durante a manhã e a tarde, todos os dias. E daí, quando chego em casa, só quero descansar um pouco a cabeça antes de revisar a matéria e fazer exercícios e mais exercícios. Espero que tudo isso sirva de alguma coisa em janeiro (vestibular).
Também passei por um tempo sem inspiração, o que é horrível, mas acontece. Mesmo que eu saiba exatamente tudo o que vai acontecer nos próximos três capítulos (os últimos, tirando o epílogo), nem sempre é fácil passar para o papel. Mas acho que assistir à primeira parte de As Relíquias da Morte me inspirou. Tudo bem que cortaram o flashback em que James e Lily aparecem, e também a carta dela para Sirius, mas Harry visitando o túmulo dos pais está lá. E, por sinal, foi a parte que mais encheu meus olhos de lágrimas. Já assistiram ao filme? Ainda nem acredito, foi tão lindo! Quero MUITO a parte II, mas fico triste porque, então, vai ser realmente o fim :(
Estou tagalerando. Espero que, se alguém ainda lê isso, me perdoe e que goste do capítulo.
Ah, alguém aí tem interesse em fic de Natal? Tenho umas cinco páginas aqui, escritas no ano passado, e gostei muito do que está escrito, então estou pensando em terminá-la. Seria um shor fic com umas trinta páginas. Alguém leria se eu publicasse aqui?
Um beijo,
Fernanda M,
a autora que pede milhões de desculpas.